Project Gutenberg's Alexandre Herculano, by Jaime de Magalhes Lima

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Title: Alexandre Herculano

Author: Jaime de Magalhes Lima

Release Date: December 17, 2009 [EBook #30699]

Language: Portuguese

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                        JAYME DE MAGALHES LIMA

                                ALEXANDRE
                                HERCULANO



                             F. FRANA AMADO,

                             EDITOR. COIMBRA.




                           ALEXANDRE HERCULANO




Composto o impresso na Typographia Frana Amado,
rua Ferreira Borges, 115--Coimbra.




JAYME DE MAGALHES LIMA

Alexandre Herculano




COIMBRA
F. FRANA AMADO, EDITOR
1910




I

Um paladino illuminado e moo, intemerato no ardor da juventude e na
exaltao da crena que nem o martyrio lograria dominar ou perverter,
sonhou a redempo da patria desolada pelas guerras, pela fome, pela
oppresso de tyrannias vidas e corruptas, por hypocrisias sordidas e
degradaes monstruosas. Sonhou dias de luz e de ventura, de liberdade e
de paz, de boa vontade entre os homens, de trabalho honesto, de civismo
austero e de religio sublimada, formosura e virtude, o resgate da
miseria desalentada e tenebrosa em que se afundava um povo, outrora so
e justamente altivo e agora debatendo-se por se salvar e erguer dos
abysmos em que a desventura o havia precipitado. E o paladino partiu a
conquistar para a patria a fortuna revelada em vises de
claridade; e armou-se soldado, transpondo para exercitos do mundo
aspiraes divinas, a todos os perigos sujeitando a existencia ephemera,
sem que algum fosse capaz de lhe turvar a f.


II

Combateu. Foi vencido. Em vez de palmas de triumpho, recebeu as penas do
exilio. Desterrado da terra cara da patria, que saudou entre a dr,
verteu lagrimas de saudade longiqua sobre as ondas do mar irriquieto,
chorando o

    Bero do seu nascer, slo querido,
    Onde cresceu e amou e foi ditoso,
    Onde a luz, onde o cu riem to meigos,
    Seu pobre Portugal..................[1]

Proscripto e errante, entre as brumas do norte,

    .......................as auras puras,
    O murmurar do arroio, o canto da ave,
    O fremito do bosque, o grato aroma
    E o vistoso matiz do ameno prado,
    O lago quedo a reflectir a lua,
    As montanhas to ricas de mysterios,
    De ccos, de sombras, de tristezas santas:

isso tudo que eram encantos da sua terra, trazia-lh'o ante os olhos,
cruelmente, a memoria inexoravel[2].

    ..................A dr est no corao do profugo
    Como um cadaver hirto quando espera
    De noite, em leito n, que  tumba o desam.
    A dr aqui  gelida, immutavel;
    Pousa em labios alheios que sorriem
    E at em sorrir nosso; est sentada
    Ao p do umbral do tecto que nos cobre,
    Embebida na enxerga do repouso,
    Entranhada no po que nos esmolam,
    Enroscada qual cobra peonhenta
    No nodoso bordo do peregrino,
    E em toda a parte e em todo o tempo  nossa.[3]

Embora

    Sob as azas do amor abrigue o Eterno
    Homens, naes e o mundo; o amor por elle
    Nasce, cresce, avigora-se enredado
    Com os beijos da me, com sorrir amigo
    De nossos paes e irmos, ensina-o a tarde,
    O por do sol da nossa terra, o choupo
    Da nossa fonte, o mar que manso geme,
    Nosso amigo da infancia, em praia amiga.[4]

Soffreu o supplicio da revolta impotente, algemada em prises
inexpugnaveis, e entenebreceu-lhe o espirito a turbao negra da
impiedade e da duvida, a derrota da fortaleza do proprio corao, mais
cruel para o crente do que a ruptura de todos os laos d'affecto imposta
pela violencia estranha. Para o proscripto, quando tudo o que amava se
converteu em sombra, a cada passo evocada pela lembrana desperta em
mgoas,

    Quando em confuso passado apenas surge
    Qual fumo tenuissinio ou phantasma
     meia noite visto,  luz da lua,
    Ao longe, entre arvoredo, quando o sopro
    Da tempestade assobiou nas trevas
    Pela antena da nu do vagabundo;
    Quando a dr sua em olhos d'ente vivo
    No achou uma lagrima piedosa,
    E nos seus proprios so vergonha as lagrimas,
    Quando, se 'inda as derrama, ellas gotejam
    No sobre seio que as esconda e enxugue,
    Mas sobre a vaga que se arqueia, e passa
    Sem as sentir; ento o soffrimento,
    Filho de longo padecer, converte
    O corao do desditoso em marmore,
    Onde nunca penetra um puro affecto,
    Onde o nome de Deus sossobra e morre
    Entre o bramir de maldies e pragas.[5]

Ao rigor da desventura juntou-se a agonia do desfallecimento. No a
morte! Porque de toda a oppresso o sonho renascia. Para os loucos
d'amor que por amor combatem, os golpes da fatalidade ateiam a exaltao
em vez de a suffocarem, e nem o nome de Deus jmais sossobra e morre,
nem as pragas e maldies respondem aos flagellos da desgraa, sem que
logo as condemne e cale uma outra voz intima e soberana. Fortificam-se
nas provaes. Amarguras da alma e mortificaes do corpo, pobreza
extrema, abandonno sem lenitivo, o opprobrio da derrota, o insulto dos
vencedores, torturas dos inimigos e a altivez dos ricos, em vo passaram
pelo vencido. Perdido na solido de ilhas inhospitas para o seu corao
a trasbordar de tristeza, no houve adversidade que lhe vergasse o
animo, inflexivel na firmeza de combater e na confiana da victoria.

E cantava, o peregrino! As tribulaes incendiavam-lhe o genio. Esse
mesmo sangue denegrido pelas pedras contundentes d'asperos caminhos
creava e alimentava flores altas e resplendentes de celeste pureza. O
peso das armas no partiu as cordas da lyra. Ia occulta e guardada no
seio, murmurando de continuo seus gemidos e preces. Nem o fragor das
batalhas e as blasphemias atrozes de luctas inhumanas lhe
perturbariam a harmonia religiosa. No soldado habitava o poeta, e no
foi necessario que o soldado pousasse o fusil, para que o poeta
deferisse apaixonadamente a voz grandiloqua.

Advinhava o dia de ventura que o destino lhe reservava.

O tempo justificou-lhe a aprehenso. Pela audacia heroica de guerreiros
destemidos, a que o sonhador foi juntar-se, pelejando as suas duras
pelejas, os desterrados voltaram s plagas da saudade e  terra dos
seus sonhos, e de novo avistaram os gestos to lembrados, os campos
to risonhos, o tecto amigo da infancia, a fonte que murmura, o cu puro
da patria, que no exilio haviam chorado, consumidos de saudade.


III

Ah, a sua patria! A sua desvairada patria!... O poeta imaginava
trazer-lhe legies angelicas para a abenoarem d'infinitas benos, e
trazia-lhe apenas um bando de homens, muitos quasi santos, todos
denodados, e muitos outros fracos porque  intrepidez do brao no
correspondia a generosidade do animo. E o paladino ingenuo viu rebentar
d'esse mesmo slo que a imaginao lhe cobrira de pomares umbrosos e
doces, paradisiacos, os fructos mortiferos de seivas envenenadas. A
furia das ambies agitadas, a desordem e o egoismo vilmente
triumphantes, o delirio das obsesses afogueiadas dos fanaticos, ondas
de impiedade cga e estupida, o fraco desprotegido contra o forte e a
victoria degenerando em ferocidade, o misero recalcado na miseria pela
cobia infrene do opulento, a virtude insultada, o escarneo e o roubo,
tudo quanto ha de infimo nas perverses humanas, tudo o poeta viu
manchando o

    Bero do seu nascer, slo querido,
    Onde cresceu e amou e foi ditoso,
    Onde a luz, onde o sol riem to meigos
    Seu pobre Portugal!................


IV

Perante as vagas d'esse mar de abjeco chamado o vulgo[6],
que assolavam a querida patria, cobrindo-a, apodrecendo-a e
arrastando-a pelas praias turbidas da cobia, no se quedou, desalentado
e mudo, o sonhador. No se sumiram os cantos que lhe transudavam da
alma, por se encontrar n'um seculo sem vida, sem virtude e sem f, em
que desabavam as crenas todas do passado, e era sonho a constancia e o
amor[7]. Partida a espada, agora inutil porque os seus
combates haviam cessado, o apostolo surgiu na tunica branca e rude da
sua austeridade; e foi-se a missionar sua misso fraterna d'affecto e de
grandeza, piedoso e confiado, empunhando um facho deslumbrante, a
mostrar-nos a estrada por onde ha longos seculos vinha caminhando o povo
eleito do seu genio, descerrando-nos os pramos da nobreza impoluta a
que quereria conduzil-o, renovando-o  sua imagem, renascendo-o nos seus
translucidos sonhos.

Ento, d'entre aquelles mesmos que elle amava e pelos quaes padecera,
muitos lhe voltaram as costas, alguns lhe cuspiram injurias e
anethemasiram-no, outros por timidez o abandonaram, e todos assim por
diverso modo desconheceram ou negaram a luz que lhes trazia.

Mas elle venceria, na fora invencivel dos fortes, alimentada
d'emanaes divinas. Pagavam-lhe os homens com ignominia e desero o
amor que prodigamente lhes tributava?!... O cho da sua patria o
receberia, aquelle que todo o alento retribue e a nenhum mente.
Resurgiria em lirios a formosura que se mirrava sob o halito pestilento
de paixes funestas; o amor que o p das baixezas occultava e repellia
no rolar de suas nuvens escuras, pousaria na frescura salutar dos campos
reverdecidos pelo suor do ermita.


V

Distante dos homens para melhor os servir dando-lhes exemplo, foi o
infortunado sonhador offerecer seu esforo e fadigas a um pedao de
terra que encontrou inculta, engrinaldando-a de rosas e nutrindo-a de
cuidados, para que de seu seio uberrimo dimanasse a delicia do perfume,
o refrigerio da sombra, a abundancia do po e consolaes do espirito. A
enxada do cavador no se mostraria inferior, para remir de penas a
humanidade,  bayoneta do soldado e ao verbo inspirado do apostolo; a
todos santificaria igualmente o calor do corao que os ungia.

Agora, a recompensa era certa. Uma vez ao menos sentiria a realidade
igual ao sonho. Antecipadamente o sabia, d'uma certeza intima, absoluta.
Quando ainda no peito lhe borbotavam vigorosas as esperanas de
regenerao dos homens pelas luctas e combates, j entrevia as benos
ineffaveis da solido, j o seu enlevo se lhe mostrra. E apetecendo-a,
cantava-a, implorando da generosidade do destino a concesso d'essa
magnifica e incomparavel riqueza, e imaginando, em um lance de
antegozo e deleite, a plenitude de vida que ella importava para o seu
divino anceio. Muito cedo a invocou e adorou, antes de a encontrar e
possuir:

    ...........oh, dae-me um valle
    Onde haja o sol da minha patria, e a brisa
    Matutina e da tarde, e a vinha e o cedro,
    E a larangeira em flr, e as harmonias
    Que a natureza em vozes mil murmura
    Na terra em que eu nasci, embora falte
    No concerto immortal a voz humana,
    Que um ermo assim povoar meus dias[8].

Rendido  viso que toda a vida o acompanhou, correu a abraal-a.

No seu bemdito captiveiro viveu os derradeiros dias e n'elle morreu,
curadas as feridas do mundo nos balsamos da natureza.

Amou sempre! A robustez inviolavel do corao havia de salval-o de toda
a tormenta, retemperando-o continuamente em estos de amor a Deus e aos
homens, por fim consubstanciado na terra me e nos filhos dilectos do
seu doce ventre, a sera, a rosa e a arvore.


VI

Esse paladino e sonhador, que to gloriosa orbita seguiu e,
perfazendo-a, nella consumou a existencia, tem na historia de Portugal o
nome de Alexandre Herculano.




FASCINAO DO ERMO


FASCINAO DO ERMO

Uma apparente desero da cidade, em que vivra tantos annos, para se
encerrar no retiro d'um tranquillo casal rustico em Val-de-Lobos, a
dissoluo abrupta de multiplicadas relaes mundanas, litterarias e
politicas, d'affectos, de commercio intellectual e de velhos habitos,
serena e deliberadamente substituidos pelo isolamento e rudeza do
aldeo, no seu aspecto e modo de ser externo, pois, sem embargo, no
intimo no cessava nem podia cessar a superior distinco do espirito;
esse acto de estranha energia, que alguns julgaram orgulho e
desprendimento irritado, e outros tiveram por enigma indecifravel, foi o
facto capital da vida de Alexandre Herculano. Os que na sua existencia
anterior se tornaram notaveis e parecem designar marcos da jornada e os
que se seguiram a esse golpe de soberano arrojo, no parecem mais em
ultima conjunco do que a experiencia, primeiro, e depois a
affirmao definitiva d'uma individualidade, homogenea na substancia e
invariavelmente identica no movimento e nas tendencias, logica, seguida
e firme, producto e revelao d'um caracter inalteravel.


I

A solido ser eternamente o refugio dos fortes, d'aquelles que as
tempestades do mundo no affeioaram  sua obra de descrena, de
mesquinhez, de destruio, d'aviltamento, de frouxido desalentada, de
duvida resignada e de contentamento saciado nas commodidades d'uma
vulgarissima animalidade e na trivial vaidade dos instinctos primitivos.
Prophetas, santos e heroes, obscuros crentes e almas singelas,
innumeraveis espiritos d'eleio que o isolamento atre, conquista e
salva de tormentos, dia a dia vo renovando essa perpetua pagina da
historia da humanidade, que frma alguma de civilisao pde apagar ou
corrigir.

A nossa alma  progressiva, nunca se repete, mas em todo o acto procura
a realisao d'um todo novo e mais bello[9], mais proximo da revelao
intima: e assim o vidente se vae isentando pouco a pouco, no correr da
existencia, de tudo o que constrange, e perturba e offusca a aspirao,
para mais de perto se lhe unir e a contemplar. Pela propria necessidade
da misso a que o destino o votou, gradualmente se desprende das cadeias
que lhe tolhiam a liberdade d'expanso.

A critica, na interpretao e auctorisado exame d'um extraordinario e
grande mestre, cujo saber e elevao foram dignos d'aquelle a que
honrou, analysando-lhe a obra portentosa e prestando culto ardente ao
seu caracter, viu no solitario de Val-de-Lobos, como em respeitoso
carinho o cognominou, um suicida. Quando as feridas, as perseguies,
os ataques, os ultrages so profundos e agudos como os que expulsaram da
politica--e tambem das lettras,--Alexandre Herculano, o stoico,
repetindo a historica phrase do Africano, suicida-se.  ento que
vivamente nasce, pois s ento o caracter apparece com toda a sua
pureza. No o mata o scepticismo, mata-o o excesso d'uma imperfeita
doutrina. No descr, e  por cada vez mais acreditar em si que foge a
um mundo rebelde a ouvir a verdade. A morte no  pois um acto de
desespero,  um acto de f. S a differena dos tempos fez com que no
suicidio no entrasse o ferro, como entrou nos suicidios stoicos da
antiguidade[10].

Porventura seria porm mais justo ou, pelo menos, mais exacto considerar
a attitude do ultimo periodo da vida d'Alexandre Herculano, no
propriamente um suicidio, a morte voluntaria d'uma parte da sua
individualidade, mas o perfeito remate, o termo ultimo da evoluo
natural do seu espirito desde o comeo promettida, contida nas primeiras
confisses da sua consciencia. Com o stoico coincidia no mesmo peito o
poeta; e os poetas no se suicidam, a no ser por presso de desordem
physiologica grave ou no desvairamento de uma surpreza. O poder de
crear, sollicitando-lhes de continuo a actividade de que carecem e so
avidos, salva-os da tentao do anniquilamento; das vises que se esvaem
e, perdendo-se, os deixam prostrados, reanimam-nos as que sem cessar se
geram e de novo os inflammam: e caminham, caminham infatigaveis, d'amor
em amor, to depressa succumbidos como de subito arrebatados por
energias mysteriosas e immortaes. Nem Cames, nem Dante, nem Petrarca se
suicidaram, embora a dr a nenhum d'elles houvesse poupado.

Jmais se penetrar inteiramente, porque o genio sempre guarda para si
certa essencia transcendente dos seus segredos, a natureza do impulso
intimo que conduziu Herculano ao ermiterio de Val-de-Lobos; se foi
desgosto do mundo e protesto contra as suas vilanias, se a seduco da
paz dos campos e rendio aos seus encantos, se uma libertao que as
exigencias do caracter austero ha muito reclamavam, se a doura de
benos que a terra prodigamente lhe offerecia e todo o seu ser lhe
pedia. Sem duvida, diversos sentimentos se conjugaram na mesma
tendencia, mas nas suas palavras ha signaes claros de que a corrente
d'affectos teria prevalecido sobre rigores de condemnao; no ser
muito desvairada suspeita julgar que amou tanto as arvores e as rosas
dos seus estreitos canteiros como a _Historia de Portugal_ ou a
promulgao de leis justas que engrandecessem a patria. Para elle, como
para tantos outros da sua feio e estatura, at a tristeza e mgoa se
convertem em belleza, pela serenidade de que as revestem, pela religiosa
conformidade com que as acceitam e pelo objecto em que as transformam. O
que nos fracos redunda em estereis contraces torturadas de desespero,
 nos fortes o ensejo de subirem a maior altura.

Eurico, que Alexandre Herculano modelou cedo e cedo amou, era uma
d'estas almas ricas de sublime poesia, a que o mundo deu o nome de
imaginaes desregradas, porque no  para o mundo entendel-as[11]. O
povo rude de Carteia no podia entender esta vida d'excepo, porque no
percebia que a intelligencia do poeta precisa de viver num mundo mais
amplo do que esse a que a sociedade traou to mesquinhos limites.
Ensinado pelas largas horas de intima agonia, esmagado o seu corao
pela soberba dos homens, Eurico percebera, emfim, claramente que o
christianismo se resume em uma palavra--fraternidade. Sabia que o
Evangelho  um protesto ditado por Deus, para os seculos, contra as vs
distinces que a fora e o orgulho radicaram n'este mundo de lodo,
d'oppresso e de sangue; sabia que a unica nobreza  a dos coraes e
entendimentos que buscam erguer-se para as alturas do cu, mas que essa
superioridade real  exteriormente humilde e singela[12]. Os
virtuosos no perceberiam os poemas em que o poeta lanava torrentes
d'amargura, como, tranquilla a consciencia e repousada a vida, um
corao pde devorar-se a si proprio, e os mus no criam em que o
sacerdote, embebido unicamente em suas esperanas credulas, em suas
cogitaes d'alm tumulo, curasse de males e crimes que roiam a patria.
Ignorariam a colera e maldies que podem dimanar e dimanam dos
prophetas do perdo e do amor. Era por isso que o poeta escondia as
suas terriveis inspiraes. Mostruosas para uns, objecto de ludibrio
para outros, n'uma sociedade corrupta em que a virtude era egoista e o
vicio incredulo, ninguem o escutaria, ou, antes, ninguem o
entenderia[13]. A fora moral da nao tinha desapparecido e a fora
material era apenas um phantasma; porque, debaixo das lorigas dos
cavalleiros e dos saios dos pees das hostes, no havia seno animos
gelados, que no podiam aquecer-se ao fogo do santo amor da terra natal.
Com a profunda intelligencia do poeta, o Presbytero contemplava este
horrivel espectaculo d'uma nao cadaver e, longe do bafo empestado das
paixes mesquinhas e torpes d'aquella gerao degenerada, ou derramava
sobre o pergaminho, em torrentes de fl, d'ironia e de colera a amargura
que lhe trasbordava do corao ou, recordando-se dos tempos em que era
feliz porque tinha esperana, escrevia em lagrimas os hymnos de amor e
de saudade[14]. No corao de Eurico, que parecra morto, porque havia
procurado o ermo, o enthusiasmo e a virtude nem um s instante se tinham
todavia apagado; um surdo labor da sua alma perpetuamente os alimentava.
Apenas mudavam as vidas a que se applicavam e consagravam. O vulgo, na
inercia propria do acanhamento do seu espirito, no podendo alcanar os
voos do sonhador, desconhece-os e injuria-os, reputando-os insensatez,
delirio, uma dissipao inexplicavel de faculdades preciosas; incapaz de
prender o genio no circulo estreito dos seus interesses, imagina que o
illuminado os despreza e atraioa, desamando-o, quando o viu elevar-se e
perder-se n'uma atmosphera inaccessivel  debilidade commum das foras
mortaes. O mundo nunca poderia entender plenamente o affecto que,
vibrando-lhe dolorosamente as fibras do corao, arrastou Eurico para
a solido, quando os outros homens nos povoados se apinhavam  roda do
lar acceso e fallavam das suas mgoas infantis e dos seus contentamentos
d'um instante[15].

De longa data, Herculano trara a propria carreira na contemplao do
filho do seu genio. Porque o conflicto da inspirao e do mundo  e ser
o mesmo, irreductivel, eternamente, _heri et hodie, ipse et in secula_.
Se a inspirao veio alojar-se n'um pobre corpo humano, deixae-o, no
cuideis mais do seu destino.  s o tempo de percorrer a via dolorosa
pela qual tem de seguir seus fados. O termo da jornada est previsto, e
ser o unico que  sua condio convm, o isolamento e o espao que a
intensidade de irradiao reclama, provoca e determina nos astros ou nos
prophetas, nas parcellas minimas da luz da materia ou do espirito.

Alexandre Herculano foi para Val-de-Lobos, no para morrer e sepultar-se
ainda quente das palpitaes do seu sangue, mas para viver inteiramente
sua vida; no para deliberada cessao de actividade, mas para a sua
mais perfeita expanso e mais lidima e bella applicao. Apenas
eliminava relaes e cousas que o atormentavam, estorvando-o de se
manter continuadamente, face a face, na presena da aspirao intima.
Entrou no claustro que a seu modo edificou, naturalmente porque os das
antigas communidades estavam prostituidos e em ruinas. No lhe
regateira o mundo, atravez das injurias, as lisonjas que concede 
inanidade vaidosa com a mesma insensatez e inconsciente impudor que usa
na calumnia, na inveja e na flagellao do merecimento. Se no foi
amortalhado em trajo de grande do reino, recamado de chaparia, foi
porque constantemente repelliu de si esses symbolos de grandeza
emprestada, cobrindo o mais das vezes uma real mesquinhez. O premio que
buscava dos seus combates, aquelle que o alegraria, se os estranhos lh'o
houvessem dado, era a communho na sua f, de que contrariedade alguma o
arrancaria, e o fortalecimento nas suas virtudes, em cuja propagao se
lhe figurava uma nova patria, rejuvenescida para a gloria. E como essa
communho e essas virtudes no encontrou, seno em raros companheiros,
desventurados como elle, e da outra, da communho na sordidez em que os
demais folgavam, estava excluido por averso da sua alma, viu-se expulso
do banquete, e foi alimentar-se ao longe, n'um recanto obscuro e
impoluto, do po grosseiro e bemdito da singeleza incorruptivel, a
guardar o sacrario que Deus lhe confira. Cantor da solido, foi
assentar-se junto do verde cespede do valle, e a paz de Deus consolava-o
do mundo[16].

Consolava-o, disse o poeta candidamente, imaginando carecer de consolo
ao deixar o mundo.

No era assim. Os resplendores enganosos do mundo por que passou,
smente para os aborrecer e desprezar,  que nunca poderiam furtal-o 
fascinao do ermo. Na verdade, emquanto habitou esse mundo de torpezas
 que necessitava compensao da violencia imposta s suas tendencias e
caracter, e compensao no alcanou.

    Cu livre, terra livre, e livre a mente,
    Paz intima, e saudade mas saudade
    Que no de, que no mirra e que consola
    So as riquezas do ermo, onde sorriem
    Das procellas do mundo os que o deixaram[17].

Essas riquezas abandonra o apostolo, para partilhar com os homens dos
bens que no seu peito abundavam. Os homens desconheceram-nos. Para que
pois privar-se de beneficios preciosos, sem proveito do sacrificio para
os desvairados no tropel da ruindade impenitente?!... No ignorava,
quando desceu aos mercados da cidade, nem a fortuna incomparavel da
solido nem a profundeza do esqualido tremedal onde ia arriscar a sade
do corpo e a paz do espirito, para estender a mo aos desventurados que
n'elle se afogavam[18]; mas incitava-o e arrebatava-o a esperana de
levar opulentissimos thesouros aos estranhos que tanta miseria soffriam.
Destroada a esperana pelos repetidos vendavaes da desilluso, voltava
ao ermo a que jurra fidelidade antes de se empenhar no combate[19]. Ao
fim de incerta jornada, o peregrino vinha cumprir a promessa que ao
partir fizera nos altares da sua crena, da verdadeira patria dos seus
sonhos, onde tinha em recompensa a liberdade.

    Feliz ou infeliz, triste ou contente
    Livre o poeta seja.[20]

De facto, libertou-se. E, libertando-se, em toda a sua magestade se
mostrou, na atmosphera a que anciosamente aspirava, fra d'aquell'outra
que o desfigurava pela incessante coaco das suas energias
caracteristicas.


II

Pouco indulgente com a sensualidade, porventura deshumanamente rigoroso
com os seus impulsos, a solido e a vida rural no seriam para Alexandre
Herculano iseno de fadigas physicas e desenlace d'aspiraes
naufragadas, adormecimento de mgoas e repouso n'uma animalidade
cuidada, bem mantida, satisfeita e robusta. No seriam uma festa lauta
dos sentidos, por demais castigados da escurido da cidade, mas uma
devoo gratissima do espirito desonerado de temporalidades que o
mortificavam, to pesadas pelo tumulto e presso ininterrompida, como
estereis pela inanidade das consequencias moraes. Amando o ermo e
procurando-o, no o chamava a delicia pag; se tanto lhe queria, era por
obediencia religiosa, porque alli melhor interpretava e cumpria a
vontade do Senhor. O sentimento da alegria e equilibrio no pulsar livre
da natureza, a contemplao da harmonia e belleza das formas que por si
vivem como divindades independentes e distinctas, s por excepo
prenderiam Herculano.  um accidente raro, muito raro, que elle se
quede com sympathia a escutar nymphas do rio, dryades da floresta e as
felizes gentes dos reinos de Apollo. Por duvida teria condescendido em
attentar nas crueldades e exaltaes orgiacas das estaes e dos astros.
Se por elle passaram faunos e bacchantes ou lhes suspeitou os folguedos,
voltou o rosto descontente; os olhos habituados a luz divina, vinda dos
cus, e outra no procuravam, no supportariam fumo e labaredas,
ateiados com o sangue e erguidos dos infernos em que penam condemnados.
Mal sorriu ao carvalho magestoso que encontrou em meio do valle.

              Na primavera
    Vinham os moos adornar-lhe o tronco
    De capellas cheirosas de boninas,
    E coreias gentis traar-lhe em roda,[21];

e o quadro captivou-o um rapido instante. Que encanto de formosura,
perfume e gentileza e cr! Outros eram, porm, os enlevos do poeta, que
no esses, candidos, sem duvida, na sua graa, mas fugitivos e
pereciveis, de perto vigiados pela enfermidade e pela corrupo. A
fecundidade da imaginao, a riqueza de conhecimentos e a expontanea
intensidade da atteno todas as relaes dos seres e todos os
estados da alma lhe representariam, d'ascetismo ou de expanso; mas o
arrebatamento religioso no lhe consentia identificar-se seno com
aquelles que traduzissem nos mais elevados modos o dominio e amor d'essa
vontade omnipotente e omnipresente, de summa sabedoria, que tudo
ordenava e a quem tudo obedecia, na verdade Deus e Senhor, como o poeta
lhe chamou, invocando-a para o guiar e consolar, deus pela magestade e
virtude infinita, e senhor pelo imperio sem limites na vida do universo.

Ante o olhar do Senhor vacilla a terra![22]. E Alexandre Herculano
renunciaria, por ignoto impulso, ao seu quinho nas incertezas
vacillantes da terra, para mais firmemente receber o olhar do Senhor,
que era eterno e por isso lhe insinuava uma eternidade, inflamando-o no
seu fulgor. A abdicao salval-o-ia da degradao inherente aos timidos
e fracos que, acorrentando-se  caducidade das cousas mortaes, com ellas
se afundam e desapparecem, nenhumas outras de sua substancia infinitas
tendo visto ou amado, alm d'essas mesquinhas e passageiras nas quaes se
absorveram.

Entendimento bronco, tomando com adoravel candura por aspereza a
fortaleza ingenita, lanado em seculo fundido na servido atraviada de
goso, cria que Deus era Deus e os homens livres[23]. Aos infieis
clamava, para os defender de perdio, que entrassem no templo e no
temessem aquelle Deus que os labios negam e o corao confessa[24];
no escarnecessem do que em Deus confiou[25]. Ahi se isentavam da
morte, porque o justo, chegando  meta extrema que nos separa da
eternidade, transpe-na sem temor e exulta em Deus[26].

O apostolo tinha jurado a sua f. Louvaria o Eterno! Embora humilde
reconhecesse que os seus hymnos d'amor no eram dignos d'aquelle a que
adorava, embora vis hypocritas, mentindo, o Eterno pintassem como um
tyranno barbaro, para assim dominarem o vulgo cgo e insano, o poeta
passaria tranquillo entre os abrolhos dos males da existencia, guardado
por essa Providencia, a cuja misericordia de todo se entregava[27].


III

Antes porm da libertao extrema, o crente teria de experimentar as
tentaes da impiedade e n'esse combate succumbir ou armar-se,
invencivel, para o ultimo triumpho.

Alexandre Herculano passou pelo baptismo pessimista. No lhe poupou o
destino o transe supremo, que  provao da grandeza, e perante o qual
succumbiram ou se desvairaram nobilissimos espiritos do seu tempo.
Smente o soffre quem entreviu reinos sublimados de pureza e, para os
alcanar, lanou o vo que invariavelmente o mundo corta, na sua miseria
eterna, com crueldade e escarneo. E ento a dr  to aguda e funda que
ainda os mais fortes muita vez lhe preferiram a rendio total e ultima
desgraa, entregando-se, exultando, a quem os remisse do supplicio e
lhes desse a paz, anjo ou demonio que se lhes apresentasse.

A doce me do repouso com o seu amoroso aspecto, a calumniada
morte tentou Alexandre Herculano, como sempre, invariavelmente, tentou
quantos se enlevaram em aspiraes santas e, sentindo-as morrer no
fundo do corao, calcadas por quanto ha vil no mundo, sonharam
libertar-se do conflicto terrivel das vises celestes com as realidades
terrenas. Tambem elle soffreu os negros anceios de anniquilamento que
essa angustia provoca; tambem lhe entonteceu os sentidos a vertigem dos
abysmos da inconsciencia, para se resgatar de contradices intimas,
pungentes, em que n'uma agonia infinda a negao das cousas respondia s
affirmaes da alma, satanica e desapiedadamente, com irriso e
ludibrio. E implorou ento o soccorro da peregrina eterna que, sendo
temida em seu mysterio, a elle, infeliz e naufrago, lhe promettia a
redempo de todo o mal:

    Oh morte, amiga morte!  sobre as vagas
           Entre escarceus erguidos
    Que eu te invoco, pedindo-te feneam
           Meus dias aborrecidos:
    Quebra duras prises que a natureza
           Lanou a esta alma ardente;
    Que ella possa voar por entre os orbes
           Aos ps do Omnipotente.

    Doce me do repouso, extremo abrigo
           De um corao oppresso
    Que ao ligeiro prazer,  dr cansada
           Negas no seio accesso,
    No despertes, oh no! os que abominam
           Teu amoroso aspeito;
    Febricitantes que se abraam, loucos,
           Com seu dorido leito!
    Tu, que ao misero ris com rir to meigo,
           Calumniada morte;
    Tu, que entre os braos teus lhe ds azylo
           Contra o furor da sorte;
    Tu, que esperas s portas dos senhores,
           Do servo ao limiar,
    E eterna corres, peregrina, a terra
           E as solides do mar,
    Deixa, deixa sonhar ventura os homens;
           J filhos teus nasceram:
    Um dia accordaro d'esses delirios,
           Que to gratos lhes eram.
    E eu que vlo na vida e j no sonho
           Gloria nem ventura;
    Eu, que esgotei to cedo, at s fezes,
           O calix da amargura:
    Eu, vagabundo e pobre, e aos ps calcado
           De quanto ha vil no mundo,
    Santas inspiraes morrer sentindo
           Do corao no fundo,
    Sem achar no desterro uma harmonia
           De alma, que a minha entenda,
    Porque seguir, curvado ante a desgraa,
           Esta espinhosa senda?[28]

Respondia-lhe uma voz intima, assegurando no s a necessidade de
proseguir na jornada, atravez de todas as angustias, mas tambem a
certeza da recompensa, se fosse em obediencia  vontade divina e
sujeito  sua inspirao.

A tentao da morte teria sido para Alexandre Herculano apenas um
pensamento infernal, gerado em meio da tempestade[29]. Ao
seu rugir comparou o clamor da consciencia desvairada, quando,
accordando para o conhecimento das cousas e dos homens e reconhecendo
mentira nas esperanas cujos sonhos nos affagavam ao despontar do dia,
ao entrar na vida da aspirao, recua aterrada e endoidecida, sem saber
que caminho a possa conduzir a salvamento. Mas a tempestade  de sua
essencia transitoria, por muito violenta e assoladora que haja sido nos
effeitos de destruio irreparavel; seguem-se-lhe horas de bonana, a
serenidade reapparece e mantem-se, illuminando os destroos e
atenuando-lhes a tristeza do aspecto; embora jmais deixemos de os vr,
duradouros, claros e manifestos, sobrevm reparaes do tempo, lentas e
imperfeitas, sem duvida, mas capazes todavia de nos trazerem momentos de
calma e at de ventura; sobre as ruinas crescem verduras. Na propria
terra ha poderes de renovao indestructiveis, eternidades cosmicas
que de toda a tormenta sem illesas e intactas.

Do mesmo modo acontecia ao poeta. A angustia em que os primeiros golpes
da desilluso o lanaram, a agitao de que nascia o desejo de se
afundar n'essa noite sem fim da inconsciencia, dissipava-se como os
bulces varridos pelo vento que elles geraram e que o vento na sua
violencia desfaz. Acalmada a tormenta, contemplando o que lhe restava da
sua devastao e procurando unil-o e reanimal-o em novas creaes d'uma
fortaleza intangivel, precavida contra o assalto de toda a adversidade,
o poeta encontrava um consolo, e pressentiu que nas trevas da
existencia Deus lhe deixra doce amizade e amor. Por elle se ergueria
para passar sua noite a luz to meiga at ao amanhecer, at subir 
patria do repouso, onde no ha morrer[30].

 que s eternidades cosmicas correspondem eternidades do espirito, e
n'ellas se formra e retemperava incessantemente a alma de Alexandre
Herculano, defendida contra toda a traio da amargura, para todo o
combate armada invencivel, em toda a contingencia.





APPARIES E ESPECTROS


APPARIES E ESPECTROS

O poeta tinha uma misso na terra. O Deus que na consciencia se lhe
revelava e elle adorava, no era um principio de puro extasi e absorpo
contemplativa, uma corrupo da energia organica no arrebatamento e na
abdicao de todo o desejo proprio, mas uma vontade determinando a
aco, desenvolvendo-se de continuo nas cousas da terra, exigindo dos
homens de f que se subordinassem ao seu imperio, e lhe traduzissem a
essencia nas realidades contingentes e mortaes.

Sentindo no intimo o dominio d'essa vontade suprema, Alexandre Herculano
logo cogitou os modos de a cumprir, to perfeitamente quanto em suas
foras coubesse, e sem tardar se entregou  execuo dos seus mandados
com uma fidelidade absoluta.


I

Ordenava-lhe Deus que servisse a patria, a gloria e a virtude.

    Deus  poesia deu por alvo a patria
            Deu a gloria e a virtude[31].

Mas o que era a sua patria? Que queria ella do seu affecto? Como
conhecel-a e concebel-a, para se identificar com a sua vida e encorporar
o impeto do seu genio no pulsar d'essa vida maior que a sua,
commungando-lhe da aspirao e n'ella se abrazando, immolando-se ao seu
triumpho?

Os annos e os seculos confundem-se e igualam-se deante da vida perpetua
do universo[32].

Ha uma eternidade no mover das cousas do mundo que Alexandre Herculano
no ignorou; ha uma continuidade e repetio que apaga a distancia, o
espao e a individualidade, as distinces entre o dia de hoje e o dia
de hontem, entre o plo e os tropicos, entre o rochedo e o homem, entre
as raas, naes e epocas. Mas a repetio e a continuidade operam-se
pela renovao successiva, pela dissoluo e reconstituio incessantes;
as distinces e as distancias, de cujo confronto e verificao ha de
resultar a percepo da unidade, s se revelam nas creaes ephemeras e,
para bem servir o eterno, havemos de o sentir e amar na caducidade a que
descer, no transitorio e momentaneo.

Debaixo dos ps de cada gerao que passa na terra dormem as cinzas de
muitas geraes que a precederam[33], e s ligando a nossa gerao
quellas de que procede, conseguiremos, por nossa vez, encarnar a
vontade divina. Sendo a mesma atravez dos seculos, demanda para
integridade da sua expresso a filiao estreita dos seres em que se
mostra.

D'ahi vinha que o poeta, para se guiar no presente olhava para o
passado, procurando descortinar-lhe as tendencias e a direco, os
affectos e as averses, os beneficios e os damnos, a robustez e a
fraqueza, a luz e as trevas, as benos e os castigos; e assim, por amor
da patria, mandamento da lei do seu Deus, e  fora de escavar,
observar e meditar, viu-se cercado de apparies bemfazejas e espectros
terriveis, surgindo das brumas que o olhar inflammado de sublimadas
paixes penetrava, encaminhando-o  gloria e  virtude, mandamentos
tambem do seu Deus, e defendendo-o da queda em abysmos de ignominia e
tortura. Pelos becos tortuosos, sombrios e lodacentos da cidade,
embrenhando-se no labyrintho de terreirinhos, escadas, pateos, arcos,
passagens, indelineaveis e enredados como meada a que se perdeu o
fio[34], Alexandre Herculano ia procurar no amontoado informe dos
restos do passado a revelao do seu fausto e da sua miseria, das suas
degradaes e da sua nobreza, de todos os seus impulsos, para os exaltar
no que tivessem de elevado e digno e para os condemnar no que
encerrassem de vil. Muitas vezes passava largas horas deante dum portal
de capellinha carcomida como velha enrugada; deante duma hombreira
partida, onde apenas se divisavam cansados e gastos lavores da arte da
edade media[35]. Interrogava as pedras, a saber se as suas confisses
confirmavam as palavras dos homens; remexia a poeira, sobre a qual
pesavam annos innumeraveis, a experimentar se, posta  luz do sol, lhe
descobria ainda particulas palpitantes da vida d'outras eras; e dos
lichens e musgos, cobrindo ruinas, desprendia lembranas que alli se
tinham abrigado de contrariedades, e redivivas lhe vinham contar
desgraas infinitas e magnificas victorias, esperanas e desenganos,
paixes ruins e ardor santo, penas e bemaventuranas. De tudo tirava
ensinamento avidamente, confiado em que por seu influxo havia de se
salvar ou perder, conforme o empregasse, e por elle tambem, a sua
patria, o cho onde nascera e os seus irmos que o habitavam,
encontrariam a felicidade ou a desventura.

A riqueza que n'essas peregrinaes amontoou e nos legou,  estupenda; e
o uso que d'ella fez, os sanctuarios em que devotamente a enthesourou,
as edificaes que com ella ergueu e onde a recolheu, o espirito em que
por toda a parte a purificou e ungiu, ficaram como monumentos de
perpetua gloria do povo portuguez, attestando o poder mental da raa e a
susceptibilidade, d'ra avante para sempre provada, da grandeza
religiosa da sua alma.

A epoca de Alexandre Herculano favoreceu-lhe singularmente as
inclinaes do espirito. A explorao historica entrava no
desenvolvimento assombroso de que as geraes modernas so testemunhas,
colhendo-lhe os copiosos e preciosissimos fructos. A Allemanha, paiz que
Herculano considerou, por via de regra, o fco de toda a sincera e
verdadeira sciencia[36], chamava a atteno da mocidade para uma
renovao da arte, a qual veio dar nova seiva  arte meridional que
vegetava na imitao servil das chamadas lettras classicas, e ainda
estas estudadas no transumpto infiel da litteratura franceza da epoca de
Luiz XIV[37]. E as formas em que esse renascimento se fundia e
estampava eram abundantissimas, desde o trabalho de erudio rigida e
analyse minuciosa at  novella opulenta de trajos resplendentes,
palpitante de movimento e pujana no perpassar das multides que
desfilavam por deante dos nossos olhos atonitos, misturando lances
dramaticos e gargalhadas comicas, placidez, heroismo e abjeco,
generosidades e cobias, ostentando sem reservas nem piedade todo o
vigor e anceio do corao das sociedades nas conjuncturas infinitas a
que a fatalidade o traz sujeito. O romance historico, ou a novella
historica, como ento se lhe chamava, iniciada na Inglaterra por um
talento de rara fertilidade e fascinao, espalhava-se na Europa
inteira, abrindo caminho para desusadas concepes da litteratura e da
arte. Associando as cousas vividas e as cousas sonhadas, a imaginao e
a realidade, embora producto d'uma alliana hybrida perigosa que
constrangia a imaginao pelas presses da realidade e desfigurava a
realidade pelas violencias da imaginao, o seu apparecimento assignala
um fermentar de fecundidade inexaurivel e o descerrar de largos
horisontes. Corrigiu com elementos sos e de verdade os desregramentos
da phantasia morbida, entontecida pela vertigem de liberdade infinita;
conduziu  comprehenso das possibilidades, fundadas, logicas,
acautelando-nos dos desenganos de ambies e esperanas insensatas;
produziu salutares effeitos educativos. Na verdade, disciplinou e
moralisou a imaginao, infundindo-lhe a consciencia do limite,
obrigando-a a mover-se na esphera do facto e nos termos por elle
marcados. Influiu at, em ultimo mas no menor resultado, no modo de
comprehender e escrever a historia. Sem embargo, por virtude de
influencias geraes contemporaneas mas um pouco, incontestavelmente, pela
repercusso das tendencias da litteratura imaginativa, a historia
comeou a esquecer-se da narrao dos feitos d'armas e a emancipar-se do
deslumbramento de faanhas heroicas e entrou com um esplendor sem
precedente na resurreio integral dos seculos passados, tomando-lhes em
conta todos os factores, apreciando e coordenando os multiplos poderes
que collaboram na vida social dos povos e das naes, perante os quaes
se reduz a propores inferiores a efficacia da aco individual;
dirigindo as indagaes historicas mais para o estudo da indole das
sociedades do que para os actos dos individuos[38]; verificando a
concorrencia do clima, da situao geographica, das raas e dos
accidentes do destino nos caracteres das diversas civilisaes,
representando-as e reconstituindo-as na plenitude da sua substancia.
Coube  novella historica um papel de feliz equilibrio, accudindo por um
lado quella necessidade de exactido e rigor scientifico que cada vez
se exigia com maior instancia, annunciando a prodigiosa altura a que a
ergueu a segunda metade do seculo XIX, e por outro lado deixando ainda
livre curso e largo campo  liberdade da imaginao, que a ruptura e
ruina da antiga ordem e de vinculos caducos provocava a reclamar os seus
direitos. Todo o devaneio e ingenua falsidade do romance historico,
todos os seus exaggeros, correces e corrupes, quasi invariavelmente
motivados por desejos candidos de dar formosura e realce a muita cousa
que merecia ser amada: os seus vicios e deficiencias estrictamente
litterarios, porque para o produzir eram necessarios estudos aridos e,
no meio de estudos tediosos e positivos,  impossivel que o imaginar
no descore, que o estylo no ganhe asperezas[39], e obliteram-se
faculdades creadoras essenciaes--todas essas faltas merecem prompta
indulgencia, quando consideramos os beneficios de que elle foi vehiculo
no progresso do pensamento humano. Que profundezas no cavou e abriu 
nossa meditao a novella historica! Que clareza de viso do nosso ser
no nos deu, como nos protegeu de fraquezas e errores dum imaginar sem
lei, confiado a mero capricho, que estabilidade no nos infundiu! Com
que delicia no nos insinuou o sentimento da immutabilidade das cousas e
dos homens, a impossibilidade de nos esquivarmos a moldes, regras e
sujeies, que se tornaram como ingenitas pela diuturnidade da sua
influencia, e de que circumstancia alguma  capaz de nos isentar! Quanta
vaidade desfez, que loucuras d'orgulho no dissipou, que vigor no nos
infundiu, que alma nova e bella no ajudou a crear e a alimentar, em
logar d'aquell'outra, desnorteada e turva, formada nos turbilhes da
poeira intellectual e moral erguida do ruir do velho edificio!
Convertendo-se em propulsor energico do conhecimento da historia, em
todos os aspectos da vida social, e simultaneamente sua filha e escrava,
a novella alimentada n'esse riquissimo manancial foi, sem duvida, obra
de grande proveito na jornada das naes e dos homens para os reinos
luminosos de paz e felicidade, a que to lenta e dolorosamente se
encaminha. De todas as benos so dignos os trabalhadores pacientes e
apostolos que lhe desprenderam de nuvens a claridade.

Teve Alexandre Herculano a incontestada gloria de desbravar na
litteratura portugueza esse campo to fecundo como saudavel. Elle mesmo
nol-o confessa na _Advertencia_ do primeiro volume das _Lendas e
Narrativas_, cujos merecimentos se lhe afiguravam minguados pela
inexperiencia, pela singeleza da inveno, pouca firmeza no contorno de
alguns caracteres e o menos bem travado do dialogo; mas quiz
colligil-as, tentando apenas preservar do esquecimento as primeiras
tentativas do romance historico que se fizeram na lingua portugueza,
mormente dos esforos do auctor para introduzir na litteratura
nacional um genero duplamente cultivado, n'aquelles tempos, em todos os
paizes da Europa. Na historia dos progressos litterarios de Portugal,
desde que a liberdade politica trouxe a liberdade do pensamento, e que o
engenho poude apparecer  luz do dia sem os anginhos de uma censura to
absurda na sua indole, como estupida na sua applicao e esterelisadora
nos seus effeitos, n'essa historia, dizia, aquella nova edio,
reunindo pequenos romances e narrativas, que andavam dispersos em
volumes separados e em publicaes periodicas, devia ser julgada
principalmente com atteno  prioridade das composies n'ella
insertas, e  preciso em que, ao escrevel-as, o auctor se via de crear
a substancia e a forma, porque para o seu trabalho faltavam
absolutamente os modelos domesticos.

Desconfiava do talento com que produzia as primicias d'essa renovao
litteraria, mas tinha certeza e f na fecundidade e belleza dos
resultados que promettia, sobretudo no resurgimento moral que nos
infiltraria. Fossem as memorias da patria, que tivemos, o anjo de Deus
que nos revocasse  energia social e aos santos affectos da
nacionalidade. Que todos aquelles a quem o engenho e o estudo
habilitavam para os graves e profundos trabalhos da historia se
dedicassem a ella. No meio d'uma nao decadente, mas rica de tradies,
o mistr de recordar o passado era uma especie de magistratura moral,
era uma especie de sacerdocio. Exercitassem-no os que podiam e sabiam;
porque no o fazer era um crime. Que a arte em todas as suas formas
externas representasse esse nobre pensamento; que o drama, o poema, o
romance fossem sempre um ecco das eras poeticas da nossa terra. Que o
povo encontrasse em tudo e por toda a parte o grande vulto dos seus
antepassados[40].

N'esse quinto imperio de mentecaptos dissertadores e mexedios[41],
em que por sua desgraa se via involvido e de cuja inanidade
e degradao tremia, n'essa liberdade de especulao e impudor que foi a
primeira das liberdades asseguradas ao fim de tantas batalhas e
sacrificios, j aterrado pela ruina e devastao de toda a casta,
material e moral, no meio da qual se debatia, tropeando e
ensanguentando-se a cada passo nos destroos de tanta cousa querida e
digna de ser amada, clamava aos homens de espirito so e corao puro
que corressem a defender e guardar o patrimonio das nossas infinitas
riquezas, desbaratadas pelas mos ignorantes e sacrilegas de ambiciosos
depravados e sordidos, e de imbecis no menos funestos do que os
mercantes ingenuamente avidos e cynicos. Com a rapidez da colera ou da
peste corria por todos os angulos de Portugal e encasava-se em todos os
povoados uma cousa hedionda e torpe, que, inimiga do passado e do
futuro, se chamava illustrao; que tendo por logica o escarneo e por
syllogismo o camartello, se chamava philosophia. Deus a mandra ao mundo
como mandou Attila e a Inquisio, como um verbo de morte. Seu mistr
era apagar todos os santos affectos da alma, e incarnar no corao, em
logar d'elles, um cancro para o qual nossos avs no tinham nome, e que
estranhos designaram pela palavra _egoismo_. Que se apressasse aquelle
que quizesse guardar alguns fragmentos do passado para as saudades do
futuro; porque a illustrao do vapor e do atheismo social alli ia
livelando o que foi pelo que era, a gloria pela infamia, a fraternidade
do amor da patria pela fraternidade dos bandos civis, as memorias da
historia gigante do velho Portugal pelo areal plano e pallido da nossa
historia presente, a obra artistica pelos algarismos do oramento, o
templo de Christo pela espelunca do rebatador. Que se apressasse;
porque esses rastos dos antepassados que o tempo e os incendios, e os
terremotos nos deixaram, no nol-os deixaria o descrer brutal d'aquelle
seculo, que a historia distinguiria pelo epitheto de bota-abaixo, e cujo
legado monumental para os seculos que viriam aps elle seria um
cemiterio immenso; mas cemiterio sobre o qual no se elevar sequer a
humilde distinco d'uma cruz[42].

Elle, por sua parte, dava-lhes exemplo. No sagrado trabalho a que
chamava os outros era o primeiro, infatigavel no ardor com que lhe
votra uma energia e capacidade de todo o ponto raras, e copioso na
abundancia com que desentranhava diamantes de files obscuros e nunca
encetados, e at muitas vezes desprezados, estando alis bem patentes 
luz do sol, de continuo pisados pela vulgaridade obtusa. Foi assim que
nos deu o _Eurico_, o _Monge de Cistr_, _Lendas e Narrativas_, _O Bobo_
e mil outras pequeninas joias prodigamente dispersas onde quer que o seu
genio passasse, em qualquer assumpto sobre que discorresse.

Sem duvida, nem sempre o fez com perfeio. Muitas d'essas joias ficaram
por lapidar, ou melhor, foram lapidadas de modo que no lhes poz em
evidencia todo o seu brilho. As suspeitas de Alexandre Herculano quanto
 sua obra d'arte imaginativa, eram fundadas. A singeleza da inveno
tocou por vezes a pobreza de esqueleto; a pouca firmeza nos contornos
de alguns caracteres aqui e alm se manifesta, enfraquecendo-os por
insuficiencia d'accentuao, no lhes facultando ensejo de intervirem em
situaes to multiplicadas e diversas que a diversidade de conjunctura,
coincidindo com a identidade de proceder, ponha bem clara a
invariabilidade das feies; e ao dialogo, embora habitualmente bem
travado, contra o que o auctor aventa, acontece com frequencia
encurtar-se e terminar muito quem do desenvolvimento necessario ao
pleno effeito de impresso. Mas todas essas faltas, que em outros seriam
grandes, porque a magreza das creaes no lhos dispensava cuidados de
trajo, a debilidade da estructura carecia de se occultar na opulencia do
adorno e s por si, sem o amparo e esmero do involucro, no se sustinha
nem realava, todas essas faltas em Alexandre Herculano somem-se na
torrente d'um cabedal avultado, cuja enorme somma nos confunde e
avassala. Ou procure esboar-nos o quadro d'uma epoca, como no _Monge de
Cistr_, ou se restrinja ao desenho de simples incidentes, como nas
_Lendas_ e demais obras d'igual natureza, a exuberancia da seiva que
as nutre, a intensidade de vibrao psychologica que as anima e o grau
de concentrao em que tudo isso se nos revela, so um facto unico na
litteratura portugueza, um limite nunca antes nem depois de Alexandre
Herculano excedido ou sequer alcanado. O que nos fica na lembrana
quando pousamos qualquer d'esses livros, por magia igualmente deliciosos
e severos,  um torvelinho indescriptivel de objectos estranhos e no
menos estranhos espiritos. Se a riqueza  grande em materia
descriptivel, trajos, moveis, armas, habitaes, combates, festas,
jogos, banquetes e bens do mundo, movimento e cr, no  inferior na
prodigalidade de aspectos moraes; n'esse tropel de servos e senhores, no
conflicto de dependencias e instituies, a violencia do drama, riqueza
tambem e preciosa em todos os tempos, no cessa de jorrar um instante,
agitando de ondas humanas as materialidades ambientes, espargindo-se em
uma atmosphera de ambies, de cobias, de hypocrisias, de traies, de
heroismo e dedicao a par da mesquinhez e da perfidia, de grandeza e de
miseria, de todas as paixes emfim que constituem e eternamente ho de
constituir o supremo mysterio e seduco suprema da nossa alma. Porque
todas essas cousas que Alexandre Herculano resuscitou as tirou das
cinzas, no para por si s reviverem mas para de novo se mostrarem nas
suas relaes com os homens; por isso que no passado adivinhou problemas
d'uma actualidade perpetua, por isso os seus romances nos prendem e
vencem, rendendo-nos  apreciao e ao peso de foras immortaes, communs
ao passado e ao presente, mostrando-nos docemente o passado no presente
e o presente no passado. Esta unidade da historia realisada na unidade
do corao humano atravez de todos os tempos e modos, ergueu-lhe a
phantasia litteraria a tal altura que no podia perturbar-se-lhe a
grandeza por escassez de adornos, de refolhos de expresso ou
fertilidade de inveno--revestimento, tantas vezes enganoso, d'uma real
e profunda inanidade, supprida por alimento succulento para os que por
sua fortuna e gloria foram dotados de excellencia authentica de faculdades.

Mas no meio de estudos tediosos e positivos  impossivel que o imaginar
no descore, dizia-nos o mestre no escrupulo da sua franqueza; e, por
certo, dizendo-o tinha em lembrana a sua propria experiencia. Emquanto
se afferrava a compulsar e a interrogar a historia, e o amor da patria
lanra-o n'esse caminho e ahi o mantinha quasi sem admittir desvio,
o espirito tornou-se cada vez menos indulgente com os errores da
imaginao, menos docil para as suas exigencias, menos affeioado aos
seus prazeres; enamorado de realidade extrema, deixava affrouxar sem
saudades impulsos creadores, e nem sequer tentara conservar-lhes a
vivacidade primitiva. De facto, o sonho ia descorando; desvanecia-se. As
tendencias, de sua natureza divergentes e algum tempo conciliadas por
muito e subtil engenho, recobravam independencia e em campo proprio
abrigavam-se da rudeza dos attritos que as enfraqueciam, inutilisando
largo capital, sacrificando a embates e antagonismos bens valiosos,
perdidos em restrices obrigadas e concesses mutuas indeclinaveis. O
novellista e o poeta tinham de abdicar nas mos do historiador, para o
deixarem livre de toda a coaco, no todavia to absolutamente que lhe
privassem as obras dos reflexos da presena de to leaes servidores,
nunca de todo affastados, mas apenas distanciados o bastante para o
dominio e evidencia da robustez herculea do mineiro e escriptor do
passado. Desembaraou-se do enleio em foras estranhas, e, desprendido
das paixes e artificios que abalavam a affirmao e a impediam de
accentuar-se e dilatar-se, foi ento at onde o incitavam a chegar uma
abundancia e valor de materiaes desentranhados dos archivos e uma
lucidez de interpretao, at aquella data ignoradas em terras
portuguezas. Embora os caprichos de narrativas romanticas muito
encantassem, estorvavam todavia o inteiro desenvolvimento da capacidade
de revelao, justamente avida de ostentar-se na plenitude do seu vigor.
Necessario se tornou ceder-lhe a preponderancia.

Singular fortuna! Exactamente quando a arte no buscava e s d'uma
extrema exactido historica cuidava, Alexandre Herculano produziu a sua
mais bella obra d'arte. Em nenhum dos seus trabalhos, e  de notar que
em toda a ordem do pensamento humano discorreu, alcanou a lucidez, a
ponderao, a singeleza e a elasticidade de forma que attingiu na
_Historia de Portugal_. Olhamos com temor para os seus quatro volumes
bem providos de citaes, de factos e referencias, tumidos de velharias
extravagantes e termos obsoletos na linguagem e nos objectos que
significavam, suspeitamos do peso do saber e agouram-se-nos enfados de
repeties e minucias, de analyses prolongadas e discusses infinitas; e
vamos encontrar uma suavissima lio, rapida sem insufficiencias
levianas nem obscuridade de precipitaes e lacunas, profunda sem
oppresso e cansao de dissertaes ociosas, sem a fadiga de
esforos de atteno e applicao  destrina de elementos agglomerados
ao acaso e mal ordenados, lio to segura quando tem motivos de
affirmar como discreta quando pressente alguma duvida, infundindo-nos um
encanto e confiana que d'um s golpe nos subjugam e nos arrancam
applausos de admirao e de affecto sorridente e grato a quem nos
concede um elevado e purissimo prazer e o fabricou, para nosso bem e
cultura,  custa d'um trabalho gigantesco.

Exemplifiquemos.  desnecessario escolher, ou antes,  inutil. O tecido
 d'uma to unida igualdade que em todo o ponto ostenta a homogeneidade
e o bem ligado da trama, a constancia da cr e a suavidade e rythmo da
ondulao:

A actividade de Sancho ou, talvez antes, do seu habil ministro, o
chanceller Julio,  na verdade admiravel, se attendermos aos
multiplicados objectos pelos quaes naquella epoca essa actividade se
repartia. No meio de uma guerra violenta com Leo tratavam-se as graves
questes politicas de que procurmos acima dar uma ideia, bem que
necessariamente imperfeita. No era, porm, s isso. Na mesma
conjunctura em que se promovia a povoao por uma e outra margem do
Tejo, entregando-se s ordens militares, principalmente aos
templarios, vastos territorios, onde estas corporaes poderosas pouco a
pouco iam estabelecendo aldeias e granjas e fazendo arroteamentos, saiam
de Portugal agentes encarregados de conduzir das regies centraes da
Europa novas colonias que supprissem a escasseza das que desciam das
provincias septemtrionaes do reino. Este encargo devia ser dado com
preferencia aos estrangeiros j estabelecidos no paiz e cujas relaes
com a sua patria natural os habilitava para atrairem novas migraes 
patria adoptiva. A doao de Pontevel feita em 1195 s antigas colonias
da Lourinh e de Villa Verde, presuppe um incremento de populao mais
rapido do que poderia resultar do seu desenvolvimento natural: e assim
cremos que esses municipios haviam augmentado com os aventureiros que
vinham buscar melhor fortuna n'este paiz hospitaleiro. Entre as
providencias que se davam j em 1198 para tornar menos solitarias as
provincias meridionaes, devastadas pela longa e variada lucta da
conquista e pelas recentes invases dos almohades, foi uma das mais
importantes diligencias a vinda de novos colonos. Offerecia esta gente
duas utilidades; porque, no s servia para ir desbravando os logares
ermos, mas era tambem seminario d'onde se podiam transplantar para
os campos de batalha valentes homens de guerra. Guilherme, deo de
Silves, que, segundo parece, ahi ficra com o bispo Nicolau na occasio
da tomada d'aquella cidade aos musulmanos, expulso da nascente diocese
pela terrivel reaco de Yacub, passou a Flandres, d'onde voltou com bom
numero de companheiros, deixando muitos outros alistados para depois o
seguirem. Era o chefe principal d'esta colonia flamenga um certo Raolino
(Raulin?). Destinaram-lhes para se estabelecerem uma parte dos largos
campos que se estendem entre Santarem e Alemquer, dando-se-lhes por
termos as varzeas que o Tejo fertilisa com as suas enchentes e que j
eram conhecidas n'aquelle tempo pelo nome de Leziras. Entre elles
fundaram a villa-dos-francos (Villa-franca), designao que depois se
mudou na de Azambuja. Raolino foi feito alcaide-mr do novo municipio e,
homem talvez pobre e obscuro no seu paiz natal, honrado e enriquecido
agora pelo principe portuguez, viu prosperar no processo de uma dilatada
existencia aquelle simulacro da patria que levantara para si e para os
seus em terra estrangeira, mas amiga[43].

Passemos algumas paginas. No teria sido esta lucidez e serenidade
maravilhosas um momento de feliz disposio, e porventura toda a obra
estar repassada de igual encanto? Experimentemos uma outra passagem:

Aquillo em que o reinado de Sancho tem acaso mais subida significao
historica  em ter ento comeado esse facto to variado como complexo
que se protrae por tres seculos e que constitue a principal feio
publica da nossa edade-media. Falamos da alliana do rei e dos concelhos
contra as classes privilegiadas, o clero e a fidalguia. N'estas
primeiras phases da lucta ha no s um comeo, mas tambem um resumo ou,
antes, um symbolo de toda ella. Os burguezes do Porto, acomettendo o seu
bispo e o seu senhor com os officiaes da coroa, sequestrando-lhe os
bens, expulsando-o coberto de ignominia e affrontando a colera dos
membros da poderosa familia de Martinho Rodrigues, so o typo da
resistencia e da m vontade que nos municipios e nos reis acharam
geralmente as duas altas classes do estado, at a monarchia obter
d'ellas final e decisiva victoria. Sancho, abandonando os habitantes do
Porto, transportando, digamos assim, a sua fora inerte de moribundo
para o campo adverso, associando-se, at, ao clero para ajudar a
submetter os burguezes, dava um deploravel exemplo aos seus
successores e entibiava os animos populares para as futuras contendas.
No pde, apesar d'isso, condemnal-o a historia, pois que tudo parece
indicar que os ultimos mezes da sua vida foram uma dilatada agonia; e se
ainda n'estes nossos tempos, em que o sentimento religioso se acha
atenuado e frouxo, almas que se dizem rijamente temperadas vacilam ao
aproximar-se a morte e se acurvam, no s aos terrores salutares e
santos da religio, mas at muitas vezes s crenas supersticiosas da
infancia, que revivem ento importunas, como deixaremos de desculpar um
homem ignorante e credulo, nascido numa epoca ferrea, de sacrificar 
voz dos remorsos, muitos dos quaes seriam legitimos, tanto as
conveniencias como a lealdade politica?[44].

No foi, porm, esta arte incomparavel na subtileza de analyse, de
conjunco e de expresso, no foi esta virtude que os contemporaneos e
a posteridade reconheceram mais promptamente na _Historia de Portugal_.
A impresso do pasmo pela renovao da historia e pela fortaleza de
verdade que a acompanhava e a tornava subsistente, esse foi o impeto que
de subito lhe deu um logar de excepcional proeminencia.
Consideravamos a nao uma tarefa cavalheiresca do genio militar
rematada com bom exito, questo de audacia militar e fortuna na peleja,
de paixo da guerra e de conquista, consequencia dos dotes dos reis e
principes, do seu temperamento e do seu querer, uma intriga de aces
generosas e de cobias vs; raras arremetidas de justia atropeladas por
muita traio e vingana, revolues e luctas saidas de roubos,
violencias e especulaes de senhores ambiciosos, despoticos, mais rudes
ainda na alma insensivel e sem escrupulos do que no corpo prompto a toda
a fadiga, dureza e excessos. Consideravamos a historia patria obra da
vontade d'alguns homens, e Alexandre Herculano, sem lhes contestar a
interveno, antes examinando-a e verificando-a em toda a latitude,
rasgava-nos caminhos novos para a descoberta de origens da vida nacional
inteiramente occultas. Graas a processos de investigao e methodos de
correlao aprendidos no estudo paciente dos mestres estrangeiros e por
elle nacionalisados, importando-os e empregando-os com uma habilidade
que o collocava a par dos maiores e mais destros n'essa ordem de
conhecimentos e nos seus espantosos progressos, mostrava-nos a
multiplicidade das foras que haviam cooperado na constituio da
nao portugueza, a influencia de tradies seculares e at da simples
fatalidade, a presso de massas anonymas da villanagem e do povo ao lado
das faanhas dos capites, o destino e o instincto das raas superior s
ambies dos chefes prepotentes, que em seu proveito proprio as guiavam
e serviam, a surda e lenta elaborao do sentimento da collectividade,
confuso e frouxo, sobrepondo-se, em uma asceno penosa,  absorpo de
tyrannias d'um ferino egoismo despotico, embriagando astuciosamente as
multides em fumos de gloria emquanto as acorrentava aos seus
insaciaveis apetites. Collocando nas suas relaes de existencia e
dependencias logicas os factores da vida nacional, muitos dos quaes foi
exumar do acervo informe de documentos e chronicas onde jaziam inuteis e
suffocados no logar para que o acaso os atirar, juntando um trabalho
colossal de investigao a um talento de organisao e interpretao sem
precedentes na litteratura portugueza e entre os seus raros e apagados
pensadores e philosophos, Alexandre Herculano fez para alguns seculos do
passado o que mais tarde Oliveira Martins conseguiria para algumas
decadas da politica contemporanea.

Note-se--a impresso de surpreza foi nos dois casos identica, como
identicos foram o louvor e a condemnao que se lhe seguiram; louvor
dos que prezam a lucidez de entendimento e a clareza de consciencia; e
creem na sua efficacia para a fortuna dos povos; e condemnao dos que,
fanatisados e tresloucados pelo interesse de castas, de classes, dos
bandos e das clientelas, s esses veem e sabem defender com acrimonia
exaltada, quando o bem publico lhes exige o cerceamento e a quebra de
regalias ou o espirito de justia lhes denuncia as oppresses, os crimes
e torpezas a que recorreram e recorrem para acrescentar e conservar o
seu predominio nefasto.


II

Porventura tinham razo esses muitos que deixaram passar sem reparo a
delicada e peregrina belleza de arte na _Historia de Portugal_, para
attentarem smente na soberba e tremenda lio que ella encerrava, lio
moral sobretudo. Os primores litterarios, por muito notaveis que se
tornem e por muita suavidade que deem  vida, so na verdade cousa
inferior perante as foras intimas que regulam o corao humano e
determinam a nobreza ou a degradao, conforme triumpham ou so
vencidas. Tinham razo. A lio que Alexandre Herculano para si mesmo
tirava do estudo da historia, mostrava cabalmente aos estranhos o que
tinham a aproveitar na meditao da sua obra. Se  certo, como algum
disse, que a historia  a philosophia ensinada pelo exemplo, alli
tivemos uma extraordinaria demonstrao da justeza de semelhante conceito.

Foi folheando a historia patria que Alexandre Herculano concebeu e nos
desvendou na terribilidade tragica do seu inferno as profundezas da
injustia social. Foi alli que, registando os conflictos de classes e os
desmandos, abusos e rapinas dos senhores, conheceu e nos denunciou
os crimes da sociedade, acautelando-nos contra a nossa propria quda em
orgulhosas demencias de virtude, satisfeita e pedante nas commodidades
da sua condio e alheia de sensibilidade e intelligencia aos males
gerados d'ella mesma. Mentirosa, corrupta e m, cheia de erros,
preoccupaes e vicios, damnada nas instituies e nas leis, nas crenas
e nos costumes, a sociedade, disse-nos Alexandre Herculano em concluso
do estudo dos factos que lhe corroborava os impulsos do corao, educa
as geraes e os individuos, legando-lhes largo capital de perdio; e
quando os arbustos plantados em terra peonhenta, tendo bebido uma seiva
venenosa produzem seus fructos de morte, o mundo, ao mesmo tempo malvado
e hypocrita, horrorisa-se, abomina a sua obra, e ajuntando-se  roda do
cadafalso dos suppliciados, que elle proprio l conduziu, sada uma
cousa, a que pz por nome justia, e que no  mais que uma desculpa
embusteira da ignorancia e de perversidade, no do individuo criminoso,
mas desse vulto hediondo e informe chamado sociedade, para o qual no ha
nem leis, nem punio nem algozes[45].

Se, hoje, um alto espirito caustico da actualidade[46],
definindo a noo corrente de justia entre os que se orgulham de a
praticar, nos diz que, quando o homem mata o tigre  um sport e quando
o tigre mata o homem  uma ferocidade, e a relao entre crime e justia
 pouco mais ou menos isso, comparamos o seu indignado escarneo com a
maldio inflamada do poeta e verificamos que o poeta no leu menos
claro nas paginas da historia do que o moralista na observao do
espectaculo quotidiano d'um mundo turvado de violentissimas paixes e
possuido de pretenses estultas de haver encarnado a rectido. Por ahi
podemos avaliar a natureza do scismar do grande historiador, quando nas
vigilias se curvava sobre os pergaminhos da terra natal: que cordas
vibravam ento no seu peito, que divino e solemne canto ellas soltaram,
redemptor e austero.

Tudo aquillo que o apostolo carecia de saber e confirmar em sua
consciencia, tudo a historia lhe dizia.

A obra demolidora da revoluo, a que se associou com to claro
applauso, no seria um acto de ruina e destruio, mas smente o
desafogo e desobstruco das tendencias evolutivas nacionaes. Para
se continuarem e perfazerem, careciam d'essa violenta remoo de
obstaculos que as prendiam e paralysavam. Aborrecia o modernismo.
Detestava a mania das imitaes estrangeiras. Deplorava profundamente
essa abdicao vergonhosa da razo nacional.

A liberdade, aspirao suprema da sua gerao e da sua alma, no seria
uma innovao trazida de terra alheia pela phantasia aerea de
sonhadores: era uma planta nascida e creada no solo da sua patria e
apenas calcada e esmagada, mas no morta, aos ps da crueldade despotica
dos reis e dos ministros do estado.

As tradies de que tinha saudade, o passado que amava, no eram lendas
absurdas, inventadas por interesses mundanos, dos quaes, por mais graves
que fossem, nem a philosophia nem o christianismo consentem se faa o
cu instrumento. Nos tempos que foram o que lhe sorria, no s como
saudade, mas tambem como esperana eram as tradies d'essa liberdade
primitiva, posto que incompleta, filha primogenita do evangelho, que
elle gerara para me, para abrigo das sociedades da Peninsula; d'essa
liberdade, rude e turbulenta como uma creana educada  lei da natureza,
mas como ella robusta e viosa; d'essa liberdade que se estribava
nos habitos, que resultava de instituies positivas e exequiveis, e
no de instituies copiadas quasi ao acaso da primeira theoria que
tivesse transposto os Pyreneus; d'essa liberdade que tornava a monarchia
uma cousa santa, necessaria, indestructivel, e que a monarchia, por
desgraa sua e nossa, foi lentamente esmagando debaixo do seu throno,
formado dos infolio, politicamente fataes, do Digesto, do Codigo e das
Glossas e commentarios das escolas d'Italia; d'essa liberdade que,
desenvolvida e organisada logicamente com a sua origem, nos teria
poupado talvez  gloria immensa, mas para ns mais que esteril, de nos
convertermos em victimas da civilisao da Europa, de revelar o Oriente
 sua cobia, para logo virmos assentar-nos extenuados num occaso de
tres seculos; d'essa liberdade que nos teria salvado por certo de um
longo estrebuxar em esforos impotentes de emancipao, que tommos como
lies de estranhos, e que era mais velha para ns do que o era para
elles. Eis aqui a maravilha, melhor que milagres imaginarios, na qual
no s cria, mas tambem esperava[47].

O apostolo ardente d'essa crena amaria o passado do seu paiz e as suas
tradies primitivas. Desejava-lhe uma maneira de ser logica com as
suas origens, porque, nas formulas sociaes de cada nao no bero, tudo
vinha naturalmente; as instituies derivam dos instinctos de liberdade
innatos no corao do homem, das suas necessidades materiaes e moraes,
que a fora ento despreza e algumas vezes reduz ao silencio, mas que
ninguem pensa em sophismar. N'esta epoca da vida dos povos, ha muitas
cousas incompletas, barbaras; muitos absurdos de detalhe; mas a
estructura da sociedade nunca era absurda. Essas epocas so em geral
ainda muito grosseiras para a inanidade de legisladores chimericos,
fabricantes de systemas, jurisconsultos encarregados de embrulhar os
usos simples do povo. Queria que se prendesse a liberdade moderna 
liberdade antiga. No importava o facto desamor ou menosprezo do
progresso e das alteraes que no seu juizo seriam como phases de um
desenvolvimento organico. Amava as cousas antigas mas no amava as
velharias. Porque sabia que, estudando as instituies da nossa
edade-media, l descobriamos quasi todos os principios de liberdade que
julgavamos haver descoberto em nossos dias; porque ahi via garantias
mais reaes, no fundo mais solidas do que aquellas que gozavamos, no se
seguia que desconhecesse a experiencia dos seculos, as vantagens da
civilisao e as verdades adquiridas para as sciencias sociaes. As
instituies que procurava derrubar eram apenas uma sobreposio funesta
aos principios em que a nao portugueza se constituira. No attentava
contra a tradio nacional, desenterrava-a e limpava-a da corrupo em
que andava perdida, embora a corrupo pretendesse abrigar-se e
defender-se na sombra santa dos tumulos, dourada pelo sol de milhares
de dias. Desafiava quem quer que fosse a provar-lhe que as
instituies que Mousinho lanou a terra tivessem existido antes do
seculo desesseis, ou que, no caso affirmativo, houvessem chegado ao
comeo do seculo desenove sem terem sido desnaturadas, a ponto de se
tornarem completamente desconhecidas: desafiava-o a provar-lhe que
n'essa epoca satisfaziam de qualquer modo ao seu destino primitivo; a
provar-lhe, emfim, que o que se chama meios de governo fosse outra cousa
seno meios de absolutismo[48].

A tolerancia religiosa, sonho das grandes almas dos seus companheiros da
epopeia liberal, encontrava-a tambem na historia. A ambio,
porventura intangivel para o inveterado despotismo latino, pela qual se
derramava tanto sangue e se exaltava tamanho esforo de meditao e de
propaganda, isso que parecia um reino novo, conquistado pela philosophia
e por ella arrancado ao fanatismo cruel de sectarios tenebrosos, a
tolerancia, seria para Alexandre Herculano uma singela tradio de bons
tempos da vida nacional. Seguissemos-lhe o rasto: conduzia a paraisos de
candida e repousada fraternidade. E contava, rememorando a jornada em
que a abenoada curiosidade do historiador lhe trouxera por l o
pensamento:

Restello, como quasi todas as aldeias das cercanias de Lisboa, parecia
quasi uma terra musulmana ainda no fim do seculo XIV. Ainda ento
avultava, entre a raa goda e christ, a raa africana-arabe. At esta
epoca, ou antes at quasi o fim do seculo seguinte, as Hespanhas
offereciam um phenomeno unico, talvez, na historia: o de tres povos,
sectarios de tres religies inimigas, vivendo juntos, e cada qual
adorando Deus a seu modo, sem que por isso viessem s mos, apesar de
todas essas crenas serem persuases profundas, e por conseguinte
exclusivas. As tres religies eram o christianismo, o islamismo, e o
judaismo: o primeiro dominante, o segundo tolerado, o terceiro
consentido. Nobres, cavalleiros e o grosso dos burguezes pertenciam ao
primeiro, os homens de trabalho, em boa parte, ao segundo, os
mercadores, em grande numero, ao terceiro. E acima do Evangelho, e da
Toura, e do Alcoro, havia um livro que fazia o que nunca souberam fazer
os comentadores de cada um d'elles; um livro que os conciliava. Esse
livro era a lei. A lei protegia os diversos cultos nacionaes, sem que
todavia fosse incredula, como as leis da tolerancia moderna... Por
algumas d'estas leis, feitas na primeira metade do seculo XV, chegaram a
ficar sujeitos a graves penas aquelles que ousavam offender estes
desgraados na unica herana que lhes restava, a religio de seus paes.
Todavia no se creia que os legisladores ou o povo eram tibios na f.
Como religionario, o christo detestava, ou antes desprezava o mouro e o
judeu; como cidado vivia e tratava com elle. Nas leis relativas a estas
duas raas reprobas, no ha uma s palavra que revele hesitao ou
indifferena religiosa; mas v-se que  sua promulgao presidiu a
sabedoria. O fanatismo cego, bruto e feroz, veio-nos com as primeiras
luzes de uma falsa civilisao, nos fins do seculo XV, e progrediu com
ella por todo o seculo XVI. D'antes a raa christ tinha a
consciencia d'uma grande superioridade religiosa, e fazia-a valer na
legislao; mas no confundia a crueldade e a intolerancia com as
distinces que nascem da differena entre o superior e o inferior[49].

Internando-se nos labyrinthos da historia, nem sempre teve porm a
alegria de contemplar suaves apparies bemfazejas, como essa de serena
magnimidade que viu na aldeia de Restello, povoada de gentes para as
quaes a adorao de Deus no era motivo de oppresso e odio entre os
homens, e onde se mostrasse, em qualquer templo da sua eleio, ou
erguesse um hymno a Christo ou o consagrasse ao propheta islamita,
seria invariavelmente protegida pela largueza dos coraes, pela
severidade dos tribunaes e pelas armas dos magistrados da cidade. Por
vezes o assaltaram espectros terriveis, em logar de apparies
consoladoras; e, fiel ao seu apostolado, d'elles nos deu fidelissima
imagem, sem occultar o pavor que lhe infundiam nem a temerosa suspeita
de que desvairados impios tentassem restituir-lhes a vida para flagello
da humanidade.

D'este modo, na presena de espectros hediondos, filhos legitimos de
Satanaz, negao sacrilega de Deus, contou-nos Alexandre Herculano a
_Historia da Origem e Estabelecimento da Inquisio em Portugal_,
pamphleto, libello e homilia, extraordinario e unico de eloquencia, pelo
calor da enunciao, pela solidez dos fundamentos, pela magestade altiva
da construco, pelo poder de dominio, por esse caracter augusto de
sentena emanada, no do juizo fallivel dum homem, mas da auctoridade
incontestavel da experiencia e legados das geraes. E, com aquella
sinceridade perfeita que usava em todos os actos da sua vida,
previamente confessou os motivos que o instigaram a facultar-nos essa
lio soberba.

Confundindo as ideias de liberdade e progresso com as de licena e
desenfreiamento, o direito com a oppresso e a propriedade, filha
sacrosanta do trabalho, com a espoliao e o roubo; tomando, em summa,
por systema de reforma a dissoluo social, certos homens e certas
escolas traziam aterrada a classe media. Esse erro de muitas
intelligencias alis eminentes e a quem, em parte, sobrava razo para
taxar de viciosas ou de incompletas muitas instituies dos paizes
livres, abria caminho e subministrava pretexto por toda a Europa a uma
reaco deploravel. Era um acontecimento grave pelas consequencias
materiaes e sobretudo pelas suas consequencias moraes; era o
espectaculo repugnante da tyrannia, esmagando o governo representativo
aos ps dos batalhes de infanteria e dos esquadres de cavallaria, e
demonstrando que os exercitos permanentes, nascidos com o absolutismo e
s para elle, com elle deviam ter passado para o mundo das tradies.
Mas a reaco moral que ia acompanhando a reaco material era mais
grave para os destinos da liberdade e da civilisao e para as crenas
dos seus fieis. Ouvia-se j o alarido da soldadesca embriagada:
applaudia-o o vulgo, que sada sempre o vencedor; applaudiam-no velhos
interesses mortalmente feridos que agora se proclamavam alto em nome do
direito, em gritos de furor e ameaa; applaudia-o a hypocrisia que,
depois de minar debaixo da terra, surgia  luz do sol balouando o
thuribulo e incensando todos os que abusam da fora, declarando-os
salvadores da religio, como se a religio precisasse de ser salva ou
coubesse no poder humano destruil-a. Renasciam os milagres em frente
dos quarteis; o cercilho e o bigode jogavam o futuro sobre o tambor
posto em cima da ara.

Isso era grave, era atroz. Mas havia ainda cousa mais grave. Entre os
grupos que por quasi toda a Europa aclamavam as saturnaes da
reaco, havia um mais forte e mais perigoso, porque em muita parte era
senhor do poder politico. Era o d'aquelles que deviam quanto eram e
quanto valiam aos triumphos da liberdade; que sem as lides dos comicios,
dos parlamentos, da imprensa; sem o chamamento de todas as
intelligencias  arena dos partidos; calcados por um funccionalismo
despotico, por uma nobreza orgulhosa, por um clero opulento e
corrompido, teriam fechado o horisonte das suas ambies em serem
mordomos ou causidicos de algum degenerado e rachytico descendente de
Bayard ou do Cid ou em vestirem a opa de meninos do cro de algum
pecunioso cabido.

Estes taes que trocaram o aposento caiado pela sala esplendida, o nome
peo de seus paes pelos titulos nobiliarios, a sapato tauxiado e o trajo
modesto do vulgo pelos lemistes e setins cortezos, cobertos d'avelorios
e lantejoulas, das condecoraes com que o poder costuma marcar os seus
rebanhos de consciencias vendidas, esses sentiam esvair-se-lhes a
cabea com os tumultos eleitoraes, com as luctas da imprensa, com as
discusses tempestuosas, e, sem se atreverem a abjurar a nova ordem mas
atraioando-a, imaginavam desvario as necessarias e dolorosas
experiencias e aterrados, renegando as ideias que propugnaram,
tentavam salvar pela restaurao d'um absolutismo cachetico e
impotente as suas carruagens, mitras, bastes, veneras, rendas e
dignidades. Esse era o grupo dos grandes miseraveis.

Ao p d'este, estava ainda a burguezia, timida, a tremer dos terremotos
politicos, pela perturbao que traziam  sua avareza e ganancias.
Comeava a vr na liberdade espoliaes, esquecida das que o absolutismo
crera, ferozmente protegia e de todo tinham trazido manietada nas
ambies economicas essa mesma burguezia que agora se afreimava pelo
grave risco dos seus haveres. Insensata e egoista, com o medo de perdas
hypotheticas no futuro, auxiliava a renovao das oppresses que no
passado a suffocavam.

Felizmente, no meio das loucuras do terror, muitas almas fortes, muitas
cabeas intelligentes tinham sabido conservar frio o animo para no
abdicarem o senso commum e no consentirem que espiritos vos ou
coraes fementidos fizessem das naes materia bruta das suas
experiencias politicas ou preza das suas ambies desregradas, indo
aspirar a vida no cemiterio dos seculos. Ns mesmos, nao pequena e
que a historia desconsiderava ainda pela ideia que d'ella fazia,
davamos n'esta parte mais de um exemplo de alta sabedoria a algumas das
maiores naes.

Em certa esphera e at certo ponto, a reaco geral tinha
representantes entre ns. Cumpria combatel-a, no para convencer
aquelles que sempre amaram o passado e nunca negociaram com as suas
crenas, porque esses respeitava-os; mas para fortificar na f liberal
os tibios do proprio campo e premunil-os contra as ciladas dos transfugas.

Levado pelas suas propenses litterarias para os estudos historicos,
era, sobretudo, por esse lado que Alexandre Herculano julgava poder ser
util a uma causa, a que estava ligado, rememorando um dos factos e uma
das epocas mais celebres da historia patria; facto e epoca em que a
tyrannia, o fanatismo, a hypocrisia e a corrupo nos apparecem na sua
natural hediondez. Quando todos os dias lhe lanavam em rosto os
desvarios das modernas revolues, os excessos do povo irritado, os
crimes de alguns fanaticos, e, se quizessem, de alguns hypocritas das
novas ideias, fosse-lhe licito chamar a juizo o passado, para vermos,
tambem, onde nos podiam levar outra vez as tendencias de reaco, e se
as opinies ultramontanas e hypermonarchicas nos davam garantias de
ordem, de paz e de ventura, ainda abnegando dos foros de homens livres e
das doutrinas de tolerancia que o Evangelho nos aconselha e que Deus
gravou em nossa alma[50].

A demonstrao foi completa. Ser difficil produzir mais persuasiva
accusao das demencias crueis do despotismo do que essa estampada para
sempre nas paginas da _Historia da Inquisio_. A irradiao do espectro
correspondeu ao ardor da f que o evocou para o anathematisar.
Petrificados de terror ao vl-o, no sabemos se nos fulmina a suspeita
de que elle renasa da treva para nos infligir o martyrio, se nos faz
cair prostrados a vergonha da prostituio da honra da especie, a
perverso humana que affrontou at a presena da cruz de Christo e a sua
imagem.


III

A historia, a cujo conselho Alexandre Herculano pedia o conhecimento dos
homens e a confirmao das aspiraes do seu genio, esclarecia-o e
ditava-lhe de continuo regras de vida. Teria por isso de lhe traar
parallelamente uma politica, que no deve ser outra cousa seno a regra
da vida publica, a expresso do dever civico, ampliando e completando o
systema de obrigaes com o proprio individuo e nas suas relaes mais
proximas.

Por esta ligao, o principio religioso do amor entre os homens, luz
perpetua do apostolo em toda a contingencia, iria encontrar a definio
concreta mais completa no povo, no ser anonymo, substancia e alma das
sociedades, presente em todos os movimentos de caracter collectivo e
modificando a communidade, imprimindo-lhe tendencias, direco e forma,
embora o resultado ultimo houvesse dado por longo tempo a illuso de ser
obra do esforo de genios e heroes. Pulsava no povo a bondade do
corao; esse dote to cobiado e raro entre os maiores, era vulgar nas
ultimas camadas sociaes, onde o continuo roar das privaes e dores
predispe os animos para a compaixo[51]. N'elle se refugiava a
franqueza e a sinceridade, a negao da mentira, principio fundamental
de virtude e expresso primaria da religio; o povo pde ser injusto,
voluntarioso, insolente, cruel; pde arrastar pelas ruas bispos
traidores, donas prostituidas, alcaides vendidos ao rei estranho; mas
tem uma virtude:  franco e sincero; franco e sincero no seu amor e no
seu odio; usa verdade, e dil-a sem curar se de ou no de[52].

O caracter do povo, comendo o po com o suor do seu rosto, revestiria
uma grandeza austera no labor rude, se o comparava com a dissoluo e
dissipao das aristocracias, de todo o tempo occultando sob o manto do
cavalleiro e suas armas fulgurantes, avidez, luxuria e cobia.
Santificava-se, se o confrontava com os fidalgos do reinado de D. Joo
I, jogando nas tavolagens o producto dos terradegos, chavadegos e
maninhadegos, das osas, gayosas e luctuosas, das eiras, angueiras,
perangueiras, carreiras e fossadeiras, e dos mais fros, direituras e
costumagens em adegos, em osas, em eiras, e em todas as rapinas
possiveis da rapina legal e tradicional[53]. Clamava justia e bradava
aos cus, parecendo imploral-a do rei, quando pela bocca dos
procuradores dos concelhos se lhe ia queixar dos senhores, que,
rodeiados dos seus vassalos e clientes, costumavam residir nas terras a
elles sujeitas, e que, para evitarem os tedios da triste vida
provinciana, consummiam, em lautos banquetes, s vezes n'um mez, as
subsistencias d'um anno, esquecendo-se de pagal-as, queixa absurda,
visto que elles por serem nobres no eram isentos das debilidades da
retentiva humana; e se por ahi violavam donzellas e viuvas, segundo os
artigos rezavam, menos por fartar paixes ms o faziam que por
benevolencia para com essa raa achavascada, meio-mourisca meio-servil,
de labregos desagradecidos[54].

Aquella mesma burguesia, cuja erupo Alexandre Herculano presenciava
convertendo em desapiedadas usuras descaradas os sonhos da ingenuidade
liberal que lhe facultou o poder, essa mesma, dissimulada em trajos de
modestia e com gestos patrioticos, era aquell'outra, igualmente
abominavel, que no tempo de D. Joo I se viu representada a primor
em mestre Esteveannes, uma parcella rudimental d'essa classe media que
se ia organisando no meio das transformaes sociaes de edade media,
classe cujos caracteres appareciam j no modo de pensar do honrado
mester--a m vontade para tudo quanto a fortuna ou o bero pz acima
d'ella, e um orgulho tyrannico para com as camadas inferiores do povo,
d'entre as quaes foi surgindo;--classe egoista e oppressora como a que
substituiu em influencia e riqueza, e peior do que ella na hypocrisia,
tendo na bocca a liberdade, a moral, a justia, e no corao o despreso
do pobre e humilde, a cobia insaciavel, a vaidade e a corrupo;
_classe_, emfim, cerca da qual a historia ter no porvir de lavrar uma
sentena ainda mais severa, do que ess'outra que j pesa sobre a memoria
dos ferozes e dissolutos bares e cavalleiros dos seculos de
barbaria[55].

No perdoou Alexandre Herculano  classe media a impostura e astucia que
a tornou algoz quando jactanciosa apregoava a sua misericordia, como no
perdoou nem podia perdoar o crime de lesa-sociedade e traio do seu
mandato  monarchia absoluta, que desrespeitou o povo e as instituies
populares, mostrando-se parenta proxima do liberalismo moderno no
desprezo estupido e brutal dos mais venerados monumentos d'essas epocas
de liberdade incompleta mas sincera, em que o monarca era o alliado dos
povos, o brao que estes estendiam para annular a tyrannia da casta
privilegiada, se ella ousava quebrar-lhes os seus foros, avexal-os ou
opprimil-os[56]; degradando em comedia qualquer cousa grande e forte,
a vida municipal, que essa mesma monarchia absoluta legou transformada
em fara de titeres, s hexarchias ministeriaes, que acceitamos
benevolamente como governo representativo[57].

Todas as formas do poder politico, todo o systema de direito publico em
qualquer gro que o presentisse, todo o dominio de senhores e classes
Alexandre Herculano desamava, se opprimiam o povo e no eram filhos do
seu genio. A mais bella, mais energica e mais vivaz instituio,
derivada do principio da associao, a mais perfeita consubstanciao da
aspirao commum no seu modo de ser politico, para elle era e seria
sempre o municipio[58].

Ouamol-o. Necessario se torna ouvil-o com mais pausa do que at aqui o
temos feito. Tocamos no amago da sua politica, no corao da cidade que
elle sonhou. Meditemos as suas palavras. Comparemos a sua concepo da
sociedade politica com todas aquellas muito captivantes que
architectaram os mais profundos pensadores do nosso tempo e os mais
zelosos apostolos da democracia, ao fim de innumeraveis annos de estudo
e de experiencias cruciantes que devoraram milhares de martyres. Talvez
depois possamos entrever como o poeta, o crente e o historiador geraram
o propheta, que claro elle accendeu nos amortecidos fachos do passado
para nos illuminar uma rutila estrada no futuro:

Na essencia de todas as associaes humanas, em todas as epocas e por
toda a parte actuam dois principios: um da ordem moral, intimo,
subjectivo; outro da ordem material, visivel, objectivo.  o primeiro o
sentimento innato da dignidade e da liberdade pessoal;  o segundo o
facto constante e indestructivel da desigualdade entre os homens. As
revolues interiores das sociedades, as suas luctas externas, as mesmas
mudanas lentas e pacificas da sua indole e organisao constituem
phases mais ou menos perceptiveis do ascendente que toma um ou outro
d'esses principios em lucta perpetua entre si. Cavando at o amago de
qualquer grande facto historico, l vamos encontrar esse perpetuo
combate. As conquistas, o despotismo, as oligarchias, seja qual for o
seu nome, so manifestaes diversas do predominio do mesmo principio de
desigualdade, quer este se estribe na fora bruta, quer na destreza e
intelligencia, quer na propriedade: as resistencias, felizes ou
infelizes, das nacionalidades ou das democracias, emquanto no degeneram
na excluso e na tyrannia do maior numero, so manifestaes do
sentimento da dignidade e liberdade humanas, do principio subjectivo ou
de consciencia. Factos ambos innegaveis e indestructiveis, a grande
questo social  equilibral-os, e no tentar o impossivel, pretendendo
annular um ou outro: porque foi Deus quem estampou um na face da terra,
ao passo que escrevia o outro no corao do homem. A inutilidade dos
esforos d'este seculo para assentar a sociedade em novas bases, a
frequencia dos terriveis abalos que agitam a Europa tentando
regenerar-se no procedem, porventura, seno do exclusivo dos partidos
que representam as duas ideias, da negao de legitimidade com que
mutuamente se tratam. Sobranceiras ao immenso campo de batalha onde se
disputa o futuro, duas tyrannias esperam que se resolva a contenda para
vr qual d'ellas se assentar no throno do mundo, a democracia absoluta,
que desmente a lei natural das desigualdades humanas, ou a oligarchia
oppressora e materialista que se ri das aspiraes do corao, que no
cr na consciencia das multides, que confunde o facto da superioridade
com o direito de opprimir as classes populares, cujos membros so para
ella simples machinas de produco destinadas a proporcionar-lhe os
commodos e gosos da vida. Seja, porm, qual fr o desfecho do combate, a
paz que resultar do triumpho exclusivo dum dos principios nunca ser
duradoura; porque esse triumpho importa a condemnao de uma lei eterna,
que no  licito offender impunemente: nunca a liberdade e a paz podero
subsistir emquanto concesses mutuas no tornarem possivel a
coexistencia e a simultaneidade dos dous principios.

A historia dos successos politicos que no  seno o resumo das
experiencias do genero humano, quer se refira  vida interna, quer 
vida externa das naes, cifra-se em descrever phenomenos mais ou menos
notaveis dessa lucta interminavel. A conquista emprehendida ou realisada
pelo mais forte corresponde a resistencia ou a reaco do mais
fraco, ao despotismo de um as conjuraes de muitos;  opposio
oligarchica a revoluo democratica. Nenhum, porm, d'esses factos traz
uma situao definitiva. Na concluso da peleja em que um dos principios
triumpha absolutamente comea a preparar-se a victoria do principio
adverso. D'este modo a historia encerra um protesto perenne da liberdade
contra a desigualdade, digamos assim, activa, e ao mesmo tempo
attesta-nos que todos os esforos para a substituir por uma igualdade
absoluta teem sido inuteis e que esses esforos ou degeneram na tyrannia
popular, no abuso da desigualdade numerica, ou fortificam ainda mais o
despotismo de um s, ou o predominio tyrannico das oligarchias da
intelligencia, da audacia e da riqueza.

Allumiada pelo claro do evangelho triumphante, a edade media, epocha
da fundao das modernas sociedades da Europa, offerece no complexo das
suas instituies e tendencias um comeo de soluo ao problema que o
mundo antigo no soubera resolver. Causas diversas preparam, durante os
seculos XIV e XV, o estabelecimento das monarchias absolutas, que
impediram o desenvolvimento logico d'aquellas instituies, na verdade
barbaras e incompletas mas que, apezar da sua imperfeio e rudeza,
continham os elementos do equilibrio entre a desigualdade e a
liberdade. Longe de negar ou condemnar com colera infantil as
differenas de intelligencia, de fora material e de riqueza entre os
homens, ou de tentar inutilmente destruil-as, a democracia da edade
mdia, representante do principio de liberdade, confessava-as,
acceitava-as plenamente, acceitava-as at em demasia; mas, por isso
mesmo, mostrava instinctos admiraveis em organisar-se e premunir-se
contra as tendencias anti-liberaes d'essas superioridades. Foram
semelhantes instinctos que produziram os concelhos ou communas; esses
refugios dos foros populares, essas fortes associaes do homem de
trabalho contra os poderosos, contra a manifestao violenta e absoluta
do principio de desigualdade, contra a annulao da liberdade das
maiorias. Em nosso entender, a historia dos concelhos  em Portugal, bem
como no resto da Hespanha, um estudo importante; uma lio altamente
proficua para o futuro; porque estamos intimamente persuadidos de que,
depois de longo combater e de dolorosas experiencias politicas, a Europa
ha-de chegar a reconhecer que o unico meio de destruir as difficuldades
de situao que a affligem, de remover a oppresso do capital sobre o
trabalho, questo suprema a que todas as outras nos parecem
actualmente subordinadas,  o restaurar, em harmonia com a illustrao
do seculo, as instituies municipaes, aperfeioadas sim, mas accordes
na sua indole, nos seus elementos com as da edade media. Sem ellas, o
predominio do despotismo unitario, o do patriciado do capital e da fora
intelligente, que sob o manto da monarchia mixta domina hoje a maior
parte da Europa, ou o da democracia exclusiva e odienta, expresso
absoluta do sentimento exaggerado da liberdade, que ameaa devorar
momentaneamente tudo, no so a nossos olhos seno formulas diversas de
tyrannia, mais ou menos toleraveis, mais ou menos duradouras, mas
incapazes de conciliar definitivamente as legitimas aspiraes da
liberdade e dignidade do homem em geral com a superioridade indubitavel
e indestructivel d'aquelles, que, pela riqueza, pela actividade, pela
intelligencia, pela fora, emfim, so os representantes da lei perpetua
da desigualdade social.

A historia da instituio e multiplicao dos concelhos  a historia da
influencia da democracia na sociedade, da aco do povo na significao
vulgar d'esta palavra, como elemento politico[59].

Porque esse elemento politico era na vida social das naes o elemento
vital, Alexandre Herculano teria de applaudir, e eloquentemente o fez, a
obra revolucionaria de Mousinho da Silveira. Que fra ella seno um
resgate de servides do povo?!...

Aboliu os dizimos ecclesiasticos e os direitos de senhorio, e por esse
modo libertou a propriedade e o trabalho agricola, a pequena industria e
o pequeno commercio de dois teros dos impostos que sobre elles pesavam,
dos quaes o fisco recebia apenas uma parte minima. Separou as funces
judiciaes das administrativas. Organisou os tribunaes de justia.
Deixaram de ser pessoaes e hereditarios os empregos publicos. Decretou a
liberdade do ensino. Deu o primeiro golpe nos morgados, supprimindo os
de rendimento inferior a duzentos mil reis. Secularisou um certo numero
de conventos e lanou as bases para a suppresso gradual e total dos
estabelecimentos d'este genero e das outras corporaes ecclesiasticas
no comprehendidas na verdadeira hierarchia da egreja, suppresso mais
tarde realisada com uma imprevidencia e uma brutalidade inauditas, e, o
que foi peior, inuteis. Limitou as sisas s transaces sobre bens de
raiz, e reduziu-lhes a importancia a metade, a at a menos de metade
em certas hypotheses. Aboliu monopolios como o do sabo, da venda do
vinho do Porto, e outros.  liberdade politica, que os concelhos
traduziam, era necessario que correspondesse a liberdade moral e
principalmente economica, que as leis de Mousinho decretavam. Era
necessario arrancar o povo das garras do absolutismo que o
estrangulavam; e para o conseguir o meio mais seguro e certo era
cortar-lh'as. Foi isso o que o duque de Bragana fez; e o povo
comprehendia-o. No a populaa, que no reflectia; que quasi no tinha
interesses materiaes ou moraes dependentes das medidas do gabinete
Mousinho: que todos os dias era prgada, excitada, fanatisada por padres
e frades. Essa parte da nao era ento o que  hoje, o que ser amanh.
Gostava de mendigar s portas dos conventos e das abbadias, e alistar-se
entre a creadagem dos donatarios da cora, dos commendadores, dos
capites mres, de todos aquelles que viviam do producto dos velhos
impostos, que as instituies e as leis tornavam legaes, mas que a
justia, a razo e a humanidade tornavam illegitimos; essa no podia
apreciar os decretos de Mousinho. Mas ess'outro povo que  alguma cousa
de grave, de intelligente, de laborioso; os que possuem e trabalham,
desde o simples rendeiro ou o trabalhador do seu proprio campo at
ao grande proprietario; desde o bofarinheiro e o tendeiro at ao
mercador por grosso; desde o official at ao fabricante; estes
espalhavam, liam e comentavam as leis de Mousinho; comparavam os seus
resultados necessarios com os pesados cargos que esmagavam as classes
laboriosas e impediam todo o progresso; e debalde o partido realista
tentava obstar ao effeito moral d'aquelles decretos sobre o espirito dos
que elles favoreciam.

E porque o povo as apreciava e applaudia, por isso Alexandre Herculano,
que via no dominio do povo a victoria da liberdade, applaudiu as medidas
de Mousinho, vassoura immensa de instituies carunchosas, a que
embaraavam a seiva da vida social e formavam os contrafortes do
absolutismo. Tinha presentes, porque a historia lh'os havia pintado, os
quadros da oppresso do antigo regimen. Vira no pateo de cada granja,
na eira de cada campo, no limiar de cada adega os agentes do commendador
ou do bispo, do capitulo ou do abbade, do donatario e do alcaide-mr a
pedirem, um a dizima, o outro o quarto, um outro o oitavo do rendimento
total dos cereaes, do vinho, do linho, do azeite, de quasi todos os
productos. Sabia que a miseria do paiz havia de perpetuar-se emquanto
se encontrassem aquelles agentes, computando aqui quantos carros de
milho o lavrador devia, em virtude de um foral de Affonso I, a um gordo
senhor bochechudo, companheiro divertido, illustre vadio, vindo de
nobres avs, mas que por certo no havia herdado a cora do dito Affonso
I; enumerando acol uma ladainha de rendas, com nomes heteroclitos e
barbaros, exigiveis da choupana e da granja; emquanto se visse ainda por
cima, quando o pobre cultivador cahia exausto, o corao rasgado de dr,
sobre os restos do fructo do seu trabalho, chegar o exactor fiscal e
pedir, em nome do rei vivo, novos dizimos e outros impostos que no se
lhe havia tirado em nome dos reis mortos[60]. A injustia contra o
povo, filho dilecto de Deus porque consagra o amor pelo trabalho,
clamava indignada na alma do poeta, e por isso elle abenoava a obra do
dictador revolucionario.

Esse povo, porm, que ella amava e queria enthronisado e defendido nos
baluartes do municipalismo, no seria um rebanho de animaes possantes,
bem mantido no seu vigor bestial, selvaticamente alheio  grandeza moral
da humanidade. Seria livre e forte, mas para ser livre, era
necessario que fosse religioso e honesto; e para que fosse religioso e
honesto era necessario que conhecesse as doutrinas do Evangelho, que no
so mais do que a confirmao divina da moral universal. Em vez de
inculcar crendices ao povo, cumpria inculcar-lhe os principios do
christianismo, e as consequencias d'aquelles principios: cumpria
illustral-o em vez de o conservar na ignorancia: fazer-lhe sentir que a
fora de praticar grandes e nobres sacrificios, to recommendados por
Jesus,  o caracter que distingue o espirito immortal do homem do
instincto que anima as alimarias. Era preciso convencel-o de que o
patriotismo, de que esse puro e santo affecto que nos faz abandonar os
commodos domesticos, as affeies do corao, e arrostar com a fome, com
a sede, com a nudez, com a intemperie das estaes, para irmos morrer
n'um campo de batalha, salvando a terra em que dormem nossos maiores,
defendendo a cruz do nosso adro, a vida de nossos paes, a honra de
nossas irms e mulheres,  a manifestao mais solemne da energia do
espirito humano, e da abnegao christ[61].

Quereria o povo glorioso, mas a gloria que lhe appetecia era a do
trabalho e a do amor. E definia-a. Era indispensavel definil-a
porque, precursores de uma reaco do despotismo que em nossos dias teve
suas horas de favor e de triumpho com o nome de imperialismo, j em
tempo de Alexandre Herculano havia homens de novas ideias, que se
diziam cheios de illustrao e philosophia, para os quaes onde quer
que perecessem milhares de homens, combatendo por interesses que no
comprehendiam, ou por torpe cobia; onde quer que o ferro e o fogo
arrasassem as cidades, despovoassem os campos, embora d'essas cidades e
campos nenhum mal tivesse vindo aos seus destruidores, havia uma gloria
sem mancha, immensa, immarcessivel. Herdeiros pequeninos e pacificos dos
gigantes da assolao, dos Tainerlans, dos Attilas e dos Gengiskans,
avaliavam pela estimativa d'aquelles illustres selvagens as faanhas dos
proprios avs. Se a historia pergunta:--Acaso esses combates em que, sem
duvida, se praticaram grandes feitos, foram uteis ao progresso material
e moral do povo em cujo nome se pelejaram, ou trouxeram a sua
decadencia? Est ou no essa gloria militar, alis indisputavel,
assombrada por grandes crimes? Foi a inteno, a qual s determina o
valor moral das aces, nobre, grandiosa, pura, ou teve motivos menos
elevados? Foi um arrojo, um impeto nacional, ou um impulso dado pela
ambio, ou pelo capricho de algum principe?--A historia que faz estas
perguntas ou outras analogas, porque esse  o seu dever, commettia aos
olhos dos taes um crime de leso-patriotismo... O povo, affirmam elles,
ha de moralisar-se pelas tradies da sua grandeza e gloria. O povo!
Pois o povo que tantas vezes trata de perto a fome e a nudez; cuja vida,
desde o bero de farrapos at  enxerga rota em que fenece, vae travada
de receios, de sobresaltos, de desalentos e de agonias, pensa l nas
cutiladas que se deram, nas bombardadas que se despediram, ha tres ou
quatro seculos, por mos d'uns homens, cujos nomes e cujas faanhas se
memoram n'uns livros que elle nunca leu, porque no sabe lr, nem tem
dinheiro para po, quanto mais para livros? Que so essas palavras
retumbantes de regenerao pelas tradies, seno sons ocos, que no
correspondem a nenhuma ideia? Supponhamos, porm, que todas essas
recordaes chegavam ao povo. Podem ellas servir-lhe de exemplo, de
lio para as suas necessidades actuaes? N'um paiz onde a riqueza
passageira destruiu os habitos do trabalho e da economia, entorpeceu
pela miseria, resultado infallivel da prosperidade ficticia, a energia
do corao, que faz luctar o homem com a adversidade e vencel-a, de
que serve estar de continuo a pregar ao povo:--Teus avs levaram o
terror do seu nome aos confins do mundo, saqueiaram e queimaram emporios
opulentos em plagas remotas, metteram a pique poderosas armadas,
derribaram os templos alheios, violaram as mulheres estranhas, passaram
 espada os que eram menos valorosos que elles, abriram caminho ao
engrandecimento dos outros povos da Europa, e affeitos a gosos faceis,
deposeram aos ps do absolutismo as suas velhas franquias, beijaram os
grilhes que lhes deitavam aos pulsos porque eram dourados, e
tornaram-se ludibrio do mundo.--Estas lies  que ho de ensinar a
actividade no trabalho, a severidade nos costumes, o amor da liberdade
moderada, mas verdadeira, o direito de cultivar as artes de paz, no meio
de um paiz decadente, cuja unica esperana de salvao est em se
desenvolverem n'elle essas e outras tendencias analogas? No! O povo,
que tem mais logica do que os prgadores de vos apophtegmas, ha de
concluir outra cousa d'ahi; ha de concluir que  assaz fidalgo para no
contrahir habitos villos e ruins. De historias d'aggresses e de
conquistas brilhantes no se deduz a necessidade de morrer obscuramente
em defeza da terra da patria; no se deduz a moderao revestida de
firmeza, que faz respeitar pelas grandes as naes pequenas; no se
deduzem nem o amor do trabalho nem o amor da virtude[62].

Morigerao, trabalho, sciencia, eram as armas em que a philosophia
politica d'aquelle seculo ensinaria as naes civilisadas a combaterem
n'uma lucta generosa. Os espiritos mais altos, fosse qual fosse a sua
crena religiosa e politica, proclamavam a paz e a fraternidade entre os
homens. E no s as proclamavam mas at empregavam a poderosa alavanca
da associao para promoverem uma cruzada santa contra as tendencias
guerreiras. Os esforos collectivos d'esses homens summos seriam
baldados? No o cria. Tinham um alliado irresistivel. Quando os
exercitos permanentes e as grandes marinhas militares tivessem devorado
todo o peculio de cada povo, e exhaurido a melhor e a mais pura seiva da
sua vida economica, era ento que a philosophia politica havia de
alcanar um triumpho decisivo. Mas esse triumpho que outra cousa seria
seno o ultimo termo de uma sorites immensa, composta dos factos de
dezenove seculos, de uma demonstrao pratica e invencivel, de que a lei
moralmente necessaria das sociedades modernas  o christianismo,  o
verbo do amor e da paz revelado no Evangelho?

N'esses dias, que porventura tardavam menos do que muitos pensavam, que
destino dariam os sacerdotes da bombarda, da lana e da espada aos seus
deuses fulminados? As palavras faanhas, gloria guerreira, conquistas
como seriam definidas nos diccionarios das linguas vivas, dentro de um
ou dois seculos?[63].

Era para esses seculos futuros que Alexandre Herculano queria educar o
povo na sua crena, e outra mais nobre e pura,  certo, at ao presente
se no encontrou ainda. Justificaram-na os tempos, e as esperanas de
hoje n'ella nos exaltam, glorificando em nossos coraes o apostolo e a
sua f.


IV

Seria ainda fructo da applicao ao estudo da historia, nasceria do
conhecimento profundo das origens e vicissitudes das instituies e do
prolongado manusear dos seus codices, a notavel capacidade de
jurisconsulto que Alexandre Herculano revelou e usou com felicissimo
exito em diversas conjuncturas da sua vida de publicista, e sobretudo na
discusso e redaco do projecto do codigo civil? Foram as qualidades de
historiador que crearam as aptides de legislador?

Evidentemente, o exame da estructura juridica tradicional das sociedades
em geral e, em particular, da constituio da nao portugueza por esse
lado, a comprehenso dos systemas de direitos e obrigaes que
cimentaram a formao e desenvolvimento da unidade nacional,
incital-o-iam a confiar na efficacia das leis e, por impulso logico,
passaria da analyse d'aquellas que nos seculos passados nos regeram 
critica das que encontrou vigorando, e  elaborao de outras que, para
fortuna da patria, as modificassem e as substituissem no futuro. Os
meios de governar, cujas virtudes se lhe mostraram claras durante
seculos, manifestando-se identicos quelles que tinha vindo encontrar
energicos e activos, operando no momento presente e imprimindo-lhe
caracter, convence-lo-iam da permanencia d'uma fora com a qual as
sociedades tinham a contar em toda a conjunctura. Verificando-lhe a
constancia e os effeitos no correr dos seculos e no presente, por isso
se esforava em a corrigir de desvios e erros funestos  prosperidade e
 paz entre os povos, e em convertel-a, quanto possivel, em instrumento
de felicidade e justia entre os homens.

O alto valor das aptides de jurisconsulto de Alexandre Herculano, esse
notabilissimo trao do seu genio na capacidade da applicao pratica dos
principios e da sua reduco a obrigaes e direitos,  abonado pelo
testemunho de contemporaneos auctorisados, ainda mesmo para aquelles
que, por falta de conveniente educao de espirito ou por diversidade de
inclinaes, hesitassem em a apreciar ou de todo a julgassem assumpto
interdicto  sua critica. Vicente Ferrer Netto Paiva, jurisconsulto e
publicista eminente, companheiro e intimo de Alexandre Herculano,--para
citarmos apenas um entre muitos dos mais competentes, disse no _Elogio
historico_ do amigo, lido em sesso do Instituto de Coimbra a 23 de
maio de 1878:

O sr. Alexandre Herculano, que gostava de questionar e discutir, tomava
a palavra em quasi todas as questes que se ventilavam no seio da
commisso (revisora do codigo civil). E, apezar de no ser
jurisconsulto, fallava com tanta proficiencia, que era sempre escutado
com a maior atteno pelos outros membros da commisso, que se tinham
dedicado  sciencia do direito; e conseguiu muitas vezes fazer vencer as
questes pela parte que elle sustentava. Muitas propostas suas
melhoraram o projecto do codigo civil e so hoje leis do paiz. O que
porm admirava aos jurisconsultos da commisso era ver que nunca ia de
encontro a um principio de direito, apezar de as questes serem muitas
vezes complicadas e difficeis. Parecia que tinha estudado a fundo a
sciencia do direito. Se duvidaes do meu testemunho, como de amigo
suspeito, vde o que escreveu sobre a questo do chamado casamento civil
em os diversos opusculos que publicou a este respeito, batendo-se com o
auctor do projecto do codigo civil, um dos maiores jurisconsultos d'este
reino. Vde a subtileza, com que analysou as velhas leis do reino, as
leis canonicas e os textos das leis romanas; os immensos recursos que
descobriu na historia e costumes antigos; e os profundos
conhecimentos que mostrou da philosophia do direito. O debate entre
estes dois grandes homens foi digno d'elles.

Ainda o sr. Alexandre Herculano fez outro servio importante na
commisso revisora do codigo civil. Esta commisso, por ser de quatorze
membros, julgou-se muito numerosa para poder fazer a redaco final do
projecto, e nomeou uma commisso pequena, composta do sr. Alexandre
Herculano e de quem escreve estas linhas. Ambos concordmos em que o sr.
Alexandre Herculano fizesse a redaco, que eu leria depois, para vr se
n'ella ia alguma palavra de uso vulgar, que devesse ser substituida por
outra propria da sciencia do direito. E no me lembro de substituir
seno uma ou duas palavras. Todo este servio deve-o a nao ao sr.
Alexandre Herculano.

Todavia, este homem que tanto confiava nas determinaes juridicas da
sociedade e tanto se inflamava na sua discusso, que tinha f na lei
como portadora da ordem e de grandes beneficios, e a temia e lhe queria
como fautora de destinos varios e distribuidora de bens magnificos, esse
homem dizia-se individualista ferrenho e proclamava-se inimigo do
confuso e impetuoso socialismo do seu tempo, de esse que poderiamos
chamar do periodo religioso e apostolico, mal esboando ainda a sua
phase organica. Antevendo na victoria de semelhantes principios a
restituio das armas e a consagrao dos direitos que conduziam ao
resurgimento de tyrannias nefandas, no podia conformar-se com a
reconstruco do edificio tenebroso, derrubado ha pouco  custa de
campanhas heroicas e prolongadas, das quaes fra soldado. Que a
tyrannia de dez milhes se exercesse sobre um individuo, que a de um
individuo se exercesse sobre dez milhes d'elles, era sempre a tyrannia,
era sempre uma cousa abominavel. Passado um seculo, era muito possivel
que o liberalismo tivesse desapparecido. As geraes precisam s vezes
retemperar-se nas luctas da anarchia ou nas dores da servido:
concentram-se para a exploso calcadas sob o p ferreo da fora brutal.
Deixassem-no levar, para se entreter a ruminal-a pelo caminho, a
convico de que, entalada entre duas betas negras,--a tyrannia em nome
do cu e a tyrannia em nome do algarismo,--surgiria como um fco de luz,
nas paginas da historia, a epoca em que se proclamavam os direitos
individuaes absolutos e imprescriptiveis, embora as paixes humanas nem
sempre os respeitassem. As ideias democraticas tendiam pela sua indole
a apoucar o individuo e a engrandecer a sociedade, se  que elle as
comprehendia. Era por isso que, nas trevas do seu pensar, a democracia
estendia constantemente os braos para o phantasma irrealisavel da
igualdade social entre os homens, blasphemando da natureza, que,
impassivel, os ia eternamente gerando physica e intellectualmente
desiguaes. Era por isso que ella acreditava ter feito uma religio seria
d'esse phantasma, quando o que realmente fez foi inventar a idolatria do
algarismo... A sua intelligencia amotinava-se contra a converso do
homem em molecula. Repugnava-lhe vel-o apoucado, quasi annulado, deante
da sociedade, e esta, pessoa moral, individuo collectivo, artificial,
subrogando-se ao individuo[64].

O individualista intransigente, tomando porm responsabilidades de
governo, abrandou do rigor do philosopho e cedeu  evidencia e
instancias das necessidades publicas e das indicaes da justia. Eleito
presidente da camara municipal de Belem, estadista por um rapido momento
em uma espera acanhadissima mas na sua extrema exiguidade sufficiente
para demonstrao das tendencias de quem n'ella exercia magistratura,
Alexandre Herculano depressa se conciliou com um radicalissimo
inicio de tyrannia em nome da sociedade, fazendo que a camara da sua
presidencia sollicitasse do parlamento auctorisao para crear uma
Caixa de Soccorros Agricolas, cujas bases expunha.

Pretendia a camara crear um fundo permanente destinado a subministrar
capitaes baratos aos cultivadores, para os amanhos ruraes. Para isso
reservaria annualmente tres quartos do producto do imposto da farinha
fabricada, at completar a somma de 35:000$000 ris, podendo todavia
substituir aquelle imposto por qualquer outro, uma vez que o seu
producto fosse pelo menos equivalente aos mesmos tres quartos
designados. A caixa emprestaria aos cultivadores do concelho, por prazo
nunca excedente a um anno, e a juro de 1/4 por cento ao mez, o capital
necessario para o movimento da cultura annual dos predios respectivos, e
desde logo ficavam determinadas minuciosas condies regulamentares dos
emprestimos, incluindo a hypotheca especial dos fructos do anno corrente
ao contracto, e, se esses no chegassem, dos dois annos immediatos, at
integral reembolso; a preferencia de direito e aco da caixa sobre
qualquer outra aco e direito particular em relao aos fructos do anno
corrente; e muitas mais exigencias das quaes resultava uma
fiscalisao assidua da caixa sobre a economia individual do lavrador.

Se esse projecto houvesse sido convertido em lei, deixaria ampla a
admisso do mais rematado socialismo. No haveria motivo para recusar a
todas as demais foras da economia nacional o beneficio que para uma
d'ellas se tinha mostrado legitimo; no haveria razo para que o estado,
arvorando-se capitalista por meio do imposto, descontasse aos lavradores
e no procedesse de modo igual com o commercio, com a industria, e com
todos os outros elementos da riqueza do paiz. O communismo era perfeito;
a socialisao da riqueza completa. O estado reclamava da economia
individual os capitaes necessarios  communidade, pelos meios
obrigatorios e coercitivos de que dispunha, e iria depois entregal-os 
classe que carecia de auxilio; aprehendia por imposto e repartia por
justia. Mas, porque seria banqueiro a municipalidade e no o seria
igualmente a administrao geral de toda a fazenda publica?

O jurisconsulto, quem reconheceu o valor das instituies juridicas como
Alexandre Herculano, no podia declinar as consequencias de tal condio
de espirito e havia de as levar at onde ellas se impem por virtude
da logica e presso do bem publico. Mas no houvesse legado exemplo
pratico do seu systema e processos de estadista, ainda em campo
puramente doutrinario nos facultaria elementos para julgar que o seu
individualismo andava sujeito a quebras e restrices, apezar da
robustez formidavel. No nos mostrou Alexandre Herculano como no seculo
XII a lei, fortalecendo os costumes, conciliava as religies mais
discordantes e as punha lado a lado vivendo em harmonia? E, se a lei
conciliava os deuses e continha as paixes religiosas, como nos disse,
se convertia a tolerancia em regra de governo, porque no conciliaria os
homens e as necessidades terrenas elementares? No nos fallou elle da
propriedade, filha sacrosanta do trabalho e, se essa lhe mereceu to
sagrado respeito e absoluta defeza, que designao e sentimentos lhe
provocaria ess'outra propriedade que, em vez de ser filha do trabalho,
se funda na espoliao do trabalho,--a elle que do corao abominava
todas as tyrannias?

A vulnerabilidade do individualismo de Alexandre Herculano,
descobrindo-se em mais de um ponto e por diversos lados, como acabamos
de notar, no viria porm da deficiencia do principio de liberdade, que
proclamava com uma f indomita, mas unicamente do atrazo das
concepes politicas da sua epoca e da impossibilidade de se definirem
de um modo positivo e pratico, n'essa altura incapazes de traar uma
construco da sociedade, nos seus aspectos economicos, solida e bem
ponderada sem prejuizo da inteira garantia das liberdades essenciaes.
Para um devoto da tradio, que viu todo o organismo social enraizado no
passado e o estudou nas suas mais delicadas e profundas ramificaes e
origens, para quem soube prender por laos estreitos a existencia das
geraes presentes s instituies, aos sentimentos,  sabedoria
acummulada das geraes extinctas, aos seus erros e desvarios e s suas
virtudes, a sociedade no podia pulverisar-se em um aggregado de
liberdades desconnexas, no concurso fortuito dos seus atomos, em simples
associao mecanica ou mera juxtaposio. No; uma constituio juridica
a ligaria, traduzindo as relaes moraes e a dependencia religiosa e
suas derivaes--tudo o que elle sentia instantemente. Se, por amor da
intangibilidade dos principios, contestou a legitimidade da nova ordem
que lhes offendia a coherencia, no foi porque ella afinal deixasse de
se conter nas suas crenas, mas to smente porque ainda no tinha
conseguido definir-se na lucidez perfeita que o correr dos tempos, a
meditaco dos apostolos e o clamor de experiencias dolorosas vieram
a attingir em epocas posteriores. No era possivel vr-se ainda, como
claramente hoje se demonstra, que a diviso e concorrencia anarchica das
classes, importando victorias relativas e tyrannias consequentes,
significam em resultado ultimo a annulao de toda a garantia de
liberdade; no era ainda possivel vr-se no s como a condio
economica se tornava a base da liberdade politica, moral e religiosa,
mas tambem em que termos e com que segurana a independencia economica
se alcanaria sem privao da liberdade, antes fortalecendo-a. No
haviamos chegado a comprehender de uma maneira precisa--grandes
correntes do pensamento nos offuscavam! at que ponto importava moderar
as asperezas da lucta pela vida, onde no podessemos supprimil-as
totalmente, para que a liberdade, nas suas formas politicas e sociaes
concretas se penetre de todo o amor, para que ella, principio religioso
e de dever na esphera do sentimento e da moral, se consubstanciasse em
simples regras de justia e de cooperao na esphera juridica.

A conciliao de duas phases de um estado de espirito, identico na
essencia embora diverso nas modalidades, de prolongada gestao na
qual se consumiram o scismar e o trabalho de inumeraveis e altissimas
capacidades e as paixes de exercitos de combatentes e martyres, essa
duplicao de vida mental que permittiu respirar com igual facilidade o
alento de duas epocas, atmospheras de uma mesma substancia mas
differentes todavia na proporo e logar dos elementos constituivos,
foram phenomenos absolutamente excepcionaes, to fra das normas
vulgares que mal os comprehenderam os que os presenceiaram. A
ductilidade de pensamento que a to variada extenso pde amoldar-se, de
tal modo se destacava do commum, provavel e logico, que a muitos se
tornou impossivel deslindar a surpreza e lanaram-na  conta das
apostasias de crena, debilidades de animo e collapsos de entendimento.
A propria tenacidade dos principios, levada a ponto de exaltao
religiosa, tornava-se impedimento de progresso, reagindo contra tudo o
que se lhe afigurava morder a integridade rigida na qual elles se haviam
fundido.

De resto, mais poeta e historiador do que pensador, mais moralista do
que philosopho, mais prompto em contemplar as cousas creadas e as
renascer do que propenso a martelar systemas novos e apural-os,
Alexandre Herculano no se sentiria talvez muito inclinado 
correco e reviso amiudada, seno continuada, dos principios cuja
influencia de inspirao e fortaleza usufruira por largos annos.

O caso de Stuart Mill  uma excepo surprehendente na historia das
doutrinas politicas no seculo XIX; no seria facil repetir-se, mesmo
entre os da sua fora e edade[65]. Da liberdade comprehendida no sentido
de uma larga emancipao no s da lei mas da influencia da opinio e do
costume, por uma rarissima agilidade de pensamento, verdadeira
prolongao de juventude que lhe facultou deduces imprevistas dos seus
principios, Stuart Mill veio at  acceitao d'aquellas concepes que
no seu tempo o individualismo encorporava na vaga designao de
socialismo, temendo-as e proscrevendo-as, como resurreio de
despotismo, reaco calamitosa e sem nome. Por um lado, escreveu[66],
a repudiavamos com a maior energia esta tyrannia da sociedade sobre o
individuo que se suppe contida na maior parte dos systemas socialistas;
por outro olhavamos para um tempo em que a sociedade no mais se
encontrar dividida em duas classes, uma de ociosos, outra de
trabalhadores; na qual a regra de que os que no trabalham tambem no
devem comer ser applicada, no s aos pobres, mas a todos
imparcialmente; em que a diviso do producto do trabalho, em vez de
depender, como em alto grau agora acontece, dos accidentes de
nascimento, ser feita d'accordo, sobre um principio de justia: em que
emfim no mais ser impossivel, ou se julgar impossivel, que os seres
humanos se esforcem energicamente procurando bens, destinados no para
elles exclusivamente mas para serem partilhados com a sociedade  qual
pertencem. Consideravamos que o problema social do futuro consistiria em
unir a maior liberdade individual de aco com a communidade de
propriedade das materias brutas do globo e com uma igual participao de
todos nos beneficios do trabalho combinado. Sem a presumpo de julgar
que se podia prever immediatamente a forma exacta das instituies
conduzindo com segurana quelle fim, nem em que epoca, remota ou
proxima, seria possivel applical-as, criam todavia que a educao, o
habito e a cultura dos sentimentos fariam que um homem cavasse ou
tecesse pelo seu paiz to bem como por elle combatia.

Assim pensava j e o escrevia, vagamente, Stuart Mill em 1848, e quatro
annos depois, em 1852, aberta e firmemente o advogava; e isto se pde
considerar ainda hoje a mais bella e a mais cathegorica aspirao
socialista, a mais accessivel a todo o entendimento e a mais pratica na
execuo.  maravilha que to longe alcanasse quem partira de ponto to
distante e diverso. Viver duas vidas, duas epocas, em uma s existencia,
fazendo succeder em um unico cerebro, alis igualmente poderoso em ambas
as modalidades, o espirito duma gerao ao espirito da gerao
precedente, , na verdade, um acontecimento de incomparavel estranheza.

Por certo o conheceu Alexandre Herculano no seu vastissimo saber. Mas
no se convenceu. Convm verificar o facto para inteira comprehenso do
seu caracter e disposio de espirito. No lhe amesquinhou, todavia, a
grandeza; reconheamol-o. Em taes alicerces se fundava que podia bem
affrontar rebeldias caracteristicas da propria fortaleza, compensadas
por uma solidez de estructura, sem embargo alguma vez impenetravel 
irradiao de novos astros mas sempre proteco e defeza de magnificos
thesouros, ideaes elevadissimos, que sero a eterna medida do valor
dum ser humano.

Quando hoje lemos a discusso do socialismo e do individualismo entre
Oliveira Martins e Alexandre Herculano, posta n'aquella altura de
sinceridade affectuosa e vitalidade mental de que esses dois
extraordinarios espiritos foram dotados, sorrimos sem desrespeito, antes
com uma carinhosa gratido pelo sagrado esforo de quem assim procurava
trazer ao mundo felicidade, e por alcanal-a se consumia e atormentava
em cogitaes e em duvidas. O que ento era obscuro e incerto para
homens realmente grandes,  hoje evidente e incontestavel para o vulgo.
O decurso de trinta a quarenta annos, no turbilho, cada vez mais
rapido, em que hoje as ideias passam, modificando-se, transformando-se,
 um periodo que corresponde a seculos nos tempos em que o progresso
humano era sem comparao mais lento. As doutrinas, as apreciaes
criticas, os systemas, os livros quasi que envelhecem to depressa como
o homem. O pensamento que ha vinte annos parecia uma verdade nova pde
hoje parecer apenas um problema no resolvido, e at um erro condemnado;
a observao profunda de ento ser hoje trivialidade; a critica subtil,
que levou um raio de luz a certos recessos obscuros dos factos,
achar-se incorporada e transfigurada em apreciao mais complexa que
illumine dilatados horisontes[67]. Smente no envelhecem,
antes vivem e se prolongam em perenne frescor e mocidade, o consolo e
orgulho de verificarmos quanto o pensamento humano tem caminhado, quanto
valeu para a fortuna dos homens e das sociedades a exaltada coragem dos
seus obreiros, que benos devemos e tributamos aos apostolos, como
Alexandre Herculano e Oliveira Martins. Como  fertilisante e bella a
irradiao dos seus sonhos! Os tempos e as ideias mudam incessantemente;
mas no muda nem pde mudar o espirito que pesa e julga e ordena as
realidades. Para sempre sejam louvados aquelles de muita bondade que
nol-o inspiram elevado, puro e grande!




ESCUDOS DE FORTALEZA


ESCUDOS DE FORTALEZA

Abrigava-se sob escudos impenetraveis a fortaleza de Alexandre
Herculano. No se segue no mundo caminho recto, como elle seguiu, sem o
auxilio continuado de armas proprias para remover os obstaculos
infinitos que se nos deparam, sem o bordo em que o peregrino se apoia
para vencer asperrimos fraguedos. No se mantem a firmeza de animo, que
foi talvez a maior gloria da sua aurola, sem a proteco de um nimbo de
sentimentos inaccessiveis a toda a corrupo e assalto de fraquezas. Em
torno da sua figura humana de athleta, adejam legies angelicas,
baixando invariavelmente em seu soccorro, se as contingencias da sorte
transitoria, a que o seu ser mortal andava exposto, ameaavam
prostral-o, feril-o ou desvial-o da derrota luminosa do seu sonho.


I

Guardava-o Deus de cair em tentao. Resoava-lhe do continuo nos ouvidos
a harpa do crente e, perpetuamente, sem hesitar, rendeu-se s modulaes
das suas cordas. Cria que Deus era Deus e os homens livres. A terra
vacillava ante o olhar do Senhor. Louvaria o Eterno! Quando se ergueu
a voz d'aquelle moo velador de angustias, pallidas as faces, nas
veias a febre, alagada a fronte de um suor frio, os olhos humidos de
pranto e dentro do peito a dr que o ia roendo; quando a poesia lhe
murmurou na alma a ultima nota de quebrada lyra, o triste adeus do
trovador que expira, que hymnos cantou, que vises perpassaram

    No delirio febril d'aquella mente
    Que, balouada  borda do sepulcro,
    Volve apoz si a vista longamente?

Turvou-o a _Desesperana_; segredou-lhe maldies do Deus que por
insania adorra. Aos ps do seu throno no chegavam os gemidos da
terra. A Providencia era uma crena v, e mentia quando apontava ao
poeta, em ancia de gloria, a immensidade. Mas o _Anjo da Guarda_ impz
silencio  rebeldia blasphema. Se o misero agonisante podesse
comprehender a amargura com que o anjo lhe chorava a perdio no amor
terreno, e a doura que ha no affecto do homem aos mensageiros de Deus,
despiria, rindo, o corpo enfermo, para se lhes unir, para aspirar o
goso celestial do amor sem termo. E logo, sem tardar, respondendo  voz
do anjo, a _Graa_ ungiu o moribundo. Era uma harmonia suave, perante
a qual a sombra da morte se aclarou e o corao, alliviado do peso da
dr, pediu o hymno da orao em vez do canto irado. O poeta sentiu
ento de novo o que o revocava a Deus. Inspirava-o a esperana. E
adormece na Resignao, contricto, rogando ao anjo bom que no o
abandone na hora fatal, e lhe repita aquelles segredos de doura onde
aprendera

    Que  o cu a patria nossa;
    Que  o mundo exilio breve;
    Que o morrer  cousa leve;
    Que  principio, no  fim[68].

A successo dos estados da sua alma, os termos pelos quaes attingiu a
constituio ultima, a religio, abrigo extremo, consolao de toda a
miseria terrena, da deshonra, do exilio ou da injustia, essa formao
progressiva do seu ser espiritual, deixou-a Alexandre Herculano marcada,
estampada, na pintura da morte do trovador, de resto apenas um incidente
e exemplo, porque toda a sua obra poetica  uma profisso de f quasi
ininterrompida. Em toda ella prevalece o cantico religioso sobre o
anceio mortal; resume-se em louvor, adorao e abdicao do homem em
face do principio divino, embora considere esse principio nas
modalidades transitorias, como convm ao poeta, embora o encontre e veja
com os olhos do corpo e da lembrana, extasiando-se em delicia, nas
capellas, nas ermidas, nos mosteiros, nos templos, pelos campos
desertos, pelos adros, pelos cruzeiros e pelos cemiterios das aldeias,
nas tradies e nos momentos ingenuos disseminados pela terra patria.

O confronto do caracter de Alexandre Herculano com o de Jos Estevo
poder talvez definir melhor do que qualquer outra explanao os
attributos proprios de cada um.

Foram ambos figuras primaciaes da grandeza moral do seu tempo. Sel-o-iam
em qualquer epoca, culminantes. Resumem as duas formas mais nobres
da dignidade humana. E, todavia, quanto so differentes! Alexandre
Herculano procede por principio religioso; Jos Estevo por
humanitarismo. Um tira a sua fora da obediencia a uma Vontade suprema,
que n'elle vive e se realisa mas que no  d'elle; o outro  arrastado
por sympathia e inspirao fraterna, basta-lhe para razo de heroismo o
sentimento da solidariedade, auxilio mutuo e reino da justia entre os
homens. D'ahi, d'essa reduco essencial da sua natureza psychologica,
conjunctamente synthese e centro de derivao da vida de cada um
d'elles, as consequencias praticas diversas da expanso das respectivas
individualidades. Amaria Jos Estevo a vida civica e a vida urbana, at
mesmo caprichos e complexidades mundanas, o calor de carinhosas
amizades, tudo aquillo em que os homens se juntam mais estreitamente e 
filho do seu aturado commercio; inclinar-se-ia Alexandre Herculano 
solido, ao labor silencioso dos campos, ao isolamento meditativo, a
tudo aquillo em que mais por completo podia conceber a invariabilidade
do divino e a relatividade das relaes do contingente e do infinito.
Este nunca trocaria pela glorificao de faculdades humanas o culto
do Eterno, como era corrente nas revolues do seu tempo que
trouxeram na rua, postas em andores, mulheres figurando a Razo. s
tendencias de Alexandre Herculano para o claustro, para a contemplao,
e para o estudo e apologia dos primeiros seculos do christianismo e do
seu vigor e dilatao na edade-media, corresponderia em Jos Estevo a
paixo politica e a actividade impetuosa, e o sentimento da justia
fundada, no em determinao divina, mas na imposio dos principios
abstractos concebidos e affirmados pela intelligencia humana e em seu
nome enthronisados. Dum ao outro ia toda a distancia que medeia entre
uma philosophia, embora de affecto sublimado, e uma religio de amor
que, ainda por amor, algumas vezes ser rigida em excesso, nada propensa
 indulgencia. E da diversa natureza do impulso fundamental veio a
diversidade de attitude no decorrer da existencia terrena d'aquelles
dois genios, conduzindo Alexandre Herculano ao recolhimento e 
fascinao do ermo, porque para elle de prompto se purificava n'esse
estado e se mantinha illesa a crena religiosa, a consciencia da
presena de Deus no universo e os estimulos de obediencia  sua vontade,
emquanto Jos Estevo, atravez de todos os desenganos e recobrando animo
de todos os desalentos, voltava constantemente  interferencia nos
combates das multides, porque assim sentia de perto effectuar-se a
aspirao humanitaria, em absoluto dissolvida, reduzida a nada, fra
d'esse ambiente. Para o crente, impregnado de adorao e abdicao, o
amor, mensageiro do Senhor e seu interprete, poder encarnar em toda a
materia e em todo o orbe; no percebe quebra do principio divino ou
infidilidade aos seus mandados consagrando-se s arvores e fugindo dos
logares em que o convivio dos homens  activo. Porm para o humanitario,
o amor, symbolisado em justia e aco, s nos homens teria o seu
principio e no podia, por uma logica instinctiva e imperiosa,
desviar-se d'elles sem em absoluto se perder pela ausencia de objecto
que o consubstanciasse. Jos Estevo vivia cercado de amigos em todas as
contingencias da vida publica e da vida intima, nas alegrias e mgoas do
seu lar e nas luctas politicas; Alexandre Herculano, que tambem teve
amigos, e exaltados na admirao e no affecto, alis retribuindo com
infinitos carinhos do seu corao, era facil em se refugiar no
isolamento e consolar-se de toda a amargura na beatitude do silencio da
vida ingenua, onde por certo acharia realisada e integra a aspirao de
serena e plena conformidade com a vontade do destino. No valeria
tanto para o poeta religioso a meiguice das petalas das rosas como o
sorrir de labios humanos, e no mentiria menos  misso divina?

Assim tambem, ainda por consequencia de um mesmo pendor, a religio que
para Alexandre Herculano era uma fora intima, immanente, inflexivel, e
por isso essencialmente sujeita a suscitar conflictos insoluveis com a
ordem mundana, para Jos Estevo podia sem difficuldade acceitar-se em
termos de compromisso entre necessidades presentes, tradies e
principios eternos, resolvidos os antagonismos, quando se declarassem, a
beneficio da paz publica e dos interesses da sua causa. O caso de
consciencia, intransigente na primeira d'essas duas concepes
religiosas, admittia na segunda concesses mutuas e limites
convencionaes, formulas de conciliao politica, subordinada por
momentos  salvao da republica, e por contradices estranhas, mas
afinal beneficas, corroborando-se e negando-se ao mesmo tempo. O clero,
a egreja constituida, no quiz mais a Jos Estevo do que a Alexandre
Herculano, mas por differente motivo. Um desfazia-lhe a virtude dos
milagres, atacava-o na capacidade intrinseca e arguia-o de traio a
Christo: o outro deixava-lhe a liberdade dos milagres e no o
incommodava nas relaes divinas, e apenas se esforava por lhe
restringir o despotismo e as cobias terrenas, cerceando-lhe regalias e
reduzindo-lhe a auctoridade de adquirir, mandar e dispr, e accusando-o
de infidelidade aos interesses do povo e da nao[69].

O confronto do modo de ser religioso d'esses dois grandes caracteres no
significar, todavia, que a religio de Alexandre Herculano fosse
inactiva, e muito menos deshumana. Revelar apenas que a sua alma,
religiosa por essencia, dependente conscientemente de uma outra alma
infinita e eterna, da qual se reconhecia mero instrumento e frouxo
reflexo, encontrra, por virtude d'essa constituio e priso, as
obrigaes supremas de vida entre as quaes a primeira seria o amor,
imposto pela abdicao no principio divino. O humanitarismo no seria
n'esse systema de deveres uma religio, como de facto foi no sentir de
Jos Estevo; consubstanciaria smente a summula dos deveres religiosos,
e manifestamente aquelles a que Alexandre Herculano mais quiz e com
extremo ardor se consagrou. O mundo estava subordinado a Deus; e no
seria absorvido pela humanidade, renegando a subordinao, posto que na
humanidade tivesse a obra de Deus mais bafejada do seu alento.

De resto, a emoo religiosa em Alexandre Herculano, sendo christ e
demais educada na tradio do christianismo latino, to rematadamente
caridoso e, por concreto, distante da abstraco cruel em que redundou
no espirito oriental, no poderia tender ao extasi, esteril e mortifero
alm do resgate individual, mas logo se transfundiria na objectivao
pratica, na traduco do seu principio dominante em forma e movimento,
em aco. No resultaria em ascetismo, mas na moralisao de todas as
energias organicas, alis livres em sua esphera, reconhecendo-se-lhes a
legitimidade da expanso. Assim como lhe impunha entre os impulsos
iniciaes o amor da terra e da patria, levava-o consequentemente ao amor
dos homens que a povoam e  interveno em toda a complexidade das suas
relaes, to extensas na multiplicidade de manifestaes e aspectos
como coordenadas e indivisiveis na unidade do espirito que as liga e rege.

Esse amor illuminara-se duma vez para sempre aos olhos de Alexandre
Herculano no claro do Evangelho triumphante. Toda a consolao e todo
o saber encontrou no Verbo que renovou o mundo corrompido. Os
arrebatamentos do poeta, as affirmaes do publicista e os combates do
soldado e do apostolo, toda a sua vida e toda a sua obra esto
repassadas de christianismo. Vibra em cada palavra e em cada gesto, nas
victorias e no desalento, na ira e nas benos, na lucta e no repouso.
At a propria historia e a obra d'arte imaginativa, no menos que a
contemplao da natureza, seriam para elle desenvolvimento de verdade
religiosa do christianismo e ensejo da sua propagao. A viso da cruz e
a atmosphera moral que d'esse symbolo irradiava, acompanhavam todos os
passos do sonhador; os seus poemas so uma floresta espessa de cruzeiros
e templos onde de continuo perpassam murmurios de oraes e canticos de
louvor. Toda a enredada architectura do _Monge de Cistr_ parece
erguida, quando no conjuncto a observamos, para inscrever alli, em
traos d'uma fulgurao diamantina, a sentena do Evangelho que lhe
serve de fecho:--_Se no perdoardes, tambem Deus te no perdoar._

Humanisou o christianismo; quebrou-lhe a rigidez e a seccura,
amortecendo os rigores da consciencia, que elle facilmente accusa, pela
unco da suavidade, que a cada passo vae derramando entre os homens.
Mais do que isso: soube como ninguem, pelo poder do genio, trazel-o 
terra, infundil-o em todas as cousas creadas, vividas e sentidas,
infundil-o em a natureza inteira por uma insinuao cheia de
mysterio, que todavia nos arrebata em encantos de doura e luminosidade
intraduziveis. Esse dia santo, que elle celebrou com palavras que ficam
como pergaminhos da nobreza de uma gerao e seu orgulho, maravilha da
unio subtil mas vigorosa do amor divino e do amor terreno, do amor das
cousas da terra santificado pela presena de espiritos angelicos, ser
perpetuamente o espelho da candura religiosa. Um dia santo; um dia
santo!... disse o poeta comovido, deixando transbordar os seus
affectos. Assim juntas, estas duas palavras so as mais sonoras, as
mais pinturescas, as mais saudosas da nossa lingua; para mim, ao menos.
De todas essas memorias passadas, cujas ruinas o descrer da edade de
homem me tem alastrado pelo corao, uma sei eu que vive ainda n'elle
fresca e viosa, e que me parece morrer s quando eu morrer.  a
lembrana dos dias santos dos meus tenros annos. Um domingo de ento
ainda me sorri suavemente quando deito olhos longos para o caminho
tortuoso e agro, por onde j derramei, sem saber como, um tero de
seculo da vida. Na orla d'esse horisonte crepuscular do passado
avulta-me a capellinha da habitao da infancia ao dia santo, e o altar
com os seus castiaes de talha dourada e as jarras de flores, que l se
punham no sabbado  noite, e o alevantar cedo para todos e tudo
estar lavado, espanejado, escovado e ordenado para a missa. Sabe Deus
com quanta f e devoo a minha alma tenra se balouava na toada
monotona que murmurava o velho frade arrabido, calvo e macilento, cujo
burel desapparecra debaixo das vestes variegadas do sacerdocio! Atravez
da alta gelosia o sol vinha, semelhante a uma columna de vidro amassado
com p de ouro tombada do seu pedestal, bater de soslaio nos degraus do
altar. As luzes trmulas das velas, cuja claridade se annulava no
esplendor do dia, pareciam-me espiritos que se inclinavam esperando a
presena real de Deus para o adorarem. Depois o frade que viera de
longe, do convento de Ribamar ou da Boa-viagem, almoava e jantava. E
todos estavam contentes; porque era um santo mas jovial frade o bom do
arrabido, e contava historias que era um pasmar. N'aquelles dias
abenoados juraria eu que a folhagem das arvores era de um verdor mais
vivo, os fructos mais saborosos, o ar mais diaphano, a agua mais
transparente, o ceu mais azul, e at as alfaias da casa mais novas, e o
caio dos muros mais alvo.  tarde corria pela relva com os outros moos
da minha edade, e travava luctas e gritava e ria e suava e
tripudiava nos jogos e brinquedos que so proprios d'aquella edade;
mas quando o sol descia para o horisonte ia assentar-me  sombra de uma
grande nogueira, ssinho, a ouvir cair n'um tanque uma pequena bica
d'agua, e alli ficava muito tempo a scismar. Em que? Eu sei l! Em nada,
provavelmente. Mas scismava e sentia levantar-se-me no corao um
fumosinho de tranquilla melancolia, fumosinho, que se condensava
brevemente nos olhos em lagrimas, que no chegavam a rolar, mas que
n'elles bailavam. E alli me achava  noite, e buscavam-me, e
desfaziam-me o encanto; mas ficava-me c a saudade... Domingos dos doze
annos, em que o meu espirito se harmonizava com o hymno eterno da
natureza, salv! A gloria litteraria, o amor da independencia, e talvez
at o orgulho de proceder honesto, todos os meus sonhos de ambio
dal-os-ia a troco de me sentir viver comvosco; comvosco, oh dias santos;
porque os outros, esses, se no eram palidos como os de hoje, eram
acres, dolorosos, inquietos. As paixes fervidas e insensatas da
mocidade vinham chegando; e como que j sentia rugir a pouca distancia
as tempestades que iam agitar e devorar-me os annos mais bellos da
vida... No tenho saudades dess'outros dias. No tenho. Deixal-os ir. 
pelos meus ricos dias santos de ento que eu hei de sempre chorar.

Ainda hoje ha um individuo, que exerce singular predominio sobre mim, e
ignora-o.  o sineiro da minha meio-rural, meio-urbana parochia. Na
escala das reputaes de sinos, os da minha freguezia occupam logar
modesto, e todavia, quando repicam antes da missa do dia, sinto passar
em volta de mim uma como aura fugitiva dos dias santos da meninice, e o
sol illumina-se da luz d'aquelle tempo. O repique, por estes sitios, 
ainda patriotico e tenaz: ainda no o perverteu a peste da civilisao.
Nem as cantigas populares, nem as harmonias do theatro se atreveram a
pr p sacrilego nos degraus do campanario. Abenoado sineiro, que me
parece has de morrer abraado com as tradies do teu antecessor. Oxal
que, se eu te sobrevier, tenhas um herdeiro digno de ti! Mal sabes tu,
quando no teu ardor d'artista te penduras por essas cordas, e as fazes
vibrar, saltando de um a outro lado, banhando-te numa catadupa de sons
estrugidores, que se despenham sobre ti, jorram pelas sineiras, e vo
ennovelados esmorecer por esses ares; mal sabes tu, que, a certa
distancia, no alto da montanha, alguem larga o livro, a pena, as ideias,
e fica abstracto e immovel a aspirar as harmonias que lhe mandas
frouxas, sacrosantas, ricas de saudades da infancia! Mal sabes tu
quantas cogitaes profundas, quantas dres do espirito tens suspendido
com essas divinas toadas. Oh, que se me podesses restituir a capella, e
o velho arrabido, e a sua missa, e as suas historias, e o murmurio que
tinham outrora as pequenas bicas a correr nos pequenos tanques, e a
sombra que davam as nogueiras, e a melancolia do sol posto de ha vinte
annos; se tal podesses!... Eu sei!? Caindo adorar-te-ia, fosses Deus ou
Satanaz.

Ai, no pdes; no pdes! Isto tudo sumiu-se. Hoje sou cidado, jurado,
eleitor, homem de lettras; podia ser commendador, conselheiro,
governador civil, deputado, ministro, se navegassem para esse rumo as
minhas ambies, e Deus me houvesse concedido o ser um nada mais parvo.

Vida positiva, realidade do mundo, se tu fosses uma realidade tangivel,
uma realidade que sentisse, uma realidade real, quizera ver-te jazer
ante mim, para te pr um p sobre os peitos e calcar-te e cuspir-te nas
faces! S isto me consolava das saudades dos dias santos infantis e
d'este viver miseravelmente desbotado.[70]

Esta interpenetrao das cousas e da alma, esta vibrao unisona da
essencia etherea do espirito e da materia visivel e palpavel, esta
harmonia religiosa da consciencia e de toda a creao terrena, marcaro
a orbita da qual nunca se affasta a alma de Alexandre Herculano.

Em Val-de-Lobos, no ermo da sua clausura, construiu uma capella. A
religio carecia de symbolos, e reclamava para si um pedao de terra
onde os guardasse e fossem invocados e venerados. N'elles se havia de
encontrar e integrar a adorao de Deus em espirito e nas visualidades
tangiveis. O idealismo germanico e o symbolismo romano juntavam-se e
completavam-se fundindo aspiraes do espirito, absolutas na sua
abstraco, e tradies da ordem terrena, essenciaes tambem pela
permanencia e pela vitalidade historica, e captivantes pela belleza
sensivel. E, assim, o templo, a que Deus descia para olhar os homens,
seria o degrau mais alto a que os homens subiam para vr a Deus.


II

Ha no _Monge de Cistr_ um filho das Hespanhas em que a cr, o gesto,
o olhar, tudo dizia que ahi dentro havia o espirito dum godo e ao mesmo
tempo que n'essas veias corria o sangue dum arabe; e as cartas de
Alexandre Herculano a Oliveira Martins, que este ultimo publicou no
_Reporter_, quando se fez a transladao dos restos do historiador para
os Jeronymos, referem-se a estas sociedades, meio romanas, meio
germanicas na indole, e celto-romanas na raa, que estanceiam ao
occidente.

Porventura, esto alli designados os elementos ethnicos e tradicionaes
que se associaram na formao do genio de Alexandre Herculano, meio
romano e meio germanico na indole e na raa, com o espirito dum godo na
idealisao da vida e o senso pratico dum romano na concepo da
sociedade, por vezes sonhador e ethereo como um bardo errante das
margens do Rheno, a espaos accordando e rompendo em impetos dum
cavalleiro nado e tisnado nas terras ardentes do islamita, e de
repente recobrando a serenidade e a capacidade de ordenamento pratico
que distinguiu e tornou famoso o conquistador romano. Tinha a sde de
liberdade, a consciencia da responsabilidade, a paixo da sinceridade, a
febre de apostolado e a tenacidade de combater caracteristicas do sangue
anglo-saxonio, e possuia ao mesmo tempo aquelle espirito de sequencia,
lucidez e justa distribuio, aquelle horror do desequilibrio e do
incerto e indefinido, a percepo penetrante das realidades e a arte de
as sujeitar  regra e  lei que engrandeceram o mundo latino.

A liberdade, essa era para Alexandre Herculano um dogma, e capital.
Sabia que Deus era Deus e os homens livres. O reconhecimento de Deus
implicava a liberdade; a existencia de um ser superior, ao qual tinhamos
de obedecer, revelado em nossa consciencia e n'ella habitando, exigia a
anniquilao de todo o estorvo  contemplao da sua grandeza e 
insinuao e execuo da sua vontade.

Para Alexandre Herculano, como para todos os grandes caracteres do seu
tempo, a liberdade foi o primeiro dos artigos de f. Sobre todos os
demais prevalecia e a todos os outros synthetisava. Onde menos acatada a
encontraram, ahi se esforaram por lhe assegurar a soberania. E assim
deram a precedencia  revoluo politica sobre quaesquer outras, e
n'essa collocaram os principios de liberdade acima de qualquer outro
principio ou conveniencia.

Seguiu-se s esperanas d'essa gerao um periodo historico adverso. 
certo. Uma pleiade de philosophos e devotos da realidade, analysando os
homens e as sociedades, e entrincheirando-se nos baluartes de uma
sciencia que se reputou inexpugnavel e a ultima e terminante verdade,
sorriu das crenas dos paladinos ingenuos de que era filha. Tomando-as
sinceramente por illuso de romanticos generosos, alis com a mesma
candura que tinham posto em as amar aquelles de quem os novos prophetas
immediatamente descendiam, apressou-se a desvanecer o erro e deu a mo
s arremetidas de um despotismo renascido e vestido em trajos
desconhecidos e atraentes, mas herdeiro e fiel representante do
absolutismo antigo e, a seu exemplo, fatal  felicidade dos homens.

A experiencia e mesmo o desenvolvimento da analyse scientifica e suas
concluses logo trouxeram, porm, o desengano. Pela segunda vez a
supposta illuso de nossos paes se revela a verdade fundamental do
progresso. Contradictou-se a religio da liberdade com a legitimidade da
oppresso, a aspirao individual com a razo d'estado; mas a ideia
imperialista que d'ahi cresceu e teve longos annos de triumpho,
parecendo por momentos absorver e desbaratar em sua gloria rutila de
baionetas, os planos magnificos da ideia liberal, vae por sua vez e em
nossos dias descendo ao accaso. Favoreceram-na a concepo biologica das
sociedades, accentuadamente reaccionaria, que oppz a fora  justia e
ao direito e nos imbuiu na convico de que a base de toda a aggremiao
animal era um estado de lucta interior permanente e essa lucta
significava um bem, factor essencial do desenvolvimento da sua
capacidade. A victoria do mais forte e a subordinao do mais fraco
seriam consequencias de leis naturaes indeclinaveis e beneficas, s
quaes nos cumpria prestar reverencia, auxiliando-lhes a execuo em toda
a extenso da vida physica e moral do individuo e da communidade. Os
interesses materiaes, levados j por circunstancias economicas a um
subido grau de concentrao e anceiando por se constituirem n'aquelle
estado de tyrannia soberana, a que o capitalismo europeu e sobretudo o
capitalismo norte-americano souberam conduzil-o, aproveitaram habilmente
as instigaes crueis de uma sciencia alheia a inspiraes moraes; se a
lei da vida organica consistia na victoria dos fortes e na
escravido dos fracos, as instituies sociaes, para serem salutares,
logicas e efficazes, haviam de respeital-a, e a diviso entre servos e
senhores seria tambem condio natural de boa ordem. E entretanto,
emquanto semelhantes doutrinas se propagavam e captivavam os espiritos
mais puros e os melhores coraes, a guerra franco-prussiana e a
formao do imperio formidavel que ella creou e consolidou, antepondo ao
cesarismo desmoralisado, que derrubava, um cesarismo disciplinado,
rigido, e intellectualmente riquissimo de saber, justificava e apregoava
de modo pratico, com esplendor, o principio, ento por excellencia
scientifico, da fora brutal. Para o effeito da boa administrao o
mandavam acatar as boccas dos canhes e os sabres dos guardas do estado,
convencendo por esse meio os menos promptos em lhe descobrir as
virtudes. Homens d'estado e multides fanaticas, governantes soberbos e
doceis governados, uns por ambio, outros por cegueira, uns na avidez
do mando e outros na esperana de ventura, e todos victimas dos
vendavaes que repetidas vezes vergam a seu bello prazer as sociedades e
as arrastam em delirio, inconscientes e desvairadas, abjuraram os
evangelhos da liberdade que se lhes figurou um culto da debilidade e de
rebellio insensata contra o despotismo da natureza, e, preferindo
o gendarme ao sacerdote, desconfiando da crena para se renderem s
armas, trocaram a reverencia da justia e da caridade christ pela
desapiedada glorificao da caserna.

No cessavam, todavia, os estudiosos na observao e cogitao das leis
intimas da vida; e os ideaes do humanitarismo e da religio desthronados
no tardaram a rehaver um logar de proeminencia. A doutrina da evoluo,
que parecera o seu peior inimigo, provou ser o seu apoio mais solido;
por ella deixaram de representar o sentimentalismo absurdo e enfermio,
de que foram acoimados, para se reduzirem a uma comprehenso exacta de
lei organica das sociedades, producto e derivao do proprio
desenvolvimento evolutivo. Um dos mais notaveis espiritos do mundo
scientifico vinha a concluir o exame da doutrina evolutiva pela
demonstrao de que a resistencia e o progresso da especie resultavam,
no da lucta mas da sua atenuao, no da fora mas da unio e auxilio
mutuo; a livre cooperao substituiria pois a sujeio oppressiva dos
fracos ao capricho e engrandecimento dos fortes, se quizessemos, como
deviamos, respeitar a ordem natural. E, simultaneamente, a miseria dos
trabalhadores, precipitados na escravido do capitalismo pela
torrente dos interesses materiaes, accelerada e engrossada pela
abundancia de doutrinas que consagravam o imperialismo em toda a sorte
de relaes, desde as de amo e creado at s das naes e estados, o
clamor dos servos tornou-se uma ameaa e uma dr, para as quaes os
piedosos procuravam balsamos, os timidos e previdentes inventaram
prevenes attenuantes, e os homens d'estado buscavam remedio, vendo
periclitante a estabilidade e a propria vida do corpo social, e
cumprindo-lhes defendel-a.

Apoz o eclipse de algumas decadas, o idealismo liberal resurge,
inscrevendo nos livros da lei o principio da igualdade juridica dos
homens, da igualdade de opportunidade, como modernamente se diz,
corrigindo a phantasia do absolutismo igualitario de outras eras. Nos
coraes restaurou-se o culto da liberdade. E n'este renascimento da luz
que um sonho de terrivel barbarie escureceu, a figura de Alexandre
Herculano, protegida pelas sagradas paixes que o animavam, reapparece
no resplendor de uma aureola eterna. Como o poeta de Alm-mar[71],
Alexandre Herculano, sentindo a onda de imperalismo que nos seus
derradeiros dias avassalava a Europa, poderia exclamar:--Triste,
desthronada rainha, oh liberdade! Ainda que contra ti se volte todo o
mundo, hei de eu ser-te fiel! Na sua adorao da liberdade havia laivos
de fanatismo, o unico talvez que em toda a vida revelou. D'ahi viriam
todos os seus temores em acceitar normas de organisao social que de
toda a parte lhe apregoavam efficazes para salvao de angustias. Na
ordem moral, o socialismo estava justificado. No o contestava; no se
lhe afigurava que chamar socialista a quem discute, que impr um labeu
mais ou menos affrontoso desfizesse um argumento, nem que fosse
demonstrao concludente e irresistivel o affirmar que taes ou taes
theorias so ms porque so socialistas, e que o socialismo  mau porque
propaga essas theorias. As escolas socialistas, (que nem elle j sabia
quantas eram ento), teem doutrinas positivas e critica negativa. As
doutrinas positivas pareciam-lhe longos rosarios de despropositos; a
critica negativa, embora frequentemente exaggerada, era a seu vr uma
coisa seria. Havia ahi indicaes de males profundos e dolorosos no
corpo social, que faziam estremecer as consciencias; que faziam cogitar
tristemente os espiritos liberaes e sinceros[72]. Mas apavorava-o
smente o perigo que em cada exploso de socialismo ameaava a
democracia de se converter gradualmente em uma burocracia ou em uma
oligarchia, perigo que a violencia despotica do espirito de partido e o
odio das classes expropriadas temerosamente asseguravam, inevitavel.

Em ultima analyse, a tendencia politica de Alexandre Herculano, no
encadeamento logico da sua crena espiritual e religiosa, seria o que
actualmente se chama anarchismo, por absurda que a muitos possa parecer
 primeira vista uma tal classificao applicada a um tradicionalista
fervoroso;--anarchismo no bom sentido, no sentido de uma doutrina
philosophica, temperado, ou, digamos melhor, limitado pela viso
historica e sua demonstrao da fora de organisao inherente a toda a
vida em communidade, mas, sem embargo, suspirando por toda a sorte de
libertao, crendo no resgate da humanidade em Deus e aborrecendo todo o
constrangimento imposto pelas vontades humanas isoladas ou colligadas.
Aquelle socialismo de que mostrou signaes na presidencia da camara
municipal de Belem, no se lhe teria figurado traio ao principio
da liberdade; tornava-o inoffensivo, quebrar-lhe-ia todas as velleidades
de despotismo a descentralisao extrema em que se realisava. E so de
notar os compromissos a que no presente veio a ideia socialista para se
conformar com o principio de liberdade,--as restrices que a si mesmo
vae impondo, o desamor das grandes aggremiaes, to promptas em
degenerar em tyranias, o valor cada vez maior attribuido  communa como
instrumento da distribuio das commodidades elementares da vida. O
socialismo contemporaneo da Inglaterra com a sua caracteristica
insistencia na liberdade da terra e na liberdade do commercio, essa
concepo da sociedade renovada, to diversa do socialismo continental
facilmente propenso  restaurao cesarista, est mostrando at que
ponto a intransigencia do apostolo da liberdade em Alexandre Herculano
era a voz do propheta dos tempos proximos, ainda mesmo quando parecia
combater-lhes o advento.

Essa crena na liberdade que obrigaes no importava aos que passavam
no mundo levando-a no peito?!... Conquistar a liberdade era servir a
Deus, facultar aos homens a inteira sujeio aos seus mandados. A
responsabilidade perante Deus, a todo o instante exigida na consciencia,
em que elle se revelava, no podia tornar-se effectiva seno pela
liberdade. Os despotismos da terra figurar-se-lhe-iam uma offensa 
divindade. Urgia derrubal-os onde quer que se acoitassem, sob o manto
dos reis ou sob as vestes do sacerdote, em nome do estado ou em nome da
egreja, nos castellos do feudalismo ou nas officinas dos mestres, na
altivez dos capites de guerra ou na vilania cupida dos rebatedores.

A religio determinava uma politica. Mandava desembaraar o caminho que
conduz a Deus. A predica, o sacrificio e o martyrio, as luctas civis e
as guerras dos homens, todas as armas eram de Deus e Deus reclamava para
sua defeza e triumpho, se pela liberdade, sua filha e serva, combatiam.
Mas a religio determinava sobretudo uma moral, o exame constante da
conducta da actividade humana, em toda a extenso, e a sua conformidade
com a essencia divina, at aos movimentos minimos, at ao mais pequeno
objecto em que da nossa vontade dependesse.

Pessoalmente, emquanto se tratava de dar exemplo, a tarefa no foi
difficil a Alexandre Herculano. Por virtude do seu raro vigor quebrou de
prompto muito estorvo ao proposito de servir em aco os principios que
adorava em espirito. Cedo se libertou, e com firmeza e audacia, das
escravides vulgares do commum dos homens, e at das de muitos que
se elevam no pouco acima do commum.

Riquezas? No o tentavam. A simplicidade espartana dos seus habitos
contentava-se com pouco; estava-lhe no animo, e confessava-a, a averso
a negocios e a aproveitar com boa arte mercantil os bens magnificos da
sua intelligencia[73].

Honrarias? Detestava-as. D. Pedro V levou-lhe a casa a commenda da Torre
e Espada. Recusou-a. E em uma carta publicada no _Jornal do Commercio_
deu as razes do seu procedimento. Perteno, dizia, a uma classe
obscura e modesta, quero morrer como nasci. Ha nisto uma grande ambio
solapada. No meio do immenso consumo que se est fazendo e que se tem
feito, ha trinta annos, de distinces, insignias, uniformes
bordados, de titulos, grus, tratamentos e rotulos nobiliarios, o homem
do povo, que queira e possa morrer com esta classificao, deve adquirir
em menos de meio seculo uma celebridade extraordinaria... No sou
commendador da Torre e Espada. O senhor D. Pedro V, que Deus tem
comsigo, procurou-me um dia para pedir-me, dizia elle, um favor. Era o
de acceitar a commenda da Torre e Espada. Recusei; e com a sinceridade,
que elle sempre encontrou em mim, expuz-lhe amplamente os motivos da
minha recusa. Aquelle grande espirito, complexo de extrema doura, de
alta comprehenso e de profundo sentir, debateu, sem se irritar, as
ponderaes, talvez demasiadamente rudes, que lhe fiz. Concluiu por me
dizer que cada um de ns podia proceder n'aquelle assumpto em harmonia
com as proprias convices. Que elle cumpria o que reputava um dever de
rei, e que fizesse eu o que a consciencia me ditasse. Como os outros
homens, os reis, embora se chamem D. Pedro V, esto sujeitos a apreciar
mal as pessoas e as coisas. Nem eu valia o que elle suppunha, nem a
commenda valia nada. O que valia muito, apezar do seu innocente erro,
era esse moo de vinte e quatro annos, esse filho de Joo I, D. Duarte
extraviado no seculo XIX, vindo pedir como favor ao filho do povo
que lhe acceitasse uma merc, porque entendia que o dever a isso o
obrigava.

No quiz mais  lisonja do mundo do que aos regalos da riqueza e 
ostentao das honrarias. Por no perder uma liberdade de critica sempre
severa com a propria pessoa e com as estranhas, no o atemorisou a fama
de impertinente ou orgulhoso, e desprezou, aborrecendo-o, o titulo de
_excellente pessoa_ que o mundo costuma dar a quem se acommoda com as
suas opinies, quer absurdas, quer judiciosas[74]. Ouvindo,
invariavelmente e exclusivamente, as indicaes e o conselho da sua
consciencia, desacatou com frequencia e por completo a opinio publica,
o mais sublime, o mais respeitavel, o supremo embuste d'este mundo.

A intuio moral no se limitaria, porm,  imposio de regras
adoptadas na vida individual e intima. Fixando leis, conduzia ao
julgamento de quantos as offendessem e  apreciao de toda a
circunstancia em que fosse offendida.

O amor da patria, inspirao de Deus, levou Alexandre Herculano ao
estudo da historia, e da conjunco do historiador e do poeta e
crente devia resultar, e resultou, um moralista profundo e ardente.

O conhecimento do mundo e do fatalismo das suas leis, o mecanismo
inconsciente e intransgressivel do seu movimento, que bem cedo a
historia lhe revelou, posto em presena da aspirao divina, que mais
cedo ainda se lhe revelou no corao, fatal tambem por inspirao da
consciencia religiosa e por demonstrao das civilisaes e das raas,
imperativa e absoluta por essencia, obrigava o poeta a cogitar e a
estabelecer as formas de existencia dos homens e das sociedades nas
quaes se conciliassem em virtude, belleza e felicidade os elementos
diversos que a intelligencia e a observao lhe apresentavam.

Isso preferia mesmo  concepo de systemas, que para o fim pouco
adeantavam, capazes de ligar e synthetisar o amontoado de relaes e
dependencias oppostas e desconnexas no seu aspecto exterior.
Compadecendo-se mal a nitidez descarnada e fria das systemathisaes com
o prisma multiface dos factos concretos e as suas penas, o seu peso na
ventura e na desgraa dos homens, a philosophia cederia a primazia 
regra da vida, porque a instancia intima de crear belleza sob o poder de
vises era evidentemente em Alexandre Herculano superior  sde de
saber por mero orgulho ou simples curiosidade. A satisfao do
dever podia mais na sua alma do que o deleite de penetrar e vr e
comprehender, exultando no reconhecimento das suas faculdades de
aprehenso e exame. Ha na philosophia estreme, que em si contem e limita
o seu destino e fim, qualquer cousa de peccaminoso egoismo e
indifferena que o apostolo de uma misso divina no acceita sem
correctivo. Se  philosopho, e no pode deixar de o ser em alto grau
quando a robustez mental lhe descobre o encadeamento das cousas, logo
aproveitar a philosophia, subordinando-a e apeando-a do throno, para
instrumento e maior efficacia da sua misso, sem muito cuidar do mais
que ella encerra ou se esforar por o definir com clareza, em quanto no
aproveita  fortuna dos homens e  elevao da sua dignidade. S n'estes
termos convm, e d'ahi resultou, sem duvida, que em Alexandre Herculano
o moralista seguisse de perto o historiador, como este seguiu o poeta,
deixando ambos a grande distancia e em manifesta obscuridade o
philosopho e sua impassibilidade, a cujos dotes e companhia nunca
mostraram grande afrro, naturalmente porque lhes pareciam debeis na
substancia, de caracter por demais altivo, insensato e vaidoso, e
mesquinhos em beneficios, se os referiamos  desmedida presumpo
com que pretendiam representar a sabedoria das sabedorias.

Foi implacavel. Nada indulgente comsigo, Alexandre Herculano mediu os
outros pela propria craveira, e sem piedade flagellou vicios, erros,
crimes e fraquezas, em todo o logar, tempo e circumstancia, onde quer
que os encontrou. Costumes, instituies, processos politicos, religies
e crenas, tudo apreciou e julgou com uma severidade indomavel, a que os
impetos illuminados do seu genio e a iseno da sua vida deram uma
auctoridade tremenda.

As intrigas politicas e occupaes analogas, que so o recreio, o
comodo, o alimento, a respirao e a vida do estadista e do
cortezo[75], em que Alexandre Herculano andou extraviado, no por
culpa da vontade mas do entendimento, serviram-lhe para comprehender
toda a abominao de taes manejos e fins, astuciosamente occultos em
verdades gradas, porque em cada seculo ha uma verdade grada que
predomina, e que vae ajudando os espertos a consolarem-se dos dissabores
da vida  custa do animal, alvar por excellencia, chamado cidado, para
cujo consolo vieram  terra as bruxas, a therapeutica, os fundos
publicos, a ontologia, os duendes, as infuses, a esthetica, as petas e
o palavreado[76].

Quando emergiu do atoleiro, sentiu-se renascer. As circunstancias
haviam-no baldeado no charco da vida publica, mas a Providencia, que
provavelmente no o achou assaz corrompido para fazer d'elle um homem de
estado, deu-lhe uma hora de contrico em que podsse desempegar-se,
escorrer o lodo dos vestidos, lavar o rosto, e voltar ao gremio do mundo
moral[77].

No foi debalde, como debalde no foi a sua passagem na crte e a
approximao das classes nobres, quer consideradas no convivio
immediato, quer observadas nos fastos das eras passadas. Ahi teria visto
e aborrecido a etiqueta, as minucias de cortezania escolastica, as
vaidades inquietas de todas as supremacias e eminencias politicas,
litterarias, agiotas, artisticas, da impertinente aristocracia burgueza,
mirando-se, escarnecendo-se, detestando-se... o egoismo das pequeninas
vanglorias, as pontualidades parvoas e a sensaboria de convencional
contentamento[78].

Tudo isso e a repulso do espectaculo de miserias ainda maiores levaria
deante dos olhos quando ia a caminho do seu ermiterio de Val-de-Lobos, a
viver entre a gente rude, cujos thesouros de ingenuidade reconhecera e
adorava. As fileiras dos antigos pelejadores cujo ardor alis se achava
enfraquecido pelo cansao, haviam-nas rareado os annos, e os novos no
tinham braos assaz robustos para o combate. Ento chamava-se  tibieza
tolerancia, e aos calculos do egoismo e da pusillaminidade civilisao.
Os velhos interesses e as velhas preoccupaes tinham voz e voto,
preponderante s vezes nas cousas publicas. Os tumultos, as luctas das
faces, as guerras civis, eram ainda possiveis: as revolues no. Para
isso requeria-se que nas veias dos homens houvesse sangue, no corao
crenas, e na sociedade seiva moral[79].

Fugido da mentira de requintes de sensualidade e perfidia em que os
senhores do mundo folgavam; buscando uma atmosphera de sinceridade e de
paz, no s pelo anceio de se banhar em summa candura mas tambem,
decerto, pela alta sapiencia de collocar em ambiente adequado o poder de
meditao do seu espirito, affastado assim das distraces e
constrangimentos que sem repouso o irritavam; envelhecido antes de
tempo pela contenso do espirito em comparar, conjecturar, deduzir[80]
e sobretudo pelo tremor de uma consciencia inquieta, meticulosa, votada
a uma continua febre de acertar; a affastado pelas illuses de um
momento das occupaes litterarias a que se dedicra com intimo affecto
e reconduzido por asperos desenganos ao tranquillo retiro d'onde no
devera talvez ter saido; concebendo como, no desabar do imperio romano,
tantas almas severas e energicas, desesperando do futuro de Roma, iam
buscar os ermos, onde o christianismo nascente lhes indicava um refugio,
e alli, a ss com as suas cogitaes, cerravam os ouvidos ao importuno
ruido de uma sociedade gasta e podre que esboroava, no tanto ao impulso
dos barbaros, como pelos effeitos da propria dissoluo interior;
convencido emfim de que luctar com a Providencia no  esforo, 
loucura[81]:--uma fadiga mortal lhe reclamava horas de repouso, a
defeza instinctiva do minguado alento de um organismo exausto de
aspiraes, contrariedades e desilluses, e rendeu-se-lhe. Reaccendeu
ento na alma o vigor amortecido e quebrado em luctas vs; e deu-nos o
exemplo da nobreza na derrota quem primeiro nos mostrra dignidade e
gloria nos combates.

Combates!... Os que o vulgo apreciou nas obras de Alexandre Herculano e
nos actos publicos da sua vida seriam bem frouxos comparados com os que
no seu peito se travavam para o isentar de cair em falta. Conheceu as
profundezas fataes da fraqueza humana, e do vigor com que procurou e
alcanou remir-se da sua atraco depe uma existencia inteira de
dignidade.

O trovador prisioneiro,  vista dos homens, saberia esconder o seu
delirio e morrer com firmeza; mas, na solido, a saudade de uma
existencia cheia de amor e d'esperanas, a vergonha de supplicio
affrontoso, e o temor da morte lhe no consentiam velar-se deante de si
proprio com a mascara que a vaidade e o orgulho pe na face humana ainda
nas suas mais terriveis situaes, para que a vida seja uma continua
fara, da qual o corao  o actor mentiroso desde o bero at ao
sepulcro[82]. E Alexandre Herculano, tambem trovador e
prisioneiro dos ferros das contingencias e convenes mundanas,
teria soffrido as angustias do seu irmo do romance medieval; mas,
mais corajoso, tirou deante de si mesmo a mascara que a vaidade e o
orgulho pe na face humana, e do mesmo modo, virilmente, descobriu o
rosto perante as multides atonitas de to estranha fortaleza,
provocando, sem duvida, a averso e escarneo da debilidade vulgar, para
a qual estabelecia um confronto accusatorio.

Essa sinceridade, essa facilidade e at sollicitude em patentear em
todos os actos da sua vida os mobis intimos, como para se certificar da
rectido do proprio procedimento sujeitando-o ao julgamento de
estranhos, indifferentes, amigos e inimigos, constitue um dos mais finos
traos da delicadeza o escrupulo da moral de Alexandre Herculano. A cada
passo se confessa. Voluntariamente, com uma corajosa franqueza, expe-se
 affronta e  calumnia que da revelao do seu intimo lhe possam
derivar; dava aos homens as contas que de todas as suas aces dava a
Deus, sem temer a injustia do mundo que tantas vezes lhe ignorou e
menosprezou a inteireza e a candura. O sentimento da responsabilidade,
filho dilecto da liberdade e seu fiel companheiro, obrigava-o a
julgar-se frequentemente com o rigor que o dever lhe impunha na
apreciao dos actos alheios, e at mesmo, no raro, com a
severidade que por indulgencia e amor no tinha com os outros.

As relaes de Alexandre Herculano com D. Pedro V e os termos em que
nol-as expe no prefacio da terceira edio da _Historia de Portugal_,
so testemunho da sinceridade mais perfeita, mais repassada de grandeza
moral, que pode coroar as faculdades portentosas de um talento
peregrino. Nem amesquinha o proprio valor nem o isenta de confronto e
subalternisao ao valor alheio; no cede um palmo do que lhe pertence e
no regateia uma pollegada do que deve a outrem. Reconhece a propria
fora, sem jactancia, descobre com uma serena e firme justia os escudos
da sua fortaleza; e sem pejo, sem crar por se sentir vulneravel e fraco
 semelhana dos communs mortaes,  o primeiro a apontar os golpes com
que um outro mais forte lhe rompia e penetrava a armadura.

Emprehendera o estudo da historia de Portugal para educao do principe.
Pagava ao filho a divida que contraira com o pae; a este devera a
situao isenta de encargos pesados, que lhe permittiu dedicar-se por
completo ao aturado trabalho da compilao da historia. Levra o estudo
quasi at ao fim da primeira epoca da monarchia, quando a parte
publicada suscitou a animadverso d'aquelles que querem accomodar
a historia s crenas do vulgo, s preoccupaes nacionaes e aos
interesses que n'ellas se estribam. Abriram ento na imprensa e no
pulpito uma campanha contra o auctor de to estranhas revelaes, e os
seus inimigos encontraram adeptos at nas regies do poder.
Difficultaram-lhe a edificao da sua obra. Inhibido de proseguir sem
sacrificio de dignidade, abandonou-a.

Reagindo contra essa violencia deploravel, que privava a nao de
conhecimentos fundamentaes para a sua vida e consciencia moral e
politica, demonstraes incessantes e sempre crescentes dentro e fra
do paiz[83], obrigaram os poderes publicos a reconsiderar. Os homens do
poder, se no respeitam, geralmente fallando, a moral e a justia,
quando estas to smente se affirmam, acatam-nas quando estribadas em
qualquer genero de fora e quando, portanto, significam um risco. Por
isso e s por isso, do mesmo modo que por meios indirectos lhe fra
tirada, a possibilidade de continuar a _Historia de Portugal_ foi emfim
indirectamente restituida a Alexandre Herculano. Mas era tarde. Na
lucta contra a torpe estupidez que o assaltra, a ambio litteraria, a
confiana no futuro, a energia e o vigor da alma, o habito dos penosos
estudos e das meditaes, a perseverana no trabalho, e, at, a robustez
physica tinham em grande parte desapparecido.

Depois, passado algum tempo, ainda tentou um ultimo esforo para
proseguir no trabalho. Se porm o tentou, ingenuamente confessava que
no fra para servir o seu paiz. S por uma grande amizade o fazia.
Emquanto alheio, no ao estudo dos homens e do mundo, mas s suas
ambies vulgares, consumia os melhores dias da vida em trabalhos a cuja
sinceridade, ao menos, o futuro havia de fazer justia, um acontecimento
impensado tinha chamado ao throno aquelle para quem, na sua puericia,
fra destinada a _Historia de Portugal_. Devera-lh'a por mais de um
titulo; mas, annulados, sem culpa sua, os meios de pagar, a obrigao
desapparecia. Fra, todavia, por elle, e s por elle, que ainda uma vez
tentra o que a razo lhe representava como quasi impossivel.

Na procella em que naufragra o seu pobre livro o nome do soberano fra
murmurado em voz baixa, associado ao dos satellites da reaco,
calumniado, como tinha de o ser depois, com torpeza sem exemplo, em
negocio mais grave. Ouviu esse murmurio: conhecia bem os homens de que
vinha, deu-lhes o asco que pediam e volveu a face. O facto tinha uma
significao e um valor bem sabidos.

Malquistar o soberano com o cidado era nobre e grande; mas era
incompleto: completava-se malquistando o cidado com o soberano.
Infelizmente a tentativa falhou. O vago, o mysterioso, o terrifico teem
attractivos para as almas novas de profundo e energico sentir; para as
intelligencias juvenis e robustas que a ambio da ideia devora e que,
impacientes, forcejam por se precipitar nas vastides do mundo
moral para lhe devassar os segredos. A alma do rei era d'essas. Buscou-o
e desceu, como diria o mundo, a justificar-se, porque nunca inquiriu se
para chegar do throno s regies do dever ou da justia era preciso
descer ou subir. Movia-o, alm d'isso, o instincto proprio da sua edade
e da sua indole. Queria sondar o abysmo de orgulho, de odios
implacaveis, de impiedade, de paixes tempestuosas de que lhe fallavam
com susto. Parece que a lenda exaggerava: o precipicio, o abysmo, eram
de dimenses menos amplas. Verdade  que os precipicios e abysmos
fascinam e atraem: pde tambem ser que fosse isso. Que, porm, se
illudisse ou que acertasse, o rei achra que todas essas negruras do
feroz plebeu se reduziam a uma sinceridade talvez rude, e a sinceridade,
ainda rude, tinha para elle o attractivo do novo, do impensado. Achava
onde retemperar o animo lasso do incessante espectaculo da
condescendencia interessada, do applauso grosseiro que vale o insulto,
da devoo requerente, do regirar e mentir dos que buscam recamar-se de
avellorios e lantejoulas para se inebriarem, para esquecerem que se
arrastam porque so lesos. Entrava apenas na edade de homem e estava j
saciado do serpeiar flexuoso das linhas curvas: attrahia-o por isso
irresistivelmente a dureza da linha perpendicular, recta. Aquella
alma, to rica de abnegao de si, quanto o era de affectuosa sympathia
para com todos os opprimidos, para com tudo o que padece, comprazia-se
em fitar a vista em olhos que no se abaixassem deante dos seus, em
encontrar na ideia alheia a resistencia  propria ideia. No tinha ciume
de uma soberania superior  sua, a da razo, nem o humilhava a dignidade
humana, que equivale no subdito  magestade do rei. O que repugnava
profundamente a esse espirito era o baixo, o abjecto. O reptil,
infusorio em grande, inquieta-nos, tenta a nossa f na immortalidade com
o dogma horrivel da gerao espontanea, da omnipotencia do
fermentescivel: o homem, que  homem, esse  que prova Deus.

Foi na affeio de D. Pedro V, no desejo de lhe comprazer que achou
alentos para galgar de novo a ingreme ladeira d'onde o tinham
despenhado; foi animado por elle que proseguiu em ajuntar materiaes, no
para levar a cabo os ambiciosos designios concebidos na edade das
grandes audacias, mas para concluir o quadro sincero da epoca mais
obscura da nossa deturpada historia; para deixar no mundo um livro em
vez de um fragmento. Expressa apenas como desejo, a sua vontade tinha-se
tornado para elle irresistivel: nem se pejava de confessar que elle
comeava a exercer j sobre o seu espirito aquella especie de
absolutismo moral que, provavelmente, aos trinta annos havia de exercer,
se vivesse, sobre o geral dos animos; singular especie de absolutismo,
que encerrava a esperana da regenerao dos costumes publicos e,
conseguintemente, a unica esperana da manuteno da nossa autonomia e
da nossa liberdade; autonomia e liberdade que foram para elle crena e
culto, porque lh'as tornavam santas a voz de uma consciencia virgem e as
revelaes de uma poderosa intelligencia.[84].

Que alma segredava essas confisses! Que essencia sobrehumana as animou!
Que resplendor divino nos confunde! O orgulho do stoico e a rigidez do
crente abdicaram perante a personificao candida da justia. No
temeram degradao no desprendimento. Conscientemente o tributavam,
pesando sem impostura o proprio valor e sem aviltamento depondo-o no
altar do affecto que o reclamava, devido por gratido e no offerecido
pela livre generosidade do devoto. O crente engrandeceu-se
renunciando  altivez do propheta e trocando-a pela humildade do servo.

Nem sempre, porm, o espirito de Alexandre Herculano pairava n'essa
esphera religiosa de adorao, e no raro de indignao, a que to altos
impulsos o erguiam. Por vezes, baixando ao meio das vulgaridades
terrenas, benignamente as viu e lhes sorria.

Esta ironia grave, e affirmativa todavia atravez dos reflexos inquietos
da multiplicidade dos seus prismas, objecto de justia e simultaneamente
desenfado de austeridade, o rigor sem crueldade, o rir sem malevolencia
ou escarneo e ao mesmo tempo sem indulgencia, sem cobrir a nudez da
falta, jocoso sem insolencia e agressivo, por corrigir, sem durezas de
expiao ou vindicta; esse humorismo caracteristico do sangue
anglo-saxonio insinuou-se na obra de Alexandre Herculano e nos seus
prolongados combates de polemista. E  de vr a doura, salpicada de
ingenuidade, com que nos colloca em frente das ambies e cobias
barbaras d'outras eras, no intimo condemnadas e condemnaveis, embora
sejam pesado attributo das miserias humanas de todos os tempos.

Exemplifiquemos.

Na crte de D. Thereza, me d'Affonso Henriques, ricos homens,
cavalleiros e clerigos discutiam acremente, entre si e ao sabor de
cada um, a legitimidade das pretenses do filho  posse do reino e o
direito da me em lh'a negar. As injurias voavam de parte a parte, os
ferros polidos dos punhaes principiaram a reluzir meio-arrancados dos
cintos, e a sala do conselho ia a converter-se n'um campo de batalha,
quando dois homens, talvez os unicos que pelo seu caracter politico e
ainda mais pela sua condio moral o podiam alcanar, atalharam as
scenas de sangue de que os paos de Guimares estavam a ponto de serem
theatro. Quasi ao mesmo tempo dois sacerdotes se alevantaram a pedir
treguas em nome de Deus. Era D. Tello, arcediago de Coimbra, um d'elles:
o outro: Fr. Hilario, o bom velho abbade do mosteiro de D. Muma.
quelle dissera muitas vezes D. Thereza que assaz grato lhe seria vel-o
bispo da sua s, a qual ento se achava orph de pastor; a este, a
predileco que sempre mostrra ao seu mosteiro e a elle em especial o
moo principe, fazia crr com bom fundamento que no eram vs de todo
varias palavras que uma vez lhe ouvira soltar cerca no sabemos de que
doao ao santo asceterio de Guimares, de certa villa ou herdade, com
cincoenta homens de creao, e seus montes e pastos, fontes e lagoas,
exitos e regressos. No os moviam na verdade estas circunstancias
que apontmos casualmente, a serem, D. Tello, inclinado a favorecer a
justia da bella infanta, e Fr. Hilario a justia de Affonso Henriques.
Pregoava-os o mundo por virtuosos: ns ajuntamos o nosso brado ao do
mundo. Mas  indubitavel que ambos elles estavam persuadidos de que o
outro seguia uma causa m e affligiam-se profundamente de verem assim a
virtude desvairada e perdida no campo contrario... Ainda cremos na
virtude dos cultores de politica: sabemos por experiencia que a maior
parte das vezes as suas expresses so singelas e nascem de crenas mui
fundas; sabemos tambem que as suas opinies so em geral
desinteressadas, e que jmais  o medo que os incita a prgarem a
concordia e a paz. E se isto  assim n'estes tempos de perverso moral,
com bom fundamento affirmamos que eram puras e generosas as intenes
d'aquelles dois ministros do Senhor, n'um seculo em que as doutrinas do
christianismo estavam vivas e a caridade era fervorosa e sincera. 
certo, porm, que apezar das deligencias que faziam cada um d'elles para
aquietar o furor da respectiva parcialidade, por muito tempo o alarido
dos cavalleiros, que se doestavam com bastas e grossas injurias, cobriu
as debeis vozes dos vares apostolicos. Finalmente foram ouvidos. A
reputao de santidade de que ambos gozavam,--no seu bando j se
entende,--porque em epocas de odios civis as reputaes facilmente tocam
o extremo da profundeza, mas na extenso ficam sempre em metade; essas
reputaes, dizemos, mais ainda que a fora das suas ponderaes,
fizeram pouco a pouco asserenar a tempestade. Os ricos homens, infanes
e cavalleiros vieram emfim a uma concluso razoavel; isto , sairam
d'alli cada vez mais afferrados s suas opinies e sem concluirem
nada[85].

Assim nol-os pintou o romancista historiador, em momento de os
considerar sem impaciencia.

Se necessario fosse descobrir a couraa de ferocidade dos fundadores de
dynastia, com tal destreza e arte procederia Alexandre Herculano n'essa
tarefa que sorrimos, quando alis poderiamos sem injustia voltar a face
indignada pelo espectaculo de crueldades barbaras. Assim, por exemplo,
que sacrilegos aggravos no se teriam feito ao conde D. Henrique,
duvidando-lhe da bondade! Apressa-se o historiador a corrigil-os, porque
devemos crr, ao menos piamente, que o conde D. Henrique, na epoca
em que alevantou o castello de Guimares, no lanou nos fundamentos do
seu edificio soberbo um carcere seguro e vasto com os intuitos de rapina
que guiavam o commum dos senhores n'estas tristes edificaes. Ainda que
algum documentinho de m morte provasse o contrario, cumpria-nos pol-o
no escuro, ou contestar-lhe francamente a authenticidade, porque o conde
foi o fundador da monarchia, e a monarchia desfunda-se uma vez que tal
cousa se admitta. Assim  que se ha-de escrever a historia, e quem no o
fizr por este gosto, evidente  que pde tratar de outro officio[86].

Muitas vezes castigava rindo.  certo. No cessava todavia atravez do
riso a tenacidade de combater, a intuio e o ardor apostolicos,
caracteristicos, como o humorismo, do sangue germanico. Sempre se uniam
na alma do poeta aquella viso exacta das realidades e sua ordem,
propria da educao romana, e o espirito de misso religiosa que nunca
abandona os povos de origem septentrional. Se alguem representou por
completo, resumindo-as nas tendencias e altos talentos de um s
individuo, estas sociedades, meio romanas, meio germanicas na
indole, e celto-romanas na raa, que estanceiam ao Occidente, foi
Alexandre Herculano, foi exactamente quem melhor as definiu na historia.
O polemista manteve-se inquebrantavel at ao final da sua vida. De facto
nunca abandonou as armas. Os derradeiros annos da sua existencia, as
condies de desprendimento em que os passou, e a voz que de longe em
longe nos vinha do ermiterio de Val-de-Lobos, foram pelo exemplo e pela
affirmao explicita uma exortao ininterrompida  virtude, e um clamor
instigando a contrico e emenda as geraes corrompidas cuja degradao
presenciava com amargura. Corria-lhe nas veias a febre de exame intimo
constante e de ambio de conquista moral e religiosa peculiares
quelles que deram  humanidade a renovao fecunda do protestantismo.
Chamaram-lhe lutherano os que suspirariam por o levar s fogueiras da
Inquisio, se ainda as houvesse, porque lhes arruinava os milagres e a
consequente explorao de estupidas crendices populares. Havia qualquer
cousa de verdade n'essa designao. Smente o honrava, em vez de ser
pejorativa. Traduzia o reconhecimento de uma independencia rebelde a
toda a seduco e lisonja de sensualidades satisfeitas e vaidades
saciadas, a confirmao da posse de faculdades raras entre latinos,
commodamente conciliadores, a verificao da revolta insubmissa do
combatente, inimigo jurado e exaltado de todas as oppresses, do
despotismo dos homens e da escravido da consciencia. Por erro o
julgaram desalentado e vencido. Jmais o foi. Reagiu sempre, nunca
tolerou ambiente que lhe repugnasse ao corao. Defendeu-se
constantemente, de reducto em reducto, levando intactos e intangiveis
seus escudos. Onde achou terreno ingrato para a sua alma, logo a
transpz para logar em que podesse offerecer-lhe resguardo conveniente.
Deixou as armas, deixou a politica, deixou as lettras, deixou o seu
minguado mundanismo da cidade, mas no por fraqueza; deixou-os, para
renovar com uma energia inexaurivel as condies da sua vida apenas se
convencia de que as no tinha adequadas  preservao da sua pureza.

Vicente Ferrer diz-nos que Alexandre Herculano _gostava_ de questionar
e discutir. Presente-se, com effeito, nas suas polemicas certo prazer
de se defender e flagellar a matilha que o assaltava latindo
raivosamente. Com facilidade acceita o duelo, no mostra pressa de o
rematar, e, muito ao contrario, procede com tal pausa na destituio do
antagonista, arrancando-lhe uma a uma as suas armas, que, se no
lhe foi deleite a tarefa, pelo menos no a houve por enfadonha ou
penosa. Sendo o combate instrumento de propagao da verdade,
logicamente no poderia desamal-o, antes deveria apetecel-o quem tinha a
verdade em conta de misso suprema. Combatendo reconheceria, no s a
constituio vigorosa das proprias foras, o que o alegrava, mas tambem
a expanso e derramamento da sua crena, o que lhe satisfaria a
consciencia e lhe premiava o esforo.

Tornou-se materia corrente que o dominava o orgulho.

No  exacto. Confundiu-se o orgulho com a defeza attenta e prompta da
dignidade, com a justificao vigilante dos seus actos em que a
salvaguarda da propria honra se juntava  necessidade constante de exame
de consciencia. Na polemica que mais fundamente deveria feril-o, porque
lhe contestava crenas religiosas, e nenhumas tinha mais arreigadas em
seu peito, vinha adduzir com exactido e vigor os factos em que na vida
patentera, muito mais do que generosidade com os vencidos e
perseguidos, verdadeiro amor da egreja e do clero. Como procedera elle
sempre cerca de egreja e do clero? perguntava, indignado pela offensa
que um catholicismo estreito de intelligencia e de corao fazia 
nobreza cavalheiresca do seu caracter, n'este caso inflamada pela f
religiosa, e pelo respeito e encanto da tradio e por toda a poesia do
culto. E respondia, com uma serenidade em que se advinham tremores de
mgoa e mal contidos impetos de desaggravo: As ideias do seculo,
recalcadas por uma compresso violenta, a que, fora  confessal-o, a
maioria do sacerdocio se havia associado, tinham reagido violentamente,
e assentavam-se triumphantes sobre as ruinas do passado quando eu entrei
no campo de imprensa, no campo das batalhas do espirito. De roda de mim
jaziam os fragmentos da sociedade que fra, e no meio d'elles o clero,
disperso, empobrecido, coberto d'affrontas, experimentava as
consequencias do predominio de um partido adverso e irritado. A situao
da egreja portugueza n'essa epoca, e sobretudo a situao dos regulares,
sabemos todos qual era. Foram feridas de que, porventura, ainda mais de
uma goteja sangue. Os homens das velhas opinies politicas, no meio do
terror, vergados pelo desalento de uma queda tremenda, duplicadamente
dolorosa pela desesperana, calavam. Nem uma voz amiga se alevantava
n'esta terra de Portugal a favor da egreja batida pela tempestade. Ainda
ento esse grupo de mancebos cheios de talento, de inspiraes
grandiosas e de crena fervente na liberdade humana, e pela liberdade na
eterna justia; essa phalange, no meio da qual todos os dias apparecem
novos soldados, e que no se envergonhava de Deus nem do seu Christo,
no tinha ainda comeado a surgir para ser generosa com os adversarios
das suas ideias, quando a desventura os santifica. Na imprensa liberal,
revolucionaria, impia, como quizerem chamar-lhe, eu, s eu, tive por
muito tempo palavras de affeio e consolo para a desgraa; s eu tive
animo para accusar os homens do meu partido de espoliadores e
insensatos; para tentar revocal-os  poesia do christianismo, do eterno
alliado da liberdade. A voz que do campo do progresso saudava o templo
enlutado e deserto era debil, mas sincera: a mo que se estendia para
amparar o sacerdote curvado sob o peso da agonia era bem pouco robusta
mas era leal! Como Yorick guardava a caixa do pobre franciscano entre os
symbolos da sua religio de affectos, eu guardo para mim, e s para mim,
mais de um papel escripto por mos tremulas de velho monge, e talvez
regado por lagrimas, em que se reconhecia a possibilidade de haver um
homem das novas ideias que no fosse absolutamente um malvado.  sobre
estas reliquias que eu quero encostar a cabea para dormir
tranquillo o ultimo e longo somno em que todos devemos repousar[87].

Havendo, porm, fallado d'este modo, que a leviandade tomaria por
altivez aggressiva ou desdenhosa, logo se apressa a esclarecer e
dissipar por palavras de humildade essa impresso, como suspeitando-a,
temendo-a, e no querendo que subsistisse to mal pensado e calumnioso
conceito. Trouxera para o campo da historia, dizia elle ento, o
mesmo amor da verdade singela, que tinha mostrado n'uma das mais graves
questes sociaes. No se arrependera do que fizra. Cumpria um dever que
lhe impunham Deus e a sua consciencia. No esperava arrepender-se do que
fazia. Cumpria uma obrigao litteraria, e estava certo de que bem
merecia da terra em que nascra escrevendo a verdade. S hesitava
sobre a legitimidade das suas queixas; sobre se, no que suppunha um
dever de honra, no haveria um pouco da obcecao da vaidade. Quando
Roma que parecia ter jurado nas aras de Jupiter Stator o exterminio do
catholicismo, crucificava no seu _Index_ nomes como os de Chateaubriand
e Lamartine; nomes como os de Gioberti e Ventura, teria elle, verme
que passava  sombra do seu nada, direito de offender-se porque de
pulpitos obscuros, n'um canto obscuro da Europa, alguns clerigos maus ou
ignorantes lanavam sobre elle o vilipendio das suas palavras? Quando a
egreja, involvendo a fronte no vu da sua immensa tristeza, e sentindo
humedecer-lhe os ps o sangue humano vertido pelo ferro sacerdotal,
contempla aterrada o futuro, havia dr de individuos a que fosse licito
um brado[88]?

A victima de um odio estupido defendera-se do aggravo, mas o christo,
dominado pelo desprendimento divino e pela abdicao na vontade do
Senhor, duvidava no s do direito de defeza mas at da legitimidade de
accusar a injuria e se queixar. Na hesitao do combatente revelar-se-ia
um eterno problema de consciencia; na apreciao do facto accidental
transpareceria o conflicto, porventura insoluvel, da religio da honra e
da religio de Deus. Mas o que, com certeza, se sumia e dissipava era o
ultimo vestigio de sentimentos de orgulho.

No fundo, no poderia tel-os quem se sentiu presa de arrependimentos
porque expontaneamente reconheceu, desconfiando de haver caido em
erro, no ser dos menos sujeitos a ceder s vezes aos impulsos da
vivacidade[89]. Em ultima analyse, bem ponderados todos os
elementos que entravam na sua constituio moral e de que elle nos
deixou bastas indicaes, Alexandre Herculano no seria orgulhoso nem
humilde. Quem to singela e modestamente confessava gratido e, pelo
facto, se mostrava commum mortal, fraco e sujeito  bondade do auxilio
estranho; quem, longe de alardear independencias mentirosas e estultas a
que a comprehenso do proprio valor o poderia sem estranheza tentar,
declarava dever  intelligente previdencia de um rei a situao isenta
de encargos pesados que lhe permittiu dedicar-se por completo ao aturado
trabalho da composio da historia e haver emprehendido o estudo da
_Historia de Portugal_ para educao do principe, pagando ao filho a
divida que contraira com o pae e tributando em troca do po e do socego
que lhe concederam a fortuna immensa de talentos assombrosos: quem
pretendia collocar-se n'esse terreno cho da fraqueza e do affecto
vulgar, no seria nem orgulhoso nem humilde, seria apenas um justo,
pedindo justia para si pelos impulsos da mesma rectido em que aos
estranhos procurava fazel-a, tendo reclamado o seu logar entre os
da sua graduao moral, sem ignorancia ou preterio dos que por
qualquer titulo lhe estavam acima, e muito menos sem desprezo dos que
lhe ficavam inferiores, sem prescindir dos direitos que possuia e sem
regateiar as obrigaes que lhe cabiam ou occultar fraquezas a que se
reputava exposto. Julgaram-no orgulhoso, porque alliando a fora 
justia, uma virilidade intemerata a um sentimento indefectivel do
dever, abominando a impostura, a hypocrisia, toda a ostentao de falsa
modestia, no cedendo a incentivos do proprio capricho, se  que por
elle passaram, affrontando valoroso toda a contingencia, disse de si e
dos outros com uma energia superior toda a verdade.  singular at que
seja quasi estranha ao caracter de Alexandre Herculano a melancolia,
esse suave desfallecimento e queixume proximos da voluptuosidade na
mgoa; no seu peito smente responderiam  dr a tristeza, os soluos
ingentes e as lagrimas abundantes e francas de vencidos. A magnitude da
reaco, o grito de mortificao denunciava a valentia do opprimido, as
contraces gigantescas em que se debatia antes de succumbir, e nunca a
morbida debilidade de quem se allivia renunciando ao seu querer e
entregando-se s fluctuaes do destino.

A robustez inviolavel no combate, na crena e no soffrimento
consentiu-lhe a sinceridade e a largueza na ternura. Smente os
verdadeiramente fortes a possuem. Demanda profundezas taes de
desprendimento, to larga vibrao de sympathia, que s a confiana de
uma perfeita fortaleza intima as admitte. A bondade e o affecto
vulgares, justamente porque so fracos, no ousam sujeitar-se a perdas,
guardam sempre com avareza, em toda a expanso carinhosa, certa reserva
de um egoismo que nem por instantes descura os seus pequeninos
interesses. Mas Alexandre Herculano, porque era forte, pde ser terno
sem pusillanimidades de uma acanhada prudencia. Podia amar esquecendo-se
por completo no amor; instinctos vigorosos o afoitavam, assegurando-lhe
que em toda a abdicao o seu ser se enriquecia em vez de alienar e
depauperar-se. As suas relaes com D. Pedro V e as cartas intimas 
esposa, das quaes com muita razo se tornou famosa a que vem publicada
no _Estudo Critico-Historico de Alexandre Herculano_, de D. Antonio
Snchez Moguel, lido na Real Academia de Historia de Madrid, so
testemunho eloquente de como o amor sublimado d'aquelle inspirado
apostolo baixou intacto e perfeito das regies em que  um poder divino,
universal e soberano, para o conforto do lar e para o respeito e
dedicao de homem a homem, em que se torna doura, encanto e lenitivo
da vida mortal dos miseros seres ephemeros onde habita a consciencia
eterna. Esse homem, que no podia ignorar a sua estatura herculea porque
as rudezas das batalhas e dos trabalhos lh'a punham em prova e em
evidencia aos olhos dos estranhos e aos proprios olhos, no temia
aviltar-se, ou sequer amesquinhar-se, publicando que o rei, um moo,
comeava a exercer sobre elle aquella especie de absolutismo moral que,
provavelmente, aos trinta annos havia de exercer, se vivesse, no geral
dos animos; no tinha pejo nem admittia desdouro em se confessar
vencido pela vontade e pelo entendimento alheio, satellite do prestigio
d'aquelle deante do qual, pela edade e pela experiencia, ainda que por
mais no fosse, poderia sem offensa allegar superioridade. E, ao mesmo
tempo, as mos que votou ao trabalho da terra e n'elle endurecera, para
as purificar e avigorar n'aquelle salutar mestr e sacerdocio, guardavam
doce flexibilidade de ternura, capaz de proteger e amaciar o ninho em
que abrigava a companheira e de a amar com carinho, interessado e
collaborando de continuo nas suas fainas, indulgente para os seus
appetites e sollicito em lhe alliviar enfermidades.

Da grandeza stoica reservou para si smente a fora de supportar
contrariedades e dres, remindo-se das suas feridas pela propria
energia. Mas o que de frieza, impassibilidade e orgulhoso isolamento e
desprendimento houvesse n'aquella doutrina, isso dissipou-o, apagou-o no
fogo das emoes affectivas, na expanso ingenita de sympathia o de
dedicao, nos apetites e doura de aturado commercio com os homens.
Val-de-Lobos consolou-o de muita amargura; collocou-o a salvo do
desgosto de muita vilania, a distancia sufficiente para lhe no sentir
continuadamente as picaduras irritantes; libertou-o na contemplao e
beatitude dos mundos da infinita ingenuidade. Mas no foi sem lhe fazer
pagar seu preo, sem lhe impr enfados da soledade, vaga saudade. Alguma
cousa alli lho faltaria que a rigidez estoica no podia supprir. O
stoicismo, quando traduzido na existencia concreta, tinha suas
tyrannias. A Val-de-Lobos no chegava o tumulto da cidade, o rumor das
suas infamias, das suas dissipaes e das suas depravadas demencias; mas
calava-se tambem, no affastamento dos homens, o murmurio de amizades,
aspiraes e crenas, que todo o corao amoravel escuta e repete,
distinguindo-o no meio de pragas e discordias, alimentando-o e
alimentando-se por esse pulsar de harmonia que incessantemente
funde a sua vida na vida estranha. Sequioso d'esses filtros d'amor,
d'esse sustento que fra a paixo de toda a sua existencia, para dar e
receber o qual combatera, estudra e se exaltra em esperanas, em
combates, e em fadigas de apostolado e na febre das creaes do genio,
no lhe supportou sem lamentos a privao, quando os muros da voluntaria
clausura em que se encerrra o impediram de o possuir em abundancia, de
todo lh'o roubando at durante longas horas. Na _Advertencia_ que
precede o primeiro volume dos _Opusculos_, explicando porque comeara a
ajuntar os retalhos dispersos do seu passado intellectual, Alexandre
Herculano, com a habitual e irreprimivel senceridade de todos os seus
passos, no nos occulta como e quando o ermo lhe fra tambem pesado. Nem
s o espectaculo e a vozeria infernal dos odios e atropelos das cobias
da multido importavam magoas. Outras se encontravam na sua ausencia,
ainda que inspirada por uma sagrada repulso. Eram differentes de
caracter mas identicas na essencia: ou um rumor de sympathia nos falte
em absoluto e o substitua um frigido silencio, ou o nosso corao sinta
e chore a divergencia e opposio entre os seus anceios e os impulsos
alheios, em qualquer caso deplora a separao dos homens, o
apartamento moral ou physico dos nossos irmos, e suspira pela sua
proximidade.

Procurando allivio a semelhantes males, proprios da ternura do seu
temperamento e caraterisando-o fundamente n'esse ponto, para lhes
moderar os effeitos comeou Alexandre Herculano a colligir e ordenar nos
ultimos annos da vida os seus escriptos dispersos. Para o velho que
vive na granja, na quinta, no casal, como que perdidos por entre as
collinas e serras do nosso anfractuoso paiz, ha na existencia uma
condio que todos os annos lhe prostra o animo por alguns mezes, doena
moral, mancha negra da vida rustica, facil de evitar nas cidades.  o
tedio das longas noites de inverno; das horas estereis em que o peso do
silencio e da soledade cai com duplicada fora sobre o espirito. Para o
velho do ermo, n'esses intervallos da vida exterior, a corrente
impetuosa do tempo parece chegar de subito a pgo dormente e espraiar-se
pela sua superficie. A leitura raramente o acaricia, porque os livros
novos so raros. A decima viso da mesma ideia, vestida do seu decimo
trajo, repelle-o, no o distre. As convices ardentes, as alegrias das
illuminaes subitas, as coleras e indignaes que inspiram e que, na
mocidade e nos annos viris, enchem a cella do estudo de
turbulencias interiores, de arrebatamentos indomaveis, de debates
inaudiveis, de lagrimas no sentidas, de amargo sorrir, cousas so que
se desvaneceram. Matou-as o gear do inverno da existencia... para o
velho no ha a febre da alma que devora o tempo...  verdade que a
natureza compensa o esmorecer e passar do vigor e da actividade
intellectual com a propria somnolencia do espirito, voluptuosidade da
velhice, ameno e dourado pr do sol, que se refrange no espectro da
sepultura j visinha e o illumina suavemente. Mas o dormitar do
entendimento, para ser deleitoso enleio, exige o movimento externo e as
singelas occupaes e cuidados da vida campestre. Sem isso, e  isso que
falta muitas vezes nas interminaveis noites de inverno, a inercia da
intelligencia, que vagueia no indefinito sem o norte da realidade,
vae-se convertendo pouco a pouco em intoleravel tormento; tormento no
qual ha, por fim, o que quer que seja da cellula circular e
esmeradamente branqueiada, onde o grande criminoso  entregue, ssinho,
 eumenide da propria consciencia. N'esta extremidade, por mais
somnolenta e obscurecida que esteja a mente, por mais que ella ame o
repouso, o trabalho do espirito, ainda o mais arido,  preferivel,
cem vezes preferivel, ao fluctuar indeciso no vacuo[90].

O stoicismo bastaria para infundir na alma de Alexandre Herculano uma
robustez inviolavel; mas no teria sido sufficiente para lhe facultar um
contentamento indefectivel e povoar de alegria a soledade.  que o
stoico commungra do amor de Christo, e esse annuncia desgraa a quem se
encontrar ssinho. Mandava-lhe amar a Deus sobre todas as cousas, e esse
bem o encontrava no ermo; mandava-lhe porm simultaneamente amar o
proximo como a elle mesmo se amava, e esse preceito no dispensava a
presena constante dos homens, desvairados ou santos que elles fossem,
para lhes minorar a desgraa ou para lhes seguir o exemplo, em todo o
caso para correr seu destino e o partilhar. O stoico pde fortalecer o
seu adepto com uma disciplina mas no pde supprir o alento humano que
anima o christo, esse anceio de dar e receber constantemente que  a
sua razo de ser. Por isso, sentindo que lhe faltava, corria a juntar-se
em espirito aos homens e a partilhar das suas preoccupaes quem pela
presso cruel de sua sorte fra pessoalmente lanado fra dos turbilhes
do mundo.

Sem duvida, pela firmeza de animo e mais pelo exemplo do que por
qualquer tentativa de systematisao philosophica ou defeza intencional
de doutrina, a vida de Alexandre Herculano abunda na conformidade com os
preceitos do stoicismo. Em grande extenso, poderia Seneca descobrir
n'elle um discipulo. Acceitou-lhe leis fundamentaes. Confiou na virtude,
teve-a pelo maior dos bens; n'ella se alegrou e desprezou os
accidentes da fortuna. Attingiu a invulneravel grandeza de espirito
que no se eleva nem abate com a boa ou m sorte. Sentiu que em todo o
homem bom habita um deus, um espirito sagrado, indicador e guarda do
que  bem e do que  mal, um ser divino e razo que reside no mundo e
em todas as suas partes. Pela temperana, pela paciencia, pela coragem
e pelo culto vigilante da integridade do caracter moral, saccudindo
todas as servides, e sobretudo as servides dos sentidos, da cobia, do
luxo e da avareza, dominando as paixes e submettendo-se puramente aos
mandados da razo, ensinou-nos eloquentemente como se enriquece no
augmentando os bens mas diminuindo as necessidades. Mostrou-nos assim
como a virtude  accessivel a todos e at como a adversidade se converte
em beno, porque conheceu a sua propria fora e valor pondo em
prova a virtude, quando a desgraa lhe bateu  porta.

Mas esse stoicismo que podia ser e foi alicerce de fortaleza, no tinha
o calor bastante para fco de irradiao, para inundar de luz e conforto
a alma estranha. E inflamou-o ento no evangelho de Christo, ungindo-o
de piedade e por ella o convertendo  humildade, supplicando dos cus
para os outros a indulgencia e auxilio que por intangivel capacidade de
soffrer no carecia de pedir para si.

Abrangendo d'este modo todos os grus da dignidade humana, da aco 
contemplao, da firmeza  caridade, do humano ao divino, do heroismo 
santidade, Alexandre Herculano a todos honrou igualmente,
engrandecendo-se e legando-nos um exemplo unico e supremo na historia do
povo portuguez.


    [1] Alexandre Herculano, _Poesias_. Lisboa, 1860, pag. 165.

    [2] _Poesias_, pag. 172.

    [3] _Poesias_, pag. 178.

    [4] _Poesias_, pag. 182.

    [5] _Poesias_, pag. 182.

    [6] _Poesias_, pag. 56.

    [7] _Poesias_, pag. 208.

    [8] _Poesias_, pag. 169.

    [9] Emerson, _Essays_ (Grant Richards, London, 1902). Pag. 199.

    [10] Oliveira Martins, _Portugal contemporaneo_. Lisboa, 1881, tom.
    II, pag. 305.

    [11] _Eurico_, 5. edio. Lisboa, 1864, pag. 10.

    [12] _Eurico_, pag. 15.

    [13] _Eurico_, pag. 19.

    [14] _Eurico_, pag. 22.

    [15] _Eurico_, pag. 30.

    [16] _Poesias_, pag. 57.

    [17] _Poesias_, pag. 51.

    [18]

        E eu comparei o solitario obscuro
        Ao inquieto filho das cidades:
        Comparei o deserto silencioso
        Ao perpetuo ruido que sussurra
        Pelos palacios do abastado e nobre,
        Pelos paos dos reis; e condo-me
        Do corteso soberbo que s cura
        De honras, haveres, glorias que se compram
        Com maldies e perennal remorso.
        Oh cidade, cidade que trasbordas
        De vicios, de paixes e de amarguras!
        .........................................
        Soberba prostituta alardeiando
        Os theatros, e os paos e o ruido
        Das carroas dos nobres recamadas
        De ouro e prata, e os prazeres de uma vida
        Tempestuosa e o tropeiar continuo
        De fervidos ginetes que alevantam
        O p e o lodo cortezo das praas
        .........................................
        Braqueado sepulcro, que misturas
        A opulencia, a miseria, a dr e o goso
        Honra e infamia, pudor e impudecicia
        ......................................... 
                          _Poesias_, pag. 52, 53 e 54.

    [19]

        Bello ermo! Eu hei de amar-te emquanto esta alma
        Aspirando o futuro alm da vida
        E um halito dos cus, gemer atada
         columna do exilio, a que se chama
        Em lingua vil e mentirosa o mundo.
        Eu hei de amar-te, oh valle, como um filho
        Dos sonhos meus. A imagem do deserto
        Guardal-a-ei no corao, bem junto
        Com minha f, meu unico thesouro.
                   _Poesias_, pag. 50 e 51.

    [20] _Poesias_, pag. 112.

    [21] _Poesias_, pag. 27.

    [22] _Poesias_, pag. 20.

    [23] _Poesias_, pag. 4.

    [24] _Poesias_, pag. 31.

    [25] _Poesias_, pag. 61.

    [26] _Poesias_, pag. 49.

    [27] _Poesias_, pag. 81, 85 e 86.

    [28] _Poesias_, pag. 89 e seg.

    [29] _A Tempestade_,  o titulo, bem caracteristico, da poesia em
    que o exprimiu.

    [30] _Poesias_, pag. 92 e 93.

    [31] _Poesias_, pag. 111.

    [32] _Monge de Cistr_, tom. I, pag. VII, (Lisboa, 1859).

    [33] _Monge de Cistr_, tom. I, pag. III.

    [34] _Monge de Cistr_, tom. I, pag. VIII.

    [35] _Monge de Cistr_, tom. I, pag. XI.

    [36] _Opusculos_, tom. V, 3. ed., pag. 294.

    [37] _Opusculos_, tom. IX, pag. 278.

    [38] _Opusculos_, tom. III, 2. edio, pag. 70.

    [39] _Monge de Cistr_, tom. II, pag. 376.

    [40] _O Bobo_, pag. 31 e 14.

    [41] _Monge de Cistr_, tom. I, pag. XII.

    [42] _Monge de Cistr_, tom. I, pag. IX a XII.

    [43] _Historia de Portugal_, 3. ed., tom. II, pag. 93 e 94.

    [44] _Historia de Portugal_, tom. II, pag. 137 e 138.

    [45] _Monge de Cistr_, tom. I, pag. 61.

    [46] George Bernard Shaw.

    [47] _Opusculos_, tom. III, pag. 65 e 66, 2. edio.

    [48] _Opusculos_, tom. II, pag. 217 e seg., 2. edio, Lisboa,
    1880.

    [49] _Monge de Cistr_, tom. I, pag. 73 e 76.

    [50] Vid. o prologo da _Historia da Origem e do Estabelecimento da
    Inquisio em Portugal_.

    [51] _Monge de Cistr_, tom. I, pag. 262.

    [52] _Monge de Cistr_, tom. I, pag. 243.

    [53] _Monge de Cistr_, tom. I, pag. 219.

    [54] _Monge de Cistr_, tom. I, pag. 227.

    [55] _Monge de Cistr_, tom. II, pag. 70.

    [56] _Monge de Cistr_, tom. II, pag. 152.

    [57] _Monge de Cistr_, tom. II, pag. 137.

    [58] _Monge de Cistr_, tom. II, pag. 78.

    [59] _Historia de Portugal_, tom. III, pag. 223 e seg., 8. edio.

    [60] _Opusculos_, tom. II, _Mousinho da Silveira_.

    [61] _Opusculos_, tom. III, pag. 111.

    [62] _Opusculos_, tom. III, pag. 113 e seg.

    [63] _Opusculos_, tom. III, pag. 121 e 122.

    [64] _Reporter_, n. 178, 28 de junho de 1888. Cartas de Alexandre
    Herculano a Oliveira Martins.

    [65] Stuart Mill viveu de 1806 a 1873, antecedendo portanto
    Alexandre Herculano quatro annos no nascimento e na morte.

    [66] _Mes Mmoires._ Trad. fr.; Paris, 1874. Pag. 221 e seg.

    [67] Alexandre Herculano. _Opusculos_, tom. I, pag. XV. 4. edio.
    Lisboa, 1897.

    [68] Vid. _Poesias_.

    [69]  singular e significativa certa frieza que transparece no
    elogio, quando Jos Estevo apreciou a pouca fortuna de Alexandre
    Herculano no parlamento. Dizia o tribuno na _Revoluo de Setembro_,
    em um pequeno artigo que o meu erudito conterraneo Sr. Marques Gomes
    transcreve no seu _Jos Estevo, Apontamentos para a sua
    Biographia_:

    Coube a palavra ao Sr. Alexandre Herculano, litterato conhecido e
    deputado debutante. O discurso d'este senhor foi modelo em dico,
    mesquinho na inteno e falho nos meios. Este senhor deputado,
    tendo-se declarado opposicionista, no proferiu uma palavra de
    censura contra o ministerio, e querendo inculpar as administraes
    da Revoluo mostrou que nem sempre os bons desejos supprem a
    escassez de recursos. O senhor deputado  um talento, e pde vir a
    ser um bom orador applicando os encantos da sua dico aos termos
    logicos das questes.

    Ora Jos Estevo era de uma generosidade e largueza d'animo com os
    adversarios verdadeira e superiormente nobre. Se escreveu com
    semelhante leveza de Alexandre Herculano foi porque em consciencia a
    tinha por merecida, e nunca por qualquer sombra de mesquinhez
    partidaria ou pessoal, de que de todo e sempre se achou isento. E
    desconheceu-o, ou melhor, talvez o conhecesse mal n'aquelle tempo,
    porque a diversidade de temperamento tornava embaraosa e lenta a
    mutua comprehenso dos caracteres, que de resto veio a mostrar-se. 
    sabido como esses dois homens acabaram por se estimar profundamente,
    como o exigia a conformidade da grandeza moral de um e outro.

    [70] _Monge de Cistr_, tom. II, pag. 57 e seg.

    [71] Ernest Howard Crosby.

    [72] _Opusculos_, tom. II, 2. edio, pag. 141 e 142.

    [73] A carta em que propunha a Bertrand a edio da _Historia de
    Portugal_  sobre esse ponto sufficientemente elucidativa.
    Encontram-se publicadas pelo Sr. Dr. Jos Pessanha as suas passagens
    principaes, no _Boletim da Real Associao dos Archeologos
    Portuguezes_, em o numero especial com que recentemente aquella
    aggremiao commemorou o centenario de Alexandre Herculano. Todas as
    condies commerciaes da empreza confiava  experiencia e probidade
    do editor; nem sequer se importava de as determinar; e gracejava da
    propria incapacidade para semelhante ajuste e para materias do
    negocio em geral.

    [74] _Monge de Cistr_, tom. I, pag. 122.

    [75] _Monge de Cistr_, tom. II, pag. 9.

    [76] _Monge de Cistr_, tom. II, pag. 170.

    [77] _Monge de Cistr_, tom. II, pag. 331.

    [78] _Monge de Cistr_, tom. II, pag. 246 e 247.

    [79] _Opusculos_, tom. IV, 2. edio, pag. 102.

    [80] _Monge de Cistr_, tom. XI, pag. 377.

    [81] _Historia de Portugal_, tom. IV, pag. 5 e 6.

    [82] _O Bobo_, pag. 261.

    [83] Graas ainda  generosidade do Sr. Marques Gomes, foi-me
    possivel lr a representao das pessoas d'Aveiro pedindo ao governo
    que a Alexandre Herculano se facultassem todos os meios de continuar
    a _Historia de Portugal_. A representao est publicada no _Campeo
    do Vouga_, n. 536, de 16 de julho de 1857. Conheci a maior parte
    dos homens que a assignaram. So tudo o que em Aveiro havia de
    superior pela intelligencia e situao social; e encontro alli, a
    par dos liberaes mais exaltados, os nomes de catholicos severos e
    intransigentes, legitimistas ferrenhos, cabralistas, padres e
    seculares de todas as classes.

    Diz-me mais o Sr. Marques Gomes que a representao foi promovida
    por Jos Estevo, o que de resto logo suspeitei porque no falta
    alli a assignatura de nem um s dos amigos mais dedicados do
    tribuno, dos que cegamente o seguiam. Mas, se duvidas houvesse a tal
    respeito, estavam tiradas em a nota que o Sr. Marques Gomes
    encontrou nos apontamentos de seu pae, o dr. Francisco Thom Marques
    Gomes. Este apontou o dia em que assignou a representao, e
    accrescenta que o fez a pedido de Jos Estevo.

    [84] Vid. toda a _Prefao_ da 3. edio da _Historia de Portugal_.

    [85] _O Bobo_, pag. 89 e 92.

    [86] _O Bobo_, pag. 254.

    [87] _Opusculos_, tom. III, pag. 30 a 32 da 2. ed.

    [88] _Opusculos_, tom. III, pag. 83 e 84 da 2. ed.

    [89] _Opusculos_, tom. III, pag. 63.

    [90] _Opusculos_, tom. I, pag. IX a XII da 4. ed.



INDICE


INDICE

                                                Pag.

    PROLOGO                                     VII
    _Fascinao do Ermo_                          1
    O poeta e a solido                           3
    Paganismo                                    15
    Caracter religioso                           17
    Pessimismo                                   19
    _Apparies e Espectros_                     27
    A patria e a tradio                        28
    O romance historico                          32
    O historiador                                44
    Sentimento da justia                        54
    A liberdade e a historia                     57
    Tolerancia religiosa                         60
    Espectros do despotismo                      63
    O povo                                       70
    A burguezia                                  72
    As liberdades municipaes                     74
    Resgate das servides                        82
    Concepo da grandeza do povo                84
    A gloria                                     86
    O jurisconsulto                              91
    O socialismo e a historia                    94
    _Escudos de Fortaleza_                      111
    Religio                                    112
    Alexandre Herculano e Jos Estevo          114
    Christianismo                               119
    Symbolismo religioso                        122
    Caracter ethnico                            129
    Liberdade                                   130
    O moralista                                 139
    Sinceridade                                 149
    Humorismo                                   158
    O apostolo                                  162
    Orgulho                                     165
    Humildade                                   168
    Sympathia e ternura                         172
    O stoicismo de Alexandre Herculano          179




DO MESMO AUCTOR

    _Vozes do meu lar_, 1 vol.
    _Na Paz do Senhor_, romance, 1 vol.
    _Reino da Saudade_, romance, 1 vol.
    _Via Redemptora_, 1 vol.
    _Apostolos da Terra_, 1 vol.
    _Sonho de Perfeio_, romance, 1 vol.
    _S. Francisco d'Assis_, 1 vol.
    _Jos Estevo_, 1 vol.
    _S. Francisco d'Assis_, 1 vol.
    _Jos Estevo_, 1 vol.






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Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
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The Foundation is committed to complying with the laws regulating
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States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
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SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
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International donations are gratefully accepted, but we cannot make
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Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
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works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


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