The Project Gutenberg EBook of Agulha em Palheiro, by Camilo Castelo Branco

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Title: Agulha em Palheiro
       Quinta edio

Author: Camilo Castelo Branco

Release Date: December 16, 2008 [EBook #27541]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AGULHA EM PALHEIRO ***




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Notas de transcrio:


    [A] Nesta 5 edio desta obra detectmos uma falta de texto muito
    significativa. Parece ter sido removida por descuido do editor, e
    por isso resolvemos adicionar no local prprio o segmento em falta.
    Usmos para o efeito o texto da 2 edio, de 1865, sem alterao
    ortogrfica. Para evidenciar esta alterao marcmos o segmento de
    texto inserido com entre as marcas [A] e [B].

    Foram ainda encontrados diversos erros de impresso, que por no
    terem qualquer impacto na interpretao do texto, foram corrigidos
    sem qualquer nota.




Obras

de

Camillo Castello Branco

Edio Popular

XXII

AGULHA EM PALHEIRO




VOLUMES PUBLICADOS

    I--Coisas espantosas.

    II--As tres irmans.

    III--A engeitada.

    IV--Doze casamentos felizes.

    V--O esqueleto.

    VI--O bem e o mal.

    VII--O senhor do Pao de Nines.

    VIII--Anathema.

    IX--A mulher fatal.

    X--Cavar em ruinas.

    XI e XII--Correspondencia epistolar.

    XIII--Divindade de Jesus.

    XIV--A doida do Candal.

    XV--Duas horas de leitura.

    XVI--Fanny.

    XVII, XVIII e XIX--Novellas do Minho.

    XX e XXI--Horas de paz.

    XXII--Agulha em palheiro.




_CAMILLO CASTELLO BRANCO_


AGULHA EM PALHEIRO




_Quinta Edio_


LISBOA
Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA
LIVRARIA EDITORA
_Rua Augusta, 50, 52 e 54_
1904




LISBOA
Officinas Typographica e de Encadernao
Movidas a vapor
_Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1._
1904




DEDICATORIA


Ao poeta das creanas, das flores, do Amor, da Melancolia e dos desgraados

AO ILL.mo E EX.mo SR.


ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO


Honra da Patria, honra dos que o prezam, e amam a Patria


OFFERECE


O AMIGO, O RESPEITADOR, O DISCIPULO MAIS DEVEDOR

_Camillo Castello Branco._




DUAS PALAVRAS

A primeira edio d'este romance saiu de uma typographia do Rio de
Janeiro. Parece que houve proposito em desdourar os prelos brasileiros!
Poder parecer tambem que se intentou desdourar o auctor; mas semelhante
suspeita no vingaria, attendendo a que no  coisa verosimil alguem
escrever assim. O que mais depressa poderia crer-se seria que o
escriptor mais fleumatico morresse de fulminante desgosto, vendo a sua
obra to damnificada, e suja de todas as nodoas, para lavagem das quaes
se crearam as quatro partes constitutivas da grammatica.

Imprime-se o livro, como o auctor escreveu o manuscripto, e chama-se
_segunda edio_, porque o titulo e substancia da obra est no livro
publicado no Brasil.


Porto, janeiro de 1865.




AGULHA EM PALHEIRO


I

Em 1803, o sapateiro de Manuel Maria Barbosa du Bocage era Francisco
Loureno Gomes, estabelecido na calada do Sacramento, em Lisboa.

Francisco Loureno era, n'aquelle tempo, rapaz de dezoito annos; mas,
por sua muita esperteza e actividade, merecera que o pae lhe confiasse a
gerencia da loja, grandemente afreguezada.

Os poetas notaveis do tempo calavam todos de casa de Francisco
Loureno; um s, porm, o maioral de todos, o repentista Bocage, calava
gratuitamente.

Os coevos do poeta recordam-se de o terem visto quasi sempre mal
entrajado de casacas, pantalonas e chapos: mas, no tocante a botas,
dizem todos que o vate Elmano primava em aceio, e raro dia saa  rua
com ellas sem muito lustro de fina graxa.

Este accidente da vida de Bocage, omittido nas biographias do immortal
improvisador, escriptas por Castilho e Rebello da Silva, tive eu a
fortuna de apanha-lo casualmente. Assim, pois, se explica a distinco
das botas de Manuel Maria entre as dos seus collegas e rivaes do
botequim Nicola: Francisco Loureno, o sapateiro dos casquilhos
d'aquelle tempo, era amante de versos. Principira saboreando as trovas
chchas de Jos Daniel; e ditosa correra a vida pedestre ao infausto
poetrasto, em quanto a admirao do sapateiro lhe foi prodiga de botas;
quando, porm, o moo ouviu Bocage improvisar na festividade de
Corpus-Christi, fatal hora badalou para o auctor do _Almocreve das
Ptas_, que nunca mais encontrou graa no seu Mecenas de bezerro e sola.

O enthusiasta de poesia presenteou Bocage com umas botas, e a quitao
de dois remontes que lhe devia. O poeta, no vezado a taes galhardias do
vulgo profano, posto que a pouco mais subisse a capacidade do _claro
auditorio seu_, retribuiu a generosidade do moo com prosa chan, mas
muito mais sincera e cordeal que os versos.

Francisco tomou a cuidado seu mandar todas as manhs buscar o calado do
poeta predilecto, e devolver-lh'o brunido e lustroso como um espelho; e,
apenas as solas se gretavam ou os saltos iam entortando, logo novas
botas, em fazenda e feitios primorosas, iam saudar o vate acordado para
um novo dia dos seus desvairados prazeres de praas e tavernas.

A repetio d'estes brindes abriu, no animo generoso e popular do poeta,
as portas  confiana timida do artista. Francisco Loureno teve a honra
de almoar com Bocage no _botequim das Parras_, e d'aqui sairam juntos a
jantar n'uma horta do Campo-Grande, onde Elmano, fiel aos seus usos e
costumes, bebeu  tripa frra, e poetou, consoante o auditorio lhe
beliscou a musa escandecida.

O sapateiro, instigado por sua doce embriaguez, que era suave e honrada
embriaguez do amor casto a uma prima, revelou ao poeta a sua paixo, e
pediu-lhe umas quadras natalicias para festejar os annos da sua amada.
Esta confidencia rebentou do corao do moo alli pelas alturas de S.
Sebastio da Pedreira. Bocage, sem mais averiguaes, entrou n'uma
tenda, pediu papel, disse a Francisco Loureno que escrevesse, e
improvisou torrentes de quadras que extravasaram da folha de papel
almao. O sapateiro amante chorava de alegria; e o especieiro ficou
pasmado e maravilhado de ter tido em sua loja o famoso poeta, que era o
esfarrapado idolo do povo, como todos os idolos do povo, que assim os
quer esfarrapados, ou tarde ou cedo os esfarrapa, se elles lhe cem nas
mos bem ageitados.

Francisco Loureno, ao despedir-se do poeta, que ia passar a noite em
casa do marquez de Anjeja, delicadamente lhe introduziu na algibeira do
collete uma pea. Que bizarria de animo! Uma pea seria hoje o primeiro
dinheiro que um editor portuguez offereceria a Bocage pela propriedade
de um volume!

Bem empregados seis mil e quatrocentos ris! A prima de Francisco, ao
ver-se cantada assim, e, de Maria que era, transformada em _Marilia_,
ganhou ao primo tamanho amor, que logo d'ali esqueceu sagradas
promessas, que fizera a outro; e tanto foi, que, estando ella a bordar
um corao varado por duas settas em cruz, com o intento de mandal-o ao
rival de Francisco, o symbolico lencinho, dias depois, estava em poder
do primo, que o beijava em transporte de jubilo.

Bocage via a seus ps o mais ditoso dos amantes confessando que aos seus
versos devia a immensa felicidade, que lhe no cabia no peito. Esta
situao, grata ao genio, reaccendeu-lhe o estro em novas flammas. Um
soneto divino caiu no corao do reconhecido moo, que foi logo d'ahi
leva-lo ao corao de Marilia.

Esta menina era filha de um colchoeiro da rua Augusta, filha unica, e
esperanada em bom patrimonio--que seu pae, tio materno de Francisco
Loureno, passava por abastado. Alm d'isso Maria Luciana era
galantinha, arranjadeira de casa, prendada, e amiga de ler livros de
devoo, e o _Almocreve das Ptas_, e o _Anatomico jocoso_, obras do
engenho humano, que o bom do colchoeiro pasmava de ouvir, e, com as mos
nas ilhargas, era todo elle ento uma risada, que no ha conta-lo.

Depois, porm, que Maria Luciana lera os dois poemas de Bocage, que lhe
diziam respeito, o seu poeta valido era o grande cantor, e os livros ao
divino pareciam-lhe coisa de moer a paciencia. A reformada creatura,
quando a me lhe tirava das mos as rimas de Bocage, e a obrigava a lr
o _Retiro espiritual_ e a _Novena de Santa Ursula_, zangava-se tanto l
no seu interior, que chegava a duvidar que Santa Ursula e sua me
tivessem senso-commum!

No desagradava ao colchoeiro o sobrinho. Seu cunhado, alm da
acreditada loja na calada do Sacramento, possuia no Cartaxo uma
quintinha de recreio e algumas terras lavradias, e vinhedos herdados e
adquiridos pelo officio. O rapaz desempenhava, em annos verdes, o bom
governo da loja, e mostrava tendencias a ganhar freguezia de gente
limpa, com quem elle se relacionava. Porm, estas boas predisposies
eram rijamente contrariadas pela funesta noticia, que lhe chegara aos
ouvidos, e vinha a ser: o escandalo de ter ido o moo algumas vezes
almoar ao botequim das Parras, em companhia de poetas! Esta reluctancia
durou dois annos, ou mais; mas, a final, como quer que Maria perdesse a
saude e amarellasse, o colchoeiro, que no tinha outra filha, deixou-a
casar, dotando-a com seis mil cruzados.

No fausto dia do casamanto, Francisco Loureno foi convidar Bocage para
jantar em sua casa. O poeta estava enfermo; prometteu ir n'outro dia, se
no morresse d'aquella aneurisma que o tinha nos umbraes da eternidade.
As portas da eternidade, porm, estavam a abrir-se, n'aquella hora, ao
mais inspirado e desditoso genio que ainda viram portuguezes, sendo
tantos os inspirados e desditosos  competencia de desgraa com elle!

Poucos dias depois, n'esse anno de 1806, morreu Bocage.

Francisco Loureno chorou-o, como se s lavaredas d'aquelle incendio
d'alma tambem elle tivesse aquecido os embries do seu talento. O
artista no era poeta, nem tinha o parvulez de crer-se tal porque
adorava Bocage. O que elle tinha era a paixo do bello, com a entranhada
magua de no ter sido educado e guiado por aquelle rumo de magestosa
desgraa. Bem sabia elle que Luiz de Cames morrera sem lenol em que
amortalhar-se, e Antonio Jos da Silva n'uma fogueira, e Maximiano
Torres nos presidios da Trafaria, e Garo na cadeia, e Quita na
indigencia, e Bocage no desamparo. Sabia-o, e invejava a brilhante
desdita de taes destinos, ao passo que os grandes de entendimento
rojavam aos ps dos grandes da fortuna seu ignobil servilismo para no
emparelharem na invejavel miseria com os Cames e os Bocages.

Quando acontecia Francisco Loureno dar largas a sua candida alma,
lamentando o mau fim dos grandes espiritos em Portugal, os freguezes,
que o ouviam, disfructavam-n'o, como hoje se diz, e iam chancear  custa
do sincero artista. A voga, que lavrou da sua mania lamuriante,
grangeou-lhe freguezia. Os peraltas e piza-verdes iam, acintemente, s
chusmas tomar medidas de botas, buscando azo de o moverem  costumada
dissertao. Muitos o ouviam discorrer to de sizo em tal materia, que
saiam mais commovidos que dispostos a motejarem a louvavel sensibilidade
do moo. Aos mais intimos ou mais velhacos recitava elle as quadras
natalicias, que Barbosa du Bocage improvisara em S. Sebastio da
Pedreira, e o soneto posterior, ao qual o corao de sua mulher de todo
em todo se rendera. Estes eram os que divulgavam, como ridicula, a
confidencia do sapateiro; e nunca lhe perdoaram ter elle na sua sala,
impressa em pergaminho, e encaixilhada em retabulo dourado, a estrophe
do epicedio a Elmano, por Francisco Manuel do Nascimento, que dizia
assim em linguagem de anjos:

    ELMANO! oh! VATE! A abelha em teu moimento,
         Sempre o seu mel componha!
    Mann dos cos, e balsamos da Arabia
    Alli distillem; louros enverdeam,
         Heras, nevados lirios!
    Basto rosal, com mil botes o abrace!
    Mangerona, tomilho e a flr vermelha
         Que annuncia em queixumes
    De Ajax a dr, n'um ai tinto em seu seio!
    Do Sado as Nymphas, nymphas do aureo Tejo
         E as indicas Nereas
    Com lagrimas a campa lhe humedeam!
    ............................................

Francisco Loureno recitava com lagrimoso enthusiasmo estes versos, e
como thema os tomava para maldizer a nao e o governo que deixavam
morrer de fome de po e da patria o auctor de to doridos queixumes, o
exilado Filinto Elysio. E d'isso riam os casquilhos, os miseraveis cujo
nome ninguem sabe, e cujos netos a gente no conhece, quando os topa ahi
por esse Chiado e Rocio, cascalhando, com seus avs, umas risadas
alvares, unico symptoma de vida intellectual que dispensam n'esta sua
pasagem sobre o globo, que  d'elles e das moscas.

O pae de Francisco Loureno afez-se a ouvir o filho fallar de poetas, e
achava-lhe razo. Ouvia-o queixar-se da nenhuma educao litteraria que
tivera, e sentia sinceramente no ter aproveitado as tendencias de
Francisco. Dizia elle:

--Olha, rapaz, eu tinha um parente, que ia muito bem com a sua vida, em
quanto olhou pela loja de mercearia que seus paes lhe deixaram. Depois
assentou o pobre Francisco Dias Gomes em se fazer poeta, e deixou ir o
negocio pela agua abaixo, a ponto de deixar para ahi a familia pobre. As
obras d'elle andam impressas por esse mundo  custa da academia; mas
isso no remedeia, em quanto a mim, a pobreza da familia. Ora eu, como
tinha este exemplo na familia, resisti  tua e  minha inclinao. Achei
que o melhor era dar-te o officio que me deu a mim muito trabalho com
bom estipendio, e vida socegada. J agora, Francisco, o remedio 
conformares-te com a tua sorte. Se gostas de ler, l, que eu no te levo
isso a mal; mas bom ser que olhes sempre para o essencial, que  a
loja. Deixa-te de acamaradar com gente de outra laia, que a final ha de
dar-te mau pago. Trago c as minhas desconfianas de que muitas pessoas
veem aqui fallar comtigo em poesias, e vo l para fra zombar de ti.
Eu, que t'o digo,  por que alguem m'o disse. L os teus livros no teu
quarto; mas na loja, se alguem te fallar em versos, fala-lhe tu em
botas. Cada qual no seu officio. Ora agora, como ests casado e pdes
ter filhos, fars o que melhor entenderes: educa-os como quizeres, que
eu, graas a Deus, hei de deixar-vos o necessario para fechardes a loja,
e cuidar n'outro modo de vida.

Desde este dia Francisco Loureno comediu-se nas palestras litterarias.
Os disfructadores deram tento da reforma, e foram rareando a pouco e
pouco. Se o provocavam a discorrer sobre Cames, Bocage ou Filinto, o
ajuizado Francisco lanava mo da craveira, e dizia:

--J no conheo de versos; agora o que sei  medir pontos de ps.

--Spondeus ou dactilos? atalhou um faceto de mais presumido chiste.

--Ps de toda a casta, replicou Francisco, ps mesmo dos que so a
quatro em cada sujeito, como posso provar a vossa senhoria.

O farola entendeu que o sapateiro lhe chamava quadrupede: suspeita bem
cabida, mas no cabalmente averiguada.

O certo  que este freguez deixou de o ser de Francisco Loureno; e
outros de sua roda se afastaram tambem, visto que o mestre se esquivava
a ser pasto de seus ocios.

Que selvagens tempos aquelles!

Francisco Loureno, se vem cincoenta annos depois, sem embargo de ser um
habil sapateiro, poderia entrar dignamente na republica das lettras:
comearia versejando, em solteiro, estas faceis quadrinhas, cheias de
fogo e alma, com que todos os marechaes das lettras velaram as armas, ao
vestirem-se cavalleiros para a crusada da civilisao. Depois escreveria
o seu folhetim, variado em cres, como um mosaico de differentes
linguas, e com atrevimento de idas, que forariam a critica a
qualifical-as de originalidades. Francisco Loureno teria uma luneta, um
charuto, e um bigode encerado, e uma esquina alli no largo de Cames
onde encostar os hombros, vergados sob o peso da cabea prenhe de idas.
Depois, naufragado o corao, Francisco Loureno iria salvar a
humanidade, com o seu septicismo, nas regies da politica. Faria,
portanto, a um tempo botas para os ps, e sciencia para a cabea da
humanidade. Se absurdos fados o bafejassem, Francisco Loureno subiria a
ministro, e ninguem lhe perguntaria d'onde veio, nem a tripea ainda
quente lhe seria desdouro. Esta  a unica vantagem que a civilisao tem
trazido para a fuso dos homens n'um s principio derivativo do pae
commum. C, tanto faz vr do acume das grandezas cair um homem no raso
da lama, como erguer-se da lama um homem ao mais culminante da escala
social. Ninguem se espanta, nem sequer pra a discutir estes vulgares
accidentes da reformao social.

Isto assim  que  bom.


II

Posto que a leitura lhe deliciasse muitas horas do dia e noite,
Francisco Loureno cuidava attentivamente no bom regimen de sua casa.
Era elle quem talhava a obra superior, e a distribuia aos officiaes,
quem recebia as damas freguezas, e com muito bom modo satisfazia seus
caprichos. Os dias sanctificados passava-os com sua mulher e pae no
Cartaxo, onde ia formando deposito de livros, _amigos da velhice_, como
elle dizia. Tencionava Francisco ir l passar o ultimo quartel da vida,
empregando-a, sem outras distraces, no enlevo dos bons auctores que ia
conhecendo.

A carinhosa esposa ajustava perfeitamente com os prazeres intellectuaes
de seu marido. Nunca elle descobriu pagina de livro encantador que a no
lesse a sua mulher. Como no tinham filhos, sobejavam os ocios do
arrumamento das coisas domesticas. Maria sentava-se a costurar, nas
noites de inverno ao lado da banca de seu marido. Elle recitava com
emphase, e ella chorava ou admirava-se com delicado sentir do corao ou
espirito. A _Cantata de Dido_, a pagina mais maviosa entre as mais
inspiradas da poesia portugueza, j ella a sabia de cr,  custa de
ouvi-la e honra-la com as suas lagrimas. Ouvira ella ler todos os poetas
nacionaes antigos e do seu tempo, excepto Jos Agostinho de Macedo, que
Francisco aborrecia por ter sido o detractor de Cames, e o mulo
atrevido e torpe de Bocage. O artista, quando acertava de encontrar o
frade graciano, sentia calafrios na espinha; e, segundo elle dizia,
vontade de escorchar com um pontap aquelle dre de vinho e peonha.

Em 1816, dez annos depois de casado, Francisco Loureno agradecia a Deus
a felicidade do primeiro filho, quando o j no pedia nem esperava.

--Ainda estou em edade de poder educal-o, e vel-o homem--disse o festivo
pae a sua mulher.--Tenho vinte e nove annos: quando meu filho tiver a
minha edade, posso ainda viver, como vive meu pae, sadio e robusto. J
sei para quem estou enriquecendo esta livraria. A minha velhice ha de
ser um descanar em leito de rosas. Irei d'este mundo, deixando na alma
de meu filho uma boa poro da minha essencia.

No deve o leitor duvidar d'esta linguagem levantada em bocca do
artista. As mais vulgares e rasteiras coisas da vida, naturalmente, se
haviam vestido, em seu espirito, com as galas da poesia, cujo perfume
lhe rescendia em tudo. O seu permanente privar com poetas, ou com a
natureza, me de todos, e mais me dos que a amam sem lhe devassarem os
segredos, necessariamente influenciariam a singela alma do homem, que
para sentir vibrar as cordas todas da poesia, estava nos primeiros
arrobamentos de pae.

Por esse tempo falleceu o velho Loureno e o pae de Maria. A herana de
ambos daria sobeja independencia a Francisco; porm, a existencia da
creana, dilatando o alcance das ambies paternas, desviou-o do antigo
proposito de passar a loja, e ir viver folgado em sua quinta. Um filho 
realmente um aguilho que aperta os temperamentos mais desleixados em
grangeio de bens de fortuna. J lhe queria parecer a Francisco Loureno
que quarenta mil cruzados em propriedades era pouco patrimonio para o
seu Fernando; e quando bastasse a um filho, quem saberia os filhos
porvindouros? Se fossem mais de quatro, reflectia o pae, pouco menos de
pobres ficariam todos. Entendeu, pois, em proseguir no trabalho,
afanar-se cada vez mais, encurtar as horas de leitura, e augmentar o
numero de officiaes, a fim de exportar calado para o Ultramar.

No anno seguinte nasceu uma menina, e outra no anno immediato. Sem
querer desagradecer a Deus, Francisco desgostou-se da duplicada merc
das meninas. Andava elle scismatico e melancholico a escogitar no futuro
que havia de preparar a suas filhas. O bom homem cuidava que sem
educao scientifica ninguem podia ter futuro; e lamentava no poder
crear suas filhas, pondo o fito nas Bernardas Ferreiras de Lacerdas e
Violantes do Co, litteratas famosas que o leitor conhece. Acudia a
senhora Maria Luciana s tristezas de seu marido, dizendo-lhe que as
meninas podiam ser freiras, e instruirem-se no seu convento. Isto
consolava as tristes apprehenses do pae; mas era ainda pouco para
allivial-o do desgosto de no ter filhos, que podessem ser tres grandes
poetas, ou, ao menos, tres sabios que  um grau de sciencia muito mais
facil de attingir, no voto d'elle, e no meu tambem.

Fernando, aos quatro annos, frequentava as primeiras lettras; aos nove
annos estudava latim com admiravel intelligencia; assim, at aos
dezeseis, cursou humanidades, no intento de ir graduar-se a Coimbra.

N'esta edade Fernando conhecia os poetas latinos e portuguezes: lia uns
com seu pae, e traduzia-lhe os outros, explicando os pontos obscuros de
Horacio e Ovidio.

Grande era o dissabor do moo, quando vinha das aulas, e via, atravez da
vidraa que abria para o pateo, seu pae talhando o bezerro de umas botas
ou o duraque de uns sapatos. Ia elle ter com sua me, e pedia-lhe que
aconselhasse o pae a passar a loja, e remediar-se com o bastante, que j
tinham para viverem em decente mediania. A boa me no se esquivava de
pedir tal coisa; mas admoestava Fernando a evitar quanto podesse
mostrar-se envergonhado do officio de seu pae.

O imprudente moo no deu o devido peso s reflexes da me, e insistiu
no seu desgosto e rogos. Bem pde ser que os condiscipulos lhe atirassem
 cara, como despique de inveja dos progressos d'elle, o seu nascimento
humilde. Aquelles tempos eram infamados com muitos exemplos d'este
barbaro quilate.  peonagem nem a muita riqueza a salvava dos remoques
da fidalguia. Nos collegios, os mestres eram os primeiros a darem o
exemplo das preferencias. A applicao no moo da baixa traco era
menos louvada que a preguia no escolar de familia illustre. Este
escarneo do Evangelho chegava at Coimbra, onde se degladiavam primazias
de nobreza, e s com muita paciencia para ultrages e desprezos,
conseguia formar-se o filho do artifice, que no se abalanava a entrar
em communho de sciencia com os privilegiados da boa fortuna.

, pois, de crr que Fernando Gomes, matraqueado pelos condiscipulos,
desejasse que seu pae levantasse mo do officio de sapateiro, que mais
que outro qualquer--sem podermos dar razo do porque--se presta 
zombaria nas facecias dos chocarreiros.

Aventurou-se, um dia, Fernando a pedir ao pae que fechasse a loja.

--Porque?!--perguntou Francisco Loureno.

--Porque...--tartamudeou o filho--se meu pae quer formar-me... no me
parece...

--Diz, homem!--acudiu o pae  indeciso de Fernando, com semblante
transtornado--no te parece o que?

--Que seja bom ter loja de...

--De sapateiro?... parece que te custa a dizer a palavra _sapateiro_!
Sapateiro, sim!... Queres tu dizer que te envergonhas do officio de teu
pae?

Fernando baixou os olhos e no respondeu; mas o silencio era, no caso, a
mais eloquente das confirmaes.

--Est bom--disse Francisco--descana que se ha de remediar tudo o
melhor que puder ser. Hoje no vaes  aula. Amanh falaremos.

Francisco Loureno fechou-se no quarto com sua esposa, e, antes de
referir o que passara com o filho, rompeu n'um choro soluante, que a
consternada mulher no sabia como explicar nem consolar.

Falaram largo tempo. O marido sau de melhor sombra. Maria chamou
Fernando e disse-lhe:

--Deus te perde o mal que fazes a teu pae! Eu no quiz dizer-lhe que
fechasse a loja, e tu commetteste a imprudencia de lh'o dizer!...
Fernando, d'esta vez vali-te; mas no caias n'outra. Olha que teu pae 
to bom como severo. Segue a carreira que elle te d, e deixa-o l com a
sua vida. Cuidas que teu pae acha prazer em estar na loja a trabalhar?
Enganas-te. Bem sabes quanto apaixonado elle  de livros. Se trabalha,
para ti , e para tuas irms. O que temos seria bastante para um, se
tivesse juizo; mas seria quasi nada para tres filhos. Tu no has de
querer ser doutor, e ver tuas irms sem nada. Vae  aula; e, se alguem
te disser que s filho de sapateiro, responde-lhe tu que tens muita
honra em ser filho de quem s... Pde ser que os fidalgos, que t'o
disserem, te devam a ti o par de botas que trazem ...

Estas judiciosas razes no consolaram a Fernando.

A resposta foi um calado despeito, e uma visagem de desdem, que Maria
viu com os olhos humidos.

Decorridos poucos dias, Fernando foi ter com sua me, e disse-lhe que
no tornava  aula, porque os seus condiscipulos o vexavam. Descendo a
explicar o vexame por miudos, disse que o filho do conde de tal, zangado
com elle por ter-lhe corrigido um theorema de geometria, lhe replicara
qual era a figura geometrica de uma tomba; e se as entrecospias em
logica pertenciam ao dilemma. A me no conheceu o travr do epigramma.
Chamou o marido, e quiz que o filho repetisse o conflicto diante de seu
pae. Francisco ouviu-o, doeu-se, dissimulou o pesar, e disse-lhe:

--Irs frequentar outra aula.

--Acontece-me o mesmo em toda a parte, contrariou Fernando com certo
desabrimento deshumilde.--Emquanto o pae estiver n'este modo de vida,
hei de ser enxovalhado por todos os condiscipulos, tanto monta em
Lisboa, como em Coimbra.

--Est bom, disse serenamente o pae. Eu vou pensar e resolverei.

A resoluo foi prompta. Francisco Loureno entrou no quarto onde
Fernando estudava, e disse-lhe:

--Arruma esses livros, que j te no servem de nada. s sapateiro como
teu pae e teu av.

Fernando perdeu a cr, e quasi o sentimento. Francisco Loureno sau, e
foi verter torrentes de lagrimas no seio da mulher, exclamando a
intervallos:

--L vo todas as minhas esperanas!... Assim havia de ser, porque ouvi
a voz da minha vaidade, e nunca me lembrei que um filho podia ter
vergonha do officio do pae... V tu, mulher, que soberba maldita eu
andei gerando e engrossando no animo d'aquelle rapaz! Se eu lhe dsse
largas, onde iria dar comsigo tamanho orgulho! Ahi tens tu a sciencia a
desnaturar-me um filho!... Santo Deus! Bem m'o pregava meu bom pae!...
Quantas vezes lhe ouvi dizer que eu, se fosse um sabio, me correria de o
vr a elle na baixa condio de sapateiro!... No posso nem devo
consentir que meu filho se deshonre por amor da sabedoria... Se a
sociedade o vexa, paciencia; que fuja da sociedade. Eu antes o quero
sapateiro honrado, que filho infamado pela ingratido. Faamos um homem
de bem, e os nobres que faam os sabios ... Mas  dr,  uma grande
afflico, ter de renunciar ao proposito de tantos annos!  por isso que
eu choro ... e bem vejo que  fraqueza chorar! Tenho pena d'elle;
tenho-a de vras... mas s assim  que eu posso resgata-lo das mos do
mundo, que m'o ha de perder!

Maria Luciana tentou demover a inteno do marido com razes, e mais que
tudo com lagrimas. Lembrou ella que o mandassem logo para Coimbra, onde
os condiscipulos o no conheciam. Este remedio azedou mais a ferida do
artista.

--Pois eu, exclamou elle, hei de estar evitando que o meu nome seja
conhecido?! Hei de esconder-me para que meu filho se no envergonhe? Hei
de recommendar a Fernando que no diga em Coimbra quem  seu pae, ou
consentir que elle me negue para ser mais bem recebido? Que respondes,
Maria? ...

No respondeu nada a pesarosa mulher. A dizer a verdade, com que
argumentos responderia ella, sem molestar-lhe o espirito? O ponto mais
sensivel da questo era a dignidade do homem mecanico, trabalhando para
engrandecer o filho. Se este desejo e afan lhe era deslustrado por
desprezo do seu mister, qual gloria lhe restava? Quem lhe asseverava a
elle que o filho, mais tarde, fugiria d'elle como d'um estorvo ao seu
maior engrandecimento?

No obstante, Maria chamou o filho, e mandou-o pedir perdo a seu pae,
se no queria ir para a loja trabalhar com os officiaes.

--E porque no hei de eu ir?!--respondeu placidamente Fernando, com
grande assombro da me.--Eu no tenho vergonha de ser sapateiro. Quero
s-lo quando m'o chamarem.

--E no te importa o tempo que perdeste a estudar, Fernando?--tornou a
me, commovida pela briosa resoluo e desapego do filho.

--No perdi de todo o tempo: serei um sapateiro illustrado como meu pae
o . Antes isso. Terei horas de estudo e horas de trabalho. No receio
que me humilhem na loja.

Fernando, obedecendo aos novos impulsos do momento, no sabia bem o que
dizia, nem, a menos que a natureza se no houvesse singularisado n'elle,
devia insistir muito tempo em pontos de to isempta grandeza de animo.

N'aquelle mesmo dia desceu  officina, e disse ao pae que lhe talhasse o
seu servio. O pae encarou n'elle com muita amargura e disse-lhe:

--V para cima!

Os officiaes olharam-se com espanto, como adivinhando a significao
d'aquelle incidente. Fernando, desde a idade de nove annos, nunca
descra  casa de trabalho, nem trocra palavra com algum dos officiaes.
Estes, por ironia, e l muito em secreta maledicencia, denominavam-n'o o
_fidalguinho_, e riam  sucapa, quando, atravez das portas envidraadas,
o viam passar no pateo sem lhes virar um canto de olho.

A situao de Francisco Loureno era afflictiva. A corajosa apresentao
do filho desarmara-lhe a tal qual ira, que elle muito precisava azedar
com a rebeldia, para tirar a limpo o seu plano. Pensava elle que o
estudante recebera aterrado a nova: no se enganou; mas longe estava de
cuidar que a reaco do brio o determinasse a acceitar sem custo um
tirocinio de sapateiro. A verdade  que ambos estavam enganados: o pae
com a franqueza do filho, e o filho com a sua propria coragem.

No sabia Francisco que dizer nem fazer. Evitava encontrar Fernando; mas
foroso era verem-se  mesa da ceia. O artista no poude engulir bocado.
Maria ensopava o leno em lagrimas. Fernando, grave, mas no triste, ia
comendo, segundo o seu costume, e fazia o prato de suas irms, extranhas
s amarguras dos paes.

Quando as meninas, depois de darem graas a Deus, se retiraram ao seu
quarto, Fernando disse com muita brandura:

--Porque ho de estar tristes?! Eu j disse  me que acceito qualquer
posio que meu pae me der. Estou muito em tempo de aprender o officio:
se meu pae no quer que seja o seu, indique-me outro. Vou sem saudades
dos livros, nem pesar de esperanas perdidas em grandezas do mundo.

--Mas envergonhas-te de ser filho d'um homem do povo!--atalhou o pae.

--No me envergonho: vocemec no entendeu bem a minha magua. O que eu
no posso supportar so as zombarias dos meus condiscipulos, que por
fora me ho de encher de fel o corao, e fazerem-me mau. Qualquer que
seja o officio mechanico que me derem, viverei com os meus eguaes, e
poderei distinguir-me d'elles com a minha instruco, sem que ella me
faa alvo dos seus motejos. Isto  o que eu desejo e penso.

--Tens dezesete annos, Fernando!--disse o pae-- tarde para recomeares
nova carreira.

--Eu me applicarei para ganhar tempo. No lhe d isso cuidado, meu pae.

--E queres ser sapateiro?

--Serei...

Como este SEREI foi dito! Que livro eu tenho debaixo d'aquella palavra!
Que volume de psycologia, de physiologia de corao, de philosophia
transcendental, de tudo quanto ha ahi attinente ao homem, eu era capaz
de extrahir d'aquelle SEREI! Da accentuao que Francisco Loreno deu 
palavra _sapateiro_, tambem podia formar-se outro volume psycologico,
physiologico, um tractado completo do espirito homem em todas as suas
variantes desde a sinceridade do santo, at  ironia do demonio de
Gothe, que era o mais argucioso e ironico argumentador, que o inferno
c mandou, depois dos enviados que prgaram a distinco entre homem e
homem!


III

Aquelle dia e o seguinte passaram em indecises do pae e do filho.
Fernando esperava as ordens, sem ousar abrir um livro. A pobre me
andava, de um para outro, a negociar a reconciliao: ao marido dizia
que Fernando no podia nem devia retroceder: ao filho prgava-lhe
sermes de paciencia para tolerar os ditos dos companheiros de aula, e
ter bastante vaidade de ser filho de um operario honrado. O certo  que
Maria com os seus sermes conseguiu revirar o animo do filho a tal
ponto, que o moo, olhou em si, e viu-se ridiculo por dar tamanho pso
s chufas dos condiscipulos.

_O que a mulher quer, Deus quer_:  o titulo de um livro francez, que
pde ser um proverbio em todas as linguas. Francisco Loureno, com os
seus assomos de louvavel dignidade, ia transtornando a carreira do
filho, to de longe pensada e afagada; ora Maria Luciana, em termos
brandos, com o imperio de lagrimas, com aquelle feminil despotismo que
tudo amolga e dobra, mais cedo do que devia esperar-se, reduziu o filho
 raso e consciencia de verdadeiros brios.

No contente ainda, levou Fernando a pedir perdo ao pae de o ter
magoado com as suas vaidosas queixas, promettendo honrar-se em confessar
por si mesmo, e com orgulho, o officio de seu pae.

Francisco Loureno resurgiu do seu quebranto, chorou mais doces
lagrimas, e perguntou a Fernando se elle queria ir logo para Coimbra, e
concluir l os estudos preparatorios.

Fernando mostrou desejos de ir, e logo os satisfez.

No comprehendia a me como pudesse ir ssinho, por esse mundo alm, um
menino de dezesete annos! Queria acompanhal-o, estar l algum mez a
ordenar-lhe a casa, ou esquadrinhar familia que lh'o recebesse e
tratasse. Fernando, j sciente do que era vida de estudante, dissuadiu a
me do seu proposito, e prometteu regular-se de modo que nem o
desaconchego o molestasse, nem seus paes se arrependessem de o deixarem
ir entregue a si mesmo.

Fernando tomou casa em Coimbra, e viveu ssinho, e arredado de todo o
concurso de academicos. Esta soledade no era de genio nem gosto. Embora
tivesse elle dito que se honraria de confessar cujo filho era, manda a
minha fidelidade de historiador asseverar, que o moo se esquivava dos
condiscipulos folgasos para forrar-se  contrafeita honra de se
apregoar filho d'um sapateiro.

Poucos dias depois de sua estada em Coimbra, organisou-se o batalho
academico para ter parte na guerra da restaurao. Fernando Gomes
alistou-se sem licena de seu pae. A bandeira hasteada era a da
liberdade. As doutrinas proclamadas eram as da egualdade. O filho do
artista sympathisava com a causa ventilada desde 1820. Ouvira desde
creana citar os egregios nomes de Ferreira Borges e Fernandes Thomaz,
arvores frondosas de civilisao, regadas com o sangue de Gomes Freire,
e de outros martyres iniciados da revoluo. Execrava as forcas
hasteadas no Porto, tres annos antes, e em Lisboa, para o supplicio dos
academicos. Alm de tudo, acoroava-se do intimo rancor que votava a
fidalgos, por ter sido victima dos escarneos d'elles nas aulas de
Lisboa. Sobejava-lhe causa a justificar o enthusiasmo com que pediu uma
espingarda, e, primeiro que nenhum, se fardou, e impacientou com a
demora da primeira batalha.

Maria Luciana, quando tal soube, quiz ir em cata do filho: o marido
antecipou-a no intento, e foi a Coimbra. O batalho academico ia j
marchando caminho do Porto. Francisco Loureno retrocedeu para Lisboa,
cogitando em mandar soccorros a Fernando.

Devemos conjecturar, sem receio de erro, que o desembarque do libertador
no Mindello fra saudado de todo o corao do amigo de Bocage. Francisco
Loureno, com quanto arredado da phalange dos poetas mortos no comeo
d'este seculo, embriagou-se no ambiente d'elles, e bebeu a sorvos a
liberdade nos hymnos propheticos dos timidos evangelisadores, que a no
viram, seno ao longe na inundao sanguinea da Frana, e nas victorias
de Bonaparte, que abrazavam allumiando ao mesmo tempo. Bocage devia de
muitas vezes romper em apostrophes contra os frades que o viam amansado
nos carceres da inquisio, e nos cubiculos conventuaes. Pde ser que o
humilde amigo do poeta, em expansivas horas, merecesse a confidencia das
amarguras que ennoitaram o melhor da vida do alquebrado espirito de
Elmano. Se isto no bastasse a acrisolar o corao do homem do povo,
quer-me parecer que o velho odio a Jos Agostinho de Macedo--energumeno
panegyrista das forcas--bastaria a fazer d'elle um acerrimo _malhado_.

Em quanto a mim, Francisco Loureno abenoara secretamente a deliberao
de Fernando; e, se foi a Coimbra, o intento de tal ida por certo no era
estorvar-lhe o ir onde o melhor da mocidade academica levava suas foras
de alma, e o prestigio da intelligencia, com que muito se move e reanima
a fora material das massas. Pde ser que o artista levasse recheadas as
algibeiras de peas para fornecer o moo, e preparal-o para as
contingencias de emigrao. Esta hypothese d em certeza, quando vemos
Francisco Loureno empenhado com uma casa mercantil ingleza para fazer
chegar s mos do filho avultada quantia, que o moo recebeu com alegres
hymnos  liberdade ... e ao dinheiro tambem.

Fernando Gomes, em todos os recontros com o inimigo, deu provas de
grande e imprudente coragem. Foi duas vezes ferido, e muitas vezes
obrigado por disciplina a retirar do fogo. N'aquellas vertigens de
bravura, que tanto pdem ser desprezo da vida, como culposa ambio de
gloria, nenhuma considerao de obediencia o retinha em seu posto. L,
os camaradas, denominavam-n'o o _pequeno diabo_, termos que se
conformavam com a pequenez e magreza do seu corpo. O imperador j o
conhecia de vista e de nome: muito fra preciso para realar entre
tantos bravos, sados dos bancos escolares, e quasi todos a competirem
em intrepidez com Jos Estevo de Magalhes, aquella vivida lampada que
ainda hontem se apagou no altar da patria, se  que das cinzas d'elle a
arvore da liberdade no tem sempre de haurir seiva para reflorescimentos
novos.

Terminada a guerra nas provincias do norte, Fernando Gomes, condecorado
com o habito da Torre e Espada, foi a Lisboa abraar sua familia, e
seguir as manobras do exercito que rebatia o assedio de Lisboa.

Depois da conveno de Evora-Monte, e de todo apaziguada a guerra civil,
Fernando tornou para Coimbra a comear sua formatura em direito.

Proclamada a egualdade, extinctos os privilegios, rotos os diques que
estancavam as prerogativas das raas nobres, e derramado o thesouro das
coisas boas  vida por todos os homens indiscriminadamente, era de
esperar que Fernando Gomes se dsse por contente de ter nascido filho de
um sapateiro, visto que o sapateiro ficava social e legalmente egualado
ao titular. Tambem assim o esperava o, ha pouco, valente soldado das
linhas do Porto, e, agora, desvelado e distinctissimo soldado nas lides
da intelligencia!

Sublime engano!

Os seus mesmos camaradas, quer invejosos da condecorao, quer da
intelligencia, uns com outros celebravam sarcasticamente os triumphos do
filho do mestre Francisco Loureno. Os conterraneos diziam que as suas
melhores botas as deviam ao engenho do sapateiro-poeta da calada do
Sacramento; os provincianos, pela maior parte oriundos de uns fidalgos
de meia-tigela, como l dizem uns dos outros, no apertavam, sem
repugnancia, a mo de Fernando, nem se detinham a falar com elle, quando
podiam ser vistos e censurados pelos academicos de Lisboa.

Isto acontecia um anno depois da restaurao dos direitos do homem!
Trinta annos j rodaram sobre esse facto de ridiculas convenes, e o
filho do sapateiro  ainda hoje, e o mesmo ser d'aqui a cem annos, um
conviva chamado pela lei a sentar-se  mesa universal; mas a lei  uma
tola: l est o fiscal d'estas universaes communhes, que tranca os
cancllos do banquete, e diz ao filho do sapateiro o que j Horacio lhe
dizia: _ne sutor ultra crepidam_; ou _tractent fabrilia fabri_, que tudo
quer dizer: no se admittem sapateiros c.

Fernando recalcava em flagellador silencio o seu pesar. Nem mesmo a sua
me se abria. Quando esta lhe perguntava que tratamento recebia de seus
condiscipulos, o academico respondia:

--Tratam-me bem.

--Os tempos mudaram--accrescentava o pae.

--Mudaram; os homens  que no--dizia Fernando; e de salto, aventava
assumpto que dsse crte na conversao penosa.

Proseguiu o moo em sua formatura, e concluiu-a com ser premiado no
ultimo anno, como em todos tinha sido.

Suppunha Francisco Loureno que seu filho, notavel pelos servios
prestados  restaurao, e por seus premios, fosse chamado s funces
da republica, sem que as elle solicitasse. Decorreram mezes, sem que o
correio de algum ministro batesse  porta de Francisco Loureno a
procurar da parte de seu amo o valente e intelligente bacharel.

O artista, de vras offendido de tamanha incuria, queixou-se d'isso ao
filho. Fernando sorriu da boa f e crena de seu pae, e disse-lhe que
estava sinceramente arrependido de no ter renunciado ao estudo, quando
chegou a descer  loja para sentar-se entre os officiaes.

Este arrependimento, sincero ou no, desgostou o pae, e toldou-lhe o
rosto de tristeza inconsolavel.

Fernando foi ao Cartaxo, onde Francisco Loureno tinha o melhor da sua
livraria, comprada em nove annos com dispendiosa liberalidade de
biblimano. Como o local era triste, e a bibliotheca mui convidativa, o
bacharel alli passou um anno, quasi s, raras vezes visitado por seus
paes. Leu muito, leu tudo, e ardeu em desejos de ir vr os locaes
descriptos nos livros de viagens, e os monumentos perpetuados na
historia. Virgilio e Dante deram-lhe o amor s ruinas da Italia, Byron
s da Grecia, Lamartine, Chateaubriande e Volney s do Oriente.

Pediu a seu pae moderados recursos para viajar dois ou tres annos.
Francisco Loureno, antes do filho lh'os pedir, quizera offerecer-lh'os,
pesaroso de o ver assim solitario, e receioso d'algum funesto resultado
em to contumaz estudo. Deixa-lo ir, porm, custava-lhe a vida; e a
estremosa me, quando era consultada a tal respeito, dava o seu parecer
com lagrimas.

Aos rogos de Fernando nenhumas razes empeceram: Maria Luciana transigiu
com o assentimento do marido.

Os recursos pedidos eram muito inferiores  liberalidade com que o pae
lhe estipulou o dispendio de dois annos, confiando-lhe, afra isso,
ordens de quantias indeterminadas. Tal confiana era bem cabida no moo,
que durante a guerra e a formatura, cerceara, ainda de suas mesadas,
economias com que comprava livros de recreio.

Sahiu Fernando por Frana em direitura  Italia. Deteve-se em Roma
alguns mezes, que lhe pareceram rapidos e deleitosos. Ninguem o
conhecia; a ninguem procurava. Ssinho, de ruina em ruina, vivia com o
passado, e dava pouquissima de sua admirao s grandezas do presente.
Conversava com Ovidio em Sulmona, com Virgilio em Mantua, e com Horacio
em Tibur. Deliciavam-no mais as ruinas do theatro de Marcellus, que as
pompas do Vaticano. Qualquer estatua mutilada, extrahida das escavaes
dos esboroados templos dos idolos, lhe tomava mais espirito e
contemplao que as obras primas de Miguel Angelo.

Encontrava portuguezes emigrados n'aquellas paragens, onde D. Miguel de
Bragana procurava hospitalidade  sombra da theara pontifical. O
principe de Portugal, com quanto convisinhasse do Vigario de Christo,
que tem as chaves do co, no sabemos se teve fome: as chronicas
contemporaneas dizem que sim. O successor de S. Pedro de certo lhe
emprestaria as chaves do co, se sua alteza quizesse para l ir, as
chaves porm, dos reaes celleiros e cofres, essas  que decerto lhe no
emprestou. Os papas do muito mais facilmente as ambrosias celestiaes,
que umas sopas diarias aos principes proscriptos.

No sei se Fernando Gomes pensava n'isto quando via o senhor D. Miguel
de Bragana, e um emigrado portuguez lhe dizia que o rei no tivera com
que comprar leite para o almoo d'aquelle dia. O emigrado que estas
miudezas referia era um major Pacheco, que seguira o seu soberano,
espontaneamente, desde o embarque at Roma. Casualmente o encontrara
Fernando por l escondido nos pardieiros da Roma dos Cezares, ou
meditando nas virtudes de Tito, ou nas cruezas de Nero. Qualquer das
meditaes frisariam como o infante desterrado, que uns chamavam-lhe
Tito, e Nero outros, posto que elle no fosse uma nem outra cousa: era
apenas uma creana, quando rei; e um instrumento cego em mos de togados
infames, de prelados devassos, e de fidalgos estupidos. Desde que o
raio, forjado ao fogo da civilisao e na bigorna mysteriosa do tempo, o
fulminou a elle e aos seus, o filho de Bragana ficou sendo um
desgraado digno de respeito, de commiserao, e de real parentella mais
compassiva e generosa.

Ora vejam em que ladeira eu ia escorregando agora: Ahi est o meu pobre
romance guindado a umas alturas de transcendental politica, d'onde se
lhe no acudo, o coitado vinha abaixo estoirar n'alguma estrondosa
parvoiada! E tudo isto veio assim de seu natural. Por amor d'aquelle
major Pacheco de Lobrigos que Fernando Gomes topou l n'umas ruinas do
Colyseu, ou cousa assim. E insisti n'este ponto, porque eu conheci em
Villa Real, ahi por 1847, este major que voltara de Roma poucos mezes
antes, e andava esmolando pelo Douro, com as suas barbas apostolicas, e
grandes oculos de metal branco. Depois tornei a vel-o, estendido na
estrada que conduz de Villa Real a Chaves, traspassado por duas espadas,
e com a cabea fendida at aos dentes. Fra assim espedaado pelas
hostes do conde de Vinhaes, que mais acima mandou espingardear o general
miguelista Mac-Donell, a cujas ordens andava o major Pacheco.

E como quer que este ancio assim espostejado, e sepultado no adro d'um
presbyterio contiguo  estrada, deixasse uma filha linda e pura como um
anjo, e esta filha enlouquecesse de dr, escrevi eu n'estes tempos uma
elegia em prosa muito dorida, a qual publiquei no _Nacional_ do Porto.
Em to m hora dei a lume este testemunho de minha compaixo por os dois
infelizes, que ambos jaziam mortos, e no sei qual d'elles mais
cruelmente morto, em to m hora digo, que se pude sair vivo das garras
dos sicarios, mui pouco catholico sou em me no ter pesado a cera, e
converter esta cera em cirios, e adornar com estes cirios o altar das
liberdades patrias!

Agora  de mais!


IV

Transferiu-se Fernando Gomes  Grecia. Estanceou com o seu Homero e
Byron de um a outro padro das fabulosas faanhas, historiadas em
Thucidides e Plutarcho. Viu Grecia degenerada escrava, e de todo perdida
para a resurreio da sua dignidade. No teve um suspiro que lhe dsse
em hemistichio de ode, ou decima de hymno, como toda a gente faz quando
carpe um povo cancellado do mappa das naes livres. Naes
livres!--dizia entre si Fernando Gomes.--Eu sei c o que so livres! nem
homens livres! Liberdade de morrer de fome, em toda a parte a ha, graas
a Deus e ao progresso! Poemas ao trabalho e ao artista, em toda a parte
se escrevem, graas  metrificao e aos especuladores ociosos, que
deificam o suor e as mos calosas, sentando-se em espaldares flacidos, e
vedando o accesso de seus gabinetes aos operarios suados, calejados e
sujos! Em toda a parte se mantem em nome da liberdade, e se chora em
nome da servido! Oh! meus pobres gregos, deixai-vos viver e morrer em
vossa lethargia, que, se sacudires o torpr de sobre o peito, viro
depois uns prceres e phoros, como os antigos, que vos ho de uns pr o
p no peito desentorpecido, para subirem ao ponto donde vos atirem para
baixo com muita injuria e muito desprezo da vossa ignobil raa de servos
redimidos por elles!

Assim devia falar comsigo e com os gregos o nosso viajante.

Mezes depois, temos Fernando em Paris, onde o senhora profundo fastio.
Muito especial devia ser a compleio de moo de vinte e seis annos, que
se anojava em Paris!

Passou  Allemanha, marinhou os pincaros da Suissa, e desceu outra vez 
Italia, fatigado d'alma e corpo, triste como um desterrado, saudoso do
seu Cartaxo, saudoso de paes e irms; porm sem foras com que aproar no
rumo da patria.

Estava em Florena: restavam-lhe dois mezes dos dois annos concedidos.
Releu Virgilio e Dante, Petrarcha e Tasso, os seus amigos de Italia, os
seus guias e commensaes, as pallidas sombras que o seguiam at s
regies convisinhas do sepulcro, s tenebrosidades mysteriosas do sonho.

E hei de eu acreditar (diz a leitora que sabe o que vale) hei de eu
acreditar que Fernando no encontrasse nos mais formosos pontos do globo
as mais formosas creaes do universo? No viu elle uma ou cem
mulheres... (cem _senhoras_, emendarei eu, se vossa excellencia
permitte) ou cem senhoras que o tirassem pelos cabellos d'essa
escuridade de alma em que o exquisito moo se engolfava com as pataratas
dos Virgilios e Dantes, e outros que taes pesadelos de um espirito que
almeja diffundir-se e embeber-se nas delicias da poesia, tres vezes
santa, do bello ideal!?

Respondo: tem vossa excellencia razo de estar assim pasmada do homem:
eu tambem, com quanto j saiba a preceito o que  po bolorento por
dentro e cordas de viola por fra, comeava a espantar-me, justamente no
ponto em que vossa excellencia fez favor de interromper-me.

No ha duvida nenhuma: a cousa  muito para assombros. Bravia  a arvore
que aos vinte e seis annos no floresce nem fructifica! Anasada alma
deve ser essa que se dispende toda em extasis de livros velhos e paredes
velhas, e historias revelhas, que nem recontadas por Michelet ou
Castilho se podem aturar. Com um homem assim o romance era impossivel.
Quem houvesse de descreve-lo, iria na piugada d'elle por esse mundo
fra, onde ha plinthos e peristylos derrocados, e confundi-lo-ia com
algum troo de columna corynthia ou jonica. Fernando seria empolgado
pela caterva empedernida dos antiquarios, que dariam com elle n'este
museu de Lisboa, onde no ha nada que o valha, a no ser o titulo do
edificio, que  museu de si mesmo.

Estava eu, pois, a despenhar-me com o meu estylo espalmado na voragem
dos escrevedores malditos da paciencia humana, quando, n'estes
apontamentos que me dirigem, encontro o capitulo intitulado: PRIMEIRA E
ULTIMA PAIXO DE FERNANDO GOMES.

Primeira e ultima! exclamei. No gosto d'isto! Com uma s paixo hei de
eu encher duzentas paginas! Uma s paixo, n'estes nossos dias, em que
vinte e quatro horas bastam para o prologo e o epilogo da tragedia, se 
tragica a paixo!

Comecei a lr desanimado; cobrei esperanas no segundo capitulo; ao
terceiro obrigar-me-ia, sendo preciso, por escriptura, a escrever dois
volumes; ao quarto fechei o manuscripto, e coordenei os apontamentos
pelo theor seguinte:

Demorava em Florena uma familia portugueza, expatriada por affecta 
realeza absoluta. Compunha-se esta familia de pae e duas filhas. O
emigrado era um ex-desembargador do pao, ministro da Alada, que
assignara o accordo de pena ultima comminada aos academicos de Coimbra
que, em 18 de maro de 1828, mataram, no Cartaxinho, os lentes Matheus
de Sousa Coutinho, Jeronymo Joaquim de Figueiredo, e feriram outros que,
no dizer do accordo, _iam beijar a mo ao serenissimo senhor infante
regente pela sua feliz chegada a estes reinos_.

Bartholo de Briteiros se chamava o realista. Uma das meninas era
Eugenia, e a outra Paulina. Em quanto  linhagem, estude quem quizer a
origem dos Briteiros, que ha de encontra-la desde logo que as aguas do
diluvio universal se recolheram ao centro do globo, e consentiram que os
casaes contidos na arca procreassem os Briteiros e outras familias do
mesmo tamanho genealogico. No que toca a riqueza, dizia-se que Bartholo
possuia, em cada provincia de Portugal, duas, e tres e mais quintas: o
que eu no averiguei por me parecer desnecessario.

O emigrado vivia regaladamente na Praa do Dome, o mais vistoso local de
Florena, servido de muitos creados, em palacio exornado de primosas
alfaias e baixella. O _vassallo_ de D. Miguel de Bragana pompeava
faustos de rei, em quanto seu _senhor_, o to chorado principe dos seus
amigos, mendigava em Roma. Este contraste offerece um lado de muita
philosophia, que eu me dispenso de explanar por ter muito amor a quem me
l, e me no ler, se eu me entro a enredar em camisa de onze varas...
(C em Portugal j se no diz varas:  _metros_: camisa de quinze metros
e vinte e cinco centimetros, corresponde a isso; por causa da metromania
no se ha de perder o anexim que  expressivo).

Escreve Mry a respeito de Florena: No me espanta que proscriptos e
exilados, violentamente arrancados aos costumes de suas patrias, se
lancem nos braos d'aquella Florena, que  me commum dos que padecem,
e para todos se desentranha em palavras consoladoras... E n'outro
relano das suas _Noites de Italia_: Entende-se facilmente que homens e
mulheres de alto porte, condemnados a exularem, pelo infortunio d'esta
epocha to atormentada, confluam a Florena de todos os pontos da
Europa. O exilio aqui  menos penoso: no ser paradoxo termos em conta
de exilados todos os que vivem longe d'aquella cidade.

Bartholo de Briteiros, guiado pelo instincto, e no pelos viajantes--que
o magistrado no lia viajantes--deu comsigo na formosa Toscana.

Estanceavam por l, em 1834, polacos proscriptos e muitos refugiados
nobres da Frana, cujos exforos se mallograram na Venda. O palacio
Orlandini, onde residia o principe de Monfort, irmo mais novo do
imperador Napoleo, era o receptaculo de todos os proscriptos illustres,
em nascimentos, artes e sciencias.

Bartholo de Briteiros, tinha a illustrao triplicada da fortuna. Era
notorio que elle mobilara faustosamente um palacio campestre em _Poggi
Bonzi_, e d'alli saia de passeio, em graciosa berlinda, com suas filhas,
a _Val d'Arno_,  _Poggia Imperiale_, e a quantos pontos convergia a
nobreza toscana.

Isto lhe dera renome e accesso aos palacios Orlandini, Ricchardi,
Strozzino.

A formosura das filhas contribuia no pouco para a considerao que o
pae gosava. Eram duas gemmas inestimaveis que sobredouravam a
hypothetica riqueza do fidalgo portuguez. A mais nova era Paulina; quem
perguntava porm qual das duas fosse a mais velha? Cada uma estava
n'aquelle desabotoar de florescencia, e irradiao de graas, que seriam
delicias da vida humana, se cada mulher bella assim, ao tocar os
dezesete annos, alli ficasse, inamovivel, indestructivel, perpetua
imagem do anjo, dominadora do tempo, e assim de gala, para entrar com
todo o vio de sua formosura, e esplendor de encantos, em corpo e alma,
na gloria do seu Creador.

A me d'estas duas meninas morrera aos vinte annos, quando, em Lisboa,
reinava como primeira em belleza. Os dois seraphins, que deixara no
bero, conforme iam crescendo, recebiam do co os dons soberanos que sua
me levara. Aos quatorze d'uma, e quinze annos d'outra, dizia-se que a
me no fra mais linda que ellas.

O desembargador desvelara-se medianamente na educao litteraria das
filhas. Era elle homem de poucas lettras, e muito dado aos ocios de uma
certa ignorancia, que  o supremo bem d'este mundo pelas muitas e boas
horas de lerda pachorra em que a alma se embala no regao d'ella.
Briteiros sabia de jurisprudencia o necessario para convencer-se do
pouquissimo que necessitava saber um magistrado palaciano, bemquisto
para as aladas, e brao inflexivel para hastear patibulos. Chamado
sempre para mordomar n'estes festins de cannibaes, o amigo do throno e
do altar via em si um homem dos antigos tempos, e gloriava-se. A juizo
d'elle, os homens dos tempos antigos, eram os romanos, que condemnavam 
morte os filhos, se o bom regimen da patria o requeria. No cuidem,
porm, que o austero Bartholo de Briteiros frouxamente acariciava as
filhas, ou as affastava de si como cousas incompativeis da gravidade do
seu funccionalismo e meditaes. O contrario, de todo em todo. Brincava
com ellas; com uma em cada brao, em quanto meninas at aos nove annos,
andava de sala em sala, e assim recebia as mais circumspectas visitas. A
orarem por senhoras, nem assim as desquitava da obrigao de brincarem
com elle: escondia-se nas dobras dos reposteiros, e queria que o
andassem procurando. Muitas vezes saa d'estes brinquedos para assignar
ao lavrar o accordo de uma sentena de forca, muito firme de pulso, e
convicto da sua fidelidade aos principios,  moralisao dos povos, 
ordem publica, e  justia, filha primogenita de Jesus Christo.

N'aquelle dia em que o exercito libertador assomou em Almada, e o Telles
Jordo foi espingardeado, Bartholo de Briteiros, ainda duvidoso do
desesperado desenlace da causa que elle julgava vencida por parte de seu
rei, enfardelou  pressa o mais valioso de sua casa, ensacou muito
cabedal em moeda que tinha herdado de avs, prescreveu ordens aos seus
mordomos e caseiros das provincias, e embarcou em navio inglez, ancorado
no Tejo, com as duas meninas palidas de susto.

Horas depois, saa barra fra, quando j em Lisboa repicavam os sinos 
fuga do duque do Cadaval, e ao approximar-se o duque da Terceira. A esse
tempo estalavam apedrejadas todas as vidraas do palacio de Bartholo de
Briteiros, s Amoreiras, e a populaa, a brava e briosa gentalha,
apossava-se, por direito de conquista, da mobilia do desembargador, e
repartia, a soccos fraternaes, o espolio do miguelista.


V

Estava Fernando Gomes em Florena, conforme o seu costume em toda a
parte, sequestrado de toda a convivencia, visitando antiguidades, lendo
outras, e como que mumificando-se a si proprio entre tantas velharias.

Alguem disse a Fernando que o hospedeiro principe de Monfort mostrava
aos seus visitadores a espada que Napoleo floreara na batalha de
Marengo. Posto que o nosso portuguez presasse muito mais contemplar a
lana de Leonidas ou o punhal de Bruto, no quiz perder o lano de ver o
sabre oriental do maior capito do mundo, depois de Alexandre, e Cesar,
dizia elle.

O princepe recebeu-o no gabinete, onde estava escrevendo as suas
_Memorias_: mostrou-lhe a espada, facultou-lhe o exame dos tropheus
d'armas, recolhidos n'um armario envidraado; e bem assim as chaves de
ouro da cidade de Breslaw, quaes o imperador lh'as dera, congratulando-o
pela conquista d'aquella cidade.

Fernando, incitado a fallar pelo tom familiar do erudito principe, deu
de seu saber muito boa conta sobre pontos de historia antiga, romana e
grega, monumentos, batalhas, sciencias, e tudo quanto mereceria ser
archivado em volumes grossos de soporiferas academias. O ex-rei de
Westphalia deleitou-se em ouvi-lo, no sabendo ainda se era expatriado
da Vanda o cavalheiro que to correctamente fallava lingua franceza.

Fallou de si Fernando em breves termos, dizendo-se portuguez, soldado da
liberdade, o infimo dos seus fautores em Portugal. Accrescentou logo que
deixara a liberdade do seu paiz, e sara a procura-la n'outros pontos do
mundo, a fim de compara-la com a que deixara na sua terra, rachitica,
derrengada e aleijadinha.

Gostou o principe da grave sombra com que o douto moo mofava da
liberdade dos portuguezes, (gente malquista sempre dos Bonapartes) e
prolongou a palestra at horas de jantar. Fernando despediu-se j
fatigado da convivencia: o filho do artista dava pouco pela gloria de
conversar fito a fito com um ex-monarcha, irmo do heroe de Austerlitz,
das Pyramides e de Friedland.

Dias decorridos, Fernando foi convidado, em nome do principe de Monfort,
a passar a noite no palacio Orlandini. Cogitou o moo no mais urbano
modo de esquivar-se s pesadas honras de to luzida sociedade. A
educao acanhara-o; e os dissabores, suggeridos por causa de seu
nascimento, eram-lhe um constante espinho a impellirem-no para longe de
ajuntamentos. Assustava-o de mais o receio de encontrar portuguezes nos
sales do principe, e ter de responder-lhe s naturaes perguntas entre
conterraneos que se encontram em paiz estrangeiro. Precisamente
quereriam saber o seu nome, o nome de seu pae, as suas relaes na
patria, as mil coisas que se presumem sabidas de homens que viajam e se
relacionam com principes. Todos estes barrancos lhe empeciam o caminho
do palacio Orlandini, e nenhum expediente lhe suggeriram com que
delicadamente recusasse o convite. Sacrificou-se ao dever de quem tinha
sido to affavelmente tratado por personagem assim venerada nos
prestigios da magestade, a magestade dos heroismos, mais imponente que a
do sceptro hereditario.

Antes da sua entrada no palacio, chegara Bartholo de Briteiros com as
bellas meninas. Em quanto as duas portuguezas levadas pelas damas se
gosavam da frescura da noite nos jardins, que muitas vezes serviam de
sales, Jeronymo Bonaparte conversou com Briteiros largamente cerca do
moo portuguez que muito o encantara com a sua vasta erudio, e
perguntou ao hospede se conhecia _Fernando Gomes_. O fidalgo franziu a
testa, e disse:

--No sei dizer a vossa alteza quem seja Fernando Gomes. Os _Gomes_ em
Portugal no sei quem sejam. Antigamente houveram os de bom toque; mas
de D. Joo I para c no acho meno d'elles nas chronicas.  appellido
obscurecido, ou se perdeu.

--Pde ser que o seu patricio achasse o _Gomes_ perdido!...--disse o
principe com ar de riso.--O que eu sei  que o portuguez Fernando Gomes
sabe muito, e entretem com assumptos, aborrecidos quando a gente os l
nos livros, ou nos monumentos. Gostei muito d'elle, e estimarei que a
minha estima agrade ao seu patricio.

Pouco depois foi annunciado Fernando Gomes, e logo conduzido  sala em
que j estavam as damas da primeira jerarchia toscana; e, entre tantas e
to perigrinas, as nossas angelicaes portuguezas, honrando mais a terra
de Cames, que quantos diplomatas nos andam l por fra engrandecendo.

Bartholo de Briteiros fitou os olhos no portuguez, e l entre si disse:
No conheo: isto  homem ordinario.

--Tem aqui um patricio--disse o principe a Fernando.-- emigrado, e pae
das duas meninas, que o senhor alm v, que parecem madonas. Ditosas
revolues as que obrigam a sair do seu ninho as formosuras que Deus faz
para que todo o mundo as veja! O senhor de Briteiros  um pae ditoso,
que se rev nos seus dois cherubins, dignos de Florena mais que de
Lisboa. Os modelos que Raphael e Ticiano adivinharam, justo  que vivam
em Italia, que  o co das artes e das maravilhas. No conhecia o senhor
de Briteiros?

--No, senhor--respondeu Fernando.

--De onde  o cavalheiro?--perguntou Bartholo.

--Sou de Lisboa.

--Talvez que, se me disser o nome de seu pae, eu possa conhecer a sua
familia.

--Vossa excellencia no conhece de certo o nome de meu pae. Sou filho de
um homem do povo.

--De onde saem os reis do genio--ajuntou Jeronymo Bonaparte.

Bartholo fez um gesto insignificativo com a cabea, e disse, passados
minutos:

--Veio de Portugal ha muito tempo?

--Ha vinte e tres mezes.

--Como esto as cousas por l? Quem governa a canalha?

--Governa-se ella, presumo eu--disse Fernando.

O principe sorriu e murmurou:

--A resposta  um livro completo. A canalha governa-se a si em
Portugal...

--Em Roma no reinado dos Cezares e no Baixo Imperio, e em toda a parte
onde as nacionalidades se dissolvem--accrescentou Fernando.

--Diz muito bem!--acudiu Briteiros--Portugal est em dissoluo. O
senhor  necessariamente realista!

--No, senhor. Fui soldado nas linhas do Porto. Pugnei a favor da
liberdade, synonimo de humanidade. Servi-me a mim, servindo as classes
abatidas pelo privilegio. Se me enganei, a culpa no foi minha.

--Mas enganou-se...--atalhou Bartholo com m cara--A canalha  que
reina.

--Mas com gravata, luva branca, espada, chapeu de plumas, e
arminhos--ajuntou Fernando Gomes.

--E isso  bom?--redarguiu o fidalgo.

-- bom como lio, como experiencia...

--E depois? quando se quizerem emendar, era uma vez Portugal...

--Seremos hespanhoes, inglezes, ou turcos, mas com juizo--disse
Fernando.

--Ahi est o patriotismo dos _malhados_--exclamou Briteiros.

--Basta de politica--interveio o principe de Monfort, a quem destoara a
violencia da ultima phrase do ex-ministro da Alada.

Fernando ficou pensativo a um canto do salo, meditando no appellido
_Briteiros_. Sabia de cr os nomes dos signatarios do accordo que
enforcou os academicos. No lhe era extranho o feio aspecto d'aquelle
homem. Devia ser elle: ouvira em Lisboa dizer que o mais faanhudo dos
algozes vivia em Florena, com grande luxo, e segura posse de seus bens
na patria. Odiou-o; no poude mais fital-o em rosto. Pensava em sair da
sala, quando Jeronymo Bonaparte lhe disse:

--Venha ver as suas lindas patricias, que desejam conhecer o
portuguez... Mas tome tento em no argumentar com o pae. O senhor de
Briteiros  contumaz inimigo do povo e da liberdade. C entre os meus
hospedes francezes  conhecido por _Luiz XI_. O homem  um apologista
das gaiolas de ferro para uso das avesinhas que cantam a liberdade.
Detesta Lamartine, que escreveu contra a pena de morte, e defende que a
arvore da liberdade deve ser cortada, torada, serrada e afeioada 
maneira de forcas. Tem de bom que salga as suas theses com muita
inepcia: gente emigrada no pde desprezar estes perrexis do riso, por
isso o senhor de Briteiros  muito procurado. Agora vamos ver que duas
flores saram d'aquelle bravio matagal.

Approximou-se o principe de Eugenia e Paulina.

--Aqui est o seu patricio, minhas senhoras--disse elle, indicando a
Fernando uma cadeira--conversem; espaiream saudades da sua terra.

Retirou-se o apresentante, deixando o filho de Francisco Loureno
penosamente enleiado.

--Est ha muito em Florena?--perguntou Eugenia.

--Ha dois mezes, minha senhora.

--Lisboa  mais linda, no ?

--Lisboa  a patria; mas Florena  a perola do mundo--disse
Fernando.--No vi na Grecia vestigios de l ter havido uma Florena; e,
com tudo, a Grecia era a colmeia dos mais doces favos do mundo antigo.
Aqui me parece que vejo resurgidas as delicias da Roma imperial, os
jardins de Lucullo, os marmores jorrando espadanas de crystal, as
thermas de Antonio, os...

Reteve-se Fernando. Reparou que o estavam escutando duas meninas, que,
no ar do semblante, pareciam escutar idioma desconhecido. Que sabiam
ellas de Lucullo e Antonio, as florinhas dos anjos, que da vida e mundo
apenas conheciam o espao perfumado de seus virginaes aromas? A ellas
que se lhes dava de Florena, onde viviam tristes, com saudades do seu
jardim de Lisboa, onde tinham cada uma seu canteiro, e em cada canteiro
as plantas do seu amor? Seis annos havia que tinham deixado a patria, e
ainda se diziam uma  outra: Ainda veremos as nossas casinhas de murta?
J arrancariam as trepadeiras que se entranavam em redor das janellas
do nosso quarto? O que ellas queriam era ouvir falar de Portugal, de
Lisboa, do seu palacio, e talvez das suas flres. Conheceria Fernando as
flres que ellas tinham?

--Tem muitas saudades de Portugal?--disse Fernando.

--Sempre...--respondeu Paulina.

--E quem priva seu pae de voltar  patria?

--Elle no quer!--disse Eugenia--Tanto lhe temos pedido! Responde nos
sempre que s volta a Portugal com o sr. D. Miguel... Quando ir o sr.
D. Miguel, sabe?

--No sei, minhas senhoras... Parece-me que o sr. D. Miguel no pensa em
l voltar...

--No?!--atalhou Paulina--E o pap a dizer que sim!... Ento nunca l
tornaremos!

--Tornam, tornam. A final o pae de vossas excellencias vae sem a
companhia do sr. D. Miguel, e supponho at que elle pde viver
tranquillo sem a proteco do principe. As pessoas, que serviram o
partido do sr. D. Miguel, teem toda a segurana em Portugal; d'isto deve
estar sobejamente informado o pae de vossa excellencia.

--Diga-lh'o, sim?--tornou Eugenia.

--No me atrevo a aconselhal-o; porm, se o sr. Bartholo de Briteiros
quizesse ouvir o meu parecer, dir-lhe-ia que o partido liberal s
persegue os seus proprios amigos.

As meninas no entenderam a doble inteno d'estas ultimas palavras.
Fernando, em virtude do nenhum uso que tinha de trato com senhoras,
compunha sempre as suas phrases em estylo sentencioso, como se as
estivesse palestrando com philosophos ou politicos.

A mim, comtudo, o que mais me espanta  a facilidade com que Fernando
Gomes dizia aquellas coisas, mais ou menos convinhaveis s pessoas com
quem falava! No o insandeceram duas mulheres que eram lindas a capricho
de Deus! Poder estar assim um mortal, razoando em termos communs, diante
de espiritos para quem se fez a linguagem mellica do madrigal, a poesia,
como ella  no Oriente, e como os hebreus a saberiam lr no cantico dos
canticos! Pois no tinha elle olhos,  mingua de corao! Acaso o
temperamento lymphatico pde tanto que as imagens objectivas se no
espelhem na retina, e o corao no tome conta dos filtros que os olhos
lhe cam como arames abrazeados de electricidade?!

Eu sei c!...

Fernando, passado um quarto de hora, saiu do lado das filhas de Bartholo
de Briteiros, e desceu ao gabinete do principe, onde sua alteza estava
fumando e tratando assumptos litterarios com artistas, poetas, e
eruditos de differentes paizes.

O principe chamou-o  sua beira, e segredou-lhe:

--Pois fugiu-lhes?! No o entretiveram as patricias? J sei o que foi:
as pequenas no sabiam nada de Roma e Grecia... Mas lindas de vras,
no? Qual lhe parece mais moldada pelos velhos typos da sua predilecta
Grecia?--disse Jeronymo Bonaparte com jovialissimo rosto.

--So formosas como portuguezas--respondeu Fernando Gomes--mas em
Londres seriam mediocremente graciosas. Os typos gregos eram menos
correctos; todavia a frma antiga, como a estatuaria a perpetuou,
exprime os estupendos lances das tragedias que no se adivinham nas
physionomias aperfeioadas pela lima das geraes. As cabeas de marmore
parece que ainda fremem cheias de vulces. O busto das Aspazias,
Corinnas, Faustinas e Cleopatras dardejam fogo d'aquelles pedaos de
Carrara e Paros. A mulher viril da esplendida antiguidade, conforme a
civilisao a veiu entronando atravez dos seculos, mais e mais se foi
amollentando em feminilidades. Ganhava em prestigio o que perdia em
realeza de foras. A mulher esculpturada em Roma e Grecia, ainda amante
e amada, incutia pavor aos seus sacerdotes; a mulher dos nossos tempos 
uma creana que se quer acariciada e bajulada como se as graas da
infancia lhe aquilatasse o merecimento.

--Parece-me porm--interrompeu o principe de Monfort--que as vantagens
so a favor da mulher comtemporanea, da mulher mulher. Que entende o
cavalheiro?... As suas patricias, a meu vr, so perfeitas mulheres para
se amarem sem inveja de gregas e romanas...

--Certamente.

--E saiba que teem sido pretendidas de grandes senhores da Frana, da
Polonia, e da Italia. E o avarento pae no as cede s mais remontadas
stirpes nem aos mais abastados concorrentes. Fidalgo diz elle que o 
dos mais antigos das Hespanhas; e, como o senhor Fernando sabe, o
Creador ordenou, quando fez ou refez o globo, que a Hespanha ficasse
sendo um estanque de fidalgos retemperados por sangue ostrogdo, alano e
suevo, sangue barbaro, que teve quatro mil annos a sua nobreza escondida
nas florestas do norte... Advirto-o, meu amigo, d'esta avareza do senhor
de Briteiros, que no v succeder apaixonar-se o senhor por alguma das
suas patricias!... Eu ficaria com eterno remorso de o ter apresentado,
se o visse manh a braos com um amor funesto!...

Fernando Gomes sorriu-se das graciosidades do principe, e saiu, pouco
depois, do baile.

No restante d'aquella noite no viu Grecia nem Roma. Por sobre os vastos
destroos, que compunham as necropolis da sua memoria, adejava um
cherubim em nuvens de perfumes, era tudo primavera com seus devaneios;
flres e mocidade e verdura em tudo: de tudo tirava esperanas que lhe
chamavam a alma ao futuro. O passado, ento, pareceu-lhe melancholico: a
poesia dos imperios pulverisados avultou-lhe como horrenda soledade; e o
sol do dia seguinte encontrou-o ainda buscando no esplendor das suas
vises o cherubim, que era, em todo o rigor da fidelidade, a imagem de
Paulina Briteiros.


VI

Tinha expirado o prazo da viagem, estipulado por Fernando, e aceite por
seu pae. No penultimo mez dos dois annos, recebeu o moo carta de
Francisco Loureno, instando por sua ida antes de concluido os dois
annos, se possivel fosse. O artista dizia assim em sua carta:



Est pactuado o casamento de tuas irms.

Gracinda casa com um official de secretaria, rapaz de bom proceder, e
familia honrada. Genoveva, no menos feliz, vae unir-se a um capito de
mar e guerra, homem j entrado na edade, mas muito estimavel, e muito do
agrado d'ella. O prazer de ns todos seria que assistisses a esta festa,
e enxugasses as lagrimas de teus velhos paes, quando as duas meninas, na
mesma hora, se apartarem de ns! A estas dres chama o mundo _festas_. O
apartar-me de meus filhos quer o mundo que eu o festeje, como se
approximasse mais de minha alma! Que tristeza ser a d'esta casa se tu
aqui no estiveres, filho! Que direi eu s lagrimas de tua me, e ella
s minhas!...  preciso que nos ampares a ambos: aos teus braos  que
ambos pediremos fora para acceitar com resignao esta dr obrigatoria,
pela qual alguns paes recebem parabens! No me detenho a pedir-te que
venhas. Surda estaria a tua alma se no ouvisses os dois velhos que te
estremecem...

..........................................................................

Eu podia escrever muitas paginas soberbas de hyperboles, umas minhas, e
outras copiadas, para dizer quanto Fernando amava Paulina; porm,
n'essas muitas paginas, seria tudo pouco para dizer tanto como n'esta
linha: _Fernando leu a carta de seu pae, e no sahiu de Florena_. Isto
vai sem ponto de admirao, porque eu, em materia d'amor, estou como
Horacio a respeito de tudo mais: _nihil mirari_. Maiores desatinos que o
de Fernando Gomes reclamam indulgencia das almas bem formadas, almas que
no sejam raio de luz sem calor n'uma pouca de lama, ou humano barro,
que dispara no mesmo.

Fernando mentiu a seu pae: disse que estava enfermo de febres, apanhadas
em Roma nas lagas pontinas. E mentiu sem vergonha de si mesmo! A
celebrada honra de Epaminondas  a fabula mais paradoxal da antiguidade.
Amasse elle uma Paulina, e estivesse em Florena, em Florena que, no
dizer do author de _Andr Chnier_,  como a Circe que maneata os
forasteiros de invisiveis liames, e lhes d continuada festa de musica,
paisagens, perfumes, pompas e mulheres, a fim de incutir-lhes o
esquecimento do seu paiz!...

Fernando fugiu s musicas e aos perfumes da magica cidade. O seu amor
era taciturno e solitario, como um luto de saudade inconsolavel. Nascera
em rebentaes de fogo como as lavaredas da Sicilia. Estava debaixo do
co italiano; incubou-se d'aquelle fogo, bebeu a peonha da immensa
mansenilha, que braceja serpentes de mortal amor por todos aquelles
remansos fataes de Genova, Piza, Veneza e Napoles. O co esperara-o
n'aquelle ponto para lhe emborcar d'um jorro todo o amor, que l em cima
 glorificao, e c em baixo inferno. As flres de sua alma
desabrolharam das mil cres da esperana, e no vio de primeiras; mas
logo amarelleceram. O formidavel impossivel! bateu-lhe na cabea e
peito, para que a razo e o corao morressem a um tempo. A razo morreu
para no reagir. O corao vivia com centenares de cabeas como a hydra.
O corao  a salamandra de seus proprios incendios; lacera-se, como o
pelicano; de cada golpeada tira golfos de sangue, e n'este sangue medram
esperanas, cada dia mais infernadas. Este  o amor maldito dos que
amam, como amava Fernando a creatura divinisada por todos, isempta de
todos, vigiada pelos olhos coruscantes do velho, que tinha corao de
pae, com ferocidades de rei das selvas, velador dos seus leonculos.

Seria este imaginar impossiveis uma hallucinao do nosso homem? A gente
mais sisuda e mais desbaratada em lidar com o mundo no lhe acontece
tantas vezes fazer p atraz, diante de travancos que uma borboleta
transmonta a brincar por entre arbustos floridos? N'este artigo de
mulheres, quantas vezes se nos figuram castellos roqueiros umas
sobrancerias que l ao p se alhanam como relvados macios, planos,
chos, e todos desentranhados em boninas, que se esto como offerecendo
s solicitas abelhas, e at a zangos damninhos!

Ora vamos ver se Fernando cae das alturas por onde se anda aps do
cherubim, e vem c baixo  estrada coimbran, ao amor rameraneiro, de
theor e modo que o estylo possa assingelar-se o necessario para ser bem
entendido e estimado. Fuja todo o romancista de entender com personagens
que trazem a cabea de telhas acima: a nossa linguagem lusitana  pouco
para exorbitancias taes. Os francezes dizem tudo o que querem, e at o
que no ha, nem tem ideia correspondente. Os allemes tambem. C entre
ns, boa gente do velho Portugal, gente que  toda vulgo nas paixes
quotidianas, quem quizer remedar extrangeiros nublando os ares com
fumaas de idealismo, despega em tolice tamanha, que no ser assombroso
fecharem-se-lhe as portas da academia real das sciencias, ou
negar-se-lhe venera da ordem de S. Thiago da Espada! No pde ir mais
longe o menos preo dos parvos.

Paulina via todos os dias Fernando na _piazza di Dome_, sobre a qual se
abriam as janellas dos seus aposentos. Chamava logo a irm, clamando
pressurosa:

--Vem vr o nosso patricio, Eugenia!

Assentavam os cotovellos no peitoril do balco de marmore, e alli se
quedavam como duas rolas, a contemplar o portuguez, que as cortejara, e
parecia te-las logo esquecido. No ousava elle fita-las segunda vez!
Remirava-as por entre os grupos: e o espao aereo d'entre quatro cabeas
era a suprema ambio do moo, a entre-aberta do co nas vises de um
santo anachoreta.

Algumas noites as filhas de Bartholo de Briteiros viram Fernando no
palacio Orlandini.

--Que ter elle que nos no procura?!--dizia Paulina a sua irm--Mas
repara que no d preferencia a ninguem!

-- to triste aquelle homem! Sero assim todos em Portugal?--dizia
Eugenia.

--Faz-me pena aquella tristeza! acudiu Paulina.

N'outra noite a compassiva filha do fidalgo disse  irm:

--Chamemo-lo, sim? no parecer mal?

--No; pois que mal  chamarmos o nosso patricio?

Eugenia fez signal a um francez, que no era principe, nem duque, nem se
quer especieiro rico: era um pintor, um amigo querido de Bonaparte.

--Senhor Leopoldo Roberto--disse ella--conhece aquelle portuguez que
est falando com a princeza Carlota?

--Fernando?... Conheo-o desde que elle chegou a Florena--respondeu o
palido mancebo.--Achei-o um desgraado.

--Desgraado?!--atalhou Paulina.--Que infortunios so os d'elle?

--Os extremos: os do amor sem esperana--respondeu o pintor.

Paulina encontrou os olhos de sua irm, que pareciam dizer-lhe: ouves?

Leopoldo Roberto esperou novas perguntas das meninas. Passados minutos,
aventurou-se o artista a perguntar:

--Pois no conheciam o seu patricio?

--Foi-nos apresentado pelo principe de Monfort--disse Eugenia--mas dos
seus infortunios no sabiamos.

-- de Florena a senhora que elle ama?--perguntou Paulina.

-- de Portugal.

--E elle est em Italia?!--accrescentou Eugenia--porque no vae ento
para Portugal?

--Andar a viajar para conhecer se ella o ama, e sente a ausencia--disse
Paulina.

--A dama est em Florena. A formosa Paulina conhece-a.

--Eu!...

--Sim, minha senhora. Digo-lhe o grande amor de Fernando, e peo-lhe que
o salve.

O pintor ia retirar: Paulina exclamou:

--Venha c... explique-me esse mysterio... Eu conheo a senhora
portugueza que Fernando ama?!

--Os anjos de innocencia nem mesmo tem o corao que adivinha?--replicou
Leopoldo--Hei de eu por fora dizer-lhe que Fernando queria morrer sem
que a imprevista Paulina soubesse que o matava?!

As meninas no proferiram um monosyllabo. Leopoldo, o ascetico amante de
Carlota Napoleo, approximou-se de Fernando, que falava com a princeza.
Levava nos olhos uma alegria desusada. Carlota mudou de local, e o
pintor disse a Fernando:

--Quebrei o encanto. Paulina sabe que a amas.  bom que estas mulheres
se glorifiquem com saberem os nomes das victimas. Morrer
obscuramente!... morrer ignorado da mulher por quem diluimos a vida em
lagrimas de sangue! Isso no!  preciso abrir larga fenda no peito,
arrancar fra o corao, e mostrar-lh'o. Ento sim! ao menos servimos 
gloria da mulher que se amou. Ella, se no pde dizer amei-o, diz
matei-o! e pde ser que o diga com piedade; venha, pois, essa piedade
posthuma, que deve ser regalo do cadaver! Que maior servio posso eu
fazer-te, amigo?

Fernando apertou convulsamente a mo de Leopoldo, saiu aos jardins a
dilatar o peito, a desdobrar da alegria que vos commove como os assaltos
do medo. O pintor no o seguiu, dizendo:

--Vae s, que eu no tenho alegria nem lagrimas que esconder. Recorda-te
sempre de mim: propiciei-te o idolo em cujas aras era desconhecido
holocausto. Agora pdes acabar, que cumpristes a tua misso. A minha
ainda est imperfeita.

Para que o leitor me no tome como cousa de destemperada imaginativa
este Leopoldo Roberto, pintor francez, amante de Carlota Napoleo,
peo-lhe que abra um livro de Eugenio Pelletan, o qual livro se chama
_Horas de Trabalho_. Ahi, por algures, achar em resumo, n'aquella
linguagem diamantina do illustre professor de philosophia, a historia
dos amores; e, logo na pagina seguinte, a historia do suicidio do
pintor.

Ho de ver como elle atirou com o peito s puas do despedaador
IMPOSSIVEL, e arquejou voluptuariamente n'aquellas agonias, sem
esperana de sentir a mo da princeza enxugar-lhe o suor glacial.
Reparem no quadro que elle aperfeioou na vespera do seu dia final. So
scenas campezinas: obreiros que vo s ceifas e voltam dos campos
coroados de espigas. Oh! que formosissimas vises antecedem os
paroxismos do talento! Que lucido agonisar o dos genios? Quem ha de crr
na mortalidade da alma, quando ella assim se rejubila ao p do golfo em
que o corpo se despenha como pedao de materia postulosa e tbida?

E no te salvou o anjo da arte,  poeta das primaveras, dos arreboes, e
dos crepusculos? No tinhas uma Galathea em cada uma das tuas
camponezas? No te palpitavam aquelles coraes debaixo da palheta? J
sabias que a tua immortalidade estava  porta do seu templo, para
abrir-t'o logo que a lousa te batesse em cheio sobre o craneo estalado
pela bala?

Que princeza te valia uma inspirao das tuas noites desveladas!

Quantas rainhas de virtudes deixaste l em baixo escondidas nas
florestas que perpetuaste em teus quadros!

E no as amaste, como prodigo, e as dstes ao mundo, que t'as ama e as
adora nas galerias, nos museus, nos emprios das summas maravilhas do
bello!

Olha ahi por esses palacios de principes, na Florena, em que
premeditaste morrer, olha ahi como as turbas se enlevam no teu genero
immorredoiro!

E v tu quantas princezas, como a tua Carlota Napoleo, desceram do
solio ao exilio, do exilio  tumba, da tumba ao esquecimento; e os teus
poemas ficam; e o teu espirito revive em co e terra, e o homem pra
diante da tua sombra, e deplora que uma princeza no subisse a ti para
tu no desceres a procura-la no bojo negro do teu inferno, ou nas
explendorosas serpes da chamma em que te abrasaste,  crysalida d'um
anjo!


VII

Queremos agora vr como procede o portuguez.

A poesia do mysterio est aguada. Descerraram-se d'entre as nevoas as
duas estrellas que devem approximar-se ou repellir-se. A constellao 
mais de esperar, quando os prenuncios so d'esta ordem.

Tenha-se em seus brios, Fernando Gomes! Portuguezes so pouco dados a
beberem trago a trago uma prosaica morte em ideaes mysterios! Costummos
abrir o corao e despejar  flux quanto l ha. Se nos desdenham, a
dignidade propria nos rehabilita. Se nos acolhem, damos pelo commum
excellentes maridos, carinhosos paes, e preciosos jarretas na velhice.

Romances d'amor, que desandam em morte de tuberculos moraes, no pegam
c. Isto  terra de Hespanha e o co de Italia, como diz o mais poeta
dos portuguezes, o dulcissimo Castilho. Ama-se como na Italia, e
entendia-se como em Hespanha. Quem quer saber o que  amar em Italia,
leia Byron em Veneza, e Henry Beile em todos os seus romances, e
peculiarmente na _Physiologia do amor_. Eu gosto de indicar as fontes
limpas, para que me no attribuam aguas sujas, nem acoimem o romance de
hoje em dia de pco e co de conhecimentos uteis.

Ora vamos l ao conto, que est a meada a desencadilhar-se.

Fernando Gomes venceu o seu pejo, e voltou dos jardins ao salo. Um
francez, desconhecido d'elle, perguntou-lhe se era o portuguez Fernando.

--Sou o portuguez Fernando--disse o moo.

--As suas patricias encarregaram-me de perguntar a Leopoldo Roberto se o
senhor sahira; Leopoldo Roberto no sei onde est: porm, como encontro
o senhor, creio que lhe dou prazer communicando-lhe directamente os
cuidados das senhoras de Briteiros.

Fernando agradeceu affectuosamente a urbanidade do francez, e
convisinhou das meninas, a tempo que chegava Bartholo.

--Patricio e amigo--disse este a Fernando--no fuja da gente. Amigos,
amigos, politica  parte.

--Eu no fujo de vossa excellencia--disse o moo cr de rosa, quanto
rosas se alastram em rosto de homem trigueiro.

--Pois o senhor sabe--tornou Bartholo--que est um portuguez em
Florena, portuguez dos bons tempos, e no o procura?!

--Vossa excellencia at hoje no me deu bastante afouteza para solicitar
tamanha honra.

--V quando quizer. As minhas portas esto francas a quantos
portuguezes, realistas ou no realistas, quizerem visitar um portuguez
que honrou sua patria!--Ora o senhor, que sau ha dois annos de Lisboa,
ha de dizer-me se l viu meninas mais galantes do que as minhas filhas!

Fernando crou outra vez, e tartamudeou; as meninas sorriram; e o pae
insistiu na pergunta com certo desplante que no vae mal em velhos
folgasos, e at faz gosto ouvi-los n'estas liberdades, quando se fundam
em muito amor s filhas.

Fernando respondeu:

--Posto que eu conhecesse pouquissimo a sociedade de Lisboa, digo, sem
receio de baixa lisonja, que as filhas de vossa excellencia seriam em
Lisboa, como em toda a parte, bellezas distinctas.

--So a pintura da me--atalhou Bartholo.--Minha mulher foi a dama mais
linda de Portugal. Deixou-me estes anjos para me ampararem. Se no
fossem ellas, eu tinha-me atirado  cova que m'a roubou!

Assomaram subitamente lagrimas aos olhos do quinquagenario. Fernando
hauriu prazer d'aquellas lagrimas. Porque? O moo queria presuppr
corao, sensibilidade e affectos brandos n'aquelle homem que lhe
avultava de bronze  phantasia.

Passou Bartholo o leno pelos olhos, e continuou:

--E ha por ahi quem se tenha lembrado de me privar das filhas!... Veem
com a palavra casamento propr afoitamente a um pae que rompa os laos
de dezoito annos, que lance de si as suas joias, a luz dos seus olhos, o
ar do seu peito, e as deixe ir nos braos de uns libertinos fatigados,
que as viram hontem pela primeira vez, e manh lhes voltaro a face com
sobranceria de maridos!  horrivel este systema de organisao social! A
sociedade no se sustenta seno  custa d'estes roubos legaes feitos ao
corao de um pae. E isto se chama manuteno da moral!... Deixa-la ser!
As minhas filhas so a minha vida. Em quanto eu respirar, quero ve-las,
quero te-las ao lado do meu leito de agonia. Custaram-me muito. Ficaram
sem me muito tenrinhas. Criei-as eu nos meus braos: passava as noites
com o ouvido collado  fechadura das alcovas onde dormiam as amas, para,
assim que os anjinhos chorassem, acordar as mercenarias creadas. Isto
fazia eu, senhor Fernando, quando negocios importantissimos de estado
dependiam das minhas vigilias. Cresceram aquecidas pelo meu bafejo.
Trouxe-as desde os seis annos na minha carruagem, quando ia aos
tribunaes; no as confiava de ninguem. E queriam roubar-m'as agora que
esto feitas, lindas, e ricas de felicidade e alegria para me
retribuirem o muito que soffri por ellas!... Ainda bem que nenhuma me
tem sido ingrata. Quando rejeito os pretendentes, adivinho-lhes a
vontade d'ellas. O maximo prazer que me do  serem dignas de illimitada
confiana. Dizem que as vigio; tem-n'o dito o principe de Monfort; 
falso,  calumnia; ellas ahi esto que o digam. So senhoras das suas
aces: vo onde querem: ordenam seus passeios e visitas; e eu sigo-as
com a docilidade e contentamento de uma creana. Ambas ellas sabem que
me matam no momento em que me deixarem; e por isso Florena, Londres,
Paris tem sido para minhas filhas como desertos... Coitadinhas! querem
ir para Portugal; teem saudades de no sei que ninharias pueris!...
Deixae estar, filhas, l iremos, l iremos em dias mais ditosos. A
justia ha de vencer, porque sois dois anjos, e estaes da parte da
justia. Tendes muita vida para largas esperanas. Voltaremos a Portugal
talvez mais cedo do que vs mesmas ambicionaes. O rei... Agora reparo
que estou falando com um soldado _mindeleiro_...

--No, senhor--atalhou Fernando--no posso gloriar-me da faanha do
Mindello...

--Faanha!... Ora essa! que faanha?!

--Coragem, atrevimento, se vossa excellencia antes quer...

--Qual coragem!... O senhor ento no sabe a historia contemporanea...
Fale-me de traies, se quer que eu lhe explique a faanha do Mindello,
que, espremida na mo imparcial d'um critico, d de si um heroismo
negativo, uma pagina de historia que, d'aqui a cincoenta annos, quando
os taes sete mil e quinhentos tiverem morrido, ser reduzida  data do
desembarque d'um principe foragido do Brazil, e mais nada...

Fernando Gomes estava escarlate, e reteve-se a ponto de murmurar apenas:

--A historia no se faz assim. Vossa excellencia est brincando!...

--Brincando!... interrompeu o membro da Alada.--Creia o que eu lhe
digo, que tenho o segredo da rebelio desde mil oitocentos e dez. O
senhor nasceu hontem: no sabe nada. Pegou d'uma arma, quando
naturalmente largou a espada de folha de flandres, e a pistola de matar
moscas...

Paulina fitou os olhos em Fernando, e fez com elles e com os labios a
mais ameigadora supplica de silencio e tolerancia. O condecorado das
linhas do Porto sorriu-se, j perdida a cr, e fez um gesto mezureiro s
galhofas algum tanto colericas do fidalgo.

Bartholo cahiu de seus azedumes, quasi furioso, na razo e
arrependimento do excesso. Com brandos termos e rosto prasenteiro se
desculpou, promettendo nunca mais fallar em rei nem roque; e ajuntou:

--Sabe o que faz isto?  eu no ter portuguez com quem fale nas
desgraas de Portugal, que tanto o so para gregos como para troianos.
Estes emigrados francezes e polacos todos me falam dos negocios da sua
terra, e ninguem sabe nada dos negocios da minha. Chamam-me hespanhol, e
no querem acreditar que Portugal  uma nao que faz reis e desordens
por sua conta e risco. Um francez a quem eu descrevi os tumultos de
Portugal, desde que Napoleo lhe quiz lanar as garras, teve a
petulancia de me dizer que qualquer poa d'agua suja, examinada com um
microscopio, offerecia um rebulio de vermes admiravel! Confesso-lhe,
que se no tivesse duas filhas, havia de pr a cara ao francez em apuros
de ser examinada com o microscopio!

Fernando Gomes soffreando a indignao, sorriu-se. O seu primeiro assomo
fra pedir o nome do francez; reflectindo, porm, um momento, desculpou
o atrevido com as objurgatorias ridiculas e talvez sanguinarias de
Bartholo de Briteiros contra Napoleo, na propria casa de Jeronymo
Bonaparte, o irmo predilecto do imperador.

O dialogo terminou assim, sem que as meninas proferissem palavra.
Fernando afastou se com tristeza, recordando as vehementes expresses de
Bartholo, com referencia ao casamento impossivel das filhas. Quem,
d'animo frio, ouvisse o cioso pae de Paulina, daria pouco peso aos
termos acres e despoticos do velho: o mais racional seria preparar a
rebellio no espirito da filha, e vingar assim a sociedade ultrajada
pelo egoismo d'um tyranno de dois coraes, sedentos de mais amoraveis
affectos, e mirando a elles por providencial influxo. Fernando, porm,
com o seu verdadeiro, e, por isso mesmo, timorato amor, ponderou como
invencivel a vontade do pae, e inconquistavel a vontade de Paulina.

Estava elle engolfado n'estes pensares, a distancia visivel das meninas.
Eugenia chamou-o, e disse-lhe:

--O pap affligiu-o com as suas rabugices?

--No, minha senhora: eu respeito a paixo do senhor Bartholo de
Briteiros.

--Olhe que elle diz assim as coisas; mas no odeia ninguem--disse
Paulina.--Quando vae a nossa casa? Estimavamos muito vel-o, para
conversarmos muito da nossa terra... V manh, sim?

--Com o maior prazer...--balbuciou Fernando.

--Demora-se em Florena? tornou Paulina.

--No sei dizer a vossa excellencia...

--Depende o demorar-se da vontade de sua familia?--perguntou Eugenia.

--J desobedeci  vontade de meus paes. Eu devia estar em Lisboa a esta
hora... Estou em Florena, e Deus sabe onde o meu destino me chama...

Se Leopoldo Roberto houvesse sido menos explicito com a filha de
Bartholo de Briteiros, o tom em que Fernando respondeu  pergunta de
Eugenia bastaria a manifestal-o. O silencio de ambas, e a meiga
expresso de Paulina foi tambem para elle sobeja prova de que o tinham
comprehendido. Os dois coraes, n'aquelle instante, esposaram-se em
mysteriosas delicias. Tinham-se revelado tudo no magnetico relance
d'olhos que se trocaram. Aquellas almas ou se haviam mentido, ou
identificado para sempre. Nenhum d'elles assim o pensava. Ns, os que
estamos de fra,  que sabemos decidir d'estes vinculos eternos, e raro
nos illudimos. Pena  que cada amante no traga  sua beira um
observador, bastante martellado n'estas psycologias, para desde logo
caminhar em terreno seguro, com a sibylla ao lado.

[A]Fernando visitou o fidalgo. O acolhimento foi excellente. As meninas
reviveram quantas recordaes ainda tinham de Lisboa. O antigo
desembargador, com insolita moderao, relatou ao hospede a chronica
mysteriosa de Portugal desde 1810, a revoluo de Gomes Freire de Andrade,
a de 1820, e as alternativas sequentes das duas parcialidades. Teve
momentos lucidos de consciencia politica, e de admiravel modestia. Pelos
modos, se em vez do conde da Barca, ou do conde de Basto, elle fosse o
ministro valdo de D. Joo VI, ou de D. Miguel, Portugal voltaria  sua
idade de ouro. Para se exaltar era justo que desluzisse a reputao dos
privados de D. Carlota Joaquina, e ento foi verdadeiro. Deu como decidido
ter sido envenenado D. Joo VI. Contou minudenciosamente a morte do marquez
de Loul em Salvaterra: chamou-lhe _golpe de estado_: mas a historia ha de
chamar-lhe golpe de cajado, porque o palaciano foi morto a pauladas.
Deteve-se por descuido a fallar dos supplicios de Lisboa, Porto e Extremoz.
Eram tudo, no seu modo de ver, sacrificios necessarios  manuteno da
ordem. E argumentava com a historia. O protestantismo, dizia elle, no
entrou em Portugal: graas s fogueiras da inquisio. Em quanto a Europa
ardia em guerras religiosas, Portugal gosava pacificamente da sua
prosperidade, e da pureza do seu catholicismo. D'estas sublimes paragens da
historia portugueza, descia o apologista do fogo depurativo da f a provar
a necessidade da pena de morte como cauterio s chagas sociaes, antes que
ellas contaminem os membros sos. _Etc._

Fernando ouvia-o silencioso. No entanto as meninas, entretidas com os
taboleiros floridos dos seus jardins, diziam entre si:

--E tu s capaz de lhe dar o ramo, Paulina?

--Era... mas... que hei de eu dizer-lhe? Ensina-me Eugenia.

--Eu sei c!... no lhe digas nada... Quando o pae no vir, offerece-lhe
as flores.

--O melhor era deitar o ramo no chapo.

--Mas se elle o deixa ver ao pap?--redarguiu Eugenia.

--Deus nos livre! E que pensas tu?...

--De que, Paulina?

--Ser verdade o que disse o Leopoldo Roberto?[B]

--Se elle te ama?

--Sim...

--Pois no vs?! Eu ia jurar que sim... E tu? tu  que devras gostas
d'elle...

--Penso que sim... E de que serve?!... Este amor que o pae nos tem, 
uma priso! Todas as meninas da nossa idade to felizes!... e a gente
n'esta melancholia, a dominar as inclinaes... para o no desgostar! Os
outros paes no se importam. A gente v tanta gente alegre com seus
maridos! pois no v?

--Pois sim; mas tu que queres, Paulina? O pae no nos deixa casar...

-- porque a gente no se tem importado...

--Ests enganada... O pae soube que eu gostava do conde de Rohan, e
fingiu que no o sabia. Lembras-te? Uma vez disse-me que se eu amasse
alguem em Florena, ia immediatamente comnosco para a Azia! Quando tu em
Paris gostaste d'aquelle emigrado portuguez, no viste como elle sahiu
logo para Londres?

--Depois, o Albuquerque foi ter a Londres--atalhou Paulina--e o pae foi
logo para a Escossia.

-- verdade; e depois, diz a toda a gente que as grandes cidades so
desertos para ns! Tu vers, Paulina... Se elle desconfiar que amas
Fernando, leva-nos para a Russia...

--Isso leva!

--Ento, v l se te sabes esconder; e, se fallares com o Fernando,
diz-lhe que seja acautelado, seno...

--Como hei de eu falar-lhe?! No vs que o pap j hoje me perguntou o
que hontem estivemos a falar com elle na _soire_ do principe?... J me
lembrou escrever-lhe duas palavras...

--Ai! escrever-lhe!--atalhou Eugenia assustada.

--Pois ento? isso que tem?  crime?

--E se o pap vem a saber que lhe escreveste?

--Quem lh'o ha de dizer?...

--Agora  que eu vejo que o amas seriamente, Paulina.

--Amo: de ti no me escondo, Eugenia.

--Pois ento, se queres, escreve-lhe.

--E que hei eu dizer-lhe? Eu nunca escrevi... Tu  que j sabes, minha
Geni.

--Diz-lhe que no denuncie que te ama: seno que o pap nos tira logo de
Florena.

--S isso?!

--Pois que mais? Quando elle te escrever, ento responders...

.........................................................................

Este dialogo, que parece estirado, correu em menos de quatro minutos. As
meninas pediram ao pae licena para subirem do jardim a casa.

Ora aqui tem o leitor como conversam os anjos.

Quem, com ouvidos corporaes, ouvisse aquellas meninas, havia de suppor
que estavam alli duas creaturas vulgares, como todas as que procedem de
Eva, que dialogava com serpentes, e comia fructas da sciencia do mal!
Cumpre saber que os anjos, em quanto perigrinam c por estes pantanos do
globo, fallam segundo ouvem fallar. Parece que ao descerem do co,
trazem, como regra, o anexim: _cada terra com seu uso_. A gente no
acaba de capacitar-se d'isto!


VIII

Demoremos em Portugal algum espao. A imaginao, que tem andado
acorrentada aos apontamentos l por essas terras lindas, mas alheias, j
tem saudades das suas.

C estamos em Lisboa na calada do Sacramento, em casa do artista
Francisco Loureno.

Esto os dois velhos  meza, onde o almoo lhes arrefece. Nenhum pe mo
na comida. Encaram-se, e choram. Gracinda e Genoveva sahiram hontem para
casa de seus maridos. Alli esto as cadeiras d'ellas, e sobre a meza as
chavenas do almoo, e os guardanapos que lhes serviram dois dias antes.

--E sahiram sem lagrimas!--disse o artista, com a voz golpeada de
soluos.

--Como eu sa de casa de meus paes para a tua...--respondeu a mulher.

--Mas que tristeza... que solido esta, Maria!... Nem as filhas! Nem
agora, Fernando... de mais a mais enfermo, to longe de ns! Que fins de
vida os nossos, mulher! Como eu de longe via isto to differente!
Falava-te no prazer de acabarmos entre filhos e netos! v tu! ninguem,
ninguem comnosco!

--Tem paciencia, homem, tem paciencia! Fernando ha de vir logo que
esteja bom. As pequenas prometteram passar o domingo comnosco. Para a
primavera, vamos todos para o Cartaxo. No te afflijas, Francisco. Isto,
assim triste e ssinho,  hoje. A gente afaz-se a tudo.

--Afaz-se  ingratido dos filhos? interrompeu o artista.

--Ingratido! No  ingratido! As meninas casaram com o teu
consentimento: no foram ingratas.

--Sairam sem verter uma lagrima.

--Pois que queres tu? O Evangelho no diz: deixars pae e me?
Deixaram pae e me por seus maridos.  lei da natureza. Que havemos ns
fazer-lhe? Almoa, Francisquinho, almoa.

--E tu que fazes? porque no almoas?

--Que queres tu! No posso. Tenho um n na garganta... Tambem eu... E
Fernando longe de ns, Maria!... Que te diz o corao?

--Que no tarda ahi. Talvez j venha a caminho. Se vier, no temos carta
para a semana. Se estiver ainda doente, escreve-nos. Depois nos
lastimaremos homem... No tentemos a Deus.

A carta, no desejada, chegou. Fernando dizia estar ainda doente, e no
poder assignalar o tempo da sua volta. A linguagem era triste: dir-se-ia
que a mentira lhe custava lagrimas. Os paes inferiram da tristeza a
gravidade da doena. Francisco pensou em ir  Italia; porm, doia-lhe
deixar sua mulher ssinha, doente de saudades, e mais lastimosa que
elle. Esperou nova carta, contando os minutos por ancias, que o
avelhentavam rapidamente. Ia, com sua mulher, buscar allivios a casa das
filhas: encontrava uma e outra contentes, cuidando das suas occupaes
domesticas, cariciosas para os maridos, e levemente commovidas com as
afflices dos paes. A linguagem d'uma era a da outra:

--No se inquietem, que o Fernando ha de vir. Pde ser que nem esteja
doente. Anda por l a divertir-se, e vem quando estiver farto.

Os velhos sahiam mais acabrunhados das frivolas consolaes das filhas e
genros.

Passadas semanas, chegou nova carta. Fernando, aconselhado pelos
medicos, ia convalescer para Napoles; e, logo que estivesse restaurado,
voltava para Portugal, immediatamente. Era o resumo da carta; mas o
dizer era mais escuro; a espaos lhe tinham fugido uns desmentidos 
falsidade. Taes como: _Tenho desejado a morte: o futuro  negro, mais
negro que a sepultura_. E n'outro relano: _Eu nunca devia ter saido da
nossa casa de campo. A m estrella no me acharia n'aquella
obscuridade._ E, finalmente, rematando a carta, dizia: _Quem sabe se eu
tornarei a ve-los, meu querido pae, e minha santa me?... Tenho
presagios terriveis...._ Era para muita pena vr os dois velhos, cada um
a seu lado, com o rosto entre as mos, arrancando soluos e exclamaes,
que ninguem consolava!

--Que mal fizemos ns a Deus!--clamava Francisco. No fui eu sempre bom
filho, bom marido, e bom pae? A quem fiz eu mal voluntario d'este mundo?
Quem se queixa de mim do co para me ver assim, e te ver ahi, pobre
mulher, sem consolao de tuas filhas? Que desgraas so estas de
Fernando!--proseguia o artista, relendo a carta.--Na doena pouco falla:
nunca me disse que doena tinha... _Tenho desejado a morte; o futuro 
negro, mais negro que a sepultura!_... V tu estas palavras, Maria! Eu
no lhe tenho faltado com as ordens do dinheiro muito a tempo. J lhe
escrevi, admirando e louvando que elle gastasse muito menos do que
esperava. Tem tudo o que quer de mim, e ha de ter, se Deus me no
transtornar a vida, meios abundantes para viver com decencia... Ento
por que se chora elle? que _m estrella o persegue_? porque _no ha de
tornar a ver-nos_?

--A mim...--atalhou Maria--certo  que no... Pouco tenho de vida,
Francisco...; mas olha, meu filho, sabes tu o que me lembrou agora de
repente?...

--Dize, Maria...

--Estar Fernando por l apaixonado? Queres tu vr que elle olhou para
alguma senhora, que o traz em torturas, e o pobre rapaz no tem corao
que o tire de l para fra?

--A fallar a verdade--disse Francisco--a idade das paixes  a d'elle...
Pde ser que adivinhasses mulher, e oxal que sim... Se a paixo fr
ba, o resultado bom ha de ser; se fr m ou impropria d'elle, o tempo
ha de cura-la... Mas isto no allivia a nossa dr, Maria! Eu preciso de
vr Fernando; quero com a minha presena reduzi-lo aos seus deveres; no
tenho meio de saber o que isto , se no fr em pessoa procura-lo.
Deixas-me tu ir, mulher?

Maria deteve a resposta alguns segundos, expediu um gemido do fundo da
alma, e murmurou:

--Vae, Francisco, vae, eu irei para casa de uma das filhas, se tu
quizeres. No te peo que me leves comtigo para te no dar que soffrer
na viagem. Sinto-me muito doente. Vieram as afflices juntas, e
acabaram-me... Pois vae, e no te demores. Dize a Fernando que venha
dar-me um abrao, que eu quero despedir-me d'elle; e, depois, que torne
para onde estiver melhor.

Francisco Loureno, sem mais preparativos que um passaporte e dinheiro,
sahiu de Lisboa no primeiro navio que lhe deu passagem para porto de
Italia.


IX

_A gente no acaba de capacitar-se d'isto_, diz o final do capitulo VII,
a proposito dos anjos, que em pousando p no mundo, perdem memoria do
co, e aclimam-se logo n'estes pantanos, cujas exhalaes pestilenciaes
teimam poetas em dizer que sobem a glorificar o Creador!

Vamos ao essencial.

Paulina escreveu um bilhete assim:

O pap  muito desconfiado. Tenha muita cautella, se a separao lhe 
to dolorosa como a mim. No passeie na praa do Dome quellas horas. O
pap dorme sempre desde as quatro s sete. Eu tenho uma creada de
confiana a quem pde entregar as suas cartas. Adeus. Guarde com amor
estas florinhas.

Dobrou em tira estreita o bilhete, e cingiu-o em volta das astes do
ramo.

Veja agora a leitora, mais superciliosa em pontos de dignidade e pudor
senhoril, como os extremos se tocam! O que o despejo e desenvoltura
teria feito,  a innocencia e candura que o faz n'este caso, n'estes
amores comeados com tal qual originalidade! Aposto que nenhuma dama,
amestrada em galanterias, escriptora de resmas sobre resmas de cartas
amorosas, se affoitaria a escrever aquellas linhas sem previamente ter
recebido irrefragaveis provas escriptas e oraes de uma paixo homicida!
Escrever a um homem sem ter sido a isso mil vezes solicitada! ennodoar
assim o amiculo virginal! dar uma menina a saber que  capaz de compr
um periodo com sujeito, verbo e caso!

Eu no louvo meninas que escrevem bilhetes, e se sujeitam a uma analyse
de regencia; porm, no sei sobre que argumentos hei de fundar a
censura. No censuro, nem louvo. A moral  uma questo de felicidade,
segundo as regras do dever n'este mundo. Ora, a meu juizo, a moral tanto
se lhe d que Paulina escrevesse primeiro a Fernando, como Fernando a
Paulina. Alm de que, a desmoralisao  o escandalo. Escandalo n'este
facto, se alguem o d, sou eu, que conto a historia; todavia, provando
eu a final que o acto em si era innocente e as consequencias no
desfitaram do mais honesto scopo,  justo que me descoimem do escandalo,
e agradeam a historia.

Em quanto  felicidade, segundo as regras do dever, sou a dizer-lhes que
no ha nada mais incerto que as regras do dever em materia de felicidade
n'este mundo. Muita gente vae direito  raso pela estrada do paradoxo.
Outra muita gente, a fugir da absurdidade, quebra as pernas no barranco
da raso. Uma menina escreve um bilhete a um homem: o mundo sabe-o, e
vitupera-a. Outra menina faz-se vermelha de lacre ao receber a primeira
carta de um homem: o mundo tem noticia d'um pudor tamanho, e cita o
exemplo d'esta santa a quantas meninas o demonio tentador negaceia. Vae,
depois,  primeira abre-se o corao de anjo, uns braos de esposo, e um
horisonte de summa felicidade; e  segunda, que em solteira no ousara
escrever duas linhas a furto de olhos maternos, depara-se-lhe um marido,
que s viu n'ella o merecimento boal de no saber calligraphicamente
dizer que o amava! O primeiro pergunta  sua Porque me escreveste e
ella responde-lhe:--Amava-te.--O segundo faz a mesma pergunta  sua; e
ella, a pudica, a santa do pejo, ha de, por mais que tergiverse,
responder-lhe: No te escrevi, porque me no merecias confiana. Uma
exalta; a outra rebaixa; uma faz-se amar pelo duplo prestigio de sua
innocencia; a outra deve entediar mais cedo que o costume, porque embaiu
a gente, encampando como innocencia uma boa dse de velhacaria. Ha muito
d'isto; mas no  assim tudo. J disse que regras fixas nenhumas ha. As
meninas n'este ponto, consultem as damas virtuosas e illustradas. A mim
no me chamem para coisa de tamanha responsabilidade. N'estes combates
das paixes, os romancistas so como os escrevedores que os antigos
cabos de guerra levavam comsigo para historiarem as carnificinas:
ficam-se c de longe alapados a verem o fogo, e relatam ao universo os
varios successos. Tornemos ao essencial.

Fernando Gomes viu entrar as meninas na sala em que Bartholo de
Briteiros lhe andava mostrando alguns bustos de Bartholini, famigerado
esculptor de Florena, que cinzelara tambem os bustos de Paulina e
Eugenia. Estava o magistrado encarecendo com voluptuoso enthusiasmo a
Bacchante de Bartholini, que elle vira na galeria do duque de
Devonshire, e contava d'um francez que chegara a Florena, e pedira
venia ao esculptor para dar um beijo na sua Bacchante, beijo ardente que
parecera filtrar fogo nos beios marmoreos da lasciva tentadora.

Bartholo mudou de tom, quando ouviu o ciciar de sedas. Entraram as
meninas, e approximaram-se do piano. Eugenia tocou: Paulina cantou uma
aria da _Norma_; e, durante o alegro, como o chapeu de Fernando
estivesse sobre a cadeira contigua ao piano, e os olhos de Fernando
n'ella, e os de Bartholo em uma estatua da Sabina de Joo de Bolonha, a
menina lanou no chapeu o ramo.

Fernando viu, e sentou-se, sentou-se violentado por umas caimbras de
pernas. Parece que devia ser unicamente abalado o corao; mas estou em
crer que homem amante  todo e em tudo corao.

D'ahi a pouco, eram horas de jantar.

Fernando ouviu o chamamento d'um escudeiro agaloado. Tomou o chapeu: no
lhe podiam as mos convulsas com o thesouro. Aterrava-o a magnitude da
sua felicidade. O quer que era de idiota lhe desmanchava as feies.
Bartholo convidou-o a jantar ceremoniosamente. Fernando balbuciou
expresses confusas de reconhecimento, ajustando bem cerradas com o
peito as abas do chapeu e sau.

No lhe cabia o corao no quarto da hospedaria. Queria o sol, o azul do
co, os pinhaes, os vinhedos, e as flres das margens do Arno como
testemunhas da sua alegria.

quella mesma hora  que os dois velhos, na calada do Sacramento, se
abraavam, debulhados em lagrimas, e diziam:

--Que mal fizemos a Deus!

Que faces a vida tem!

Fernando leu um poema em cada lettra d'aquelle insignificante escripto.
_Insignificante_, digo! Injustia de critico litterario, que s v a
magestade do entendimento humano nas ramagens floridas do estylo! Como
_insignificante_! Cada palavra d'aquelle singelo bilhete salvaria
Leopoldo Roberto, Chatterton, e quantos por amor se tem lanado nos
braos da morte! Dae a cada desventurado, em transes de suicidio, um
bilhete assim, de mulher como aquella, e eu vos restituirei um homem com
vida exhuberante, com alma recaldeada para todas as adversidades, com
amor a Deus e aos homens, retemperado de juizo para se predispor aos
gosos da velhice, e d'uma numerosa posteridade--destino humanal mais
efficazmente averiguado e demonstrado.

Ao escurecer, Fernando voltou a Florena, e velou a noite inteira,
escrevendo. Quando os primeiros raios do sol lhe douraram a ultima
pagina da carta a Paulina, a cabea do moo, calcinada pela febre da
felicidade, pendeu sobre a mesa, e immergiu em no melhores delicias de
sonhos.

Despertaram-n'o para lhe entregarem uma das succesivas cartas que seu
pae lhe estava sempre mandando, quer por navios que saam de Lisboa para
Frana, quer pelo correio de Hespanha.

Que melancholica transio a da leitura das suas paginas arrebatadas
para este cho e monotono escrever do artista:

Lemos a tua carta com muita magua. Bem me dizia o corao que tu no
vinhas! A tua carta entristece mais esta separao de tuas irms. Se ao
menos tivesses saude, Fernando! Mas doente, sem me dizeres que molestia
soffres, isto augmenta a afflico de teus velhos paes. Muito enfermo
deves estar para, ainda com sacrificio, no accudires  nossa saudade!
Deus te allivie, e encaminhe para ns.

Vejo que essa cidade te prende mais que as outras; mas foi-te ingrata,
filho. Tiveste saude em toda a parte, e s ahi adoeceste, dizendo-me tu
que era um clima celestial o de Florena.

Talvez te prendessem as memorias d'aquelle poeta que tu me lias, ha
annos. Era Dante, se bem me lembro; mas eu queria que o teu corao de
filho vencesse os prazeres do espirito; queria que os no esquecesses
por amor da sciencia.

Isto no so queixumes, Fernando, no so.  rabugice estar eu a ralhar
comtigo porque a doena te impede de vir. O que eu te rogo, e mando,
filho  que, assim que as foras t'o permittirem, venhas dar
contentamento  tua boa me, que est muito acabadinha, e mais depressa
ir ao seu fim, se desconfiar que nos esqueceste...


A carta continuava assim por longo espao de papel, manchado de
lagrimas.

Fernando no tinha a fora de alma que caracterisa os homens grandes.
Estamos vezados a dar carta de grandeza a uns vermes que no teem
lagrimas, nem se deixam alquebrar de vulgares contingencias da vida. O
filho do artista depz a carta, e murmurou:

--Meus queridos paes! como eu vos sacrifico sem saber a que!... Pude
enganar-vos para me gosar das primicias de alguma desgraa!

E, respondendo a esta carta, escreveu aquella em que transluzia a muita
acerba previdencia do seu futuro, com phrases incongruentes, e por
virtude da qual Francisco Loureno se fizera no caminho de Napoles.


X

O marquez de Tavira...

--Temos gente nova na historia?

-- verdade, leitor. Chegou agora mesmo de Roma e Florena o marquez de
Tavira, aulico da crte do proscripto, emigrado desde a conveno, do
primeiro sangue de Portugal, sujeito de quarenta annos bem conservados,
que parecem trinta, arruinado desde o seu setimo av, mas ainda rico de
umas riquezas inexauriveis de fidalgos portuguezes velhos--a gente de
mais industria e artimanhas que eu conheo--no desfazendo nos fidalgos
portuguezes novos, que estes, para se esquivarem  arguio de terem
avs, avs arruinados, comeam por no terem avs, e renegam os paes
como logicos que so. Este periodo  de abafar!

O marquez de Tavira hospedou-se em casa de Bartholo de Briteiros. No se
viam desde 1832. Conheciam-se do pao, tratavam-se de _tu_, e tinham
rapaziadas communs, posto que Bartholo se lhe avantajasse em onze annos.

Mania fra sempre de Briteiros aparentar-se com Cogominhos de Tavira. O
marquez dizia que seu av falava no parentesco dos Briteiros da casa de
Robordocho; e, dito isto, regularmente pedia a Bartholo dinheiro, e
Bartholo dava dinheiro ao primo marquez, que era expansivo, quando
embriagado; e embriagado nas orgias de Queluz, Salvaterra e Alfeite,
costumava rir de Bartholo de Robordocho, que dava metal amarello a
troco de sangue azul.

O marquez, desde a conveno em que largara a espada de coronel de
artilheria, vagueara por Frana e Belgica, destroando o restante do
patrimonio vendido pelo tero do valor. Depois fra a Allemanha em cata
do senhor D. Miguel de Bragana; e, como encontrasse pobre o real
exilado, invocou o seu inquebrantavel espirito e aproou para Florena,
onde o chamava a pascacice do primo Bartholo de Briteiros.

O acolhimento frizou com as melhores esperanas.

O marquez teve logo, e muito rogado a possui-los, bellos aposentos,
dinheiro a granel, optima convivencia de duas meninas, que o festejavam
com franqueza de primas, e as melhores relaes de Florena.

Este incdente coincidiu com aquellas tristezas e alegrias de Fernando
Gomes, na manh em que fechava uma carta para Paulina, e abria outra de
seu pae.

Bartholo, sedento de noticias, enguliu quantas mirificas ptas o marquez
inventou, concernentes a restaurar D. Miguel no throno. No dizer do
industrioso hospede, a Russia estava a disciplinar-se para talar a
Europa, e passar o rdo sobre as coras usurpadas. O ex-ministro da
Alada, como bebesse mais alguns calices de champagne, no auge de sua
alegria gosou-se de vises deliciosas, entre as quaes, se a conjectura
me  fiel, avultavam uns triangulos do caes do Sodr, e umas lavaredas
do Campo de Sant'Anna. Bartholo quiz pr luminarias; mas o marquez
dissuadiu-o d'uma virtude, que pareceria ridicula a olhos extranhos: a
virtude das luminarias!

Passeava, s seis horas da tarde d'aquelle dia, Fernando na praa do
Dome. Paulina estava na janella. Passados momentos recolheu-se, e
reappareceu com uma creada. Fernando comprehendeu, e avisinhou-se.
Paulina apontou para o muro do jardim, e sahiu da janella.

Caminhou o moo, rente com a parede, e viu a creada debruada no
peitoril d'um caramancho angular do jardim. Atirou-lhe a carta, e
apanhou um bilhete que ella ao mesmo tempo deixara cahir, com uma
_saudade_, flr que, em parte alguma, tem o nome suave que portuguezes
lhe do.

Dizia o bilhete:

manh vamos para Piza, onde temos de passar alguns dias. Vae comnosco
o primo marquez de Tavira, que chegou hoje de Roma. Se no fosse o medo
e os conselhos da mana Eugenia, pedia-lhe que se fizesse encontrado
comnosco. Seria temeridade? Eu lerei muitas vezes a sua carta, sempre
que puder fugir  vigilancia de meu pae. So tres dias: paciencia!
Mando-lhe uma flr, que me faz lembrar as da nossa patria... Ainda nos
veremos l, Fernando?...

_Seria temeridade?_ Este modo de perguntar, esta duvida em que Paulina
ficava, teve Fernando na perplexidade de minutos em que o corao usa
demorar as suas decises. A ida do marquez com ella para Piza, o primo
marquez, tres dias de ausencia com o primo marquez... Este primo marquez
foi quem deu um empurro em Fernando, pela porta fra de Florena,
caminho de Piza. _Seria temeridade_? seria; mas o contrario, o ficar, o
estar tres dias sem ve-la ainda mesmo que o primo marquez no fosse,
isso  que seria pusillanimidade, juizo de mais, excesso que mulheres
amantes consideram corao de menos.

Fernando viu Bartholo e o marquez, com as duas meninas, entrarem na
caleche. O de Tavira sentou-se em frente de Paulina. O filho do artista
esperou que a locomotiva passasse rente por elle, e fitou o fidalgo,
emquanto Paulina ia de rosto voltado para ve-lo. Seria j o ciume que
lhe afuzilava nos olhos? O primo convencional dos Briteiros era, como j
disse, um rapaz de quarenta annos, um gentil rapaz, quanto se pde
se-lo, com um fardo de quasi meio seculo no espinhao. As barbas
intensas, nitidas, e negras, os longos cabellos  _Saint-Simon_, o porte
soberbo, as frmas fidalgas e significativas de destreza e fora, as
faces ainda rosadas, eram predicados de assustarem um amante de
compleio doentia, poucas carnes, estatura mediana, ar e olhar
timorato, e outros attributos de que os authores de novellas nunca
revestem os personagens fataes, ditos _lees_.

Assim que a serpe do ciume o mordeu, no havia j considerao que lhe
estorvasse o passo. Fernando partiu para Piza, curta jornada de algumas
horas. Passou na _piazza del Calvalieri_, para esperar, n'aquelle centro
da celebrada cidade, a passagem da familia. Em que monumentos iria elle
procurar Paulina? quella hora, a illustre familia de Portugal estava em
casa da opulenta ingleza Smith, cujo palacio nas margens do Arno abria
seus sales na noite d'aquelle dia. A que parte iria o triste moo, mais
triste na soledade da terra estranha, onde elle, como de si dizia Mry,
se julgava, ao meio dia, o locatario unico de uma grande cidade? Foi ao
_Campo santo_, vasto jazigo dos que morreram lidando na conquista do
sepulcro de Jesus Christo. Seria aquelle o local mais ajustado  sua
dr? Os tristes sem consolao, como que refugiados da vida, se travam
em mysticas confidencias com as cinzas dos que passaram seu dia chorando
e, alli enxugaram as ultimas lagrimas no lenol humido da leiva.

Ao entrar no cemiterio, Fernando recordou as palavras d'um illustre
viajante, que tambem l fra a recobrar-se de alentos para arcar com a
desventura do seu curto dia:

O _Campo santo_ exhala poesia de morte, a poesia do nada, a poesia da
immortalidade. Este  o verdadeiro cemiterio do christo: no se sente
aqui a constrico d'alma que nos causa o tumulo do homem, suave e
religiosa melancholia vae comvosco por entre as quatro galerias
funebres, e vos inspira pensares de morte sem pavor. Este torro no se
desentranha em ossadas, nem o verme corroe as carnes:  terra milagrosa
que preserva os corpos do insulto das herpes. Envolve-se em magnifico
lenol de relvados floridos; inquadra-se em puras e graciosas ogivas do
marmore alvissimo:  terra de Jerusalem sobre as galerias travadas; os
cadaveres dos velhos christos de Piza esto aqui santificados;  o
leito de descano dos homens fortes, que morreram em Deus, com a espada
 ilharga e os rins ciliciados. Quo suave  este ciciar da relva que
ressoa ao longo das galerias! Cuidaes ouvir psalmodia entoada por
sombras, hymno de sepulcros escripto em linguagem, que, s depois da
morte conheceremos.

Mas no era cemiterio remanso ao soffrimento do moo. Ancias de corao
no as suavisa a philosophia da morte. Aquillo serve para os que,
n'outro ponto, deixaram fechada a sepultura de suas esperanas.

Passou arrastado o dia, sem que Fernando encontrasse vestigios de
Paulina. Na manh do seguinte dirigiu-se  praa onde se ergue a famosa
_torre torta_, que o leitor tem visto pintada, e que o marquez de Tavira
queria ver, mais que tudo. De feito, estavam o curioso emigrado e
Bartholo e as meninas ao p da maravilha, quando Fernando assombrou n'um
angulo da praa.

Foi Paulina quem primeiro o viu, e trocou olhares de susto com Eugenia.
Bartholo de Briteiros, que j muitas vezes admirara a inclinao
mysteriosa da torre, estava mais attento nos palacios da praa, e, de
relance, viu parado o portuguez.

--Aquelle no  o Fernando Gomes?!--disse elle s filhas.

--Parece...--balbuciou Paulina.

--Quem?--disse o marquez.

--Aquelle patricio em que eu te falei, primo Tavira.

--Ah! o mindeleiro?--tornou o primo.

--Tal qual.

--Sempre lhe quero ver o bellicoso aspeito! Ainda no vi um dos sete mil
e quinhentos roldes do Mindello--tornou o marquez, dando a saber que
tinha sua tal qual instruco do _Carlos Magno_.

Fernando, posto que tarde, simulou que no vira Bartholo, e foi indo
lentamente seu caminho.

O fidalgo deixou as meninas com o marquez, e atravessou a praa,
estugando o passo, para se avisinhar a distancia que elle o ouvisse
chamar.

--Sr. Fernando! clamou Bartholo--patricio! vae to meditabundo! Parece
que receia que a torre venha abaixo?!

Fernando olhou com bem fingida surpreza, e retrocedeu a comprimentar o
fidalgo.

--Ento por aqui!--disse o pae de Paulina.--Acol esto as meninas, e
meu primo o marquez de Tavira, chegado hontem de Roma. Venha c, se quer
conhecer um dos primeiros fidalgos de Portugal.

--Com muito prazer irei comprimentar um primo de vossa
excellencia--disse Fernando.

--Aqui est o senhor Gomes--disse Bartholo ao fidalgo--filho de Lisboa,
bacharel em direito, e bom rapaz, posto que mordeu muito cartucho nas
linhas do Porto, na qualidade de soldado do batalho academico, e ,
aqui onde o v, cavalleiro da torre e espada, valor, lealdade e
merito!...

O sorriso, que envenenava estas palavras, queimou o sangue do filho do
artista. Paulina tinha os olhos fitos n'elle, olhos de dr e compunco.
Se Fernando os visse, daria graas a Deus pela angustia que lhe era
premiada com a maviosa paixo d'elles.

O marquez gesticulou ligeiramente um cortejo de cabea, e disse:

--Consta-me que em Portugal  toda a gente condecorada por faanhas das
linhas do Porto!

--Toda a gente, no, senhor marquez--disse Fernando.--s linhas do Porto
no foi toda a gente, mas todos quantos l estiveram mereciam bem a
condecorao de valor, lealdade e merito.

O legitimista desfranziu um riso de compassivo escarneo, e disse:

--Em quanto a _valor_, o general Povoas que o diga, se os _valorosos_ o
no querem dizer. Em quanto a lealdade, bem se sabe qual foi a lealdade
dos bravos que apedrejaram com patacos D. Pedro no theatro, e mataram
Agostinho Jos Freire nas ruas de Lisboa. Em quanto a merito, isso agora
 uma questo de barriga: a barriga de cada um  que diz o merito de
cada qual...

Fernando olhou de revez o marquez, e disse a Bartholo:

--Vossa excellencia contina a admirar a torre, e eu vou dar as voltas
que preciso, antes de recolher-me a Florena.

O marquez ficou mais que muito corrido d'este ar de desprezo com que
Fernando replicou aos seus dizeres, que elle imaginou no s
irrespondiveis, mas capazes de atirar a terra com os creditos de uma
politica. Bartholo tambem se desgostou do menos preo com que o _quidam_
tratava seu primo, e no teve mo da sua zanga, exclamando:

--Ento no tem resposta o que alli disse meu primo?!

--No, senhor--disse Fernando Gomes.--D-me sua excellencia as suas
ordens?

--Passe muito bem, senhor Gomes--disse Bartholo, chofrado.

Paulina e Eugenia corresponderam ao comprimento reverencioso de
Fernando. Paulina sentia-se contente, soberba da dignidade d'aquelle
moo; Eugenia, porm, doa-se da quebra de brios que soffrera o primo,
temia que a ira do pae resultasse desgosto  irm, e anteviu a
impossibilidade de nunca mais os dois se approximarem, sem aberta
declarao de guerra com o pae.

--Este sujeito--disse, azedado, o de Tavira--quem  l na sua terra?

--Eu sei c?  o senhor Fernando Gomes; tal m'o apresentou Jeronymo
Bonaparte! Estes Bonapartes, que se fizeram reis mais depressa que os
reis do theatro do Salitre e da rua dos Condes, impingem  gente com
titulo de _notabilidades_ quantos patavinas os visitam no desterro!
Qualquer pintor, esculptor, ou poeta, em casa do principe de Monfort 
egual aos duques, e tem uma cadeira ao lado dos principes. Quem l vae
tem de apertar a mo ao pianista Sampieri, ao cantor Tachinardi, 
cantora Degli-Antoni, ao poeta Mry, ao pintor Vernet, ao esculptor
Bartolini, e ao senhor Fernando Gomes, que, no dizer do ex-rei de
Westphalia,  um enorme sabio. Aqui tens tu, primo marquez, como eu
conheci o senhor Gomes. Dei-lhe uma vez entrada em minha casa, porque me
pareceu humilde o sujeito: agora descobri que elle tem seus fumos de
orgulho!...

--No se me dava de lhe abater a pra!--atalhou o marquez.--Queria ver
se estes valentes do Mindello sustentam a fama c fra das linhas...

Bartholo riu-se, e Paulina olhou em rosto o primo com visivel gesto de
despeito.

--Porque?!--disse ella, com mal represada ira.

--Paulina!--murmurou-lhe Eugenia ao ouvido.

Bartholo no dera conta d'este incidente, e o marquez, quando ia
esclarecer a significao do gesto extranho de sua prima, viu que ella
voltava o rosto, e se encobria com as franjas da _sombrinha_.

--Querem ver que ella ama o tal sujeito?!--disse o marquez entre si, e
differiu para mais ao diante a elucidao d'esta importante suspeita.

No dia seguinte a familia voltou para Florena.

Fernando j tinha ido.

s affrontosas palavras do marquez de sobra respondera o silencioso
desprezo do filho do artista: no obstante, o tom injurioso
alanceara-lhe muito dentro o corao, por ter sido Paulina testemunha da
zombaria.

Pensava elle que a filha do nobre devia ama-lo menos por ve-lo assim
desdourado, e sem vingana egual ao affrontamento.  um inferno, na alma
de quem ama, pensar assim!


XI

Ao cabo de tres semanas de hospedagem regalada, disse o marquez a
Bartholo:

--Ora, primo e amigo,  tempo de continuar a minha misso, que
interrompi por tres semanas. Bem sabes que a politica me no deixa ser
das minhas vontades. Preciso de ir a Inglaterra em servio do rei e da
nossa causa. Tu, como rico em toda a parte do mundo, no queres
participar dos trabalhos lentos da restaurao: fazes bem, primo
Briteiros: eu  que no posso libertar-me d'esta misso diplomatica.
Espera-me o Saraiva em Londres, e o rei em Berlim, no espao de quarenta
dias. Aqui tens a razo da minha sada.

--Pois vae, primo--disse Bartholo--mas logo que te desempenhes d'essa
misso, volta a viver comnosco em Florena.

--No prometto.

--No promettes, marquez? Pois assim nos pagas a boa vontade com que te
convido e o muito affecto das meninas, que te desejam comnosco?!

--Se ellas me desejam--tornou o primo com intencional sorriso--isso 
que resta demonstrar, primo Bartholo...

--Pois que! duvidas?

--D'uma, duvido; da outra tenho quasi a evidencia que me deseja vr
pelas costas.

--Ora essa! qual d'ellas?

--Permitte que no vamos adiante n'esta penosa conversao, primo...
Evitemos desgostos communs. Tanto soffrerias tu, como eu tenho
soffrido...

--Que tens soffrido, marquez? Pois ainda agora m'o dizes!...--tornou
Briteiros sinceramente inquieto.

--Devra ter-t'o dito ha muitos dias, desde o segundo em que vi tua
filha Paulina... basta.

--Homem! explica-te, se no eu obrigo-te a faze-lo por tua honra!

--Pois que assim o queres, sabe a verdade inteira, e reprehende-me se eu
tiver procedido mais segundo os dictames do corao, que os da honra e
parentesco. Eu amei tua filha Paulina com paixo. Se no t'o disse logo,
foi porque me julguei superior a mim mesmo, e aos despotismos do amor.
Muitas vezes em Portugal, em Paris, em Roma, em todas as capitaes da
Europa, me julguei vencido por diversas mulheres que encontrei; e, logo
depois de chorar a derrota, de repente me rehabilitava pelo esquecimento
instantaneo e quasi prodigioso da mulher que horas antes me acorrentava
aos seus mais levianos caprichos. Cuidei que o mesmo me aconteceria com
tua filha Paulina: aqui  que o meu orgulho pagou amargamente as suas
passadas sobrancerias. Verdadeira e insanavel paixo me inspirou
Paulina; e, para cumulo de desgraa e vingana d'outras, tua filha, bem
longe de amar-me, convencido me deixou de me aborrecer. Primeiro
imaginei que Paulina no podia ou no queria amar alguem: isto podia
ser; porque ha mulheres sem corao, e ha outras que parecem ter quatro:
com os homens d-se o mesmo caso. Porm, primo Briteiros, a razo do
desamor de tua filha era a mais natural do mundo;  por que tua filha
amava e ama outro homem.

--O que?!--interrompeu iracundo o fidalgo.--Minha filha ama outro homem!
Calumnia! A minha Paulina no ama ninguem; e hade ser tua mulher, se eu
quizer que ella seja tua mulher. Entendes tu, marquez?

--Perfeitamente entendi, primo; mas eu  que sou incapaz de permittir
violencias, e acceitar esposa violentada. Outrem me julgue tal; mas tu
no, Bartholo, que conheces a nossa familia, e sabes que meus avs deram
para casa dos reis suas irms, e receberam como esposas as filhas dos
reis.

--Bem sei, bem sei que foram esses os costumes da nossa familia; mas por
isso mesmo  preciso que eu obrigue a minha filha a manter-se na
dignidade de seus avs. Quem  o homem que ella ama?

--Pergunta-lh'o tu, primo. Se ella no t'o disser, consente que eu, por
honra mesmo de nosso sangue, o no pronuncie.

--Que? pois ella ama algum mechanico? Responde por quem s, marquez!
Depressa, que me sobe o sangue ao cerebro!

--J te disse que ha grande deshonra em tal inclinao, primo... No
forces a minha repugnancia a revelar-te o que de mim mesmo eu quizera
poder esconder.

Bartholo de Briteiros andava na sala, aos empurres das furias,
sacudindo vertiginosamente os braos, emquanto o marquez com a face
entre as mos, e os cotovellos encostados s almofadas de uma ottomana
lhe relanceava os olhos de infame penetrao. Quando viu que era tempo,
ergueu-se, tomou nos braos o pae de Paulina, e disse-lhe:

--Estou vivamente arrependido. No devia ter dito nada. Era mais nobre
esmagar-me no corao, e poupar o teu de pae, e pae como tu s, meu caro
primo. Perdoa-me, e perdoa as fragilidades de tua filha.  um amor de
creana que ella tem ao...

--Ao... quem?--exclamou Briteiros com uma grammatica desculpavel  sua
angustia.

--Porque no hei de eu dizer-t'o, se o enlace mesmo de sangue me obriga
a velar pela honra de tua familia, que tambem  minha! Tu nunca
suspeitaste d'este Fernando Gomes?

--Fernando Gomes! pois tu crs que minha filha ama Fernandes Gomes?!

--Creio, sei-o, tenho a maxima certeza. Agora no ha que tergiversar.
Cheguei ao ponto de me perder no teu conceito, se no adduzir provas.
Paulina vae ao caramancho que est sobre o caminho, e d'alli fala a
Fernando, s horas em que tu dormes a sesta. Trocam-se cartas todos os
dias. Estes factos so presenciados por quem os quer ver. Vi eu mesmo,
depois que me avisaram. Reprehendi a prima Paulina, em termos de bom e
zeloso parente e amigo. Tua filha respondeu-me com azedume,
recommendando-me que me no intromettesse na vida alheia. Repliquei com
as mais sagradas razes; dei-lhe como possivel, se no certo, ser
Fernando algum miseravel dos que de repente se levantaram da lama de
Portugal, e vieram no extrangeiro fazer luzir o ouro, que lhes seria
vergonha na patria. Rebateu-me com o mais formal e mais descomposto
desdem, que meus olhos nunca viram em menina com tal edade e educao, e
de tal linhagem! N'esta altura da questo, entendi que o meu dever era
deixal-a ao espirito tentador que a quer perder; todavia, mais sagrado
dever me admoestou a que te avisasse, primo, para no tomar sobre mim a
cumplicidade de alguma enorme desgraa, e mais enorme deshonra. Agora
encarecidamente te rogo que te hajas com a cautela e prudencia que to
melindroso negocio requer.

--Que hei de eu fazer?!--bradou Bartholo.

--Sae com tuas filhas de Florena. Vamos para Londres. Eu irei adiante
preparar-te aposentos. L, se o biltre a perseguir, eu lhe tornarei
impossivel o accesso, e a possibilidade de a ver. Se outro passo deres,
receio que seja o peor para te sares dignamente da difficuldade. O ar
com que tua filha me falou revela proposito de ferro, e resoluo
inabalavel. Pde temer-te; mas obedecer-te no. Fia-te em mim, que eu
sei o que so mulheres, primo. Finge que no sabes nada. Prepara com
qualquer pretexto a tua viagem, e tu colhers depois os bons fructos da
prudencia. Se, como creio, tua filha mudar de idas em Londres, com o
mais sincero corao te digo que serei ditoso fazendo-a marqueza de
Tavira; mas, para que este enlace se possa fazer,  necessario que ella
nunca desconfie que eu fui o denunciante d'este vergonhoso affecto.
Convens n'isto, primo Bartholo?

--Convenho, marquez... Seja assim..

Acabava o pae de Paulina de proferir a ultima palavra, quando as duas
meninas, p ante p, se afastavam ao longo do corredor que conduzia da
sala, em que os dois dialogaram, para o interior da casa.

Paulina lanou-se no braos da irm, e exclamou:

--Oh! que infame  aquelle homem! que infame!... Que hei de eu fazer,
Eugenia? diz-m'o por compaixo da tua pobre Paulina!

--Que has de tu fazer, filha?... Eu sei!... Soffrer como eu soffri,
quando o pae nos tirou de Paris...

--Isso  que no!--replicou Paulina--No me deixo assim esmagar!
Fernando ha de ir tambem para Londres. Vou escrever-lhe e contar-lhe
tudo... se o no puder ver, terei a coragem de soffrer e esperar, com a
certeza de que elle est tambem em Londres... Pois que pensas tu?... Eu
no posso esquecel-o, assim como tu esqueceste o francez, Eugenia! 
porque tu o no amavas; se o amasses, a desesperao te daria foras!
Tenho-as; sinto-me capaz de tudo!... O malvado!...  custa de que
infamia elle queria fazer-me marqueza!...

--Eu logo te disse--atalhou Eugenia--que no fazias bem em falar com
tanta soberba, quando elle te reprehendeu...

--Fiz muito bem! desenganei-o: est desenganado para sempre... Agora
tudo que elle fizer so indignidades, e cada dia, e cada hora, hei de
abominal-o mais.

Aqui tem a leitora bem significada Paulina n'este conhecido verso:

    _s vezes branca nuvem cospe um raio!_

Quem diria que tamanhos vulces de colera se escondiam no sereno peito
da gentil creatura, que parecia talhada de molde para soffrer docilmente
o martyrio! Ahi est o que faz o sol de Florena! Devem-se  Italia
aquellas conflagraes! Em Portugal me quer parecer que Paulina no
fosse aquillo. A minha espionagem de romancista nunca me alviarou casos
identicos de barreiras de Portugal a dentro. Por isso mesmo  que eu
tenho de ir em cata dos meus personagens l fora, para alternar, com
lances de estremecer, as frias historias que tenho posto em livros de
que ninguem se espanta, e que passam por as mais frias, insipidas, e
inertes lucubraes do espirito humano. Esta agora, sim!

Paulina cortou o folego da imprecao para ir escrever a Fernando.

Poz em resumo o dialogo do pae com o marquez, e a resoluo de ambos.
Pedia-lhe que os seguisse para Londres, e averiguasse onde se alojavam.
Asseverava-lhe que,  custa de tudo, se haviam de ver em Londres; e
terminava, com a mais candida desenvoltura que pde ter uma menina,
dizendo que, extremos de perseguio, ella fugiria para elle, e seria
sua esposa.

Na tarde d'este dia Bartholo de Briteiros deitou-se a dormir a sesta:
assim lh'o impoz o cauteloso espio. Fernando j tinha em si a carta e a
resposta. Appareceu na praa do Dome, e Paulina no caramancho. Poucas
expresses se trocaram depois que Fernando atirou a carta.

A resposta era qual a delicada menina podia mais ambicionar. O amante
sentia-se menos desditoso do que ella se imaginava. Para elle a
afflico de Paulina era extrema prova de amor. Antes a queria assim
contrariada, e acrisolada ao fogo da oppresso. Incutia-lhe animo e
esperanas. Promettia, mediante o auxilio do ministro em Londres, espiar
os menores passos do marquez e de Bartholo. Se a no acorooava a fugir
de seu pae, antevia, como primeira hora de sua felicidade sem nuvem,
aquella em que Paulina se confiasse  sua honra. Do marquez dizia apenas
que era inferior ao seu nojo, e lamentava que os grandes fidalgos
andassem a competir em aviltamento com a mais infima ral.

O marquez, escondido n'uma loja da praa, presenciava os passos de
Fernando. O homem, que tanto preleccionara acerca da prudencia, no teve
mo de si. O demonio da pobreza espicaava-o! Era o demonio da pobreza
que prevalecia s furias do ciume. Saiu da loja, e veio ao meio da praa
por onde Fernando caminhava com a altivez que d a felicidade do
corao.

Viu elle o marquez, e, a seu pesar, dardejou-lhe um olhar de desprezo,
que parecia provocao. O neto de reis, se havia de ir vante, e deixar
o verme, parou, metteu as mos nas algibeiras; e fez um tregeito de
pernas, e assobiou umas toadas, que fariam as delicias de um faiante em
pleno goso de seus tavernaes meneios.

Fernando sorriu-se, e caminhou.

--O senhor ri-se?--exclamou o marquez.

--Ri, sim, senhor--disse placidamente o filho de Francisco Loureno.

--Que quer dizer o seu riso?!--replicou o fidalgo.

--Que vossa excellencia  uma pessoa irrisoria.

--Mas eu arranco-lhe os figados pela boca, bradou o marquez.

--Operao difficil!... tornou Fernando sorrindo.

--Julga-me da sua bitola, s villo?

--Eu no sei como hei de julga-lo, senhor marquez, depois que o julguei
tolo!

E approximou-se com magestosa serenidade. Fernando parecia crescer,
nutrir, illuminar-se, e tornar-se mesmo grande aos olhos do
convencionado de Evora-Monte.

--Tem de dar-me uma satisfao com armas! replicou o marquez. Joga
alguma que no seja o arcabuz do cerco do Porto?

--No senhor; no jogo armas.

--Quer dizer que no se bate?

--Bato com todas.

--Tem padrinhos?

--Os dois primeiros homens que se encontrarem. O primeiro j eu vi.

--Quem? diga-o, para lhe enviar os meus.

-- um pintor: chama-se Leopoldo Roberto.

--L me quiz parecer! disse o marquez gargalhando uma risada secca.

--Que lhe quiz parecer a vossa excellencia?!

--Que os seus padrinhos haviam de ser pintores ou cousa que o valesse...

--A coarctada  miseravel, senhor marquez! vossa excellencia  um
covarde, que no vale o desprezo do pintor.

O marquez de Tavira levou as mos s proprias respeitaveis barbas.
Puchou as mechas a um lado e outro com tregeitos muito de incutir terror
em almas fracas. Deteve-se um pouco n'esta operao minacissima, e tirou
do peito alfim estas memorandas coisas:

--Villo seria eu se expozesse a minha vida ao revez de sujar-me com tal
competidor! Precisamente o senhor  um aventureiro, que anda a farejar
mulher dotada c por paizes onde lhe no conhecem a suja betesga d'onde
saiu. L na patria sabem-lhe o nome, ou ninguem lh'o sabe,  mais
acertado dizer!... Convinha-lhe a filha de Bartholo de Briteiros? Que
atrevimento de ambies o seu! Afinal, que espera colher d'esta
aventura?... A correco dada por um lacaio de meu primo!

--Se o lacaio tiver mais coragem do que vossa excellencia, em cujos
hombros assentaria cabalmente a farda.

--Miseravel!...--rugiu o marquez!

--Tolo!--replicou Fernando.

O primeiro voltou as costas; o filho do artista permaneceu no seu posto
alguns minutos, encarando as duas meninas, que os viram approximar da
praa, e esperavam, atribuladas, a infelicidade do encontro.


XII

Decorridos dez dias, chegou a Napoles Francisco Loureno. Aqui o
trouxera a certeza anciosa de encontrar seu filho em convalescena, se 
que Fernando o no enganra com o louvavel intento de o poupar a maiores
afflices. Durante a viagem para Frana, o artista entendeu que sara
precipitadamente de Lisboa, sem agenciar relaes que o dirigissem a
Napoles. Quem o guiaria n'uma grande cidade como aquella? Estaria o
filho n'um hotel ou nos arrebaldes?

Para remediar semelhante imprevidencia, dirigiu-se, torcendo o seu
itenerario, a Paris, e apresentou-se ao ministro portuguez, expondo o
seu destino. O ministro deu-lhe carta para Napoles.

Poucas horas depois da chegada, Francisco Loureno tinha a certeza de
que seu filho saira de Napoles dois annos antes, e nunca mais ahi
voltra, e a certeza tambem de que o moo estava em Florena, havia
quinze dias.

Saiu Francisco para Florena, cuidando que seu filho peorra, ou
melhorra a ponto de dispensar a convalescena n'outros ares. Com as
recommendaes que levra de Napoles, soube em pouco tempo que Fernando
embarcra em Genova com destino a Londres.

--A Londres!...--exclamou o velho.--Ento  certo que meu filho me vae
fugindo.

-- mais natural que o v procurando--respondeu a pessoa a quem o
artista ia de Florena recommendado.--Pde ser que seu filho fosse
embarcar para Portugal em algum dos portos de Inglaterra. O certo  que,
minutos depois da sua chegada a Londres, o senhor ha de saber onde seu
filho est hospedado, se  que elle l est. Entretanto as minhas
informaes do que Fernando Gomes--continuou o chefe da policia de
Florena--estava mais ou menos ligado com uma familia portugueza
emigrada, cuja cabea  Bartholo de Briteiros, residente n'esta cidade
por espao de dois annos e tantos mezes. Dizem mais que Fernando Gomes e
um tal marquez de Tavira concorreram a amar uma filha do senhor de
Briteiros, e por ciume se insultaram na praa do Dome.

--E meu filho--atalhou Francisco Loureno com amargura--no esteve
doente?!

--As minhas informaes no me dizem que elle estivesse doente, e penso
poder asseverar-lhe que seu filho gosou em Florena a melhor saude.
Encontrei-o miudas vezes em casa de Jeronymo Bonaparte, onde elle era
muito estimado do principe. Comquanto no estivessemos relacionados, s
de o ver devo crer que o senhor Fernando Gomes passasse bem, a julgar
pelo seu aspecto no doentio, posto que pallido.

Munido de indicaes e uma carta, Francisco foi esperar em Genova a
sahida de um barco inglez para Falmouth.

To rapidamente quanto em Florena lhe prometteram esclarecimentos,
recebeu-os em Londres, na repartio da policia, onde lhe deram um
_policeman_ que o guiou  rua, hotel, e numero do quarto em que assistia
Fernando. O velho fez mentalmente o elogio da policia britannica.

Bateu Francisco Loureno na porta indicada. Abriu-lh'a o filho.

--Entro com os braos abertos!--disse o velho convulsivo de jubilo.--No
te venho ralhar, filho!...

Fernando abraou-o com fervor, e limpou-lhe as lagrimas copiosas.

--Minha me como est?--disse Fernando...

--Doente a deixei... Deus sabe como ella est... Acho-te bom, meu
Fernando... Ainda bem!... No cuides que eu antes queria achar-te
doente... Perdo-te a mentira, porque... antes assim... E agora?...
Agora vens ver tua me?...

--Descance, meu pae--atalhou o enleiado moo.--Descance, e depois...

--No pde ser depois, Fernando... Que fao eu aqui?! No vim vr
Londres; vim procurar-te, vim chamar-te. Se me no seguires, que fao eu
longe de tua me, que a esta hora mal sabe que voltas tenho dado... Era
melhor que me no dissesses que ias para Napoles: poupavas-me tanto
desgosto e fadiga!... Bem vs que estou muito velho... No me deixaste
assim... Em tres annos ninguem envelhece tanto...

--Perdo, meu pae!--exclamou Fernando, apertando contra o seio as cans
do velho lagrimoso.

--Tanto chorar, na minha edade,  sorte de poucos... Vejo tantos paes,
com os meus annos, em socego,  espera da morte, rodeados de seus
filhos, fartos e ricos do fructo dos trabalhos d'elles...

--Tem razo...--atalhou Fernando--mas esses so os paes que teem filhos
menos desgraados que eu! Eu queria contar-lhe a minha vida... uma s
palavra a explica...  uma paixo, meu pae, que me deshonrou aos seus
olhos; por amor d'uma mulher lhe menti, e me envileci em minha propria
consciencia...

--No ests deshonrado aos meus olhos, Fernando... Desgraado  que me
pareces, filho... No me contes a tua vida, que a sei. L deixaste em
Florena as tuas memorias... Isso mesmo por que m'o no disseste? Antes
isso que o engano. Eu no me espantaria que deixasses pae e me por uma
mulher. Tuas irms tinham sido criadas no regao de tua me, e fizeram o
mesmo... Deixaram-nos ssinhos. Mas poders tu dizer-me que futuro  o
teu? que tencionas fazer? Bartholo de Briteiros, esse mau homem, que tem
uma historia escripta com sangue, foge-te com a filha para Londres. Que
vens tu aqui fazer? Queres tirar-lh'a?

--No, meu pae; quero vel-a, unicamente vel-a; porque no dia em que
perder a esperana de a tornar a vr, hei de matar-me para esquecel-a...

Fernando escondeu o rosto no seio do pae, e exclamou:

--Deixe-me chorar, que so as primeiras lagrimas. No houve corao
algum que m'as recebesse...

E soluava convulsivamente nos braos do velho, que o apertava ao peito
com tremuras de compaixo e amor.

--Diz-me tu, filho...--tornou com muita brandura Francisco
Loureno--essa senhora despreza-te?

--Oh! no!... O desprezo seria a minha salvao--respondeu Fernando com
vehemencia.--A desgraa  ella amar-me, e ser uma santa em dedicao e
sacrificios. Por amor de mim foi tirada de Florena para Londres; e ha
quinze dias que a cada instante a espero aqui... fugindo  crueza do
pae, que quer casal-a...

--E tu has de acceitar uma filha fugida a seu pae?...--interrompeu o
velho.--V se podes,  custa mesmo da vida, ser honrado, filho! Seja o
pae um malvado, seja a filha uma santa, embora...; mas no te absolvas
em tua consciencia, se consentires que essa menina fuja para ti.

--Mas o pae faz-me a injustia de suppr que eu no irei logo recebel-a
como esposa? No sabe que ella ...

--Sei que  rica... os Briteiros so muito ricos... Isso  que me queres
dizer, Fernando?...

--No, senhor; queria dizer-lhe que Paulina Briteiros no  mulher que
algum homem possa victimar, por mais infame que ser possa; ora eu, meu
pae, amo-a com esta paixo que v. O mundo no nos perdoaria a culpa de
nos unirmos contra a vontade de seu pae?

--O mundo no vos deixaria unir sem grande perseguio, filho. Antes de
alcanares o descano de uma honrada lucta com a sociedade, serias
muitas vezes infamado, esmagado e talvez vencido.

--Espere, meu pae!... cale-se!--exclamou de subito Fernando.--Estes
passos so de mulher...

--Ser ella, meu Deus!--disse Francisco Loureno.

Fernando foi  porta, viu a criada confidente de Paulina. A moa assim
que o viu debulhou-se em lagrimas, e balbuciou:

--A menina no pde escrever-lhe... Est-se preparando para sair com o
pae... Recebeu ordem de repente. Vai para um convento da Irlanda: foi o
que elle lhe disse, a no querer ella casar com o maldito marquez. A
senhora D. Paulina no verteu nem uma lagrima, e respondeu: Irei para
onde o pae quizer; no caso com o marquez, que  um villo. Que coragem
a d'aquella menina! Depois fez-me um signal; e eu corri a participar-lhe
isto. A senhora D. Eugenia manda-lhe pedir que, para salvar a irm de
morrer no convento, indo o senhor para fra de Londres, talvez se
conseguisse que o pae a deixasse ficar em casa, e manda-lhe dizer que o
faa se tem amor  pobre menina.

--E porque no hade elle fazel-o?--atalhou Francisco Loureno.--Diga
vocemec a sua ama que ao lado de Fernando est seu pae, e que meu
filho, por amor da senhora que soffre tanto, nos ha de obedecer a ambos.

-- impossivel!--exclamou Fernando allucinado por sua enorme
angustia.-- impossivel desamparal-a no maior aperto da perseguio!
Para que me quer meu pae em Portugal, se eu vou l morrer?!... Que vil
eu seria no conceito de Paulina, affastando-me na occasio em que ella
mais precisa do meu conforto?... Diga  sr. D. Eugenia--proseguiu elle
voltando-se para a criada--que eu no posso obedecer lhe, salvo se ella
entende que a minha morte remedeia os desgostos de sua irm.  de crer
que sim; mas eu  que estou convencido que Paulina quer que eu viva.

Francisco Loureno fitava o filho com os olhos embaciados de lagrimas, e
no o contradisse.

A creada sau com um bilhete d'oito linhas escriptas por Fernando.

Aps breves instantes de silencio d'ambos, o filho disse serenamente:

--Meu bom pae, eu agradeo  Providencia poder n'esta hora falar com um
homem a quem devo as primeiras luzes da minha intelligencia. Maior
desgraa seria a minha, se meu pae no podesse comprender-me,
indultar-me, e compadecer-se. Accuso-me de o ter enganado; era mais
honroso dizer-lhe que tinha corao, mas eu cuidei que mentindo, sem
medo de ser descoberto, salvava a irreverencia inseparavel de
confidencias taes a um pae. O meu engano duplica o merecimento de ser
perdoado. Conhece a minha situao, meu pae. Com a alma despedaada lhe
digo que no sei como remedial-a. Quer que eu o siga? Seguirei: j vejo
de todo e para sempre negra a minha vida... Seguirei; mas uma hora vir
em que meu pae se lastime por ter imposto ao meu corao a sua
respeitavel vontade. Se quer que eu viva e procure alguma sada d'este
circulo de ferro, deixe-me seguir Paulina  Irlanda...

--Bem, filho--atalhou o velho contrafazendo placidez e seguridade de
animo--Concedo o que desejas e precisas; mas escuta: os meus haveres so
poucos; tuas irms casaram dotadas; tu pouco tens gastado
comparativamente ao que eu antevia; mas assim mesmo excede o que devia
ser teu dote. A officina d pouco, porque a tenho desamparada. Desde que
em Lisboa se estabeleceram sapateiros francezes, muita freguezia me
deixou. No me affligiu este desprezo do que  nosso, porque, bemdito
seja Deus, contava com o pouco para muita felicidade. Eu estou reduzido
a tres contos de ris, e os bens do Cartaxo, que outro tanto podero
valer. Acabado isto, irei pedir agasalho a uma tua irm, e tua me a
outra; e tu, que s formado, a todo o tempo conseguirs algum emprego
que te alimente. O fim da nossa vida pde assim talhar-se, e Deus
permittir que no seja peor. Digo-te isto para que saibas com que pdes
contar, Fernando. Lana as tuas contas; e, quando vires que tens
consumido o que possuo, tem tu a generosa compaixo de no pedir mais.
Eu comigo no posso contar para o trabalho. Estou com pouquissima vista;
mais de uma vez n'estes ultimos annos me tem ameaado a cegueira. Corre
tudo na loja por conta dos officiaes: uns roubam, outros desmazelam-se;
ninguem tenho em que possa fiar-me. Aqui tens singelamente dito tudo.
Agora s o que poderes ser em favor d'essa senhora; mas no te deshonres
por causa do amor. Eu creio que  falso o amor que leva o homem 
indignidade.

Fernando, aps breve pausa, respondeu:

--Eu sabia quaes eram os haveres de meu pae, quando sa de Lisboa.
Viajei dois annos, gastando o menos que podia. Como o meu viver era s,
e indifferente s regalias das cidades em que passei, restringi as
minhas despezas  sustentao parca, e ao vestido mais urgente. Assim
mesmo gastei muito em proporo do que devia gastar. Pouco tem hoje meu
pae para a sua subsistencia: no devo pedir-lhe um quinho d'essas
migalhas. Irei ensinar linguas na Irlanda: sei um pouco de todas as que
se falam na Europa. Muitos emigrados portuguezes aqui viveram assim. A
fome illude-se com pouco.

Francisco Loureno abraou o filho, e murmurou:

--No quero, filho, no quero isso assim. Quando a necessidade te
obrigar ao trabalho e  independencia dos impossiveis recursos de teu
pae, eu t'o direi sem pejo, nem pesar de te ver humilhado. Ento
trabalhars para ti, e vers quo doce  o po negro que se lavra com o
proprio suor...


XIII

Paulina leu o bilhete de Fernando, que dizia assim:


Ver-me-has em toda a parte; e, quando me no vires, sabe que eu
contemplo o co que te cobre, ou te espero em outro mundo para uma outra
vida. Vivo ou morto, a minha alma ser sempre comtigo, Paulina! manh
parto para Irlanda. No sei se  para Dublin que te levam. Eu te
encontrarei... At l.


E estava alli,  beira d'elle, o choroso velho, aquelle pae amantissimo,
quando Fernando escreveu: _manh parto_!... A crueldade dos filhos que
amam! Que fragil  tudo isto que ahi chamam leis da natureza, quando o
amor, aquella creana dos fabulistas, mesmo s cegas, lhes atira um
encontro!

Em quanto Paulina relia o bilhete e o mostrava  irm com a douda
alegria de mulher amada, Bartholo de Briteiros, encerrado com o marquez
de Tavira, dialogavam d'este theor:

--Mas no me sabers tu explicar o contentamento com que Paulina se est
preparando?!--dizia Bartholo.

--Aquillo  febre que arrefece depressa, primo Briteiros. As mulheres
so assim.

--E era capaz de entrar no convento, e esquecer-se de pae, irm, e tudo!

--Nos primeiros dias, sim; depois, quando lhe faltasse o animo, e no
visse o Fernando, nem tivesse noticias d'elle, modificava o seu parecer
a respeito de conventos e de amor. As mulheres so assim, primo
Briteiros. Umas ha que so capazes de morrer por orgulho, e outras por
soberba so capazes de se envilecerem. Mas a nossa Paulina no ha de
morrer nem aviltar-se, visto que o convento  uma fabula, e a fria
Irlanda se no ha de gosar de a ter nos seus mosteiros. A creada
desempenhou perfeitamente o papel, pelos modos.  o dinheiro mais bem
empregado que tu tens consumido para salvar tuas filhas das unhas dos
aventureiros...

Corte-se aqui o dialogo para dar um esboo muito pela rama d'esta ladina
creada, que tambem tinha a honra de ser portugueza.

O marquez descobrira que ella era a intermediaria de Paulina e Fernando.
Aconselhou, por isso, Bartholo que a seduzisse com dinheiro a ir
participar a Fernando que a menina se recolhia a um mosteiro da Irlanda;
e ao mesmo tempo, da parte de Eugenia, lhe pedisse que se retirasse de
Londres, a ver se assim abrandavam os rigores do pae. A creada accedeu 
proposta com o mais admiravel desapego de gratificao. Saiu logo a
cumprir o mandado, e recebeu o bilhete de Fernando. Na fiel entrega do
bilhete a Paulina  que assenta o elogio da creada. Bartholo ficou
contente d'ella, e Paulina extremamente grata  expontanea resoluo da
creada. Mas  pena que tanto a ama, como a creada, como Fernando Gomes
fossem enganados por cavillaes suggeridas pelo marquez de Tavira, que
era o mais refinado velhaco de que ainda tivemos noticia!

Agora ate-se o dialogo.

--Foi bem lembrada a tua ideia, primo!--tornou o ministro da Alada,
como que orgulhando-se de ter na sua parentella um sujeito com
ideias.--O homem agora vae dar comsigo em Irlanda. Quem diabo lhe ha de
l dizer que ns vamos para Madrid?

-- verdade!--exclamou o inventor da ideia com radiosa ufania.

--Quando elle o souber--tornou Bartholo--espero eu que tu sejas meu
genro, e minha filha feliz... Palavra de cavalheiro! eu no tinha alma
de a fechar n'um convento! Quero-lhe muito, e por isso t'a dou com a
condio de que nunca sair da minha companhia, primo.

--J te disse que a minha maior dr seria separar-me de ti, primo
Briteiros! Se ha pessoa n'este mundo que eu preze tanto como a tua
filha, s tu! Ainda mesmo que Paulina me fique odiando para sempre, e
no venha a ser minha mulher, cr tu que tamanho golpe no cortar os
vinculos de amizade que nos prendem. Serei um teu dedicado irmo, um
vigilante mordomo do teu bem estar, capaz de todo me sacrificar ao zlo
com que tu olhas pela ventura de tuas filhas.

--s honrado, primo Tavira!--exclamou Bartholo--Conta com o amor da
minha Paulina, quando esse maldito demonio a tiver deixado...

--D'elle ests tu livre, Briteiros! Se outro peor no vier depois... mas
eu terei astucia para te salvar de todos.

A creada, que captivara a confiana do amo, como sentisse remorder-lhe o
remorso de ter, apesar de tudo, atraioado a menina que a tratara sempre
como amiga, desde a infancia de ambas, cogitou no modo como foi
industriada, e de si para si decidiu que a ida de Paulina para um
convento de Irlanda era um logro a Fernando Gomes. Levada d'esta
apprehenso, e do desejo de remediar o mal, se era um mal ser ecco da
mentira, foi manso e manso colar a orelha  fechadura da porta que
separava Bartholo e o marquez das salas mais frequentadas da casa. A
parte do dialogo que ella escutou era a mais importante. O amo erguera a
voz, quando perguntou ao marquez:

--_Quem diabo lhe ha de dizer que ns vamos para Madrid?_

--A criada respondeu entre si: Hei de ser eu e foi de corrida contar a
Paulina o que ouvira; e, instantes depois, ia a caminho do hotel de
Fernando com a nova, e j em toda a seguridade de sua consciencia. O
filho do artista ouviu o contra annuncio com prazer. Estava a seu lado o
velho, como a gosar-se em lagrimas das poucas horas de convivencia com
seu filho. Esperava dar-lhe na manh do dia seguinte o adeus de
indeterminada, e talvez eterna separao. A nova foi de prazer para
ambos. Francisco Loureno iria com seu filho para Hespanha, e te-lo-hia
menos longe de si. O prazer de Fernando, de natureza diversa, consistia
em ser Paulina menos sacrificada por amor d'elle. O convento
avultava-lhe com mil angustias, que l no existem. O receio de a ver
sossobrar entre ferros, em lucta com os apertos monasticos recommendados
por Bartholo, era a mais pungente de suas dres. Entreluziam-lhe
esperanas em Madrid: mais facilidade na fuga, mais proteco nos
costumes; amigos que lhe dessem auxilio; e a breve jornada a Portugal.

N'este enlevo de alegrias, foroso era que viesse logo o desconto.
Francisco Loureno, quasi sem ponderar o valor da pergunta, disse a
Fernando:

--Essa senhora sabe de quem s filho?

--Nunca m'o perguntou...

--Nem tu lh'o dirias... mas tens tu reflectido n'este ponto? A senhora
D. Paulina de Briteiros amar-te-hia se lhe tu houvesses dito que teu pae
 o sapateiro da calada do Sacramento? E amar-te-ha, quando alguem,
bastante curioso, ou encarregado de saber o teu nascimento, a informe de
que o viajante portuguez, posto que viva de seus proprios recursos, 
filho de um sapateiro?

Fernando odiou-se a si proprio n'este momento, e respondeu com um gesto
desabrido.

O artista achegou-se do filho para lhe vr o rosto, cujas alteraes
seus olhos no alcanavam. E disse:

--Fizeram-te mal estas reflexes, Fernando?

--Fizeram, meu pae--disse o moo agastado.--Por isso mesmo, para me
forrar d'estas agonias horriveis, melhor fra que me tivesse dado a
felicidade do artista. Eu seria a esta hora um homem com a alegria pura
de todo o homem que trabalha, e tem suas ambies e corao
circumscriptos a muito pouco. Que fatal lembrana a de me arrancar da
minha esphera, para que eu hoje no tenha nenhuma! Os pequenos
regeitar-me-ho como os grandes me regeitam, quando souberem quem eu
sou!...

--Deus se compadea de ti!--murmurou o velho, limpando as lagrimas--e me
perde a mim o mal que te fiz, pelo muito que tenho expiado a minha
vaidade de te fazer maior do que teu pae. Valha-te o Senhor! Que
direitos tens tu a uma felicidade que te custa humilhaes? Para que a
procuras afincadamente, se vaes de rastros aps ella! Por que has de tu
querer hombrear com os grandes, se eu apenas te fiz entrar n'uma
carreira por onde levarias teus filhos  grandeza! So as tuas cartas de
bacharel formado que te arremessam aos despropositos das ambies? Ou 
a tua intelligencia que te diz que no nasceste para a mediania? Se  a
tua habilitao, faz que ella te sirva, filho. Entra como quem s, e o
pouco que s, na estrada da honra: faz realar o teu merecimento com tua
mesma humildade, e l irs dar ao ponto onde chega o homem honrado, todo
o homem, ainda que a muitos parea que no. A tua intelligencia 
impossivel que te aconselhe esse odio ao acaso que te fez nascer de paes
mechanicos. Eu, filho, li quanto pude, estudei quanto os meus poucos
principios me permittiram; e Deus sabe que nunca tive pejo de ser quem
era. A razo esclarecida  o que falta aos homens que se envergonham de
no terem nascido j nobres, j respeitados, e idolatrados do mundo.
Pensava eu que, allumiando a tua razo, te dava armas para combateres os
prejuizos e preconceitos miseraveis das raas. Fiz o contrario, filho;
justamente o contrario...

--No, meu pae...--interrompeu Fernando--perdoe-me, e no se afflija,
por amor de minha me lh'o rogo! Eu tenho o presentimento de que ainda
hei de provar-lhe que me no vexo da baixeza do meu nascimento... esta
dr foi uma irreflexo, meu pae. Tem o corao estes desgraados
caprichos... Caprichos, e mais nada... Se Paulina me perguntar quem sou,
dir-lhe-hei quem sou; se quizer saber quem  meu pae, dir-lhe-hei
ufanamente quem  meu pae. Por que no?... Aquella candida alma
deslustrar-se-hia em me ter pertencido? Ento que torpe deve ser o
corao humano! Com que prazer e ardor eu iria buscar  derradeira ordem
social a mulher pobre, a filha do varredor das ruas, a filha do
carrasco, que me desse o seu amor, sem perguntar-me a minha origem?...

Alongou-se o dialogo entre os dois, que terminaram abraando-se, e
chorando.

Era tempo de se aprestarem para a viagem. Fernando, sabendo que a
familia Briteiros havia de atravessar o Canal no dia seguinte, de
passagem para Frana, tomou nota da saida de um navio de Plymouth para
portos de Hespanha. Resolveram seguir o caminho mais perto, consultando
a vontade de seu pae.

Pessoa extranha, que observasse o aspecto de Fernando, veria as nuvens
que lhe assombreavam a alma. Embacira-se-lhe, no sabemos por que
maravilhoso influxo, a limpidez da esperana, com a qual at quella
hora conseguira affrontar a adversidade. Era o desalento, um no sei que
de contrico intima, que paralysa as faculdades robustas da vontade
n'um quasi morrer de toda ella.

As terriveis hypotheses do pae, concernentes ao sapateiro em amores com
a illustrissima pretendida do marquez de Tavira, poderiam tanto!

O orgulho do corao do homem do povo ser capaz de aniquilar tamanha
paixo?

Ha exemplos; mas to obscuros que nenhum romancista quer fazer obra por
elles.

Em novella, criada para as folgas de grandes damas, e galans mancebos,
enfastiados d'outros gosos, qual romancista baixa das alturas da sua
imaginao a historiar quadros sociaes de sapateiros?

Se em Portugal os sapateiros lessem, tal livro seria comprado por uma
classe e pagaria as fadigas do popular escriptor.

 precisa muita abnegao para isto, n'esta terra e com esta gente, que
acha mesmo illiteraria a palavra sapateiro.

_Artista_, recommendam-me que diga _artista_, para no offender o
apparelho articular das pessoas afidalgadas de nervos!

J ! ha poucos mezes contei, romanceei, panegyriquei a vida de um
gallego n'um volume de duzentas e tantas paginas!  rastear muito esta
arte! Ha tanto principe na historia portugueza a pedir romance! e tanta
princeza tambem!

Por que no hei de eu escrever historias de principes e de princezas, e
deixar os sapateiros subir algum tanto na escala d'umas qualificaes
modernas que elles se vo inventando para seu uso, que a isso os obriga
o menos-preo d'esta luminosissima e fraternal civilisao?

O nome de sapateiro est a sumir-se. J muitos do menoscabado officio se
denominam _artistas d'artes correlativas_... dos ps. Dos individuos
cultos, que os mettem n'estas andanas e chibanas, deviam elles
chamar-se no _sapateiros_, mas _ferradores_.


XV

O secretario da embaixada portugueza em Madrid havia sido camarada de
Fernando Gomes no cerco do Porto; e seu contemporaneo na universidade.
Approximara-os mais em Coimbra o paralelo dos nascimentos: eram ambos
filhos de artistas. Separados depois da formatura, um para os cargos
publicos, outro para as viagens, continuaram sempre correspondencia de
bons amigos. O secretario da legao recebeu a nova da chegada de
Fernando a Madrid, e maravilhou-se de encontral-o sumido n'um quarto de
obscura estalagem.

Contou o bacharel diffusamente a historia dos seus vagabundos amores, e
explicou a obscuridade e recato em que tencionava viver para no causar
desgostos  filha de Bartholo de Briteiros. Queria elle existir
secretamente em Madrid, de modo que o pae de Paulina o imaginasse na
Irlanda, procurando a reclusa nos conventos; entretanto, era seu intento
diligenciar casarem-se judicialmente, ou, no extremo d'algum imprevisto
accidente, fugir com ella para Portugal. O amigo escusava prometter-lhe
todo o auxilio. Era este um dos academicos que frequentavam a
universidade em 1828, quando os dois lentes foram assassinados. Fra
elle um dos sorteados para a impolitica vingana; como quer, porm, que
estivesse enfermo n'essa occasio, forrou-se assim ao incommodo de ser
estrangulado. Ora Bartholo de Briteiros, como sabem, tinha sido o mais
impassivel signatario do accordo: o amigo de Fernando vira caminharem 
forca os seus condiscipulos; e tal rancor ganhou aos juizes, que s o
nome de Briteiros lhe trouxe aos olhos faulas de raiva mal abafada pelo
correr de dez annos. Para elle era no s prova de amigo, mas desforra
de inimigo coadjuvar o camarada das linhas do Porto a zombar das
astucias do ministro da Alada.

Com tal proteco, Fernando soube a hora em que chegou Bartholo, a rua e
hotel onde se aposentou; e Paulina, pouco depois da sua chegada, recebia
d'uma creada do seu quarto, na hospedaria, uma carta de Fernando.

Francisco Loureno, cuidando que assim ficavam bem encaminhados os
honestos intentos de seu filho, seguiu para Lisboa. A me, anciada de
saudades de ambos, quando viu o marido sem o filho, arrancou um ai, e
perdeu o sentimento. Volvendo a si, ouviu com pasmo a miuda narrativa
dos casos acontecidos ao esposo, e deu graas a Deus sem arguir a dura
alma do filho.  santa mulher, para sua consolao, bastou lhe saber que
Fernando vivia. O procurar elle sua felicidade, na idade propria do
amor, com tantas adversidades, foi  boa me maior motivo de
compadecimento que de censura. Como, por momentos, o considerou morto,
era natural que tudo lhe perdoasse, estando elle vivo. Assim ficaram os
dois velhos, esperando que inesperadamente lhes apparecessem casados o
filho e a gentil fidalga. Francisco Loureno foi ao Cartaxo dar ordens a
confortos da casa, mobilao, e mais aprestos, sendo que Fernando
mostrara desejos d'ir alli descanar annos, ou talvez a vida toda,
qualquer que fosse o incerto desenlace de suas canceiras.

Bartholo e o marquez de Tavira davam-se os embora do feliz exito da sua
falcatrua. Viam Paulina alegre, dada a bailes e a theatros, com bom
rosto para o proprio marquez, e nem por sombras magoada d'alguma
fugitiva saudade! O fidalgo continuava sempre a dizer que as mulheres
eram assim. E o pae de Paulina admirava a esperteza e acume seu futuro
genro.

Raro dia faltava  menina carta de Fernando, por interveno do
secretario da legao, que acintemente acceitara o conhecimento do
marquez de Tavira, para mais de perto collaborar na derrota do Bartholo.

Paulina entretinha horas de conversao com o amigo de Fernando,
intervaladas por troca rapida de palavras concernentes ao intento que os
approximava. No animo do fidalgo j a suspeita se ia ingerindo: a
assiduidade das visitas do secretario incommodava-o, e tinha-o de
atalaia. O marquez inquietava-se no menos que o primo. Acordaram os
dois em dar de mo ao visitante diario d'algumas horas. Mas, nos bailes
ou nos theatros, o secretario era o flagello dos dois olheiros, que se
viam baldeados, como l dizem, entre Scylla e Charybdes.

Assentou Bartholo em ser pae severo. Apresentou-se  filha. Ia de
catadura horrida. Dir-se-ia que empunhava a penna para assignar um
accordo de pena ultima.

--Paulina!--disse.

--Meu pap.

--Vamos a contas.

--A contas?!

--Que quer dizer a pertinacia d'este homem, que te no deixa?

--Qual homem, meu pap?--disse ella, pensando que Fernando fra
descoberto no seu esconderijo.

--O homem da embaixada... este mal trapilho que tem o pae em Lisboa a
fazer candieiros na rua Augusta.

--Eu sei c o que elle quer?... O primo marquez foi quem o apresentou, e
no me disse se o pae d'elle fazia candieiros.

--Fale-me com mais humildade!--bradou Bartholo.

--Pois eu que disse menos humilde?

--No quero ironias.

--Ironias!... O pap  injusto comigo!... Eu posso l saber a razo
porque o homem nos procura? Pensei que o faria por delicadeza, por
sermos patricios, e conhecermos pouco a sociedade de Madrid.

--Ento...--tornou o pae--asseveras-me que elle no tem inteno nenhuma
menos respeitosa?

--Pois elle ha de faltar-me ao respeito?... Jesus!

 cos! o rosto de innocencia estupida com que Paulina fez aquella
pergunta!  amor, o que tu pdes e fazes! Que uma dama de bons annos,
quarenta pelo menos, puxados  fieira do amor, consiga lograr uma
criana incauta, isto est de seu na natureza das cousas; mas que uma
menina de dezesete annos, ainda agora a florescer a sua primeira
primavera de corao, zombe da vigilancia e perspicacia d'um pae
quinquagenario, e o esteja assim logrando com uns dizeres de parvoinha
candura!... Uma hora de amor  um curso de theatro completo. Quantas
fices l se aprendem, com grandes estafas, nas aulas do conservatorio
dramatico, vae ahi qualquer menina espigadinha exercita-las todas ante o
auditorio da sua familia, se me concedeis que ella tenha uma faisca de
lume no olho, e um Etna dentro do peito!

E diz o apophtegma antigo: _Amor logra muitas cousas, e o dinheiro
tudo_! No  assim: as luzes desmentiram tambem os Senecas e
Theophrastos. O dinheiro no consegue desbestialisar o alarve que o tem
a rdos; e o amor vae dentro do espirito mais rombo e bto, e eil-o que
o desentranha em prodigios de subtilezas, argucias, e sublimes
velhacarias! E at talento! Ha ahi sujeito que vingou um nome
esperanoso n'uma poca de sua vida: chegou mesmo a escrever locaes com
certo orientalismo; e de repente tapam-se-lhe as valvulas, e o talento
suppura por tolice. Que foi? Averigua-se e sabe-se que o homem deixou de
escrever as locaes aziaticas assim que a mulher amada casou com outro.

Bartholo no teve que recalcitrar a esta pergunta:

--Pois ha de elle faltar-me ao respeito!?--E depois a exclamao
Jesus! desarmou-lhe de todo as suspeitas. E, como se tanto fosse
pouco, Paulina continuou:

--No quer o pap que eu fale mais com o Almeida? No falarei. Ver como
lhe volto as costas assim que o vir.

--No  preciso tanto, nem nada, filha--redarguiu de muito bom rosto o
pae--se me tu dizes que o Almeida nada te diz que te preoccupe o
corao...

--O corao!--interrompeu a menina com o mais pasmado e lindo
semblante.--Ora essa!... O pap est a rir-se de mim, no est?

--Falo-te serio, Paulina... Tenho muito medo da inexperiencia dos teus
annos. Tu tens-me feito o sangue de fel e vinagre por causa d'aquelle
homem, que me ia roubando a tua estima, e a ti mesma te ia fazendo
esquecer de quem s... Ora agora, filhinha, que essa tempestade passou,
tu no me dirs que foi o que te moveu a gostar do tal Gomes?... No te
envergonhes, menina, que ninguem nos ouve... Elle no se inculcava
sequer pessoa de bem; era um bacharelzito, um inimigo das nossas crenas
politicas e religiosas; em quanto  figura, tudo n'elle  plebeu,
trivial; mesmo em talento e instruco, que o principe gabava muito, eu
nunca lhe ouvi dizer cousa que admirasse a gente; emfim, queria eu que
me tu dissesses por que amaste tal homem...

--Era um passa-tempo, pap!

--No duvido, Paulina; mas as meninas da tua qualidade, quando
galanteiam para se divertirem, escolhem outra casta de homens, para que
se lhes no atire  cara com precedentes desairosos, quando ellas amam
seriamente, e com proposito de se casarem. Ora diz-me tu c: se teu
primo marquez se lembra de casar comtigo, cuidas que elle ha de gostar
que tu hajas acceitado a crte d'um sarrafaal sem nome, que andava por
esse mundo a gastar uns safados cobres l do pae, que ninguem conhece?

--Pois sim...--disse Paulina com mal refreada vehemencia--mas como o
primo marquez se no lembra de ser meu marido, nem eu o queria, ainda
mesmo que elle pensasse em tal...

--No o querias? ento que mais querias tu, filha.

--Eu no queria mais, nem tanto... Quero estar assim solteira, que estou
bem... O pap no me dizia, ha poucos mezes ainda, que eu e a mana o
matavamos se casassemos!...

--Disse isso, na supposio de que saeis da minha companhia; mas o
marquez, se casar comtigo, no sae da minha casa.  j um contracto
estipulado, filha... A minha palavra est dada; contei com o teu so
juizo, quando a dei... Que respondes tu, Paulinasinha?

--Deixe-me pensar, meu pae. O primo marquez no tem pressa da resposta,
e o pap tambem no. Deixe-me gosar mais algum tempo a minha liberdade,
e depois eu direi o que tiver pensado.

--Pois sim, filha: dou-te quinze dias. Sou um bom pae, no sou? Outro
qualquer diria: isto ha de fazer-se, porque quero que se faa. Eu, no.
Transijo com a minha criana, na certeza de que ella ha de saber-me
agradecer a brandura e os carinhos. No has de querer que eu morra sem
te ver _marqueza de Tavira_! O primo tem os vinculos desfalcados; mas a
fidalguia d'aquelle sangue vale milhes para quem se preza de ser maior
pelo nascimento que pelos bens da fortuna. Morro consolado se encontrar
para tua irm um marido egual... Em quanto ao secretario da legao, no
deixes de lhe falar: trata-o bem, porque, a falar a verdade, lhe devemos
a elle a alguma considerao que temos em Madrid. No me parece mau
rapaz; mas zangava-me ve-lo sempre que podia em segredos comtigo!... Que
te dizia elle?

--Nada que se no podesse ouvir... S alguma vez, nos bailes ou no
theatro, me fez rir com as suas satyras s fidalgas hespanholas...  o
que elle me diz baixinho, para os outros no ouvirem.

--Ah!  isso?--atalhou com boal confiana o jubiloso Bartholo.--Ento,
filha, contina a rir-te com elle; mas tem compaixo do primo marquez,
que arde em zlos quando falas com alguem.

--Pois que no arda, que eu tanto se me d como no que elle fale com
quem quizer. O pae cuida que posso amar o primo marquez, com vinte e
tres annos mais do que eu?...

--Mas parece um rapaz, e ha de ser um excellente esposo, Paulina. Os
maridos querem-se d'aquella edade.

--No sei para que!...--acudiu com perdoavel desenvoltura a menina.

Bartholo ia explicar a vantagem que sobrelevam os maridos de quarenta
aos de vinte annos, quando algum incidente privou a minha joven leitora
de ver aqui tratada a preceito uma materia, que poderia cooperar
grandemente para a sua futura felicidade. Decorreram os quinze dias
aprazados para a deciso de Paulina.

N'este espao estreitou-se mais a correspondencia d'ella e Fernando, j
inclinado  suspirada catastrophe do casamento judicial. A actividade do
secretario, como agente d'este inesperado desfecho, foi inexcedivel.
Opinara elle pela fuga, e depois casarem-se em Portugal. O filho do
artista, com o animo abalado pelas honradas admoestaes de seu pae,
optou pelo casamento judicial, sem prescripo da menor formalidade
honesta. Paulina pendia mais ao parecer do secretario, e achava
escusadas as demasias de probidade com que o noivo queria tratado o seu
casamento. Assim mesmo Fernando reagia  vontade de Paulina, e dizia
acceitar o plano da fuga em ultimo recurso. A recusa estribava n'estas
razes, dadas por elle ao seu amigo:

--Se eu fujo com Paulina, porei um cunho infamante no meu procedimento.
Se eu fosse um grande de Portugal, por brazes ou riquezas, a sociedade
diria que eu tomra o violento alvitre da fuga para remover d'um lano
todas as difficuldades antepostas pelo capricho do pae. Assim plebeu, e
quasi pobre, se fujo com ella, dir-se-ha que desprezei os meios
judiciarios por medo de no achar justia que ousasse contrariar a
vontade do fidalgo poderoso.

--Mas--atalhou o sincero amigo, que sabia muito do corao das damas,
estudado em Hespanha--quem te diz a ti que, durante o processo
necessario ao supprimento do consentimento paterno, a senhora D. Paulina
varia de ideias, e requer a remoo do deposito para casa de seu pae?
Quem te diz que...

--Se o fizer--atalhou Fernando--mais tenho de me louvar pelo meu
procedimento; claro  que Paulina devia arrepender-se, e dar-me o
inferno, as mais tormentuosas agonias que tu podes imaginar. Antes isso,
meu amigo: antes essa prova! Poders tu fazer-me a justia de suppr que
eu sigo os caprichos d'uma mulher rica?

--No.

--Pois bem: venha depressa o momento em que eu possa conhecer-lhe a
alma, cuja nobreza tu me deixas entrever a luz duvidosa.

--No  assim: eu previno, e mais nada.

--Prevines a possibilidade do arrependimento, emquanto dura o processo.

-- bem de ver.

--E d'esperar?

--Isso no sei; mas deves temer muito da fora do adversario. Os juizes
em Madrid so corruptissimos, e pesam na balana o oiro do fidalgo
realista, e se o oiro do fidalgo realista pesar o quilate legal,
acceitam esta legalidade, em vez d'outra que as leis estatuiram. Esta 
uma das faces: a outra  a dos meios empregados no convento onde vae ser
depositada Paulina, para a demoverem. Raro acontece que elles no
vinguem, ao cabo de seis mezes d'espera. Insisto. Eu, em teu logar,
fugia. A meia legua de Madrid ests em segurana. Na semana que vem,
entras em Portugal. Chegas a Lisboa, e encontras na primeira egreja um
prior que vos absolve. Uma batalha assim vencida  plena e gloriosa: a
outra, que vaes dar, costuma ser to golpeada de contrariedades, que,
afinal, o triumpho  semsabor. Mas faz o que quizeres. Decide-te por um
dos conselhos, que nunca poders identificar os dois. Honra e corao
costumam andar bem-avindos, mas  s nos romances.

--E fra dos romances, amigo Almeida--disse Fernando.--Agora mesmo te
estou dando a prova. Diante das razoaveis difficuldades que me levantas,
ouso ainda insistir pelo deposito, e envergonho-me de ter vacillado
entre o processo judicial e a fuga.


XV

Paulina convidara Fernando a um colloquio nocturno, na vespera do dia em
que havia de ser requerido o deposito. Este convite fra-lhe suggerido
pelo secretario da legao, que antevia mau desfecho do negocio tratado
com pannos quentes. Induzira elle a menina a propr de viva voz e com
instancia ao noivo a fuga immediata: esperava Almeida que a presena, a
resoluo e intimativa de Paulina quebrantassem a firmeza do seu amigo.

Era aquella a primeira vez que Fernando Gomes ouviu a voz de Paulina,
depois da sada de Florena. Foi com alegria de corao; todavia algum
vago presagio lhe ennublava o espirito.

A familia Briteiros occupava o primeiro andar do melhor hotel de Madrid.
Fernando devia entrar s nove horas da noite e pedir um quarto no
_entre-sol_ do edificio. O corredor commum d'estes quartos baixos tinha
escada que subia ao primeiro andar. s onze horas Fernando subiria esta
escada, e encontraria Paulina no tpo. A excellencia do plano
correspondeu  execuo. Ninguem occupava os quartos inferiores, excepto
um francez chegado  mesma hora. O hospede entrara, e fechara-se em sua
camara. s onze horas era completo o silencio no andar superior.
Bartholo dormia o pacifico somno de quem tomou o ch com algumas
inoffensivas gottas de extracto de morfina, ministrado  filha pelo
previdente secretario da legao, que assim pensava ir lentamente
vingando os condiscipulos enforcados. O marquez recolhia da tertulia s
tres horas da manh. Eugenia velava com sua irm, como quem velava em
cousa muito de seu interesse, e vae j dizer-se para que no esquea.

Fernando subiu as escadinhas em espiral.

Quiz-lhe parecer que via um vulto  porta, aberta no cimo da escada, e
parou no intento de retroceder. Fez-se um pallido claro no interior da
sala. Assomou  entrada Paulina, e murmurou:

--Sbe sem receio, Fernando.

--Parece-me que estava aqui gente, quando eu subia...--disse o moo.

--No te enganaste.

--Quem era?

--Depois sabers tudo: escuso dizer-te que no tem nada comtigo o vulto.
 um homem que ama minha irm:  o conde de Rohan. No podemos perder
tempo--continua Paulina com adoravel alvoroo.--Preferes os mil estorvos
com que vamos luctar  certeza da ventura sem o menor desgosto?

--E o que  a ventura sem o menor desgosto, minha querida
Paulina?--perguntou Fernando, j meio aturdido pelo magnetismo d'aquella
voz, d'aquelles olhos, d'aquellas roupas brancas, d'aquella luz,
d'aquelles braos, que, a tremerem, se lhe ousavam enlaar no pescoo
com o mais pudico despejo das almas puras, que tudo fazem com a mais
santa das intenes.

--Pois no achas mil vezes melhor que fujamos para Portugal?--tornou
Paulina--Tu no me amas, no!... V tu que differena do teu corao
para o meu!

--Por Deus!--atalhou Fernando.--Eu no te amo, Paulina!?...

--Que quer dizer a tua repugnancia em acabar com isto d'uma vez!?... Ha
tanto tempo a soffrer a perseguio de meu pae!... Desde que acabaram os
quinze dias, estou n'um martyrio incessante com perguntas, maus modos, e
desprezos! E a padecer tanto por amor de ti! Sei que, se fr depositada,
meu pae ha de dar-me dias horriveis de amargura; e, por fim, tu vers
que a justia me entrega a elle para nunca mais saberes de mim, nem eu
de ti, meu Fernando! Olha, querido amigo, tira-me d'aqui; fujamos para a
tua familia; vamos ser felizes; lembra-te que eu deixo o amor de meu
pae, e tudo, para seguir a tua sorte! Leva-me, Fernando, leva-me, porque
depois de manh n'esta casa nem tenho mesmo minha irm que me console
as tristezas e saudades. Minha irm foge manh por noite com o conde.
Vo casar-se a Paris. Assim que ella lhe escreveu a chama-lo, veiu logo,
e preparou tudo para a fuga. E eu pensava que o teu amor era mais forte
que o d'elle!... Porque me no levas, Fernando? Falas-me tanto em honra,
meu amado! Eu no entendo os pontos de honra em que me ests sempre
falando! O nosso amigo Almeida tambem os no entende. Quando se ama
verdadeiramente, as consideraes, que tu me fazes, parece-me que
ninguem as faz... Que prazer tens tu em que eu v estar seis mezes ou
mais n'um convento  espera que a demanda se decida, sem mesmo
antevermos a certeza da deciso favoravel!? Isso  crueldade! Olha que
me no vs, Fernando, nem talvez possas escrever-me! Se eu morrer de
magua, de quem  a culpa? Quantas vezes te arrependers de me no ter
ouvido n'esta hora?

No era necessario tanto. Fernando Gomes estava vencido e convencido. As
ultimas palavras de Paulina tinham sido cortadas de soluos. Nunca homem
algum resistiu a isto! Scipio, o respeitador historico das mulheres, se
visse este lance viria outra vez ao mundo dar testemunho de uma virtude,
que a sua celebrada continencia usurpava.

Fernando tomou nos braos a soluante menina, e disse-lhe:

--Fugiremos, Paulina. Fugiremos, quando quizeres. manh, se te apraz.
Deus v as minhas e tuas intenes. Espero que nunca te arrependas do
passo, que o mundo, a seu pezar, no poder infamar-te.

Paulina expandiu-se em requebros de ternura e raptos de alegria. A
combinao de horas, signaes, e menores accidentes da fuga ficou
pactuado. Disse a menina que se conservasse elle  escuta algum tempo,
emquanto ella ia preparar o pacotinho da mais necessaria bagagem; e,
depois, a recadasse no seu quarto, e de madrugada a levasse comsigo,
sendo este o melhor modo de no inspirar desconfianas. Como embriagado
de alegria, Fernando accedeu a tudo sem contestar; esperou, e recebeu o
pacote, que era uma mala ingleza quadrada, cujo peso elle notou com
admirao.

Ao romper da manh, o passageiro, com ar de quem vae entrar nos
vehiculos da madrugada, sau do hotel; sobraando a mala com grande
espanto do creado, que o vira entrar sem ella, e recolheu-se  sua
pousada, d'onde logo escreveu ao secretario da legao.

Almeida acudiu logo a felicitar o reconsiderado amigo, congratulando-se
de ter elle sido o indirecto motor da saudavel reforma nos estoicos
principios do seu camarada. Traaram o plano facilimo da fuga. Fra de
portas estariam cavalgaduras. O funccionario diplomatico iria com os
fugitivos para remover obstaculos imprevistos da policia. Fernando era
j o homem avesso do dia anterior. Falava o corao, alliviado do
pesadello da impertinente honra.

Sentia-se enlouquecer de esperanas alegres, anciosas, insoffridas da
morosidade do tempo.

--Aqui tens a riqueza da minha Paulina!--disse elle sorrindo e mostrando
a mala.--Ninguem dir que eu a raptei por causa d'essa malinha, que deve
encerrar algum vestido, e as minhas cartas...

Almeida tomou ao alto a mala, e disse:

--No: aqui ha alguma cousa mais que sedas e papeis! Isto pesa como
ouro.

--Ouro?! ests brincando!--disse Fernando.

--Est aberta a mala. Se no temes a profanao, vejamos o que vae aqui.

--Sim, vejamos--condescendeu Fernando, desfivellando as correias.

Ao de cima iam as cartas em massos, cintadas com fitas de diversas
cres. Seguia-se alguma, pouca e finissima roupa branca, cuja
hollandilha, e cambraia tomava pouco espao. Depois, um vestido de seda
azul, o que ella vestia no baile de Jeronymo Bonaparte, onde viu
Fernando Gomes pela primeira vez. Depois, sobre o fundo da mala,
descobriram uma caixa de tartaruga, pouco mais larga e comprida que um
palmo. Esta caixa  que realmente pesava como ouro, e estava fechada.

Fernando esteve algum tempo tomando o peso da caixa, em meditativo
silencio, e disse:

--No levo isto:  preciso que faas chegar, antes de  noite, este
objecto a Paulina. Aqui vo grandes valores... no levarei comigo, aqui
fechada, a minha condemnao. O mundo chama ladres aos homens que
praticam assim. Depressa, Almeida. Inventa o milagre de fazer entregar
isto a Paulina, quando no, est tudo transtornado.

--s um homem impossivel!--replicou o secretario da legao, menos
escrupuloso que philosopho, se  que se chama acertadamente philosophos,
uns sujeitos que sabem receber, em pleno espirito, a luz toda do
seculo.--Pois tu recusas acceitar Paulina com as joias do seu uso?

--Recuso. Paulina no tem nada.

--Nem a legitima de sua me?

--Paulina  menor: seu pae  que lh'a administra.

--Eu no discuto direito comtigo; limito-me a descobrir que s um asno
exemplar, e d-me vontade de te mandar cavar ps de... Com effeito!
Venham aqui aprender moralisao os futuros amadores de meninas que
levam caixesinhos pesados, quando fogem com os amantes!...

--Tens graa; mas eu tenho razo, que  melhor--retorquiu Fernando
Gomes.

Emquanto elles altercam j em phrases desabridas, saibamos que rumor 
este que vae em casa de Bartholo de Briteiros.

O creado do hotel, como visse sar o hospede de algumas horas com a mala
que no trouxera, obedeceu ao instincto da curiosidade, e seguiu-o com
todas as precaues. Viu a pousada em que entrra, tomou o numero da
porta, e voltou a casa a dar conta ao patro.

O dono do hotel, timbroso em manter a fama honrada do seu
estabelecimento, consultou o alcaide sem aventar suspeitas alm das que
realmente davam em resultado a verdade inteira do facto.

Sabia elle que o locatario do primeiro andar era um portuguez
riquissimo, e que mais de uma vez pernoitara, nos baixos da casa, um
francez mysterioso, que tinha intelligencias com uma das filhas do
portuguez, segundo elle deprehendera d'uma troca de escriptos, por alta
noite, entre as janellas do primeiro andar e sobre-lojas. Estes
esclarecimentos deram rastros ao alcaide para suas averiguaes.

Com quanto o sujeito da mala no fosse o francez alludido, observou mais
o austero hospedeiro que, no mesmo dia, entre as oito e nove horas da
manh, o francez rebuado cautelosamente sahira com um volume debaixo do
brao. Estas coincidencias de dois homens na mesma pousada, na mesma
noite, e com volumes iguaes, ou cousa assim, feriram faiscas de
penetrao na cabea, alis cerrada, do hespanhol, que, de collaborao
com o alcaide, deu como effeito um consideravel roubo ao portuguez
Bartholo de Briteiros.

Esclarecido assim o facto, o alcaide apresentou-se ao fidalgo s dez
horas da manh, e perguntou-lhe se suspeitava que em sua casa faltassem
objectos de valor.

--No!--disse Briteiros--Quem ha de subtrahir objectos de valor de minha
casa?!

--Examine, senhor--disse o subalterno da policia--que a minha obrigao
 averiguar, e sem detena.

Bartholo entrou nos quartos de suas filhas improvisamente, e
encontrou-as empacotando e dobrando roupa de seu uso.

--Que fazem as meninas?!--perguntou o pae com assombro.

Paulina e Eugenia ficaram tolhidas, interdictas, e incapazes de
responder um monossyllabo.

--Que esto a fazer, no ouvem?!--replicou Bartholo examinando a roupa
dobrada.

Acudiu-lhe uma atroz suspeita. Fez-se cr de terra. Dilataram-se-lhe em
arqueijos as azas do nariz. Raiaram-se-lhe os olhos de linhas
sanguineas. Correu s gavetas dos toucadores e das commodas; remexeu
tudo, revistou tudo impetuosamente, e exclamou:

--As caixas das joias!? As tuas joias, Paulina, e as tuas, Eugenia? Onde
esto cem mil cruzados de brilhantes de vossa me?

Paulina cravou os olhos no cho, perdida a cr, e quasi os sentidos.
Eugenia, mais fraca de compleio, e muito timorata, cahiu em joelhos, e
exclamou:

--Perdo, meu pae!...

--Roubado! roubado!--bradou o velho--roubado por minhas filhas!

E saiu em vertiginosa corrida e a brados por a casa fora, at entrar na
sala onde estava o alcaide.

Paulina, logo que o pae sahiu, disse  irm:

--Tu s uma miseravel se descobrires alguma cousa. No pronuncies o nome
dos desgraados, Eugenia! Ainda que nos matem, salvemo-los a elles!

D'ahi a instantes, foram as meninas chamadas  sala, e interrogadas.
Nenhuma resposta deram s perguntas do alcaide. s do pae respondiam,
principalmente Paulina:

--Os brilhantes e as joias no esto em poder de ladres.

Mas, no tocante a nomes, nenhuma proferiu palavra.

N'este momento angustioso, entrou o secretario da legao. N'um relance
comprehendeu tudo. Briteiros abraara-se n'elle, exclamando:

--Roubado em muitos contos de ris por consentimento de minhas filhas...
E ellas, estas infames, estavam-se preparando para seguir os ladres!
No haver justia em Hespanha, senhor alcaide?

--Ha--respondeu Almeida--e o ministro portuguez, em Madrid,  o
funccionario a quem primariamente compete solicitar a justia em favor
do senhor Bartholo de Briteiros. Os passos do senhor alcaide ho de ser
dados de accordo comigo. Queiram esperar-me, que eu volto.

Sahiu Almeida, e entrou em sua sege, que o transportou  pousada de
Fernando Gomes.

Sem lhe dar completa explicao das causas, obrigou-o a sair, e
transportou-o a sua casa. Ahi, simplesmente lhe disse:

--Se o meu plano vingar, d'aqui a pouco ha de estar Paulina comtigo.

E sau, a desapoderado galope dos cavallos, para o hotel de Briteiros.

Ao apear, disse ao boleeiro:

--Se uma senhora saltar na sege, vai n'um raio apea-la em casa, mas
torce o caminho.

Subiu. As meninas tinham sado da sala.

Bartholo e o alcaide estavam ouvindo o depoimento do dono e creado do
hotel, que denominavam francezes os conductores dos volumes.

Almeida pediu licena para ter particular conferencia com as meninas.
Bartholo cedeu de prompto, entregou-se cegamente s deliberaes do
funccionario, que se dava o ar mysterioso de quem tem o fio da meada.

A conferencia foi sem testemunhas.

--Fernando est em minha casa--disse Almeida.--Aqui ha um desesperado
recurso, um unico. A senhora D. Paulina entra na minha sege, e 
conduzida a Fernando.

--Oh! meu Deus! j!--exclamou ella, erguendo-se para sar.

--E eu fico, Paulina?--bradou Eugenia.

--Pois vossa excellencia tambem quer fugir com Fernando?--disse Almeida.

--Eu havia de fugir esta noite com o conde de Rohan--respondeu Eugenia.

--Fujam ambas!--tornou o secretario, mas onde est esse conde?

--Era hospede c no hotel... Amo-o ha cinco annos... Vamos, vamos,
Paulina...

--Eu indagarei onde est o conde--disse Almeida--No se demorem.

Alguns segundos depois, o estrepito da carruagem fazia tremer as
vidraas do hotel. A visinhana viu o rapido saltar de duas meninas,
veleiras como anjos alados, cobertas e encapuzadas de capas de merino
branco com bordados e borlas verdes nos capuzes. Ninguem soube dizer
mais nada.

O secretario sau com o alcaide, e Bartholo de Briteiros tornou aos
aposentos das filhas, no intento de as mandar vestir para entrarem n'um
convento.

Quando assomou  porta do quarto, viu duas creadas debulhadas em
lagrimas.


XVI

Paulina e Eugenia, menos apavoradas do que suppe o leitor, apearam no
pateo do secretario da legao, e foram guiadas a uma sala, em que
Fernando Gomes, prostrado mais que o commum em lances taes, parecia
meditar no suicidio. Paulina galvanisou-o moderadamente, apertando-lhe
as mos com mais tremor de ternura que d'afflico.

--Que abatimento, Fernando!--disse ella, em quanto Eugenia, desalentada
pelo quebrantamento do moo, soluava a chorar, na incerteza do seu
destino.

--Isto no  abatimento, Paulina...--disse elle-- porque em verdade eu
recebo com dr a alcunha de ladro!... Falei-te eu em joias? Que
infernal lembrana a de me dares os brilhantes de teu pae!... Quando te
disse eu que precisava de ser infame para ser feliz?

--Foi uma indiscrio, meu amigo; mas perdoa-m'a...--disse Paulina--Como
os brilhantes tinham sido da mam, e o pap muitas vezes nos disse que
eram nossos, cuidmos que podiamos reparti-los entre ambas, sem medo de
que chamassem roubo a isto. Agora no tem remedio a nossa loucura... No
te estejas tu assim a matar, meu Fernando. O crime  meu e no teu...

--Cala-te, pobre criana!--redarguiu Fernando--tu no sabes que mal me
fizeste...

Algumas phrases mais, talvez inopportunas, do filho do artista,
obrigaram Paulina a chorar e arrepender-se.

Chegou, n'este escuro trance, o secretario, e todos o viram como
prenuncio de bonana. Eugenia sau logo a perguntar-lhe se sabia onde
estava o conde.

--Ainda no, minha senhora. Ser talvez, difficil encontra-lo, se elle
j souber que o perseguem.

--Sou tambem perseguido?--atalhou Fernando.

--Ninguem sabe o teu nome, mas precisamente te procuram na estalagem
onde estavas. Porm, como falaste sempre francez, e, por bom alvitre
meu, te despediste como quem vae para Frana, muito diabolica ser a
alcaidaria madrilense se te farejar aqui. Observo que os meus amigos
esto todos tres sem juizo para decidirem o que lhes convm.

--Eu decidi--disse Fernando.

--O teu plano deve ser o unico racional na tua situao:  a fuga. A
sr. D. Eugenia dir-me-ha o que tenciona fazer se o seu conde no
apparece.

--No apparece!--exclamou ella atribulada.

--Pde no apparecer, minha senhora, e no ha motivo para que vossa
excellencia o considere descuidado, covarde, ou traidor.

--Ento que eu hei de fazer?!--tornou Eugenia, pondo as mos com
dilacerante angustia.

--Quer vossa excellencia seguir sua irm, e esperar em Portugal que eu a
avise do destino do conde?

--No lembres  sr. D. Eugenia um destino impossivel--disse Fernando
Gomes.--Eu no vou para Portugal.

--Como?! no vaes para Portugal?

--No fujo--replicou Fernando--e, quando fugisse, no iria levar a meu
pae a noticia do nome que deixo em Madrid.

--Pois se ninguem te sabe aqui o nome?

--Sabe-o a minha consciencia.

--Pois foge para Frana--recalcitrou Almeida--ou para a Italia, ou para
onde quizeres.

--No fujo; e perdoa-me, Paulina... Ns no podemos fugir. Teu pae vae
receber de minha mo os brilhantes de sua mulher e de sua filha; tu
entras espontaneamente n'um convento; de l requeres dispensa do
consentimento de teu pae: sairs de Madrid com honestidade, e eu com
honra.  impossivel ser feliz, e dar-te felicidade, se faltarem estas
condies  nossa unio. Isto  irrevogavel, meu amigo. Por delicadeza e
compaixo no discutas comigo. Temo que este anjo suspeite da minha
dedicao, se tu me condemnares pela fraqueza das minhas apprehenses.

Paulina teve momentos de suspeita, e outros peores de arrependimento.
Quizera ella esconder-se com a vergonha de seu acto a um corao
bastante forte, ou bastante desempoeirado, que lhe fizesse sentir com
vaidade a grandeza do seu heroismo. Nem elle mesmo a absolvia! elle, por
quem a imprudente se perdera no conceito do mundo, e na estima do pae!
So pungentissimos os espinhos das coras que santificam os martyres da
honra! Este  um dos casos em que a mulher amada, amigo, sociedade tudo
conjura a azedar com mais fel o calix do homem probo! Acontece que o
leitor de um romance, que taes casos narra, sympathisa com semelhantes
excepes d'este mundo sublunar, mas assim mesmo, o panegyrico do
romance  galardo tardio, que no vale a menor das dres que
excruciavam a alma do pobre filho de Francisco Loureno.

Estavam como atrophiadas as duas meninas. Almeida, sem dizer o seu
destino, tinha sado. Fernando encarou na lagrimosa Paulina, correu a
ella, e ajoelhou-se-lhe aos ps, murmurando:

--Duvidars tu que te adoro,  anjo da minha alma!... Poders crer que o
receio de ser apregoado ladro me faz baixar ao egoismo de maldizer a
hora em que te vi!... No, no, minha querida filha; no me julgues
capaz de afastar uma infamia com outra...

--Degradei-me por amor de ti--soluou ella--e agora hei de ir morrer
n'um convento, sem a amizade de ninguem, perdida no conceito de toda a
gente, e tratada com vilipendio por todos... Cuidei que no me tornava
indigna aos teus olhos...

--Indigna aos meus olhos!--exclamou Fernando coberto de lagrimas--quando
te disse eu palavra que te d razo de tamanha calumnia!  Paulina, eu
quero-te pobre, quero fugir comtigo j, mas salva tu da deshonra o meu
nome, que ha de ser tambem o teu. No leves o valor de um ceitil da casa
de teu pae. Espera que o boato do grande roubo de cem mil cruzados, de
que teu pae te argue, se desvanea, para que a tua dignidade no fique
to feiamente manchada. No vs tu que se trata de salvar o teu nome?

--Salva-lo, como?...--redarguiu Paulina.

--Restituindo os brilhantes--disse Fernando.

--De que serve restitui-los? Crs tu que o pae me dar licena de ser
tua esposa por isso? Meu pae tem cem vezes o valor dos brilhantes... Ha
de perseguir-me atrozmente para eu no casar comtigo, Fernando...

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No entanto, o secretario da legao entrou no hotel de Bartholo de
Briteiros.

Encontrou o velho prostrado no leito, espertando d'uma demorada syncope.
Ninguem ao lado do pobre pae! N'aquelle instante solemne calou-se o
velho rancor de Almeida, e falou a compaixo.

--Mataram-me, as ingratas!--exclamou Bartholo--fugiram, fugiram as
perdidas! Deixaram-me assim, ssinho, a amaldioa-las, agora, e sempre,
e na hora da morte...

Almeida deixou-se abraar pelo anciado velho, e disse-lhe:

--Cobre a possivel serenidade para me ouvir, senhor Bartholo.

--Diga o que quizer, meu amigo. Pouca vida terei para ouvi-lo.

--Suas filhas deviam fugir ao vexame dos interrogatorios judiciaes, e
fugiram. Conduziu-as a minha carruagem; esto em minha casa.

--Esto?!...--exclamou Bartholo.

--Esto, como se estivessem na austeridade d'um mosteiro. Vossa
excellencia deu-lhes o impulso desgraado que do os paes que o no
sabem ser. Quiz vossa excellencia pautar o corao de suas filhas:
tentou um absurdo, que deu origem  culpa. A natureza reage contra as
violencias; e a reaco  quasi sempre indiscreta ou criminosa. Sua
filha Eugenia amava o conde de Rohan, sua filha Paulina amava Fernando
Gomes. O francez sei quem  de tradio; Fernando, que eu conheo desde
as escolas,  um homem de tantas e to insolitas virtudes, que o mundo
actual ha de vr-lh'as com extranheza. Vossa excellencia impugnou o
enlace de suas filhas com estes dois mancebos escolhidos por ellas. Uma,
ia ser immolada ao marquez de Tavira, que sae embriagado dos alcouces s
tres horas da manh; a outra estava esperando a sua hora de sacrificio.
O funesto resultado d'estas coaces foi uma e outra conspirarem
surdamente contra a insensata tyrannia de vossa excellencia. Fernando
Gomes chegava a Madrid um dia antes de vossa excellencia, em vez de
estar na Irlanda procurando a senhora D. Paulina nos mosteiros; o conde
de Rohan, chamado de Frana por a senhora D. Eugenia, veiu hospedar-se
n'este mesmo hotel.

--E eu sempre vendido e enganado por ellas!...--exclamou Bartholo.

--Era a justa paga do despotismo com que vossa excellencia dispunha de
suas filhas, que tinham em si o despotismo mais imperioso do corao!
Pergunto eu ao sr. Bartholo de Briteiros: se suas filhas, para se
libertarem d'um jugo violento, deram o extranho passo de prepararem a
fuga, que crimes e vergonhas as retero no mau caminho que tomaram, se
vossa excellencia no tiver a prudencia de as chamar a si, e
rehabilita-las no conceito do mundo?!... Por em quanto no ha nada que
as avilte. O levarem ellas suas joias e as de sua me, isso, a meu vr e
de toda a gente,  cousa de si to desculpavel, que no tem mesmo penas
na lei que a puna. O valor moral do acto tambem nada significa. Imagine
vossa excellencia que as suas filhas gostavam dos seus enfeites, e,
quando fugiam, levaram comsigo esses adornos da vaidade, aos quaes ellas
no ligaram valor algum real. J disse a vossa excellencia que no
conheo pessoalmente o conde, amado pela senhora D. Eugenia. Informei-me
agora mesmo na embaixada franceza, e soube que o conde era um dos mais
nobres legitimistas da Frana, e tem castellos, seno reconstruidos 
moderna, cravejados de muitos brazes, que, se me no engano, podem
competir antiguidade com os de vossa excellencia. Este cavalheiro era
incapaz de ser o receptador de um furto. Em quanto a Fernando, o
portuguez, posto que no tenha castellos nem mais appellido que o
_Gomes_, que vossa excellencia provavelmente no encontra nos seus
nobiliarios, os brilhantes que se presumem ter ido n'uma caixa, em to
pouco os reputa elle, que me encarrega a mim de os depositar nas mos de
vossa excellencia. Queira o senhor Bartholo estalar a fechadura da caixa
para verificar a identidade dos objectos. Fernando Gomes no sabe o que
est ahi.

Almeida entregou a caixa a Bartholo, que apenas o interrompia com
variados gestos de raiva, surpreza e condescendencia.

Depois proseguiu:

--Fernando Gomes est fazendo companhia s filhas de vossa excellencia
em minha casa. O conde de Rohan est hospedado na embaixada franceza. O
que o conde quer no sei; o que Fernando deseja  que a senhora D.
Paulina entre pacificamente n'um convento, e de l instaure um processo
para vossa excellencia ser ouvido na questo de consentimento para
matrimonio. Resolvi eu, sem permisso d'uns e d'outros, vir propr a
vossa excellencia o seguinte: suas filhas voltaro para casa, e vossa
excellencia consentir que ellas se desposem com homens de sua escolha,
recahindo ella em sujeitos to benemeritos como o conde e Fernando
Gomes. Ouvirei a sua resposta.

Bartholo desceu do leito, amparando-se ao hombro de Almeida. Passou 
ante-camara, sentou-se a chorar e enxugar lagrimas, reflectiu alguns
segundos, e disse:

--Pois que venham as minhas filhas para casa, e eu cederei o que fr de
razo ceder. Mas, senhor Almeida!... Esta ignominia j deve ser notoria
em todo o Madrid!

--Apenas a justia, auctorisada por vossa excellencia, anda em
averiguaes inuteis. Mande o senhor Bartholo suspender a vulgarisao
que os esbirros esto dando aos desgostos particularissimos de sua vida.

--Vou mandar...--disse Bartholo.

--Veem, por tanto, suas filhas. Eu no levo a certeza dos bons intentos
de vossa excellencia. Por isso mesmo ouso lembrar-lhe que, se forem o
inverso dos meus bons desejos, as consequencias redundaro todas em
desgostos maiores para vossa excellencia, e pde ser que mui grande
vilipendio para suas filhas. O senhor Briteiros, se as chama para as
castigar com violencias, abre n'esta casa trinta portas por onde ellas
podem fugir. Ha uma hora em que um pae reconhece que toda a sua fora se
quebra diante do aceno d'uma debil criana. A lucta  desigual com o
corao, senhor Bartholo...

--Diz bem...--atalhou o velho.--Fui eu que as perdi com a educao, com
o mundo, com a vida de Paris e Florena...

--Assim seria; mas o mal  insanavel com cauterios: requer muita
prudencia o corrigi-lo. Vossa excellencia pde faltar a suas filhas
manh; e o mundo ha de chama-las a si com a educao que lhes deu, e
engolfa-las no seu abysmo. Salve-as com tempo, senhor Briteiros. A
sociedade d s mulheres este nefasto prestigio, que as enthrona, com a
condio de se despenharem depois na voragem onde foram buscar a
realeza.

--Diz bem...--repetiu Bartholo de Briteiros, que, segundo minha opinio,
percebeu levemente o interlocutor.


XVII

Almeida foi apresentado ao conde de Rohan, que se envolvera na bandeira
franceza, logo que houve noticia do descobrimento da projectada fuga.

Para honra da Frana, diremos que o descendente do famoso cardeal,
quando recebeu o pacote de Eugenia, se bem que o achou pesado, no
cuidou que levava metade das joias e brilhantes. A mim, porm, me quer
parecer que o illustre conde no faria caramunhas de mau gosto, quando a
menina lhe mostrasse os aderesses de ricas pedras. A Frana, n'isto e em
tudo, vae na dianteira dos espiritos. A virtude, l,  cousa to
contingente, que chega a no ser regra. Menina que foge, no perde aos
olhos do seu raptor, nem o tribunal do mundo se entoga com gravidade de
juiz para cousa to futil. O conde de Rohan pensava muito em descobrir
Eugenia, e pouquissimo nos brilhantes, quando o cavalheiro d'Almeida lhe
foi apresentado pelo benevolo embaixador francez, amigo de ambos.

Contou o secretario os successos decorridos, e a conveno, pouco
segura, mas preparatoria para bom resultado, que fizera com Bartholo de
Briteiros. O francez, approvando tudo com palavras de muito
reconhecimento, pediu a Almeida a grande merc de ser o apresentante dos
brilhantes e dos seus respeitos ao fidalgo de Portugal. Estes
_respeitos_, associados aos brilhantes, fizeram que o secretario notasse
a superioridade do espirito da Frana sobre o de Portugal. Em quanto
Fernando se estava n'aquellas lamurias e quebrantos, o conde de Rohan,
fumando um perfumado charuto de Havana, com a chavena de chocolate ao
lado, sorria mui placidamente, ao passo que o informador contava os
acontecimentos occorridos; e, com quanta graa mesureira tinha de seus
placidos modos, enviou _ao fidalgo portuguez_ (hidalgo, disse elle) os
seus brilhantes e os respeitos d'elle.

--Em quanto  minha boa Eugenia--accrescentou o conde--ter o cavalheiro
a benevolencia de lhe asseverar que eu sou sempre o mesmo homem,
submisso escravo das suas vontades.

Com to boas novas, correu Almeida a sua casa.

As noticias foram gratas a todos, posto que Paulina por palavras no
denotasse a satisfao intima, que sentira. Pde deduzir-se, sem
desairar a menina, que as amarguras de Fernando, aquellas exuberancias
de dignidade, o muito falar na honra de seu nome, agradaram
mediocremente  filha de Bartholo. Perguntei a differentes senhoras,
differentes em temperamento, se o despeito de Paulina seria justo. Com
muita magua de meu corao ouvi resposta, unanime de todas--que Paulina
tinha razo; que Fernando encerrava nas arterias agua chilra; que um
homem, assim apontado em subtilezas de honra, poder ser um bom
guarda-livros, um bom mordomo d'uma casa, mas que ha de sempre ser um
amante glacial.

Fiquei suspenso, e prometti refutar semelhantes despropositos, quando
escrevesse este romance. Desisto da teno formada.

Antes quero que o leitor discuta e abysme as senhoras que injuriaram o
pobre moo, e acharam extrema graa e galhardia de animo no conde de
Rohan.

Entretanto, Paulina, ao despedir-se de Fernando, abraou-o com
exterioridades de muito affecto, e pediu-lhe que no chorasse,
accrescentando:

--Tu podes contar sempre comigo, Fernando. Esperanas de que meu pae
consinta no casamento, no levo nenhuma; mas se tu entenderes que, por
meios da justia, podemos conseguir os nossos desejos, to
desgraadamente contrariados quando eu me julgava e te julgava feliz,
estou prompta a requerer.

Notem a frialdade d'esta linguagem! Fernando, Eugenia e Almeida todos a
notaram. Elle, porm, beijou-lhe a mo, e disse:

--Vae, minha amiga, e esquece-me, se quizeres e poderes. O que nunca
poders esquecer  que o homem, que te no servia para o corao, tinha
alguma boa qualidade que ha de eternamente viver em tua memoria. Antes
esquecido por ti, que deshonrado por amor de ti, Paulina.

Sobreveiu o secretario com reflexes tendentes a conciliar os animos
despeitados dos dois to amantes, to doidos de alegria, algumas horas
antes; e agora, a separarem-se, com a desconfiana n'alma, a
desconfiana que  quasi sempre a doena morta do corao!

Paulina desceu, chorando, encostada ao brao de Almeida.

O filho do artista lembrou-se, n'este acerbo momento, de sua me, porque
teve preciso de orar, e quem lhe ensinara a orao fra sua me.

Deixemo-lo orar e chorar. Preces e lagrimas assim, os anjos as levam ao
Senhor. quellas almas disse Jesus: pedi, e sereis attendidas.

Os que do cegamente sua alma a quem a no merece, e rogam a Deus o
resgate d'ella, sentem-se livres.

Os que vo de rastros e quasi moribundos sob o p da injustia humana,
oram, e recobram uma fora, que  insulto  covardia dos fortes.
Deixa-los chorar e orar.

Deus lhes mostrar os balsamos das urnas que ahi esto a desbordar desde
que o Homem-divino perdoou aos que o matavam por ignorancia. Porque no
ho de perdoar estes homens de barro  cafila de farizeus que os no
entendem?

Da cafila de farizeus exceptuo Paulina de Briteiros. Se eu no podesse
estrema-la, rasgava aqui estas paginas, e queimava os apontamentos, para
que nenhum collega meu d'este maldito officio sasse alguma vez a lume
com a historia d'uma linda mulher com alma to feia!

Paulina e Eugenia entraram nos seus aposentos, sem verem o pae.

O secretario foi ao quarto de Bartholo entregar a outra poro de
brilhantes, e continuar sua misso de conciliador e conselheiro.

O fidalgo denotava boas intenes, em quanto ao conde de Rohan. De
Fernando Gomes disse,  terceira pergunta, que havia de pensar no melhor
modo de se realisarem os desejos de sua filha.

As meninas passaram aquelle dia sem leve incommodo de sua saude, nem
accessos de lagrimas que meream chronica. Doe-me ter de dizer que, ahi
por fins da tarde, riram com as creadas da figura que ellas deviam
fazer, quando saltaram  carroagem, desgrenhadas, com os capuzes das
capas encarapuados  laia de feiticeiras. Esta frivolidade de espirito
feminil  cousa to vulgar, que eu peo  leitora que no levante a
pedra, e deixe ir as cousas em paz, como Christo mandou ir uma
peccadora.

No dia seguinte Fernando Gomes, instado por seu amigo, sau com elle em
carroagem. Passearam at  ponte de Segovia, e apearam na praa do Sol,
onde o secretario havia de cumprir ordens do ministro.

O acaso encaminhara para alli o marquez de Tavira, que trazia o espirito
encavalgado por um drago.

Viram-se e reconheceram-se.

O marquez, cego de sua raiva, parou em frente de Fernando, e disse a
brados que muita gente ouviu:

--Ainda tem a pouca vergonha de se mostrar nas praas um biltre que
seduz filhas-familias a roubarem seus paes!

Se o periodo fosse mais comprido, morria incompleto na garganta do
marquez. O filho de Francisco Loureno engriphou os dedos com sanha
felina. O rancor, brutalisando o homem, parece que lhe d parecenas com
a fera, cuja sanha imita! As dez unhas de Fernando faziam espirrar o
sangue gothico do marquez, que escabujava como o Lacoonte de Virgilio
nas roscas das serpentes. Cairam ambos de modo que o de Tavira foi
fender o occipital no eixo d'uma carroagem, cujo dono fizera alto para
disfructar a lucta.

Almeida estava, poucos passos distante, observando o desenlace, que o
enchia de jubilo. O marquez, ensanguentado, coberto de lama, e quasi
desaccordado, nem de leve se boliu, quando Fernando desencravou as
unhas. Approximou-se Almeida, e offereceu ao fidalgo a sua carroagem
para conduzi-lo onde quizesse. O soberbo de sua miseria respondeu com
uma insolencia, e retirou-se com respeitosa, mas curiosa cauda de
gaiatos, testemunhas pertinazes e minudenciosas de todos os conflictos
magnificos.

Constou ao secretario que o marquez sara, no seguinte dia, de Madrid,
com direco a Portugal, onde a presena do convencionado no
incommodava ninguem. Parece que Bartholo de Briteiros lhe emprestara
dinheiro com que elle podesse na patria sustentar a antiga ociosidade e
dissipao de seus avs. E, como no sei se vir de molde lembrar o nome
d'este sujeito no decurso da novella, fique o leitor sabendo que o
marquez de Tavira, depois de residir em Lisboa alguns mezes, fez-se um
liberal rasgado, ou roto, como quizerem, e conseguiu ser nomeado
ministro n'uma das crtes da Europa, e mais tarde governador dos estados
da India, d'onde veiu, j muito na flr dos sessenta annos, casar em
Portugal, onde est rico e honrado.

Paulina, sabedora da derrota que soffrera o primo marquez, sentiu uma
satisfao que eu sinceramente lhe no louvo, e ao mesmo tempo um
accrescimo de estima por Fernando, estima que eu no posso attribuir ao
corao. Estas anomalias que a moral reprova e a animalogia desentende,
so uns geitos de mulher que avisadamente no discuto. So assim. Deus
as faa melhores ou peores, de modo, porm, que fiquem mais decifraveis
e intelligiveis.

Bartholo, como  bem de ver, ficou raivoso contra Fernando Gomes, e
esteve uma noite toda a scismar no modo menos estrondoso de se desfazer
d'aquelle inimigo. Ponderou o malvado intento de lhe comprar a vida; mas
occorria-lhe que em Madrid era difficil e arriscado andar em cata de um
sicario destro e fiel. Desanimou: mas jurou que sua filha Paulina havia
de morrer n'um convento, se teimasse em querer casar com o facinoroso.

Este successo apressou o casamento de Eugenia com o conde de Rohan. O
fidalgo colheu informaes, que condisseram exactamente com as do
secretario, mas muito por miudo. O conde era oriundo dos primeiros
soberanos da Bretanha, condes de Porrhoit, viscondes de Rennes, por
Alain I, quarto filho de Eudon, que vivia no seculo X. D'esta
nobilissima stirpe procediam os duques de Rohan, com esta legenda no
escudo: ROI NE PUIS, PRINCE NE DAIGNE, ROHAN JE SUIS.

 vista d'isto, e do mais que deixo  averiguao dos genealogicos,
Bartholo de Briteiros deu Eugenia ao conde, liberalmente dotada, e
resolveu ir viver em Paris no inverno, e n'um dos castellos da Bretanha,
no vero, em companhia de seu genro.

O velho principiava assim a vingar-se de Fernando Gomes.

No jantar nupcial, ao qual assistiram titulares hespanhoes, e a
diplomacia dos differentes estados, Bartholo de Briteiros, n'um brinde
que propz a seu genro, disse em remate do discurso:

--Eu morrerei feliz, se vir minha filha Paulina casada com um parente
dos Rohan; e, se no puder ser tanto, que seja, e muito ainda ser, um
nobre da Frana ou das Hespanhas, a quem meu genro aperte a mo, sem
receio de a retirar suja.

--De sangue...--disse Almeida com um sorriso que tinha fogo do inferno.

Esta palavra sangue turvou um pouco o vinho que Bartholo bebia. Ao
ex-ministro da Alada quiz parecer que havia n'aquelle dizer succinto
uma alluso. Nem que o secretario da legao fallasse em corda!


XVIII

Fernando Gomes, informado, no por Paulina, mas por Almeida, dos
successos que se iam encaminhando a um natural e triste desfecho de
tantos trabalhos, pde dizer-se que morreu antes que o matassem.
Senhoreou-o amargura serena, sem contorses; mas profunda, luctuosa, e
inalteravel por nenhuma diverso.

Alguma carta que escrevia a Paulina ia breve, desalentada, sem a palavra
esperana, sem a palavra saudade, sem a palavra amor.

Divagava por uns nevoentos dizeres, como devem ser os do enfermo de
mortal doena, que antev o fim, e se est, meio vida, meio eternidade,
conversando com amigos, que deixa sem saudade e sem esperana de tornar
a ve-los n'outro mundo.

Paulina entendia mal esta nova phase do espirito de Fernando, e
respondia-lhe queixando-se da seccura de suas cartas; porm, a tibieza
dos queixumes podia apostar lethargia d'alma com o apparente regelo das
cartas de Fernando.

--Como cahiste n'esse estado? perguntava Almeida ao seu amigo.

--Era o meu estado natural. Assim me conheceste no cerco e na
universidade. Paulina emprestou-me uma segunda natureza que eu lhe
devolvi em lagrimas, e fiquei como era, peor do que era, porque havia
uma virtude em que eu tinha f--o corao da mulher--e esta crena
tambem se foi diluida em lagrimas.

--Injustia!--interrompeu Almeida.--No te diz ella que est prompta a
requerer o seu deposito?

--Disse, no diz.

--Prope-lh'o.

--No. Quero forrar o meu pundonor ao ultraje da negativa.

--Farei eu a proposta, mediante o conde de Rohan.

--Recuso o favor. Quem te diz a ti que o conde de Rohan deseja o
casamento de sua cunhada comigo?

--Elle.

--No creias. O conde de Rohan tem irmos. Paulina  rica e formosa como
Eugenia.

--Imponho-me o dever de no julgar ninguem pelos teus olhos. Tu s uma
raridade, um excentrico, uma cousa com geitos de pessoa. Erras quantos
juizos fazes. Eu hei de sondar o conde. Pde ser que tudo se consiga sem
processo judicial.

O secretario procurou o conde. Fallou amplamente de Fernando Gomes, e
das suas injustias ao caracter de Paulina. O conde mostrou sympathisar
com o caracter do portuguez, e disse:

--Eu fallarei a meu sogro.

E falou de modo que as suas ultimas palavras summariam o elogio que se
lhe deve:

--O homem, cuja mo eu aperto com sincera satisfao de quem sabe prezar
a virtude,  Fernando Gomes. Peo encarecidamente a mo de minha cunhada
para este to modesto como honrado mancebo. Condescenda, meu sogro, para
eu poder dar-lhe o nome de provado amigo.

Bartholo de Briteiros respondeu umas palavras oscillantes, que nenhuma
resoluo significavam. O conde saiu maguado d'esta conferencia, e disse
 cunhada:

--Se Paulina quizer casar com Fernando, tem de adoptar meios
extraordinarios. Requeira o deposito, que a familia do ministro francez
presta-lhe sua casa.

Paulina respondeu:

--Era preciso que Fernando ao menos me enganasse, para eu acceitar o seu
conselho. Fernando, quando me escreve, nem ao menos diz que me ama.

--Ama com a mais segura das paixes: a paixo que mata com infernal
lentido.

--Se elle m'o fizesse assim acreditar!...--replicou ella.

O conde inferiu que Paulina estava canada das virtuosas,
incomprehensiveis e fastidosas singularidades de Fernando. E assim,
muito  puridade, o communicou ao secretario.

Bartholo chamou Paulina, e mostrou-lhe cartas de Lisboa. A importancia
d'estas cartas ha de ressumbrar na seguinte, que ella escreveu a
Fernando:


Meu querido amigo.

Nem a cegueira do amor me engana. As tuas cartas dizem-me tudo que est
em tua alma. Eu no sei por que desmereci aos teus olhos. No sei,
Fernando! Aquella impensada fuga que eu havia de fazer, com teu
consentimento, creio que me tirou todo o prestigio. Esta pobre
formosura, que tanto encarecias, j te no inspira mesmo as palavras
animadoras que releio nas antigas cartas, com o corao traspassado de
dr! O ser rica sabia eu que era cousa nenhuma em teu conceito; mas o
ser-te leal ha dois annos,  custa de tormentos tamanhos, cuidava eu que
seria um titulo  tua eterna dedicao. Louca mulher, que to vaidosa
julguei merecer o que o mundo no pde dar! Com que me recompensas tu o
fel que eu tenho tragado desde que voltei dos teus frios braos para
debaixo dos olhos severos e queixosos de meu pae? O teu esfriamento 
incrivel! Se me dissessem que amas outra mulher, comprehenderia o homem
e a ingratido. Mas sei que vives s, que vives triste, que tudo te 
indifferente, e eu mesma quasi esquecida! Cada carta que me envias 
como obrigada pela delicadeza. Palavras inintelligiveis, apprehenses
vagas, e nenhuma em que me digas positivamente o que pensas, e esperas
de mim! E eu amante como sempre! Capaz de tudo, mas incapaz de me
abalanar a novos sacrificios, sem que me tu digas corajosamente:
Luctemos de novo! Porque m'o no dizes,  Fernando!?

Ainda agora sa do quarto de meu pae, onde fui chamada, e entrei a
tremer. Mostrou-me cartas de Portugal, cartas forjadas talvez aqui, e
mandadas lanar l no correio. Todas falam de ti miserias que eu me pejo
de dizer. Mas adivinho que desejas ouvi-las. Creio que, em dizer-t'as,
te allivio de conjunturas dolorosas. Noticiam que teu pae  um sapateiro
de Lisboa, que tua me era colchoeira, e que andas por aqui a estragar
as economias de teu pae, em quanto elle l est quebrado de trabalho,
cerceando ao po de cada dia para te sustentar uma vida aventureira. So
assim miserias d'este jaez. Irritou-me a alegria de meu pae, quando elle
com ar de victoria me estava lendo estas calumnias. No tive mo em mim,
e disse-lhe: Isso  tudo falso. Se o pae de Fernando fosse um
sapateiro, no iria visita-lo a Londres, nem lhe daria a decencia com
que tem vivido ha dois annos em Florena, aqui, e em toda a parte. Meu
pae encontrou-o em casa d'um principe, e o principe de Monfort no
aperta a mo a filhos de sapateiros, nem ministros de Portugal em
Hespanha o tratariam com tanta considerao, se elle fosse o que essas
cartas dizem. Meu pae enfureceu-se dizendo que o Almeida era filho d'um
latoeiro, e por isso occultava o teu nascimento...

Fernando, n'este ponto, machucou a carta na mo direita, e atirou-a aos
ps.


RESPOSTA

Minha senhora.

No mentiram ao pae de vossa excellencia. Sou filho d'um sapateiro, e
d'uma colchoeira. Meu pae est ganhando o po que me sustenta, e
vendendo as suas economias para suprir s despezas que o seu trabalho
no alcana. O sapateiro foi a Londres,  certo; mas no foi visitar-me,
como vossa excellencia presume: foi pedir-me que voltasse  pobre casa,
onde minha boa me me chamava para me abraar antes de morrer. Ensurdeci
ao chamamento de minha me, e no vi as lagrimas de meu pae. Vossa
excellencia tinha-me levado ouvidos e olhos, deixando-me no corao
apenas a fibra do remorso de ser mau filho.

Humilho-me diante de vossa excellencia, no como filho do sapateiro,
mas avergado pelo arrependimento de lhe ter occultado a minha humilde
origem. Foi o corao que me trahiu, dizendo-me que para vossa
excellencia era cousa de nenhuma significao o meu nascimento. Penso
que devo ser desculpado d'esta falta: seria grande extranheza andar eu
divulgando o meu nascimento. Eu tinha estado em Frana, e vira ministros
sahirem das officinas: e o mundo respeitava-os pela honra dos paes, e
por sua elevao com esforos proprios. Tudo me induziu, no a
esquecer-me de que meu pae era sapateiro, mas a presumir que me era
licito com minhas aces continuar a ser honrado como meu pae, sendo
certo, minha senhora, que eu nunca ousei suppr que meu pae carecia de
minhas virtudes para se dar nobreza de si.

Faz-me pena o desgosto de vossa excellencia quando esta carta estiver
lendo!

O que a senhora D. Paulina de Briteiros tem soffrido por minha causa!
Que mal empregados sacrificios!

No foi a mo de Deus que a susteve  borda do abysmo, minha senhora?
Que immensa vergonha e agonia devia ser a sua, se vossa excellencia a
esta hora fosse minha mulher?! Que torturas irremediaveis! Como havia
dizer-lhe eu em Portugal o nome de meu pae?

Nunca pensra n'isto!... Agora me parece incrivel que no pensasse!

Escrevo-lhe com quanta quietao de espirito se pde, minha senhora. O
corao est esmagado. Matou-o a vergonha de ter pulsado em to baixo
peito, vergonha que eu confesso sentir diante da sombra de vossa
excellencia, agora, e sempre.

Veja que horrivel organisao social esta, senhora D. Paulina! Diga
vossa excellencia em sua intima e clara razo, se eu merecia ser
vilipendiado por meu nascimento, emquanto no praticasse alguma aco
infamante! que mal fiz eu  sociedade em ter nascido de operarios?...
Desculpe-me vossa excellencia estas perguntas vans, desordenadas e
indignas da sua atteno.

N'este momento vou queimar as cartas de vossa excellencia, menos d'esta
ultima a pagina em que, por suas mos, a Providencia me ministra uma
lio, que me pde ainda levantar diante de mim mesmo.

De novo lhe rogo me perde, no silencio de sua consciencia, porque as
suas palavras j no poderei v-las escriptas. Subscrevo-me, com quanto
respeito me inspiram suas virtudes, creado de vossa excellencia

                                                       _Fernando Gomes._


Almeida tinha sado com o ministro para o Aranjuez, para voltar quatro
dias depois. Fernando queimou as cartas de Paulina, lendo as primeiras
de Florena, quanto as lagrimas lh'o consentiam. Enfardou o seu fato.
Comprou passagem na primeira diligencia em direco  fronteira de
Portugal, e mandou entregar a sua ultima carta a Paulina, ao embarcar-se
na locomotiva.

Almeida, recolhendo do Aranjuez, encontrou este conciso escripto:


Vou vr o pobre artista, e a pobre companheira do artista, que no tem
culpa dos meus infortunios.

Com as mos erguidas te rogo que no digas a alguem o meu destino.

Ters as minhas cartas regularmente, em quanto viver.

Graas, meu amigo, pelo corao de irmo que me dste. A recompensa 
este chorar que me tolhe poder escrever-te mais. So as ultimas lagrimas
do teu Fernando.


XIX

DE FERNANDO GOMES A HYPOLITO DE ALMEIDA

                                               Lisboa, 4 de agosto de 1842.

Meu presado amigo.

Aqui estou na casa onde nasci, no pequeno quarto em que os livros me
iniciaram para tormentos superiores aos que conheceste em minha vida.

Entrei em casa inesperadamente, e encontrei minha me chorando, e nos
braos d'ella, uma de minhas irms viuva, e alli, ao lado, deitada n'um
bero, uma criancinha de dois mezes.

Minha irm casra com um capito de mar e guerra, que morreu em viagem
para Moambique. Fra ella dotada com dez mil cruzados, cuja maior parte
o marido empregou em mercadorias, que levava comsigo, na esperana de
grandes lucros.

O navio deu  costa, e presume-se que meu cunhado se suicidou. A minha
pobre irm ainda ignora que est em pobreza extrema.

Sabe-o meu pae, que  um santo, e acceita das mos da Providencia tudo
que vier.

Outra minha irm, casada com um official de secretaria, vive muito
infeliz, e tem querido refugiar-se no abrigo dos paes; o marido, em
poucos mezes, leva quasi dissipado o dote, sem mesmo assim poder
resgatar-se de descreditos que mais tarde ou mais cedo o reduziro a vir
pedir esmola  porta do seu sogro. Acaba meu pae de me contar estas
alegrias, que eu te refiro para que vejas os ditosos auspicios com que
entrei nos lares domesticos.

Meu pae est quasi cego, e minha me n'um estado de decrepidez
extraordinaria. As minhas despezas dos ultimos oito mezes custaram ao
santo velho o sacrificio da venda dos bens do Cartaxo. O que elle no
vendeu foi a livraria, nem os manuscriptos de Bocage, seu amigo da
mocidade. Disse-me que me salvara os livros para me legar amigos. Perda
ao bom velho o seu descrer em amigos: elle no sabia que tu eras mais
verdadeiro e valedor que os livros.

O meu futuro  facil de conjecturar. Tenho uma numerosa familia
dependente de mim. A outra minha irm, e uma filha, no tardaro aqui.
Meu pae ainda vae  loja examinar, ou finge que examina, o trabalho dos
officiaes. Estes so j pouquissimos, em relao com o diminuto consumo
que tem a obra.

Penso em arranjar emprego; mas sinceramente te digo que no sei o para
que sirvo, nem como estas cousas se alcanam. Lembra-me abrir loja de
conselhos e requerimentos; estou esquecido do pouco que aprendi; careo
de muita pratica, e de muita paciencia. Falta-me gosto, alma e vontade.
Nenhuns estimulos d'actividade me impellem. Este espectaculo inesperado
escureceu-me o espirito de modo que nenhum raio d'esperana j pde
reanimar-me. Espero em Deus que esta crise no se demore; e, depois,
veremos.

N'outra carta me abrirei mais comtigo. A oppresso produz no animo
dolorosa preguia. Em contentamento sereno ou nas afflices agitadas,
n'estes dois extremos,  que o espirito se compraz ou desafoga em
diffusas cartas. Esta minha dr  termo medio que prostra e embrutece.
Adeus. Teu amigo muito grato

                                                               _Fernando._


DE HYPOLITO DE ALMEIDA A FERNANDO GOMES

                                              Madrid, 14 de agosto de 1842.

Meu Fernando. Quando recebi no Aranjuez, onde tive de demorar-me, a tua
carta de despedida, corri logo a Madrid, no esperanado em
encontrar-te, mas em ancias de saber o que se havia passado em minha
ausencia. Esporeava-me o odio que recresceu n'estes ultimos mezes contra
o algoz togado, o villo que me enganou quando eu tinha na mo o fio com
que esperava cortar-lhe a vida na garganta.

Deram-me a tua carta, e contou-me o creado que te vira queimar as de
Paulina. Percebi logo que um completo rompimento vos separara para
sempre. Odiei-a! Dei-te logo razo, porque eu sabia que tu eras um anjo
merecedor de melhor alma.

Na incerteza de me estarem trancadas as portas de Bartholo, procurei na
rua o conde de Rohan, e soube que Paulina estava doente. Perguntei, sem
rebuo, que razes se haviam dado para a tua saida repentina de Madrid,
e elle sem me dar explicaes, instou por saber o teu destino. No lh'o
podia dizer, no lh'o diria, ainda mesmo que antevisse n'esta infraco
a tua felicidade. _A tua felicidade_, digo eu!

Ha homens que ninguem deve conduzir a uma supposta felicidade: a m
sina pde tudo com elles, e reverte-lhes em mal os mais logicos planos
do bem. Os proprios amigos se tornam fautores da sua desgraa.

N'este mesmo dia recebi um bilhete de Paulina, a perguntar-me onde
estarias. Respondi que o no podia declarar. Redobraram instancias:
permaneci inabalavel. O ultimo bilhete d'ella  este que te envio[1].
No calculo o que succedeu para resoluo to improvisa! Dar-se-ha caso,
Fernando, que a tua doentia imaginao te enganasse? Poderias tu ser
injusto, sem consciencia de o ser? Irias arrebatadamente, onde com
alguma hora de reflexo, deixarias de ir?

No ouso decidir por mim a hypothese: tamanha confiana me merece o teu
bom juizo e reflexiva dignidade. Antes me quiz persuadir que procedeste
como devias. Esperei.

Agora, porm, recebo a tua carta de 4 de agosto. Nem uma palavra a tal
respeito! Dir-se-hia que eu sonhei que tinhas amado Paulina, ou tu d'uma
para outra semana perdeste a memoria do teu corao! Isto mais me
capacita de que a razo do teu proceder foi to grande que presumes deva
eu j sabe-la, e por amor de ti proprio a omittes. Juro-te que apenas
sei o que devo inferir dos bilhetes d'ella.

O conde ignora tudo. Bartholo est com ares de satisfao; nada, porm,
diz ao genro nem a Eugenia. Este mysterio mortifica-me. Esclarece-m'o,
que o deves ao teu Almeida.

Falemos agora da tua situao. Compunge-me a sorte de tuas irms, e de
teus bons paes. Triste espectaculo, na verdade; mas providencial e
necessario para a glorificao da tua honra. Precisas de fora, e de
paciencia para poder emprega-la.

Queres um cargo publico? Os teus estudos, talento e servios ho-de
obte-lo; mas no cuides que ser j, meu amigo. Tu perdeste a occasio
de entrar nas secretarias com o arcabuz do crco do Porto debaixo do
brao. As gravatas dos heroes de gabinete na emigrao j se no temem
das dragonas. Estamos em tempos pacificos. O que ha seis annos se
conseguia e recebia com a mo a cheirar a polvora,  preciso have-lo
agora das mos enluvadas das mulheres, que fazem os despachos nas
othomanas, com os ministros reclinados sobre o seio. Advirto-te, para
que a decepo te no surprehenda.

Entretanto, meu caro Fernando, o que tu precisas  de encaminhar desde
j a tua preteno, dando ares de que no pretendes. Resgata os teus
bens do Cartaxo, se o comprador t'os ceder: ostenta uma independencia
que fira o orgulho villo dos grandes que no supportam animos generosos
e isemptos; entra na politica, e escreve, que necessariamente has de
escrever coisas excellentes, visto que  esse o ramo de conhecimentos
humanos que d fructo a quem lh'o pede, e para o qual todo o homem est
habilitado. A honra ha de ser-te um empeo  boa sada; mas pde ser que
a mesma excepo te aproveite. Ora como para estas coisas, e
principalmente para a independencia,  necessario o dinheiro, vae ter 
rua Augusta, procura meu velho pae, que has de encontrar a bater alguma
caldeira, e diz-lhe quem s. Deves saber que eu sou j senhor da
legitima materna, e este capital, que excede a vinte contos de ris, l
o tem meu pae  espera que eu lhe d destino. A tal qual decencia, com
que vivo aqui,  meu pae que m'a d, prohibindo-me que eu gaste da
herana de minha me. V tu que animo este de artista, que ainda no
despegou uma semana de trabalhar! Vae l, meu amigo; elle est
prevenido, e sabe que s meu irmo. Pede o que quizeres, para m'o
pagares quando puderes.

Fecho, que est a partir o correio. Escreve muito ao teu

                                                                _Almeida_.


DE FERNANDO GOMES A HYPOLITO DE ALMEIDA

                                              Lisboa, 31 de agosto de 1842.

Meu irmo.

Guardo em minha alma a tua carta.

Falarei primeiro dos teus fraternaes offerecimentos.

Fui vr teu pae, porque desejava conhece-lo e abraa-lo. Que cabellos
brancos, e que mos calejadas aquellas! Que bem e orgulhoso me senti nos
braos d'elle! Falla de ti com lagrimas; mas todo aquelle rosto se abre
em contentamentos d'um justo!

Quiz que lhe contasse pormenores da tua vida em Madrid.

Satisfiz aquella ancia do teu velho. Foi dia de frias na officina a
minha visita. Mandou os operarios passear, recommendando-lhes que no
fossem  taverna. Depois jantei com elle, e l fiquei at  noite. Teu
pae deita se ao escurecer e ergue-se com a aurora. Disse-me elle quando
eu estava para sahir: Veja l o dinheiro que quer, doutor.
Respondi-lhe que no queria nenhum. Montou os seus grandes oculos de
cobre, arregaou os punhos da camisa, releu a tua carta, e exclamou:
Ento como se entende o que reza esta carta do meu Hypolito?! Satisfiz
s suas duvidas, dizendo-lhe que o teu offerecimento no fra
solicitado, nem por em quanto me era preciso aceita-lo.

Assim passaram quatro boas horas da minha vida. Face a face com o
principe de Monfort no me senti to feliz e entranhado de respeito como
ao lado do artista, do teu digno pae, meu querido Almeida.

Beijo-te as mos pelo amigo que me dste. Em quanto ao dinheiro,
deixemo-lo estar, _como nosso_, na mo do honrado depositario. Quando
precisarmos, l iremos.

Agora direi pouco de Paulina para te satisfazer, e menos terei que
dizer-te, enviando-te uma copia da pagina da sua ultima carta. Ahi tens
decifrado o enygma. O filho do sapateiro teve pejo e arrependimento de
se haver abalanado ao corao da filha de um Briteiros: pejo de se
haver abatido, e arrependido de a ter humilhado. Cahi em mim. Podia ser
mais tarde, e mais funestamente para ambos. Deus poupou-me ao aperto de
entrar em Portugal, e por esta porta dentro, onde todos choram, com a
faustuosa e brilhante Paulina, que est fadada para alegrias e
esplendores. Que sentiria aquella alma vendo-se aqui n'este ambiente de
pobreza, pobreza que se adivinha em tudo! Alli dois velhos; alm duas
irms uma viuva, outra divorciada; acol duas criancinhas, cada uma em
seu bero, vagindo; l em baixo o martellar do trabalho; em tudo o cunho
de uma maneira de ser incompativel com a indole e educao de
Paulina!...

Que queres tu,  vista d'isto, que eu faa ao corao?

Suffoco-o; obrigo-o a repartir-se por estas quatro creaturas, que no
teem mais ninguem.

O bilhete de Paulina como no me auctorisas a queima-lo, devolvo-t'o;
pde ser que ella venha a envergonhar-se de te-lo escripto, e t'o
reclame.

Persiste em no dizer nada de mim; e, se tenho algum outro favor a
pedir-te,  que me no fales d'ella; antes me ajuda a esquece-la.

Meu generoso pae ainda a tal respeito me no disse palavra. Adivinhou
tudo. Tudo me tinha prophetisado em Londres, com estas palavras: _Que
direitos tens tu a uma felicidade que te custa humilhaes? Para que a
procuras afincadamente, se vaes de rastros apoz ella? Porque has de tu
querer hombrear com os grandes, se eu apenas te fiz entrar n'uma
carreira por onde levarias teus filhos  grandeza?_

Na ultima pergunta  que o propheta ouviu demasiadamente os seus
arremessados desejos. Esta minha carreira  a da inhabilidade e da
pobreza; mas c estou a refazer-me de alentos para a trilhar. Adeus, meu
extremoso amigo. No acceito o teu alvitre de me fazer politico. J vi o
que isto . No estou ainda bastante pdre para adubar o torro em que
braceja a arvore da immoralidade. Estou envergonhado de ter dado o meu
sangue para isto! s vezes chego a scismar se Bartholo de Briteiros
teria razo!

Perda esta impia ironia. Antes isto que os patibulos. Cada qual
enforca a sua honra  sua vontade, e no causa lastima nem espanto. No
ha tempo para mais. Adeus. Teu

                                                               _Fernando_.


XX


DE HYPOLITO DE ALMEIDA A FERNANDO GOMES

                                             Madrid, 3 de setembro de 1842.

Meu Fernando, no espero a tua resposta para te escrever. Tenho s
tempo de participar-te que Paulina entrou hoje n'um convento, contra a
vontade do pae. O conde de Rohan suppe que s tu a causa d'este
successo. Bartholo suppe que a filha se enclausurou para de l requerer
casamento comtigo. Elles e eu andamos litteralmente s aranhas. Ella e
tu sois os ferrolhos do mysterio. Sae a mala. Adeus.

                                                                _Almeida_.


DO MESMO AO MESMO

                                            Madrid, 12 de setembro de 1842.

Viva Deus! que quebraste os sete cadeados do cofre! Vi o altissimo
quilate do oiro da tua honra. J o conhecia.

Estas linhas deviam magoar-te; mas no justificam a fuga, e menos ainda
o desprezo. No  desprezo o que sentes por ella; mas, seja o que fr os
effeitos so analogos.

Paulina, como j deves saber, vive no convento das Therezinhas.
Consta-me, de informaes exactas, que Paulina est n'um consternador
abatimento de espirito. Raro se deixa vr e apenas se da cella para
receber, na grade, a visita do conde ou do pae. Eugenia entra no
convento, e passa muitas horas com ella; mas nem assim lhe arranca o
essencial motivo do rompimento e recluso.

Bartholo tem providenciado para o caso de haver deposito judicial.
Realisa-se o que eu te havia dito. Sei que de antemo, e por hypothese,
j esto alugados os juizes.

Eugenia pediu-me hontem um encontro no Prado. Insistiu comigo para eu
lhe descobrir a tua residencia. Inutil. Jura que Paulina te ama at se
deixar morrer, para assim pelo remorso se vingar da tua ingratido.
Estive, sem receio de quebrantar minha palavra, quasi a mostrar-lhe a
copia da pagina da ultima carta da irm. Desisti, por me no parecer,
ainda assim, justificavel o teu procedimento, e tambem para respeitar o
sigillo de Paulina. Ella, que o reserva, l tem suas razes, e ns as
nossas.

Aconselhar-te eu? no me atrevo a tanto. J disse: contra certos
destinos  impotente esta logica vulgar, _vade-mecum_ de todos os homens
vulgares. Escuta o teu corao, sem menos-preo da consciencia. Obriga a
razo a obtemperar a certas e importantissimas pequenezas, que so o
essencial da vida. Isto no  conselho:  supplica.

Bartholo vive muito ha dias com um marquez gallego, que veio ao senado;
riquissimo gallego, e descendente dos monarchas de Arago. Presume o
conde de Rohan, com o muito sal do seu espirito, que Paulina corre risco
de ser encabeada na crte descabeada de Arago. Eugenia accrescenta a
estas observaes que Paulina s sair do mosteiro, se a no deixarem l
sepultar na clausura. Isto parece-me extremamente grave, Fernando.

Queres tu que eu ultrapasse as tuas ordens, ou prescrever-m'as novas?
Custa-me a ser-te fiel entre as reiteradas insistencias do conde, de
Eugenia, e da piedade a que indirectamente me compunge Paulina.

Anceio a tua resposta.

D outro abrao ao meu bom pae. Diz-lhe que eu vou muito cedo aperta-lo
ao corao, e que, se o aborrecimento d'esta vida diplomatica fr assim
augmentando, de certo l ficarei a ouvir o estrondear das caldeiras.
Adeus. Muito do corao.

                                                                _Almeida._


DE FERNANDO GOMES A HYPOLITO DE ALMEIDA

                                           Lisboa, 12 de setembro de 1842.

Respondo, meu amigo,  tua cartinha. A esta hora j recebeste a carta
explicativa do meu procedimento. Julga-me, e absolve-me, se fui injusto.
O meu destino  vr que as minhas aces, aconselhadas pelo dever,
redundam sempre em gravame alheio e desconceito meu. Estou enganado com
o mundo. Devo restringir-me, cada vez mais, n'um curto espao em que
todas as operaes de minha intelligencia, se reduzam ao trabalho
necessario  vida. S assim poderei achar um cantinho da sociedade, onde
caiba com a minha insignificancia.

Cuidei que, saindo de Madrid, deixava essa senhora em paz comsigo e com
o mundo. Puz o corao debaixo dos ps, e nem assim consigo a liberdade
do espirito!

A entrada de Paulina no convento, a meu parecer, significa uma fadiga
de alma, que faz as mulheres eguaes aos homens. Paulina soffreu; creio
que sim. Est repousando para reassumir as poderosas faculdades de sua
juventude, formosura e aspiraes. Pde ser que, ao receberes esta
carta, ella tenha j deixado o mosteiro pelas salas; e manh deixar as
salas pelo mosteiro. Paulina l romances. Os personagens femininos, da
novella moderna, so quasi todos a copia fiel da brilhante extravagancia
do espirito. Leem-se, e a sympathia, em vez do riso, nos impressiona.
Imitam-se, onde ha espao, e  preciso te-lo, ainda assim, para as
scenas grandiosas, que, a final, desfecham em tragedias que o mundo,
futil e chocarreiro, denomina comedias.

Na proxima carta me dirs o proseguimento d'esse estranho passo.
Authoriso-te a dizer-lhe, to directamente quanto puderes, que respeito
em silencio todos os seus designios, e peo a Deus, que ao encontro
d'elles, lhe saia o anjo da felicidade. Em quanto a ama-la, faz-lhe
sentir que eu sou bastante desgraado para no poder esquece-la.

Vou manh ao Porto a fim de solicitar o embolso de algumas dividas de
calado que l devem a meu pae as lojas que se forneciam de nossa casa.
Tudo  necessario para ir custeando estas grandes despezas. J vs que
estou feito caixeiro de cobrana de uma loja de sapatos. Para bem
desempenhar estas funces, levo comigo as minhas cartas de bacharel
formado em leis!

Vou ver as paragens onde vimos juntos a morte tantas vezes! Procurarei
o rochedo das Antas, onde me encostei ferido no dia em que fui
condecorado. Ama o teu camarada d'aquelles bons dias de sangue, de
esperanas, de alegrias.

                                                               _Fernando._

DE HYPOLITO DE ALMEIDA A FERNANDO GOMES

                                         Madrid, 25 de setembro de 1842.[2]

Meu amigo.

Bartholo de Briteiros est na eternidade. O marquez gallego foi o
indirecto homicida do lambaz Briteiros! Houve jantar opiparo no hotel. O
amphitrio recolheu-se pesado  cama, e, se adormeceu, acordou na
eternidade.

No fez testamento. Achou o conde umas declaraes, ou norma de
testamento, que do noticia da grande fortuna de Bartholo. Oram-n'a em
seiscentos contos, em differentes especies.

Paulina saiu do mosteiro para a companhia de Eugenia. Fiz a minha
visita de pezames ao conde, que me disse ir brevemente a Portugal
liquidar a herana do sogro, e vae depois para Frana.  de suppr que
Paulina acompanhe a irm.

Em vista do que, j no receio que a joven menina perea no mosteiro.

Ninguem me tem fallado de ti. A tristeza de Paulina sei eu que 
inalteravel.

Diz-me o que fazes: fala-me da tua familia. Teu sempre extremoso

                                                          _H. de Almeida_.


Nenhuma outra carta nos veiu  mo.

Fernando Gomes, voltando do Porto com os creditos de seu pae liquidados,
melhorou o pessoal dos operarios, e alargou o seu commercio, creando
freguezias de lojas nas terras que percorreu. Em toda a parte encontrou
condiscipulos, que se maravilharam de o verem agenciando os interesses
d'uma loja de sapateiro. Deu isto em resultado que ninguem o visitou nas
estalagens onde se aposentava.

Francisco Loureno mostrava-se penalisado de vr seu filho occupar-se em
tal mister, to incongruente com sua educao. Reconhecia a iniciativa
melhoradora do estabelecimento; mas, ainda assim, pedia-lhe
incessantemente que requeresse um emprego, allegando sua instruco e
servios.

Fernando, submisso a seu pae, aos prantos da me, e meiguices das pobres
irms, requereu, apresentou ao ministro seus papeis, foi tres vezes 
audiencia geral do secretario de Estado, e esperou.

De vez em quando ia examinar o seu nome no livro da secretaria, e lia
sempre: ESPERADO.

Este _esperado_  regularmente o prologo do _indeferido_.
Indeferiram-lhe o requerimento. O logar pedido na thesouraria fra dado
a um filho de regedor, que puzera s ordens da situao oito votos e
quatro cacetes, que valiam vinte e quatro votos.

Fernando leu o despacho no _Diario do Governo_, leu os commentarios n'um
jornal da opposio, e riu-se.

Pegou na medalha de Torre e Espada, embrulhou-a n'um papel de
mata-borro, e enviou-a ao ministro, com esta carta:


Excellentissimo. As _honras_ a quem competem. Faa vossa excellencia
presente d'isso ao meu feliz competidor. Ganhei essa coisa por ter suado
sangue a favor d'esta causa em que o merito do cacete devia ser
instaurado. O cacete venceu. Agora competem aos sacerdotes do pagode,
que eu ajudei a erguer, as condecoraes que nada prestam aos operarios
inactivos. Eu, e o meu competidor, que ceifou o carvalho civico com o
cacete paterno, o que fizemos foi derramar sangue de irmos. Devemos
hombrear nas honras. Ora, os arrependidos devem rejeita-las em favor dos
contumazes. Deus guarde a vossa excellencia, como todos havemos mister,
e de veras lh'o deseja o criado inutil de vossa excellencia, _Fernando
Gomes_, com loja de sapateiro na calada do Sacramento, n. 11--Lisboa.


O ministro recebeu a carta e o embrulho. Pensou em autoar o signatario;
mas o official maior pediu licena para observar a sua excellencia que a
carta no encerrava injuria pessoal nem collectiva, salvo aos
caceteiros, por cuja honra no ficava airoso ao ministro sar. Assim
acabou o episodio.

Fernando Gomes passou de agente exterior a fiscal da officina. Descia 
loja, e examinava de perto a labutao; ajudava a encaixotar o calado,
e assignava, em nome de seu pae, a correspondencia com os freguezes. Os
officiaes antigos respeitavam-n'o, dando-lhe sempre o epitheto de
doutor. Ora o doutor um dia, alto e bom som, disse a todos os seus
officiaes que se chamava Fernando.

Esta metamorphose divulgou-se, contada pelos operarios.  admiravel que
ninguem lhe dsse grande peso! Muitos doutores disseram: se elle viu
que no tinha geito para mais nada, fez bem em se fazer sapateiro, assim
como dizem que o pae se queria transformar de sapateiro em poeta.

O mundo tem d'estes escarneos, que fazem vontade de perguntar ao Creador
se est contente com a obra que fez.

 fora de muito observar, Fernando j sabia talhar umas botas como se
fosse creado no officio. Diante, porm, do pae no ousava fazel-o, nem
os officiaes ousavam dizel-o ao velho. Parecia a Francisco Loureno que
o trabalho de talha andava muito supprido, e elogiava a actividade do
contra-mestre encarregado d'aquelle servio. Elle, por si, o pobre cego,
nada fazia j.

Fernando passava todas as noites em casa, ora contando  me e irms o
que vira em suas viagens; ora lendo a seu pae os poetas relidos na
infancia, e os livros de historia e viagens, que elle trouxera do
estrangeiro. Estas leituras coavam calor de contentamento, a travs dos
setenta invernos de Francisco Loureno, e embalavam o rebelde somno da
me, que acabava por adormecer entre o seu rozario e uma descripo dos
gelos polares por Cook.

Esta vida durou assim seis mezes.  de crer que n'este espao se
trocassem interessantes cartas entre Fernando e o secretario da legao.
Como as no alcanmos, o que podemos conjecturar  que Paulina se
conservou em Madrid esperando que o seu saudoso amigo, alguma hora, alli
voltasse, conduzido pelo amor, ou pelo pezar de to dura ingratido. No
sabemos se o conde veiu a Portugal liquidar o patrimonio de sua mulher,
como Almeida annuncira. Se veiu,  muito de suppr que ninguem em
Lisboa lhe dsse noticias do _chevalier Ferdinand Gomes_, como elle
euphonicamente o conhecia.


XXI

Estava um dia, 5 de janeiro de 1843, Fernando Gomes na loja da calada
do Sacramento, aviando uma carregao de fazenda para o Porto.

Antes de descer  loja, sua me, quando ia para a mesa do almoo,
abraou-se n'elle, e disse-lhe:

--Olha Fernando, tu no crs em sonhos, e eu creio!... Tive um sonho
alegre!...

--Ento sonhou que vendiamos algumas grozas de botas, minha me? Os
nossos sonhos alegres no pdem ir mais alm d'esta ambio de vender
muito sapato.

--Bemdito seja o Senhor, que nos ajuda, filho!--disse a velhinha.--Desde
que tu diriges a casa, parece que tudo levou volta! Olha que teu pae j
disse que, se assim continuarmos um anno mais, havemos de resgatar os
nossos bemzinhos do Cartaxo.

--Ento sonhou, minha me, que estavamos outra vez proprietarios no
Cartaxo?

--No foi isso, Fernando... Sonhei mais alguma coisa... Sonhei que te
via vestido de principe.

--De principe?! l! de principe! Sabe o que deu causa a esse sonho?

--Que foi, meu filho?

-- porque hontem  noite estivemos a conversar a respeito do entrudo,
que est  porta. A me adormeceu com a ideia do entrudo, e por isso
sonhou que me via vestido de principe. No foi outra coisa, minha
querida mesinha... Venha almoar, que eu levo-a pelo brao, como em
casa de Jeronymo Bonaparte levei uma vez a princeza Carolina.

--Valha-te nosso Senhor! no me deixas dizer o meu sonho at ao
fim!--tornou ella, dando-lhe uma fagueira palmada na face esquerda.

--Pois o sonho estava no principio, minha me?

--Estava... Credo!

--Cuidei que o principe acabava principe. Querem ver que elle se fez
sapateiro?

As irms riram; e o velho, abrindo os seus grandes olhos cataratosos,
largou tambem uma casquinada de alegre riso.

Fernando temperou o ch de sua me, serviu o pae, e proseguiu:

--Ora agora, ninguem a interrompe, mesinha. Exponha l as suas alegres
vises.

--Tu eras principe; ou estavas vestido de principe; mas, atravs do
peitilho da farda, batido a ouro, via-se-te o corao. Quando tu assim
estavas, comeaste a chorar, porque descera do co um anjo, e te levara
o corao para Deus. N'isto appareces vestido de negro, muito pallido,
menos no logar do rosto onde corriam as lagrimas, que brilhavam como
diamantes. Quando assim estavas muito triste, e ns todos a chorar
comtigo, torna a descer o anjo, e d-te o corao, que te havia levado,
dizendo-te umas palavras, que se me varreram da memoria. Eis se no
quando, appareces vestido todo de resplendores de luz, com um semblante
muito luminoso, e uma alegria, como a pintam no rosto dos
bem-aventurados que adoram o Altissimo. Teu pae estava como absorto a
olhar para ti, eu tambem, todos riamos e choravamos de felicidade, ao
mesmo tempo, e n'este momento  que eu acordei.

--Alegre sonho, minha me! disse Fernando. O que eu agora queria era que
vocemec me explicasse o como se ha de converter em realidade esse
bonito vestido de resplendores.

--Pergunta-o ao Senhor que me deu o sonho, filho, disse a me.

--O seu ch arrefece, tornou Fernando, eu fao-lhe outra chavena.

--Pois sim, meu querido filho; tem paciencia, que eu estou a tremer o
queixo. A velhice parece que traz comsigo uma constante Siberia!

--Vejo que ainda se lembra das suas lies de geographia, que o pae lhe
dava ha vinte annos, minha me. Ainda sabe que a Siberia  fria!

--No, que tu cuidas que a velha ha de ser estupida por que 
velha!...--disse ella risonha.--Olha que ainda s vezes recordo os
versos do nosso Bocage, e do nosso Francisco Dias Gomes. Este era do
nosso sangue; o outro era do nosso corao, no era Francisco?

--Oh! se era! estou-o vendo, como se fosse hontem, quando elle, na
mercearia, a S. Sebastio da Pedreira, me improvisou os versos com que
eu te venci, minha ingrata! Amaste-me por no poderes amar o Bocage, no
foi? Ora confessa a verdade, que eu agora j no tenho ciumes...

--Olha o tolo!--disse a senhora Maria Luciana, com a bocca cheia pelo
bocado de po, rebelde aos seus raros dentes.--L que os versinhos me
encantaram, isso te juro eu que sim, Francisco... No sei o que seria se
me dissesses em prosa aquellas coisas... Tu eras to acanhado quando ias
l a casa! Olha se te lembras que para me dares um raminho de violetas
em dia de meus annos, andaste a pedir ao aprendiz, quinze dias antes,
que m'o entregasse...

Fernando e as irms sorriam, sem quebra de respeito, d'estas amorosas
reminiscencias dos dois velhos, que trocavam gracejos, que era um como
prazer de lagrimas ouvi-los, de lagrimas, digo, para ouvintes que
tivessem corao muito sensivel s poucas coisas commoventes que tem a
vida humana.

Findo o almoo desceu Fernando  loja, como j se disse comeando este
capitulo.

Acabra elle de dar sada aos caixes de embarque, e outras ordens,
quando Hypolito de Almeida apeou d'uma carruagem, com as cortinas
corridas por dentro das vidraas.

Fernando viu-o no limiar da loja, e correu a abraa-lo, exclamando:

--Que surpreza! Eu no te esperava, meu querido amigo! Subamos  saleta.
Deixa-me ao menos tirar esta jaleca!

Almeida fitou os olhos no amigo do crco, de Coimbra, de Paris, de
Madrid, e as lagrimas rebentaram-lhe a quatro.

--Isso que ?--disse Fernando.--Que tens tu, Almeida?

--Tenho a alegria, que precisa chorar como a dr. A tua virtude causa-me
uma vehemencia de respeito, de piedade, sensaes to estranhas e
fortes, que me fazem isto que vs, estas no sei se primeiras lagrimas
de minha vida. O que tu pudeste sobre ti,  Fernando!

Os officiaes pararam de trabalhar, enleados n'este lance, e chorando sem
comprehender o alcance do que viam.

--Subamos--repetiu Fernando commovido.--Vem dar um abrao em meu pae, em
paga dos muitos abraos que tenho dado no teu.

--Pois sim, vamos--tartamudeou Almeida, n'uma irresoluo.--Vamos...
tambem quero vr tua me...

Subiram, e os dois velhos vieram logo espontaneamente  saleta por
ouvirem pronunciar o appellido _Almeida_.

-- o amigo do nosso Fernando--disse Francisco--vem d'ahi, Maria! vem
abraa-lo.

Oh meu Deus! que magnificos lances preparam as vossas divinas leis!
Quantas vezes, e quantos lances assim passam despercebidos na
obscuridade onde vivem os vossos eleitos!

Os dois velhinhos acharam-se nos braos de Hypolito de Almeida, que
sentiu em suas faces as lagrimas de ambos. Fernando, electrisado por
aquelle instante da vida do co, beijou a mo do amigo, por que elle
assim respeitava e amava seus paes humildes.

Almeida parecia querer dizer alguma coisa que se lhe no moldava 
expresso. Aquelle vacillar, e olhar d'um para outro rosto, o comear e
recomear da phrase, terminou por esta abrupta pergunta  me de
Fernando:

--Minha senhora, quer ter a delicadeza de offerecer a sua casa a uma
dama, que veio em minha companhia, e me est l fra esperando na
carruagem?

-- sua irm, senhor Almeida?--perguntou a velha.

--No tem irm--disse Fernando.--Ser sua esposa. Queres surprehender-me
com a tua noiva?  hespanhola?

--No  noiva--tornou o secretario-- irm.

--Irm!--redarguiu Fernando com espanto.

--Sim, irm, porque tu s meu irmo.

--Como?!--exclamou impetuosamente Fernando.

--V, v!--volveu Almeida--v, minha senhora, offerecer a sua casa  sua
filha Paulina, que vem aqui pedir-lhe a mo de seu filho!

--Fernando j tinha corrido a escada abaixo; mas, a meia descida, parou,
olhou para si, e viu-se n'aquelle traje. Hesitou instantes, e disse:

--Porque no?! Ainda me torturas, miseravel vaidade!

A me seguia-o de perto, ajudada por Almeida.

Em seguida iam as duas irms de Fernando, cada uma com seu filhinho nos
braos.

Francisco Loureno, que mal descortinava as escaleiras, ia mui de manso,
tacteando o mainel da escada.

Fernando abriu a portinhola da carroagem.

Paulina saltou-lhe aos braos; e, antes de proferir palavra, rompeu n'um
chorar e soluar to suffocante, que, nos braos dos dois e da velhinha,
foi transportada para o pateo.

Fernando ajoelhou  beira de Paulina, que recostava a face desmaiada ao
seio de Maria Luciana. Uma das creancinhas, do colo de sua me,
estendeu-lhe a mo a um dos anneis dos cabellos negros.

Paulina abriu os olhos, e sorriu  creana, e apertou a mo de Fernando.

Maria, com as mos erguidas, murmurou:

-- o anjo do Senhor que volta com o corao de meu filho. Vejo-te agora
vestido de resplendores, Fernando!

O moo lembrou-se do sonho de sua me, e respondeu beijando-lhe a mo.

Ainda agora chegava Francisco Loureno. Pediu que o deixassem approximar
de Paulina, e disse com a voz convulsa de lagrimas:

--Eu lhe agradeo, minha senhora! Eu lhe agradeo o bem que faz ao meu
virtuoso filho. Deus a abene, santa, que soube avaliar os merecimentos
d'este anjo. Deixe-me rojar as cans aos seus ps, que no ha desaire
n'esta humildade do pobre velho, ainda que elle fosse um rei!

Paulina abraou-se expansivamente ao artista, e chamou-lhe pae.

--Pae! meu Deus!--exclamou elle--Com que liberalidade me pagaes os
padecimentos de alguns annos! Minha filha, que immensa alegria vem
trazer a tantos que a pediam ao Senhor! Eu quero que meu filho sinta
mais intensa felicidade que eu!...

Paulina sahiu amparada ao brao de Fernando, e no pescoo de Maria
Luciana. Entraram na saleta da livraria. Era a riqueza d'aquella casa.
Sentou-se a ditosa na cadeira de Fernando, junto  meza onde elle fazia
as suas leituras. Relanceou os olhos sobre a mesa, e viu na capa d'um
grosso volume de papel almasso esta palavra--_Paulina._--

Lanou rapida mo ao livro. Leu das ultimas paginas escriptas as linhas
finaes, que diziam assim:


_Porque te vejo ainda,  abenoado anjo do meu infortunio! Que luz 
que tu me mandas em sonhos, se o meu despertar  sempre no meu abysmo de
saudade?... Ainda te verei,  Paulina?..._


Ergueu-se, escarlate d'alegria, o anjo abenoado d'aquelle augusto
infortunio, abraou Fernando com fremente ardor, e disse:

--Pois no vim eu trazer-te a luz dos teus sonhos, meu querido Fernando?


CONCLUSO

Fernando Gomes no pedia explicaes de sua felicidade a Hypolito de
Almeida, nem a Paulina de Briteiros.

Aquellas alegrias tinham ainda a vaga desconnexo d'um sonho.

Os enlevos do presente no pedia ao passado a sua razo de existencia.

Os paes, e as irms de Fernando, pallidas e melancholicas meninas, to
na madrugada da vida desgraadas, pareciam estar agradecendo a Paulina o
bem que fazia a seu irmo, unico amparo d'ellas.

Almeida, quando pde falar, sem desdizer da eloquencia das lagrimas da
bem-aventurada familia, disse gravemente o seguinte:

--Fernando, eu j te vi de joelhos aos ps d'esta senhora; mas no te
ouvi pedir perdo...

--Ah! exclamou Paulina, apertando ao seio Fernando para que has de tu
ajoelhar-te? No quero, meu querido amigo. A mais desgraada no era
eu!... Eu sabia que havia de encontrar-te, Fernando; tu  que no
esperavas mais ver-me. Eras incomparavelmente mais atormentado que eu...

--Mas, atalhou Almeida, vossa excellencia d-me licena de expr o
relatorio conciso... (o _sizo_, n'estes relatorios d'amores, 
extraordinaria coisa...)

Fernando e Paulina sorriram com o secretario, que proseguiu:

--Expr o relatorio, dizia eu, dos imperiosos acontecimentos que me
constituiram na gloriosa obrigao de ser o mais ditoso dos
casamenteiros. Permitte vossa excellencia?

--Se fr sempre engraado como comea, consinto, disse Paulina.

--Como hei de eu ser engraado contando uma historia de lagrimas, minha
senhora?

--Ento no diga, no diga; eu contarei tudo ao meu Fernando. So poucas
palavras, meu amigo;  uma s palavra... _amava-te_; mas o teu Almeida
foi um barbaro! Sabia as minhas angustias, e deixava-me morrer.
Mandei-lhe pedir do convento, tantas vezes, que me dissesse em que ponto
da terra eu poderia encontrar-te!... Por fim calei-me, e esperei acabar
alli, e deixar-te uma lembrana que havia de vingar-me... No
recordemos... no queiras que eu recorde o que soffri, at  hora em que
me vi livre para te procurar... Aqui estou, Fernando...  a segunda vez
que te procuro... D'esta vez no me deixes mais sair do abrigo da tua
grande alma...

No sei se o prolongar o colloquio d'estas felizes creaturas seria dar
ao leitor um quinho do contentamento d'aquella familia; o que
certamente me dispensam,  preambular para chegarmos ao ponto do
casamento.

Almeida, n'este mesmo dia, voltou com a licena do patriarcha para os
esposorios se celebrarem logo, onde aprouvesse aos contrahentes, dentro
do patriarchado.

Paulina quiz ser recebida na egreja onde fra baptisada, e onde estava a
sepultura de sua me. Do templo de Santa Izabel passaram a visitar, nas
Amoreiras, o palacio onde Paulina tinha nascido.

--Pedia-te--disse ella a Fernando--que ficasses aqui, e a nossa familia
toda. V tu como em vinte e quatro horas o nosso bom Almeida fez mobilar
esta casa, ha nove annos deshabitada! Meu pae no consentiu nunca que
vivesse alguem na casa onde minha me tinha morrido... Olha, Fernando,
n'este quarto morreu ella e nasci eu!...

Desceram ao jardim. L estavam os canteiros, mas nenhuma flr das que
ella memorava com infantil saudade em Florena.

--Ellas renascero!--disse Paulina.--Ns teremos as minhas flres,
Fernando! Sero os meus enfeites nos dias memoraveis de nossos prazeres
e amarguras! Na felicidade deve ser to doce recordar os gosos como as
lagrimas...

A familia de Fernando aposentou-se no palacio das Amoreiras. A loja da
calada do Sacramento fechou-se, depois que Francisco Loureno andou
repartindo por asylos, e cadeias, e familias pobres, a fazenda com que
ia recomear a prosperidade do estabelecimento.

O primeiro e unico desgosto que assaltou, de surpreza, Fernando Gomes,
foi quererem os governos faze-lo por fora visconde. O ministro que, 
conta da remessa da medalha e da carta memoranda, o quizera metter nas
garras da justia, era o mais pertinaz thuribulario do homem que, um
anno antes, fra vencido em concorrencia com o filho do regedor. O
ministerio estava entalado entre o Banco de Portugal e a divida activa,
e a divida passiva, e a divida fluctuante. Fernando Gomes era convidado
a salvar a ordem e as liberdades patrias, mediante cincoenta contos,
garantidos pelas contribuies directas, indirectas, quinto para
amortisao, real de agua... garantiam-lhe os cincoenta contos at com
os brilhantes da cora, se elle pagasse  guarnio do Porto, que
ameaava sublevar-se. Fernando Gomes teve pejo de ser portuguez, e
respondeu que pagaria os direitos do viscondado se o dessem ao sobrinho
do regedor, o qual sobrinho do regedor--diga-se aqui de passagem--chegou
a ser visconde, sem que ninguem lhe pagasse os direitos.

Francisco Loureno morreu em 1848, e a senhora Maria Luciana dois annos
depois.

To ditosos lhes correram estes ultimos annos da existencia, que mais
parece que os anjos vieram a traslada-los de um co para outro.

Gracinda e Genoveva educaram seus filhos na abundancia e melindre com
que foram educados os de Paulina. Entre a filha do nobilissimo Briteiros
e as empobrecidas filhas do artista, nenhuma estrema observavam os
servos e a sociedade. As pompas no trajar eram eguaes, e raro se
encontrava uma sem as outras nos bailes, onde Fernando ia por comprazer
com sua mulher, e ella por comprazer com as invenciveis prescripes do
mundo.

Eugenia passava em Paris os invernos, e alguns passou em Lisboa. Todas
as damas bem sorteadas em felicidade conjugal, poderiam inveja-la, menos
Paulina. A condessa de Rohan dizia que, a no o ter, teria pedido a Deus
um marido como o de sua irm.

So volvidos vinte annos. Paulina deve ter quarenta.  ainda uma
d'aquellas privilegiadas formosuras, que Deus faz e conserva para que a
adorao dos esposos no afrouxe nunca. Fernando Gomes, a orar por
cincoenta e dois annos, promette prolongada vida: a alegria do corao,
e da consciencia  muito na pureza do sangue, no equilibrio nervoso, e
n'esta suprema felicidade humana chamada saude, isto havemos de
inferil-o da nenhuma concorrencia de medicos e padres ao palacio das
Amoreiras.

Quem alli  certo, todas as noites,  Hypolito de Almeida, conde de S.
Salvador, par do reino, ministro de estado honorario, e padrinho dos
dois filhos de Fernando. Como  riquissimo e solteiro, espera-se que os
afilhados lhe succedam na herana.

A um seu amigo contou o conde de S. Salvador que, um d'estes ultimos
dias, Fernando Gomes descia a calada do Sacramento com sua mulher e
filhos. Em frente da loja onde morou Francisco Loureno, parou Fernando,
chamou os filhos, e disse-lhes:

--Vosso av foi cincoenta annos sapateiro n'esta casa. Se alguma vez o
orgulho vos quizer perder, vinde aqui, e lembrae-vos que vosso honrado e
santo av foi cincoenta annos sapateiro n'esta casa.

E voltando-se a Paulina, disse-lhe:

--Lembras-te, filha?... Ha vinte e dois annos, feitos em cinco de
janeiro, que tu apeaste n'este mesmo sitio... Foi aqui... Minha me e eu
levmos-te em braos para aquella pobre salinha dos meus livros.
Recordas-te, Paulina?

A senhora, com os olhos turvos de lagrimas, apertou a mo do marido, que
lh'a beijou sem pejo de seus filhos.


Ha um annexim, que diz:

PROCURAR AGULHA EM PALHEIRO.

 baldado empenho?

Pois eu assevero que, uma vez, procurei uma, e achei-a!

E, desde ento, com a minha infinita paciencia, acho tudo que quero,
n'este palheiro da humanidade, mrmente quando os individuos, que
procuro, teem devorado a palha, e se me apresentam a nu,--coisa que me
tem acontecido mais vezes do que mereo a Deus.

Agora no espero achar to cedo sujeito como Fernando Gomes.

Paulinas de certo ha muitas. As senhoras, em geral, so, como ella,
todas, todas, quando encontram homens como aquelle.

Ns, miseraveis despotas e miseraveis escravos,  que as fazemos ms ao
parecer do mundo; mas na pureza de sua essencia, na angelica poro que
trazem do co, no podemos ns corrompel-as.

Se no, corrompiamos.

 santas do infortunio, vs sois, no juizo de Deus, como as santas da
virtude!


FIM

    [1] Dizia assim:--Guarde o seu segredo; mas diga ao seu amigo que
    ainda o amo, e cada vez mais o admiro. Pea-lhe que me accuse,
    para eu poder defender-me. Pergunte-lhe se eu mereo tal desprezo!

    [2] Fernando recebeu, voltando do Porto, em comeo de outubro, esta
    carta, com atrazo de oito dias.





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     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
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1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
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fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

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defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
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written explanation to the person you received the work from.  If you
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1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
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provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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