Project Gutenberg's O crime do padre Amaro, by Jos Maria Ea de Queirs

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Title: O crime do padre Amaro
       scenas da vida devota

Author: Jos Maria Ea de Queirs

Release Date: April 13, 2010 [EBook #31971]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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     *Nota de editor:* Devido  quantidade de erros tipogrficos
     existentes neste texto, foram tomadas vrias decises quanto 
     verso final. Em caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com
     o original. No final deste livro encontrar a lista de erros
     corrigidos.

                                            Rita Farinha (Abril 2010)




O CRIME

DO

PADRE AMARO




Obras do mesmo auctor:

*Os Maias.* 2 grossos volumes. 2$000

*O Crime do Padre Amaro.* Terceira edio inteiramente refundida,
recomposta, e differente na frma e na aco da edio primitiva. 1
grosso volume. 1$200

*O Primo Bazilio.* Segunda edio. 1 grosso volume. 1$000

*A Reliquia.* 1 grosso volume. 1$000

*O Mandarim.* Segunda edio. 1 volume. 500

No prelo:

*Correspondencia de Fradique Mendes.* 1 volume.




EA DE QUEIROZ


O CRIME

DO

PADRE AMARO

SCENAS DA VIDA DEVOTA

TERCEIRA EDIO

Inteiramente refundida, recomposta, e differente na frma e na aco da
edio primitiva



PORTO

LIVRARIA INTERNACIONAL DE ERNESTO CHARDRON

Casa editora

*LUGAN & GEMELIOUX, Successores*

1889

Todos os direitos reservados




Porto: Typ. de A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 70




NOTA

(DA 2.^a EDIO)


O Crime do Padre Amaro recebeu no Brazil e em Portugal alguma atteno
da Critica, quando foi publicado ulteriormente um romance intitulado--O
Primo Bazilio. E no Brazil e em Portugal escreveu-se (sem todavia se
adduzir nenhuma prova effectiva) que O Crime do Padre Amaro era uma
imitao do romance do snr. E. Zola--La Faute de l'Abb Mouret; ou que
este livro do auctor do Assomoir e de outros magistraes estudos sociaes
suggerira a ida, os personagens, a inteno do Crime do Padre Amaro.

Eu tenho algumas razes para crr que isto no  correcto. O Crime do
Padre Amaro foi escripto em 1871, lido a alguns amigos em 1872, e
publicado em 1874. O livro do snr. Zola, La Faute de l'Abb Mouret (que
 o quinto volume da srie Rougon Macquart), foi escripto e publicado em
1875.

Mas (ainda que isto parea sobrenatural) eu considero esta razo apenas
como subalterna e insufficiente. Eu podia, emfim, ter penetrado no
cerebro, no pensamento do snr. Zola, e ter avistado, entre as frmas
ainda indecisas das suas creaes futuras, a figura do abbade
Mouret,--exactamente como o veneravel Anchises no valle dos Elyseos
podia vr, entre as sombras das raas vindouras fluctuando na nevoa
luminosa do Lethes, aquelle que um dia devia ser Marcellus. Taes coisas
so possiveis. Nem o homem prudente as deve considerar mais
extraordinarias que o carro de fogo que arrebatou Elias aos cos--e
outros prodigios provados.

O que, segundo penso, mostra melhor que a accusao carece de exactido,
 a simples comparao dos dois romances. La Faute de l'Abb Mouret ,
no seu episodio central, o quadro allegorico da iniciao do primeiro
homem e da primeira mulher no amor. O abbade Mouret (Sergio), tendo sido
atacado d'uma febre cerebral, trazida principalmente pela sua exaltao
mystica no culto da Virgem, na solido d'um valle abrazado da Provena
(primeira parte do livro),  levado para convalescer ao _Paradou_,
antigo parque do seculo XVII a que o abandono refez uma virgindade
selvagem, e que  a representao allegorica do Paraiso. Ahi, tendo
perdido na febre a consciencia de si mesmo a ponto de se esquecer do seu
sacerdocio e da existencia da aldeia, e a consciencia do universo a
ponto de ter medo do sol e das arvores do _Paradou_ como de monstros
estranhos--erra, durante mezes, pelas profundidades do bosque inculto,
com Albina que  o genio, a Eva d'esse logar de legenda; Albina e
Sergio, semi-ns como no Paraiso, procuram sem cessar, por um instincto
que os impelle, uma arvore mysteriosa, da rama da qual cae a influencia
aphrodisiaca da materia procreadora; sob este symbolo da Arvore da
Sciencia se possuem, depois de dias angustiosos em que tentam descobrir,
na sua innocencia paradisiaca, o meio physico de realisar o amor;
depois, n'uma mutua vergonha subita, notando a sua nudez, cobrem-se de
folhagens; e d'ahi os expulsa, os arranca o padre Archangins, que  a
personificao theocratica do antigo Archanjo. Na ultima parte do livro
o abbade Mouret recupera a consciencia de si mesmo, subtrae-se 
influencia dissolvente da adorao da Virgem, obtem por um esforo da
orao e um privilegio da graa a extinco da sua virilidade, e
torna-se um asceta sem nada d'humano, uma sombra cahida aos ps da cruz;
e,  sem que lhe mude a cr ao rosto que asperge e responsa o esquife de
Albina, que se asphyxiou no _Paradou_ sob um monto de flres de
perfumes fortes.

Os criticos intelligentes que accusaram O Crime do Padre Amaro de ser
apenas uma imitao da Faute de l'Abb Mouret no tinham infelizmente
lido o romance maravilhoso do snr. Zola que foi talvez a origem de toda
a sua gloria. A semelhana casual dos dois titulos induziu-os em erro.

Com conhecimento dos dois livros, s uma obtusidade cornea ou m f
cynica poderia assemelhar esta bella allegoria idyllica, a que est
misturado o pathetico drama d'uma alma mystica, ao Crime do Padre Amaro
que, como podem vr n'este novo trabalho,  apenas, no fundo, uma
intriga de clerigos e de beatas tramada e murmurada  sombra d'uma velha
S de provincia portugueza.

Aproveito este momento para agradecer  Critica do Brazil e de Portugal
a atteno que ella tem dado aos meus trabalhos.


Bristol, 1 de janeiro de 1880.

_Ea do Queiroz._




O CRIME

DO

PADRE AMARO




I


Foi no domingo de Paschoa que se soube em Leiria que o parocho da S,
Jos Migueis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia. O parocho
era um homem sanguineo e nutrido, que passava entre o clero diocesano
pelo _comilo dos comiles_. Contavam-se historias singulares da sua
voracidade. O Carlos da Botica--que o detestava--costumava dizer, sempre
que o via sahir depois da ssta, com a face afogueada de sangue, muito
enfartado:

--L vai a giboia esmoer. Um dia estoura!

Com effeito estourou, depois d'uma ceia de peixe-- hora em que
defronte, na casa do dr. Godinho que fazia annos, se polkava com
alarido. Ninguem o lamentou, e foi pouca gente ao seu enterro. Em geral
no era estimado. Era um aldeo; tinha os modos e os pulsos d'um
cavador, a voz rouca, cabellos nos ouvidos, palavras muito rudes.

Nunca fra querido das devotas: arrotava no confessionario; e, tendo
vivido sempre em freguezias da aldeia ou da serra, no comprehendia
certas sensibilidades requintadas da devoo: perdera por isso, logo ao
principio, quasi todas as confessadas, que tinham passado para o polido
padre Gusmo, to cheio de _labia_!

E quando as beatas, que lhe eram fieis, lhe iam fallar de escrupulos, de
vises, Jos Migueis escandalisava-as, rosnando:

--Ora historias, santinha! Pea juizo a Deus! Mais milo na bola!

As exageraes dos jejuns sobretudo irritavam-no:

--Coma-lhe e beba-lhe, costumava gritar, coma-lhe e beba-lhe, creatura!

Era miguelista--e os partidos liberaes, as suas opinies, os seus
jornaes enchiam-no d'uma clera irracionavel:

--Cacete! cacete! exclamava, meneando o seu enorme guardasol vermelho.

Nos ultimos annos tomra habitos sedentarios e vivia isolado--com uma
criada velha e um co, o _Joli_. O seu unico amigo era o chantre
Valladares que governava ento o bispado, porque o senhor bispo D.
Joaquim gemia, havia dois annos, o seu rheumatismo n'uma quinta do alto
Minho. O parocho tinha um grande respeito pelo chantre, homem scco, de
grande nariz, muito curto de vista, admirador d'Ovidio--que fallava
fazendo sempre boquinhas e com alluses mythologicas.

O chantre estimava-o. Chamava-lhe _Frei Hercules_.

--_Hercules_ pela fora, explicava sorrindo, _Frei_ pela gula.

No seu enterro elle mesmo lhe foi aspergir a cova; e, como costumava
offerecer-lhe todos os dias rap da sua caixa d'ouro, disse aos outros
conegos, baixinho, ao deixar-lhe cahir sobre o caixo, segundo o ritual,
o primeiro torro de terra:

-- a ultima pitada que lhe dou!

Todo o cabido riu muito com esta graa do senhor governador do bispado;
o conego Campos contou-a  noite ao ch em casa do deputado Novaes; foi
celebrada com risos deleitados, todos exaltaram as virtudes do chantre,
e affirmou-se com respeito--_que sua excellencia tinha muita pilheria!_

Dias depois do enterro appareceu, errando pela Praa, o co do parocho,
o _Joli_. A criada entrra com sezes no hospital; a casa fra fechada;
o co, abandonado, gemia a sua fome pelos portaes. Era um gso pequeno,
extremamente gordo,--que tinha vagas semelhanas com o parocho. Com o
habito das batinas, avido d'um dono, apenas via um padre punha-se a
seguil-o, ganindo baixo. Mas nenhum queria o infeliz _Joli_;
enxotavam-no com as ponteiras dos guardasoes; o co, repellido como um
pretendente, toda a noite uivava pelas ruas. Uma manh appareceu morto
ao p da Misericordia; a carroa do estrume levou-o e, como ninguem
tornou a vr o co na Praa, o parocho Jos Migueis foi definitivamente
esquecido.

Dois mezes depois soube-se em Leiria que estava nomeado outro parocho.
Dizia-se que era um homem muito novo, sahido apenas do seminario. O seu
nome era Amaro Vieira. Attribuia-se a sua escolha a influencias
politicas, e o jornal de Leiria, _A Voz do Districto_, que estava na
opposio, fallou com amargura, citando o Golgotha, no _favoritismo da
crte_ e na _reaco clerical_. Alguns padres tinham-se escandalisado
com o artigo; conversou-se sobre isso, acremente, diante do senhor
chantre.

--No, no, l que ha favor, ha; e que o homem tem padrinhos, tem, disse
o chantre. A mim quem me escreveu para a confirmao foi o Brito Correia
(Brito Correia era ento ministro da justia). At me diz na carta que o
parocho  um bello rapago. De sorte que--acrescentou sorrindo com
satisfao--depois de _Frei Hercules_ vamos talvez ter _Frei Apollo_.

Em Leiria havia s uma pessoa que conhecia o parocho novo: era o conego
Dias que fra, nos primeiros annos do seminario, seu mestre de Moral. No
seu tempo, dizia o conego, o parocho era um rapaz franzino, acanhado,
cheio de espinhas carnaes...

--Parece que o estou a vr com a batina muito coada e cara de quem tem
lombrigas!... De resto bom rapaz. E espertote...

O conego Dias era muito conhecido em Leiria. Ultimamente engordra, o
ventre saliente enchia-lhe a batina; e a sua cabecinha grisalha, as
olheiras papudas, o beio espesso faziam lembrar velhas anecdotas de
frades lascivos e glotes.

O tio Patricio, o _antigo_, negociante da Praa, muito liberal, e que
quando passava pelos padres rosnava como um velho co de fila, dizia s
vezes ao vl-o atravessar a Praa, pesado, ruminando a digesto,
encostado ao guardachuva:

--Que maroto! Parece mesmo D. Joo VI!

O conego vivia s com uma irm velha, a snr.^a D. Josepha Dias, e uma
criada, que todos conheciam tambem em Leiria, sempre na rua, entrouxada
n'um chale tingido de negro e arrastando pesadamente as suas chinelas de
ourelo. O conego Dias passava por ser rico; trazia ao p de Leiria
propriedades arrendadas, dava jantares com per, e tinha reputao o seu
vinho _duque_ de 1815. Mas o facto saliente da sua vida--o facto
commentado e murmurado--era a sua antiga amizade com a snr.^a Augusta
Caminha, a quem chamavam a S. Joanneira, por ser natural de S. Joo da
Foz. A S. Joanneira morava na rua da Misericordia e recebia hospedes.
Tinha uma filha, a Ameliasinha, rapariga de vinte e tres annos, bonita,
forte, muito desejada.

O conego Dias mostrra um grande contentamento com a nomeao de Amaro
Vieira. Na botica do Carlos, na Praa, na sacristia da S exaltou os
seus bons estudos no seminario, a sua prudencia de costumes, a sua
obediencia: gabava-lhe mesmo a voz: _um timbre que  um regalo!_

--Para um bocado de sentimento nos sermes da Semana Santa est a
calhar!

Predizia-lhe com emphase um destino feliz, uma conesia decerto, talvez a
gloria d'um bispado!

E um dia, emfim, mostrou com satisfao ao coadjutor da S, creatura
servil e calada, uma carta que recebera de Lisboa de Amaro Vieira.

Era uma tarde de agosto e passeavam ambos para os lados da Ponte Nova.
Andava ento a construir-se a estrada da Figueira: o velho passadio de
pau sobre a ribeira do Liz tinha sido destruido, j se passava sobre a
Ponte Nova, muito gabada, com os seus dois largos arcos de pedra, fortes
e atarracados. Para diante as obras estavam suspendidas por questes de
expropriao; ainda se via o lodoso caminho da freguezia de Marrazes,
que a estrada nova devia desbastar e encorporar; camadas de cascalho
cobriam o cho; e os grossos cylindros de pedra, que acalcam e recamam
os macadams, enterravam-se na terra negra e humida das chuvas.

Em roda da Ponte a paizagem  larga e tranquilla. Para o lado d'onde o
rio vem so collinas baixas, de frmas arredondadas, cobertas da rama
verde-negra dos pinheiros novos; em baixo, na espessura dos arvoredos,
esto os casaes que do quelles logares melancolicos uma feio mais
viva e humana--com as suas alegres paredes caiadas que luzem ao sol, com
os fumos das lareiras que pela tarde se azulam nos ares sempre claros e
lavados. Para o lado do mar, para onde o rio se arrasta nas terras
baixas entre dois renques de salgueiros pallidos, estende-se at os
primeiros areaes o campo de Leiria, largo, fecundo, com o aspecto de
aguas abundantes, cheio de luz. Da Ponte pouco se v da cidade; apenas
uma esquina das cantarias pesadas e jesuiticas da S, um canto do muro
do cemiterio coberto de parietarias, e pontas agudas e negras dos
cyprestes; o resto est escondido pelo duro monte ouriado de vegetaes
rebeldes, onde destacam as ruinas do Castello, todas envolvidas  tarde
nos largos vos circulares dos mochos, desmanteladas e com um grande ar
historico.

Ao p da Ponte, uma rampa desce para a alameda que se estende um pouco 
beira do rio.  um logar recolhido, coberto de arvores antigas.
Chamam-lhe a Alameda Velha. Alli, caminhando devagar, fallando baixo, o
conego consultava o coadjutor sobre a carta de Amaro Vieira, e sobre
uma ida que ella lhe dera, que lhe parecia de mestre! De mestre!
Amaro pedia-lhe com urgencia que lhe arranjasse uma casa de aluguel,
barata, bem situada, e se fosse possivel mobilada; fallava sobretudo de
quartos n'uma casa de hospedes respeitavel. Bem v o meu caro
Padre-Mestre, dizia Amaro, que era isto o que verdadeiramente me
convinha; eu no quero luxos, est claro: um quarto e uma saleta seria o
bastante. O que  necessario  que a casa seja respeitavel, socegada,
central; que a patra tenha bom genio e que no pea mundos e fundos;
deixo tudo isto  sua prudencia e capacidade, e creia que todos estes
favores no cahiro em terreno ingrato. Sobretudo que a patra seja
pessoa accommodada e de boa lingua.

Ora a minha ida, amigo Mendes,  esta: mettl-o em casa da S.
Joanneira! resumiu o conego com um grande contentamento.  rica ida,
hein?

--Soberba ida! disse o coadjutor com a sua voz servil.

--Ella tem o quarto de baixo, a saleta pegada e o outro quarto que pde
servir de escriptorio. Tem boa mobilia, boas roupas...

--Ricas roupas, disse o coadjutor com respeito.

O conego continuou:

-- um bello negocio para a S. Joanneira: dando os quartos, roupas,
comida, criada, pde muito bem pedir os seus seis tostes por dia. E
depois sempre tem o parocho de casa.

--Por causa da Ameliasinha  que eu no sei, considerou timidamente o
coadjutor. Sim, pde ser reparado. Uma rapariga nova... Diz que o senhor
parocho  ainda novo... Vossa senhoria sabe o que so linguas do mundo.

O conego tinha parado:

--Ora historias! Ento o padre Joaquim no vive debaixo das mesmas
telhas com a afilhada da mi? E o conego Pedroso no vive com a cunhada,
e uma irm da cunhada, que  uma rapariga de dezenove annos? Ora essa!

--Eu dizia... attenuou o coadjutor.

--No, no vejo mal nenhum. A S. Joanneira aluga os seus quartos,  como
se fosse uma hospedaria. Ento o secretario geral no esteve l uns
poucos de mezes?

--Mas um ecclesiastico... insinuou o coadjutor.

--Mais garantias, snr. Mendes, mais garantias! exclamou o conego. E
parando, com uma attitude confidencial:--E depois a mim  que me
convinha, Mendes! A mim  que me convinha, meu amigo!

Houve um pequeno silencio. O coadjutor disse, baixando a voz:

--Sim, vossa senhoria faz muito bem  S. Joanneira...

--Fao o que posso, meu caro amigo, fao o que posso, disse o conego. E
com uma entonao terna, risonhamente paternal:--que ella  merecedora,
 merecedora. Boa at alli, meu amigo!--Parou, esgazeando os
olhos:--Olhe que dia em que eu no lhe apparea pela manh s nove em
ponto, est n'um phrenesi! Oh creatura! digo-lhe eu, a senhora rala-se
sem razo. Mas ento,  aquillo! Pois quando eu tive a colica o anno
passado! Emmagreceu, snr. Mendes! E depois no ha lembrana que no
tenha! Agora, pela matana do porco, o melhor do animal  para o _padre
santo_, voss sabe?  como ella me chama.

Fallava com os olhos luzidios, uma satisfao babosa:

--Ah, Mendes! acrescentou,  uma rica mulher!

--E bonita mulher, disse o coadjutor respeitosamente.

--L isso! exclamou o conego parando outra vez. L isso! Bem conservada
at alli! Pois olhe que j no  criana! Mas nem um cabello branco, nem
um, nem um s! E ento que cr de pelle!--E mais baixo, com um sorriso
guloso:--E isto aqui!  Mendes, e isto aqui!--Indicava o lado do pescoo
debaixo do queixo, passando-lhe devagar por cima a sua mo papuda:--
uma perfeio! E depois mulher de aceio, muitissimo aceio! E que
lembranasinhas! No ha dia que me no mande o seu presente!  o
covilhete de geleia,  o pratinho d'arroz dce,  a bella murcella
d'Arouca! Hontem me mandou ella uma torta de ma. Ora havia de voss
vr aquillo! A ma parecia um creme! At a mana Josepha disse: Est
to boa que parece que foi cozida em agua benta!--E pondo a mo
espalmada sobre o peito:--So coisas que tocam a gente c por dentro,
Mendes! No, no  l por dizer, mas no ha outra.

O coadjutor escutava com a taciturnidade da inveja.

--Eu bem sei, disse o conego parando de novo e tirando lentamente as
palavras, eu bem sei que por ahi rosnam, rosnam... Pois  uma
grandissima calumnia! O que ,  que eu tenho muito apgo quella gente.
J o tinha em tempo do marido. Voss bem o sabe, Mendes.

O coadjutor teve um gesto affirmativo.

--A S. Joanneira  uma pessoa de bem! olhe que  uma pessoa de bem,
Mendes! exclamava o conego batendo no cho fortemente com a ponteira do
guardasol.

--As linguas do mundo so venenosas, senhor conego, disse o coadjutor
com uma voz chorosa. E depois d'um silencio acrescentou baixo:--Mas
aquillo a vossa senhoria deve-lhe sahir caro!

--Pois ahi est, meu amigo! Imagine voss que desde que o secretario
geral se foi embora a pobre da mulher tem tido a casa vazia: eu  que
tenho dado para a panella, Mendes!

--Que ella tem uma fazendita, considerou o coadjutor.

--Uma nesga de terra, meu rico senhor, uma nesga de terra! E depois as
decimas, os jornaes! Por isso digo eu, o parocho  uma mina. Com os seis
tostes que elle der, com o que eu ajudar, com alguma coisa que ella
tire da hortalia que vende da fazenda, j se governa. E para mim  um
allivio, Mendes.

-- um allivio, senhor conego! repetiu o coadjutor.

Ficaram calados. A tarde descahia muito limpida; o alto co tinha uma
pallida cr azul; o ar estava immovel. N'aquelle tempo o rio ia muito
vazio; pedaos de areia reluziam em scco; e a agua baixa arrastava-se
com um marulho brando, toda enrugada do roar dos seixos.

Duas vaccas, guardadas por uma rapariga, appareceram ento pelo caminho
lodoso que do outro lado do rio, defronte da alameda, corre junto d'um
silvado; entraram no rio devagar, e estendendo o pescoo pellado da
canga, bebiam de leve, sem ruido; a espaos erguiam a cabea bondosa,
olhavam em redor com a passiva tranquillidade dos sres fartos--e fios
de agua, babados, luzidios  luz, pendiam-lhes dos cantos do focinho.
Com a inclinao do sol a agua perdia a sua claridade espelhada,
estendiam-se as sombras dos arcos da ponte. Do lado das colinas ia
subindo um crepusculo esfumado, e as nuvens cr de sanguinea e cr de
laranja que annunciam o calor faziam, sobre os lados do mar, uma
decorao muito rica.

--Bonita tarde! disse o coadjutor.

O conego bocejou, e fazendo uma cruz sobre o bocejo:

--Vamo-nos chegando s Ave-Marias, hein?

Quando, d'ahi a pouco, iam subindo as escadarias da S, o conego parou,
e voltando-se para o coadjutor:

--Pois est decidido, amigo Mendes, ferro o Amaro na casa da S.
Joanneira!  uma pechincha para todos.

--Uma grande pechincha! disse respeitosamente o coadjutor. Uma grande
pechincha!

E entraram na igreja, persignando-se.




II


Uma semana depois soube-se que o novo parocho devia chegar pela
diligencia de Cho de Mas, que traz o correio  tarde; e desde as seis
horas o conego Dias e o coadjutor passeavam no largo do Chafariz, 
espera de Amaro.

Era ento nos fins de agosto. Na longa alameda macadamisada que vai
junto do rio, entre os dois renques de velhos choupos, entreviam-se
vestidos claros de senhoras passeando. Do lado do Arco, na correnteza de
casebres pobres, velhas fiavam  porta; crianas sujas brincavam pelo
cho, mostrando os seus enormes ventres ns; e gallinhas em redor iam
picando vorazmente as immundicies esquecidas. Em redor do chafariz cheio
de ruido, onde os cantaros arrastam sobre a pedra, criadas ralham,
soldados, com a sua fardeta suja, enormes botas cambadas, namoravam,
meneando a chibata de junco; com o seu cantaro bojudo de barro
equilibrado  cabea sobre a rodilha, raparigas iam-se aos pares,
meneando os quadris; e dois officiaes ociosos, com a farda desapertada
sobre o estomago, conversavam, esperando, _a vr quem viria_. A
diligencia tardava. Quando o crepusculo desceu, uma lamparina luziu no
nicho do santo, por cima do Arco; e defronte iam-se alumiando uma a uma,
com uma luz soturna, as janellas do hospital.

J tinha anoitecido quando a diligencia, com as lanternas accesas,
entrou na Ponte ao trote esgalgado dos seus magros cavallos brancos, e
veio parar ao p do chafariz, por baixo da estalagem do Cruz; o caixeiro
do tio Patricio partiu logo a correr para a Praa com o mao dos
_Diarios Populares_; o tio Baptista, o patro, com o cachimbo negro ao
canto da boca, desatrellava, praguejando tranquillamente; e um homem que
vinha na almofada, ao p do cocheiro, de chapo alto e comprido capote
ecclesiastico, desceu cautelosamente, agarrando-se s guardas de ferro
dos assentos, bateu com os ps no cho para os desentorpecer, e olhou em
redor.

--Oh, Amaro! gritou o conego que se tinha aproximado, oh, ladro!

--Oh, Padre-Mestre! disse o outro com alegria. E abraaram-se, emquanto
o coadjutor, todo curvado, tinha o barrete na mo.

D'ahi a pouco as pessoas que estavam nas lojas viram atravessar a Praa,
entre a corpulencia vagarosa do conego Dias e a figura esguia do
coadjutor, um homem um pouco curvado, com um capote de padre. Soube-se
que era o parocho novo; e disse-se logo na botica que era _uma boa
figura de homem_. O Joo Bicha levava adiante um bah e um sacco de
chita; e como quella hora j estava bebedo, ia resmungando o _Bemdito_.

Eram quasi nove horas, a noite cerrra. Em redor da Praa as casas
estavam j adormecidas: das lojas debaixo da arcada sahia a luz triste
dos candieiros de petroleo, entreviam-se dentro figuras somnolentas,
caturrando em cavaqueira, ao balco. As ruas que vinham dar  Praa,
tortuosas, tenebrosas, com um lampeo mortio, pareciam deshabitadas. E
no silencio o sino da S dava vagarosamente o toque das almas.

O conego Dias ia explicando pachorrentamente ao parocho o que lhe
arranjra. No lhe tinha procurado casa: seria necessario comprar
mobilia, buscar criada, despezas innumeraveis! Parecera-lhe melhor
tomar-lhe quartos n'uma casa de hospedes respeitavel, de muito
conchego--e n'essas condies (e alli estava o amigo coadjutor que o
podia dizer), no havia como a da S. Joanneira. Era bem arejada, muito
aceio, a cozinha no deitava cheiro; tinha l estado o secretario geral
e o inspector dos estudos; e a S. Joanneira (o Mendes amigo conhecia-a
bem) era uma mulher temente a Deus, de boas contas, muito economica e
cheia de condescendencias...

--Voss est alli como em sua casa! Tem o seu _cozido_, prato de meio,
caf...

--Vamos a saber, Padre-Mestre: preo? disse o parocho.

--Seis tostes. Que diabo,  de graa! Tem um quarto, tem uma saleta...

--Uma rica saleta, commentou o coadjutor respeitosamente.

--E  longe da S? perguntou Amaro.

--Dois passos. Pde-se ir dizer missa de chinelos. Na casa ha uma
rapariga, continuou com a sua voz pausada o conego Dias.  a filha da S.
Joanneira. Rapariga de vinte e dois annos. Bonita. Sua pontinha de
genio, mas bom fundo... Aqui tem vsse a sua rua.

Era estreita, de casas baixas e pobres, esmagada pelas altas paredes da
velha Misericordia, com um lampeo lugubre ao fundo.

--E aqui tem voss o seu palacio! disse o conego, batendo na aldraba de
uma porta esguia.

No primeiro andar duas varandas de ferro, de aspecto antigo, faziam
saliencia, com os seus arbustos de alecrim, que se arredondavam aos
cantos em caixas de madeira; as janellas de cima, pequeninas, eram de
peitoril; e a parede, pelas suas irregularidades, fazia lembrar uma lata
amolgada.

A S. Joanneira esperava no alto da escada; uma criada, enfezada e
sardenta, alumiava com um candieiro de petroleo; e a figura da S.
Joanneira destacava plenamente na luz sobre a parede caiada. Era gorda,
alta, muito branca, d'aspecto pachorrento. Os seus olhos pretos tinham
j em redor a pelle engelhada; os cabellos arripiados, com um enfeite
escarlate, eram j raros aos cantos da testa e no comeo da risca; mas
percebiam-se uns braos rechonchudos, um collo copioso e roupas aceadas.

--Aqui tem a senhora o seu hospede, disse o conego subindo.

--Muita honra em receber o senhor parocho! muita honra! Ha de vir muito
cansado! por fora! Para aqui, tem a bondade? Cuidado com o degrausinho.

Levou-o para uma sala pequena pintada de amarello, com um vasto canap
de palhinha encostado  parede, e defronte, aberta, uma mesa forrada de
baeta verde.

-- a sua sala, senhor parocho, disse a S. Joanneira. Para receber, para
espairecer... Aqui--acrescentou abrindo uma porta-- o seu quarto de
dormir. Tem a sua commoda, o seu guarda-roupa...--Abriu os gavetes,
gabou a cama batendo a elasticidade dos colxes--Uma campainha para
chamar sempre que queira... As chavinhas da commoda esto aqui... Se
gosta de travesseirinho mais alto... Tem um cobertor s, mas querendo...

--Est bem, est tudo muito bem, minha senhora, disse o parocho com a
sua voz baixa e suave.

-- pedir! O que ha, da melhor vontade...

--Oh creatura de Deus! interrompeu o conego jovialmente, o que elle quer
agora  cear!

--Tambem tem a ceiasinha prompta. Desde as seis que est o caldo a
apurar...

E sahiu, para apressar a criada, dizendo logo do fundo da escada:

--V, _Rua_, mexe-te, mexe-te!...

O conego sentou-se pesadamente no canap, e sorvendo a sua pitada:

-- contentar, meu rico. Foi o que se pde arranjar.

--Eu estou bem em toda a parte, Padre-Mestre, disse o parocho, calando
os seus chinelos de ourelo. Olha o seminario!... E em Feiro! Cahia-me a
chuva na cama.

Para o lado da Praa, ento, sentiu-se o toque de cornetas.

--Que  aquillo? perguntou Amaro, indo  janella.

--s nove e meia, o toque de recolher.

Amaro abriu a vidraa. Ao fim da rua um candieiro esmorecia. A noite
estava muito negra. E havia sobre a cidade um silencio concavo, de
abobada.

Depois das cornetas, um rufar lento de tambores afastou-se para o lado
do quartel; por baixo da janella um soldado, que se demorra n'alguma
viella do castello, passou correndo; e das paredes da Misericordia sahia
constantemente o agudo piar das corujas.

-- triste isto, disse Amaro.

Mas a S. Joanneira gritou de cima:

--Pde subir, senhor conego! Est o caldo na mesa!

--Ora v, v, que voss deve estar a cahir de fome, Amaro!--disse o
conego, erguendo-se muito pesado.

E detendo um momento o parocho pela manga do casaco:

--Vai voss vr o que  um caldo de gallinha feito c pela senhora! Da
gente se babar!...


No meio da sala de jantar, forrada de papel escuro, a claridade da mesa
alegrava, com a sua toalha muito branca, a loua, os copos reluzindo 
luz forte d'um candieiro d'_abat-jour_ verde. Da terrina subia o vapor
cheiroso do caldo, e na larga travessa a gallinha gorda, afogada n'um
arroz humido e branco, rodeada de nacos de bom paio, tinha uma
apparencia succulenta de prato morgado. No armario envidraado, um pouco
na sombra, viam-se cres claras de porcelana; a um canto, ao p da
janella, estava o piano, coberto com uma colcha de setim desbotado. Na
cozinha frigia-se; e sentindo o cheiro fresco que vinha d'um taboleiro
de roupa lavada, o parocho esfregou as mos, regalado.

--Para aqui, senhor parocho, para aqui, disse a S. Joanneira. D'ahi
pde-lhe vir frio.--Foi fechar as portadas das janellas; chegou-lhe um
caixo de areia para as pontas dos cigarros.--E o senhor conego toma um
copinho de geleia, sim?

--V l, para fazer companhia, disse jovialmente o conego, sentando-se e
desdobrando o guardanapo.

A S. Joanneira, no emtanto, mexendo-se pela sala, ia admirando o parocho
que, com a cabea sobre o prato, comia em silencio o seu caldo, soprando
a colhr. Parecia bem feito: tinha um cabello muito preto, levemente
annelado. O rosto era oval, de pelle trigueira e fina, os olhos negros e
grandes, com pestanas compridas.

O conego, que no o via desde o seminario, achava-o mais forte, mais
viril.

--Voss era enfezadito...

--Foi o ar da serra, dizia o parocho, fez-me bem.--Contou ento a sua
triste existencia em Feiro, na alta Beira, durante a aspereza do
inverno, s, com pastores. O conego deitava-lhe o vinho de alto,
fazendo-o espumar.

--Pois  beber-lhe, homem!  beber-lhe! D'esta gota no pilhava voss no
seminario.

Fallaram do seminario.

--Que ser feito do Rabicho, o despenseiro? disse o conego.

--E do Carcho, que roubava as batatas?

Riram; e bebendo, na alegria das reminiscencias, recordavam as historias
de ento, o catarrho do reitor, e o mestre de canto-cho que deixra um
dia cahir do bolso as poesias obscenas de Bocage.

--Como o tempo passa, como o tempo passa! diziam.

A S. Joanneira ento poz na mesa um prato covo com mas assadas.

--Viva! No, l n'isso tambem eu entro! exclamou logo o conego. A bella
ma assada! nunca me escapa! Grande dona de casa, meu amigo, rica dona
de casa, c a nossa S. Joanneira! Grande dona de casa!

Ella ria; viam-se os seus dois dentes de diante, grandes e chumbados.
Foi buscar uma garrafa de vinho do Porto; poz no prato do conego, com
requintes devotos, uma ma desfeita polvilhada de assucar; e
batendo-lhe nas costas com a mo papuda e molle:

--Isto  um santo, senhor parocho, isto  um santo! Ai, devo-lhe muitos
favores!

--Deixe fallar, deixe fallar..., dizia o conego.--Espalhava-se-lhe no
rosto um contentamento baboso.--Boa gota! acrescentou, saboreando o seu
calix de _porto_. Boa gota!

--Olhe que ainda  dos annos da Amelia, senhor conego.

--E onde est ella, a pequena?

--Foi ao _Morenal_ com a D. Maria. Aquillo naturalmente foram para casa
das Gansosos passar a noite.

--C esta senhora  proprietaria, explicou o conego, fallando do
_Morenal_.  um condado!--Ria com bonhomia, e os seus olhos luzidios
percorriam ternamente a corpulencia da S. Joanneira.

--Ah, senhor parocho, deixe fallar,  uma nesga de terra..., disse ella.

Mas vendo a criada encostada  parede, sacudida com afflices de tosse:

-- mulher, vai tossir l p'ra dentro! credo!

A moa sahiu, pondo o avental sobre a boca.

--Parece doente, coitada, observou o parocho.

Muito achacada, muito!... A _pobre de Christo_ era sua afilhada, orph,
e estava quasi tisica. Tinha-a tomado por piedade...

--E tambem porque a criada que c tinha foi para o hospital, a
desavergonhada... Metteu-se ahi com um soldado!...

O padre Amaro baixou devagar os olhos--e trincando migalhas perguntou se
havia muitas doenas n'aquelle vero.

--Cholerinas, das fructas verdes, rosnou o conego. Mettem-se pelas
melancias, depois tarraadas de agua... E suas febritas...

Fallaram ento das sezes do campo, dos ares de Leiria.

--Que eu agora, dizia o padre Amaro, ando mais forte. Louvado seja Nosso
Senhor Jesus Christo, tenho saude, tenho!

--Ai, Nosso Senhor lh'a conserve, que nem sabe o bem que ! exclamou a
S. Joanneira.--Contou immediatamente a grande desgraa que tinha em
casa, uma irm meia idiota entrevada havia dez annos! Ia fazer sessenta
annos... No inverno viera-lhe um catarrho, e desde ento, coitadinha,
definhava, definhava...

--Ha bocado, ao fim da tarde, teve ella um ataque de tosse! Pensei que
se ia embora. Agora descansou mais...

Continuou a fallar d'aquella tristeza, depois da sua Ameliasinha, das
Gansosos, do antigo chantre, da carestia de tudo--sentada, com o gato no
collo, rolando com os dois dedos, monotonamente, bolinhas de po. O
conego, pesado, cerrava as palpebras; tudo na sala parecia ir
gradualmente adormecendo; a luz do candieiro esmorecia.

--Pois senhores, disse por fim o conego mexendo-se, isto so horas!

O padre Amaro ergueu-se, e com os olhos baixos deu as _graas_.

--O senhor parocho quer lamparina? perguntou cuidadosamente a S.
Joanneira.

--No, minha senhora. No uso. Boas noites!

E desceu devagar, palitando os dentes.

A S. Joanneira alumiava no patamar, com o candieiro. Mas nos primeiros
degraus o parocho parou, e voltando-se, affectuosamente:

-- verdade, minha senhora, manh  sexta-feira,  jejum...

--No, no, acudiu o conego que se embrulhava na capa de lustrina,
bocejando, voss manh janta commigo. Eu venho por c, vamos ao
chantre,  S, e por ahi... E olhe que tenho lulas.  um milagre, que
isto aqui nunca ha peixe.

A S. Joanneira tranquillisou logo o parocho:

--Ai,  escusado lembrar os jejuns, senhor parocho. Tenho o maior
escrupulo!

--Eu dizia, explicou o parocho, porque infelizmente hoje em dia ninguem
cumpre...

--Tem vossa senhoria muita razo, atalhou ella. Mas eu! credo!... A
salvao da minha alma antes de tudo!

A campainha em baixo, ento, retiniu fortemente.

--Ha de ser a pequena, disse a S. Joanneira. Abre, _Rua_!

A porta bateu, sentiram-se vozes, risinhos.

-s tu, Amelia?

Uma voz disse _adeusinho! adeusinho!_ E appareceu, subindo quasi a
correr, com os vestidos um pouco apanhados adiante, uma bella rapariga,
forte, alta, bem feita, com uma manta branca pela cabea e na mo um
ramo de alecrim.

--Sobe, filha. Aqui est o senhor parocho. Chegou agora  noitinha,
sobe!

Amelia tinha parado um pouco embaraada, olhando para os degraus de
cima, onde o parocho ficra, encostado ao corrimo. Respirava fortemente
de ter corrido; vinha crada; os seus olhos vivos e negros luziam; e
sahia d'ella uma sensao de frescura e de prados atravessados.

O parocho desceu, cingido ao corrimo, para a deixar passar, murmurando
_boas noites!_ com a cabea baixa. O conego, que descia atraz,
pesadamente, tomou o meio da escada, diante de Amelia:

--Ento isto so horas, sua brjeira!

Ella teve um risinho, encolheu-se.

--Ora v-se encommendar a Deus, v! disse batendo-lhe no rosto
devagarinho com a sua mo grossa e cabelluda.

Ella subiu a correr, emquanto o conego, depois d'ir buscar o guardasol 
saleta, sahia, dizendo  criada, que erguia o candieiro sobre a escada:

--Est bom, eu vejo, no apanhes frio, rapariga. Ento s oito, Amaro!
Esteja a p! Vai-te, rapariga, adeus! Reza  Senhora da Piedade que te
seque essa catarrheira.

O parocho fechou a porta do quarto. A roupa da cama entreaberta, alva,
tinha um bom cheiro de linho lavado. Por cima da cabeceira pendia a
gravura antiga d'um Christo crucificado. Amaro abriu o seu Breviario,
ajoelhou aos ps da cama, persignou-se; mas estava fatigado, vinham-lhe
grandes bocejos; e ento por cima, sobre o tecto, atravs das oraes
rituaes que machinalmente ia lendo, comeou a sentir o _tic-tic_ das
botinas de Amelia e o ruido das saias engommadas que ella sacudia ao
despir-se.




III


Amaro Vieira nascera em Lisboa em casa da senhora marqueza d'Alegros.
Seu pai era criado do marquez; a mi era criada de quarto, quasi uma
amiga da senhora marqueza. Amaro conservava ainda um livro, o _Menino
das selvas_, com barbaras imagens coloridas, que tinha escripto na
primeira pagina branca: _ minha muito estimada criada Joanna Vieira e
verdadeira amiga que sempre tem sido,--Marqueza d'Alegros_. Possuia
tambem um daguerreotypo de sua mi: era uma mulher forte, de
sobrancelhas cerradas, a boca larga e sensualmente fendida, e uma cr
ardente. O pai de Amaro tinha morrido de apoplexia; e a mi, que fra
sempre to s, succumbiu, d'ahi a um anno, a uma tisica de larynge.
Amaro completra ento seis annos. Tinha uma irm mais velha que desde
pequena vivia com a av em Coimbra, e um tio, mercieiro abastado do
bairro da Estrella. Mas a senhora marqueza ganhra amizade a Amaro;
conservou-o em sua casa, por uma adopo tacita; e comeou, com grandes
escrupulos, a vigiar a sua educao.

A marqueza d'Alegros ficra viuva aos quarenta e tres annos e passava a
maior parte do anno retirada na sua quinta de Carcavellos. Era uma
pessoa passiva, de bondade indolente, com capella em casa, um respeito
devoto pelos padres de S. Luiz, sempre preoccupada dos interesses da
Igreja. As suas duas filhas, educadas no receio do Co e nas
preoccupaes da Moda, eram beatas e faziam o _chic_ fallando com igual
fervor da humildade christ e do ultimo figurino de Bruxellas. Um
jornalista de ento dissera d'ellas:--Pensam todos os dias na _toilette_
com que ho de entrar no paraiso.

No isolamento de Carcavellos, n'aquella quinta de alamedas
aristocraticas onde os paves gritavam, as duas meninas enfastiavam-se.
A Religio, a Caridade eram ento occupaes avidamente aproveitadas:
cosiam vestidos para os pobres da freguezia, bordavam frontaes para os
altares da igreja. De maio a outubro estavam inteiramente absorvidas
pelo trabalho de _salvar a sua alma_; liam os livros beatos e dces;
como no tinham S. Carlos, as visitas, a Aline, recebiam os padres e
cochichavam sobre a virtude dos santos. Deus era o seu luxo de vero.

A senhora marqueza resolvera desde logo fazer entrar Amaro na vida
ecclesiastica. A sua figura amarellada e magrita pedia aquelle destino
recolhido: era j affeioado s coisas de capella, e o seu encanto era
estar aninhado ao p de mulheres, no calor das saias unidas, ouvindo
fallar de santas. A senhora marqueza no o quiz mandar ao collegio
porque receava a impiedade dos tempos e as camaradagens immoraes. O
capello da casa ensinava-lhe o latim, e a filha mais velha, a snr.^a D.
Luiza, que tinha um nariz de cavallete e lia Chateaubriand, dava-lhe
lies de francez e de geographia.

Amaro era, como diziam os criados, _um mosquinha morta_. Nunca brincava,
nunca pulava ao sol. Se  tarde acompanhava a senhora marqueza s
alamedas da quinta quando ella descia pelo brao do padre Liset ou do
respeitoso procurador Freitas, ia a seu lado, mno, muito encolhido,
torcendo com as mos humidas o forro das algibeiras--vagamente assustado
das espessuras d'arvoredos e do vigor das relvas altas.

Tornou-se muito medroso. Dormia com lamparina, ao p d'uma ama velha. As
criadas de resto feminisavam-no; achavam-no bonito, aninhavam-no no meio
d'ellas, beijocavam-no, faziam-lhe cocegas, e elle rolava por entre as
saias, em contacto com os corpos, com gritinhos de contentamento. s
vezes, quando a senhora marqueza sahia, vestiam-no de mulher, entre
grandes risadas: elle abandonava-se, meio n, com os seus modos
languidos, os olhos quebrados, uma roseta escarlate nas faces. As
criadas, alm d'isso, utilisavam-no nas suas intrigas umas com as
outras: era Amaro o que _fazia as queixas_. Tornou-se enredador, muito
mentiroso.

Aos onze annos, ajudava  missa, e aos sabbados limpava a capella. Era o
seu melhor dia; fechava-se por dentro, collocava os santos em plena luz
em cima d'uma mesa, beijando-os com ternuras devotas e satisfaes
gulosas; e toda a manh, muito atarefado, cantarolando o Santissimo, ia
tirando a traa dos vestidos das Virgens e limpando com gesso e cr as
aurolas dos Martyres.

No emtanto crescia; o seu aspecto era o mesmo, miudo e amarellado; nunca
dava uma boa risada, trazia sempre as mos dos bolsos. Estava
constantemente mettido nos quartos das criadas, remexendo as gavetas;
bolia nas saias sujas, cheirava os algodes postios. Era extremamente
preguioso, e custava de manh arrancal-o a uma somnolencia doentia em
que ficava amollecido, todo embrulhado nos cobertores e abraado ao
travesseiro. J corcovava um pouco, e os criados chamavam-lhe o padreca.


N'um domingo gordo, uma manh, depois da missa, ao chegar-se ao terrao,
a senhora marqueza de repente cahiu morta com uma apoplexia. Deixava no
seu testamento um legado para que Amaro, o filho da sua criada Joanna,
entrasse aos quinze annos no seminario e se ordenasse. O padre Liset
ficava encarregado de realisar esta disposio piedosa. Amaro tinha
ento treze annos.

As filhas da senhora marqueza deixaram logo Carcavellos e foram para
Lisboa, para casa da snr.^a D. Barbara de Noronha, sua tia paterna.
Amaro foi mandado para casa do tio, para a Estrella. O mercieiro era um
homem obeso, casado com a filha d'um pobre empregado publico, que o
aceitra para sahir da casa do pai, onde a mesa era escassa, ella devia
fazer as camas e nunca ia ao theatro. Mas odiava o marido, as suas mos
cabelludas, a loja, o bairro e o seu apellido de snr.^a Gonalves. O
marido esse adorava-a como a delicia da sua vida, o seu luxo;
carregava-a de joias e chamava-lhe _a sua duqueza_.

Amaro no encontrou alli o elemento feminino e carinhoso em que estivera
tepidamente envolvido em Carcavellos. A tia quasi no reparava n'elle;
passava os seus dias lendo romances, as analyses dos theatros nos
jornaes, vestida de sda, coberta de p d'arroz, o cabello em cachos,
esperando a hora em que passava debaixo das janellas, puxando os punhos,
o Cardoso, galan da Trindade. O mercieiro apropriou-se ento de Amaro
como d'uma utilidade imprevista, mandou-o para o balco. Fazia-o erguer
logo s cinco horas da manh; e o rapaz tremia na sua jaqueta de pano
azul, molhando  pressa o po na chavena de caf, ao canto da mesa da
cozinha. De resto detestavam-no; a tia chamava-lhe o _cebola_ e o tio
chamava-lhe o _burro_. Pesava-lhes at o magro pedao de vacca que elle
comia ao jantar. Amaro emmagrecia e todas as noites chorava.

Sabia j que aos quinze annos devia entrar no seminario. O tio todos os
dias lh'o lembrava:

--No penses que ficas aqui toda a vida na vadiagem, burro! Em tendo
quinze annos  para o seminario. No tenho obrigao de carregar
comtigo! Besta na argola, no est nos meus principios!

E o rapaz desejava o seminario, como um libertamento.

Nunca ninguem consultra as suas tendencias ou a sua vocao.
Impunham-lhe uma sobrepelliz; a sua natureza passiva, facilmente
dominavel, aceitava-a, como aceitaria uma farda. De resto no lhe
desagradava _ser padre_. Desde que sahira das rezas perpetuas de
Carcavellos conservra o seu medo do inferno, mas perdera o fervor dos
santos; lembravam-lhe porm os padres que vira em casa da senhora
marqueza, pessoas brancas e bem tratadas que comiam ao lado das fidalgas
e tomavam rap em caixas d'ouro; e convinha-lhe aquella profisso em que
se falla baixo com as mulheres,--vivendo entre ellas, cochichando,
sentindo-lhes o calor penetrante,--e se recebem presentes em bandejas de
prata. Recordava o padre Liset com um annel de rubi no dedo minimo;
monsenhor Svedra com os seus bellos oculos d'ouro, bebendo aos goles o
seu copo de _madeira_. As filhas da senhora marqueza bordavam-lhes
chinelas. Um dia tinha visto um bispo que fra padre na Bahia, viajra,
estivera em Roma, era muito jovial; e na sala, com as suas mos ungidas
que cheiravam a agua de colonia apoiadas ao casto d'ouro da bengala,
todo rodeado de senhoras em extase e cheias d'um riso beato, cantava,
para as entreter, com a sua bella voz:


Mulatinha da Bahia,
Nascida no Capuj...


Um anno antes de entrar para o seminario o tio fel-o ir a um mestre para
se affirmar mais no latim, e dispensou-o de estar ao balco. Pela
primeira vez na sua existencia Amaro possuiu liberdade. Ia s  escla,
passeava pelas ruas. Viu a cidade, o exercicio de infanteria, espreitou
s portas dos cafs, leu os cartazes dos theatros. Sobretudo comera a
reparar muito nas mulheres--e vinham-lhe, de tudo o que via, grandes
melancolias. A sua hora triste era ao anoitecer, quando voltava da
escla, ou aos domingos depois de ter ido passear com o caixeiro ao
jardim da Estrella. O seu quarto ficava em cima, na trapeira, com uma
janellinha n'um vo sobre os telhados. Encostava-se alli olhando, e via
parte da cidade baixa que a pouco e pouco se alumiava de pontos de gaz:
parecia-lhe perceber, vindo de l, um rumor indefinido: era a vida que
no conhecia e que julgava maravilhosa, com cafs abrazados de luz e
mulheres que arrastam ruge-ruges de sdas pelos perystillos dos
theatros; perdia-se em imaginaes vagas, e de repente appareciam-lhe no
fundo negro da noite frmas femininas, por fragmentos, uma perna com
botinas de duraque e a meia muito branca, ou um brao rolio arregaado
at ao hombro... Mas em baixo, na cozinha, a criada comeava a lavar a
loua, cantando: era uma rapariga gorda, muito sardenta; e vinham-lhe
ento desejos de descer, ir roar-se por ella, ou estar a um canto a
vl-a escaldar os pratos; lembravam-lhe outras mulheres que vira nas
viellas, de saias engommadas e ruidosas, passeando em cabello, com
botinas cambadas: e, da profundidade do seu sr, subia-lhe uma preguia,
como que a vontade de abraar alguem, de no se sentir s. Julgava-se
infeliz, pensava em matar-se. Mas o tio chamava-o de baixo:

--Ento tu no estudas, mariola?

E d'ahi a pouco, sobre o _Tito-Livio_, cabeceando de somno, sentindo-se
desgraado, roando os joelhos um contra o outro, torturava o
diccionario.

Por esse tempo comeava a sentir um certo afastamento pela vida de
padre, _porque no poderia casar_. J as convivencias da escla tinham
introduzido na sua natureza effeminada curiosidades, corrupes. s
escondidas fumava cigarros: emmagrecia e andava mais amarello.


Entrou no seminario. Nos primeiros dias os longos corredores de pedra um
pouco humidos, as lampadas tristes, os quartos estreitos e gradeados, as
batinas negras, o silencio regulamentado, o toque das sinetas--deram-lhe
uma tristeza lugubre, aterrada. Mas achou logo amizades; o seu rosto
bonito agradou. Comearam a tratal-o por _tu_, a admittil-o, durante as
horas de recreio ou nos passeios do domingo, s conversas em que se
contavam anecdotas dos mestres, se calumniava o reitor, e perpetuamente
se lamentavam as melancolias da clausura: porque quasi todos fallavam
com saudade das existencias livres que tinham deixado: os da aldeia no
podiam esquecer as claras eiras batidas do sol, as esfolhadas cheias de
cantigas e de abraos, as filas da boiada que recolhe, emquanto um vapor
se exhala dos prados; os que vinham das pequenas villas lamentavam as
ruas tortuosas e tranquillas d'onde se namoram as visinhas, os alegres
dias de mercado, as grandes aventuras do tempo em que se estuda latim.
No lhes bastava o pateo do recreio lageado, com as suas arvores
definhadas, os altos muros somnolentos, o monotono jogo da bola:
abafavam na estreiteza dos corredores, na sala de Santo Ignacio, onde se
faziam as meditaes da manh e se estudavam  noite as lies; e
invejavam todos os destinos livres ainda os mais humildes--o almocreve
que viam passar na estrada tocando os seus machos, o carreiro que ia
cantarolando ao aspero chiar das rodas, e at os mendigos errantes,
apoiados ao seu cajado, com o seu alforge escuro.

Da janella d'um corredor via-se uma volta de estrada;  tardinha uma
diligencia costumava passar, levantando a poeira, entre os estalidos do
chicote, ao trote das tres eguas, carregada de bagagens; passageiros
alegres, que levavam os joelhos bem embrulhados, sopravam o fumo dos
charutos; quantos olhares os seguiam! quantos desejos iam viajando com
elles para as alegres villas e para as cidades, pela frescura das
madrugadas ou sob a claridade das estrellas!

E no refeitorio, diante do escasso caldo de hortalia, quando o regente
de voz grossa comeava a lr monotonamente as cartas d'algum missionario
da China ou as Pastoraes do senhor Bispo, quantas saudades dos jantares
de familia! As boas postas de peixe! o tempo da matana! os rojes
quentes que chiam no prato! os sarrabulhos cheirosos!

Amaro no deixava coisas queridas: vinha da brutalidade do tio, do rosto
enfastiado da tia coberto de p d'arroz; mas insensivelmente poz-se
tambem a ter saudades dos seus passeios aos domingos, da claridade do
gaz e das voltas da escla com os livros n'uma correia, quando parava
encostado  vitrina das lojas a contemplar a nudez das bonecas!

Lentamente, porm, com a sua natureza incaracteristica, foi entrando
como uma ovelha indolente na regra do seminario. Decorava com
regularidade os seus compendios; tinha uma exactido prudente nos
servios ecclesiasticos; e calado, encolhido, curvando-se muito baixo
diante dos lentes--chegou a ter boas notas.

Nunca pudera comprehender os que pareciam gozar o seminario com
beatitude e maceravam os joelhos, ruminando, com a cabea baixa, textos
da _Imitao_ ou de Santo Ignacio; na capella, com os olhos em alvo,
empallideciam d'extase; mesmo no recrio, ou nos passeios, iam lendo
algum volumesinho de _Louvores a Maria_; e cumpriam com delicia as
regras mais miudas--at subir s um degrau de cada vez, como recommenda
S. Boaventura. A esses o seminario dava um ante-gosto do co: a elle s
lhe offerecia as humilhaes d'uma priso, com os tedios d'uma escla.

No comprehendia tambem os ambiciosos: os que queriam ser caudatarios
d'um bispo, e nas altas salas dos paos episcopaes erguer os reposteiros
de velho damasco; os que desejavam viver nas cidades depois de
ordenados, servir uma igreja aristocratica, e, diante das devotas ricas
que se accumulam no _frou-frou_ das sdas sobre o tapete do altar-mr,
cantar com voz sonora. Outros sonhavam at destinos fra da Igreja:
ambicionavam ser militares e arrastar nas ruas lageadas o _tlim-tlim_
d'um sabre; ou a farta vida da lavoura, e desde a madrugada, com um
chapo desabado e bem montados, trotar pelos caminhos, dar ordens nas
largas eiras cheias de medas, apear  porta das adegas. E, a no ser
alguns devotos, todos, ou aspirando ao sacerdocio ou aos destinos
seculares, queriam deixar a estreiteza do seminario para comer bem,
ganhar dinheiro e conhecer as mulheres.

Amaro no desejava nada:

--Eu nem sei..., dizia elle melancolicamente.

No entretanto, escutando por sympathia aquelles para quem o seminario
era o tempo das gals, sahia muito perturbado d'aquellas conversas
cheias de impaciente ambio da vida livre. s vezes fallavam de fugir.
Faziam planos, calculando a altura das janellas, as peripecias da noite
negra pelos negros caminhos: anteviam balces de tabernas onde se bebe,
salas de bilhar, alcovas quentes de mulheres. Amaro ficava todo nervoso:
sobre o seu catre, alta noite, revolvia-se sem dormir e, no fundo das
suas imaginaes e dos seus sonhos, ardia, como uma braza silenciosa, o
desejo da Mulher.

Na sua cella havia uma imagem da Virgem coroada de estrellas, pousada
sobre a esphera, com o olhar errante pela luz immortal, calcando aos ps
a serpente. Amaro voltava-se para ella como para um refugio, rezava-lhe
a Salve-Rainha: mas, ficando a contemplar a lithographia, esquecia a
santidade da Virgem, via apenas diante de si uma linda moa loura;
amava-a; suspirava; despindo-se olhava-a de revez lubricamente; e mesmo
a sua curiosidade ousava erguer as pregas castas da tunica azul da
imagem e suppr frmas, redondezas, uma carne branca... Julgava ento
vr os olhos do Tentador luzir na escurido do quarto; aspergia a cama
d'agua benta; mas no se atrevia a revelar estes delirios, no
confessionario, ao domingo.

Quantas vezes ouvira, nas prdicas, o mestre de Moral fallar, com a sua
voz roufenha, do Peccado, comparal-o  serpente e, com palavras
unctuosas e gestos arqueados, deixando cahir vagarosamente a pompa
mellflua dos seus periodos, aconselhar os seminaristas a que, imitando
a Virgem, calcassem aos ps a _serpente ominosa_! E depois era o mestre
de Theologia mystica que fallava, sorvendo o seu rap, no dever de
_vencer a Natureza_! E citando S. Joo de Damasco e S. Chrysologo, S.
Cypriano e S. Jeronymo, explicava os anathemas dos santos contra a
Mulher, a quem chamava, segundo as expresses da Igreja, Serpente,
Dardo, Filha da mentira, Porta do inferno, Cabea do crime, Escorpio...

--E como disse o nosso padre S. Jeronymo,--e assoava-se
estrondosamente--Caminho de iniquidades, _iniquitas via_!

At nos compendios encontrava a preoccupao da Mulher! Que sr era
esse, pois, que atravs de toda a theologia ora era collocada sobre o
altar como a Rainha da Graa, ora amaldioada com apostrophes barbaras?
Que poder era o seu, que a legio dos santos ora se arremessa ao seu
encontro, n'uma paixo extatica, dando-lhe por acclamao o profundo
reino dos cos,--ora vai fugindo diante d'ella como do Universal
Inimigo, com soluos de terror e gritos d'odio, e escondendo-se, para a
no vr, nas thebaidas e nos claustros, vai alli morrendo do mal de a
ter amado? Sentia, sem as definir, estas perturbaes! ellas renasciam,
desmoralisavam-no perpetuamente: e j antes de fazer os seus votos
desfallecia no desejo de os quebrar.

E em redor d'elle sentia iguaes rebellies da natureza: os estudos, os
jejuns, as penitencias podiam domar o corpo, dar-lhe habitos machinaes,
mas dentro os desejos moviam-se silenciosamente, como n'um ninho
serpentes imperturbadas. Os que mais soffriam eram os sanguineos, to
doloridamente apertados na Regra como os seus grossos pulsos plebeus nos
punhos das camisas. Assim, quando estavam ss, o temperamento irrompia:
luctavam, faziam foras, provocavam desordens. Nos lymphaticos a
natureza comprimida produzia as grandes tristezas, os silencios molles:
desforravam-se ento no amor dos pequenos vcios: jogar com um velho
baralho, lr um romance, obter de intrigas demoradas um mao de
cigarros--quantos encantos do peccado!

Amaro por fim quasi invejava os estudiosos; ao menos esses estavam
contentes, estudavam perpetuamente, escrevinhavam notas no silencio da
alta livraria, eram respeitados, usavam oculos, tomavam rap. Elle mesmo
tinha s vezes ambies repentinas da sciencia; mas diante dos vastos
_in-folios_ vinha-lhe um tedio insuperavel. Era no emtanto devoto:
rezava, tinha f illimitada em certos santos, um terror angustioso de
Deus. Mas odiava a clausura do seminario! A capella, os chores do
pateo, as comidas monotonas do longo refeitorio lageado, os cheiros dos
corredores, tudo lhe dava uma tristeza irritada: parecia-lhe que seria
bom, puro, crente, se estivesse na liberdade d'uma rua ou na paz d'um
quintal, fra d'aquellas negras paredes. Emmagrecia, tinha suores
eticos: e mesmo no ultimo anno, depois do servio pesado da Semana
Santa, como comeavam os calores, entrou na enfermaria com uma febre
nervosa.


Ordenou-se emfim pelas temporas de S. Matheus; e pouco tempo depois
recebeu, ainda no seminario, esta carta do snr. padre Liset:

Meu querido filho e novo collega.--Agora que est ordenado, entendo em
minha consciencia que devo dar-lhe conta do estado dos seus negocios,
pois quero cumprir at ao fim o encargo com que carregou os meus hombros
debeis a nossa chorada marqueza, attribuindo-me a honra de administrar o
legado que lhe deixou. Porque, ainda que os bens mundanos pouco deviam
importar a uma alma votada ao sacerdocio, so sempre as boas contas que
fazem os bons amigos. Saber, pois, meu querido filho, que o legado da
querida marqueza--para quem deve erguer em sua alma uma gratido
eterna--est inteiramente exhausto. Aproveito esta occasio para lhe
dizer que depois da morte de seu tio, sua tia, tendo liquidado o
estabelecimento, se entregou a um caminho que o respeito me impede de
qualificar: cahiu sob o imperio das paixes, e tendo-se ligado
illegitimamente, viu os seus bens perdidos juntamente com a sua pureza,
e hoje estabeleceu uma casa de hospedes na rua dos Calafates n.^o 53. Se
toco n'estas impurezas, to improprias de que um tenro levita como o meu
querido filho tenha d'ellas conhecimento,  porque lhe quero dar cabal
relao da sua respeitavel familia. Sua irm, como decerto sabe, casou
rica em Coimbra, e ainda que no casamento no  o ouro que devemos
apreciar,  todavia importante, para futuras circumstancias, que o meu
querido filho esteja de posse d'este facto. Do que me escreveu o nosso
querido reitor a respeito de o mandarmos para a freguezia de Feiro, na
Gralheira, vou fallar com algumas pessoas importantes que tm a extrema
bondade de attender um pobre padre que s pede a Deus misericordia.
Espero, todavia, conseguir. Persevere, meu querido filho, nos caminhos
da virtude, de que sei que a sua boa alma est repleta, e creia que se
encontra a felicidade n'este nosso santo ministerio quando sabemos
comprehender quantos so os balsamos que derrama no peito e quantos os
refrigerios que d--o servio de Deus! Adeus, meu querido filho e novo
collega. Creia que sempre o meu pensamento estar com o pupillo da nossa
chorada marqueza, que decerto do co, onde a elevaram as suas virtudes,
supplica  Virgem, que ella tanto serviu e amou, a felicidade do seu
caro pupillo. _Liset_.

P. S.--O appellido do marido de sua irm  Trigoso. _Liset_.

Dois mezes depois Amaro foi nomeado parocho de Feiro, na Gralheira,
serra da Beira-Alta. Esteve alli desde outubro at ao fim das neves.

Feiro  uma parochia pobre de pastores e n'aquella poca quasi
deshabitada. Amaro passou o tempo muito ocioso, ruminando o seu tedio 
lareira, ouvindo fra o inverno bramir na serra. Pela primavera vagaram
nos districtos de Santarem e de Leiria parochias populosas, com boas
congruas. Amaro escreveu logo  irm contando a sua pobreza em Feiro;
ella mandou-lhe, com recommendaes de economia, doze moedas para ir a
Lisboa requerer. Amaro partiu immediatamente. Os ares lavados e vivos da
serra tinham-lhe fortificado o sangue; voltava robusto, direito,
sympathico, com uma boa cr na pelle trigueira.

Logo que chegou a Lisboa foi  rua dos Calafates n.^o 53, a casa da tia:
achou-a velha, com laos vermelhos n'uma cuia enorme, toda coberta de p
d'arroz. Tinha-se feito devota, e foi com uma alegria piedosa que abriu
os seus magros braos a Amaro.

-Como ests bonito! Ora no ha! Quem te viu! Ih, Jesus! que mudana!

Admirava-lhe a batina, a cora: e contando-lhe as suas desgraas, com
exclamaes sobre a salvao da sua alma e sobre a carestia dos generos,
foi-o levando para o terceiro andar, a um quarto que dava para o saguo.

--Ficas aqui como um abbade, disse-lhe ella. E baratinho!... Ai! ter-te
de graa queria eu, mas... Tenho sido muito infeliz, Joosinho!... Ai!
desculpa, Amaro! Estou sempre com o Joosinho na cabea...

Amaro procurou logo ao outro dia o padre Liset em S. Luiz. Tinha ido
para Frana. Lembrou-se ento da filha mais nova da senhora marqueza
d'Alegros, a snr.^a D. Luiza, que estava casada com o conde de Ribamar,
conselheiro d'Estado, com influencia, regenerador fiel desde cincoenta e
um e duas vezes ministro do reino.

E, por conselho da tia, Amaro, logo que metteu o seu requerimento, foi
uma manh a casa da snr.^a condessa de Ribamar, a Buenos-Ayres.  porta
um _coup_ esperava.

--A senhora condessa vai sahir, disse um criado de gravata branca e
quinzena de alpaca, encostado  hombreira do pateo, de cigarro na boca.

N'esse momento, d'uma porta de batentes de baena verde, sobre um degrau
de pedra, ao fundo do pateo lageado, uma senhora sahia, vestida de
claro. Era alta, magra, loura, com pequeninos cabellos frisados sobre a
testa, lunetas d'ouro n'um nariz comprido e agudo, e no queixo um
signalzinho de cabellos claros.

--A senhora condessa j me no conhece..., disse Amaro com o chapo na
mo, adiantando-se curvado. Sou o Amaro.

--O Amaro!? disse ella como estranha ao nome. Ah! bom Jesus, quem elle
! Ora no ha! Est um homem! Quem diria!

Amaro sorria-se.

--Eu podia l esperar! continuou ella admirada. E est agora em Lisboa?

Amaro contou a sua nomeao para Feiro, a pobreza da parochia...

--De maneira que vim requerer, senhora condessa.

Ella escutava-o com as mos apoiadas n'uma alta sombrinha de sda clara,
e Amaro sentia vir d'ella um perfume de p d'arroz e uma frescura de
cambraias.

--Pois deixe estar, disse ella, fique descansado. Meu marido ha de
fallar. Eu me encarrego d'isso. Olhe, venha por c.--E com o dedo sobre
o canto da boca:--Espere, manh vou para Cintra. Domingo, no. O melhor
 d'aqui a quinze dias. D'aqui a quinze dias pela manh, sou certa.--E
rindo com os seus largos dentes frescos:--Parece que o estou a vr
traduzir Chateaubriand com a mana Luiza! Como o tempo passa!

--Passa bem a senhora sua mana? perguntou Amaro.

--Sim, bem. Est n'uma quinta em Santarem.

Deu-lhe a mo, calada de _peau de sude_, n'um aperto sacudido que fez
tilintar os seus braceletes d'ouro, e saltou para o _coup_, magra e
ligeira, com um movimento que levantou brancuras de saias.

Amaro comeou ento a esperar. Era em julho, no pleno calor. Dizia missa
pela manh em S. Domingos, e durante o dia, de chinelos e casaco de
ganga, arrastava a sua ociosidade pela casa. s vezes ia conversar com a
tia para a sala de jantar; as janellas estavam cerradas, na penumbra
zumbia a monotona susurrao das moscas; a tia a um canto do velho
canap de palhinha fazia _crochet_, com a luneta encavallada na ponta do
nariz; Amaro, bocejando, folheava um antigo volume do _Panorama_.

 noitinha sahia, a dar duas voltas no Rocio. Abafava-se, no ar pesado e
immovel: a todos os cantos se apregoava monotonamente _agua fresca!_
Pelos bancos, debaixo das arvores, vadios remendados dormitavam; em
redor da praa, sem cessar, caleches de aluguel vazias rodavam
vagarosamente; as claridades dos cafs reluziam; e gente encalmada, sem
destino, movia, bocejando, a sua preguia pelos passeios das ruas.

Amaro ento recolhia, e no seu quarto, com a janella aberta ao calor da
noite, estirado em cima da cama, em mangas de camisa, sem botas, fumava
cigarros, ruminava as suas esperanas. A cada momento lhe acudiam, com
rebates de alegria, as palavras da senhora condessa: _fique descansado,
meu marido ha de fallar!_ E via-se j parocho n'uma bonita villa, n'uma
casa com quintal cheio de couves e de saladas frescas, tranquillo e
importante, recebendo bandejas de dce das devotas ricas.

Vivia ento n'um estado de espirito muito repousado. As exaltaes, que
no seminario lhe causava a continencia, tinham-se acalmado com as
satisfaes que lhe dera em Feiro uma grossa pastora, que elle gostava
de vr ao domingo tocar  missa, dependurada da corda do sino, rolando
nas saias de saragoa, e a face a estourar de sangue. Agora, sereno,
pagava pontualmente ao co as oraes que manda o ritual, trazia a carne
contente e calada, e procurava estabelecer-se regaladamente.

No fim de quinze dias foi a casa da senhora condessa.

--No est, disse-lhe um criado da cavallaria.

Ao outro dia voltou, j inquieto. Os batentes verdes estavam abertos; e
Amaro subiu devagar, pisando, muito acanhado, o largo tapete vermelho
fixado com vares de metal. Da alta claraboia cahia uma luz suave; ao
cimo da escada, no patamar, sentado n'uma banqueta de marroquim
escarlate, um criado encostado  parede branca envernizada, com a cabea
pendente e o beio cahido, dormia. Fazia um grande calor; aquelle alto
silencio aristocratico aterrava Amaro; esteve um momento com o seu
guardasol pendente do dedo minimo, hesitando; tossiu devagarinho, para
acordar o criado que lhe pareceia terrivel com a sua bella suia preta,
o seu rico grilho d'ouro; e ia descer quando ouviu por detraz d'um
reposteiro um riso grosso de homem. Sacudiu com o leno o p
esbranquiado dos sapatos, puxou os punhos, e entrou muito vermelho
n'uma larga sala com estofos de damasco amarello; uma grande luz entrava
das varandas abertas, e viam-se arvoredos de jardim. No meio da sala
tres homens de p conversavam. Amaro adiantou-se, balbuciou:

--No sei se incommdo...

Um homem alto, de bigode grisalho e oculos de ouro, voltou-se
surprehendido, com o charuto ao canto da boca e as mos nos bolsos. Era
o senhor conde.

--Sou Amaro...

--Ah, disse o conde, o senhor padre Amaro! Conheo muito bem! Tem a
bondade... Minha mulher fallou-me. Tem a bondade...

E dirigindo-se a um homem baixo e repleto, quasi calvo, de calas
brancas muito curtas:

-- a pessoa de quem lhe fallei.--Voltou-se para Amaro:-- o senhor
ministro.

Amaro curvou-se, servilmente.

--O senhor padre Amaro, disse o conde de Ribamar, foi creado de pequeno
em casa de minha sogra. Nasceu l, creio eu...

--Saiba o senhor conde que sim, disse Amaro que se conservava afastado,
com o guardasol na mo.

--Minha sogra, que era toda devota e uma completa senhora,--j no ha
d'isso!--fel-o padre. Houve at um legado, creio eu... Emfim, aqui o
temos parocho... Onde, senhor padre Amaro?

--Feiro, excellentissimo senhor.

--Feiro!?... disse o ministro estranhando o nome.

--Na serra da Gralheira, informou logo o outro sujeito, ao lado. Era um
homem magro, entalado n'uma sobrecasaca azul, muito branco de pelle, com
soberbas suias d'um negro de tinta e um admiravel cabello lustroso de
pomada, apartado at ao cachao n'uma risca perfeita.

--Emfim, resumiu o conde, um horror! Na serra, uma freguezia pobre, sem
distraces, com um clima horrivel...

--Eu metti j requerimento, excellentissimo senhor, arriscou Amaro
timidamente.

--Bem, bem, affirmou o ministro. Ha de arranjar-se.--E mascava o seu
charuto.

-- uma justia, disse o conde. Mais,  uma necessidade! Os homens novos
e activos devem estar nas parochias difficeis, nas cidades...  claro!
Mas no: olhe, l ao p da minha quinta, em Alcobaa, ha um velho, um
gottoso, um padre-mestre antigo, um imbecil!... Assim perde-se a f.

-- verdade, disse o ministro, mas essas collocaes nas boas parochias
devem naturalmente ser recompensas dos bons servios.  necessario o
estimulo...

--Perfeitamente, replicou o conde; mas servios religiosos,
profissionaes, servios  Igreja, no servios aos governos.

O homem das soberbas suias negras teve um gesto d'objeco.

--No acha? perguntou-lhe o conde.

--Respeito muito a opinio de vossa excellencia, mas se me permitte...
Sim, digo eu, os parochos na cidade so-nos d'um grande servio nas
crises eleitoraes. D'um grande servio!

--Pois sim. Mas...

--Olhe vossa excellencia, continuou elle, sfrego da palavra. Olhe vossa
excellencia em Thomar. Porque perdemos? Pela attitude dos parochos. Nada
mais.

O conde acudiu:

--Mas perdo, no deve ser assim; a religio, o clero no so agentes
eleitoraes.

--Perdo... queria interromper o outro.

O conde suspendeu-o, com um gesto firme; e gravemente, em palavras
pausadas, cheias da auctoridade d'um vasto entendimento:

--A religio, disse elle, pde, deve mesmo auxiliar os governos no seu
estabelecimento, operando, por assim dizer, como freio...

--Isso, isso! murmurou arrastadamente o ministro, cuspindo pelliculas
mascadas de charuto.

--Mas descer s intrigas, continuou o conde devagar, aos _imbroglios_...
Perde-me, meu caro amigo, mas no  d'um christo.

--Pois sou-o, senhor conde! exclamou o homem das suias soberbas. Sou-o
a valer! Mas tambem sou liberal. E entendo que no governo
representativo... Sim, digo eu... com as garantias mais solidas...

--Olhe, interrompeu o conde, sabe o que isso faz? desacredita o clero e
desacredita a politica.

--Mas so ou no as maiorias um principio _sagrado_? gritava rubro o das
suias, accentuando o adjectivo.

--So um principio _respeitavel_.

--Upa! upa, excellentissimo senhor! upa!

O padre Amaro escutava, immovel.

--Minha mulher ha de querer vl-o, disse-lhe ento o conde. E
dirigindo-se a um reposteiro que levantou:--Entre.  o senhor padre
Amaro, Joanna!

Era uma sala forrada de papel branco assetinado, com moveis estofados de
casimira clara. Nos vos das janellas, entre as cortinas de pregas
largas d'uma fazenda adamascada cr de leite, apanhadas quasi junto do
cho por faxas de sda, arbustos delgados, sem flr, erguiam em vasos
brancos a sua folhagem fina. Uma meia luz fresca dava a todas aquellas
alvuras um tom delicado de nuvem. Nas costas d'uma cadeira uma arara
empoleirada, firme n'um s p negro, coava vagarosamente, com
contraces aduncas, a sua cabea verde. Amaro, embaraado, curvou-se
logo para um canto do sof, onde viu os cabellinhos louros e frisados da
senhora condessa que lhe enchiam vaporosamente a testa, e os aros de
ouro da sua luneta reluzindo. Um rapaz gordo, de face rechonchuda,
sentado diante d'ella n'uma cadeira baixa, com os cotovlos sobre os
joelhos abertos, occupava-se em balanar, como um pendulo, um
_pince-nez_ de tartaruga. A condessa tinha no regao uma cadellinha, e
com a sua mo scca e fina, cheia de veias, acamava-lhe o pllo branco
como algodo.

--Como est, snr. Amaro?--A cadella rosnou.--Quieta, _Joia_... Sabe que
j fallei no seu negocio? Quieta, _Joia_... O ministro est alli.

--Sim, minha senhora, disse Amaro, de p.

--Sente-se aqui, senhor padre Amaro.

Amaro pousou-se  beira d'um _fauteil_, com o seu guardasol na mo--e
reparou ento n'uma senhora alta que estava de p, junto do piano,
fallando com um rapaz louro.

--Que tem feito estes dias, snr. Amaro? disse a condessa. Diga-me uma
coisa: sua irm?

--Est em Coimbra, casou.

--Ah! casou! disse a condessa, fazendo girar os seus anneis.

Houve um silencio. Amaro, d'olhos baixos, passava, com um gesto
embaraado e errante, os dedos pelos beios.

--O senhor padre Liset est para fra? perguntou.

--Est em Nantes. Tinha uma irm a morrer, disse a condessa. Est o
mesmo sempre; muito amavel, muito dce.  a alma mais virtuosa!...

--Eu prefiro o padre Felix, disse o rapaz gordo estirando as pernas.

--No diga isso, primo! Jesus, brada aos cos! Pois ento o padre Liset,
to respeitavel!... E depois outras maneiras de dizer as coisas, com uma
bondade... V-se que  um corao delicado...

--Pois sim, mas o padre Felix...

--Ai, nem diga isso! Que o padre Felix  uma pessoa de muita virtude,
decerto; mas o padre Liset tem uma religio mais...--E com um gesto
delicado procurava a palavra:--mais fina, mais distincta... Emfim, vive
com outra gente.--E sorrindo para Amaro:--Pois no acha?

Amaro no conhecia o padre Felix, no se recordava do padre Liset.

--J  velho o senhor padre Liset, observou ao acaso.

--Cr? disse a condessa. Mas muito bem conservado! E que vivacidade, que
enthusiasmo!... Ai,  outra coisa!--E voltando-se para a senhora que
estava junto do piano:--Pois no achas, Thereza?

--J vou, respondeu Thereza, toda absorvida.

Amaro afirmou-se ento n'ella. Pareceu-lhe uma rainha, ou uma deusa, com
a sua alta e forte estatura, uma linha de hombros e de seio magnifica;
os cabellos pretos um pouco ondeados destacavam sobre a pallidez do
rosto aquilino semelhante ao perfil dominador de Marie Antoinette; o seu
vestido preto, de mangas curtas e decote quadrado, quebrava, com as
pregas da cauda muito longa toda adornada de rendas negras, o tom
monotono das alvuras da sala; o collo, os braos estavam cobertos por
uma gaze preta, que fazia apparecer atravs a brancura da carne; e
sentia-se nas suas frmas a firmeza dos marmores antigos, com o calor
d'um sangue rico.

Fallava baixo, sorrindo, n'uma lingua aspera que Amaro no comprehendia,
cerrando e abrindo o seu leque preto--e o rapaz louro, bonito,
escutava-a retorcendo a ponta d'um bigode fino, com um quadrado de vidro
entalado no olho.

--Havia muita devoo na sua parochia, snr. Amaro? perguntava no emtanto
a condessa.

--Muita, muito boa gente.

-- onde ainda se encontra alguma f,  nas aldeias, considerou ella com
um tom piedoso.--Queixou-se da obrigao de viver na cidade, nos
captiveiros do luxo: desejaria habitar sempre na sua quinta de
Carcavellos, rezar na pequena capella antiga, conversar com as boas
almas da aldeia!--e a sua voz tornra-se terna.

O rapaz rechonchudo ria-se:

--Ora, prima! dizia; ora, prima!--No, elle, se o obrigassem a ouvir
missa n'uma capellinha de aldeia, at lhe parecia que perdia a f!...
No comprehendia, por exemplo, a religio sem musica... Era l possivel
uma festa religiosa sem uma boa voz de contralto!?

--Sempre  mais bonito, disse Amaro.

--Est claro que .  outra coisa! Tem _cachet_!  prima, lembra-se
d'aquelle tenor... como se chamava elle? O Vidalti. Lembra-se do
Vidalti, na quinta-feira de Endoenas, nos Inglezinhos? O _tantum ergo_?

--Eu preferia-o no _Baile de mascaras_, disse a condessa.

--Olhe que no sei, prima, olhe que no sei!

No emtanto o rapaz louro viera apertar a mo  senhora condessa,
fallando-lhe baixo, muito risonho. Amaro admirava a nobreza da sua
estatura, a doura do seu olhar azul; reparou que lhe cahira uma luva, e
apanhou-lh'a servilmente. Quando elle sahiu Thereza, depois de se ter
aproximado vagarosamente da janella e olhado para a rua--foi sentar-se
n'uma _causeuse_ com um abandono que punha em relvo a magnifica
esculptura do seu corpo; e voltando-se preguiosamente para o rapaz
rechonchudo:

--Vamo-nos, Joo?

A condessa disse-lhe ento:

--Sabes que o senhor padre Amaro foi creado commigo em Bemfica?

Amaro fez-se vermelho: sentia que Thereza pousava sobre elle os seus
bellos olhos d'um negro humido como o setim preto coberto de agua.

--Est na provincia agora? perguntou ella, bocejando um pouco.

--Sim, minha senhora, vim ha dias.

--Na aldeia? continuou ella, abrindo e cerrando vagarosamente o seu
leque.

Amaro via pedras preciosas reluzirem nos seus dedos finos; disse,
acariciando o cabo do guardasol:

--Na serra, minha senhora.

--Imagina tu, acudiu a condessa,  um horror! Ha sempre neve, diz que a
igreja no tem telhado, so tudo pastores. Uma desgraa! Eu pedi ao
ministro a vr se o mudavamos. Pede-lhe tu tambem...

--O qu? disse Thereza.

A condessa contou que Amaro requerera para uma parochia melhor. Fallou
de sua mi, da amizade que ella tinha a Amaro...

--Morria-se por elle. Ora um nome que ella lhe dava... No se lembra?

--No sei, minha senhora.

--Frei _Maleitas_!... Tem graa! Como o snr. Amaro era amarellito,
sempre mettido na capella...

Mas Thereza, dirigindo-se  condessa:

--Sabes com que se parece este senhor?

A condessa affirmou-se, o rapaz rechonchudo fincou a luneta.

--No se parece com aquelle pianista do anno passado? continuou Thereza.
No me lembra agora o nome...

--Bem sei, o Jalette, disse a condessa. Bastante. No cabello, no.

--Est visto, o outro no tinha cora!

Amaro fez-se escarlate. Thereza ergueu-se arrastando a sua soberba
cauda, sentou-se ao piano.

--Sabe musica? perguntou, voltando-se para Amaro.

--A gente aprende no seminario, minha senhora.

Ella correu a mo, um momento, sobre o teclado de sonoridades profundas,
e tocou a phrase do _Rigoleto,_ parecida com o _Minuete de Mozart_, que
diz Francisco I, despedindo-se, no sarau do primeiro acto, da senhora de
Crcy--e cujo rhythmo desolado tem a abandonada tristeza de amores que
findam, e de braos que se desenlaam em despedidas supremas.

Amaro estava enlevado. Aquella sala rica com as suas alvuras de nuvem, o
piano apaixonado, o collo de Thereza que elle via sob a negra
transparencia da gaze, as suas tranas de deusa, os tranquillos
arvoredos de jardim fidalgo davam-lhe vagamente a ida d'uma existencia
superior, de romance, passada sobre alcatifas preciosas, em _coups_
acolchoados, com arias de operas, melancolias de bom gosto e amores d'um
gozo raro. Enterrado na elasticidade da _causeuse_, sentindo a musica
chorar aristocraticamente, lembrava-lhe a sala de jantar da tia e o seu
cheiro de refogado: e era como o mendigo que prova um creme fino, e,
assustado, demora o seu prazer--pensando que vai voltar  dureza das
cdeas sccas e  poeira dos caminhos.

No emtanto Thereza, mudando bruscamente de melodia, cantou a antiga aria
inglesa de Haydn, que diz to finamente as melancolias da separao:


_The village seems dead and asleep
When Lubin is away!..._


--Bravo! bravo! exclamou o ministro da justia apparecendo  porta,
batendo dcemente as palmas. Muito bem, muito bem! Deliciosamente!

--Tenho um pedido a fazer-lhe, snr. Correia, disse Thereza erguendo-se
logo.

O ministro veio, com uma pressa galante:

--Que , minha senhora? que ?

O conde e o sujeito de magnificas suias tinham entrado discutindo
ainda.

--A Joanna e eu temos que lhe pedir, disse Thereza ao ministro.

--Eu j pedi! j pedi mesmo duas vezes! acudiu a condessa.

--Mas, minhas senhoras, disse o ministro sentando-se confortavelmente,
com as pernas muito estiradas, a face satisfeita: de que se trata?  uma
coisa grave? meu Deus! prometto, prometto solemnemente...

--Bem, disse Thereza batendo-lhe com o leque no brao. Ento qual  a
melhor parochia vaga?

--Ah! disse o ministro comprehendendo e olhando para Amaro, que vergou
os hombros, crado.

O homem das suias, que estava de p fazendo saltar circumspectamente os
berloques, adiantou-se, cheio de informaes:

--Das vagas, minha senhora,  Leiria, capital do districto e sde do
bispado.

--Leiria? disse Thereza. Bem sei,  onde ha umas ruinas?

--Um castello, minha senhora, edificado por D. Diniz.

--Leiria  excellente!

--Mas perdo, perdo! disse o ministro, Leiria, sde do bispado, uma
cidade... O senhor padre Amaro  um ecclesiastico novo...

--Ora, snr. Correia! exclamou Thereza, e o senhor no  novo?

O ministro sorriu, curvando-se.

--Dize alguma coisa, tu, disse a condessa a seu marido, que coava
ternamente a cabea da arara.

--Parece-me inutil, o pobre Correia est vencido! A prima Thereza
chamou-lhe novo!

--Mas perdo, protestou o ministro. No me parece que seja uma lisonja
excepcional; eu no sou tambem to antigo...

--Oh, desgraado! gritou o conde, lembra-te que j conspiravas em 1820!

--Era meu pai, calumniador, era meu pai!

Todos riram.

--Snr. Correia, disse Thereza, est entendido. O senhor padre Amaro vai
para Leiria!

--Bem, bem, succumbo, disse o ministro com gesto resignado. Mas  uma
tyrannia!

--_Thank you_, fez Thereza, estendendo-lhe a mo.

--Mas, minha senhora, estou a estranhal-a, disse o ministro fixando-a.

--Estou contente hoje, disse ella. Olhou um momento para o cho,
distrahida, dando pequeninas pancadas no vestido de sda, levantou-se,
foi sentar-se ao piano bruscamente, e recomeou a dce aria ingleza:


_The village seems dead and asleep
When Lubin is away!..._


Entretanto o conde tinha-se aproximado de Amaro, que se erguera.

-- negocio feito, disse-lhe elle. O Correia entende-se com o bispo.
D'aqui a uma semana est nomeado. Pde ir descansado.

Amaro fez uma cortezia e, servil, foi dizer ao ministro que estava junto
do piano:

--Senhor ministro, eu agradeo...

-- senhora condessa,  senhora condessa, disse o ministro sorrindo.

--Minha senhora, eu agradeo, veio elle dizer  condessa, todo curvado.

--Ai, agradea a Thereza! Ella quer ganhar indulgencias, parece.

--Minha senhora... foi elle dizer a Thereza.

--Lembre-me nas suas oraes, senhor padre Amaro, disse ella. E
continuou, com a sua voz magoada, dizendo ao piano--as tristezas da
aldeia quando Lubin esta ausente!


Amaro d'ahi a uma semana soube o seu despacho. Mas no tornra a
esquecer aquella manh em casa da senhora condessa de Ribamar,--o
ministro de calas muito curtas, enterrado na poltrona, promettendo o
seu despacho; a luz clara e calma do jardim entrevisto; o rapaz alto e
louro que dizia _yes_...Cantava-lhe sempre no cerebro aquella aria
triste do _Rigoleto_; e perseguia-o a brancura dos braos de Thereza sob
a gaze negra! Instinctivamente via-os enlaarem-se devagar, devagar, em
torno do pescoo airoso do rapaz louro:--detestava-o ento, e a lngua
barbara que fallava, e a terra heretica d'onde viera; e latejavam-lhe as
fontes  ida de que um dia poderia confessar aquella mulher divina e
sentir o seu vestido de sda preta roar pela sua batina de lustrina
velha, na escura intimidade do confessionario.

Um dia, ao amanhecer, depois de grandes abraos da tia, partiu para
Santa Apolonia, com um gallego que lhe levava o bah. A madrugada
rompia. A cidade estava silenciosa, os candieiros apagavam-se. s vezes
uma carroa passava rolando, abalando a calada; as ruas pareciam-lhe
interminaveis; saloios comeavam a chegar montados nos seus burros, com
as pernas balouadas, cobertas de altas botas enlameadas; n'uma ou
n'outra rua uma voz aguda j apregoava os jornaes; e os moos dos
theatros corriam com o pote da massa, pregando nas esquinas os cartazes.

Quando chegou a Santa Apolonia a claridade do sol alaranjava o ar por
detraz dos montes da Outra-Banda: o rio estendia-se, immovel, riscado de
correntes de cr de ao sem lustre; e j alguma vela de falua passava,
vagarosa e branca.




IV


Ao outro dia, na cidade, fallava-se da chegada do parocho novo, e todos
sabiam j que tinha trazido um bah de lata, que era magro e alto, e que
chamava _Padre-Mestre_ ao conego Dias.

As amigas da S. Joanneira,--as intimas--a D. Maria da Assumpo, as
Gansosos, tinham ido logo pela manh a casa d'ella _para se prem ao
facto_... Eram nove horas; Amaro sahira com o conego. A S. Joanneira,
radiosa, importante, recebeu-as no alto da escada, de mangas
arregaadas, nos arranjos da manh; e immediatamente, com animao,
contou a chegada do parocho, as suas boas maneiras, o que tinha dito...

--Mas venham vosss c abaixo, sempre quero que vejam.

Foi-lhes mostrar o quarto do padre, o bah de lata, uma prateleira que
lhe arranjra para os livros.

--Est muito bem, est tudo muito bem, diziam as velhas andando pelo
quarto, devagar, com respeito, como n'uma igreja.

--Rico capote! observou D. Joaquina Gansoso apalpando o panno das largas
bandas que pendiam ao comprido do cabide.-- obra para um par de moedas!

--E a boa roupa branca! disse a S. Joanneira erguendo a tampa do bah.

O grupo das velhas curvou-se com admirao.

--A mim o que me consola  que elle seja um rapaz novo, disse D. Maria
da Assumpo, piedosamente.

--Tambem a mim, disse com auctoridade a D. Joaquina Gansoso. Estar a
gente a confessar-se e a vr o pingo do rap, como era com o Raposo,
credo! at se perde a devoo! E o bruto do Jos Migueis! No, l isso
Deus me mate com gente nova!

A S. Joaneira ia mostrando as outras maravilhas do parocho,--um
crucifixo que estava ainda embrulhado n'um jornal velho, o album de
retratos, onde o primeiro carto era uma photographia do Papa abenoando
a christandade. Todas se extasiaram.

-- o mais que se pde, diziam,  o mais que se pde!

Ao sahir, beijando muito a S. Joanneira, felicitaram-na porque
adquirira, hospedando o parocho, uma auctoridade quasi ecclesiastica.

--Vosss apparecem  noite, disse ella do alto da escada.

--Pudera!... gritou D. Maria da Assumpo, j  porta da rua, traando o
seu mantelete.--Pudera!... Para o vermos  vontade!

Ao meio dia veio o Libaninho, o beato mais activo de Leiria; e subindo a
correr os degraus, j gritava com a sua voz fina:

-- S. Joanneira!

--Sobe, Libaninho, sobe, disse ella, que costurava  janella.

--Ento o senhor parocho veio, hein? perguntou o Libaninho, mostrando 
porta da sala de jantar o seu rosto gordinho cr de limo, a calva
luzidia; e vindo para ella com o passinho miudo, um gingar de quadris:

--Ento que tal, que tal? tem bom feitio?

A S. Joaneira recomeou a glorificao de Amaro: a sua mocidade, o seu
ar piedoso, a brancura dos seus dentes...

--Coitadinho! coitadinho! dizia o Libaninho, babando-se de ternura
devota.--Mas no se podia demorar, ia para a repartio!--Adeus,
filhinha, adeus!--E batia com a sua mo papuda no hombro da S.
Joanneira.--Ests cada vez mais gordinha! Olha que rezei hontem a
Salve-Rainha que tu me pediste, ingrata!

A criada tinha entrado.

--Adeus, _Rua_! Ests magrinha: pega-te com a Senhora Mi dos
Homens.--E avistando Amelia pela porta do quarto entreaberta:--Ai, que
ests mesmo uma flr, Mlinha! Quem se salvava na tua graa bem eu sei!

E apressado, saracoteando-se, com um pigarrinho agudo, desceu a escada
rapidamente, ganindo:

--Adeusinho! adeusinho, pequenas!

-- Libaninho, vens  noite?

--Ai, no posso, filha, no posso!--E a sua vozinha era quasi
chorosa.--Olha que manh  Santa Barbara: tem seis Padre-Nossos de
direito!


Amaro fra visitar o chantre com o conego Dias, e tinha-lhe entregado
uma carta de recommendao do senhor conde de Ribamar.

--Conheci muito o senhor conde de Ribamar, disse o chantre. Em quarenta
e seis, no Porto. Somos amigos velhos! Era eu cura de Santo Ildefonso:
ha que annos isso vai!

E, reclinando-se na velha poltrona de damasco, fallou com satisfao do
seu tempo: contou anecdotas da Junta, apreciou os homens de ento,
imitou-lhes a voz (era uma especialidade de sua excellencia), os _tics_,
as caturrices--sobretudo Manoel Passos, que elle descrevia passeando na
Praa Nova, com o comprido casaco pardo e o chapo de grandes abas,
dizendo:

--_Animo, patriotas! o Xavier aguenta-se!_

Os senhores ecclesiasticos da camara riram com gozo. Houve uma grande
cordialidade. Amaro sahiu muito lisonjeado.

Depois jantou em casa do conego Dias, e foram passear ambos pela estrada
de Marrazes. Uma luz dce e esbatida alargava-se por todo o campo; havia
nos outeiros, no azul do ar, um aspecto de repouso, de meiga
tranquilidade; fumos esbranquiados sahiam dos casaes, e sentiam-se os
chocalhos melancolicos dos gados que recolhem. Amaro parou junto da
ponte, e disse, olhando em redor a paizagem suave:

--Pois senhores, parece-me que me hei de dar bem aqui!

--Ha de se dar regaladamente, affirmou o conego, sorvendo o seu rap.

Eram oito horas quando recolheram a casa da S. Joanneira.

As velhas amigas estavam j na sala de jantar. Ao p do candieiro de
petroleo, Amelia costurava.

A snr.^a D. Maria da Assumpo vestira-se, como nos domingos, de sda
preta: o seu _chin_, d'um louro avermelhado, estava coberto com as
rendas d'um _enfeite_ negro; as mos descarnadas, caladas de mitenes,
solemnemente pousadas no regao, reluziam de anneis; do broche sobre o
pescoo at ao cinto, um grosso grilho d'ouro cahia com passadores
lavrados. Conservava-se direita e ceremoniosa, com a cabea um pouco de
lado, os oculos d'ouro assentes sobre o nariz acavallado: tinha no
queixo um grande signal cabelludo; e quando se fallava de devoes ou de
milagres dava um geito ao pescoo, e abria um sorriso mudo que descobria
os seus enormes dentes esverdeados, cravados nas gengivas como cunhas.
Era viuva e rica, e soffria d'um catarrho chronico.

--Aqui tem o senhor parocho novo, D. Maria, disse-lhe a S. Joanneira.

Ella ergueu-se, fez uma mesura com um movimento de quadris, commovida.

--Estas so as senhoras Gansosos, ha de ter ouvido..., disse a S.
Joanneira ao parocho.

Amaro comprimentou timidamente. Eram duas irms. Passavam por ter algum
dinheiro, mas costumavam receber hospedes. A mais velha, a snr.^a D.
Joaquina Gansoso, era uma pessoa scca, com uma testa enorme e larga,
dois olhinhos vivos, o nariz arrebitado, a boca muito espremida.
Embrulhada no seu chale, direita, com os braos cruzados, fallava
perpetuamente, n'uma voz dominante e aguda, cheia de opinies. Dizia mal
dos homens e dava-se toda  Igreja.

A irm, a snr.^a D. Anna, era extremamente surda. Nunca fallava, e com
os dedos cruzados sobre o regao, os olhos baixos, fazia girar
tranquillamente os dois pollegares. Nutrida, com o seu perpetuo vestido
preto de riscas amarellas, um rolo de arminho ao pescoo, dormitava toda
a noite, e s accentuava a sua presena de vez em quando por suspiros
agudos: dizia-se que tinha uma paixo funesta pelo recebedor do correio.
Todos a lastimavam, e admirava-se a sua habilidade em recortar papeis
para caixas de dce.

Estava tambem a snr.^a D. Josepha, a irm do conego Dias. Tinha a
alcunha de _castanha pilada_. Era uma creaturinha mirrada, de linhas
aduncas, pelle engelhada e cr de cidra, voz sibilante; vivia n'um
perpetuo estado de irritao, os olhinhos sempre assanhados, contraces
nervosas de birra, toda saturada de fel. Era temida. O maligno doutor
Godinho chamava-lhe a _estao central_ das intrigas de Leiria.

--Ento passeou muito, senhor parocho? perguntou ella logo
impertigando-se.

--Fomos quasi at l ao fim da estrada de Marrazes, disse o conego,
sentando-se pesadamente por detraz da S. Joanneira.

--No achou bonito, senhor parocho? acudiu snr.^a D. Joaquina Gansoso.

--Muito bonito.

Fallaram das lindas paizagens de Leiria, das boas vistas: a snr.^a D.
Josepha gostava muito do passeio ao p do rio; at j ouvira dizer que
nem em Lisboa havia coisa assim. D. Joaquina Gansoso preferia a igreja
da Encarnao, no alto.

--Desfruta-se muito d'alli.

Amelia disse sorrindo:

--Eu por mim gsto d'aquelle bocado ao p da ponte, debaixo dos
chores.--E partindo com os dentes o fio da costura:-- to triste!

Amaro olhou para ella, ento, pela primeira vez. Tinha um vestido azul
muito justo ao seio bonito; pescoo branco e cheio sahia d'um collarinho
voltado; entre os beios vermelhos e frescos o esmalte dos dentes
brilhava; e pareceu ao parocho que um buosinho lhe punha aos cantos da
boca uma sombra subtil e dce.

Houve um pequeno silencio--o conego Dias com o beio descahido ia j
cerrando as palpebras.

--Que ser feito do senhor padre Brito? perguntou D. Joaquina Gansoso.

--Est talvez com a enxaqueca, pobre de Christo! lembrou piedosamente a
snr.^a D. Maria da Assumpo.

Um rapaz que estava junto do aparador disse ento:

--Eu vi-o hoje a cavallo, ia para os lados da Barrosa.

--Homem! disse logo com azedume a irm do conego, a snr.^a D. Josepha
Dias,  milagre ter o senhor reparado!

--Porqu, minha senhora? disse elle erguendo-se e chegando-se ao grupo
das velhas.

Era alto, todo vestido de preto: sobre o rosto de pelle branca, regular,
um pouco fatigado, destacava bem um bigode pequeno muito negro, cahido
aos cantos, que elle costumava mordicar com os dentes.

--Ainda elle o pergunta! exclamou a snr.^a D. Josepha Dias. O senhor,
que nem lhe tira o chapo!

--Eu!?

--Disse-m'o elle, affirmou ella com uma voz cortante. E acrescentou: Ai,
senhor parocho, bem pde chamar o snr. Joo Eduardo para o bom
caminho!--E teve um risinho maligno.

--Mas eu parece-me que no ando no mau caminho, disse elle rindo, com as
mos nos bolsos. E a cada momento os seus olhos se voltavam para Amelia.

-- uma graa! exclamou a snr.^a D. Joaquina Gansoso. Olhe, com o que o
senhor disse hoje l em casa, de tarde, da Santa da Arregassa, no ha de
ganhar o co!

--Ora essa! gritou a irm do conego voltando-se bruscamente para Joo
Eduardo. Ento o que tem o senhor a dizer da Santa? Acha talvez que 
uma impostora?

--Credo, Jesus! disse a snr.^a D. Maria da Assumpo apertando as mos e
fitando Joo Eduardo com um terror piedoso. Pois elle havia de dizer
isso? Cruzes!

--No, o snr. Joo Eduardo, affirmou gravemente o conego, que espertra,
desdobrando o seu leno vermelho--no era capaz de dizer uma d'essas.

Amaro perguntou ento:

--Quem  a Santa da Arregassa?

--Credo! Pois no tem ouvido fallar, senhor parocho? exclamou n'uma
admirao a snr.^a D. Maria da Assumpo.

--Ha de ter ouvido, affirmava a snr.^a D. Josepha Dias com auctoridade.
Diz que os jornaes de Lisboa vem cheios d'isso!

-- com effeito uma coisa bem extraordinaria, ponderou com um tom
profundo o conego.

A S. Joanneira interrompeu a meia, e tirando a luneta:

--Ai, no imagina, senhor parocho,  o milagre dos milagres!

--Se ! se ! disseram.

Houve um recolhimento devoto.

--Mas ento...? perguntou Amaro, todo curioso.

--Olhe, senhor parocho, comeou a snr.^a D. Joaquina Gansoso
endireitando-se no chale, fallando com solemnidade: a Santa  uma mulher
que aqui ha n'uma freguezia perto, que est ha vinte annos na cama...

--Vinte e cinco, advertiu-lhe baixo D. Maria da Assumpo, tocando-lhe
com o leque no brao.

--Vinte e cinco? Pois olha, ao senhor chantre ouvi eu dizer vinte.

--Vinte e cinco, vinte e cinco, affirmou a S. Joanneira. E o conego
apoiou-a, oscillando gravemente a cabea.

--Est entrevadinha de todo, senhor parocho! rompeu a irm do conego,
avida de fallar. Parece uma alminha de Deus! Os bracinhos so isto!--E
mostrava o dedo minimo.--Para a gente a ouvir  necessario pr-lhe a
orelha ao p da boca!

--Pois se ella se sustenta da graa de Deus! disse lamentosamente a
snr.^a D. Maria da Assumpo. Coitadinha! que at a gente lembrar-se...

Houve entre as velhas um silencio commovido. Joo Eduardo, que por traz
das velhas, de p, com as mos nos bolsos, sorria mordicando o bigode,
disse ento:

--Olhe, senhor parocho, a coisa  o que os medicos dizem:  que aquillo
 uma doena nervosa.

Aquella irreverencia fez, entre as velhas devotas, um escandalo; a
snr.^a D. Maria da Assumpo persignou-se logo  cautela.

--Pelo amor de Deus! gritou a snr.^a D. Josepha Dias, o senhor diga isso
diante de quem quizer, menos de mim!  uma affronta!

-- que at pde cahir um raio, dizia para os lados, baixo, a snr.^a D.
Maria da Assumpo, muito aterrada.

--Olhe, tambem lh'o digo, exclamou a snr.^a D. Josepha Dias, o senhor 
um homem sem religio e sem respeito pelas coisas santas.--E voltando-se
para o lado de Amelia, muito azeda:--Olhe, filha minha  que eu lhe no
dava!

Amelia crou; e Joo Eduardo, fazendo-se vermelho tambem, curvou-se
sarcasticamente:

--Eu digo o que dizem os medicos. E de resto, acredite que no tenho
prentenes a casar com pessoa da sua familia! Nem mesmo comsigo, snr.^a
D. Josepha!

O conego deu uma risada muito pesada.

--Arreda! Cruzes! gritou ella, furiosa.

--Mas que faz ento a Santa? perguntou o padre Amaro, para pacificar.

--Tudo, senhor parocho, disse a snr.^a D. Joaquina Gansoso: est sempre
de cama, sabe rezas para tudo; pessoa por quem ella pea tem a graa do
Senhor;  a gente apegar-se com ella e cura-se de toda a molestia. E
depois, quando communga, comea a erguer-se, e fica com o corpo todo no
ar, com os olhos erguidos para o co, que at chega a fazer terror.

Mas n'este momento uma voz disse  porta da sala:

--Ora viva a sociedade! Isto hoje est de truz!

Era um rapaz extremamente alto, amarello, com as faces cavadas, uma
grenha riada, um bigode  D. Quixote; quando ria tinha uma sombra na
boca, porque lhe faltavam quasi todos os dentes de diante; e nos seus
olhos encovados, de grandes olheiras, errava um sentimentalismo piegas.
Trazia uma guitarra na mo.

--Ento como vai isso hoje? perguntaram-lhe logo.

--Mal, respondeu elle com voz triste, sentando-se. Sempre as dres no
peito, a tossesita ...

Ento no se dava bem com o oleo de figados de bacalhau?

--Qual! fez elle desconsoladamente.

--Uma viagem  Madeira, isso  que era, isso  que era! disse a snr.^a
D. Joaquina Gansoso com auctoridade.

Elle riu, com uma jovialidade subita:

--Uma viagem  Madeira! No est m! A D. Joaquina Gansoso tem-nas boas!
Um pobre amanuense de administrao com dezoito vintens por dia, mulher
e quatro filhos... Para a Madeira!

--E como vai ella, a Joannita?

--Coitadita, l vai! Tem saude, graas a Deus! Gorda, sempre com bom
appetite. Os pequenos, os dois mais velhos  que esto doentes; de mais
a mais agora a criada tambem cahiu de cama!  o diacho! Paciencia!
paciencia!--E encolhia os hombros.

Mas voltando-se para a S. Joanneira, dando-lhe uma palmada no joelho:

--E como vai a nossa Madre-Abbadessa?

Todos riram: e a snr.^a D. Joaquina Gansoso informou o parocho que
aquelle rapaz, o Arthur Couceiro, era muito engraado e tinha uma bella
voz. Era a melhor da cidade para modinhas.

A _Rua_ tinha ento entrado com o ch; a S. Joanneira, enchendo as
chavenas d'alto, dizia:

--Cheguem-se, cheguem-se, filhas, que este  do bom!  da loja do
Sousa...

E Arthur offerecia assucar com o seu antigo gracejo:

--Se est azedinho  carregar-lhe no sal!

As velhas sorviam a pequenos goles pelos pires, escolhiam cuidadosamente
as torradas, sentia-se o mastigar ruminado dos queixos; e por causa dos
pingos da manteiga e das nodoas do ch estendiam prudentemente os lenos
sobre o regao.

--Vai um docinho, senhor parocho? disse Amelia, apresentando-lhe o
prato. So da Encarnao, muito fresquinhos.

--Obrigado.

--Aquelle alli.  toucinho do co.

--Ah! se  do co... disse elle todo risonho. E olhou para ella, tomando
o bolo com a ponta dos dedos.

O snr. Arthur costumava cantar depois do ch. Sobre o piano uma vela
alumiava o caderno de musica; e Amelia, logo que a _Rua_ levou a
bandeja, accommodou-se, correu os dedos sobre o teclado amarello.

--Ento hoje que ha de ser? perguntou Arthur.

Os pedidos cruzaram-se:

--_O guerrilheiro! O noivado do sepulchro! O descrido! o Nunca mais!_

O conego Dias disse do seu canto, pesadamente:

-- Couceiro, v l aquella do _Tio Cosme, meu brjeiro!_

As mulheres reprovaram:

--Credo! por quem , senhor conego! Que lembrana!

E a snr.^a D. Joaquina Gansoso resumiu:

--Nada: uma coisa de sentimento para o senhor parocho fazer ida.

--Isso, isso! disseram: uma coisa de sentimento,  Arthur, uma coisa de
sentimento!

Arthur pigarreou, cuspilhou; e dando subitamente  face uma expresso
dolorosa, ergueu a voz, cantou lugubremente:


Adeus, meu anjo! eu vou partir sem ti!


Era uma cano dos tempos romanticos de 51, o _Adeus!_ Dizia uma suprema
despedida, n'um bosque, por uma tarde pallida d'outono; depois, o homem
solitario e precito, que inspirra um amor funesto, ia errar desgrenhado
 beira do mar; havia uma sepultura esquecida n'um valle distante,
brancas virgens vinham chorar  claridade do luar!

--Muito bonito, muito bonito! murmuravam.

Arthur cantava enternecido, o olhar vago; mas nos intervallos, durante o
acompanhamento, sorria em redor--e na sua boca cheia de sombra viam-se
os restos de dentes pdres. O padre Amaro, ao p da janella, fumando,
contemplava Amelia, enlevado n'aquella melodia sentimental e morbida: o
seu perfil fino, de encontro  luz, tinha uma linha luminosa; destacava
harmoniosamente a curva do seu peito; e elle seguia as suas palpebras de
grandes pestanas, que do teclado para a musica se erguiam e se abaixavam
com um movimento dce. Joo Eduardo, junto d'ella, voltava-lhe as folhas
da musica.

Mas Arthur, com a mo sobre o peito, a outra erguida no ar, n'um gesto
desolado e vehemente, soltou a ultima estrophe:


E um dia, emfim, d'este viver fatal,
Repousarei na escurido da campa!


--Bravo! bravo! exclamaram.

E o conego Dias commentou baixo ao parocho:

--Ah! para coisas de sentimento no ha outro.--E bocejando enormemente:
Pois menino, tenho tido toda a noite as lulas a conversar c por dentro.

Mas chegra a hora do loto. Cada um escolhia os seus cartes habituaes;
e a snr.^a D. Josepha Dias, com o seu olho d'avara a luzir, chocalhava
j vivamente o grosso sacco dos numeros.

--Aqui tem um logar, senhor parocho, disse Amelia.

Era junto d'ella. Elle hesitou; mas tinham aberto espao, e veio
sentar-se um pouco crado, ageitando timidamente a _volta_.

Fez-se logo um grande silencio; e, com a voz dormente, o conego comeou
a tirar os numeros. A snr.^a D. Anna Gansoso dormitava ao seu canto,
resonando ligeiramente.

Com o _abat-jour_ as cabeas estavam na penumbra; e a luz crua, cahindo
sobre o chale escuro que cobria a mesa, fazia destacar os cartes
ennegrecidos do uso e as mos sccas das velhas, pousadas em attitudes
aduncas, remexendo as marcas de vidro. Sobre o piano aberto a vela
derretia-se com uma chamma alta e direita.

O conego rosnava os numeros com as pilherias veneraveis da tradio: 1,
cabea de porco!--3, figura de entremez!

--Precisa-se o vinte e um, dizia uma voz.

--Ternei, murmurava outra com gozo.

E a irm do conego, sfrega:

--Chocalhe esses numeros, mano Placido! V!

--E traga-me esse quarenta e sete ainda que seja de rastos, dizia o
Arthur Couceiro, com a cabea entre os punhos.

Emfim o conego _quinou_. E Amelia olhando em redor pela sala:

--Ento no joga, snr. Joo Eduardo? disse ella. Onde est?

Joo Eduardo sahiu da sombra da janella, por traz da cortina.

--Tome l este carto, ande, jogue.

--E receba as entradas, j que est de p, disse a S. Joanneira. Seja o
senhor recebedor!

Joo Eduardo foi em roda com o pires de porcelana. No fim faltavam dez
reis.

--Eu j dei, eu j dei! exclamavam todos, excitados.

Fra a irm do conego que no tocra no seu cobre acastellado. Joo
Eduardo disse, curvando-se:

--Parece-me que a snr.^a D. Josepha no entrou.

--Eu!? gritou ella, furiosa. Olha uma d'estas! At fui a primeira!
Credo! Duas moedas de cinco reis, por signal! Que tal est o homem!

--Ah! bem, disse elle ento, fui eu que me esqueci! C ponho.--E rosnou:
Beata e ladra!

E a irm do conego dizia no emtanto baixo  snr.^a D. Maria da
Assumpo:

--Queria vr se escapava, o melro! Falta de temor a Deus!

--S quem no est feliz  o senhor parocho, observaram.

Amaro sorriu. Estava distrahido, e fatigado; s vezes mesmo esquecia-se
de marcar, e Amelia dizia-lhe, tocando-lhe no cotovlo:

--Olhe que no marcou, senhor parocho!

Tinham j apostado dois ternos: ella ganhra; depois faltou a ambos para
_quinarem_ o numero trinta e seis.

Em roda repararam.

--Ora vamos a vr se _quinam_ ambos, disse a snr.^a D. Maria da
Assumpo, envolvendo-os no mesmo olhar baboso.

Mas o trinta e seis no saha; havia outras quadras nos cartes alheios;
Amelia receava que _quinasse_ a snr.^a D. Joaquina Gansoso, que se mexia
muito na cadeira, pedindo o quarenta e oito. Amaro ria,
involuntariamente interessado.

O conego tirava os numeros com uma pachorra maliciosa.

--V! v! ande com isso, senhor conego! diziam-lhe.

Amelia, debruada, os olhos vivos, murmurou:

--Dava tudo para que sahisse o trinta e seis!

--Sim? Ahi o tem... Trinta e seis! disse o conego.

--_Quinamos!_ gritou ella, triumphante; e tomando o carto do parocho e
o seu mostrava-os, para conferirem, orgulhosa, muito crada.

--Ora Deus os abene, disse o conego, jovial, entornando-lhes diante o
pires cheio de moedas de dez reis.

--Parece milagre! considerou a snr.^a D. Maria da Assumpo,
piedosamente.

Mas tinham dado onze horas; e depois da _tumba_ final as velhas
comearam a agasalhar-se. Amelia sentou-se ao piano, tocando ao de leve
uma polka. Joo Eduardo aproximou-se d'ella, e baixando a voz:

--Muitos parabens por ter _quinado_ com o senhor parocho. Que
enthusiasmo!--E como ella ia responder:--Boa noite! disse elle
sccamente, embrulhando-se no seu chale-manta com despeito.

A _Rua_ alumiava. As velhas, pela escada, empacotadas nos abafos, iam
ganindo _adeusinhos_. O snr. Arthur harpejava a guitarra, cantarolando o
_Descrido_.

Amaro foi para o seu quarto, comeou a rezar no Breviario; mas
distrahia-se, lembravam-lhe as figuras das velhas, os dentes pdres de
Arthur, sobretudo o perfil de Amelia. Sentado  beira da cama, com o
Breviario aberto, fitando a luz, via o seu penteado, as suas mos
pequenas com os dedos um pouco trigueiros picados da agulha, o seu
buosinho gracioso...

Sentia a cabea pesada do jantar do conego e da monotonia do _quino_,
com uma grande sde alm d'isso das lulas e do vinhito do Porto. Quiz
beber, mas no tinha agua no quarto. Lembrou-se ento que na sala de
jantar havia uma bilha d'Extremoz com agua fresca, muito boa, da
nascente do Morenal. Calou as chinelas, tomou o castial, subiu
devagarinho. Havia **luz** na sala, estava o reposteiro corrido:
ergueu-o e recuou com um _ah!_ Vira n'um relance Amelia, em saia branca,
a desfazer o atacador do collete: estava junto do candieiro e as mangas
curtas, o decote da camisa deixavam vr os seus braos brancos, o seio
delicioso. Ella deu um pequeno grito, correu para o quarto.

Amaro ficou immovel, com um suor  raiz dos cabellos. Poderiam suspeitar
uma offensa! Palavras indignadas iam sahir decerto atravs do reposteiro
do quarto, que ainda se balouava agitado!

Mas a voz de Amelia, serena, perguntou de dentro:

--Que queria, senhor parocho?

--Vinha buscar agua... balbuciou elle.

--Aquella _Rua_! aquella desleixada! Desculpe, senhor parocho,
desculpe. Olhe ahi ao p da mesa, a bilha. Achou?

--Achei! achei!

Desceu devagar com o copo cheio: a mo tremia-lhe, a agua escorria-lhe
pelos dedos.

Deitou-se sem rezar. Alta noite Amelia sentiu por baixo passos nervosos
pisarem o soalho: era Amaro que, com o capote aos hombros e em chinelas,
fumava, excitado, pelo quarto.




V


Ella, em cima, no dormia tambem. Sobre a commoda, dentro de uma bacia,
a lamparina extinguia-se, com um mau cheiro de murro de azeite;
brancuras de saias cahidas no cho destacavam; e os olhos do gato, que
no socegava, reluziam pela escurido do quarto com uma claridade
phosphorica verde.

Na casa visinha uma criana chorava sem cessar, Amelia sentia a mi
embalar-lhe o bero, cantar-lhe baixo:


Dorme, dorme, meu menino,
Que a tua mi foi  fonte!


Era a pobre Catharina engommadeira, que o tenente Sousa deixra com um
filho no bero, e gravida d'outro--para ir casar a Extremoz! To bonita
era, to loura--e mirrada agora, to chupada!


Dorme, dorme, meu menino.
Que a tua mi foi  fonte!


Como ella conhecia aquella cantiga! Quando tinha sete annos sua mi
dizia-a, nas longas noites de inverno, ao irmosinho que morrera!

Lembrava-se bem! Moravam ento n'outra casa, ao p da estrada de Lisboa;
 janella do seu quarto havia um limoeiro e a mi punha, na sua ramagem
luzidia, os coeiros do Joosinho a seccarem ao sol. No conhecera o
pap. Fra militar, morrera novo; e a mi ainda suspirava ao fallar da
sua bella figura com o uniforme de cavallaria. Aos oito annos ella foi
para a mestra. Como se lembrava! A mestra era uma velhita rolia e
branca, que fra tacho das freiras de Santa Joanna d'Aveiro; com os seus
oculos redondos, junto  janella, empurrando a agulha, morria-se por
contar historias do convento: as perrices da escriv, sempre a
escabichar os dentes furados; a madre rodeira, preguiosa e pacata, com
uma pronuncia minhota; a mestra de cantocho, admiradora de Bocage e que
se dizia descendente dos Tavoras; e a legenda de uma freira que morrera
de amor, e cuja alma ainda em certas noites percorria os corredores,
soltando gemidos dolorosos e clamando:--Augusto! Augusto!

Amelia ouvia aquellas historias, encantada. Gostava ento tanto de
festas d'igreja e da convivencia dos santos, que desejava ser uma
freirinha, muito bonita, com um vosinho muito branco. A mam era
muito visitada por padres. O chantre Carvalhosa, um homem velho e
robusto, que soprava de asthma ao subir a escada e tinha uma voz
fanhosa, vinha todos os dias, como amigo da casa. Amelia chamava-lhe
_padrinho_. Quando ella voltava da mestra,  tarde, encontrava-o sempre
a palestrar com a mi, na sala, de batina desabotoada, deixando vr o
longo collete de velludo preto com raminhos bordados a amarello. O
senhor chantre perguntava-lhe pelas lies e fazia-a dizer a taboada.

 noite havia reunies: vinha o padre Valente; o conego Cruz; e um
velhito calvo, de perfil de passaro, com oculos azues, que fra frade
franciscano e a quem chamavam frei Andr. Vinham as amigas da mi, com
as suas _meias_; e um capito Couceiro, de caadores, que tinha os dedos
negros do cigarro e trazia sempre a sua viola. Mas s nove horas
mandavam-na deitar; pela frincha do quarto ella via a luz, ouvia as
vozes; depois fazia-se um silencio, e o capito, repenicando a guitarra,
cantava o _lundum da Figueira_.

Foi assim crescendo entre padres. Mas alguns eram-lhe antipathicos:
sobretudo o padre Valente, to gordo, to suado, com umas mos papudas e
molles, d'unhas pequenas! Gostava de a ter entre os joelhos, torcer-lhe
devagarinho a orelha, e ella sentia o seu halito impregnado de cebola e
de cigarro. O seu amiguinho era o conego Cruz, magro, com o cabello todo
branco, a volta sempre aceada, as fivelas luzidias; entrava devagarinho,
comprimentando com a mo sobre o peito e uma voz suave cheia de ss. J
ento sabia o catecismo e a doutrina: na mestra, em casa, por qualquer
bagatella fallavam-lhe sempre dos castigos do co; de tal sorte que
Deus apparecia-lhe como um sr que s sabe dar o soffrimento e a morte e
que  necessario abrandar, rezando e jejuando, ouvindo novenas, amimando
os padres. Por isso, se s vezes ao deitar lhe esquecia uma
Salve-Rainha, fazia penitencia no outro dia, porque temia que Deus lhe
mandasse sezes ou a fizesse cahir na escada.

Mas o seu melhor tempo foi quando comeou a tomar lies de musica. A
mi tinha na sala de jantar, ao canto, um velho piano, coberto com um
pano verde, to desafinado, que servia de aparador! Amelia costumava
cantarolar pela casa; a sua voz fina e fresca agradava ao senhor
chantre, e as amigas da mi diziam-lhe:

--Tu tens ahi um piano, porque no mandas ensinar a rapariga? Sempre 
uma prenda! olha que lhe pde servir de muito!

O chantre conhecia um bom mestre, antigo organista da S d'Evora,
extremamente infeliz: a filha unica, muito linda, fugira-lhe com um
alferes para Lisboa; e, passados dois annos, o Silvestre da Praa, que
ia muito  capital, vira-a descer a rua do Norte, de _garibaldi_
escarlate e alvaiade n'um olho, com um marinheiro inglez. O velho cahira
em grande melancolia e grande miseria; e por piedade tinham-lhe dado um
emprego no cartorio da camara ecclesiastica. Era uma figura triste de
romance picaresco. Muito magro, alto como um pinheiro, deixava crescer
at aos hombros os seus cabellos brancos e finos; os olhos, cansados,
lagrimejavam-lhe sempre; mas o seu sorriso resignado e bom enternecia: e
parecia muito transido, no seu capote cr de vinho que s lhe chegava 
cintura e que tinha uma gola d'astrakan. Chamavam-lhe o _Tio Cegonha_
pela sua alta magreza e o seu ar solitario. Amelia um dia tinha-lhe
chamado _Tio Cegonha_; mas mordeu logo o beio, toda envergonhada.

O velho poz-se a sorrir:

--Ai, chame, minha rica menina, chame! _Tio Cegonha_?... ora, que tem?
Cegonha sou eu, e bem cegonha!

Era ento no inverno. As grandes chuvas com os sudoestes no cessavam; a
aspera estao opprimia os pobres. Viam-se n'aquelle anno familias
esfomeadas indo  camara pedir po. O _Tio Cegonha_ vinha sempre ao
meio-dia dar a lio; o seu guardachuva azul deixava um ribeiro na
escada; tiritava; e quando se sentava escondia, na sua vergonha de
velho, as botas encharcadas com a sola aberta. Queixava-se sobretudo do
frio das mos, que o impedia de ferir com justeza o teclado e no o
deixava escrever no cartorio.

--Prendem-se-me os dedos... dizia tristemente.

Mas quando a S. Joanneira lhe pagou o primeiro mez das lies, o velho
appareceu muito contente, com umas grossas luvas de l.

--Ah, _Tio Cegonha_, como vem quentinho! disse-lhe Amelia.

--Foi o seu dinheiro, minha rica menina. Agora ando a juntar para umas
meias de l. Deus a abene, minha menina, Deus a abene!

E tinham-se-lhe arrasado os olhos de lagrimas. Amelia tornra-se a sua
rica amiguinha. J lhe fazia confidencias: contava-lhe as suas
necessidades, as saudades da filha, as suas glorias na S d'Evora,
quando diante do senhor **arcebispo**, vistoso na sua sobrepelliz
escarlate, acompanhava o _Lausperenne_.

Amelia no se esqueceu das meias de l do _Tio Cegonha_. Pediu ao
chantre que lhe dsse umas meias de l.

--Ora essa! para qu? para ti? disse elle com o seu riso grosso.

--Para mim, sim senhor.

--Deixe fallar, senhor chantre! disse a S. Joanneira. Olha a ida!

--No deixe fallar, no! d, sim?

Lanou-lhe os braos ao pescoo, fez-lhe olhinhos dces.

--Ah, sereia! dizia o chantre rindo: que esperanas! ha de ser o
diabo!... Pois sim, ahi tens.--E deu-lhe dois pintos para umas meias de
l.

No dia seguinte tinha-os ella embrulhados n'um papel, que dizia por fra
em letras garrafaes: _Ao meu rico amigo Tio Cegonha, a sua discipula_.

Uma manh, depois, viu-o mais amarello, mais chupado:

-- _Tio Cegonha_, disse de repente, quanto lhe do l no cartorio?

O velho sorriu-se:

--Ora, minha rica menina, quanto me ho de dar? uma bagatella. Quatro
vintens por dia. Mas o snr. Netto faz-me algum bem...

--E chegam-lhe, quatro vintens?

--Ora! como ho de chegar!

Sentiram-se os passos da mi; e Amelia, retomando gravemente a attitude
de lio, comeou a solfejar alto, com um ar profundo.

E desde esse dia tanto pediu, tanto exclamou, que levou a mi a dar de
almoar e de jantar ao _Tio Cegonha_ nos dias de lio. Assim se
estabeleceu entre ella e o velho uma grande intimidade. E o pobre _Tio
Cegonha_, sahindo do seu frio isolamento, acolhia-se quella amizade
inesperada, como a um conchego tepido. Encontrava n'ella o elemento
feminino que amam os velhos, com as caricias, as suavidades de voz, as
delicadezas de enfermeira; achava n'ella a unica admiradora da sua
musica; e via-a sempre attenta s historias do seu tempo, s recordaes
da velha S d'Evora que elle amava tanto, e que lhe fazia dizer, quando
se fallava de procisses ou de festas de igreja:

--Para isso Evora! em Evora  que !

Amelia applicava-se muito ao piano: era a coisa boa e delicada da sua
vida: j tocava contradansas e antigas arias de velhos compositores; a
snr.^a D. Maria da Assumpo estranhava que o mestre lhe no ensinasse o
_Trovador_.

--Coisa mais linda! dizia.

Mas o _Tio Cegonha_ s conhecia a musica classica, arias ingenuas e
dces de Lully, motivos de minuetes, motetes floridos e piedosos dos
dces tempos freiraticos.

Uma manh o _Tio Cegonha_ encontrou Amelia muito amarella e triste.
Desde a vespera queixava-se de mal-estar. Era um dia nublado, muito
frio. O velho queria ir-se embora.

--No, no, _Tio Cegonha_, disse ella, toque alguma coisa para eu me
entreter.

Elle tirou o seu capote, sentou-se, tocou uma melodia simples, mas
extremamente melancolica.

--Que lindo! que lindo! dizia Amelia, de p junto ao piano.

E quando o velho deu as ultimas notas:

--O que ? perguntou ella.

O _Tio Cegonha_ contou-lhe que era o comeo de uma _Meditao_ feita por
um frade seu amigo.

--Coitado, disse, teve bem o seu tormento!

Amelia quiz logo saber a historia; e sentando-se no mocho do piano,
embrulhando-se no seu chale:

--Diga, _Tio Cegonha_, diga!

Era um homem que tivera em novo uma grande paixo por uma freira; ella
morrera no convento d'aquelle amor infeliz; e elle, de dr e de saudade,
fizera-se frade franciscano...

--Parece que o estou a vr...

--Era bonito?

--Se era! Um rapaz na flr da vida, rico... Um dia veio ter commigo ao
orgo: Olha o que eu fiz, disse-me elle. Era um papel de musica. Abria
em r menor. Poz-se a tocar, a tocar... Ai, minha rica menina, que
musica! Mas no me lembra o resto!

E o velho, commovido, repetiu no piano as notas plangentes da
_Meditao_ em r menor.

Amelia todo o dia pensou n'aquella historia. De noite veio-lhe uma
grande febre, com sonhos espessos, em que dominava a figura do frade
frasciscano, na sombra do orgo da S d'Evora. Via os seus olhos
profundos reluzirem n'uma face encovada: e, longe, a freira pallida, nos
seus habitos brancos, encostada s grades negras do mosteiro, sacudida
pelos prantos do amor! Depois, no longo claustro, a ala dos frades
franciscanos caminhava para o cro: elle ia no fim de todos, curvado,
com o capuz sobre o rosto, arrastando as sandalias, emquanto um grande
sino, no ar nublado, tocava o dobre dos finados. Ento o sonho mudava:
era um vasto co negro, onde duas almas enlaadas e amantes, com habitos
de convento e um ruido ineffavel de beijos insaciaveis, giravam, levadas
por um vento mystico; mas desvaneciam-se como nevoas, e na vasta
escurido ella via apparecer um grande corao em carne viva, todo
trespassado de espadas--e as gotas de sangue que cahiam d'elle enchiam o
co d'uma chuva escarlate.

Ao outro dia a febre acalmou. O doutor Gouva tranquillisou a S.
Joanneira com uma simples palavra:

--Nada de sustos, minha rica senhora, so os quinze annos da rapariga.
Ho de lhe vir manh as vertigens e os enjos... Depois acabou-se.
Temol-a mulher.

A S. Joanneira comprehendeu.

--Esta rapariga tem o sangue vivo e ha de ter as paixes fortes!
acrescentou o velho pratico, sorrindo e sorvendo a sua pitada.

Por esse tempo o senhor chantre, uma manh, depois do seu almoo
d'aorda, cahiu de repente morto com uma apoplexia. Que consternao
inesperada para a S. Joanneira! Durante dois dias, esguedelhada, em
saias brancas, chorou, gemeu pelos quartos. D. Maria da Assumpo, as
snr.^{as} Gansosos vieram acalmar, amansar a sua dr: e a snr.^a D.
Josepha Dias resumiu as consolaes de todas, dizendo:

--Deixa, filha, que te no ha de faltar quem te ampare!

Era ento no comeo de setembro; a snr.^a D. Maria da Assumpo, que
tinha uma casa na praia da Vieira, propz levar a S. Joanneira e Amelia
para a estao dos banhos, para ella espalhar, nos bons ares saudaveis,
em logar differente, aquella dr.

-- uma esmola que me fazes, dissera a S. Joanneira. Sempre me lembra
que era alli que elle punha o guardachuva... Alli que elle se sentava a
vr-me costurar!

--Est bom, est bom, deixa-te d'isso. Come e bebe, toma os teus banhos,
e o que l vai l vai. Olha que elle tinha bem os seus sessenta.

--Ah, minha rica! a gente  pela amizade que lhes ganha!

Amelia tinha ento quinze annos, mas era j alta e de bonitas frmas.
Foi uma alegria para ella a estao na Vieira! Nunca vira o mar; e no
se fartava de estar sentada na areia, fascinada pela vasta agua azul,
muito mansa, cheia de sol; s vezes no horisonte passava um fumo delgado
de paquete; a monotona e gemente cadencia da vaga adormentava-a; e em
redor o areal faiscava, a perder de vista, sob o co azul-ferrete.

Como se lembrava bem! Logo pela manh estava a p. Era a hora do banho:
as barracas de lona alinhavam-se ao comprido da praia; as senhoras,
sentadas em cadeirinhas de pau, de sombrinhas abertas, olhavam o mar,
palrando; os homens, de sapatos brancos, estendidos em esteiras,
chupavam o cigarro, riscavam emblemas na areia; emquanto o poeta Carlos
Alcoforado, muito fatal, muito olhado, passeava s, soturno, junto da
vaga, seguido do seu Terra-Nova. Ella sahia ento da barraca com o seu
vestido de flanella azul, a toalha no brao, tiritando de susto e de
frio: tinha-se persignado s escondidas e toda tremula, agarrada  mo
do banheiro, escorregando na areia, entrava na agua, rompendo a custo a
maresia esverdeada que fervia em redor. A onda vinha espumando, ella
mergulhava, e ficava aos saltos, suffocada e nervosa, cuspindo a agua
salgada. Mas, quando sahia do mar, como vinha satisfeita! Arfava, com a
toalha pela cabea, arrastando-se para a barraca, mal podendo com o peso
do vestido encharcado, risonha, cheia de reaco; e em redor vozes
amigas perguntavam:

--Ento que tal, que tal? Mais fresquinha, hein?

Depois, de tarde, eram os passeios  beira-mar, a apanhar conchinhas; o
recolher das redes, onde a sardinha toda viva ferve aos milheiros,
luzidia sobre a areia molhada; e que longas perspectivas de occasos
ricamente dourados, sobre a vastido do mar triste, que escurece e geme!

D. Maria da Assumpo tinha sido visitada, logo ao chegar, por um rapaz,
filho do snr. Brito de Alcobaa, seu parente. Chamava-se Agostinho, ia
frequentar o quinto anno de direito na Universidade. Era um moo
delgado, de bigode castanho, pera, cabello comprido deitado para traz, e
luneta: recitava versos, sabia tocar guitarra, contava anecdotas de
caloiros, fazia _partidas_, e era famoso na Vieira, entre os homens,
por saber conversar com senhoras.

--O Agostinho, patife! diziam.  chalaa a esta, chalaa quella. L
para sociedade no ha outro!

Logo desde os primeiros dias Amelia reparou que os olhos do snr.
Agostinho Brito se fitavam constantemente n'ella, p'ra namoro. Amelia
crava muito, sentia o seio alargar-se-lhe dentro do vestido; e
admirava-o, achava-o muito dengueiro.

Um dia em casa da snr.^a D. Maria da Assumpo pediram a Agostinho para
recitar.

--Oh, minhas senhoras, isto aqui no  forja de ferreiro! exclamou elle,
jovial.

--Ora v! no se faa rogado, disseram, insistindo.

--Bem, bem, por isso no nos havemos de zangar.

--A _Judia_, Brito, lembrou o recebedor de Alcobaa.

--Qual _Judia_! disse elle, ha de ser mas ha do ser a _Morena_!--E olhou
para Amelia.--Foi uma poesia que fiz hontem.

--Valeu, valeu!

--E c o rapaz acompanha, disse um sargento do 6 de caadores, tomando
logo a guitarra.

Fez-se um silencio: o snr. Agostinho deitou o cabello para traz, fincou
a luneta, apoiou as duas mos s costas d'uma cadeira, e fitando Amelia:

-- _Morena_ de Leiria! disse.


Nasceste nos verdes campos
Onde Leiria  famosa,
Tens a frescura da rosa,
E o teu nome sabe a mel...


--Perdo! exclamou o recebedor, a snr.^a D. Juliana no est boa...

Era a filha do escrivo de direito de Alcobaa; tinha-se feito muito
pallida, e, lentamente, desmaiava na cadeira, com os **braos**
pendentes, o queixo sobre o peito. Borrifaram-na de agua, levaram-n'a
para o quarto de Amelia; quando lhe desapertaram o vestido e lhe deram
vinagre a respirar, ergueu-se sobre o cotovlo, olhou em redor,
comearam a tremer-lhe os beios e rompeu a chorar. Fra, os homens em
grupo, commentavam:

--Foi o calor, diziam.

--O calor que ella tinha sei eu... rosnou o sargento de caadores.

O snr. Agostinho torcia o bigode, contrariado. Algumas senhoras foram a
casa acompanhar a snr.^a D. Juliana. D. Maria da Assumpo e a S.
Joanneira, atabafadas nos seus chales, iam tambem. Havia vento, um
criado levava um lampeo, e todos caminhavam na areia, calados.

--Tudo isto  teu proveito, disse a snr.^a D. Maria da Assumpo baixo 
S. Joanneira, demorando-se um pouco atraz.

--Meu!?

--Teu. Pois tu no percebeste? A Juliana, em Alcobaa, era namoro do
Agostinho. Mas o rapaz aqui anda pelo beio pela Amelia. A Juliana
percebeu, viu-o recitar aquelles versos, olhar para ella, zs!

--Ora essa!... disse a S. Joanneira.

--Deixa l, o Agostinho tem um par de mil cruzados que lhe deixam as
tias.  um partido!

Ao outro dia,  hora do banho, a S. Joanneira vestia-se na sua barraca,
e Amelia, sentada na areia, esperava, pasmada para o mar.

--Ol! ssinha! disse uma voz por detraz.

Era Agostinho. Amelia, calada, comeou a riscar a areia com a sombrinha.
O snr. Agostinho suspirou, alisou outro pedao d'areia com o p,
escreveu--Amelia. Ella, muito vermelha, quiz apagar com a mo.

--Ento! disse elle. E debruando-se, baixo:-- o nome da _Morena_, bem
v. _O seu nome sabe a mel!_...

Ella sorriu:

--Ande que fez hontem desmaiar aquella pobre Juliana, disse.

--Ora! importa-me a mim bem com ella! Estou farto d'aquelle estafermo!
Ento que quer? Eu c sou assim. Tanto digo que me no importo com ella,
como digo que ha uma pessoa por quem dava tudo... Eu sei...

--Quem ?  a snr.^a D. Bernarda?

Era uma velha hedionda, viuva de um coronel.

--, disse elle rindo.  justamente por quem eu ando apaixonado,  pela
D. Bernarda.

--Ah! o senhor anda apaixonado! disse ella devagar, com os olhos baixos,
riscando a areia.

--Diga-me uma coisa, est a mangar commigo? exclamou Agostinho puxando
uma cadeirinha, sentando-se junto d'ella.

Amelia pz-se de p.

--No quer que eu me sente ao p de si? perguntou elle offendido.

--Eu  que estava cansada de estar sentada.

Calaram-se um momento.

--J tomou banho? disse ella.

--J.

--Estava frio hoje?

--Estava.

As palavras de Agostinho eram agora muito sccas.

--Zangou-se? disse ella dcemente, pondo-lhe de leve a mo no hombro.

Agostinho ergueu os olhos, e vendo o bonito rosto trigueiro, todo
risonho, exclamou com vehemencia:

--Estou mesmo doido por si!

--Chut!... disse ella.

A mi de Amelia, levantando o pano da barraca, sahia, muito abafada, de
leno amarrado na cabea.

--Mais fresquinha, hein? perguntou logo Agostinho, tirando o chapo de
palha.

--Estava por aqui?

--Vim dar uma vista d'olhos. E agora toca ao almocinho, hein?

--Se  servido... disse a S. Joanneira.

Agostinho, muito galante, offereceu o brao  mam.

E desde ento seguia sempre Amelia, de manh no banho, de tarde 
beira-mar; apanhava-lhe conchas; e tinha-lhe feito outros versos--o
_Sonho_. Uma estrophe era violenta:


Senti-te contra o meu peito
Tremer, palpitar, ceder...


Ella murmurava-os com grande commoo, de noite, suspirando, abraando o
travesseiro.

Outubro findava, as frias tinham acabado. Uma noite o alegre rancho da
snr.^a D. Maria da Assumpo e das amigas fra dar um passeio ao luar. 
volta, porm, erguera-se vento, nuvens pesadas empastaram o co, cahram
gotas d'agua. Estavam ento junto a um pequeno pinheiral, e as senhoras,
aos gritinhos, quizeram abrigar-se. Agostinho, com Amelia pelo brao,
rindo alto, foi penetrando longe dos outros na espessura; e ento, sob o
monotono e gemente rumor das ramas, disse-lhe baixo, cerrando os dentes:

--Estou doido por ti, filha!

--Creio l n'isso! murmurou ella.

Mas Agostinho, tomando subitamente um tom grave:

--Sabes? talvez eu tenha de me ir manh embora.

--Vai-se?

--Talvez; no sei ainda. Alm d'manh  a matricula.

--Vai-se... suspirou Amelia.

Elle ento tomou-lhe a mo, apertou-lh'a com furor:

--Escreve-me! disse.

--E a mim escreve-me? disse ella.

Agostinho agarrou-a pelos hombros e machucou-lhe a boca de beijos
vorazes.

--Deixe-me! deixe-me! dizia ella suffocada.

De repente teve um gemido dce como um arrulho de ave, e
abandonava-se--quando a voz aguda de D. Joaquina Gansoso gritou:

--Ha uma aberta.  andar!  andar!

E Amelia, desprendendo-se, atarantada, correu a agachar-se sob o
guardachuva da mam.

Ao outro dia, com effeito, o snr. Agostinho partiu. Vieram as primeiras
chuvas, e dentro em pouco tambem Amelia, a mi, a snr.^a D. Maria da
Assumpo voltaram para Leiria.

Passou o inverno.

E um dia, em casa da S. Joanneira, D. Maria da Assumpo deu parte que o
Agostinho Brito, segundo lhe escreviam de Alcobaa, tinha o casamento
justo com a menina do Vimeiro.

--Caspit! exclamou D. Joaquina Gansoso, apanha nada menos que os seus
trinta contos! Olha o mco!

E diante de todos Amelia rompeu a chorar.

Amava Agostinho; e no podia esquecer aquelles beijos de noite no
pinheiral cerrado. Pareceu-lhe ento que no tornaria a ter alegria!
Ainda lembrada d'aquelle moo da historia do _Tio Cegonha_, que por amor
se escondera na solido de um convento, comeou a pensar em ser freira:
deu-se a uma forte devoo, manifestao exagerada das tendencias que
desde pequenina as convivencias de padres tinham lentamente creado na
sua natureza sensivel; lia todo o dia livros de rezas; encheu as paredes
do quarto de lithographias coloridas de santos; passava longas horas na
igreja, accumulando Salve-Rainhas  Senhora da Encarnao. Ouvia todos
os dias missa, quiz commungar todas as semanas--e as amigas da mi
achavam-na um modlo, de dar virtude a incredulos!

Foi por esse tempo que o conego Dias e sua irm, a snr.^a D. Josepha
Dias, comearam a frequentar a casa da S. Joanneira. Dentro em pouco o
conego tornou-se o amigo da familia. Depois do almoo era certo com a
sua cadellinha, como outr'ora o chantre com o seu guardachuva.

--Tenho-lhe muita amizade, faz-me muito bem, dizia a S. Joanneira. Mas o
senhor chantre no ha dia nenhum que me no lembre d'elle!

A irm do conego tinha ento organisado com a S. Joanneira a _Associao
das Servas da Senhora da Piedade_. A snr.^a D. Maria da Assumpo, as
Gansosos filiaram-se; e a casa da S. Joanneira tornou-se um centro
ecclesiastico. Foi esse o momento melhor da vida da S. Joanneira; a S,
como dizia com tedio o Carlos da botica, era agora na rua da
Misericordia. Parte dos conegos, o novo chantre vinham todas as
sextas-feiras. Havia imagens de santos na sala de jantar e na cozinha.
As criadas, por escrupulo, eram examinadas em doutrina antes de serem
aceitas. Alli muito tempo fizeram-se as reputaes: se se dizia de um
homem--_no  temente a Deus_, havia o dever de o desacreditar
santamente. As nomeaes de sineiros, coveiros, serventes de sacristia
arranjavam-se alli por intrigas subtis e palavras piedosas. Tinham
tomado um certo vestuario entre o preto e o rxo: toda a casa cheirava a
cera e a incenso; e a S. Joanneira, mesmo, monopolisra o commercio das
hostias.

Assim passaram annos. Pouco a pouco, porm, o grupo devoto dispersou-se:
a ligao do conego Dias e da S. Joanneira, muito commentada, afastou os
padres do cabido; o novo chantre morrera de apoplexia tambem--como era
de tradio n'aquella diocese, fatal aos chantres; e j no eram
divertidos os quinos das sextas-feiras. Amelia mudra muito; crescera:
fizera-se uma bella moa de vinte e dois annos, d'olhar avelludado,
beios muito frescos--e achava a sua paixo pelo Agostinho uma tontice
de criana. A sua devoo subsistia, mas alterada: o que amava agora na
religio e na igreja era o apparato, a festa--as bellas missas cantadas
ao orgo, as capas recamadas de ouro, reluzindo entre os tocheiros, o
altar-mr na gloria das flres cheirosas, o roar das correntes dos
incensadores de prata, os unisonos que rompem briosamente no cro das
alleluias. Tomava a S como a sua Opera: Deus era o seu luxo. Nos
domingos de missa gostava de se vestir, de se perfumar com agua de
colonia, de se ir aninhar sobre o tapete do altar-mr, sorrindo ao padre
Brito ou ao conego Saldanha.--Mas em certos dias, como dizia a mi,
murchava: voltavam ento os abatimentos d'outr'ora, que a amarellavam,
lhe punham duas rugas velhas ao canto dos labios: tinha n'essas
occasies horas d'uma vaga saudade parva e morbida, em que s a
consolava cantar pela casa o Santissimo ou as notas lugubres do toque da
Agonia. Com a alegria voltava-lhe o gosto do culto alegre--e lamentava
ento que a S fosse uma ampla estructura de pedra d'um estylo frio e
jesuitico: quereria uma igreja pequenina, muito dourada, tapetada,
forrada de papel, illuminada a gaz; e padres bonitos officiando a um
altar ornado como uma _tagre_.

Fizera vinte e tres annos quando conheceu Joo Eduardo, no dia da
procisso de _Corpus-Christi_, em casa do tabellio Nunes Ferral, onde
elle era escrevente. Amelia, a mi, a snr.^a D. Josepha Dias tinham ido
vr a procisso da bella varanda do tabellio, guarnecida de colchas de
damasco amarello. Joo Eduardo estava l, modesto, srio, todo vestido
de preto. Havia muito que Amelia o conhecia; mas n'aquella tarde,
reparando na brancura da sua pelle e na gravidade com que ajoelhava,
pareceu-lhe muito bom rapaz.

 noite, depois do ch, o gordalhufo Nunes, de collete branco, foi pela
sala exclamando, enthusiasmado, com a sua voz de grillo:-- tirar pares,
 tirar pares!--emquanto a filha mais velha ao piano tocava com brio
estridente uma mazurka franceza. Joo Eduardo aproximou-se de Amelia:

--Ai, eu no danso!... disse ella logo com ar scco.

Joo Eduardo no dansou tambem, foi encostar-se a uma hombreira com a
mo na abertura do collete, os olhos fitos em Amelia. Ella percebia,
desviava o rosto, mas estava contente; e quando Joo Eduardo, vendo uma
cadeira vazia, veio sentar-se ao p d'ella, Amelia fez-lhe logo logar
accommodando os folhos de sda, agradada. O escrevente, embaraado,
torcia o bigode com a mo tremula. Por fim Amelia voltando-se para elle:

--Ento o senhor no dansa tambem?

--E a snr.^a D. Amelia? disse elle baixo.

Ella inclinou-se para traz, e batendo nas pregas do vestido:

--Ai! eu estou velha para estes divertimentos, sou uma pessoa sria.

--Nunca se ri? perguntou elle, pondo na voz uma inteno fina.

--s vezes rio quando ha de qu, disse ella olhando-o de lado.

--De mim, por exemplo.

--De si!? ora essa! Est a caoar commigo? Porque me hei de eu rir do
senhor? Boa!... Ento o senhor que tem que faa rir?--E agitava o seu
leque de sda preta.

Elle calou-se, procurando as idas, as delicadezas.

--Ento srio, srio, no dansa?

--J lhe disse que no. Ai, que  to perguntador!

-- porque me interesso por si.

--Ora, deixe l! disse ella fazendo um indolente gesto de negativa.

--Palavra!

Mas a snr.^a D. Josepha Dias, que os vigiava, aproximou-se, de testa
muito franzida--e Joo Eduardo levantou-se, intimidado.

 sahida, quando Amelia no corredor punha os seus agasalhos, Joo
Eduardo veio dizer-lhe, de chapo na mo:

--Cubra-se bem, no apanhe frio!

--Ento contina a interessar-se por mim? disse ella apertando em redor
do pescoo as pontas da sua manta de l.

--O mais possivel, creia.

Duas semanas depois veio a Leiria uma companhia ambulante de _zarzuela_.
Fallava-se muito da contralto, a _Gamacho_. A snr.^a D. Maria da
Assumpo tinha um camarote, levou a S. Joanneira e Amelia--que duas
noites antes estivera costurando, com uma pressa commovida, um vestido
de cassa todo florido de laos de sda azul. Joo Eduardo na
plata--emquanto a Gamacho, empastada de p de arroz sob a sua mantilha
valenciana, vibrando com uma graa decrepita o leque de lentejoulas,
garganteava malaguenhas agudas--no se fartou de contemplar, de desejar
Amelia.  sahida veio comprimental-a, offerecer-lhe o brao at  rua da
Misericordia: a S. Joanneira, a snr.^a D. Maria da Assumpo seguiam
atraz com o tabellio Nunes.

--Ento gostou da Gamacho, snr. Joo Eduardo?

--A fallar-lhe a verdade nem sequer reparei n'ella.

--Ento que fez?

--Olhei para si, respondeu elle resolutamente.

Ella parou immediatamente, disse com a voz um pouco alterada:

--Onde vem a mam?

--Deixe l a mam!

E Joo Eduardo, ento, fallando-lhe junto do rosto, disse-lhe a sua
grande paixo. Tomou-lhe a mo, repetia todo perturbado:

--Gsto tanto de si! Gsto tanto de si!

Amelia estava nervosa da musica do theatro; a noite quente de vero, com
a sua vasta scintillao de estrellas, tornava-a toda languida.
Abandonou a mo, suspirou baixinho.

--Gosta de mim, no  verdade? perguntou elle.

--Sim, respondeu ella--e apertou os dedos de Joo Eduardo, com paixo.

Mas, como ella pensou, fra decerto um fogacho--porque, dias depois,
quando conheceu mais Joo Eduardo, quando pde fallar livremente com
elle, reconheceu que no tinha nenhuma inclinao pelo rapaz.
Estimava-o, achava-o sympathico, bom moo; poderia ser um bom marido;
mas sentia dentro em si o corao adormecido.

O escrevente porm comeou a ir  rua da Misericordia quasi todas as
noites. A S. Joanneira estimava-o pelo seu proposito e pela sua
honradez. Mas Amelia ia-se mostrando fria: esperava-o  janella pela
manh quando elle passava para o cartorio, fazia-lhe olhos dces 
noite,--mas s para o no descontentar, para ter na sua existencia
desoccupada um interessesinho amoroso.

Joo Eduardo um dia fallou  mi em casamento:

--Como a Amelia quizer, eu por mim... disse a S. Joanneira.

E Amelia, consultada, respondeu ambiguamente:

--Mais tarde, por ora no me parece, veremos.

Emfim accordou-se tacitamente em esperar, at que elle obtivesse o lugar
de amanuense do governo civil, rasgadamente promettido pelo doutor
Godinho--o temido doutor Godinho!

Assim vivera Amelia at  chegada d'Amaro: e, durante a noite, estas
recordaes vinham-lhe por fragmentos, como pedaos de nuvens que o
vento vai trazendo e desmanchando. Adormeceu tarde, acordou j o sol ia
alto: e espreguiava-se, quando ouviu dizer a _Rua_ na sala de jantar:

-- o senhor parocho que vai sahir com o senhor conego; vo  S.

Amelia saltou da cama, correu  janella em camisa, ergueu uma pontinha
da cortina de cassa, olhou. A manh resplandecia: e o padre Amaro pelo
meio da rua conversando com o conego, assoava-se ao seu leno branco,
muito airoso na sua batina de pano fino.




VI


Logo desde os primeiros dias, envolvido suavemente em commodidades,
Amaro sentiu-se feliz. A S. Joanneira, muito maternal, tomava um grande
cuidado na sua roupa branca, preparava-lhe petiscos, e o quarto do
senhor parocho andava que nem um brinco! Amelia tinha com elle uma
familiaridade picante de parenta bonita: tinham calhado um com outro,
como dissera, encantada, D. Maria da Assumpo. Os dias iam assim
passando para Amaro, faceis, com boa mesa, colches macios e a
convivencia meiga de mulheres. A estao ia to linda que at as tilias
floresceram no jardim do Pao: quasi milagre! disse-se: o senhor
chantre, contemplando-as todas as manhs da janella do seu quarto, em
robe-de-chambre, citava versos das _Eclogas_. E depois das longas
tristezas da casa do tio da Estrella, dos desconsolos do seminario e do
aspero inverno na Gralheira--aquella vida em Leiria era para Amaro como
uma casa scca e abrigada onde o alegre lume estala e a spa cheirosa
fumega, depois d'uma noite de jornada na serra, sob troves e chuveiros.

Ia cedo dizer missa  S, bem embrulhado no seu grande capote, com luvas
de casimira, meias de l por baixo das botas de alto cano vermelho. As
manhs estavam frias: e quella hora s algumas devotas, com o manto
escuro pela cabea, rezavam aqui e alm, ao p d'um altar envernizado de
branco.

Entrava logo na sacristia, revestia-se depressa batendo os ps no
lagedo, emquanto o sacristo, pachorrento, contava as novidades do
dia.

Depois, com o calice na mo, d'olhos baixos, passava  igreja; e tendo
dobrado o joelho rapidamente diante do Santissimo Sacramento, subia
devagar ao altar onde as duas velas de cera esmoreciam com uma claridade
pallida na larga luz da manh, juntava as mos, murmurava, curvado:

--_Introibo ad altare Dei._

--_Ad Deum qui ltificat juventutem meam_, resmungava, n'um latim
syllabado, o sacristo.

Amaro j no celebrava a missa como nos primeiros tempos, com uma
devoo enternecida. Estava agora habituado, dizia. E como no ceava,
e quella hora, em jejum, com a frescura cortante do ar, j sentia
appetite, engorolava depressa, monotonamente, as santas leituras da
Epstola e dos Evangelhos. Por traz o sacristo, com os braos cruzados,
passava vagarosamente a mo pela sua espessa barba bem rapada, olhando
de revez para a Casimira Frana, mulher do carpinteiro da S, muito
devota, que elle traza d'olho desde a Paschoa. Largas resteas de sol
cahiam das janellas lateraes. Um vago aroma de junquilhos sccos
adocicava o ar.

Amaro, depois de recitar rapidamente o Offertorio, limpava o calice com
o purificador; o sacristo, um pouco vergado dos rins, ia buscar as
galhetas, apresentava-as, curvado--e Amaro sentia o cheiro do oleo
ranoso que lhe reluzia no cabello. N'aquella parte da missa, por um
antigo habito de emoo mystica, Amaro tinha um recolhimento sentido:
com os braos abertos, voltava-se para a igreja, clamava, com largueza,
a exhortao universal  orao--_Orate, fratres!_ E as velhas
encostadas aos pilares de pedra, com o aspecto idiota, a boca babosa,
apertavam mais as mos contra o peito, d'onde pendiam grandes rosarios
negros. Ento o sacristo ia ajoelhar-se por traz d'elle, sustentando
ligeiramente com uma das mos a capa, erguendo na outra a sineta. Amaro
consagrava o vinho, levantava a hostia--_Hoc est enim corpus
meum!_--elevando alto os braos para o Christo cheio de chagas rxas
sobre a sua cruz de pau preto; a campainha tocava devagar; as mos
batiam concavamente nos peitos; e no silencio sentiam-se os carros de
bois rolando, com solavancos, sobre o largo lageado da S,  volta do
mercado.

--_Ite, missa est!_ dizia Amaro emfim.

--_Deo gratias!_ respondia o sacristo respirando alto, com o allivio da
obrigao finda.

E quando, depois de ter beijado o altar, Amaro vinha do alto dos degraus
dar a beno, era j pensando na alegria do almoo, na clara sala de
jantar da S. Joanneira e nas boas torradas. quella hora j Amelia o
esperava com o cabello cahido sobre o penteador, tendo na pelle fresca
um bom cheiro de sabo d'amendoas.


Pelo meio do dia ordinariamente Amaro subia  sala de jantar onde a S.
Joanneira e Amelia costuravam. Estava aborrecido em baixo, vinha um
bocado para o cavaco, dizia. A S. Joanneira, n'uma cadeira pequena, ao
p da janella, com o gato aninhado na roda do vestido de merino, cosia
de luneta na ponta do nariz. Amelia, junto da mesa, trabalhava com o
cesto da costura ao lado: a cabea inclinada sobre o trabalho mostrava a
sua risca fina, nitida, um pouco afogada na abundancia do cabello; os
seus grandes brincos de ouro, em frma de pingos de cera, oscillavam,
faziam tremer e crescer sobre a finura do pescoo uma pequenina sombra;
as olheiras leves cr de _bistre_ esbatiam-se delicadamente sobre a
pelle de um trigueiro mimoso, que um sangue forte aviventava; e o seu
peito cheio respirava devagar. s vezes, cravando a agulha na fazenda,
espreguiava-se devagarinho, sorria, cansada. Ento Amaro gracejava:

--Ah preguiosa, preguiosa! Olha que mulher de casa!

Ella ria; conversavam. A S. Joanneira sabia as coisas interessantes do
dia: o major despedira a criada; ou havia quem offerecesse dez moedas
pelo porco do Carlos do correio. De vez em quando a _Rua_ vinha ao
armario buscar um prato ou uma colhr: ento fallava-se do preo dos
generos, do que havia para o jantar. A S. Joanneira tirava as lunetas,
traava a perna e, balouando o p calado n'uma chinela d'ourelo,
punha-se a dizer os pratos:

--Hoje temos gro de bico. No sei se o senhor parocho gostar, foi para
variar...

Mas Amaro gostava de tudo; e mesmo em certas comidas descobria
affinidade de gostos com Amelia.

Depois, animando-se, bolia-lhe no cesto da costura. Um dia encontrra
uma carta; perguntou-lhe pelo _derrio_; ella respondeu, picando
vivamente o posponto:

--Ai! a mim ninguem me quer, senhor parocho...

--No  tanto assim, acudiu elle.--Mas suspendeu-se, muito vermelho,
affectando tossir.

Amelia s vezes fazia-se muito familiar; um dia mesmo pediu-lhe para
sustentar nas mos uma meadinha de retroz que ella ia dobar.

--Deixe fallar, senhor parocho! exclamou a S. Joanneira. Ora a tolice!
Isto, em se lhe dando confiana!...

Mas Amaro promptificou-se, rindo, todo contente:--elle estava alli para
o que quizessem, at para dobadoura! Era mandarem, era mandarem! E as
duas mulheres riam, d'um riso calido, enlevadas n'aquellas maneiras do
senhor parocho, que at tocavam o corao! s vezes Amelia pousava a
costura e tomava o gato no collo; Amaro chegava-se, corria a mo pela
espinha do _Maltez_ que se arredondava, fazendo um _ron-ron_ de gozo.

--Gostas? dizia ella ao gato, um pouco crada, com os olhos muito
ternos.

E a voz de Amaro murmurava, perturbada:

--Bichaninho gato! bichaninho gato!

Depois a S. Joanneira erguia-se para dar o remedio  idiota ou ir palrar
 cozinha. Elles ficavam ss; no fallavam, mas os seus olhos tinham um
longo dialogo mudo, que os ia penetrando da mesma languidez dormente.
Ento Amelia cantarolava baixo o _Adeus_ ou o _Descrente_: Amaro
accendia o seu cigarro, e escutava bamboleando a perna.

-- to bonito isso! dizia.

Amelia cantava mais accentuadamente, cosendo depressa; e a espaos,
erguendo o busto, mirava o alinhavado ou o posponto, passando-lhe por
cima, para o assentar, a sua unha polida e larga.

Amaro achava aquellas unhas admiraveis, porque tudo que era _ella_ ou
vinha d'_ella_ lhe parecia perfeito: gostava da cr dos seus vestidos,
do seu andar, do modo de passar os dedos pelos cabellos, e olhava at
com ternura para as saias brancas que ella punha a seccar  janella do
seu quarto, enfiadas n'uma cana. Nunca estivera assim na intimidade
d'uma mulher. Quando percebia a porta do quarto d'ella entreaberta, ia
resvalar para dentro olhares gulosos, como para perspectivas d'um
paraiso: um saiote pendurado, uma meia estendida, uma liga que ficra
sobre o bah, eram como revelaes da sua nudez, que lhe faziam cerrar
os dentes, todo pallido. E no se saciava de a vr fallar, rir, andar
com as saias muito engommadas que batiam as hombreiras das portas
estreitas. Ao p d'ella, muito fraco, muito langoroso, no lhe lembrava
que era padre: o Sacerdocio, Deus, a S, o Peccado ficavam em baixo,
longe; via-os muito esbatidos do alto do seu enlevo, como d'um monte se
vem as casas desapparecer no nevoeiro dos valles; e s pensava ento na
doura infinita de lhe dar um beijo na brancura do pescoo, ou
mordicar-lhe a orelhinha.

s vezes revoltava-se contra estes desfallecimentos, batia o p:

--Que diabo,  necessario ter juizo!  necessario ser homem!

Descia, ia folhear o seu Breviario; mas a voz de Amelia fallava em cima,
o _tic-tic_ das suas botinas batia o soalho... Adeus! a devoo cahia
como uma vela a que falta o vento; as boas resolues fugiam, e l
voltavam as tentaes em bando a apoderar-se do seu cerebro, frementes,
arrulhando, roando-se umas pelas outras como um bando de pombas que
recolhem ao pombal. Ficava todo subjugado, soffria. E lamentava ento a
sua liberdade perdida: como desejaria no a vr, estar longe de Leiria,
n'uma aldeia solitaria, entre gente pacifica, com uma criada velha cheia
de proverbios e de economia, e passear pela sua horta quando as alfaces
verdejam e os gallos cacarejam ao sol! Mas Amelia, de cima, chamava-o--e
o encanto recomeava, mais penetrante.

A hora do jantar, sobretudo, era a sua hora perigosa e feliz, a melhor
do dia. A S. Joanneira trinchava, emquanto Amaro conversava cuspindo os
caroos das azeitonas na palma da mo e enfileirando-os sobre a toalha.
A _Rua_, cada dia mais etica, servia mal, sempre a tossir: Amelia s
vezes erguia-se para ir buscar uma faca, um prato ao aparador. Amaro
queria levantar-se logo, attencioso.

--Deixe-se estar, deixe-se estar, senhor parocho! dizia ella. E
punha-lhe a mo no hombro, e os seus olhos encontravam-se.

Amaro, com as pernas estendidas e o guardanapo sobre o estomago,
sentia-se regalado, gozava muito no bom calor da sala; depois do segundo
copo da Bairrada tornava-se expansivo, tinha gracinhas; s vezes mesmo,
com um brilho terno no olho, tocava fugitivamente o p de Amelia debaixo
da mesa; ou, fazendo um ar sentido, dizia que muito lhe pezava no ter
uma irmzinha assim!

Amelia gostava de ensopar o miolo de po no mlho do guisado; a mi
dizia-lhe sempre:

--Embirro que faas isso diante do senhor parocho.

E elle ento rindo:

--Pois olhe, tambm eu gsto. Sympathia! magnetismo!

E molhavam ambos o po, e sem razo davam grandes risadas. Mas o
crepusculo crescia, a _Rua_ trazia o candieiro. O brilho dos copos e
das louas alegrava Amaro, enternecia-o mais; chamava  S. Joanneira
_mam_; Amelia sorria, d'olhos baixos, trincando com a ponta dos dentes
cascas de tangerina. D'ahi a pouco vinha o caf; o o padre Amaro ficava
muito tempo partindo nozes com as costas da faca e quebrando a cinza do
cigarro na borda do pires.

quella hora apparecia sempre o conego Dias; sentiam-no subir
pesadamente, dizendo da escada:

--Licena para dois!

Era elle e a cadella, a _Trigueira_.

--Ora Nosso Senhor nos d muito boas noites! dizia assomando  porta.

--Vai a gotinha de caf, senhor conego? perguntava logo a S. Joanneira.

Elle sentava-se, exhalando um profundo _uff!_--V l a gotinha do caf!
E batendo no hombro do parocho, olhando para a S. Joanneira:

--Ento como vai c o seu menino?

Riam; vinham as historias do dia. O conego costumava trazer no bolso o
_Diario Popular_; Amelia interessava-se pelo romance, a S. Joanneira
pelas correspondencias amorosas nos annuncios.

--Ora vejam que pouca vergonha!... dizia ella, deliciando-se.

Amaro ento fallava de Lisboa, de escandalos que lhe contra a tia, dos
fidalgos que conhecera em casa do senhor conde de Ribamar. Amelia,
enlevada, escutava-o com os cotovlos sobre a mesa, roendo vagarosamente
a ponta do palito.

Depois do jantar iam visitar a entrevada. A lamparina esmorecia 
cabeceira da cama: e a pobre velha, com uma medonha touca de rendas
negras que tornava mais lvida a sua carinha engelhada como uma ma
raineta, fazendo debaixo da roupa uma saliencia quas imperceptivel,
fixava em todos, com custo, os seus olhinhos concavos e chorosos.

-- o senhor parocho, tia Gertrudes! gritava-lhe Amelia ao ouvido. Vem
vr como est.

A velha fazia um esforo, e com uma voz gemida:

--Ah!  o menino!

-- o menino, , diziam rindo.

E a velha ficava a murmurar, espantada:

-- o menino,  o menino!

--Pobre de Christo! dizia Amaro. Pobre de Christo! Deus lhe d uma boa
morte!

E voltavam para a sala de jantar onde o conego Dias, todo enterrado na
velha poltrona de chita verde, com as mos cruzadas sobre o ventre,
dizia logo:

--Ora v um bocadinho de musica, pequena!

Amelia ia sentar-se ao piano.

-- filha, toca o _Adeus_! recommendava a S. Joanneira comeando a sua
meia.

E Amelia, ferindo o teclado:


Ai! adeus! acabaram-se os dias
Que ditoso vivi a teu lado...


A sua voz arrastava-se com melancolia; e Amaro, soprando o fumo do
cigarro, sentia-se todo enleado n'um sentimentalismo agradavel.


Quando descia para o seu quarto,  noite, ia sempre exaltado. Punha-se
ento a lr os _Canticos a Jesus_, traduco do francez publicada pela
sociedade das _Escravas de Jesus_.  uma obrasinha beata, escripta com
um lyrismo equivoco, quasi torpe--que d  orao a linguagem da
luxuria: Jesus  invocado, reclamado com as sofreguides balbuciantes
d'uma concupiscencia allucinada: Oh! vem, amado do meu corao, corpo
adoravel, minha alma impaciente quer-te! Amo-te com paixo e desespero!
Abraza-me! queima-me! Vem! esmaga-me! possue-me! E um amor divino, ora
grotesco pela inteno, ora obsceno pela materialidade, geme, ruge,
declama assim em cem paginas inflammadas onde as palavras _gozo_,
_delicia_, _delrio_, _extase_, voltam a cada momento, com uma
persistencia hysterica. E depois de monologos phreneticos d'onde se
exhala um bafo de cio mystico, vm ento imbecilidades de sacristia,
notasinhas beatas resolvendo casos difficeis de jejuns, e oraes para
as dres de parto! Um bispo approvou aquelle livrinho bem impresso; as
educandas lem-n'o no convento.  beato e excitante; tem as eloquencias
do erotismo, todas as pieguices da devoo; encaderna-se em marroquim e
d-se s confessadas:  a cantharida canonica!

Amaro lia at tarde, um pouco perturbado por aquelles periodos sonoros,
tumidos de desejo; e no silencio, por vezes, sentia em cima ranger o
leito de Amelia: o livro escorregava-lhe das mos, encostava a cabea s
costas da poltrona, cerrava os olhos, e parecia-lhe vl-a em collete
diante do toucador desfazendo as trancas; ou, curvada, desapertando as
ligas, e o decote da sua camisa entreaberta descobria os dois seios
muito brancos. Erguia-se, cerrando os dentes, com uma deciso brutal de
a possuir.

Comera ento a recommendar-lhe a leitura dos _Canticos a Jesus_.

--Ver,  muito bonito, de muita devoo! disse elle, deixando-lhe o
livrinho uma noite no cesto da costura.

Ao outro dia, ao almoo, Amelia estava pallida, com as olheiras at ao
meio da face. Queixou-se de insomnia, de palpitaes.

--E ento, gostou dos _Canticos_?

--Muito. Oraes lindas! respondeu.

Durante lodo esse dia no ergueu os olhos para Amaro. Parecia triste--e
sem razo, s vezes, o rosto abrazava-se-lhe de sangue.


Os peores momentos para Amaro eram as segundas e quartas-feiras, quando
Joo Eduardo vinha passar as noites em familia. At s nove horas o
parocho no sahia do quarto; e quando subia para o ch desesperava-se de
vr o escrevente embrulhado no seu chale-manta, sentado junto de Amelia.

--Ai o que estes dois tm para ahi palrado, senhor parocho! dizia a S.
Joanneira.

Amaro tinha um sorriso livido, partindo devagar a sua torrada, com os
olhos fitos na chavena.

Amelia, na presena de Joo Eduardo, agora, no tinha com o parocho a
mesma familiaridade alegre, mal levantava os olhos da costura; o
escrevente calado chupava o cigarro; e havia grandes silencios em que se
sentia o vento uivar, encanado na rua.

--Olha quem andar agora nas aguas do mar! dizia a S. Joanneira fazendo
devagar a sua meia.

--Safa!... acrescentava Joo Eduardo.

As suas palavras, os seus modos irritavam o padre Amaro: detestava-o
pela sua pouca devoo, pelo seu bonito bigode preto. E diante d'elle
sentia-se mais enleado no seu acanhamento de padre.

--Toca alguma coisa, filha, dizia a S. Joanneira.

--Estou to cansada! respondia Amelia apoiando-se nas costas da cadeira,
com um suspirosinho de fadiga.

A S. Joanneira, ento, que no gostava de vr gente mona, propunha uma
_bisca de tres_; e o padre Amaro, tomando o seu candieiro de lato,
descia para o quarto, muito infeliz.

N'essas noites quasi detestava Amelia; achava-a _casmurra_. A intimidade
do escrevente na casa parecia-lhe escandalosa: decidia mesmo fallar  S.
Joanneira, dizer-lhe que aquelle namoro de portas a dentro no podia
ser agradavel a Deus. Depois, mais razoavel, resolvia esquecel-a,
pensava em sahir da casa, da parochia. Representava-se ento Amelia com
a sua cora de flres de laranjeira, e Joo Eduardo, muito vermelho, de
casaca, voltando da S, casados... Via a cama de noivado com os seus
lenoes de renda... e todas as provas, as certezas do amor d'ella pelo
idiota do escrevente cravavam-se-lhe no peito como punhaes...

--Pois que casem, e que os leve o diabo!...

Odiava-a ento. Fechava violentamente a porta  chave como para impedir
que lhe penetrasse no quarto o rumor da sua voz ou o _frou-frou_ das
suas saias. Mas d'ahi a pouco, como todas as noites, escutava com o
corao aos saltos, immovel e ancioso, os ruidos que ella fazia em cima
ao despir-se, palrando ainda com a mi.


Um dia Amaro jantra em casa da snr.^a D. Maria da Assumpo; fra
depois passear pela estrada de Marrases, e  volta, ao fim da tarde,
encontrou, ao entrar em casa, a porta da rua aberta; sobre o capacho, no
patamar, estavam os chinelos de ourelo da _Rua_.

--Tonta de rapariga! pensou Amaro, foi  fonte e esqueceu-se de fechar a
porta.

Lembrou-se que Amelia tinha ido passar a tarde com a snr.^a D. Joaquina
Gansoso, n'uma fazenda ao p da Piedade, e que a S. Joanneira fallra em
ir  irm do conego. Fechou devagar a cancella, subiu  cozinha a
accender o seu candieiro; como as ruas estavam molhadas da chuva da
manh, trazia ainda galochas de borracha; os seus passos no faziam
rumor no soalho; ao passar diante da sala de jantar sentiu no quarto da
S. Joanneira, atravs do reposteiro de chita, uma tosse grossa;
surprehendido, afastou subtilmente um lado do reposteiro, e pela porta
entreaberta espreitou.--Oh Deus de Misericordia! a S. Joanneira, em saia
branca, atacava o collete; e, sentado  beira da cama, em mangas de
camisa, o conego Dias resfolegava grosso!

Amaro desceu, collado ao corrimo, fechou muito devagarinho a porta, e
foi ao acaso para os lados da S. O co ennevora-se, leves gotas de
chuva cahiam.

--E esta! E esta! dizia elle assombrado.

Nunca suspeitra um tal escandalo! A S. Joanneira, a pachorrenta S.
Joanneira! O conego, seu mestre de Moral! E era um velho, sem os impetos
do sangue novo, j na paz que lhe deveriam ter dado a idade, a nutrio,
as dignidades ecclesiasticas! Que faria ento um homem novo e forte, que
sente uma vida abundante no fundo das suas veias reclamar e arder!...
Era, pois, verdade o que se cochichava no seminario, o que lhe dizia o
velho padre Sequeira, cincoenta annos parocho da Gralheira:--Todos so
do mesmo barro! Todos so do mesmo barro,--sobem em dignidades, entram
nos cabidos, regem os seminarios, dirigem as consciencias envoltos em
Deus como n'uma absolvio permanente, e tm no emtanto, n'uma viella,
uma mulher pacata e gorda, em casa de quem vo repousar das attitudes
devotas e da austeridade do officio, fumando cigarros de estanco e
palpando uns braos rechonchudos!

Vinham-lhe ento outras reflexes: que gente era aquella, a S. Joanneira
e a filha, que viviam assim sustentadas pela lubricidade tardia de um
velho conego? A S. Joanneira fora decerto bonita, bem feita,
desejavel--outr'ora! Por quantos braos teria passado at chegar, pelos
declives da idade, quelles amores senis e mal pagos? As duas
mulherinhas, que diabo, no eram honestas! Recebiam hospedes, viviam da
concubinagem. Amelia ia ssinha  igreja, s compras,  fazenda; e com
aquelles olhos to negros, talvez j tivesse tido um amante!--Resumia,
filiava certas recordaes: um dia que ella lhe estivera mostrando na
janella da cozinha um vaso de rainunculos, tinham ficado ss, e ella,
muito crada, puzera-lhe a mo sobre o hombro e os seus olhos reluziam e
pediam; outra occasio ella rora-lhe o peito pelo brao! A noite
cahira, com uma chuva fina. Amaro no a sentia, caminhando depressa,
cheio de uma s ida deliciosa que o fazia tremer: ser o amante da
rapariga, como o conego era o amante da mi! Imaginava j a boa vida
escandalosa e regalada; emquanto em cima a grossa S. Joanneira
beijocasse o seu conego cheio de difficuldades asthmaticas,--Amelia
desceria ao seu quarto, p ante p, apanhando as saias brancas, com um
chale sobre os hombros ns... Com que phrenesi a esperaria! E j no
sentia por ella o mesmo amor sentimental, quasi doloroso: agora a ida
muito magana dos dois padres e as duas concubinas, de panellinha, dava
quelle homem amarrado pelos votos uma satisfao depravada! Ia aos
pulinhos pela rua.--Que pechincha de casa!

A chuva caha, grossa. Quando entrou havia j luz na sala de jantar.
Subiu.

--Ih, como vem frio! disse-lhe Amelia sentindo, ao apertar-lhe a mo, a
humidade da nevoa.

Sentada  mesa, costurava com um chale-manta pelos hombros: Joo
Eduardo, ao p, jogava a bisca com a S. Joanneira.

Amaro sentou-se um pouco embaraado; a presena do escrevente dera-lhe
de repente, sem saber porque, o duro choque d'uma realidade antipathica:
e todas as esperanas, que lhe tinham vindo a dansar uma sarabanda na
imaginao, encolhiam-se uma a uma, murchavam--vendo alli Amelia ao p
do noivo, curvada sobre uma costura honesta, com o seu escuro vestido
afogado, junto do candieiro de familia!

E tudo em redor lhe apparecia como mais recatado, as paredes com o seu
papel de ramagens verdes, o armario cheio de loua luzidia da
Vista-Alegre, o sympathico e bojudo pote d'agua, o velho piano mal firme
nos seus tres ps torneados; o paliteiro to querido de todos--um Cupido
rechonchudo com um guardachuva aberto erriado de palitos, e aquella
tranquilla bisca jogada com os dichotes classicos. Tudo to decente!

Affirmava-se ento nas grossas roscas do pescoo da S. Joanneira, como
para descobrir n'ellas as marcas das beijocas do conego: ah! tu, no ha
duvida, s uma barreg de clerigo . Mas Amelia! com aquellas longas
pestanas descidas, o beio to fresco!... Ignorava decerto as
libertinagens da mi; ou, experiente, estava bem resolvida a
estabelecer-se solidamente na segurana d'um amor legal!--E Amaro, da
sombra, examinava-a longamente como para se certificar, na placidez do
seu rosto, da virgindade do seu passado.

--Cansadinho, senhor parocho, hein? disse a S. Joanneira. E para Joo
Eduardo:--Trunfo, faz favor, seu cabea no ar?

O escrevente, namorado, distrahia-se.

-- o senhor a jogar, dizia-lhe a S. Joanneira a cada momento.

Depois elle esquecia-se de _comprar cartas_.

--Ah menino, menino! dizia ella com a sua voz pachorrenta, que lhe puxo
essas orelhas!

Amelia ia cosendo com a cabea baixa: tinha um pequeno casabeque preto
com botes de vidro, que lhe disfarava a frma do seio.

E Amaro irritava-se d'aquelles olhos fixos na costura, d'aquelle casaco
amplo escondendo a belleza que mais appetecia n'ella! E nada a esperar!
Nada d'ella lhe pertenceria, nem a luz d'aquellas pupillas, nem a
brancura d'aquelles peitos! Queria casar--e guardava _tudo_ para o
outro, o idiota, que sorria baboso, jogando paus! Odiou-o ento, d'um
odio complicado d'inveja ao seu bigode negro e ao seu direito d'amar...

--Est incommodado, senhor parocho? perguntou Amelia, vendo-o mexer-se
bruscamente na cadeira.

--No, disse elle sccamente.

--Ah! fez ella com um leve suspiro, picando rapidamente o posponto.

O escrevente, baralhando as cartas, comera a fallar de uma casa que
queria alugar; a conversa cahiu sobre arranjos domesticos.

--Traze-me luz! gritou Amaro  _Rua_.

Desceu para o seu quarto, desesperado. Pz a vela sobre a commoda; o
espelho estava defronte, e a sua imagem appareceu-lhe; sentiu-se feio,
ridiculo com a sua cara rapada, a volta hirta como uma colleira, e por
traz a cora hedionda. Comparou-se instinctivamente com o outro que
tinha um bigode, o seu cabello todo, a sua liberdade! Para que hei de eu
estar a ralar-me? pensou. O outro era um marido; podia dar-lhe o seu
nome, uma casa, a maternidade; elle s poderia dar-lhe sensaes
criminosas, depois os terrores do peccado! Ella sympathisava talvez com
elle, apesar de padre; mas antes de tudo, acima de tudo, queria casar;
nada mais natural! Via-se pobre, bonita, s: cubiava uma situao
legitima e duradoura, o respeito das visinhas, a considerao dos
lojistas, todos os proveitos da honra!

Odiou-a ento, e o seu vestido afogado, e a sua honestidade! A estupida,
que no percebia que ao p d'ella, sob uma negra batina, uma paixo
devota a espreitava, a seguia, tremia e morria de impaciencia! Desejou
que ella fosse como a mi,--ou peor, toda livre, com vestidos garridos,
uma cuia impudente, traando a perna e fitando os homens, uma femea
facil como uma porta aberta ...

--Boa! Estou a desejar que a rapariga fosse uma desavergonhada!--pensou,
recahndo em si um pouco envergonhado. Est claro: no podemos pensar em
mulheres decentes, temos que reclamar prostitutas! Bonito dogma!

Abafava. Abriu a janella. O co estava tenebroso; a chuva cessra; o
piar das corujas na Misericordia cortava s o silencio.

Enterneceu-se, ento, com aquella escurido, aquella mudez de villa
adormecida. E sentiu subir outra vez, das profundidades do seu sr, o
amor que sentira ao principio por ella, muito puro, d'um sentimentalismo
devoto: via a sua linda cabea, d'uma belleza transfigurada e luminosa,
destacar da negrura espessa do ar; e toda a sua alma foi para ella n'um
desfallecimento d'adorao, como no culto a Maria e na Saudao
Angelica; pediu-lhe perdo anciosamente de a ter offendido; disse-lhe
alto: s uma santa! perda!--Foi um momento muito dce, de renunciamento
carnal...

E, espantado quasi d'aquellas delicadezas de sensibilidade que descobria
subitamente em si, pz-se a pensar com saudade--que se fosse um homem
livre seria um marido to bom! Amoravel, dedicado, dengueiro, sempre de
joelhos, todo d'adoraes! Como amaria o _seu_ filho, muito
pequerruchinho, a puxar-lhe as barbas!  ida d'aquellas felicidades
inaccessiveis, os olhos arrazaram-se-lhe de lagrimas. Amaldioou, n'um
desespero, a pga da marqueza que o fizera padre, e o bispo que o
confirmra!

--Perderam-me! perderam-me! diria, um pouco desvairado.

Sentiu ento os passos de Joo Eduardo que descia, e o rumor das saias
de Amelia. Correu a espreitar pela fechadura, cravando os dentes no
beio, de ciume. A cancella bateu, Amelia subiu cantarolando baixo.--Mas
a sensao d'amor mystico que o penetrra um momento, olhando a noite,
passra; e deitou-se, com um desejo furioso d'ella e dos seus beijos.




VII


Dias depois o padre Amaro e o conego Dias tinham ido jantar com o abbade
da Cortegassa.--Era um velho jovial, muito caridoso, que vivia ha trinta
annos n'aquella freguezia e passava por ser o melhor cozinheiro da
diocese. Todo o clero das visinhanas conhecia a sua famosa _cabedella
de caa_. O abbade fazia annos, havia outros convidados--o padre Natario
e o padre Brito: o padre Natario era uma creaturinha biliosa, scca, com
dois olhos encovados, muito malignos, a pelle picada das bexigas e
extremamente irritavel. Chamavam-lhe o _Furo_. Era esperto e
questionador; tinha fama de ser grande latinista, e ter uma logica de
ferro; e dizia-se d'elle: _ uma lingua de vibora_! Vivia com duas
sobrinhas orphs, declarava-se extremoso por ellas, gabava-lhes sempre a
virtude, e costumava chamar-lhes as _duas rosas do seu canteiro_. O
padre Brito era o padre mais estupido e mais forte da diocese; tinha o
aspecto, os modos, a forte vida de um robusto beiro que maneja bem o
cajado, emborca um almude de vinho, pga alegremente  rabia do arado,
serve de trolha nos arranjos de um alpendre, e nas sstas quentes de
junho atira brutalmente as raparigas para cima das medas de milho. O
senhor chantre, sempre correcto nas suas comparaes mythologicas,
chamava-lhe--o _leo de Nemeia_.

A sua cabea era enorme, de cabello lanigero que lhe descia at s
sobrancelhas: a pelle cortida tinha um tom azulado, do esforo da
navalha de barba; e, nas suas risadas bestiaes, mostrava dentinhos muito
miudos e muito brancos do uso da bra.

Quando iam sentar-se  mesa chegou o Libaninho todo azafamado, gingando
muito, com a calva suada, exclamando logo em tons agudos:

--Ai, filhos! desculpem-me, demorei-me mais um bocadinho. Passei pela
igreja de Nossa Senhora da Ermida, estava o padre Nunes a dizer uma
missa de inteno. Ai, filhos! papei-a logo, venho mesmo consoladinho!

A Gertrudes, a velha e possante ama do abbade, entrou ento com a vasta
terrina do caldo de gallinha; e o Libaninho, saltitando em roda d'ella,
comeou os seus gracejos:

--Ai, Gertrudinhas! quem tu fazias feliz bem eu sei!

A velha alde ria com o seu espesso riso bondoso, que lhe sacudia a
massa do seio.

--Olhe que arranjo me apparece agora pela tarde!...

--Ai, filha! as mulheres querem-se como as peras, maduras e de sete
cotovlos. Ento  que  chupal-as!

Os padres gargalharam; e, alegremente, accommodaram-se  mesa.

O jantar fra todo cozinhado pelo abbade: logo  sopa as exclamaes
comearam:

--Sim, senhor, famoso! D'isto nem no co! Bella coisa!

O excellente abbade estava escarlate de satisfao. Era, como dizia o
senhor chantre, um divino artista! Lera todos os _Cozinheiros
completos_, sabia innumeras receitas: era inventivo--e, como elle
affirmava dando martelladinhas no craneo, tinha-lhe sahido muito
petisco d'aquella cachimonia! Vivia to absorvido pela sua arte que
lhe acontecia, nos sermes de domingo, dar aos fieis ajoelhados para
receberem a palavra de Deus, conselhos sobre o bacalhau guisado ou sobre
os condimentos do sarrabulho. E alli vivia feliz, com a sua velha
Gertrudes, de muito bom paladar tambem, com o seu quintal de ricos
legumes, sentindo uma s ambio na vida--ter um dia a jantar o bispo!

--Oh, senhor parocho! dizia elle a Amaro, por quem ! mais um bocadinho
de cabedella, faa favor! Essas cdeasinhas de po ensopadas no mlho!
Isso! isso! Que tal, hein?--E com um aspecto modesto:--No  l por
dizer, mas a cabedella hoje sahiu-me boa!

Estava com effeito, como disse o conego Dias, de tentar Santo Antonio no
deserto! Todos tinham tirado as capas, e, s com as batinas, as voltas
alargadas, comiam devagar, fallando pouco. Como no dia seguinte era a
festa da Senhora da Alegria, os sinos na capella, ao lado, repicavam; e
o bom sol do meio-dia dava tons muito alegres  loua, s bojudas
canecas azues com vinho da Bairrada, aos pires de pimentes escarlates,
s frescas malgas de azeitonas pretas--emquanto o bom abbade, d'olho
arregalado, mordendo o beio, ia cortando com cuidado nacos brancos do
peito do capo recheado.

As janellas abriam para o quintal. Viam-se dois largos ps de camelias
vermelhas crescendo junto ao peitoril, e para alm das copas das
macieiras um pedao muito vivo de co azul-ferrete. Uma nora chiava ao
longe, lavadeiras batiam a roupa.

Sobre a commoda, entre _in-folios_, na sua peanha um Christo perfilava
tristemente contra a parede o seu corpo amarello, coberto de chagas
escarlates: e, aos lados, sympathicos santos sob redomas de vidro,
lembravam legendas mais dces de religio amavel: o bom gigante S.
Christovo atravessando o rio com o divino pequerrucho que sorri, e faz
saltar o mundo sobre a sua mosinha como uma pella; o dce pastor S.
Joosinho coberto com uma pelle de ovelha, e guardando os seus rebanhos,
no com um cajado, mas com uma cruz; o bom porteiro S. Pedro, tendo na
sua mo de barro as duas santas chaves que servem nas fechaduras do co!
Nas paredes, em lithographias de coloridos crueis, o patriarcha S. Jos
apoiava-se ao seu cajado onde florescem lirios brancos; o cavallo
empinado do bravo S. Jorge pisava o ventre d'um drago surprehendido; e
o bom Santo Antonio,  beira d'um regato, sorria, fallando a um tubaro.
O _tlim-tlim_ dos copos, o ruido das facas animavam a velha sala de
tecto de carvalho defumado, d'uma alegria desusada. E Libaninho
devorava, dizendo pilherias:

--Gertrudinhas, flr do canio, passa-me as vagens. No me olhes assim,
magana, que me fazes revolver os intestinos!

--O diabo  o homem! dizia a velha. Olha p'r' que lhe deu! Fallasse-me
aqui ha trinta annos, seu perdido!

--Ai, filha! exclamava revirando os olhos, nem me digas isso que sinto
coisas pela espinha acima!

Os padres engasgavam-se de riso. J duas canecas de vinho estavam
vazias: e o padre Brito desabotora a batina, deixando vr a sua grossa
camisola de l da Covilh, onde a marca da fabrica, feita de linha azul,
era uma cruz sobre um corao.

Um pobre ento viera  porta rosnar lamentosamente Padre-Nossos; e
emquanto Gertrudes lhe mettia no alforge metade d'uma bra, os padres
fallaram dos bandos de mendigos que agora percorriam as freguezias.

--Muita pobreza por aqui, muita pobreza! dizia o bom abbade.  Dias,
mais este bocadinho da aza?

--Muita pobreza, mas muita preguia, considerou duramente o padre
Natario.--Em muitas fazendas sabia elle que havia falta de jornaleiros,
e viam-se marmanjos, rijos como pinheiros, a choramingar Padre-Nossos
pelas portas.--Sucia de mariolas! resumiu.

--Deixe l, padre Natario, deixe l! disse o abbade. Olhe que ha pobreza
devras. Por aqui ha familias, homem, mulher e cinco filhos, que dormem
no cho como porcos e no comem seno hervas.

--Ento que diabo querias tu que elles comessem? exclamou o conego Dias
lambendo os dedos depois de ter esburgado a aza do capo. Querias que
comessem per? Cada um como quem !

O bom abbade puxou, repoltreando-se, o guardanapo para o estomago, e
disse com affecto:

--A pobreza agrada a Deus Nosso Senhor.

--Ai, filhos! acudiu o Libaninho n'um tom choroso, se houvesse s
pobresinhos isto era o reininho dos cos!

O padre Amaro considerou com gravidade:

-- bom que haja quem tenha cabedaes para legados pios, edificaes de
capellas...

--A propriedade devia estar na mo da Igreja, interrompeu Natario com
auctoridade.

O conego Dias arrotou com estrondo e acrescentou:

--Para o esplendor do culto e propagao da f.

Mas a grande causa da miseria, dizia Natario com uma voz pedante, era a
grande immoralidade.

--Ah! l isso no fallemos! exclamou o abbade com desgosto. N'este
momento ha s aqui na freguezia mais de doze raparigas solteiras
gravidas! Pois senhores, se as chamo, se as reprehendo, pem-se-me a
fungar de riso!

--L nos meus sitios, disse o padre Brito, quando foi pela apanha da
azeitona, como ha falta de braos, vieram as _maltas_ trabalhar. Pois
agora o vers! Que desafro!--Contou a historia das _maltas_,
trabalhadores errantes, homens e mulheres, que andam offerecendo os
braos pelas fazendas, vivem na promiscuidade e morrem na miseria.--Era
necessario andar sempre de cajado em cima d'elles!

--Ai! disse o Libaninho para os lados apertando as mos na cabea. Ai, o
peccado que vai pelo mundo! At se me esto a erriar os cabellos!

Mas a freguezia de Santa Catharina era a peor! As mulheres casadas
tinham perdido todo o escrupulo.

--Peores que cabras, dizia o padre Natario alargando a fivela do
collete.

E o padre Brito fallou de um caso na freguezia de Amor: raparigas de
dezeseis e dezoito annos que costumavam reunir-se n'um palheiro--o
palheiro do Silverio--e passavam l a noite com um bando de marmanjos!

Ento o padre Natario, que j tinha os olhos luzidios, a lngua solta,
disse, repoltreando-se na cadeira e espaando as palavras:

--Eu no sei o que se passa l na tua freguezia, Brito; mas se ha alguma
coisa o exemplo vem de alto... A mim tm-me dito que tu e a mulher do
regedor...

-- mentira! exclamou o Brito fazendo-se todo escarlate.

--Oh, Brito! oh, Brito! disseram em redor, reprehendendo-o com bondade.

-- mentira! berrou elle.

--E aqui para ns, meus ricos, disse o conego Dias baixando a voz, com o
olhinho acceso n'uma malicia confidencial, sempre lhes digo que  uma
mulher de mo cheia!

-- mentira! clamou o Brito. E fallando de um jacto:--Quem anda a
espalhar isso  o morgado da Cumiada, porque o regedor no votou com
elle na eleio... Mas to certo como eu estar aqui, quebro-lhe os
ossos!--Tinha os olhos injectados, brandia o punho:--Quebro-lhe os
ossos!

--O caso no  para tanto, homem, considerou Natario.

--Quebro-lhe os ossos! No lhe deixo um inteiro!

--Ai, socega, leosinho! disse o Libaninho com ternura. No te percas,
filhinho!

Mas recordando a influencia do morgado da Cumiada, que era ento
opposio e que levava duzentos votos  urna, os padres fallaram de
eleies e dos seus episodios. Todos alli, a no ser o padre Amaro,
sabiam, como disse Natario, cozinhar um deputadosinho. Vieram
anecdotas; cada um celebrou as suas faanhas.

O padre Natario na ultima eleio tinha arranjado oitenta votos!

--Caspit! disseram.

--Imaginam vosss como? Com um milagre!

--Com um milagre!? repetiram espantados.

--Sim, senhores.

Tinha-se entendido com um missionario, e na vespera da eleio
receberam-se na freguezia cartas vindas do co e assignadas pela Virgem
Maria, pedindo, com promessas de salvao e ameaas do inferno, voto
para o candidato do governo. De chupeta, hein?

--De mo cheia! disseram todos.

S Amaro parecia surprehendido.

--Homem! disse o abbade com ingenuidade, d'isso  que eu c precisava.
Eu ento tenho de andar ahi a estafar-me de porta em porta.--E sorrindo
bondosamente:--Com o que se faz ainda alguma coisita  com o relaxe da
congrua!

--E com a confisso, disse o padre Natario. A coisa ento vai pelas
mulheres, mas vai segura! Da confisso tira-se grande partido.

O padre Amaro, que estivera calado, disse gravemente:

--Mas emfim a confisso  um acto muito srio, e servir assim para
eleies...

O padre Natario, que tinha duas rosetas escarlates na face e gestos
excitados, soltou uma palavra imprudente:

--Pois o senhor toma a confisso a srio?

Houve uma grande surpreza.

--Se tomo a confisso a serio!? gritou o padre Amaro recuando a cadeira,
com os olhos arregalados.

--Ora essa! exclamaram. Oh, Natario! Oh, menino!

O padre Natario exaltado queria explicar, attenuar:

--Escutem, creaturas de Deus! Eu no quero dizer que a confisso seja
uma brincadeira! Irra! Eu no sou pedreiro-livre! O que eu quero dizer 
que  um meio de persuaso, de saber o que se passa, de dirigir o
rebanho para aqui ou para alli... E quando  para o servio de Deus, 
uma arma. Ahi est o que --a absolvio  uma arma!

--Uma arma! exclamaram.

O abbade protestava, dizendo:

-Oh, Natario! oh, filho! isso no!

O Libaninho tinha-se benzido; e, dizia, tinha j um tal terror que at
lhe tremiam as pernas!

Natario irritou-se:

--Ento talvez me queiram dizer, gritou, que qualquer de ns, pelo facto
de ser padre, porque o bispo lhe impoz tres vezes as mos e porque lhe
disse o _accipe_, tem misso directa de Deus,-- Deus mesmo para
absolver?!

--Decerto! exclamaram, decerto!

E o conego Dias disse, meneando uma garfada de vagens:

--_Quorum remiseris peccata, remittuntur eis._  a frmula. A frmula 
tudo, menino...

--A confisso  a essencia mesma do sacerdocio, soltou o padre Amaro com
gestos escolares, fulminando Natario. Leia Santo Ignacio! leia S.
Thomaz!

--Anda-me com elle! gritava o Libaninho pulando na cadeira, apoiando
Amaro.--Anda-me com elle, amigo parocho! Salta-me no cachao do impio!

--Oh, senhores! berrou Natario furioso com a contradico, o que eu
quero  que me respondam a isto. E voltando-se para Amaro:--O senhor,
por exemplo, que acaba de almoar, que comeu o seu po torrado, tomou o
seu caf, fumou o seu cigarro, e que depois se vai sentar no
confessionario, s vezes preoccupado com negocios de familia ou com
faltas de dinheiro, ou com dres de cabea ou com dres de barriga,
imagina o senhor que est alli como um Deus para absolver?

O argumento surprehendeu.

O conego Dias, pousando o talher, ergueu os braos, e com uma
solemnidade comica exclamou:

--_Hereticus est!_  hereje!

--_Hereticus est!_ tambem eu digo, rosnou o padre Amaro.

Mas a Gertrudes entrava com a larga travessa do arroz dce.

--No fallemos n'essas coisas, no fallemos n'essas coisas, disse logo
prudentemente o abbade. Vamos ao arrozinho. Gertrudes, d c a
garrafinha do Porto!

Natario, debruado sobre a mesa, ainda arremessava argumentos a Amaro:

--Absolver  exercer a graa. A graa s  attributo de Deus: em nenhum
auctor encontra que a graa seja transmissivel. Logo...

--Ponho duas objeces... gritou Amaro com o dedo em riste, em attitude
de polemica.

--Oh, filhos! oh, filhos! acudiu o bom abbade afflicto. Deixem a
sabbatina, que at nem lhes sabe o arrozinho!

Serviu o vinho do Porto, para os acalmar, enchendo os copos devagar, com
as precaues classicas:

--Mil oitocentos e quinze! dizia. D'isto no se bebe todos os dias.

Para o saborear, depois de o fazer reluzir  luz na transparencia dos
copos, repoltreavam-se nas velhas cadeiras de couro; comearam as
_saudes!_ A primeira foi ao abbade, que murmurava:--Muita honra... muita
honra... Tinha os olhos chorosos de satisfao.

--A sua santidade Pio IX! gritou ento o Libaninho brandindo o calix. Ao
martyr!

Todos beberam commovidos. Libaninho entoou em voz de falsete o hymno de
Pio IX: o abbade, prudente, fl-o calar por causa do hortelo que no
quintal aparava o buxo.

A sobremesa foi longa, muito saboreada. Natario tornra-se terno,
fallava das suas sobrinhas, as suas duas rosas, e citava Virgilio,
molhando as castanhas em vinho. Amaro, todo deitado para traz na
cadeira, as mos nos bolsos, olhava machinalmente as arvores do jardim,
pensando vagamente em Amelia, nas suas frmas: suspirou mesmo com um
desejo d'ella--emquanto o padre Brito, rubro, queria convencer os
republicanos a _marmeleiro_.

--Viva o marmeleiro do padre Brito! gritou enthusiasmado o Libaninho.

Mas Natario comera a discutir com o conego historia ecclesiastica: e,
muito questionador, voltou aos seus argumentos vagos sobre a doutrina da
Graa: affirmava que um assassino, um parricida poderia ser
canonisado--se se tivesse revelado o estado de Graa! Divagava, com
phrases d'escla em que se lhe pegava a lingua. Citou santos que tinham
sido escandalosos; outros que pela sua profisso deviam ter conhecido,
praticado, amado o vicio. Exclamou com as mos na cinta:

--Santo Ignacio foi militar!

--Militar!? gritou o Libaninho.--E erguendo-se correndo a Natario,
lanando-lhe um brao ao pescoo com uma ternura pueril e
avinhada:--Militar!? E que era elle? Que era elle, o meu devoto Santo
Ignacio?

Natario repelliu-o:

--Deixa-me, homem! Era sargento de caadores.

Houve uma enorme risada.

O Libaninho ficra extatico.

--Sargento de caadores! dizia erguendo as mos n'um impeto beato. Meu
rico Santo Ignacio! Bemdito e louvado seja elle por toda a eternidade!

E ento o abbade propz que fossem tomar caf para debaixo da parreira.

Eram tres horas. Ao erguer-se todos cambaleavam um pouco, arrotando
formidavelmente, com risadas espessas; s Amaro tinha a cabea lucida,
as pernas firmes--e sentia-se muito terno.

--Pois agora, collegas, disse o abbade sorvendo o ultimo gole de caf, o
que est a calhar  um passeio  fazenda.

--Para esmoer, rosnou o conego erguendo-se com difficuldade. Vamos l 
fazenda do abbade!

Foram pelo atalho da Barroca, um caminho estreito de carros. O dia
estava muito azul, d'um sol tepido. A vereda seguia entre vallados
erriados de silvas; para alm as terras lisas estendiam-se cobertas de
rastolho; a espaos as oliveiras destacavam, com grande nitidez, na sua
folhagem fina; para o horisonte arredondavam-se collinas cobertas da
rama verde-negra dos pinheiros; havia um grande silencio; s s vezes,
ao longe, n'um caminho, um carro chiava. E n'aquella serenidade da
paizagem e da luz, os padres iam caminhando devagar, tropeando um
pouco, d'olho acceso, estomago enfartado, chacoteando e achando a vida
boa.

O conego Dias e o abbade, de brao dado, caturravam. O Brito, ao lado de
Amaro, jurava que havia de beber o sangue ao morgado da Cumiada.

--Prudencia, collega Brito, prudencia, dizia Amaro chupando o cigarro.

E o Brito, com passadas de carreto, rosnava:

--Hei de comer-lhe os figados!

O Libaninho atraz, s, cantarolava em falsete:


--Passarinho trigueiro,
Salta c fra...


Adiante de todos ia o padre Natario: levava a capa no brao, arrastando
pelo cho; a batina desabotoada por traz deixava vr o forro immundo do
collete; e as suas pernas escanifradas, com as meias pretas de l cheias
de passagens, faziam bordos que o atiravam contra o silvado.

E no emtanto Brito, com grandes bafos de vinho, roncava:

--Eu s me contentava em agarrar n'um cajado e correr tudo! tudo!--E
gesticulava com um gesto immenso que abrangia o mundo.


--Tem as azas quebradas,
No pde agora...


gania atraz o Libaninho.

Mas pararam de repente: Natario adiante gritava com uma voz furiosa:

--Seu burro, voss no v? Sua bsta!

Era  volta do atalho. Tropera com um velho que conduzia uma ovelha;
ia cahindo; e ameaava-o com o punho fechado n'uma raiva avinhada.

--Queira vossa senhoria perdoar, dizia humildemente o homem.

--Sua bsta! berrava Natario com os olhos chammejantes. Que o racho!

O homem balbuciava, tinha tirado o chapo; viam-se os seus cabellos
brancos; parecia ser um antigo criado de lavoura envelhecido no
trabalho; era talvez av--e curvado, vermelho de vergonha, encolhia-se
com as sebes para deixar passar no estreito caminho de carros os
senhores padres joviaes e excitados da vinhaa!


Amaro no os quiz acompanhar at  fazenda. Ao fim da aldeia, no
cruzeiro, tomou pelo caminho de Sobros, voltou para Leiria.

--Olhe que  uma legoa  cidade, dizia o abbade. Eu mando-lhe apparelhar
a egoa, collega.

--Qual historia, abbade, a perninha  rija!--E, traando alegremente a
capa, partiu cantarolando o _Adeus_.

Ao p da Cortegassa o atalho de Sobros alarga-se, ao comprido d'um muro
de quinta coberto de musgos e erriado no alto de luzidios fundos de
garrafas. Quando Amaro chegou proximo ao porto de carros, baixo e
pintado de vermelho, encontrou no meio do caminho, parada, uma grande
vacca malhada; Amaro divertido espicaou-a com o guarda-chuva; a vacca
trotou balouando a papeira--e Amaro ao voltar-se viu Amelia, ao porto,
que saudava, dizendo toda risonha:

--Ento est-me a espantar o gado, senhor parocho?

-- a menina! Que milagre  este?

Ella fez-se um pouco vermelha:

--Vim  quinta com a D. Maria da Assumpo. Vim dar uma vista d'olhos 
fazenda.

Ao p de Amelia uma rapariga acamava couves n'uma canastra.

--Ento esta  que  a quinta da D. Maria?

E Amaro deu um passo para dentro do porto.

Uma rua larga de velhos sobreiros, dando uma sombra dce, estendia-se
at  casa que se entrevia no fundo, branquejando ao sol.

--. A nossa fazenda fica do outro lado, mas entra-se tambem por aqui.
V, Joanna, avia-te!

A rapariga pz a canastra  cabea, deu as boas tardes, metteu pelo
caminho de Sobros, batendo muito os quadris.

--Sim, senhor! sim, senhor! Parece uma boa propriedade... considerava o
parocho.

--Venha vr a nossa fazenda! disse Amelia.  uma migalhinha de terra,
mas para fazer uma ida. Vai-se por aqui mesmo... Olhe, vamos ter l
baixo com a D. Maria, quer?

--Valeu. Vamos l  D. Maria, disse Amaro.

Foram subindo a rua dos sobreiros, calados. O cho estava cheio de
folhas sccas, e, entre os troncos espaados, moitas de hortensias
pendiam abatidas, amarelladas dos chuveiros; ao fundo a casa baixa,
velha, de um andar s, assentava pesadamente. Ao longo da parede grandes
aboboras amadureciam ao sol, e no telhado, todo negro do inverno,
esvoaavam pombos. Por traz o laranjal formava uma massa de folhagens
verde-escuras; uma nora chiava monotonamente.

Um rapazito passou com um balde de lavagem.

--Para onde foi a senhora, Joo? perguntou Amelia.

--Foi p'r' olival, disse o rapaz com a sua vozinha arrastada.

O olival era longe, no fundo da quinta: havia ainda grandes lamas, no
se podia ir l sem tamancos.

--Vai-se a gente sujar toda, disse Amelia. Deixar l a D. Maria, hein?
Vamos ns vr a quinta... Por aqui, senhor parocho...

Estavam defronte d'um velho muro onde cresciam clematites. Amelia abriu
uma porta verde; e por tres degraus de pedra desconjuntados desceram a
uma rua toldada por uma larga parreira. Junto do muro cresciam rosas de
todo o anno; do outro lado, por entre os pilares de pedra que
sustentavam a latada e os ps torcidos das cepas, via-se, batido de luz,
com tons amarellados, um grande campo de herva; os tectos baixos do
curral coberto de colmo destacavam ao longe em escuro, e d'esse lado um
fumosinho leve e branco perdia-se no ar muito azul.

Amelia a cada momento parava, explicava a quinta:--Alli ia semear-se
cevada; alm havia de vr o cebolinho, estava muito bonito...

--Ah! a D. Maria da Assumpo traz isto muito bem tratado!

Amaro ouvia-a fallar, com a cabea baixa, olhando-a de lado; a sua voz
n'aquelle silencio dos campos parecia-lhe mais rica, mais dce; o grande
ar dava-lhe uma cr mais picante s faces; o seu olhar rebrilhava. Para
saltar umas lamas tinha apanhado o vestido; e a brancura da meia, que
elle entreviu, perturbou-o como um comeo da sua nudez.

Ao fundo da parreira atravessaram um campo ao comprido d'um regueiro.
Amelia riu muito do parocho, que tinha medo de sapos. Elle ento
exagerou os seus sustos.  menina Amelia, haveria viboras? E roava-se
por ella, afastando-se das hervas altas.

--V aquelle vallado? Pois para o lado de l  a nossa fazenda. Entra-se
pela cancella, v? Mas veja l se est cansado! Que o senhor parece-me
que no  grande caminhador... Ai, um sapo!

Amaro deu um pulinho, tocou-lhe o hombro. Ella empurrou-o dcemente, e
com um riso calido:

--Seu medroso! seu medroso!

Estava toda contente, toda viva. Fallava na _sua fazenda_ com uma
vaidadesinha satisfeita de entender da lavoura, de ser proprietaria.

--A cancella est fechada, parece, disse Amaro.

--Est? fez ella.--Apanhou as saias, deu uma carreirinha. Estava
fechada! Que pena! E abalava, impaciente, as grades estreitas, entre as
duas fortes hombreiras de madeira encravadas na espessura do silvado.

--Foi o caseiro que levou a chave!

Agachou-se, gritou para o lado do campo, arrastando muito tempo a
voz:--Antonio! Antonio!

Ninguem respondeu.

--Anda l para o fundo da quinta! disse ella. Que scca! Se o senhor
parocho quizesse, aqui adiante pde-se passar. Ha uma abertura no
vallado, chamam-lhe o _salto da cabra_. Pde a gente saltar para o outro
lado.

E caminhando rente ao silvado, chapinhando a lama, toda alegre:

--Quando eu era pequena nunca passava pela cancella, saltava sempre por
alli. E cada trambolho quando o cho estava resvaladio com a chuva!
Era um vivo demonio, aqui onde me v! Ningum ha de dizer, senhor
parocho, hein? Ai! vou-me a fazer velha!--E voltando-se para elle, com
um risinho onde luzia o esmalte dos dentes:--No  verdade? Estou-me a
fazer velha, hein?

Elle sorria. Custava-lhe fallar. O sol, batendo-lhe nas costas, depois
do vinho do abbade, amollecia-o: e a figura d'ella, os seus hombros, os
seus encontros davam-lhe um desejo continuo e intenso.

--Aqui est o _salto da cabra_, disse Amelia parando.

Era uma abertura estreita no vallado: a terra do outro lado, mais baixa,
estava toda lamacenta. Via-se d'alli a fazenda da S. Joanneira: o campo
plano estendia-se at um olival, com a herva fina muito estrellada de
pequenos malmequeres brancos; uma vacca preta, de grandes malhas,
pastava; e para alm viam-se tectos aguados de casaes onde voavam
revoadas de pardaes.

--E agora? perguntou Amaro.

--Agora saltar, disse ella rindo.

--C vai! exclamou elle.

Traou a capa, saltou; mas escorregou nas hervas humidas--e
immediatamente Amelia, debruando-se, rindo muito, com grandes acenos de
mos:

--E agora adeus, senhor parocho, que eu vou ter com a D. Maria. Ahi fica
preso na fazenda. Para cima no pde o senhor pular, pela cancella no
pde o senhor passar!  o senhor parocho que est preso...

-- menina Amelia!  menina Amelia!

Ella cantarolava-lhe, escarnecendo:


Fico ssinha  varanda
Que o meu bem est na priso!


Aquellas maneirinhas excitavam o padre--e com os braos erguidos, a voz
calida:

--Salte, salte!

Ella ento fez voz de mimo:

--Ai, tenho medinho! tenho medinho...

--Salte, menina!

--L vai! gritou ella bruscamente.

Saltou, foi cahir-lhe sobre o peito com um gritinho. Amaro resvalou,
firmou-se--e, sentindo entre os braos o corpo d'ella, apertou-a
brutalmente e beijou-a com furor no pescoo.

Amelia desprendeu-se, ficou diante d'elle, suffocada, com a face em
braza, compondo na cabea e em roda do pescoo, com as mos tremulas, as
pregas da manta de l. Amaro disse-lhe:

--Ameliasinha!

Mas ella de repente apanhou os vestidos, correu ao comprido do vallado.
Amaro, com grandes passadas, seguiu-a atarantado. Quando chegou 
cancella, Amelia fallava ao caseiro, que apparecia com a chave.

Atravessaram o campo junto ao regueiro, depois a rua coberta com a
parreira. Amelia adiante palrava com o caseiro; e atraz Amaro, de cabea
baixa, seguia muito murcho. Ao p da casa Amelia parou, fazendo-se
vermelha, compondo sempre a manta em redor do pescoo:

-- Antonio, disse, ensine o porto ao senhor parocho. Muito boas
tardes, senhor parocho.

E atravs das terras humidas correu para o fundo da quinta, para os
lados do olival.

A snr.^a D. Maria da Assumpo ainda l estava, sentada n'uma pedra,
tagarellando com o tio Patricio; um bando de mulheres, com grandes
varas, batiam em redor a ramagem das oliveiras.

--Que  isso, tonta? D'onde vens tu a correr, rapariga? Credo, que
doida!

--Vim a correr, disse **ella** toda vermelha, suffocada.

Sentou-se ao p da velha; e ficou immovel, com as mos cahdas no
regao, respirando fortemente, os beios entreabertos, os olhos fixos
n'uma abstraco. Todo o seu sr se abysmava n'uma s sensao:

--Gosta de mim! Gosta de mim!


Estava ha muito namorada do padre Amaro--e s vezes, s, no seu quarto,
desesperava-se por imaginar que elle no percebia nos seus olhos a
confisso do seu amor! Desde os primeiros dias, apenas o ouvia pela
manh pedir de baixo o almoo, sentia uma alegria penetrar todo o seu
sr sem razo, punha-se a cantarolar com uma volubilidade de passaro.
Depois via-o um pouco triste. Porqu? No conhecia o seu passado; e,
lembrada do frade d'Evora, pensou que elle se fizera padre por um
desgosto d'amor. Idealisou-o ento: suppunha-lhe uma natureza muito
terna, parecia-lhe que da sua pessoa airosa e pallida se desprendia uma
fascinao. Desejou tel-o por confessor: como seria bom estar ajoelhada
aos ps d'elle, no confessionario, vendo de perto os seus olhos negros,
sentindo a sua voz suave fallar do paraiso! Gostava muito da frescura da
sua boca; fazia-se pallida  ida de o poder abraar na sua longa batina
preta! Quando Amaro sahia, ia ao quarto d'elle, beijava a
travesseirinha, guardava os cabellos curtos que tinham ficado nos dentes
do pente. As faces abrazavam-se-lhe quando o ouvia tocar a campainha.

Se Amaro jantava fra com o conego Dias estava todo o dia impertinente,
ralhava com a _Rua_, s vezes mesmo dizia mal d'elle, que era
casmurro, que era to novo que nem inspirava respeito. Quando elle
fallava d'alguma nova confessada, amuava, com um ciume pueril. A sua
antiga devoo renascia, cheia de um fervor sentimental: sentia um vago
amor physico pela Igreja; desejaria abraar, com pequeninos beijos
demorados, o altar, o orgo, o missal, os santos, o co, porque no os
distinguia bem d'Amaro, e pareciam-lhe dependencias da sua pessoa. Lia o
seu livro de missa pensando n'elle como no seu Deus particular. E Amaro
no sabia, quando passeava agitado pelo quarto, que ella em cima o
escutava, regulando as palpitaes do seu corao pelas passadas d'elle,
abraando o travesseiro, toda desfallecida de desejos, dando beijos no
ar, onde se lhe representavam os labios do parocho!


A tarde cahia quando D. Maria e Amelia voltaram para a cidade. Amelia
adiante, calada, chibatava a sua burrinha, emquanto D. Maria da
Assumpo vinha palrando com o moo da quinta, que segurava a arreata.
Ao passar junto  S tocou a Ave-Marias. E Amelia, rezando, no podia
destacar os olhos das cantarias da igreja to grandiosamente erguidas,
decerto para que elle alli celebrasse! Lembravam-lhe ento domingos em
que o vira, ao repicar dos sinos, dar a beno dos degraus do altar-mr;
e todos se curvavam, mesmo as senhoras do morgado Carreiro, mesmo a
senhora baroneza de Via-Clara e a mulher do governador civil, to
orgulhosa, com o seu nariz de cavallete! Dobravam-se sob os seus dedos
erguidos, e achavam decerto tambem bonitos os seus olhos negros! E era
elle que a tinha apertado nos braos, ao p do vallado! Sentia ainda no
pescoo a presso calida dos seus beios: uma paixo flammejou como uma
chamma por todo o seu sr: largou a arreata do burrinho, apertou as mos
contra o peito, e cerrando os olhos, lanando toda a sua alma n'uma
devoo:

-- Nossa Senhora das Dres, minha madrinha, faze que elle goste de mim!

No adro lageado conegos passeavam, conversando. A botica defronte j
tinha luz, os bocaes reluziam; e por detraz da balana a figura do
pharmaceutico Carlos, com o seu bon bordado a missanga, movia-se
magestosamente.




VIII


O padre Amaro voltra para casa aterrado.

--E agora? E agora? dizia elle encostado ao canto da janella, sentindo o
corao encolhido.

Devia sahir immediatamente da casa da S. Joanneira! No podia continuar
alli, na mesma familiaridade, depois de ter tido aquelle atrevimento
com a pequena.

Que ella no ficra muito indignada--apenas atordoada; contivera-a
talvez o respeito ecclesiastico, a delicadeza para com o hospede, a
atteno para com o amigo do conego. Mas podia contar  mi, ao
escrevente... Que escandalo! E via j o senhor chantre, traando a perna
e fitando-o,--que era a sua attitude de reprehenso--dizer-lhe com
pompa:--So esses desregramentos que deshonram o sacerdocio. No se
comportaria d'outro modo um Satyro no monte Olympo!--Poderiam
desterral-o outra vez para alguma freguezia da serra!... Que diria a
senhora condessa de Ribamar?

E depois, se persistisse em vl-a na intimidade, ter constantemente
presentes aquelles olhos negros, o sorriso calido que lhe fazia uma
covinha no queixo, a curva d'aquelle peito--a sua paixo, crescendo
surdamente, irritada a toda a hora, recalcada para dentro, tornal-o-hia
doido, podia fazer alguma asneira!

Decidiu-se ento a ir fallar ao conego Dias: a sua natureza fraca
necessitava sempre receber foras d'uma razo, d'uma experiencia alheia:
costumava consultar ordinariamente o conego que, pelo habito da
disciplina ecclesiastica, elle julgava mais intelligente por ser seu
superior na hierarchia; e no perdera, desde o seminario, a sua
dependencia de discipulo. Depois, se quizesse arranjar uma casa e uma
criada para ir viver s, necessitava o auxilio do conego, que conhecia
Leiria como se a tivesse edificado.

Encontrou-o na sala de jantar. O candieiro de azeite esmorecia com um
murro avermelhado. Os ties da brazeira, cobertos d'uma pulverisao
de cinza, revermelhavam vagamente. E o conego, sentado n'uma cadeira de
braos, com o capote pelos hombros, os ps embrulhados n'um cobertor,
amodorrado no calor do lume, com o Breviario sobre os joelhos,
dormitava. Na dobra do cobertor, a _Trigueira_ estirada dormitava como
elle.

Aos passos de Amaro o conego abriu muito devagar os olhos, rosnou:

--Ia adormecendo, hein!

-- cedo, disse o padre Amaro. Ainda no tocou a recolher. Ento que
preguia  essa?

--Ah!  voss? disse o conego com um enorme bocejo. Cheguei tarde de
casa do abbade, tomei uma gota de ch, veio o quebranto... Ento que 
feito?

--Vim por aqui.

--Pois o abbade deu-nos um rico jantar. A cabedella estava de mo cheia!
Eu carreguei-me um bocado, disse o conego rufando com os dedos na capa
do Breviario.

Amaro, sentado ao p d'elle, remexia devagar o brazido:

--Sabe voss, padre-mestre? disse elle de repente. Ia
acrescentar:--Aconteceu-me um caso!--Mas reteve-se, murmurou:--Estou
hoje exquisito; tenho andado ultimamente fra dos eixos...

-Voss com effeito anda amarello, disse o conego, considerando-o.
Purgue-se, homem!

Amaro esteve um momento calado, a olhar o lume.

--Sabe? estou com ida de mudar de casa.

O conego ergueu a cabea, arregalou os olhinhos somnolentos:

--Mudar de casa! Ora essa! Porqu?

O padre Amaro chegou a cadeira para elle, e fallando baixo:

--Voss percebe... Tenho estado a pensar,  assim exquisito estar em
casa de duas mulheres, com uma rapariga...

--Ora, historias! Que me vem voss contar? Voss  hospede... Deixe-se
d'isso, homem!  como quem est na hospedaria.

--No, no, padre-mestre, eu c me entendo...

E suspirou; desejava que o conego o interrogasse, facilitasse as
confidencias.

--Ento s hoje  que pensa n'isso, Amaro?!

-- verdade, tenho estado a pensar hoje n'isto. Tenho minhas razes.--Ia
a dizer:--Fiz uma tolice,--mas acanhou-se.

O conego olhou para elle um momento:

--Homem, seja franco!

--Sou.

--Voss acha aquillo caro?

--No! disse o outro com uma negao impaciente.

--Bem, ento  outra coisa...

--. Voss que quer?--E n'um tom magano, com que julgou agradar ao
conego:--A gente tambem gosta do que  bom...

--Bem, bem, disse o conego rindo, percebo. Voss, como eu sou amigo da
casa, quer-me dizer por bons modos que tem nojo de tudo aquillo!

--Tolice! disse Amaro erguendo-se, irritado de tanta obtusidade.

--Oh, homem! exclamou o conego abrindo os braos. Voss quer sahir da
casa? Por alguma ! Ora a mim parece-me que melhor...

-- verdade,  verdade, dizia Amaro que dava agora grandes passadas pela
sala. Mas estou com esta ferrada! Veja voss se me arranja uma casita
barata com alguma mobilia... Voss entende melhor d'essas coisas...

O conego ficou calado, muito enterrado na poltrona, coando devagar o
queixo.

--Uma casita barata... rosnou por fim. Eu verei, eu verei... Talvez.

--Voss comprehende, acudiu vivamente Amaro, chegando-se ao conego. A
casa da S. Joanneira...

Mas a porta rangeu, D. Josepha Dias entrou: e depois de conversarem
sobre o jantar do abbade, o catarrho da pobre D. Maria da Assumpo, a
doena de figado que ia minando o engraado conego Sanches--Amaro sahiu,
quasi contente agora de se no ter desabotoado com o padre-mestre.

O conego ficou ainda ao p do lume, ruminando. Aquella resoluo d'Amaro
de deixar a casa da S. Joanneira era bem vinda; quando elle o trouxera
d'hospede para a rua da Misericordia, combinra com a S. Joanneira
diminuir-lhe a mezada que havia annos lhe dava, regularmente, no dia 30.
Mas arrependeu-se logo; a S. Joanneira, se no tinha hospede, dormia s
no primeiro andar: o conego podia ento saborear livremente os carinhos
da sua velhota,--e Amelia, na sua alcova, em cima, era alheia a este
conchgosinho. Quando veio o padre Amaro, a S. Joanneira cedeu-lhe o
quarto e dormia n'uma cama de ferro ao p da filha: e o conego ento
reconheceu, como elle disse, desconsolado--que aquelle arranjo tinha
estragado tudo. Para gozar as douras da ssta com a sua S. Joanneira
era necessario que Amelia jantasse fra, que a _Rua_ estivesse na
fonte, outras combinaes importunas; e elle, conego do cabido, na
egoista velhice, quando precisava ter recato com a sua saude, via-se
obrigado a esperar, a espreitar, a ter nos seus prazeres regulares e
hygienicos as difficuldades d'um collegial que ama a senhora professora.
Ora se Amaro sahisse, a S. Joanneira descia ao seu quarto, no primeiro
andar; vinham as antigas commodidades, as tranquillas sstas.  verdade
que tinha de dar a antiga mezada... Daria a mezada!

--Que diabo! ao menos est um homem  sua vontade, resumiu elle.

--Que est para ahi o mano a fallar s? perguntou a snr.^a D. Josepha
despertando do quebranto em que ia cahindo, ao p do lume.

--Estava c a malucar como hei de castigar a carne na quaresma...--disse
o conego com um riso grosso.


A essa hora a _Rua_ chamava o padre Amaro para o ch: e elle subia
devagar, com o corao pequenino, receando encontrar a S. Joanneira
muito carrancuda, j informada do insulto. Achou s Amelia--que
tendo-lhe sentido os passos na escada tomra rapidamente a costura e,
com a cabea muito baixa, dava grandes agulhadas, vermelha como o leno
que abainhava para o conego.

--Muito boa noite, menina Amelia.

--Muito boa noite, senhor parocho.

Amelia costumava sempre ter um _ol!_ ou um _ora viva!_ muito amavel;
aquella seccura aterrou-o; disse-lhe logo muito perturbado:

--Menina Amelia, eu peo-lhe que me perde... Foi um atrevimento... Eu
nem soube o que fiz... Mas acredite... Estou resolvido a sahir d'aqui.
At j pedi ao senhor conego Dias que me arranjasse casa...

Fallava com o rosto baixo--e no via Amelia erguer os olhos para elle,
surprehendida e toda desconsolada.

N'este momento a S. Joanneira entrou, e logo da porta, abrindo os
braos:

--Viva! Ento j sei, j sei! Disse-me o senhor padre Natario: grande
jantar! Conte l, conte l!

Amaro teve de dizer os pratos, as pilherias do Libaninho, a discusso
theologica; depois fallaram da fazenda: e Amaro desceu, sem se ter
atrevido a dizer  S. Joanneira que ia deixar a casa,--o que era,
coitada, para a pobre mulher, uma perda de seis tostes por dia!

Na manh seguinte o conego foi a casa d'Amaro, pela manh, antes d'ir ao
cro. O parocho fazia a barba  janella:

--l, padre-mestre! Que ha de novo?

--Parece-me que se arranja a coisa! E foi por acaso, esta manh... Ha
uma casita l para os meus lados, que  um achado. Era do major Nunes,
que vai mudado para o 5.

Aquella precipitao desagradou a Amaro: perguntou, dando
desconsoladamente o fio  navalha:

--Tem mobilia?

--Tem mobilia, tem louas, tem roupas, tem tudo.

--Ento...

--Ento  entrar e comear a gozar. E aqui para ns, Amaro, voss tem
razo. Estive a pensar no caso...  melhor para voss viver s. De modo
que vista-se, e vamos vr a casita.

Amaro, calado, rapava a cara com desespero.

A casa era na rua das Sousas, d'um andar, muito velha, com a madeira
carunchosa: a mobilia, como disse o conego, podia passar a veteranos;
algumas lithographias desbotadas pendiam lugubremente de grandes prgos
negros; e o immundo major Nunes deixra os vidros quebrados, os soalhos
todos escarrados, as paredes riscadas de phosphoros, e at sobre um
poial da janella duas piugas quasi negras.

Amaro aceitou a casa. E n'essa mesma manh o conego ajustou-lhe uma
criada, a snr.^a Maria Vicencia, pessoa muito devota, alta e magra como
um pinheiro, antiga cozinheira do doutor Godinho. E (como considerou o
conego Dias) era a propria irm da famosa Dionysia!

A Dionysia fra outr'ora a _Dama das Camelias_, a Ninon de Lenclos, a
Manon de Leiria: gozra a honra de ser concubina de dois governadores
civis e do terrivel morgado da Sertejeira; e as paixes phreneticas que
inspirra tinham sido para quasi todas as mes de familia de Leiria
causa de lagrimas e de fanicos. Agora engommava para fra,
encarregava-se de empenhar objectos, entendia muito de partos, protegia
o rico adulteriosinho segundo a singular expresso do velho D. Luiz da
Barrosa cognominado o _infame_, fornecia lavradeirinhas aos senhores
empregados publicos, sabia toda a historia amorosa do districto. E
via-se sempre na rua a Dionysia com o seu chale de xadrez traado, o
pesado seio tremendo dentro d'um chambre sujo, o passinho discreto e os
antigos sorrisos--mas a que faltavam j os dois dentes de diante.

O conego logo n'essa tarde deu parte  S. Joanneira da resoluo
d'Amaro. Foi um grande espanto para a excellente senhora! Queixou-se,
com amargura, da ingratido do senhor parocho.

O conego tossiu grosso e disse:

--Escute, senhora. Fui eu que arranjei a coisa. E eu lhe digo porqu: 
que este arranjo de quarto em cima, etc., est-me a arrazar a saude.

Deu outras razes de prudencia hygienica e acrescentou, passando-lhe com
bondade os dedos pelo pescoo:

--E o que  perder a conveniencia, no se afflija a senhora! Eu darei
p'r' panella como d'antes; e como a colheita foi boa porei mais meia
moeda para os arrebiques da pequena. Ora venha de l uma beijoca,
Augustinha, sua brjeira! E oua, hoje como-lhe c as sopas.

Amaro no emtanto em baixo ia emmalando a sua roupa. Mas a cada momento
parava, dava um _ai_ triste, ficava a olhar em redor o quarto, a cama
ffa, a mesa com a sua toalha branca, a larga cadeira forrada de chita
onde elle lia o Breviario, ouvindo, por cima, cantarolar Amelia.

--Nunca mais! pensava. Nunca mais!

Adeus as boas manhs passadas ao p d'ella, vendo-a costurar! Adeus as
alegres sobremesas, que se prolongavam  luz do candieiro! Adeus os
chs, ao p da brazeira, quando o vento uivava fra e cantavam as frias
goteiras! Tudo tinha acabado!

A S. Joanneira e o conego appareceram ento  porta do quarto. O conego
resplandecia; e a S. Joanneira disse, muito magoada:

--J sei, j sei, seu ingrato!

-- verdade, minha senhora, fez Amaro encolhendo os hombros tristemente.
Mas ha razes... Eu sinto...

--Olhe, senhor parocho, disse a S. Joanneira, no se offenda com o que
lhe vou dizer, mas eu j lhe queria como filho...--E levou o leno aos
olhos.

--Tolices! exclamou o conego. Pois ento elle no pde vir aqui em
amizade, passar as noites para o cavaco, tomar o seu caf?... O homem
no vai para o Brazil, senhora!

--Pois sim, pois sim, dizia a pobre senhora desconsolada, mas sempre era
tel-o de portas a dentro!

Emfim, ella bem sabia que a gente na sua casa est muito melhor...
Fez-lhe ento grandes recommendaes sobre a lavadeira, que mandasse
buscar o que quizesse, louas, lenoes...

--E veja l no lhe esquea alguma coisa, senhor parocho!

--Muito obrigado, minha senhora, muito obrigado...

E, continuando a arrumar a sua roupa, o parocho desesperava-se agora
contra a resoluo que tomra. A pequena evidentemente no tinha aberto
bico! Para que sahiria ento d'aquella casa to barata, to confortavel,
to amiga? E odiava o conego pelo seu zelo to precipitado.

O jantar foi triste. Amelia, decerto para explicar a sua pallidez,
queixava-se de dres na cabea. Ao caf o conego quiz a sua dse de
musica; e Amelia, ou machinalmente ou com inteno, disse a cano
querida:


Ai! adeos! acabaram-se os dias
Que ditoso vivi a teu lado!
Sa a hora, o momento fadado,
 foroso deixar-te e partir!


Ento, quella chorosa melodia repassada das tristezas da separao,
Amaro sentiu-se to perturbado que teve de se erguer bruscamente, ir
encostar o rosto  vidraa, esconder as duas lagrimas que
irreprimivelmente lhe saltavam das palpebras. Os dedos d'Amelia
embrulhavam-se tambem no teclado; at a mesma S. Joanneira disse:

--Oh filha, toca outra coisa, credo!

Mas o conego erguendo-se pesadamente:

--Pois senhores, vo sendo horas. Vamos l, Amaro. Eu vou comsigo at a
rua das Sousas...

Amaro ento quiz dizer adeus  idiota; mas, depois d'um forte accesso de
tosse, a velha dormia, muito fraca.

--Deixal-a socegada, disse Amaro. E apertando a mo  S.
Joanneira:--Muito obrigado por tudo, minha senhora, acredite...

Calou-se, com um soluo na garganta.

A S. Joanneira tinha levado aos olhos a ponta do seu avental branco.

--Oh, senhora! disse o conego rindo-se, j ha bocado lhe disse, o homem
no vai p'r's Indias!

--A gente  pela amizade que lhes ganha... choramingou a S. Joanneira.

Amaro tentou gracejar. Amelia, muito branca, mordia o beicinho.

Emfim Amaro desceu: e o Joo Ruo que na sua chegada a Leiria lhe
trouxera o bah para a rua da Misericordia, muito bebedo, cantarolando o
_Bemdito_,--levava-lh'o agora para a rua das Sousas, bebedo tambem, mas
trauteando o _Rei-chegou_.


Quando Amaro, n'essa noite, se viu s n'aquella casa tristonha, sentiu
uma melancolia to pungente e um tedio to negro da vida, que, com a sua
natureza lassa, teve vontade de se encolher a um canto e ficar alli a
morrer!

Parava no meio do quarto, punha-se a olhar em redor: a cama era de
ferro, pequena, com um colcho duro e uma coberta vermelha; o espelho
com o ao gasto luzia sobre a mesa; como no havia lavatorio, a bacia e
o jarro, com um bocadinho de sabonete, estavam sobre o poial da janella;
tudo alli cheirava a mfo; e fra, na rua negra, cahia sem cessar a
chuva triste. Que existencia! E seria sempre assim!...

Desesperou-se ento contra Amelia: accusou-a, com o punho fechado, das
commodidades que perdera, da falta de mobilia, da despeza que ia ter, da
solido que o regelava! Se fosse mulher de corao devia ter vindo ao
seu quarto e dizer-lhe: Senhor padre Amaro, para que sae de casa? Eu
no estou zangada! Porque emfim quem irritra o seu desejo? Ella, com
as suas maneirinhas ternas, os seus olhinhos adocicados! Mas no,
deixra-o emmalar a roupa, descer a escada, sem uma palavra amiga, indo
tocar com estrondo a valsa do _Beijo_!

Jurou ento no voltar a casa da S. Joanneira. E, a grandes passadas
pelo quarto, pensara no que havia de fazer para humilhar Amelia. O qu?
Desprezal-a como uma cadella! Ganhar influencia na sociedade devota de
Leiria, ser muito do senhor chantre; afastar da rua da Misericordia o
conego e as Gansosos; intrigar com as senhoras da boa roda para que se
afastassem d'ella, com seccura, no altar-mr,  missa do domingo; dar a
entender que a mi era uma prostituta... Enterral-a! cobril-a de lama! E
na S, ao sahir da missa, regalar-se de a vr passar encolhida no seu
mantelete preto, escorraada de todos, emquanto elle,  porta, de
proposito, conversaria com a mulher do senhor governador civil e seria
galante com a baroneza de Via-Clara!... Depois prgaria um grande
sermo, na quaresma, e ella ouviria dizer, na arcada, nas lojas: Grande
homem, o padre Amaro! Tornar-se-hia ambicioso, intrigaria e, protegido
pela senhora condessa de Ribamar, subiria nas dignidades ecclesiasticas:
e o que pensaria ella quando o visse um dia bispo de Leiria, pallido e
interessante na sua mitra toda dourada, passando, seguido dos
incensadores, ao longo da nave da S, entre um povo ajoelhado e
penitente, sob os roucos cantos do orgo? E ella o que seria ento? Uma
magra creatura murcha, embrulhada n'um chale barato! E o snr. Joo
Eduardo, o escolhido d'agora, o esposo? Seria um pobre amanuense mal
pago, com uma quinzena roada, os dedos queimados do cigarro, curvado
sobre o seu papel almasso, imperceptivel na terra, adulando alto e
invejando baixo! E elle, bispo, na vasta escadaria hierarchica que sobe
at ao co, estaria j muito para cima dos homens, na zona de luz que
faz a face de Deus-Padre!--E seria par do reino, e os padres da sua
diocese tremeriam de o vr franzir a testa!

Na igreja, ao lado, bateram devagar dez horas.

Que faria ella quella hora? pensava. Costurava decerto, na sala de
jantar: estava o escrevente: jogavam a bisca, riam--ella roava-lhe
talvez com o p, no escuro, debaixo da mesa! Recordou o seu p, o
bocadinho da meia que vira quando ella saltava as lamas na quinta; e
essa curiosidade inflammada subia pela curva da perna at ao seio,
percorrendo bellezas que suspeitava... O que elle gostava d'aquella
maldita! E era impossivel obtel-a! E todo o homem feio e estupido podia
ir  rua da Misericordia pedil-a  mi, vir  S dizer-lhe: Senhor
parocho, case-me com esta mulher, e beijar, sob a proteco da Igreja e
do Estado, aquelles braos e aquelle peito! Elle no. Era padre! Fra
aquella infernal pga da marqueza d'Alegros!...

Abominava ento todo o mundo secular--por lhe ter perdido para sempre os
privilegios: e, como o sacerdocio o excluia da participao nos prazeres
humanos e sociaes, refugiava-se, em compensao, na ida da
superioridade espiritual que elle lhe dava sobre os homens. Aquelle
miseravel escrevente podia casar e possuir a rapariga--mas que era elle
em comparao d'um parocho a quem Deus conferira o poder supremo de
distribuir o co e o inferno?...--E repastava-se d'este sentimento,
enchendo o espirito d'orgulhos sacerdotaes. Mas vinha-lhe bem depressa a
desconsoladora ida que esse dominio s era valido na regio abstracta
das almas; nunca o poderia manifestar, por actos triumphantes, em plena
sociedade. Era um Deus dentro da S--mas, apenas sahia para o largo, era
apenas um plebeu obscuro. Um mundo irreligioso reduzira toda a aco
sacerdotal a uma mesquinha influencia sobre almas de beatas... E era
isto que lamentava, esta diminuio social da Igreja, esta mutilao do
poder ecclesiastico, limitado ao espiritual, sem direito sobre o corpo,
a vida e a riqueza dos homens... O que lhe faltava era a auctoridade dos
tempos em que a Igreja era a nao e o parocho dono temporal do rebanho.
Que lhe importava, no seu caso, o direito mystico d'abrir ou fechar as
portas do co? O que elle queria era o velho direito d'abrir ou fechar a
porta das masmorras! Necessitava que os escreventes e as Amelias
tremessem da sombra da sua batina... Desejaria ser um sacerdote da
antiga Igreja, gozar das vantagens que d a denuncia e dos terrores que
inspira o carrasco, e alli n'aquella villa, sob a jurisdico da sua S,
fazer estremecer,  ida de castigos torturantes, aquelles que
aspirassem a realisar felicidades--que lhe eram a elle interdictas: e
pensando em Joo Eduardo e em Amelia, lamentava no poder accender as
fogueiras da Inquisio!--Assim aquelle inoffensivo moo tinha durante
horas, sob a excitao colerica d'uma paixo contrariada, ambies
grandiosas de tyrannia catholica:--porque todo o padre, o mais boal,
tem um momento em que  penetrado pelo espirito da Igreja ou nos seus
lances de renunciamento mystico ou nas suas ambies de dominao
universal: todo o sub-diacono se julga uma hora capaz de ser santo ou de
ser Papa: no ha seminarista que no tenha, durante um instante,
aspirado com ternura  caverna no deserto em que S. Jeronymo, olhando o
co estrellado, sentia descer-lhe sobre o peito a Graa como um
abundante rio de leite: e o abbade pansudo que  tardinha,  varanda,
palita o dente furado saboreando o seu caf com um ar paterno, traz
dentro em si os indistinctos restos d'um Torquemada.


A vida d'Amaro tornou-se monotona. Maro ia muito molhado, muito frio;
e, depois do servio na S, Amaro entrava em casa, tirava as botas
enlameadas, ficava em chinelas a aborrecer-se. s tres horas jantava; e
nunca levantava a tampa rachada da terrina sem se lembrar, com uma
saudade pungente, do jantarinho na rua da Misericordia, quando Amelia,
com o seu collar muito branco, lhe passava a sopa de gros de bico,
sorrindo, toda carinhosa. Ao lado a Vicencia servia, tsa e enorme, com
o seu corpo de soldado vestido de saias, sempre constipada; e de vez em
quando, desviando a cabea, assoava-se ao avental com ruido. Era muito
suja: as facas tinham o cabo humido da agua gordurosa das lavagens.
Amaro, desgostoso e indifferente, no se queixava; comia mal,  pressa;
mandava vir o caf, e ficava horas esquecidas sentado  mesa, quebrando
a cinza do cigarro na borda do prato, perdido n'um tedio mudo, sentindo
os ps e os joelhos frios do vento que entrava pelas frinchas da sala
desabrigada.

s vezes o coadjutor, que nunca o visitra na rua da Misericordia,
apparecia ao fim do jantar: sentava-se arredado da mesa, e ficava
calado, com o seu guardachuva entre os joelhos. Depois, julgando agradar
ao parocho, repetia, invariavelmente:

--Vossa senhoria aqui est melhor, sempre  estar em sua casa.

--Est claro... rosnava Amaro.

Ao principio, para consolar o seu despeito, dizia ligeiramente mal da S.
Joanneira, provocando, animando o coadjutor (que era de Leiria) a contar
os escandalos da rua da Misericordia. O coadjutor, por servilismo, tinha
sorrisos mudos, repassados de perfidia.

--Alli ha pdres, hein? dizia o parocho.

O outro encolhia os hombros, com as mos muito espalmadas ao p das
orelhas, n'uma expresso de malicia; mas no pronunciava um som,
receando que as suas palavras, repetidas, escandalisassem o senhor
conego. Ficavam ento soturnos, trocando, a espaos, phrases molles: um
baptisado que havia; o que dissera o conego Campos; um frontal do altar
que era necessario limpar. Aquella conversa enfastiava Amaro: sentia-se
muito pouco padre, muito distante da panellinha ecclesiastica: no o
interessavam as intriguinhas do cabido, as parcialidades to commentadas
do senhor chantre, os roubos da Misericordia, as turras da camara
ecclesiastica com o governo civil; e achava-se sempre alheio, mal
informado, nas palestras ecclesiasticas em que to femininamente se
deleitam os padres, e que tm a puerilidade d'uma caturrice e a
tortuosidade d'uma conspirao.

--O vento est sul? perguntava elle emfim, bocejando.

--Sempre! respondia o coadjutor.

Accendia-se a luz; o coadjutor erguia-se, sacudia o guardachuva, e sahia
com um olhar de revez  Vicencia.

Era aquella a peor hora, a da noite, quando ficava s. Procurava lr,
mas os livros enfastiavam-n'o: deshabituado da leitura no comprehendia
o sentido. Ia olhar  vidraa: a noite estava tenebrosa, o lagedo
reluzia vagamente. Quando acabaria aquella vida? Accendia o cigarro, e
do lavatorio para a janella recomeava os seus passeios, com as mos
atraz das costas. Deitava-se sem rezar s vezes: e no tinha escrupulos:
julgava que ter renunciado a Amelia era j uma penitencia, no
necessitava cansar-se a lr oraes no livro; celebrra o seu
sacrificio--sentia-se vagamente quite com o co!

E continuava a viver s: o conego nunca vinha  rua das Sousas, porque,
dizia, era casa que s o entrar n'ella at se lhe agoniava o estomago.
E Amaro, cada dia mais amuado, no voltra a casa da S. Joanneira.
Escandalisra-se muito que ella no lhe tivesse mandado pedir para ir s
partidas da sexta-feira; attribuira a desfeita  hostilidade d'Amelia;
e, mesmo para a no vr, trocra com o padre Silveira a missa do
meio-dia onde ella costumava ir, e dizia a das nove horas, furioso com
aquelle novo sacrificio!


Todas as noites Amelia, ao ouvir tocar a campainha, tinha uma palpitao
to forte no corao que ficava como suffocada um momento. Depois os
botins de Joo Eduardo rangiam na escada, ou ella conhecia os passos
ffos das galochas das Gansosos: apoiava-se ento s costas da cadeira,
cerrando os olhos, como na fadiga d'uma desesperana repetida. Esperava
o padre Amaro; e s vezes, pelas dez horas, quando j no era possvel
que elle viesse, a sua melancolia era to pungente que se lhe entumecia
a garganta de soluos, tinha de pousar a costura, dizer:

--Vou-me deitar, estou com umas dres de cabea que no paro!

Atirava-se para a cama de bruos, murmurava n'uma agonia:

--Oh Senhora das Dres, minha madrinha! porque no vem elle, porque no
vem elle?

Nos primeiros dias, apenas elle se fra embora, toda a casa lhe pareceu
deshabitada e lugubre! Quando vira no quarto d'elle os cabides sem a sua
roupa, a commoda sem os seus livros, rompeu a chorar. Foi beijar a
travesseirinha onde elle dormia, apertou ao peito com delirio a ultima
toalha a que elle limpra as mos! Tinha constantemente o seu rosto
presente, elle entrava sempre nos seus sonhos. E com a separao o seu
amor ardia mais forte e mais alto, como uma fogueira que se isola.

Uma tarde, que fra visitar uma prima enfermeira no hospital, viu ao
chegar  ponte gente parada, embasbacada com gozo para uma rapariga de
cuia  banda e _garibaldi_ escarlate, que, de punho no ar, j rouca,
praguejava contra um soldado: o rapazola, um beiro de cara redonda e
lorpa coberta de pennugem loura, virava-lhe as costas, encolhendo os
hombros, as mos muito enterradas nos bolsos, rosnando:

--No lhe fez mal, no lhe fez mal...

O snr. Vasques, com loja de panos na Arcada, parra a olhar, descontente
d'aquella falta d'ordem publica.

--Algum barulho? perguntou-lhe Amelia.

--Ol, menina Amelia! No, uma brincadeira do soldado. Atirou-lhe um
rato morto  cara, e a mulher est a fazer aquelle espalhafato. Bebedas!

Mas a rapariga de _garibaldi_ vermelha voltra-se--e Amelia aterrada
reconheceu a Joanninha Gomes, sua amiga da mestra, que fra amante do
padre Abilio! O padre fra suspenso, deixra-a; ella partira para
Pombal, depois para o Porto; de miseria em miseria voltra a Leiria, e
ahi vivia n'alguma viella ao p do quartel, entisicando, gasta por todo
um regimento!--Que exemplo, santo Deus, que exemplo!

E tambem ella gostava d'um padre! Tambem ella, como outr'ora a
Joanninha, chorava sobre a sua costura quando o senhor padre Amaro no
vinha! Onde a levava aquella paixo?  sorte da Joanninha! A ser a
_amiga do parocho_! E via-se j apontada a dedo, na rua e na Arcada,
mais tarde abandonada por elle, com um filho nas entranhas, sem um
pedao de po!... E, como uma rajada de vento que limpa n'um momento um
co ennevoado, o terror agudo que lhe dera o encontro de Joanninha
varreu-lhe do espirito as nevoas amorosas e morbidas em que ella se ia
perdendo. Decidiu aproveitar a separao, esquecer Amaro: lembrou-se
mesmo de apressar o seu casamento com Joo Eduardo para se refugiar n'um
dever dominante; durante alguns dias forou-se a interessar-se por elle;
comeou mesmo a bordar-lhe umas chinelas...

Mas pouco a pouco a _ida m_ que, atacada, se encolhera e se fingira
morta,--principiou lentamente a desenroscar-se, a subir, a invadil-a! De
dia, de noite, costurando e rezando, a ida do padre Amaro, os seus
olhos, a sua voz appareciam-lhe, tentaes teimosas! com um encanto
crescente. Que faria elle? porque no vinha? gostava d'outra? Tinha
ciumes indefinidos, mas mordentes, que a queimavam. E aquella paixo
ia-a envolvendo como uma atmosphera d'onde no podia sahir, que a seguia
se ella fugia, e que a fazia viver! As suas resolues honestas
resequiam-se, morriam como debeis florinhas n'aquelle fogo que a
percorria. Se s vezes a lembrana de Joanninha ainda voltava,
repellia-a com irritao; e acolhia alvoroadamente todas as razes
insensatas que lhe vinham de amar o padre Amaro! Tinha agora s uma
ida:--atirar-lhe os braos ao pescoo e beijal-o... oh! beijal-o!
Depois, se fosse necessario, morrer!

Comeou ento a impacientar-se com o amor de Joo Eduardo. Achava-o
palerma.

--Que massada! pensava quando lhe sentia os passos na escada,  noite.

No o supportava com os seus olhos voltados sempre para ella, a sua
quinzena preta, as suas monotonas conversas sobre o governo civil.

E idealisava Amaro! As suas noites eram sacudidas de sonhos lubricos; de
dia vivia n'uma inquietao de ciumes, com melancolias lugubres, que a
tornavam, como dizia a mi, uma mna, que at enraivece!

O genio azedava-se-lhe.

--Credo, rapariga! que tens tu? exclamava a mi.

--No me sinto boa. Estou para ter alguma!

Andava, com effeito, amarella, perdera o appetite. E emfim uma manh
ficou de cama com febre. A mi, assustada, chamou o doutor Gouva. O
velho pratico, depois de vr Amelia, veio  sala de jantar sorvendo com
satisfao a sua pitada.

--Ento, senhor doutor? disse a S. Joanneira.

--Case-me esta rapariga, S. Joanneira, case-me esta rapariga. Tenho-lh'o
dito tantas vezes, creatura!

--Mas, senhor doutor...

--Mas case-a por uma vez, S. Joanneira, case-a por uma vez! repetia elle
pelas escadas, arrastando um pouco a perna direita que um rheumatismo
teimoso encolhia.

Amelia emfim melhorou--com grande alegria de Joo Eduardo, que emquanto
ella estivera doente vivera n'uma afflico, lamentando no poder ser
seu enfermeiro, e derramando s vezes no cartorio uma lagrima triste
sobre os papeis sellados do severo Nunes Ferral.


No domingo seguinte,  missa das nove horas na S, Amaro, ao subir para
o altar, entre as devotas que se arredavam viu de relance Amelia ao p
da mi, com o seu vestido de sda preta de largos folhos. Cerrou um
momento os olhos; e mal podia sustentar o calix com as mos tremulas.

Quando, depois de resmungar o Evangelho, Amaro fez uma cruz sobre o
missal, se persignou e se voltou para a igreja dizendo _Dominus
vobiscum_--a mulher do Carlos da botica disse baixo a Amelia que o
senhor parocho estava to amarello, que devia ter alguma dr. Amelia
no respondeu, curvada sobre o livro, com todo o sangue nas faces. E
durante a missa, sentada sobre os calcanhares, absorta, a face banhada
n'um extase baboso, gozou a sua presena, as suas mos magras erguendo a
hostia, a sua cabea bem feita curvando-se na adorao ritual; uma
doura corria-lhe na pelle quando a voz d'elle, apressada, dizia mais
alto algum latim: e quando Amaro, tendo a mo esquerda no peito e a
direita estendida, disse para a igreja o _Benedicat vos_, ella, com os
olhos muito abertos, arremessou toda a sua alma para o altar, como se
elle fosse o proprio Deus a cuja beno as cabeas se curvavam ao
comprido da S, at ao fundo, onde os homens do campo com os seus
varapaus pasmavam para os dourados do sacrario.

 sahida da missa comera a chover; e Amelia e a mi,  porta com
outras senhoras, esperavam uma aberta.

--l! por aqui!? disse de repente Amaro, chegando-se, muito branco.

--Estamos  espera que passe a chuva, senhor parocho, disse a S.
Joanneira voltando-se. E immediatamente, muito reprehensiva:--E porque
no tem apparecido, senhor parocho? Realmente! Que lhe fizemos ns?
Credo, at d que fallar...

--Muito occupado, muito occupado... balbuciou o parocho.

--Mas um bocadinho  noite. Olhe, pde crr, tem-me causado desgosto...
E todos tm reparado. No, l isso, senhor parocho, tem sido ingratido!

Amaro disse, crando:

--Pois acabou-se. Hoje  noite l appareo, e esto as pazes feitas ...

Amelia, muito vermelha, para encobrir a sua perturbao olhava para
todos os pontos o co carregado, como assustada do temporal.

Amaro ento offereceu-lhe o seu guardachuva. E emquanto a S. Joanneira o
abria, apanhando com cuidado o vestido de sda, Amelia disse ao parocho:

--At  noite, sim?--E mais baixo, olhando em redor, com medo:--Oh, v!
Tenho estado to triste! tenho estado como doida! V, peo-lh'o eu!

Amaro, voltando para casa, continha-se para no correr de batina pelas
ruas. Entrou no quarto, sentou-se aos ps da cama, e alli ficou saturado
de felicidade, como um pardal muito farto n'um raio de sol muito quente:
recordava o rosto d'Amelia, a redondeza dos seus hombros, a belleza dos
encontros, as palavras que lhe dissera:--_Tenho estado como doida!_ A
certeza de que a rapariga gostava d'elle entrou-lhe ento na alma com
a violencia de uma rajada, e ficou a susurrar por todos os recantos do
seu sr com um murmurio melodioso de felicidades agitadas. E passeava
pelo quarto com passadas de covado, estendendo os braos, desejando a
posse immediata do seu corpo: sentia um orgulho prodigioso: ia defronte
do espelho altear a arca do peito, como se o mundo fosse um pedestal
expresso que s o sustentasse a elle! Mal pde jantar. Com que
impaciencia desejava a noite! A tarde clarera; a cada momento tirava o
seu cebolo de prata, indo olhar  janella, com irritao, a claridade
do dia que se arrastava devagar no horisonte. Engraxou elle mesmo os
seus sapatos, lustrou o cabello de banha. E antes de sahir rezou
cuidadosamente o seu Breviario--porque, em presena d'aquelle amor
adquirido, viera-lhe um susto supersticioso que Deus ou os santos
escandalisados o viessem perturbar: e no queria, com desleixos de
devoo, _dar-lhes razo de queixa_.

Ao entrar na rua d'Amelia o corao bateu-lhe to forte que teve de
parar, suffocado; e pareceu-lhe melodioso o piar das corujas na velha
Misericordia, que ha tantas semanas no ouvia.

Que admirao quando elle appareceu na sala de jantar!

--Ditosos olhos que o vem! Pensavamos que tinha morrido! Grande
milagre!...

Estava a snr.^a D. Maria da Assumpo, as Gansosos. Arredaram as
cadeiras com enthusiasmo para lhe dar logar, admiral-o.

--Ento que tem feito, que tem feito? E olhe que est mais magro!

O Libaninho, no meio da sala, imitava foguetes subindo ao ar. O snr.
Arthur Couceiro improvisou-lhe um _fadinho_  viola:


Ora j c temos o senhor parocho
Nos chs da S. Joanneira.
Isto j parece outra coisa,
Volta a bella cavaqueira!


Houve palmas. E a S. Joanneira, toda banhada de riso:

--Ai, tem sido uma ingratido d'elle!

--Uma ingratido, diz a senhora? rosnou o conego. Uma casmurrice, digo
eu!

Amelia no fallava, com as faces abrazadas, os olhos humidos pasmados
para o padre Amaro--a quem tinham dado a poltrona do conego, e que se
repoltreava n'ella, tumido de gozo, fazendo rir as senhoras pelas
pilherias com que contava os desleixos da Vicencia.

Joo Eduardo, isolado a um canto, ia folheando o velho album.




IX


Assim recomeou a intimidade de Amaro na rua da Misericordia. Jantava
cedo, depois lia o seu Breviario; e apenas na igreja batiam as sete
horas, embrulhava-se no seu capote e dava volta pela Praa passando
rente da botica, onde os frequentadores caturravam, com as mos molles
apoiadas ao cabo dos guardachuvas. Mal avistava a janella da sala de
jantar alumiada, todos os seus desejos se erguiam; mas ao toque agudo da
campainha sentia s vezes um susto indefinido d'achar a mi j
desconfiada ou Amelia mais fria!... Mesmo por superstio entrava sempre
com o p direito.

Encontrava j as Gansosos, a D. Josepha Dias; e o conego, que jantava
agora muito com a S. Joanneira, e que quella hora, estirado na
poltrona, findava a sua somneca, dizia-lhe bocejando:

--Ora viva o menino bonito!

Amaro ia sentar-se ao p d'Amelia que costurava  mesa; o olhar
penetrante que se trocavam era todos os dias como o mutuo juramento mudo
que o seu amor crescera desde a vespera; e s vezes mesmo, debaixo da
mesa, roavam os joelhos com furor. Comeava ento a cavaqueira. Eram
sempre os mesmos interessesinhos, as questes que iam na Misericordia, o
que dissera o senhor chantre, o conego Campos que despedira a criada, o
que se rosnava da mulher do Novaes...

--Mais amor do proximo! resmungava o conego mexendo-se na poltrona. E
com um arrto curto tornava a cerrar as palpebras.

Ento as botas de Joo Eduardo rangiam na escada, e Amelia
immediatamente abria a mesinha para a partida de _manilha_: os parceiros
eram a Gansoso, D. Josepha, o parocho: e como Amaro jogava mal, Amelia,
que era _mestra_, sentava-se por detraz d'elle para o guiar. Logo s
primeiras vasas havia altercaes. Ento Amaro voltava o rosto para
Amelia, to perto que confundiam os seus halitos.

--Esta? perguntava, indicando a carta com o olho languido.

--No! no! espere, deixe vr, dizia ella, vermelha.

O seu brao roava o hombro do parocho: Amaro sentia o cheiro da agua de
colonia que ella usava com exagero.

Defronte, ao p de Joaquina Gansoso, Joo Eduardo, mordicando o bigode,
contemplava-a com paixo; Amelia, para se desembaraar d'aquelles dois
olhos langorosos fitos n'ella, tinha-lhe dito por fim que at era
indecente, diante do parocho que era de ceremonia, estar assim a cocal-a
toda a noite.

s vezes mesmo dizia-lhe, rindo:

-- snr. Joo Eduardo, v conversar com a mam, seno tmol-a aqui
tmol-a a dormir.

E Joo Eduardo ia sentar-se ao p da S. Joanneira, que, de lunetas na
ponta do nariz, fazia somnolentamente a sua meia.

Depois do ch Amelia sentava-se ao piano. Causava ento enthusiasmo em
Leiria uma velha cano mexicana, a _Chiquita_. Amaro achava-a _de
appetite_; e sorria de gozo, com os seus dentes muito brancos, apenas
Amelia comeava com muita languidez tropical:


Quando sali de la Habana
Valga-me Dios!...


Mas Amaro amava sobretudo a outra estrophe, quando Amelia, com os dedos
frouxos no teclado, o busto deitado para traz, rolando os olhos ternos,
em movimentos dces de cabea, dizia toda voluptuosa, syllabando o
hespanhol:


Si  tua ventana llega
Una paloma,
Trata-la com cario,
Que es mi persona.


E como a achava graciosa, creoula, quando ella gorgeava:


Ay chiquita que si,
Ay chiquita que no-o-o-o!


Mas as velhas reclamavam-o para continuar a _manilha_, e elle ia
sentar-se, cantarolando as ultimas notas, com o cigarro ao canto da
boca, os olhos humidos de felicidade.

s sextas-feiras era a grande partida. A snr.^a D. Maria da Assumpo
apparecia sempre com o seu bello vestido de sda preta: e como era rica
e tinha parentela fidalga davam-lhe com deferencia o melhor logar ao p
da mesa--que ella ia occupar, meneando pretenciosamente os quadris, com
_ruge-ruges_ de sda. Antes do ch a S. Joanneira levava-a sempre ao seu
quarto, onde guardava para ella uma garrafa de geropiga velha: e alli as
duas amigas tagarellavam muito tempo, sentadas em cadeirinhas baixas.
Depois Arthur Couceiro, cada dia mais chupado e mais tisico, cantava o
_fado_ novo que compuzera, chamado o _Fado da Confisso_; eram quadras
feitas para regalar aquella piedosa reunio de saias e de batinas:


Na capellinha do amor,
No fundo da sacristia,
Ao senhor padre Cupido
Confessei-me n'outro dia...


Vinha depois a confisso de peccadinhos dces, um acto de contrio de
amor, uma penitencia terna:


Seis beijinhos de manh,
De tarde um abrao s...
E p'ra acalmar dces chammas
Jejuar a po de l.


Aquella composio galante e devota fra muito apreciada na sociedade
ecclesiastica de Leiria. O senhor chantre pedira uma cpia, e
perguntra, referindo-se ao poeta:

--Quem  o habil Anacreonte?

E informado que era o escrevente da administrao, fallou d'elle com
tanto apreo  esposa do senhor governador civil, que Arthur obteve a
gratificao de oito mil reis, que havia annos implorava.

quellas reunies nunca faltava o Libaninho. A sua ultima pilheria era
furtar beijos  snr.^a D. Maria da Assumpo; a velha escandalisava-se
muito alto, e abanando-se com furor atirava-lhe de revez um olhar
guloso. Depois o Libaninho desapparecia um momento, e entrava com uma
saia d'Amelia vestida, uma touca da S. Joanneira, fingindo uma chamma
lubrica por Joo Eduardo--que, entre as risadas agudas das velhas,
recuava, muito escarlate. Brito e Natario vinham s vezes: formava-se
ento um grande _quino_. Amaro e Amelia ficavam sempre juntos; e toda a
noite, com os joelhos collados, ambos vermelhos, permaneciam vagamente
entorpecidos no mesmo desejo intenso.

Amaro sahia sempre de casa da S. Joanneira mais apaixonado por Amelia.
Ia pela rua devagar, ruminando com gozo a sensao deliciosa que lhe
dava aquelle amor--uns certos olhares d'ella, o arfar desejoso do seu
peito, os contactos lascivos dos joelhos e das mos. Em casa despia-se
depressa, porque gostava de pensar n'ella, s escuras, atabafado nos
cobertores; e ia percorrendo em imaginao, uma a uma, as provas
successivas que ella lhe dera do seu amor, como quem vai aspirando uma e
outra flr, at que ficava como embriagado d'orgulho: era a rapariga
mais bonita da cidade! e escolhera-o a elle, a elle padre, o eterno
excluido dos sonhos femininos, o sr melancollico e neutro que ronda
como um sr suspeito  beira do sentimento!  sua paixo misturava-se
ento um reconhecimento por ella; e com as palpebras cerradas murmurava:

--To boa, coitadinha, to boa!


Mas na sua paixo havia s vezes grandes impaciencias, Quanto tinha
estado, durante tres horas da noite, recebendo o seu olhar, absorvendo a
voluptuosidade que se exhalava de todos os seus movimentos,--ficava to
carregado de desejos que necessitava conter-se para no fazer um
disparate alli mesmo na sala, ao p da mi. Mas depois, em casa, s,
torcia os braos de desespero: queria-a alli de repente, offerecendo-se
ao seu desejo: fazia ento combinaes--escrever-lhe-hia, arranjariam
uma casita discreta para se amarem, planeariam um passeio a alguma
quinta! Mas todos aquelles meios lhe pareciam incompletos e perigosos,
ao recordar o olho finorio da irm do conego, as Gansosos to
mexeriqueiras! E diante d'aquellas difficuldades que se erguiam como as
muralhas successivas d'uma cidadella, voltavam as antigas lamentaes:
no ser livre! no poder entrar claramente n'aquella casa, pedil-a 
mi, possuil-a sem peccado, commodamente! Porque o tinham feito padre?
Fra a velha pga da marqueza de Alegros! Elle no abdicra
voluntariamente a virilidade do seu peito! Tinham-o impellido para o
sacerdocio como um boi para o curral!

Ento, passeando excitado pelo quarto, levava as suas accusaes mais
longe, contra o Celibato e a Igreja: porque prohibia ella aos seus
sacerdotes, homens vivendo entre homens, a satisfao mais natural, que
at tm os animaes? Quem imagina que desde que um velho bispo
diz--_sers casto_--a um homem novo e forte, o seu sangue vai
subitamente esfriar-se? e que uma palavra latina--_accedo_--dita a
tremer pelo seminarista assustado, ser o bastante para conter para
sempre a rebellio formidavel do corpo? E quem inventou isso? Um
concilio de bispos decrepitos, vindos do fundo dos seus claustros, da
paz das suas esclas, mirrados como pergaminhos, inuteis como eunucos!
Que sabiam elles da Natureza e das suas tentaes? Que viessem alli
duas, tres horas para o p da Ameliasinha, e veriam, sob a sua capa de
santidade, comear a revoltar-se-lhe o desejo! Tudo se illude e se
evita, menos o amor! E se elle  fatal, porque impediram ento que o
padre o sinta, o realise com pureza e com dignidade?  melhor talvez que
o v procurar pelas viellas obscenas!--Porque a carne  fraca!

A carne! Punha-se ento a pensar nos tres inimigos da alma--Mundo, Diabo
e Carne. E appareciam  sua imaginao em tres figuras vivas: uma mulher
muito formosa; uma figura negra d'olho de braza e p de cabra; e o
_mundo_, coisa vaga e maravilhosa (riquezas, cavallos, palacetes)--de
que lhe parecia uma personificao sufficiente o senhor conde de
Ribamar! Mas que mal tinham elles feito  sua alma? O diabo nunca o
vira; a mulher formosa amava-o e era a unica consolao da sua
existencia; e do mundo, do senhor conde, s recebera proteco,
benevolencia, tocantes apertos de mo... E como poderia elle evitar as
influencias da Carne e do Mundo? A no ser que fugisse, como os santos
d'outr'ora, para os areaes do deserto e para a companhia das feras! Mas
no lhe diziam os seus mestres no seminario que elle pertencia a uma
Igreja militante? O ascetismo era culpado, sendo a desero d'um servio
santo.--No comprehendia, no comprehendia!

Procurava ento justificar o seu amor com exemplos dos livros divinos. A
Biblia est cheia de nupcias! Rainhas amorosas adiantam-se nos seus
vestidos recamados de pedras; o noivo vem-lhe ao encontro, com a cabea
coberta de faxas de linho puro, arrastando pelas pontas um cordeiro
branco; os levitas batem em discos de prata, gritam o nome de Deus;
abrem-se as portas de ferro da cidade para deixar passar a caravana que
leva os bem esposados; e as arcas de sandalo onde vo os thesouros do
dote rangem, amarradas com cordas de purpura, sobre o dorso dos camlos!
Os martyres no circo casam-se n'um beijo, sob o bafo dos lees, s
acclamaes da plebe! Jesus mesmo no vivra sempre na sua santidade
inhumana; era frio e abstracto nas ruas de Jerusalem, nos mercados do
Bairro de David; mas l tinha o seu logar de ternura e de abandono em
Bethania, sob os sycomoros do Jardim de Lazaro; alli, emquanto os magros
nazarenos seus amigos bebem o leite e conspiram  parte, elle olha
defronte os tectos dourados do templo, os soldados romanos que jogam o
disco ao p da Porta de Ouro, os pares amorosos que passam sob os
arvoredos de Gethesemani--e pousa a mo sobre os cabellos louros de
Martha, que ama e fia a seus ps!

O seu amor era pois uma infraco canonica, no um peccado da alma:
podia desagradar ao senhor chantre, no a Deus: seria legitimo n'um
sacerdocio de regra mais humana. Lembrava-se de se fazer protestante:
mas onde, como? Parecia-lhe mais extraordinariamente impossivel que
transportar a velha S para cima do monte do Castello.

Encolhia ento os hombros, escarnecendo toda aquella vaga argumentao
interior. Philosophia e palhada! Estava doido pela rapariga,--era o
positivo. Queria-lhe o amor, queria-lhe os beijos, queria-lhe a alma...
E o senhor bispo se no fosse velho faria o mesmo, e o Papa faria o
mesmo!

Eram s vezes tres horas da manh, e ainda passeava no quarto, fallando
s.


Quantas vezes Joo Eduardo, passando alta noite pela rua das Sousas,
tinha visto na janella do parocho uma luz amortecida! Porque ultimamente
Joo Eduardo, como todos que tm um desgosto amoroso, tomra o habito
triste de andar at tarde pelas ruas.

O escrevente, logo desde os primeiros tempos, percebra a sympathia de
Amelia pelo parocho. Mas conhecendo a sua educao e os habitos devotos
da casa, attribuia aquellas attenes quasi humildes com Amaro ao
respeito beato pela sua batina de padre, pelos seus privilegios de
confessor.

Instinctivamente porm comeou a detestar Amaro. Sempre fra inimigo de
padres! achava-os um perigo para a civilisao e para a liberdade;
suppunha-os intrigantes, com habitos de luxuria, e conspirando sempre
para restabelecer as trevas da meia idade; odiava a confisso que
julgava uma arma terrivel contra a paz do lar; e tinha uma religio
vaga--hostil ao culto, s rezas, aos jejuns, cheia de admirao pelo
Jesus poetico, revolucionario, amigo dos pobres, e pelo sublime
espirito de Deus que enche todo o Universo! S desde que amava Amelia 
que ouvia missa, para agradar  S. Joanneira.

E desejaria sobretudo apressar o casamento para tirar Amelia d'aquella
sociedade de beatas e padres, receando ter mais tarde uma mulher que
tremesse do inferno, passasse horas a rezar estaes na S, e se
confessasse aos padres que arrancam s confessadas os segredos
d'alcova!

Quando Amaro voltra a frequentar a rua da Misericordia, ficou
contrariado. C temos outra vez o marmanjo! pensou. Mas que desgosto,
quando reparou que Amelia tratava agora o parocho com uma familiaridade
mais terna, que a presena d'elle lhe dava visivelmente uma animao
singular, e que havia uma especie de namoro! Como ella se fazia
vermelha, mal elle entrava! Como o escutava, com uma admirao babosa!
Como arranjava sempre a ficar ao p d'elle nas partidas de _quino_!

Uma manh, mais inquieto, veio  rua da Misericordia,--e emquanto a S.
Joanneira tagarellava na cozinha, disse bruscamente a Amelia:

--Menina Amelia, sabe? Est-me a dar um grande desgosto com essas
maneiras com que trata o senhor padre Amaro.

Ella ergueu os olhos muito espantados:

--Que maneiras?! Ora essa! ento como quer que o trate?  um amigo da
casa, esteve aqui d'hospede...

--Pois sim, pois sim...

--Ah! mas socegue. Se isso o quezila, ver. No me torno a chegar ao p
do homem.

Joo Eduardo, tranquillisado, raciocinou--que no havia nada. Aquelles
modos eram excessos de beaterio. Enthusiasmo pela padraria!

Amelia decidiu ento disfarar o que lhe ia no corao: sempre
considerra o escrevente um pouco tapado--e se elle percebra, que
fariam as Gansosos to finas, e a irm do conego que era cortida em
malicia! Por isso mal sentia Amaro na escada, d'ahi por diante, tomava
uma attitude distrahida, muito artificial: mas, ai! apenas elle lhe
fallava com a sua voz suave ou voltava para ella aquelles olhos negros
que lhe faziam correr estremees nos nervos,--como uma ligeira camada
de neve que se derrete a um sol muito forte a sua attitude fria
desapparecia, e toda a sua pessoa era uma expresso continua de paixo.
s vezes, absorvida no seu enlevo, esquecia que Joo Eduardo estava
alli; e ficava toda surprehendida quando ouvia a um canto da sala a sua
voz melancolica.

Ella sentia de resto que as amigas da mi envolviam a sua inclinao
pelo parocho n'uma approvao muda e affavel. Elle era, como dizia o
conego, o menino bonito: e das maneirinhas e dos olhares das velhas
exhalava-se uma admirao por elle que fazia ao desenvolvimento da
paixo d'Amelia uma atmosphera favoravel. D. Maria da Assumpo
dizia-lhe s vezes ao ouvido:

--Olha para elle!  d'inspirar fervor.  a honra do clero. No ha
outro!...

E todas ellas achavam Joo Eduardo um presta-p'ra-nada! Amelia ento
j no disfarava a sua indifferena por elle: as chinelas que lhe
andava a bordar tinham ha muito desapparecido do cesto do trabalho, e j
no vinha  janella vel-o passar para o cartorio.

A certeza agora tinha-se estabelecido na alma de Joo Eduardo--na alma,
que, como elle dizia, lhe andava mais negra que a noite.

--A rapariga gosta do padre, tinha elle concluido. E  dr da sua
felicidade destruida juntava-se a afflico pela honra d'ella ameaada.

Uma tarde, tendo-a visto sahir da S, esperou-a adiante da botica, e
muito decidido:

--Eu quero-lhe fallar, menina Amelia... Isto no pde continuar assim...
Eu no posso... A menina traz namoro com o parocho!

Ella mordeu o beio, toda branca:

--O senhor est a insultar-me!--E queria seguir, indignada.

Elle reteve-a pela manga do casabeque:

--Oua, menina Amelia. Eu no a quero insultar, mas  que no sabe...
Tenho andado, que at se me parte o corao!--E perdeu a voz, de
commovido.

--No tem razo... No tem razo... balbuciava ella.

--Jure-me ento que no ha nada com o padre!

--Pela minha salvao!... _No ha nada!_... Mas tambem lhe digo, se
torna a fallar em tal, ou a insultar-me, conto tudo  mam, e o senhor
escusa de nos voltar a casa.

--Oh, menina Amelia...

--No podemos continuar aqui a fallar... Est alli j a D. Michaela a
cocar...

Era uma velha, que levantra a cortina de cassa n'uma janella baixa, e
espreitava com olhinhos reluzentes e gulosos, a face toda resequida
encostada sfregamente  vidraa. Separaram-se ento--e a velha
desconsolada deixou cahir a cortina.

Amelia n'essa noite--emquanto as senhoras discutiam com algazarra os
missionarios que ento prgavam na Barrosa--disse baixo a Amaro, picando
vivamente a costura:

--Precisamos ter cautela... No olhe tanto para mim nem esteja to
chegado... J houve quem reparasse.

Amaro recuou logo a cadeira para junto de D. Maria da Assumpo; e,
apesar da recommendao d'Amelia, os seus olhos no se despregavam
d'ella, n'uma interrogao muda e anciosa, j assustado que as
desconfianas da mi ou a malicia das velhas andassem armando
escandalo. Depois do ch, no rumor das cadeiras que se accommodavam ao
_quino_, perguntou-lhe rapidamente:

--Quem reparou?

--Ninguem. Eu  que tenho medo.  preciso disfarar.

Desde ento cessaram as olhadellas dces, os logares chegadinhos  mesa,
os segredos; e sentiam um gozo picante em affectar maneiras frias, tendo
a certeza vaidosa da paixo que os inflammava. Era para Amelia
delicioso--emquanto o padre Amaro afastado tagarellava com as
senhoras--adorar a sua presena, a sua voz, as suas graas, com os olhos
castamente applicados s chinelas do Joo Eduardo que muito astutamente
recomera a bordar.

Todavia o escrevente vivia ainda inquieto: amargurava-o encontrar o
parocho installado alli todas as noites, com a face prspera, a perna
traada, gozando a venerao das velhas. A Ameliasinha, sim, agora
portava-se bem, e era-lhe fiel, era-lhe fiel...: mas elle sabia que o
parocho a desejava, a cocava; e apesar do juramento d'ella _pela sua
salvao,_ da certeza _que no havia nada_--temia que ella fosse
lentamente penetrada por aquella admirao caturra das velhas, para quem
o senhor parocho _era um anjo_: s se contentaria em arrancar Amelia (j
empregado no governo civil) quella casa beata: mas essa felicidade
tardava a chegar--e sahia todas as noites da rua da Misericordia mais
apaixonado, com a vida estragada de ciumes, odiando os padres, sem
coragem para desistir. Era ento que se punha a andar pelas ruas at
tarde; s vezes voltava ainda vr as janellas fechadas da casa d'ella;
ia depois  alameda ao p do rio, mas o frio ramalhar das arvores sobre
a agua negra entristecia-o mais; vinha ento ao bilhar, olhava um
momento os parceiros carambolando, o marcador, muito esguedelhado, que
bocejava encostado ao _reste_. Um cheiro de mau petroleo suffocava.
Sahia; e dirigia-se, devagar,  redaco da _Voz do Districto_.




X


O redactor da _Voz do Districto_, o Agostinho Pinheiro, era ainda seu
parente. Chamavam-lhe geralmente o _Rachitico_, por ter uma forte
corcunda no hombro e uma figurinha enfezada d'hectico. Era extremamente
sujo; e a sua carita de femea, amarellada, d'olhos depravados, revelava
vcios antigos, muito torpes. Tinha feito (dizia-se em Leiria) toda a
sorte de maroteira. E ouvira tantas vezes exclamar: Se voss no fosse
um rachitico, quebrava-lhe os ossos--que, vendo na sua corcunda uma
proteco sufficiente, ganhra um descaro sereno. Era de Lisboa, o que o
tornava mais suspeito aos burguezes srios: attribuia-se a sua voz rouca
e acre a fartar-lhe as campainhas: e os seus dedos queimados
terminavam em unhas muito compridas--porque tocava guitarra.

A _Voz do Districto_ fra creada por alguns homens, a quem chamavam em
Leiria o _grupo da Maia_, particularmente hostis ao senhor governador
civil. O doutor Godinho, que era o chefe e o candidato do _grupo_, tinha
encontrado em Agostinho, como elle dizia, o _homem que se precisa_: o
que o _grupo_ precisava era um patife com orthographia, sem escrupulos,
que redigisse em linguagem sonora os insultos, as calumnias, as alluses
que elles traziam informemente  redaco, em apontamentos. Agostinho
era um estylista de vilezas. Davam-lhe quinze mil reis por mez e casa de
habitao na redaco--um terceiro andar desmantelado n'uma viella ao p
da Praa.

Agostinho fazia o artigo de fundo, as locaes, a _Correspondencia_ de
Lisboa; e o bacharel Prudencio escrevia o folhetim litterario sob o
titulo de _Palestras Leirienses_: era um moo muito honrado, a quem o
snr. Agostinho era repulsivo; mas tinha uma tal gula de publicidade, que
se sujeitava a sentar-se todos os sabbados fraternalmente  mesma banca,
a revr as provas da sua prosa--prosa to florida de imagens, que se
murmurava na cidade, ao ll-a: _Que opulencia! Que opulencia, Jesus!_

Joo Eduardo reconhecia tambem que o Agostinho era um trastesito; no
se atreveria a passear com elle de dia nas ruas; mas gostava de ir para
a redaco, alta noite, fumar cigarros, ouvir o Agostinho fallar de
Lisboa, do tempo que l vivra empregado na redaco de dois jornaes, no
theatro da rua dos Condes, n'uma casa de penhores, e em outras
instituies. Estas visitas eram _segredos_!

quella hora da noite a sala da typographia no primeiro andar estava
fechada (o jornal tirava-se aos sabbados); e Joo Eduardo encontrava em
cima Agostinho abancado, com uma velha jaqueta de pelles cujos colchetes
de prata tinham sido empenhados--ruminando, curvado,  luz d'um medonho
candieiro de petroleo, sobre longas tiras de papel: estava fazendo o
jornal, e a sala escura em redor tinha o aspecto d'uma caverna. Joo
Eduardo estirava-se no canap de palhinha, ou indo buscar a um canto a
velha guitarra de Agostinho repenicava o _fado corrido_. O jornalista no
emtanto, com a testa apoiada a um punho, produzia laboriosamente: a
coisa no lhe sahia catita: e como nem o _fadinho_ o inspirava,
erguia-se, ia a um armario engulir um copinho de genebra que gargarejava
nas fauces estanhadas, espreguiava-se escancaradamente, accendia o
cigarro, e aproveitando o acompanhamento cantarolava roucamente:


Ora foi o fado tyranno
Que me levou  m vida,


E a guitarra: dir-lin, din, din, dir-lin, din, don.


Na vida do negro fado
Ai! Que me traz assim perdida...


Isto trazia-lhe sempre as recordaes de Lisboa, porque terminava por
dizer, com odio:

--Que possilga de terra esta!

No se podia consolar de viver em Leiria, de no poder beber o seu
quartilho na taberna do tio Joo,  Mouraria, com a Anna alfaiata ou com
o Bigodinho--ouvindo o Joo das Biscas de cigarro ao canto da boca, o
olho choroso meio fechado pelo fumo do tabaco, fazer chorar a guitarra
dizendo a morte da Sophia!

Depois, para se reconfortar com a certeza do seu talento, lia a Joo
Eduardo os seus artigos, muito alto. E Joo interessava-se--porque essas
produces, sendo ultimamente sempre desandas ao clero,
correspondiam s suas preoccupaes.

Era por esse tempo que, em virtude da famosa questo da Misericordia, o
doutor Godinho se tornra muito hostil ao cabido e  padraria. Sempre
detestra padres; tinha uma m doena de figado, e como a Igreja o fazia
pensar no cemiterio, odiava a sotaina, porque lhe parecia uma ameaa da
mortalha. E Agostinho, que tinha um profundo deposito de fel a derramar,
instigado pelo doutor Godinho, exagerava as suas verrnas: mas, com o
seu fraco litterario, cobria o vituperio de to espessas camadas de
rhetorica que, como dizia o conego Dias, aquillo era ladrar, no era
morder!

Uma d'essas noites Joo Eduardo encontrou Agostinho todo enthusiasmado
com um artigo que compuzera de tarde, e que lhe sahira cheio de piadas
 Victor Hugo!

--Tu vers! Coisa de sensao!

Como sempre, era uma declamao contra o clero e o elogio do doutor
Godinho. Depois de celebrar as virtudes do doutor, _esse to
respeitavel chefe de familia_ e a sua eloquencia no tribunal que
_arrancra tantos desventurados ao cutelo da lei_, o artigo, tomando
um tom roncante, apostrophava Christo:--Quem te diria a ti (bradava
Agostinho),  immortal Crucificado! quem te diria, quando no alto do
Golgotha expiravas exangue, quem te diria que um dia, em teu nome,  tua
sombra, seria expulso d'um estabelecimento de caridade o doutor
Godinho,--a alma mais pura, o talento mais robusto...--E as virtudes do
doutor Godinho voltavam, em passo de procisso, solemnes e sublimadas,
arrastando caudas de adjectivos nobres.

Depois, deixando por um momento de contemplar o doutor Godinho,
Agostinho dirigia-se directamente a Roma:-- no seculo XIX que vindes
atirar  face de Leiria liberal os dictames do _Syllabus_! Pois bem.
Quereis a guerra? Tel-a-heis!

--Hein, Joo?! dizia. Est forte! Est philosophico!

E retomando a leitura:--Quereis a guerra? Tel-a-heis! Levantaremos bem
alto o nosso estandarte, que no  o da demagogia, comprehendei-o bem! e
arvorando-o, com brao firme, no mais alto baluarte das liberdades
publicas, gritaremos  face de Leiria,  face da Europa: Filhos do
seculo XIX! s armas! s armas pelo progresso!

--Hein? Est de os enterrar!

Joo Eduardo, que ficra um momento calado, disse ento, levantando as
suas expresses em harmonia com a prosa sonora de Agostinho:

--O clero quer-nos arrastar aos funestos tempos do obscurantismo!

Uma phrase to litteraria surprehendeu o jornalista: fitou Joo Eduardo,
disse:

--Porque no escreves tu alguma coisa, tambem?

O escrevente respondeu, sorrindo:

--E eu, Agostinho, eu  que te escrevia uma desanda aos padres... E eu
tocava-lhes os pdres. Eu  que os conheo!...

Agostinho instou logo com elle para que escrevesse a _desanda_.

--Vem a calhar, menino!

O doutor Godinho ainda na vespera lhe recommendra:--Em tudo que
cheirar a padre, para baixo! Havendo escandalo, conta-se! no havendo,
inventa-se!

E Agostinho acrescentou, com benevolencia:

--E no te d cuidado o estylo, que eu c o florearei!

--Veremos, veremos, murmurou Joo Eduardo.

Mas d'ahi por diante Agostinho perguntava-lhe sempre:

--E o artigo, homem? Traze-me o artigo.

Tinha avidez d'elle, porque sabendo como Joo Eduardo vivia na
intimidade da panellinha canonica da S. Joanneira suppunha-o no
segredo de infamias especiaes.

Joo Eduardo, porm, hesitava. Se se viesse a saber...?

--Qual! affirmava Agostinho. A coisa publica-se como minha.  artigo da
redaco. Quem diabo vai saber?

Succedeu na noite seguinte que Joo Eduardo surprehendeu o padre Amaro
resvalando sorrateiramente um segredinho a Amelia--e ao outro dia
appareceu de tarde na redaco com a pallidez d'uma noite velada,
trazendo cinco largas tiras de papel, miudamente escriptas n'uma letra
de cartorio. Era o artigo, e intitulava-se: _Os modernos
phariseus!_--Depois de algumas consideraes, cheias de flres, sobre
Jesus e o Golgotha, o artigo de Joo Eduardo era, sob alluses to
diaphanas como teias d'aranha, um vingativo ataque ao conego Dias, ao
padre Brito, ao padre Amaro e ao padre Natario!... Todos tinham a sua
_dse_, como exclamou cheio de jubilo o Agostinho.

--E quando sae? perguntou Joo Eduardo.

O Agostinho esfregou as mos, reflectiu, disse:

-- que est forte, diabo!  como se tivesse os nomes proprios! Mas
descansa, eu arranjarei.

Foi cautelosamente mostrar o artigo ao doutor Godinho--que o achou uma
catilinaria atroz. Entre o doutor Godinho e a Igreja havia apenas um
arrufo: elle reconhecia em geral a necessidade da religio entre as
massas; sua esposa, a bella D. Candida, era alm d'isso d'inclinaes
devotas, e comeava a dizer que aquella guerra do jornal ao clero lhe
causava grandes escrupulos: e o doutor Godinho no queria provocar odios
desnecessarios entre os padres, prevendo que o seu amor da paz
domestica, os interesses da ordem e o seu dever de christo o forariam
bem cedo a uma reconciliao,--muito contra as suas opinies, mas...

Disse por isso a Agostinho sccamente:

--Isto no pde ir como artigo da redaco, deve apparecer como
communicado. Cumpra estas ordens.

E Agostinho declarou ao escrevente--que a coisa publicava-se como um
_Communicado_, assignado: _Um liberal_. Smente Joo Eduardo terminava o
artigo exclamando:--_lerta, mes de familia!_ O Agostinho suggeriu que
este final _lerta_ podia dar logar  rplica jocosa--_lerta est!_ E
depois de largas combinaes decidiram-se por este fecho:--_Cuidado,
sotainas negras!_

No domingo seguinte appareceu o communicado assignado: _Um liberal_.


Durante toda essa manh de domingo, o padre Amaro,  volta da S,
estivera occupado em compr laboriosamente uma carta a Amelia.
Impaciente, como elle dizia, com aquellas relaes que no andavam nem
desandavam, que era olhar e apertos de mo e d'alli no
passava--tinha-lhe dado uma noite,  mesa do quino, um bilhetinho onde
escrevera com boa letra, a tinta azul:--_Desejo encontral-a s, porque
tenho muito que lhe fallar. Onde pde ser sem inconveniente? Deus
proteja o nosso affecto._ Ella no respondera:--E Amaro despeitado,
descontente tambem por no a ter visto n'essa manh  missa das nove,
resolveu pr tudo a claro n'uma carta de sentimento: e preparava os
periodos sentidos que lhe deviam ir revolver o corao, passeando pela
casa, juncando o cho de pontas de cigarro, a cada momento curvado sobre
o _Diccionario de synonymos_.


Ameliasinha do meu corao: (escrevia elle) No posso atinar com as
razes maiores que a no deixaram responder ao bilhetinho que lhe dei em
casa da senhora sua mam; pois que era pela muita necessidade que tinha
de lhe fallar a ss, e as minhas intenes eram puras, e na innocencia
d'esta alma que tanto lhe quer e que no medita o peccado.

Deve ter comprehendido que lhe voto um fervente affecto, e pela sua
parte me parece, (se no me enganam esses olhos que so os pharoes da
minha vida, e como a estrella do navegante) que tambem tu, minha
Ameliasinha, tens inclinao por quem tanto te adora; pois que at outro
dia, quando o Libano quinou com os seis primeiros numeros, e que todos
fizeram tanta algazarra, tu apertaste-me a mo por baixo da mesa com
tanta ternura, que at me pareceu que o co se abria e que eu sentia os
anjos entoarem o Hossana! Porque no respondeste pois? Se pensas que o
nosso affecto pde ser desagradavel aos nossos anjos da guarda, ento te
direi que maior peccado commettes trazendo-me n'esta incerteza e
tortura, que at na celebrao da missa estou sempre com o pensar em ti,
e nem me deixa elevar a minha alma no divino sacrificio. Se eu visse que
este mutuo affecto era obra do tentador, eu mesmo te diria: oh minha bem
amada filha, faamos o sacrificio a Jesus, para lhe pagar parte do
sangue que derramou por ns! Mas eu tenho interrogado a minha alma e
vejo n'ella a brancura dos lirios. E o teu amor tambem  puro como a tua
alma, que um dia se unir  minha, entre os cros celestes, na
bemaventurana. Se tu soubesses como eu te quero, querida Ameliasinha,
que at s vezes me parece que te podia comer aos bocadinhos! Responde
pois, e dize se no te parece que poderia arranjar-se a vermo-nos no
Morenal, pela tarde. Pois eu anceio por te exprimir todo o fogo que me
abraza, bem como fallar-te de coisas importantes, e sentir na minha mo
a tua que eu desejo que me guie pelo caminho do amor, at aos extases
d'uma felicidade celestial. Adeus, anjo feiticeiro, recebe a offerta do
corao do teu amante e pai espiritual


                                                         _Amaro_.


Depois de jantar copiou esta carta a tinta azul, e com ella bem dobrada
no bolso da batina foi  rua da Misericordia. Logo da escada sentiu em
cima a voz aguda de Natario, discutindo.

--Quem est por c?--perguntou  _Rua_, que alumiava, encolhida no seu
chale.

--As senhoras todas. Est o senhor padre Brito.

--l! Bella sociedade!

Galgou os degraus, e  porta da sala, com o seu capote ainda pelos
hombros, tirando alto o chapo:

--Muito boas noites a todos, comeando pelas senhoras.

Natario, immediatamente, plantou-se diante d'elle e exclamou:

--Ento que lhe parece?

--O qu? perguntou Amaro. E reparando no silencio, nos olhos cravados
n'elle:--O que ? Alguma coisa de novo?

--Pois no leu, senhor parocho!? exclamaram. No leu o _Districto_!?

Era papel em que elle no puzera os olhos, disse. Ento as senhoras
indignadas romperam:

--Ai!  um desafro!

--Ai!  um escandalo, senhor parocho!

Natario, com as mos enterradas nas algibeiras, contemplava o parocho
com um sorrisinho sarcastico, soltando d'entre os dentes:

--No leu! No leu! Ento que fez?

Amaro reparava, j aterrado, na pallidez d'Amelia, nos seus olhos muito
vermelhos. E emfim o conego erguendo-se pesadamente:

--Amigo parocho, do-nos uma desanda!...

--Ora essa! exclamou Amaro.

--Tsa!

O senhor conego, que trouxera o jornal, devia ler alto--lembraram.

--Leia, Dias, leia, acudiu Natario. Leia, para saborearmos!

A S. Joanneira deu mais luz ao candieiro: o conego Dias accommodou-se 
mesa, desdobrou o jornal, pz os oculos cuidadosamente, e, com o leno
do rap nos joelhos, comeou a leitura do _Communicado_ na sua voz
pachorrenta.

O principio no interessava: eram periodos enternecidos em que o
_liberal_ exprobrava aos phariseus a crucifixo de Jesus:--Por que o
matasteis? (exclamava elle). Respondei! E os phariseus
respondiam:--Matamol-o porque elle era a liberdade, a emancipao, a
aurora de uma nova era, etc. O _liberal_ ento esboava, a largos
traos, a noite do Calvario:--Eil-o pendente da cruz, traspassado de
lanas, a sua tunica jogada aos dados, a plebe infrene, etc. E,
voltando a dirigir-se aos phariseus infelizes, o _liberal_ gritava-lhes
com ironia:--Contemplai a vossa bella obra! Depois, por uma gradao
habil, o _liberal_ descia de Jerusalem a Leiria:--Mas pensam os
leitores que os phariseus morreram? Como se enganam! Vivem!
conhecemol-os ns; Leiria est cheia d'elles, e vamos apresental-os aos
leitores...

--Agora  que ellas comeam, disse o conego olhando para todos em redor,
por cima dos oculos.

Com effeito ellas comeavam; era, n'uma frma brutal, uma galeria de
photographias ecclesiasticas: a primeira era a do padre Brito:--Vde-o,
(exclamava o _liberal_) grosso como um touro, montado na sua egua
castanha...

--At a cr da egua! murmurou com uma indignao piedosa a snr.^a D.
Maria da Assumpo.

...Estupido como um melo, sem sequer saber latim...

O padre Amaro, assombrado, fazia: Oh! oh! E o padre Brito, escarlate,
mexia-se na cadeira, esfregando devagar os joelhos.

...Especie de caceteiro, continuava o conego que lia aquellas phrases
crueis com uma tranquillidade dce, desabrido de maneiras, mas que no
desgosta de se dar  ternura, e, segundo dizem os bem informados,
escolheu para Dulcina a propria e legitima esposa do seu regedor...

O padre Brito no se dominou:

--Eu racho-o de meio a meio! exclamou erguendo-se e recahindo
pesadamente na cadeira.

--Escute, homem! disse Natario.

--Qual escute! O que ,  que o racho!

Mas se elle no sabia quem era o _liberal_!

--Qual _liberal_! Quem eu racho  o doutor Godinho. O doutor Godinho 
que  o dono do jornal. O doutor Godinho  que eu racho!

A sua voz tinha tons roucos: e atirava furioso grandes palmadas  cxa.

Lembraram-lhe o dever christo de perdoar as injurias. A S. Joanneira
com uno citou a bofetada que Jesus Christo supportou. Devia imitar
Christo.

--Qual Christo, qual cabaa! gritou Brito apopletico.

Aquella impiedade creou um terror.

--Credo, senhor padre Brito, credo! exclamou a irm do conego recuando a
cadeira.

O Libaninho, com as mos na cabea, vergado sob o desastre, murmurava:

--Nossa Senhora das Dres, que at pde cahir um raio!

E, vendo mesmo Amelia indignada, o padre Amaro disse gravemente:

--Brito, realmente voss excedeu-se.

--Pois se esto a puxar por mim!...

--Homem, ninguem puxou por voss, disse severamente Amaro. E com um tom
pedagogo:--Apenas lhe lembrarei, como devo, que em taes casos, quando se
diz a _blasphemia m_, o reverendo padre Scomelli recommenda confisso
geral e dois dias de recolhimento a po e agua.

O padre Brito resmungava.

--Bem, bem, resumiu Natario. O Brito commetteu uma grande falta, mas
saber pedir perdo a Deus, e a misericordia de Deus  infinita!

Houve uma pausa commovida em que se ouviu a snr.^a D. Maria da Assumpo
murmurar que ficra sem pinga de sangue; e o conego, que durante a
catastrophe pousra os oculos sobre a mesa, retomou-os, e continuou
serenamente a leitura:

...Conheceis um outro com cara de furo?...

Olhares de lado fixaram o padre Natario.

...Desconfiai d'elle: se puder trahir-vos, no hesita; se puder
prejudicar-vos, folga: as suas intrigas trazem o cabido n'uma confuso
porque  a vibora mais damninha da diocese, mas com tudo isso muito dado
 jardinagem, porque cultiva com cuidado _duas rosas do seu canteiro_.

--Homem, essa! exclamou Amaro.

-- para que voss veja, disse Natario erguendo-se lvido. Que lhe
parece? Voss sabe que eu, quando fallo das minhas sobrinhas, costumo
dizer _as duas rosas do meu canteiro_.  um gracejo. Pois senhores, at
vem com isto!--E com um sorriso macilento, de fel:--mas manh hei de
saber quem ! lar! Eu hei de saber quem !

--Deite ao desprezo, senhor padre Natario, deite ao desprezo, disse a S.
Joanneira pacificadora.

--Obrigado, minha senhora, acudiu Natario curvando-se com uma ironia
rancorosa--obrigado! C recebi!

Mas a voz imperturbavel do conego retomra a leitura. Agora era o
retrato d'elle, traado com odio:

...Conego bojudo e gluto, antigo caceteiro do senhor D. Miguel, que
foi expulso da freguezia de Ourem, outr'ora mestre de Moral n'um
seminario e hoje mestre de immoralidade em Leiria...

--Isso  infame! exclamou Amaro exaltado.

O conego pousou o jornal, e com a voz pachorrenta:

--Voss pensa que me d isto cuidado? disse elle. Boa! Tenho que comer e
que beber, graas a Deus! Deixar rosnar quem rosna!

--No, mano, interrompeu a irm, mas a gente sempre tem o seu bocadinho
de brio!

--Ora, mana! replicou o conego Dias com um azedume de raiva concentrada.
Ora, mana! ninguem lhe pede a sua opinio!

--Nem preciso que m'a peam! gritou ella impertigando-se. Sei-a dar
muito bem quando quero e como quero. Se no tem vergonha, tenho-a eu!

--Ento! ento!... disseram em roda, acalmando-a.

--Menos lingua, mana, menos lingua! disse o conego fechando os seus
oculos. Olhe no lhe ciam os dentes postios!

--Seu malcriado!

Ia fallar, mas suffocou-se; e comeou subitamente a soltar _ais_.

Recearam logo que lhe dsse o _flato_: a S. Joanneira e a D. Joaquina
Gansoso levaram-na para o quarto, em baixo, amparando-a, com palavras
brandas:

--Ests doida! Por quem s, filha! Olha que escandalo! Nossa Senhora te
valha!

Amelia mandava buscar agua de flr de laranja.

--Deixe-a l, rosnou o conego, deixe-a l! Aquillo passa-lhe. So
calores!

Amelia deu um olhar triste ao padre Amaro, e desceu ao quarto com a
snr.^a D. Maria da Assumpo e a Gansoso surda, que iam tambem socegar
a D. Josepha, coitadita! Os padres agora estavam ss; e o conego
voltando-se para Amaro:--Oua voss, que  a sua vez--disse retomando o
jornal.

--E ver que dse! disse Natario.

O conego escarrou, aproximou mais o candieiro, e declamou:

...Mas o perigo so certos padres novos e ajanotados, parochos por
influencias de condes da capital, vivendo na intimidade das familias de
bem onde ha donzellas inexperientes, e aproveitando-se da influencia do
seu sagrado ministerio para lanar na alma da innocente a semente de
chammas criminosas!

--Pouca vergonha! murmurou Amaro livido.

...Dize, sacerdote de Christo, onde queres arrastar a impolluta virgem?
Queres arrastal-a aos lodaaes do vicio? Que vens fazer aqui ao seio
d'esta respeitavel familia? Porque rondas em volta da tua prsa como o
milhafre em torno da innocente pomba? Para traz, sacrilego! Murmuras-lhe
seductoras phrases, para a desviares do caminho da honra; condemnas 
desgraa e  viuvez algum honrado moo que lhe queira offerecer sua mo
trabalhadora; e vaes-lhe preparando um horroroso futuro de lagrimas. E
tudo para qu? Para saciares os torpes impulsos de tua criminosa
lascivia!...

--Que infame! rosnou com os dentes cerrados o padre Amaro.

...Mas acautela-te, presbytero perverso! E a voz do conego tinha tons
cavos ao soltar aquellas apostrophes. J o archanjo levanta a espada da
justia. E sobre ti, e teus cumplices, j a opinio da illustrada Leiria
fita seu olho imparcial. E ns c estamos, ns, filhos do trabalho, para
vos marcar na fronte o estigma da infamia. Tremei, sectarios do
_Syllabus_! Cuidado, sotainas negras!

--D'escacha! fez o conego suado, dobrando a _Voz do Districto_.

O padre Amaro tinha os olhos ennevoados de duas lagrimas de raiva:
passou devagar o leno pela testa, soprou, disse com os beios a tremer:

--Eu, collegas, nem sei o que hei de dizer! Pelo Deus que me ouve, isto
 a calumnia das calumnias.

--Uma calumnia infame... rosnaram.

-E a mim o que me parece, continuou Amaro,  que nos dirijamos 
auctoridade!

-- o que eu tinha dito, acudiu Natario,  necessario fallar ao
secretario geral...

--Um cacete  que ! rugiu o padre Brito. Auctoridade! O que , 
rachal-o! Eu bebia-lhe o sangue!...

O conego, que meditava coando o queixo, disse ento:

--E voss, Natario,  que deve ir ao secretario geral. Voss tem lingua,
tem logica.

--Se os collegas decidem, disse Natario curvando-se, vou. E hei de lh'as
cantar,  auctoridade!

Amaro ficra junto da mesa com a cabea entre as mos, aniquilado. E o
Libaninho murmurava:

--Ai, filhos, eu no  nada commigo, mas s de ouvir todo esse aranzel,
at se me esto a vergar as pernas. Ai, filhos, um desgosto assim...

Mas sentiram a voz da snr.^a Joaquina Gansoso subindo a escada; e o
conego immediatamente com uma voz prudente:

--Collegas, o melhor, diante das senhoras,  no se fallar mais n'isto.
Bem basta o que basta.

D'ahi a momentos, apenas Amelia entrou, Amaro ergueu-se, declarou que
estava com uma forte dr de cabea, e despediu-se das senhoras.

--E sem tomar ch? acudiu a S. Joanneira.

--Sim, minha senhora, disse elle embrulhando-se no seu capote, no me
estou a sentir bem. Boas noites... E voss, Natario, apparea manh
pela S  uma hora.

Apertou a mo de Amelia, que se lhe abandonou entre os dedos passiva e
molle,--e sahiu com os hombros vergados.

A S. Joanneira notou, desconsolada:

--O senhor parocho ia muito pallido...

O conego levantou-se, e com um tom impaciente e quezilado:

--Se ia pallido, manh estar crado. E agora quero dizer uma coisa:
esse aranzel do jornal  a calumnia das calumnias! Eu no sei quem o
escreveu, nem para que o escreveu. Mas so tolices e so infamias. 
pateta e maroto, quem quer que seja. O que devemos fazer j o sabemos, e
como j se tagarellou bastante sobre o caso, a senhora mande vir o ch.
E o que l vai, l vai, no se falla mais na questo.

As faces em roda continuavam contristadas.--E ento o conego
acrescentou:

--Ah! e quero dizer outra coisa: como no morreu ninguem, no ha
necessidade de estar aqui com cara de pezames. E tu, pequena, senta-te
ao instrumento e repenica-me essa _Chiquita_!


O secretario geral, o snr. Gouva Ledesma, antigo jornalista, e, em
annos mais expansivos, auctor do livro sentimental _Devaneios de um
sonhador_, estava ento dirigindo o districto na ausencia do governador
civil.

Era um moo bacharel que passava por ter talento. Representra de galan
no theatro academico, em Coimbra, com muito applauso; e tomra a esse
tempo o habito de passear  tarde na Sophia, com o ar fatal com que no
palco arrepellava os cabellos, ou levava, nos transes d'amor, o leno
aos olhos. Depois em Lisboa arruinra um pequeno patrimonio com o amor
de Lolas e de Carmens, ceias no Matta, muita cala no Xafredo e
perniciosas convivencias litterarias: aos trinta annos estava pobre,
saturado de mercurio e auctor de vinte folhetins romanticos na
_Civilisao_: mas tornra-se to popular, que era conhecido nos
lupanares e nos cafs por um cognome carinhoso--era o _Bibi_. Julgando
ento que conhecia a fundo a existencia, deixou crescer as suias,
comeou a citar Bastiat, frequentou as camaras e entrou na carreira
administrativa; chamava agora  republica que tanto exaltra em Coimbra
_uma absurda chimera_; e Bibi era um pilar das instituies.

Detestava Leiria, onde passava por espirituoso; e dizia s senhoras, nas
_soires_ do deputado Novaes,--que estava cansado da vida. Rosnava-se
que a esposa do bom Novaes andava doida por elle: e em verdade Bibi
escrevra a um amigo da capital:--emquanto a conquistas, pouco por ora;
tenho apenas no papo a Novaesitos.

Levantava-se tarde; e n'essa manh, de robe-de-chambre  mesa do almoo,
partia os seus ovos quentes, lendo com saudade no jornal a narrao
apaixonada d'uma pateada em S. Carlos, quando o criado,--um gallego que
trouxera de Lisboa--veio dizer que estava alli um cura.

--Um cura? Que entre para aqui!--E murmurou para sua satisfao
pessoal:--O Estado no deve fazer esperar a Igreja.

Ergueu-se, e estendeu as duas mos ao padre Natario que entrava, muito
composto, na sua longa batina de lustrina.

--Uma cadeira, Trindade! Toma uma chavena de ch, senhor cura? Soberba
manh, hein? Estava justamente pensando em v. s.^a--isto , estava
pensando no clero em geral... Acabava de lr as peregrinaes que se
esto fazendo a Nossa Senhora do Lourdes... Grande exemplo! Milhares de
pessoas da melhor roda...  realmente consolador vr renascer a f...
Ainda hontem eu disse em casa do Novaes: no fim de tudo a f  a mola
real da sociedade. Tome uma chavena de ch... Ah!  um grande
balsamo!...

--No, obrigado, almocei j.

--Mas no! Quando digo um grande balsamo refiro-me  f, no ao ch! Ah!
ah!  boa, no?

E prolongou a sua risadinha com complacencia. Queria agradar a Natario,
pelo principio que repetia muito, com um sorriso astuto--que quem est
mettido na politica deve ter por si a padraria.

--E depois, acrescentou, como eu dizia hontem em casa do Novaes, que
vantagem para as localidades! Lourdes, por exemplo, era uma aldeola;
pois com a affluencia dos devotos est uma cidade... Grandes hoteis,
_boulevards_, bellas lojas...  por assim dizer o desenvolvimento
economico, correndo parelhas com o renascimento religioso.

E deu com satisfao um puxosinho grave ao collarinho.

--Pois eu vinha aqui fallar a v. exc.^a a respeito d'um communicado na
_Voz do Districto_.

--Ah! interrompeu o secretario geral, perfeitamente, li! Uma famosa
verrina... Mas litterariamente, como estylo e como imagens, que miseria!

--E que tenciona v. exc.^a fazer, senhor secretario geral?

O snr. Gouva Ledesma apoiou-se nas costas da cadeira, perguntou
pasmado:

--Eu!?

Natario disse, distillando as palavras:

--A auctoridade tem o dever de proteger a religio do Estado, e
implicitamente os seus sacerdotes... Que tenha v. exc.^a em vista, eu
no venho aqui em nome do clero...

E acrescentou com a mo sobre o peito:

--Sou apenas um pobre padre sem influencia... Venho, como particular,
perguntar ao senhor secretario geral se se pde permittir que caracteres
respeitaveis da Igreja diocesana sejam assim diffamados...

-- certamente lamentavel que um jornal...

Natario interrompeu, impertigando o busto com indignao:

--Jornal que j devia estar suspenso, senhor secretario geral!

--Suspenso!? Por quem , senhor cura! Mas v. s.^a decerto no quer que
eu volte aos tempos dos corregedores-mres! Suspender o jornal! Mas a
liberdade de imprensa  um principio sagrado! Nem as leis de imprensa o
permittem... Mesmo querelar pelo ministerio publico porque um periodico
diz duas ou tres pilherias sobre o cabido, impossivel! Tnhamos de
querelar de toda imprensa de Portugal, com excepo da _Nao_ e do _Bem
Publico!_ Onde iria parar a liberdade de pensamento, trinta annos de
progresso, a propria ida governamental? Mas ns no somos os Cabraes,
meu caro senhor! Ns queremos luz, muitissima luz! Justamente o que ns
queremos  luz!

Natario tossiu devagarinho, disse:

--Perfeitamente. Mas ento quando, pelas eleies, a auctoridade nos
vier pedir o nosso auxilio, ns, vendo que no encontramos n'ella
proteco, diremos simplesmente: _Non possumus_!

--E pensa o senhor cura, que por amor de alguns votos que do os
senhores abbades, ns vamos trahir a civilisao?

E o antigo _Bibi_, tomando uma grande attitude, soltou esta phrase:

--Somos filhos da liberdade, no renegaremos nossa mi!

--Mas o doutor Godinho, que  a alma do jornal,  opposio, observou
ento Natario; proteger-lhe o jornal  implicitamente proteger-lhe as
manobras...

O secretario geral teve um sorriso:

--Meu caro senhor cura, v. s.^a no est no segredo da politica. Entre o
doutor Godinho e o governo civil no ha inimizade, ha apenas um
arrufo... O doutor Godinho  uma intelligencia... Vai reconhecendo que o
_grupo da Maia_ no produz nada... O doutor Godinho aprecia a politica
do governo, e o governo aprecia o doutor Godinho.

E, rebuando-se todo n'um mysterio d'Estado, acrescentou:

--Coisas d'alta poltica, meu caro senhor.

Natario ergueu-se:

--De modo que...

--_Impossibilis est_, disse o secretario. De resto acredite, senhor
cura, que como particular revolto-me contra o _Communicado_; mas como
auctoridade devo respeitar a expresso do pensamento... Mas creia, e
pde dizel-o a todo o clero diocesano, a Igreja catholica no tem um
filho mais fervente que eu, Gouva Ledesma... Quero porm uma religio
liberal, de harmonia com o progresso, com a sciencia... Foram sempre as
minhas idas; prguei-as bem alto, na imprensa, na universidade e no
gremio... Assim, por exemplo, no acho que haja poesia maior que a
poesia do christianismo! E admiro Pio IX, uma grande figura! Smente
lamento que elle no arvore a bandeira da civilisao!--E o antigo Bibi,
contente da sua phrase, repetia:--Sim, lamento que elle no arvore a
bandeira da civilisao... O _Syllabus_  impossivel n'este seculo de
electricidade, senhor cura! E a verdade  que ns no podemos querelar
d'um jornal porque elle diz duas ou tres pilherias sobre o sacerdocio,
nem nos convm, por altas razes de poltica, escandalisar o doutor
Godinho. Aqui tem o meu pensamento.

--Senhor secretario geral... disse Natario curvando-se.

--Um criado de v. s.^a Sinto que no tome uma chavena de ch... E como
vai o nosso chantre?

--S. exc.^a n'estes ultimos dias, segundo creio, tem tornado a soffrer
de tonturas.

--Sinto. Uma intelligencia tambem! Grande latinista... Tenha cuidado com
o degrau!...

Natario correu  S, com um passo nervoso, resmungando alto de clera.
Amaro passeava devagar no terrao, com as mos atraz das costas: tinha
as olheiras batidas e a face envelhecida.

--Ento? disse elle, indo rapidamente ao encontro de Natario.

--Nada!

Amaro mordeu o beio: e emquanto Natario lhe contava, excitado, a
conversao com o secretario geral, e como argumentra com elle, e como
o homem tagarellra, tagarellra,--a face do parocho cobria-se d'uma
sombra desconsolada, e ia arrancando raivosamente, com a ponta do
guardasol, a herva que crescia nas fendas do terrao.

--Um patarata! resumiu o padre Natario com um grande gesto. Pela
auctoridade no se faz nada.  escusado... Mas a questo agora  entre
mim e o _liberal_, padre Amaro! Eu hei de saber quem , padre Amaro! E
quem o esmaga sou eu, padre Amaro, sou eu!...


No emtanto Joo Eduardo desde o domingo triumphava: o artigo fizera
escandalo: tinham-se vendido oitenta numeros avulsos do jornal, e o
Agostinho affirmra-lhe que na botica da Praa a opinio era que o
_liberal_ conhecia a padraria a fundo e tinha cabea!

--s um genio, rapaz! disse o Agostinho.  trazer-me outro,  trazer-me
outro!

Joo Eduardo gozava prodigiosamente d'aquelle fallatorio que ia pela
cidade.

Relia ento o artigo com uma deleitao paternal; se no receasse
escandalisar a S. Joanneira, desejaria ir pelas lojas dizer bem
alto--_fui eu, eu  que o escrevi!_--E j ruminava outro, mais terrivel,
que se deveria intitular: _O diabo feito ermita_, ou _O sacerdocio de
Leiria perante o seculo XIX_!

O doutor Godinho encontrra-o na Praa, e parra com condescendencia,
para lhe dizer:

--A coisa tem feito barulho. Voss  o diabo! E a piada ao padre Brito 
bem jogada. Que eu no sabia... E diz que  bonita, a mulher do
regedor...

--V. exc.^a no sabia?

--No sabia, e saboreei. Voss  o diabo! Eu fui que disse ao Agostinho
que publicasse a coisa como um communicado. Voss comprehende... Eu no
me convm ter turras de mais com o clero... E depois l minha esposa tem
seus escrupulos... Emfim  mulher, e  conveniente que as mulheres
tenham religio... Mas no meu fro interior saboreei... Sobretudo a
piada ao Brito. O patife fez-me uma guerra dos diabos na eleio
passada... Ah! e outra coisa, o seu negocio arranja-se. L para o mez
que vem tem voss o seu emprego no governo civil.

--Oh, snr. doutor... v. exc.^a...

--Qual historia! voss  um benemerito!

Joo Eduardo foi para o cartorio, tremulo d'alegria. O snr. Nunes Ferral
sahira: o escrevente aparou devagar uma penna, comeou a cpia d'uma
procurao--e de repente, agarrando o chapo, correu  rua da
Misericordia.

A S. Joanneira costurava s  janella; Amelia fra ao Morenal; e Joo
Eduardo, logo da porta:

--Sabe, D. Augusta? Estive agora com o doutor Godinho. Diz que l para o
mez que vem tenho o meu emprego...

A S. Joanneira tirou a luneta, deixou cahir as mos no regao:

--Que me diz?...

-- verdade,  verdade...

E o escrevente esfregava as palmas, com risinhos nervosos de jubilo.

--Que pechincha! exclamou. De modo que agora, se a Ameliasinha estiver
d'accordo...

--Ai, Joo Eduardo! fez a S. Joanneira com um grande suspiro, que me
tira um peso do corao... Que tenho estado... Olhe, nem tenho
dormido!...

Joo Eduardo presentiu que ella ia fallar do _Communicado_. Foi pr o
chapo n'uma cadeira ao canto; e voltando  janella, com as mos nos
bolsos:

--Ento porqu, porqu?

--Aquella pouca vergonha no _Districto!_ Que diz voss? Aquella
calumnia! Ai! tenho-me feito velha!

Joo Eduardo escrevera o artigo sob as solicitaes do ciume, s para
enterrar o padre Amaro; no previra o desgosto das duas senhoras; e
vendo agora a S. Joanneira com duas lagrimas no branco dos olhos,
sentia-se _quasi arrependido_. Disse ambguamente:

--Eu li,  o diabo...

Mas aproveitando o sentimento da S. Joanneira para servir a sua paixo,
acrescentou sentando-se, chegando a cadeira para ao p d'ella:

--Eu nunca lhe quiz fallar d'isso, D. Augusta, mas... olhe que a
Ameliasinha tratava o parocho com muita familiaridade... E pelas
Gansosos, pelo Libaninho, mesmo sem quererem, a coisa ia-se sabendo,
ia-se rosnando... Eu bem sei que ella, coitada, no via o mal, mas... a
D. Augusta sabe o que  Leiria. Que linguas, hein!

A S. Joanneira ento declarou que lhe ia fallar como a um filho: o
artigo affligira-a, sobretudo por causa d'elle, Joo Eduardo. Porque
emfim elle podia acreditar tambem, desfazer o casamento, e que desgosto!
E ella podia dizer-lhe, como mulher de bem, como mi, que no havia
entre a pequena e o senhor parocho nada, nada, nada! Era a rapariga que
tinha aquelle genio communicativo! E o parocho tinha boas palavras,
sempre muito delicado... Que ella sempre o dissera, o senhor padre Amaro
tinha maneiras que tocavam o corao...

--Decerto, disse Joo Eduardo mordendo o bigode, com a cabea baixa.

A S. Joanneira ento poz a mo de leve sobre o joelho do escrevente, e
fitando-o:

--E olhe, no sei se me fica mal dizer-lh'o, mas a rapariga quer-lhe
devras, Joo Eduardo.

O corao do escrevente teve uma palpitao commovida.

--E eu! disse. A D. Augusta sabe a paixo que eu tenho por ella... E l
do artigo que me importa a mim!

Ento a S. Joanneira limpou os olhos ao avental branco. Ai! era uma
alegria para ella! Ella sempre o dissera, como rapaz de bem, no havia
outro na cidade de Leiria!

--Voss sabe, quero-lhe como filho!

O escrevente enterneceu-se:

--Pois vamos a isso, e tapam-se as bocas do mundo...

E erguendo-se, com uma solemnidade engraada:

--Snr.^a D. Augusta! Tenho a honra de lhe pedir a mo...

Ella riu-se--e na sua alegria Joo Eduardo beijou-a na testa,
filialmente.

--E falle  noite  Ameliasinha, disse ao sahir. Eu venho manh, e
felicidade no ha de faltar...

--Louvado seja Nosso Senhor! acrescentou a S. Joanneira retomando a sua
costura, com um suspiro de muito allivio.

Apenas n'essa tarde Amelia voltou do Morenal, a S. Joanneira, que estava
pondo a mesa, disse-lhe:

--Esteve ahi o Joo Eduardo...

--Ah!...

--Ahi esteve a fallar, coitado...

Amelia, calada, dobrava a sua manta de l.

--Ahi esteve a queixar-se... continuou a mi.

--Mas de qu? perguntou ella muito vermelha.

--Ora de qu! Que se fallava muito na cidade do artigo do _Districto_;
que se perguntava a quem alludia o periodico com as _donzellas
inexperientes_, e que a resposta era: Quem ha de ser? a Amelia da S.
Joanneira, da rua da Misericordia! O pobre Joo diz que tem andado to
desgostoso!... No se atrevia, por delicadeza, a fallar-te... Emfim...

--Mas que hei de eu fazer, minha mi? exclamou Amelia com os olhos
subitamente cheios de lagrimas quellas palavras que cahiam sobre os
seus tormentos como gotas de vinagre sobre feridas.

--Eu digo-te isto para teu governo. Faze o que quizeres, filha. Eu bem
sei que so calumnias! Mas tu sabes o que so linguas do mundo... O que
te posso dizer  que o rapaz no acreditou no periodico. Que era isso
que me dava cuidado!... Credo! tirou-me o somno... Mas no, diz que no
lhe importa o artigo, que te quer da mesma maneira, e est a arder por
que se faa o casamento... E eu por mim o que fazia, para calar toda
essa gente, era casar-me j. Eu bem sei que tu no morres por elle, bem
sei. Deixa l! Isso vem depois. O Joo  bom rapaz, vai ter o emprego...

--Vai ter o emprego!?

--Pois foi o que elle me veio dizer tambem... Esteve com o doutor
Godinho, diz que l para o fim do mez est empregado... Emfim tu fazes o
que entenderes... Que olha que eu estou velha, filha, posso faltar-te
d'um momento para o outro...

Amelia no respondeu, olhando de frente no telhado voarem os
pardaes--menos desassocegados, n'aquelle instante, que os seus
pensamentos.


Desde domingo vivia atordoada. Sabia bem que a _donzella inexperiente_ a
que alludia o _Communicado_ era ella, Amelia, e torturava-a o vexame de
vr assim o seu amor publicado no jornal. Depois (como ella pensava,
mordendo o beio n'uma raiva muda, com os olhos afogados de lagrimas),
aquillo vinha estragar tudo! Na Praa, na Arcada j se diria com
risinhos perversos:--Ento a Ameliasita da S. Joanneira mettida com o
parocho, hein? Decerto o senhor chantre, to severo em coisas de
mulheres, reprehenderia o padre Amaro... E por alguns olhares, alguns
apertos de mo, ahi estava a sua reputao estragada, estragado o seu
amor!

Na segunda-feira, ao ir ao Morenal, parecera-lhe sentir pelas costas
risinhos a escarnecel-a; no aceno que lhe fez da porta da botica o
respeitavel Carlos julgou vr uma seccura reprehensvel;  volta
encontrra o Marques da loja de ferragens, que no lhe tirou o chapo, e
ao entrar em casa julgava-se desacreditada--esquecendo que o bom Marques
era to curto da vista que usava na loja duas lunetas sobrepostas.

--Que hei de eu fazer? que hei de eu fazer? murmurava, s vezes, com as
mos apertadas na cabea. O seu cerebro de devota apenas lhe fornecia
solues devotas--entrar n'um recolhimento, fazer uma promessa a Nossa
Senhora das Dres para que a livrasse d'aquelle apuro, ir confessar-se
ao padre Silverio... E terminava por se vir sentar resignadamente ao p
da mi com a sua costura, considerando, muito enternecida, que desde
pequena fra sempre bem infeliz!

A mi no lhe fallra claramente sobre o _Communicado_; tivera apenas
palavras ambguas:

-- uma pouca vergonha...  deitar ao desprezo... Quando a gente tem a
sua consciencia socegada, o mais historias...

Mas Amelia via-lhe bem o desgosto--na face envelhecida, nos tristes
silencios, nos suspiros repentinos quando fazia meia  janella com a
luneta na ponta do nariz: e ento mais se convencia que havia grande
fallatorio na cidade, de que a mi, coitada, estava informada pelas
Gansosos e pela D. Josepha Dias--cuja boca produzia o mexerico mais
naturalmente que a saliva. Que vergonha, Jesus!

E ento o seu amor pelo parocho, que at ahi, n'aquella reunio de saias
e batinas da rua da Misericordia se lhe afigurra natural, agora,
julgando-o reprovado pelas pessoas que desde pequena fora acostumada a
respeitar--os Guedes, os Marques, os Vazes,--apparecia-lhe j
monstruoso: assim as cres d'um retrato pintado  luz d'azeite, e que 
luz d'azeite parecem justas, tomam tons falsos e disformes quando lhes
cae em cima a luz do sol. E quasi estimava que o padre Amaro no tivesse
voltado  rua da Misericordia.

No emtanto, com que anciedade esperava todas as noites o seu toque de
campainha! Mas elle no vinha; e aquella ausencia, que a sua razo
julgava prudente, dava ao seu corao o desespero d'uma traio. Na
quarta-feira  noite no se conteve, disse, crando sobre a sua costura:

--Que ser feito do senhor parocho?

O conego, que na sua poltrona parecia dormitar, tossiu grosso, mexeu-se,
rosnou:

--Mais que fazer... E escusam de esperar por elle to cedo!...

E Amelia, que ficra branca como a cal, teve immediatamente a certeza
que o parocho, aterrado com o escandalo do jornal, aconselhado pelos
padres timoratos zelosos do bom nome do clero--tratava de se descartar
d'ella! Mas, cautelosa, diante das amigas da mi, escondeu o seu
desespero: foi mesmo sentar-se ao piano, e tocou mazurkas to
estrondosas--que o conego, tornando a mexer-se na poltrona, grunhiu:

--Menos espalhafato e mais sentimento, rapariga!

Passou uma noite agoniada, e sem chorar. A sua paixo pelo parocho
flammejava mais irritada; e todavia detestava-o pela sua cobardia. Mal
uma alluso n'um jornal o picra, ficra a tremer na sua batina,
apavorado, no se atrevendo sequer a visital-a--sem se lembrar que
tambem ella se via diminuida na sua reputao, sem ser satisfeita no seu
amor! E fra elle que a tentra com as suas palavrinhas dces, as suas
denguices! Infame!... Desejava violentamente apertal-o ao corao--e
esbofeteal-o. Teve a ida insensata de ir ao outro dia  rua das Sousas
atirar-se-lhe aos braos, installar-se-lhe no quarto, fazer um escandalo
que o obrigasse a fugir da diocese... Porque no? Eram novos, eram
robustos, poderiam viver longe, n'outra cidade--e a sua imaginao
comeou a repastar-se logo hystericamente nas perspectivas deliciosas
d'essa existencia, em que se figurava constantemente a dar-lhe beijos!
Atravs da sua intensa excitao, aquelle plano parecia-lhe muito
pratico, muito facil: fugiriam para o Algarve; l, elle deixaria crescer
o cabello (que mais bonito seria ento!) e ninguem saberia que era um
padre; poderia ensinar latim, ella coseria para fra; e viveriam n'uma
casinha--onde o que mais a attrahia era o leito com as duas
travesseirinhas chegadas... E a unica difficuldade que via em todo este
plano radiante era fazer sahir de casa, s escondidas da mi, o bah com
a sua roupa!--Mas quando acordou, essas resolues morbidas,  luz clara
do dia, desfizeram-se como sombras: tudo aquillo lhe parecia agora to
impraticavel, e elle to separado d'ella, como se entre a rua da
Misericordia e a rua das Sousas se erguessem inaccessivelmente todas as
montanhas da terra. Ai, o senhor parocho abandonra-a, era certo! No
queria perder os lucros da sua parochia nem a estima dos seus
superiores!... Pobre d'ella! Considerou-se ento para sempre infeliz e
desinteressada da vida. Guardou, todavia, muito intenso o desejo de se
vingar do padre Amaro.

Foi ento que reflectiu, pela primeira vez, que Joo Eduardo desde a
publicao do _Communicado_ no apparecera na rua da Misericordia.
Tambem me volta as costas--pensou com amargura. Mas que lhe importava!
No meio da afflico que lhe dava o abandono do padre Amaro, a perda do
amor do escrevente, piegas e pesado, que lhe no trazia utilidade nem
prazer, era uma contrariedade imperceptivel: uma infelicidade viera que
lhe arrebatava bruscamente todas as affeies--a que lhe enchia a alma e
a que apenas lhe acariciava a vaidadesinha: e irritava-a, sim, no
sentir j o amor do escrevente collado a suas saias, com a docilidade
d'um co--mas todas as suas lagrimas eram para o senhor parocho, que j
no queria saber d'ella! S lamentava a desero de Joo Eduardo,
porque perdia assim um meio sempre prompto de fazer enraivecer o padre
Amaro...


Por isso n'essa tarde  janella, calada, olhando no telhado defronte
voarem os pardaes--depois de saber que Joo Eduardo, certo do emprego,
viera fallar emfim  mi,--pensava com satisfao no desespero do
parocho ao vr publicados na S os banhos do seu casamento. Depois as
palavras muito praticas da S. Joanneira trabalhavam-lhe silenciosamente
n'alma: o emprego do governo civil rendia 25$000 reis mensaes; casando,
reentrava logo na sua respeitabilidade de senhora; e se a mi morresse,
com o ordenado do homem e com o rendimento do Morenal, podia viver com
decencia, ir mesmo no vero aos banhos... E via-se j na Vieira, muito
comprimentada pelos cavalheiros, conhecendo talvez a do governador
civil.

--Que lhe parece, minha mi?--perguntou bruscamente. Estava decidida
pelas vantagens que entrevia; mas, com a sua natureza lassa, desejava
ser persuadida e forada.

--Eu ia pelo seguro, filha--foi a resposta da S. Joanneira.

-- sempre o melhor--murmurou Amelia entrando no quarto. E sentou-se
muito triste aos ps da cama, porque a melancolia que lhe dava o
crepusculo tornava-lhe agora mais pungente a saudade dos seus bons
tempos com o senhor parocho.

N'essa noite choveu muito, as duas senhoras passaram ss. A S.
Joanneira, repousada agora das suas inquietaes, estava muito
somnolenta, a cada momento cabeceava com a meia cahida no regao. Amelia
ento pousava a costura, e com o cotovlo sobre a mesa, fazendo girar o
_abat-jour_ verde do candieiro, pensava no seu casamento: o Joo Eduardo
era bom rapaz, coitado; realisava o typo de marido to estimado na
pequena burguezia--no era feio e tinha um emprego; decerto o
offerecimento da sua mo, apesar das infamias do jornal, no lhe
parecia, como a mi dissera, um rasgo de mo cheia; mas a sua
dedicao lisonjeava-a, depois do abandono to cobarde de Amaro: e havia
dois annos que o pobre Joo gostava d'ella... Comeou ento
laboriosamente a lembrar tudo o que n'elle lhe agradava--o seu ar srio,
os seus dentes muito brancos, a sua roupa aceada.

Fra ventava forte, e a chuva, fustigando friamente as vidraas,
dava-lhe appetites de confortos, um bom lume, o marido ao lado, o
pequerrucho a dormir no bero--porque seria um rapaz, chamar-se-hia
Carlos e teria os olhos negros do padre Amaro. O padre Amaro!... Depois
de casada, decerto, tornaria a encontrar o senhor padre Amaro... E ento
uma ida atravessou todo o seu sr, fl-a erguer bruscamente, ir por
instincto procurar a escurido da janella para occultar a vermelhido do
rosto. Oh! isso no, isso no! Era horrvel!... Mas a ida
implacavelmente apoderra-se d'ella como um brao muito forte que a
suffocava e lhe dava uma agonia deliciosa. E ento o antigo amor, que o
despeito e a necessidade tinham recalcado no fundo da_sua alma, rompeu,
inundou-a: murmurou repetidamente, com paixo, torcendo as mos, o nome
d'Amaro: desejou avidamente os seus beijos--oh! adorava-o! E tudo tinha
acabado, tudo tinha acabado! E devia casar, pobre d'ella!... Ento 
janella, com a face contra a escurido da noite, choramingou baixinho.

Ao ch a S. Joanneira disse-lhe, de repente:

-Pois a coisa a fazer-se, filha, devia ser j... Era comear o enxoval,
e se fosse possivel casar-te para o fim do mez.

Ella no respondeu--mas a sua imaginao alvoroou-se quellas palavras.
Casada d'ahi a um mez, ella! Apesar de Joo Eduardo lhe ser
indifferente, a ida d'aquelle rapaz, novo e apaixonado, que ia viver
com ella, dormir com ella, deu uma perturbao a todo o seu sr.

E quando a mi ia descer ao quarto disse-lhe:

--Que lhe parece, minha mi? Eu est-me a custar entrar em explicaes
com o Joo Eduardo, dizer-lhe que sim. O melhor era escrever-lhe...

--Tambem acho, filha, escreve-lhe... A _Rua_ leva a carta pela manh...
Uma carta bonita, e que agrade ao rapaz.

Amelia ficou na sala de jantar at tarde fazendo o rascunho da carta.
Dizia:


                                                Snr. Joo Eduardo,

A mam c me pz ao facto da conversao que teve comsigo. E se a sua
affeio  verdadeira, como creio e me tem dado muitas provas, eu estou
pelo que se decidiu com muito boa vontade, pois conhece os meus
sentimentos. E a respeito d'enxoval e papeis, manh se fallar, pois
que o esperamos para o ch. A mam est muito contente e eu desejo que
tudo seja para nossa felicidade, como espero ha de ser, com a ajuda de
Deus. A mam recommenda-se e eu sou

                                              a que muito lhe quer,

                                                _Amelia Caminha_.


Apenas fechou a carta, as folhas de papel branco espalhadas diante
d'ella deram-lhe o desejo d'escrever ao padre Amaro. Mas o qu?
Confessar-lhe o seu amor, com a mesma penna, molhada na mesma tinta, com
que aceitava por marido o _outro_?... Accusal-o da sua cobardia, mostrar
o seu desgosto--era humilhar-se! E, apesar de no ter motivo para lhe
escrever, a sua mo ia traando com gozo as primeiras palavras _Meu
adorado Amaro..._ Deteve-se, considerando que no tinha por quem mandar
a carta. Ai! tinham de separar-se assim, em silencio, para sempre!...
Separarem-se porqu?--pensou. Depois de casada podia bem vr o senhor
padre Amaro. E a mesma ida voltava, subtilmente, mas n'uma frma to
honesta agora, que a no repellia: decerto, o senhor padre Amaro podia
ser o seu confessor; era em toda a christandade a pessoa que melhor
guiaria a sua alma, a sua vontade, a sua consciencia; haveria ento
entre elles uma troca deliciosa e constante de confidencias, de dces
admoestaes; todos os sabbados iria receber ao confessionario, na luz
dos seus olhos e no som das suas palavras, uma proviso de felicidade; e
aquillo seria casto, muito picante, e para gloria de Deus.

Sentiu-se quasi satisfeita com a impresso, que no definia bem, d'uma
existencia em que a carne estaria legitimamente contente, e a sua alma
gozaria os encantos d'uma devoo amorosa. Tudo vinha a calhar bem, por
fim... E d'ahi a pouco dormia serenamente, sonhando que estava na _sua_
casa, com o _seu_ marido, e que jogava a manilha com as velhas amigas,
no meio do contentamento de toda a S, sentada nos joelhos do senhor
parocho.

Ao outro dia a _Rua_ levou a carta a Joo Eduardo, e toda a manh as
duas senhoras, costurando  janella, fallaram do casamento. Amelia no
se queria separar da mi, e, como a casa tinha accommodaes, os noivos
viveriam no primeiro andar, e a S. Joanneira dormiria no quarto em cima;
decerto o senhor conego ajudaria para o enxoval; podiam ir passar a lua
de mel para a fazenda da D. Maria. E Amelia quellas perspectivas
felizes fazia-se toda escarlate, sob o olhar da mi que, de luneta na
ponta do nariz, a admirava babosa.

s Ave-Marias a S. Joanneira fechou-se em baixo no seu quarto a rezar a
sua cora, e deixou Amelia s para se entender com o rapaz.--D'ahi a
pouco, com effeito, Joo Eduardo bateu  campainha. Vinha muito nervoso,
de luvas pretas, enfrascado em agua de colonia. Quando chegou  porta da
sala de jantar no havia luz, e a bonita frma d'Amelia destacava de p,
junto  claridade da vidraa. Elle pz o chale-manta a um canto como
costumava, e vindo para ella que ficra immovel, disse-lhe, esfregando
muito as mos:

--L recebi a cartinha, menina Amelia...

--Eu mandei-a pela _Rua_ logo pela manh para o pilhar em casa, disse
ella immediatamente com as faces a arder.

--Eu ia para o cartorio, at j ia na escada... Haviam de ser nove
horas...

--Haviam de ser... disse ella.

Calaram-se, muito perturbados. Elle ento tomou-lhe delicadamente os
pulsos, e baixo:

--Ento sempre quer?

--Quero, murmurou Amelia.

--E o mais depressa possivel, hein?

--Pois sim...

Elle suspirou, muito feliz.

--Havemos de nos dar muito bem, havemos de nos dar muito bem! dizia. E
as suas mos, com presses ternas, iam-se apoderando dos braos d'ella,
dos pulsos aos cotovlos.

--A mam diz que podemos viver juntos, disse ella, esforando-se por
fallar tranquillamente.

--Est claro, e eu vou mandar fazer lenoes, acudiu elle, todo alterado.

Attrahiu-a ento a si, subitamente, beijou-lhe os labios; ella teve um
soluosinho, abandonou-se-lhe entre os braos, toda fraca, toda
languida.

--Oh, filha! murmurava o escrevente.

Mas os sapatos da mi rangeram na escada, e Amelia foi vivamente para o
aparador accender o candieiro.

A S. Joanneira parou  porta; e para dar a sua primeira approvao
maternal, disse, com bonhomia:

--Ento vosss esto aqui s escuras, filhos?


Foi o conego Dias que participou ao padre Amaro o casamento d'Amelia,
uma manh, na S. Fallou no a proposito do enlace, e acrescentou:

--Eu estimo, porque  a contento da rapariga, e  um descanso para a
pobre velha...

--Est claro, est claro...--murmurou Amaro que se fizera muito branco.

O conego pigarreou grosso, e ajuntou:

--E voss agora apparea por l, agora est tudo na ordem... A patifaria
do jornal isso pertence  historia... O que l vai, l vai!

--Est claro, est claro...--rosnou Amaro. Traou bruscamente a capa,
sahiu da igreja.

Ia indignado; e continha-se, para no praguejar alto, pelas ruas. 
esquina da viella das Sousas quasi esbarrou com Natario, que o agarrou
logo pela manga, para lhe soprar ao ouvido:

--Ainda no sei nada!

--De qu?

--Do _liberal_, do _Communicado_. Mas trabalho, trabalho!

Amaro, que anciava por desabafar, disse logo:

--Ento ouviu a novidade? O casamento d'Amelia... Que lhe parece?

--Disse-me o animal do Libaninho. Diz que o rapaz apanhou o emprego...
Foi o doutor Godinho...  outro que tal!... Veja voss esta corja: o
doutor Godinho no jornal s bulhas com o governo civil, e o governo
civil a atirar postas aos afilhados do doutor Godinho... V l
entendel-os! Isto  um paiz de biltres!

--Diz que grande alegro na casa da S. Joanneira!--disse o parocho, com
um azedume negro.

--Que se divirtam! Eu no tenho tempo de l ir... Eu no tenho tempo
para nada!... Eu c ando no meu fito, saber quem  o _liberal_ e
escachal-o! No posso vr esta gente que leva a chicotada, coa-se, e
curva a orelha. Eu c no! eu guardo-as!--E, com uma contraco de
rancor que lhe curvou os dedos em garra e lhe encolheu o peito magro.
disse por entre os dentes cerrados:--Eu, quando odeio, odeio bem!

Esteve um momento calado, gozando o sabr do seu fel.

--Voss se fr  rua da Misericordia d l os parabens a essa
gente...--E acrescentou com os olhinhos em Amaro:--O palerma do
escrevente leva a rapariga mais bonita da cidade! Vai encher o papo!

--At  vista! exclamou bruscamente Amaro, abalando pela rua furioso.

Depois d'aquelle terrivel domingo em que apparecera o _Communicado_, o
padre Amaro, ao principio, muito egoistamente, apenas se preoccupra com
as consequncias--consequencias fataes, santo Deus!--que lhe podia
trazer o escandalo. Hein! se pela cidade se espalhasse que era elle o
_padre ajanotado_ que o _liberal_ apostrophava! Viveu dois dias
aterrado, tremendo de vr apparecer o padre Saldanha, com a sua cara
ameninada e voz melliflua, a dizer-lhe que sua excellencia o senhor
chantre reclamava a sua presena! Passava j o tempo preparando
explicaes, respostas habeis, lisonjas a sua excellencia.--Mas quando
viu que, apesar da violencia do artigo, sua excellencia parecia disposto
a fazer a vista grossa, occupou-se ento, mais tranquillo, dos
interesses do seu amor to violentamente perturbados. O medo tornava-o
astucioso; e decidiu no voltar algum tempo  rua da Misericordia.

--Deixar passar o aguaceiro, pensou.

Ao fim de quinze dias, tres semanas, quando o artigo estivesse
esquecido, appareceria de novo em casa da S. Joanneira: deixaria vr bem
 rapariga que a adorava sempre, mas evitaria a antiga familiaridade, as
conversasinhas baixas, os logarzinhos chegados ao quino; depois, pela D.
Maria da Assumpo, pela D. Josepha Dias, obteria que Amelia deixasse o
padre Silverio, e se confessasse a elle: poderiam ento entender-se, no
segredo do confessionario: combinariam uma conducta discreta, encontros
cautelosos aqui e alm, cartinhas pela criada: e aquelle amor assim
conduzido, com prudenciasinha, no teria o perigo de apparecer uma manh
annunciado no periodico! E regosijava-se j da habilidade d'esta
combinao, quando lhe vinha o grande choque--casava-se a rapariga!

Depois dos primeiros desesperos, desabafados em patadas no soalho e
blasphemias de que pedia logo perdo a Nosso Senhor Jesus Christo, quiz
serenar, estabelecer a razo das coisas. Aonde o levava aquella paixo?
Ao escandalo. E assim, casada ella, cada um entrava no seu destino
legitimo e sensato--ella na sua familia, elle na sua parochia. Depois,
quando se encontrassem, um comprimento amavel; e elle poderia passear a
cidade com a sua cabea bem direita, sem medo dos partes da Arcada, das
insinuaes da gazeta, das severidades de sua excellencia e das
picadinhas da consciencia! E a sua vida seria feliz.--No, por Deus! a
sua vida no poderia ser feliz sem ella! Tirado  sua existencia aquelle
interesse das visitas  rua da Misericordia, os apertosinhos de mo, a
esperana de delicias melhores--que lhe restava a elle? Vegetar, como um
dos tortolhos nos cantos humidos do adro da S! E ella, ella que o
entontecera com os seus olhinhos e as suas maneirinhas, voltava-lhe as
costas mal lhe apparecia outro, bom para marido, com 25$000 reis por
mez! Todos aquelles suspiros, aquellas mudanas de cr--chalaa! Mangra
com o senhor parocho!...

O que a odiava!--menos que o outro porm, o outro que triumphava porque
era um homem, tinha a sua liberdade, o seu cabello todo, o seu bigode,
um brao livre para lhe dar na rua! Repastava ento a imaginao
rancorosamente nas vises de felicidade do escrevente: via-o trazendo-a
da igreja triumphantemente; via-o beijando-lhe o pescoo e o peito... E
a estas idas dava patadas furiosas no soalho--que assustavam a Vicencia
na cozinha.

Depois procurava socegar, retomar a direco das suas faculdades,
applical-as todas a achar uma vingana, uma boa vingana! E voltava
ento o antigo desespero de no viver no tempo da inquisio, e com uma
denuncia de irreligio ou de feiticeria, mandal-os ambos para um
carcere. Ah! n'esse tempo um padre gozava! Mas agora, com os senhores
liberaes, tinha de vr aquelle miseravel escrevente a seis vintens por
dia apoderar-se-lhe da rapariga--e elle, sacerdote instruido, que podia
ser bispo, que podia ser Papa, tinha de vergar os hombros e ruminar
solitariamente o seu despeito! Ah! se as maldies de Deus tinham algum
valor--malditos fossem elles! Quereria vl-os cheios de filhos, sem po
na prateleira, com o ultimo cobertor empenhado, resequidos de fome,
injuriando-se,--e elle a rir-se, elle a regalar-se!...


Na segunda-feira no se conteve, foi  rua da Misericordia. A S.
Joanneira estava em baixo na saleta com o conego Dias. E apenas viu
Amaro:

--Oh, senhor parocho! bem apparecido! Estava a fallar em v. s.^a! J
estranhava no o vermos, agora que ha alegria em casa.

--J sei, j sei, murmurou Amaro pallido.

--Alguma vez havia de ser, disse o conego jovialmente. Deus os faa
felizes e lhes d poucos filhos, que a carne est cara.

Amaro sorriu--escutando em cima o piano.

Era Amelia que tocava como outr'ora a valsa dos _Dois Mundos_; e Joo
Eduardo, muito chegado a ella, voltava as folhas da musica.

--Quem entrou, _Rua_? gritou ella sentindo os passos da rapariga nas
escadas.

--O senhor padre Amaro.

Um fluxo de sangue abrazou-lhe o rosto--e o corao batia-lhe to forte,
que ficou um momento com os dedos immoveis sobre o teclado.

--No se precisava c do senhor padre Amaro, rosnou Joo Eduardo por
entre dentes.

Amelia mordeu o beio. Teve odio ao escrevente: n'um instante
repugnou-lhe a sua voz, os seus modos, a sua figura de p junto d'ella:
pensou com deleite como depois de casada (j que tinha de casar) se
confessaria toda ao padre Amaro, e no deixaria de o amar! No sentia
n'aquelle momento escrupulos; e quasi desejava que o escrevente lhe
visse no rosto a paixo que a revolvia.

--Credo, creatura! disse-lhe. Chegue-se um pouco mais para l, que nem
me deixa os braos livres para tocar!

Terminou bruscamente a valsa dos _Dois Mundos_, comeou a cantar o
_Adeus_:


Ai! adeus! acabaram-se os dias
Que ditosa vivi a teu lado!


A sua voz elevava-se, com uma modulao ardente,--dirigindo o canto,
atravs do soalho, ao corao do parocho, em baixo.

E o parocho, com a sua bengala entre os joelhos, sentado no canap,
devorava todos os tons da voz d'ella--emquanto a S. Joanneira
tagarellava, contando as peas de algodo que comprra para lenoes, os
arranjos que ia fazer no quarto dos noivos, e as vantagens de viverem
juntos...

--Uma felicidade por ahi alm, interrompeu o conego erguendo-se
pesadamente. E vamos l para cima, que isto de noivos no se querem
ss...

--Ah, l n'isso, disse a S. Joanneira rindo, fio-me n'elle, que  homem
de bem s direitas.

Amaro, ao subir a escada, tremia--e, mal entrou na sala, o rosto
d'Amelia, alumiado pelas luzes do piano, deu-lhe um deslumbramento, como
se as vesperas do noivado a tivessem embellezado e a separao lh'a
tornasse mais appetitosa. Foi dar-lhe gravemente um aperto de mo, outro
ao escrevente, disse baixo, sem os olhar:

--Os meus parabens... Os meus parabens...

Voltou as costas, e foi conversar com o conego que se enterrra na sua
poltrona queixando-se d'enfastiamento e reclamando o ch.

Amelia ficra como abstracta, correndo inconscientemente os dedos pelo
teclado. Aquelle modo do padre Amaro confirmava a sua ida: queria a
todo o custo descartar-se d'ella, o ingrato! fazia como se nada tivesse
havido, o villo! Na sua cobardia de padre, com o terror do senhor
chantre, do jornal, da Arcada, de tudo,--sacudia-a da sua imaginao, do
seu corao, da sua vida, como se sacode um insecto que tem peonha!...
Ento, para o enraivecer, comeou a cochichar ternamente com o
escrevente; roava-se-lhe pelo hombro, rendida, com risinhos,
segredinhos; tentaram, em alarido jovial, tocar uma pea a quatro mos;
depois ella beliscou-o, elle deu um gritinho exagerado.--E a S.
Joanneira contemplava-os babosa, emquanto o conego dormitava j, e o
padre Amaro, abandonado a um canto como outr'ora o escrevente, ia
folheando o velho album.

Mas um brusco repique da campainha veio sobresaltal-os todos: passos
rapidos galgaram a escada, pararam em baixo na saleta: e a _Rua_
appareceu dizendo que era o senhor padre Natario, que no desejava
subir, e queria dar uma palavra ao senhor conego.

--Fracas horas para embaixadas, rosnou o conego, arrancando-se com custo
ao fundo confortavel da poltrona.

Amelia fechou logo o piano--e a S. Joanneira pousando a meia foi em
bicos de ps escutar ao alto da escada: fra ventava forte, e para os
lados da Praa afastava-se o toque de retreta.

Emfim a voz do conego chamou, de baixo, da porta da saleta:

-- Amaro!

--Padre-Mestre?

--Venha c, homem. E diga  senhora que pde vir tambem.

A S. Joanneira desceu logo, muito assustada: Amaro imaginava que o padre
Natario emfim descobrira o _liberal_!

A saleta parecia muito fria com a luz pequenina da vela sobre a mesa: e
na parede, n'um velho painel muito escuro--que ultimamente o conego dera
 S. Joanneira--destacava uma face livida de monge e um osso frontal de
caveira.

O conego Dias accommodra-se ao canto do canap, sorvendo
reflectidamente a pitada; e Natario, que se agitava pela sala, exclamou
logo:

--Boas noites, senhora! Ol, Amaro! Trago novidades!... No quiz subir
porque imaginei que estaria o escrevente, e estas coisas so c para
ns. Estava a comear a dizer ao collega Dias... Tive l em casa o padre
Saldanha. Temol-as boas!

O padre Saldanha era o confidente do senhor chantre. E o padre Amaro, j
inquieto, perguntou:

--Coisa que nos toca?

Natario comeou com solemnidade erguendo alto o brao:

--_Primo_: o collega Brito mudado da freguezia d'Amor para ao p
d'Alcobaa, para a serra, para o inferno...

--Que me diz!? exclamou a S. Joanneira.

--Obras do _liberal_, minha senhora! O nosso digno chantre levou-lhe
tempo a meditar o _Communicado_ do _Districto_, mas por fim sahiu-se! O
pobre Brito l vai esfogueteado!...

--Sempre  o que se dizia da mulher do regedor... murmurou a boa
senhora.

--l! interrompeu severamente o conego. Ento, senhora, ento! Isto
aqui no  casa de murmurao!... Siga com o seu recado, collega
Natario.

--_Secundo_, continuou Natario:  o que eu ia dizer ao collega Dias... O
senhor chantre, em vista do _Communicado_ e d'outros ataques da
imprensa, est decidido a reformar os costumes do clero diocesano,
palavras do padre Saldanha. Que lhe desagradam summamente os
conciliabulos de ecclesiasticos e de senhoras... Que quer saber o que 
isso de sacerdotes ajanotados tentando meninas bonitas... Emfim,
palavras textuaes de sua excellencia--_est decidido a limpar as
cavalharias d'Augias_!...--o que quer dizer em bom portuguez, minha
senhora, que vai andar tudo n'uma roda-viva.

Houve uma pausa consternada. E Natario, plantado no meio da saleta com
as mos enterradas nas algibeiras, exclamou:

--Que lhes parece esta  ultima hora, hein?

O conego ergueu-se pachorrentamente:

--Olhe, collega, disse, entre mortos e feridos ha de escapar alguem... E
a senhora no se fique ahi com essa cara de _Mater-dolorosa_, e mande
servir o ch, que  o importante.

--Eu l disse ao padre Saldanha...--comeou Natario perorando.

Mas o conego interrompeu-o com fora:

--O padre Saldanha  um patarata!... Vamos ns s torradinhas, e l em
cima, diante dos rapazes, caluda.

O ch foi silencioso. O conego, a cada bocado de torrada, respirava
affrontado, franzia muito o sobr'olho; a S. Joanneira, depois de fallar
da D. Maria da Assumpo que estava mal do catarrho, ficou toda murcha,
com a testa sobre o punho; Natario, a grandes passadas, fazia uma
ventania na sala com as abas do casaco.

--E quando vem essa boda? exclamou elle, estacando subitamente diante
d'Amelia e do escrevente; que tomavam o ch sobre o piano.

--Um dia cedo, respondeu ella sorrindo.

Amaro ento ergueu-se devagar, e tirando o seu _cebolo_:

--So horas de me ir chegando  rua das Sousas, minhas senhoras, disse
com uma voz desalentada.

Mas a S. Joanneira no consentiu. Credo, estavam todos mnos como se
estivessem de pzames!... Que fizessem um quino para espairecer...--O
conego porm, sahindo do seu torpor, disse com severidade:

--Est a senhora muito enganada, ninguem est mno. No ha razes seno
para estar alegre. Pois no  verdade, senhor noivo?

Joo Eduardo mexeu-se, sorriu:

--Eu c por mim, senhor conego, no tenho razo seno para estar feliz.

--Pois est claro, disse o conego. E agora Deus lhes d boas noites a
todos, que eu vou _quinar_ para valle de lenoes. E o Amaro tambem.

Amaro foi apertar silenciosamente a mo d'Amelia,--e os tres padres
desceram calados.

Na saleta a vela ainda ardia com um murro. O conego entrou a buscar o
seu guardachuva; e ento, chamando os outros, cerrando devagarinho a
porta, disse-lhes baixo:

--Eu, collegas, no quiz assustar ha pouco a pobre senhora, mas essas
coisas do chantre, esses fallatorios...  o diabo!

-- ter cautelinha, meninos! aconselhou Natario, abafando a voz.

-- srio,  srio, murmurou lugubremente o padre Amaro.

Estavam de p no meio da saleta. Fra o vento uivava: a luz da vela
agitada fazia alternadamente destacar e reentrar na sombra do quadro o
osso frontal da caveira: e em cima Amelia cantarolava a _Chiquita_.

Amaro recordava outras noites felizes em que elle, triumphante e sem
cuidados, fazia rir as senhoras,--e Amelia, gorgeando _Ai chiquita que
si_, revirava-lhe olhares rendidos...

--Eu, disse o conego, os collegas sabem, tenho que comer e beber, no me
importa... Mas  necessario manter a honra da classe!

--E no carece duvida, acrescentou Natario, que se ha outro artigo e
mais fallatorios, estala com certeza o raio...

--Olha o pobre Brito, murmurou Amaro, esfogueteado para a serra!...

Em cima decerto houve alguma graa, porque sentiram as risadas do
escrevente.

Amaro rosnou com rancor:

--Grande galhofa, l em cima!...

Desceram. Ao abrir a porta uma rajada de vento bateu a face de Natario
d'uma chuva miudinha.

--Olha que noite! exclamou furioso.

S o conego tinha guardachuva; e abrindo-o devagar:

--Pois meninos, no ha que vr, estamos em calas pardas...

Da janella de cima, alumiada, sahiam os sons do piano, nos
acompanhamentos da _Chiquita_. O conego soprava, agarrando fortemente o
guardachuva contra o vento; ao lado Natario, cheio de fel, rilhava os
dentes, encolhido no seu casaco; Amaro caminhava de cabea cahida, n'um
abatimento de derrota; e emquanto os tres padres, assim agachados sob o
guardachuva do conego, iam chapinhando as poas pela rua tenebrosa, por
traz a chuva penetrante e sonora ia-os ironicamente fustigando!




XII


D'ahi a dias, os frequentadores da botica, na Praa, viram com espanto o
padre Natario e o doutor Godinho conversando em harmonia,  porta da
loja de ferragens do Guedes. O recebedor,--que era escutado com
deferencia em questes de politica estrangeira--observou-os com atteno
atravs da porta vidrada da pharmacia, e declarou com um tom profundo
que no se admiraria mais se visse Victor Manoel e Pio IX passearem de
brao dado!

O cirurgio da camara porm no estranhava aquelle commercio
d'amizade.--Segundo elle o ultimo artigo da _Voz do Districto_,
evidentemente escripto pelo doutor Godinho, (era o seu estylo incisivo,
cheio de logica, atulhado d'erudio!) mostrava que a gente da Maia se
queria ir aproximando da gente da Misericordia. O doutor Godinho (na
expresso do cirurgio da camara) fazia tagats ao governo civil e ao
clero diocesano: a ultima phrase do artigo era significativa--no
seremos ns que regatearemos ao clero os meios de exercer proficuamente
a sua divina misso!

A verdade era (como observou um individuo obeso, o amigo Pimenta) que,
se no havia ainda paz, j havia negociaes--porque na vespera elle
vira, com aquelles seus olhos que a terra tinha de comer, o padre
Natario sahindo de manh muito cedo da redaco da _Voz do Districto_!

--Oh, amigo Pimenta, essa  fabricada!

O amigo Pimenta ergueu-se com magestade, deu um puxo grave ao cs das
calas, e ia indignar-se--quando o recebedor acudiu:

--No, no, o amigo Pimenta tem razo. A verdade  que eu n'outro dia vi
o patife do Agostinho fazer grande barretada ao padre Natario. E que o
Natario traz intriga na mo, isso  seguro! Eu gsto d'observar as
pessoas... Pois senhores, o Natario, que nunca apparecia aqui na Arcada,
agora vejo-o sempre ahi com o nariz pelas lojas... Depois a grande
amizade com o padre Silverio... Ho de reparar que so ambos certos ahi
na Praa s Ave-Marias... E  negocio com a gente do doutor Godinho... O
padre Silverio  o confessor da mulher do Godinho... Umas coisas pegam
com as outras!

Era muito commentada, com effeito, a nova amizade do padre Natario com o
padre Silverio. Havia cinco annos tinha occorrido na sacristia da S,
entre os dois ecclesiasticos, uma questo escandalosa: Natario correra
at de guardachuva erguido para o padre Silverio, quando o bom conego
Sarmento, banhado em lagrimas, o reteve pela batina, gritando:--Oh,
collega, que  a perdio da religio! Desde ento Natario e Silverio
no fallavam--com desgosto de Silverio, um bonacheiro, d'uma obesidade
hydropica, que, segundo diziam as suas confessadas, era todo affeio e
perdo. Mas Natario, scco e pequeno, tinha tenacidade no rancor.
Quando o snr. chantre Valladares comeou a governar o bispado,
chamou-os, e, depois de lhes lembrar com eloquencia a necessidade de
manter a paz na Igreja, de lhes recordar o exemplo tocante de Castor e
Pollux, empurrou Natario com uma brandura grave para os braos do padre
Silverio--que o teve um momento sepultado na vastido do peito e do
estomago, murmurando todo commovido:

--Todos somos irmos, todos somos irmos!

Mas Natario, cuja natureza dura e grosseira nunca perdia, como o
papelo, as dobras que tomava, conservou com o padre Silverio um tom
amuado: na S ou na rua, resvalando junto d'elle com um geito brusco do
pescoo, rosnava apenas: _Senhor padre Silverio, s ordens!_

Havia porm duas semanas, uma tarde de chuva Natario fizera
repentinamente uma visita ao padre Silverio--sob pretexto que o pilhra
alli uma pancada d'agua, e que se vinha recolher um instante.

--E tambem, acrescentou, para lhe pedir a sua receita para a dr
d'ouvidos, que uma das minhas sobrinhas, coitada, est como doida,
collega!

O bom Silverio, esquecendo decerto que ainda n'essa manh vira as duas
sobrinhas de Natario ss e satisfeitas como dois pardaes, apressou-se a
escrever a receita, todo feliz de utilisar os seus queridos estudos de
medicina caseira; e murmurava, banhado de riso:

--Ora que alegria, collega, vl-o aqui de novo n'esta sua casa!

A reconciliao foi to publica--que o cunhado do senhor baro de
Via-Clara, bacharel de grandes dotes poeticos, lhe dedicou uma
d'aquellas satyras que elle intitulava _Ferres_, que iam manuscriptas
de casa em casa, muito saboreadas e muito temidas; e chamra a
composio, tendo presente decerto a figura dos dois sacerdotes: _Famosa
reconciliao do Macaco e da Baleia!_ Era com effeito frequente, agora,
vr a pequena figura de Natario gesticulando e saltitando ao lado do
vulto enorme e pachorrento do padre Silverio.

Uma manh mesmo os empregados da administrao (que era ento no largo
da S) gozaram muito, observando da sacada os dois padres que passeavam
no terrao, ao tepido sol de maio. O senhor administrador,--que passva
as horas da repartio namorando com um binoculo, por traz da vidraa do
seu gabinete, a esposa do Telles alfaiate--comera subitamente a dar
gargalhadas  janella: o escrivo Borges correu logo, de penna na mo, 
varanda, a vr de que ria sua senhoria, e, muito divertido, a fungar,
chamou  pressa o Arthur Couceiro que estava copiando, para estudar 
guitarra, uma cano da _Grinalda_: o amanuense Pires, severo e digno,
aproximou-se, carregando para a orelha o seu barretinho de sda, com
horror s correntes d'ar; e em grupo, d'olho arregalado, observavam os
dois padres, que tinham parado  esquina da igreja. Natario parecia
excitado: procurava decerto persuadir, abalar o padre Silverio; e em
bicos de ps, plantado diante d'elle, agitava phreneticamente as mos
muito magras. Depois, subitamente, apoderou-se-lhe do brao, arrastou-o
ao comprido do terrao lageado: ao fundo parou, recuou, fez um gesto
largo e desolado, como attestando a perdio possivel d'elle, da S ao
lado, da cidade, do universo em redor; o bom Silverio, com os olhos
muito abertos, parecia apavorado. E recomearam a passear. Mas Natario
exaltava-se: dava recues bruscos, atirava estocadas com um longo dedo
ao vasto estomago de Silverio, batia patadas furiosas nas lages polidas;
e de repente, de braos pendentes, mostrava-se acabrunhado. Ento o bom
Silverio fallou um momento com a mo espalmada sobre o peito;
immediatamente, a face biliosa de Natario illuminou-se; pulou, bateu no
hombro do collega palmadinhas de muito jubilo,--e os dois sacerdotes
entraram na S, chegados e rindo baixinho.

--Que patuscos! disse o escrivo Borges, que detestava sotainas.

--Aquillo tudo  a respeito do jornal, disse Arthur Couceiro, vindo
retomar o seu trabalho lyrico. O Natario no socega emquanto no souber
quem escreveu o _Communicado_; disse-o elle em casa da S. Joanneira... E
a coisa pelo Silverio vai bem, que  o confessor da mulher do Godinho.

--Corja! rosnou o Borges com nojo. E continuou pachorrentamente o
officio que compunha, remettendo para Alcobaa um preso--que ao fundo da
saleta, entre dois soldados, esperava sobre um banco, prostrado e
embrutecido, com uma face de fome e as mos em ferros.


D'ahi a dias tinha havido na S o Officio de corpo presente pelo rico
proprietario Moraes, que morrera d'um aneurisma, e a quem sua esposa (em
penitencia decerto dos desgostos que lhe dera com a sua affeio
desordenada por tenentes d'infanteria) estava fazendo, como se disse,
exequias de pessoa real.--Amaro desvestira-se, e na sacristia,  luz
d'um velho candieiro de lato, escrevia assentos atrazados, quando a
porta de carvalho rangeu, e a voz agitada de Natario disse:

-- Amaro, voss est ahi?

--Que temos?

O padre Natario fechou a porta, e atirando os braos para o ar:

--Grande novidade,  o escrevente!

--Que escrevente?

--O Joo Eduardo!  elle!  o _liberal_! Foi elle que escreveu o
_Communicado_!

--Que me diz voss!?--fez Amaro attonito.

--Tenho provas, meu amigo! Vi o original, escripto pela letra d'elle. O
que se chama _vr_! Cinco tiras de papel!

Amaro, com os olhos esgazeados, fitava Natario.

--Custou! exclamou Natario. Custou, mas soube-se tudo! Cinco tiras de
papel! E quer escrever outro! O senhor Joo Eduardo! O nosso rico amigo
senhor Joo Eduardo!

--Voss est certo d'isso?

--Se estou certo!... Estou a dizer-lhe que vi, homem!

--E como soube voss, Natario?

Natario dobrou-se; e com a cabea enterrada nos hombros, arrastando as
palavras:

--Ah, collega, l isso... Os _comos_ e os _porqus_... Voss
comprehende... _Sigillus magnus_!

E com uma voz aguda de triumpho, a largos passos pela sacristia:

--Mas ainda isto no  nada! O senhor Eduardo que ns viamos alli na
casa da S. Joanneira, to bom mocinho,  um patife antigo!  o intimo do
Agostinho, o bandido da _Voz do Districto_! Est mettido na redaco at
altas horas da noite... Uma orgia, vinhaa, mulheres... E gaba-se de ser
atheu... Ha seis annos que se no confessa... Chama-nos a _canalha
canonica_...  republicano... Uma fera, meu caro senhor, uma fera!

Amaro, escutando Natario, arrumava atarantadamente, com as mos
tremulas, papeis no gaveto da escrivaninha.

--E agora?... perguntou.

--Agora? exclamou Natario. Agora  esmagal-o!

Amaro fechou o gaveto, e muito nervoso, passando o leno pelos labios
seccos:

--Uma assim, uma assim! E a pobre rapariga, coitada... Casar agora com
um homem d'esses... Um perdido!

Os dois padres, ento, olharam-se fixamente. No silencio, o velho
relogio da sacristia punha o seu _tic-tac_ plangente. Natario tirou da
algibeira dos cales a caixa do rap, e com os olhos ainda fixos em
Amaro, a pitada nos dedos, disse sorrindo friamente:

--Desmanchar-lhe o casamentosinho, hein?

--Voss acha? perguntou sffregamente Amaro.

--Caro collega,  uma questo de consciencia... Para mim era uma questo
de dever! No se pde deixar casar a pobre pequena com um brjeiro, um
pedreiro-livre, um atheu...

--Com effeito! com effeito! murmurava Amaro.

--Vem a calhar, hein? fez Natario; e sorveu com gozo a pitada.

Mas o sacristo entrou; eram as horas de fechar a igreja; vinha
perguntar se suas senhorias se demoravam.

--Um instante, snr. Domingos.

E, emquanto o sacristo corria os pesados ferrolhos da porta interior do
pateo, os dois padres muito chegados fallavam baixo.

--Voss vai ter com a S. Joanneira, dizia Natario. No, escute,  melhor
que lhe falle o Dias; o Dias  que deve fallar  S. Joanneira. Vamos
pelo seguro. Voss falle  pequena e diga-lhe simplesmente que o ponha
fra de casa!--E ao ouvido de Amaro:--Diga  rapariga que elle vive ahi
de casa e pucarinho com uma desavergonhada!

--Homem! disse Amaro recuando, no sei se isso  verdade!

--Ha de ser. Elle  capaz de tudo. E depois  um meio de levar a
pequena...

E foram descendo a igreja atraz do sacristo, que fazia tilintar o seu
mlho de chaves, pigarreando grosso.

Nas capellas pendiam as armaes de paninho negro agaloadas de prata; ao
centro, entre quatro fortes tocheiras de grosso murro, estava a ea,
com o largo pano de velludilho cobrindo o caixo do Moraes, recahindo em
pregas franjadas;  cabeceira tinha uma larga cora de perpetuas; e aos
ps pendia, d'um grande lao de fita escarlate, o seu habito de
cavalleiro de Christo.

O padre Natario ento parou; e tomando o brao d'Amaro com satisfao:

--E depois, meu caro amigo, tenho outra preparada ao cavalheiro...

--O qu?

--Cortar-lhe os vveres!

--Cortar-lhe os vveres!?

--O pateta estava para ser empregado no governo civil, primeiro
amanuense, hein? Pois vou-lhe desmanchar o arranjinho!... E o Nunes
Ferral que  dos meus, homem de boas idas, vai pl-o fra do
cartorio... E que escreva ento _Communicados_!

Amaro teve horror quella intriga rancorosa:

--Deus me perde, Natario, mas isso  perder o rapaz...

--Emquanto o no vir por essas ruas a pedir um bocado de po, no o
largo, padre Amaro, no o largo!

--Oh, Natario! oh, collega! Isso  de pouca caridade... Isso no  de
christo... E ento aqui que Deus est a ouvil-o...

--No lhe d isso cuidado, meu caro amigo... Deus serve-se assim, no 
a resmungar Padre-nossos. Para impos no ha caridade! A inquisio
atacava-os pelo fogo, no me parece mau atacal-os pela fome. Tudo 
permittido a quem serve uma causa santa... Que se no mettesse commigo!

Iam a sahir; mas Natario deitou um olhar para o caixo do morto, e
apontando com o guarda-chuva:

--Quem est alli?

--O Moraes, disse Amaro.

--O gordo, picado das bexigas?

--Sim.

--Boa bsta!

E depois d'um silencio:

--Foram os Officios do Moraes... Eu nem dei por isso, occupado c na
minha campanha... E a viuva fica rica.  generosa,  presenteadora...
Quem a confessa  o Silverio, hein? Tem as melhores pechinchas de
Leiria, aquelle elephante!

Sahram. A botica do Carlos estava fechada, o co muito escuro.

No largo, Natario parou:

--Resumindo: o Dias falla  S. Joanneira, e voss falla  pequena. Eu
por mim me entenderei com a gente do governo civil e com o Nunes Ferral.
Encarreguem-se vosss do casamento, que eu me encarrego do emprego!--E
batendo no hombro do parocho jovialmente:-- o que se pde dizer
atacal-o pelo corao e pelo estomago! E adeusinho, que as pequenas
esto  espera para a ceia! Coitadita, a Rosa tem estado com um
defluxo!...  fraquita, aquella rapariga, d-me muito cuidado... Que eu
em a vendo murcha at perco logo o somno. Que quer voss? Quando se tem
bom corao...--At manh, Amaro.

--At manh, Natario.

E os dois padres separaram-se, quando davam nove horas na S.


Amaro entrou em casa ainda um pouco tremulo, mas muito decidido, muito
feliz: tinha um dever delicioso a cumprir! E dizia alto, com passos
graves pela casa, para se compenetrar bem d'essa responsabilidade
estimada:

-- do meu dever!  do meu dever!

Como christo, como parocho, como amigo da S. Joanneira o _seu dever_
era procurar Amelia, e, com simplicidade, sem paixo interessada,
contar-lhe que fra Joo Eduardo, o seu noivo, que escrevera o
_Communicado_.

Foi elle! Diffamou os ntimos da casa, sacerdotes de sciencia e de
posio; desacreditou-a a ella; passa as noites em deboche na possilga
do Agostinho; insulta o clero, baixamente; gaba-se de irreligio; ha
seis annos que se no confessa! Como diz o collega Natario,  uma fera!
Pobre menina! No, no podia casar com um homem que lhe impediria a
_vida perfeita_, lhe achincalharia as boas crenas! No a deixaria
rezar, nem jejuar, nem procurar no confessor a direco salutar, e, como
diz o santo padre Chrysostomo, amadureceria a sua alma para o inferno!
Elle no era seu pai, nem seu tutor; mas era parocho, era pastor:--e se
a no subtrahisse quelle destino heretico pelos seus conselhos graves,
pela influencia da mi e das amigas,--seria como aquelle que tem a
guarda d'um rebanho n'uma herdade, e abre indignamente a cancella ao
lobo! No, a Ameliasinha no havia de casar com o _atheu_!

E o seu corao ento batia forte sob a effuso d'aquella esperana.
No, o outro no a possuiria! Quando viesse a apoderar-se legalmente
d'aquella cinta, d'aquelles peitos, d'aquelles olhos, d'aquella
Ameliasinha,--elle, parocho, l estava para lhe dizer alto: _Para traz,
seu canalha! isto aqui  de Deus!_

E tomaria ento bem cuidado em guiar a pequena  salvao! Agora o
_Communicado_ estava esquecido, o senhor chantre tranquillisado: d'ahi a
dias poderia voltar sem susto  rua da Misericordia, recomear os
deliciosos seres--apoderar-se de novo d'aquella alma, formal-a para o
paraiso...

E aquillo, Jesus! no era uma intriga para a arrancar ao noivo: os seus
motivos (e dizia-o alto, para se convencer melhor) eram muito rectos,
muito puros: aquillo era um trabalho santo para a arrancar ao inferno:
elle no a queria para si, queria-a para Deus!... _Casualmente_, sim, os
seus interesses de amante coincidiam com os seus deveres de sacerdote.
Mas se ella fosse vesga e feia e tola, elle iria igualmente  rua da
Misericordia, em servio do co, desmascarar o snr. Joo Eduardo,
diffamador e atheu!

E, socegado por esta argumentao, deitou-se tranquillamente.

Mas toda a noite sonhou com Amelia. Tinha fugido com ella: e ia-a
levando por uma estrada que conduzia ao co! O diabo perseguia-o; elle
via-o, com as feies de Joo Eduardo, soprando e rasgando com os cornos
os delicados seios das nuvens. E elle escondia Amelia no seu capote de
padre, devorando-a por baixo de beijos! Mas a estrada do co no
findava.--Onde  a porta do paraiso? perguntava elle a anjos de
cabelleiras d'ouro que passavam, n'um dce rumor de azas, levando almas
nos braos. E todos lhe respondiam:--Na rua da Misericordia, na rua da
Misericordia numero nove! Amaro sentia-se perdido: um vasto ether cr
de leite, penetravel e macio como uma pennugem d'ave, envolvia-o, e elle
procurava debalde uma taboleta de hospedaria! Por vezes resvalava junto
d'elle um globo reluzente d'onde sahia o rumor d'uma creao; ou um
esquadro d'archanjos, com couraas de diamantes, erguendo alto espadas
de fogo, galopavam n'um rhythmo nobre...

Amelia tinha fome, tinha frio. Paciencia, paciencia, meu amor!
dizia-lhe elle. Caminhando, vieram a encontrar uma figura branca, que
tinha na mo uma palma verde. Onde est Deus, nosso pai? perguntou-lhe
Amaro, com Amelia conchegada ao peito. A figura disse:--Eu fui um
confessor, e sou um santo: os seculos passam, e immutavelmente,
sempiternamente sustento na mo esta palma e banha-me um extase igual!
Nenhuma tinta modifica esta luz para sempre branca; nenhuma sensao
sacode o meu sr para sempre immaculado; e immobilisado na
bemaventurana, sinto a monotonia do co pesar-me como uma capa de
bronze. Oh! pudesse eu caminhar a passos largos nas torpezas differentes
da terra--ou bracejar, sob as variedades da dr, nas chammas do
purgatorio!

Amaro murmurou: Bem fazemos ns em peccar!--Mas Amelia desfallecia
fatigada. Durmamos, meu amor! E, deitados, viam estrellas fluctuando
n'uma poeirada como o joio sacudido vivamente do crivo. Ento nuvens
comearam a dispr-se em torno d'elles, em pregas de cortinados, dando
um perfume de _sachets_; Amaro pousou a sua mo sobre o peito d'Amelia:
um enleio muito dce enervava-os: enlaaram-se, os seus labios
pegavam-se humidos e quentes:--Oh, Ameliasinha! murmurava
elle.--Amo-te, Amaro, amo-te! suspirava ella.--Mas de repente as
nuvens afastaram-se como os cortinados d'um leito; e Amaro viu diante o
diabo que os alcanara, e que, com as garras na cinta, esgaava a boca
n'uma risada muda. Com elle estava outro personagem: era velho como a
substancia; nos anneis dos seus cabellos vegetavam florestas; a sua
pupilla tinha a vastido azul d'um oceano; e nos dedos abertos, com que
cofiava a barba infindavel, caminhavam, como em estradas, filas de raas
humanas.--Aqui esto os dois sujeitos, dizia-lhe o diabo retorcendo a
cauda.--E por traz Amaro via agglomerarem-se legies de santos e de
santas. Reconheceu S. Sebastio com as suas settas cravadas; Santa
Cecilia trazendo na mo o seu orgo; por entre elles sentia balarem os
rebanhos de S. Joo; e no meio erguia-se o bom gigante S. Christovo
apoiado ao seu pinheiro. Espreitavam, cochichavam! Amaro no se podia
desenlaar de Amelia, que chorava muito baixo; os seus corpos estavam
sobrenaturalmente collados; e Amaro, afflicto, via que as saias d'ella
levantadas descobriam os seus joelhos brancos.--Aqui esto os dois
sujeitos, dizia o diabo ao velho personagem, e repare o meu prezado
amigo, porque todos aqui somos apreciadores, que a pequena tem bonitas
pernas! Santos vetustos alaram-se sfregamente em bicos de ps,
estendendo pescoos onde se viam cicatrizes de martyrios: e as onze mil
virgens bateram o vo como pombas espavoridas! Ento o personagem,
esfregando as mos d'onde se esfarelavam universos, disse grave: Fico
inteirado, meu caro amigo, fico inteirado! Com que, senhor parocho,
vai-se  rua da Misericordia, arruina-se a felicidade do snr. Joo
Eduardo (um cavalheiro), arranca-se a Ameliasinha  mam, e vem-se
saciar concupiscencias reprimidas a um cantinho da Eternidade? Eu estou
velho--est rouca esta voz que outr'ora to sabiamente discursava pelos
valles. Mas pensa que me assombra o senhor conde de Ribamar, seu
protector, apesar de ser um pilar da Igreja e uma columna da Ordem?
Phara era um grande rei--e eu afoguei-o, e os seus principes captivos,
os seus thesouros, os seus carros de guerra, e as manadas dos seus
escravos! Eu c sou assim! E se os senhores ecclesiasticos continuarem a
escandalisar Leiria--eu ainda sei queimar uma cidade como um papel
inutil, e ainda me resta agua para diluvios! E voltando-se para dois
anjos armados de espadas e lanas, o personagem bradou: Chumbem uma
grilheta aos ps do padre, e levem-no ao abysmo numero sete! E o diabo
gania: Ahi esto as consequencias, senhor padre Amaro! Elle sentiu-se
arrebatado de sobre o seio d'Amelia por mos de braza; e ia luctar,
bradar contra o juiz que o julgava--quando um sol prodigioso que vinha
nascendo do Oriente bateu no rosto do personagem, e Amaro, com um grito,
reconheceu o Padre Eterno!

Acordou banhado em suor. Um raio de sol entrava pela janella.


N'essa noite Joo Eduardo, indo da Praa para casa da S. Joanneira,
ficou assombrado, ao vr apparecer  outra boca da rua, do lado da S, o
Santissimo em procisso.

E vinha para casa das senhoras! Por entre as velhas de manto pela
cabea, as tochas faziam destacar opas de paninho escarlate; sob o
pallio os dourados da estola do parocho reluziam; uma campainha tocava
adiante, s vidraas appareciam luzes;--e na noite escura o sino da S
repicava, sem descontinuar.

Joo Eduardo correu aterrado--e soube logo que era a extrema-uno 
entrevada.

Tinham posto na escada um candieiro de petroleo sobre uma cadeira. Os
serventes encostaram  parede da rua os varaes do pallio, e o parocho
entrou. Joo Eduardo, muito nervoso, subiu tambem: ia pensando que a
morte da entrevada, o luto retardariam o seu casamento; contrariava-o a
presena do parocho e a influencia que elle adquiria n'aquelle momento;
e foi quasi quezilado que perguntou  _Rua_ na saleta:

--Ento como foi isto?

--Foi a pobre de Christo que esta tarde comeou a esmorecer, o senhor
doutor veio, diz que estava a acabar, e a senhora mandou pelos
sacramentos.

Joo Eduardo, ento, julgou delicado ir assistir  ceremonia.

O quarto da velha era junto  cozinha, e tinha n'aquelle momento uma
solemnidade lugubre.

Sobre uma mesa coberta de toalha de folhos, estava um prato com cinco
bolinhas de algodo entre duas velas de cera. A cabea da entrevada,
toda branca, a sua face cr de cera mal se distinguiam do linho do
travesseiro; tinha os olhos estupidamente dilatados; e ia apanhando
incessantemente com um gesto lento a dobra do lenol bordado.

A S. Joanneira e Amelia rezavam ajoelhadas  beira da cama: a snr.^a D.
Maria da Assumpo (que casualmente entrra, ao voltar da fazenda)
ficra  porta do quarto aterrada, agachada sobre os calcanhares,
murmurando Salve-Rainhas. Joo Eduardo, sem ruido, dobrou o joelho junto
d'ella.

O padre Amaro, curvado quasi ao ouvido da entrevada, exhortava-a a que
se abandonasse  Misericordia divina; mas, vendo que ella no
comprehendia, ajoelhou, recitou rapidamente o _Misereatur_; e no
silencio, a sua voz erguendo-se nas syllabas latinas mais agudas, dava
uma sensao de enterro que enternecia, fazia soluar as duas senhoras.
Depois ergueu-se, molhou o dedo nos santos oleos: murmurando as
expresses penitentes do ritual ungiu os olhos, o peito, a boca, as
mos--que ha dez annos s se moviam para chegar a escarradeira, e as
plantas dos ps que ha dez annos s se applicavam a buscar o calor da
botija. E depois de queimar as bolinhas de algodo humidas de oleo,
ajoelhou-se, ficou immovel, com os olhos postos no Breviario.

Joo Eduardo voltou em pontas de ps  sala, sentou-se no mocho do
piano: agora decerto, durante quatro ou cinco semanas. Amelia no
tornaria a tocar... E uma melancolia amolleceu-o, vendo no dce
progresso do seu amor aquella brusca interrupo da morte e dos seus
ceremoniaes.

A snr.^a D. Maria entrou ento, toda transtornada d'aquella scena--e
seguida d'Amelia que trazia os olhos muito vermelhos.

--Ah! ainda bem que aqui est, Joo Eduardo! disse logo a velha. Que
quero que me faa um favor, que  acompanhar-me a casa... Estou toda a
tremer... Estava desprevenida, e com perdo de Deus seja dito, no posso
ver gente na agonia... Que ella, coitadinha, vai-se como um
passarinho... E peccados no os tem... Olhe, vamos pela Praa que  mais
perto. E desculpe... Tu, filha, dispensa, mas no posso ficar...  que
me dava a dr... Ai, que desgosto!... Que para ella at  melhor... Pois
olhem, sinto-me a desfallecer...

Foi mesmo necessario que Amelia a levasse a baixo, ao quarto da S.
Joanneira, a reconfortal-a caridosamente com um calix de geropiga.

--Ameliasinha, disse ento Joo Eduardo, se eu sou c necessario para
alguma coisa...

--No, obrigada. Ella est por instantes, coitadinha.

--No te esqueas, filha, recommendou descendo a snr.^a D. Maria da
Assumpo, pe-lhe as duas velas bentas  cabeceira... Allivia muito na
agonia... E se tiver muitos arrancos, pe outras duas apagadas, em
cruz... Boas noites... Ai, que nem me sinto!

 porta, mal viu o pallio, os homens com as tochas, apoderou-se do brao
de Joo Eduardo, collou-se toda a elle com terror--um pouco tambem, com
o accesso de ternura que lhe dava sempre a geropiga.


Amaro promettera voltar mais tarde, para as acompanhar, como amigo,
n'aquelle transe. E o conego (que chegra, quando a procisso com o
pallio dobrava a esquina para o lado da S), informado d'esta delicadeza
do senhor parocho, declarou logo que visto que o collega Amaro vinha
fazer a noitada, elle ia descansar o corpo porque, Deus bem o sabia,
aquellas commoes arrazavam-lhe a saude.

--E a senhora no havia de querer que eu apanhasse alguma e me visse nos
mesmos assados...

--Credo, senhor conego! exclamou a S. Joanneira, nem diga isso!...--E
comeou a choramingar, muito abalada.

--Pois ento boas noites, disse o conego, e nada de affligir. Olhe, a
pobre creatura, alegria no a tinha: e como no tem peccados no lhe
importa achar-se na presena de Deus. Tudo bem considerado, senhora, 
uma pechincha! E adeusinho, que me no estou a sentir bem...

Tambem a S. Joanneira no se sentia bem. O choque, logo depois de
jantar, dera-lhe ameaas de enxaqueca:--e quando Amaro voltou, s onze,
Amelia que fra abrir a porta, disse-lhe, ao subir  sala de jantar:

--O senhor parocho desculpe... A mam veio-lhe a enxaqueca, coitada...
Estava que nem via... Deitou-se, pz agua sedativa e adormeceu...

--Ah! Deixal-a dormir!

Entraram no quarto da entrevada. Tinha a cabea virada para a parede;
dos seus beios abertos sahia um gemido muito debil e continuo. Sobre a
mesa agora, uma grossa vela benta, de murro negro, erguia uma luz
triste; e ao canto, transida de medo, a _Rua_, segundo as
recommendaes da S. Joanneira, ia rezando a cora.

--O senhor doutor, disse Amelia baixo, diz que morre sem o sentir... Diz
que ha de gemer, gemer, e de repente acabar como um passarinho...

--Seja feita a vontade de Deus, murmurou gravemente o padre Amaro.

Voltaram  sala de jantar. Toda a casa estava silenciosa: fra ventava
forte. Havia muitas semanas que no se encontravam assim ss. Muito
embaraado, Amaro aproximou-se da janella: Amelia encostou-se ao
aparador.

--Vamos ter uma noite d'agua, disse o parocho.

--E est frio, disse ella, encolhendo-se no chale. Eu tenho estado
passada de medo...

--Nunca viu morrer ninguem?

--Nunca.

Calaram-se--elle immovel ao p da janella, ella encostada ao aparador,
de olhos baixos.

--Pois est frio, disse Amaro, com a voz alterada da perturbao que lhe
ia dando a presena d'ella quella hora da noite.

--Na cozinha est a brazeira accsa, disse Amelia.  melhor irmos para
l.

-- melhor.

Foram. Amelia levou o candieiro de lato: e Amaro, indo remexer com as
tenazes o brazido vermelho, disse:

--Ha que tempo que eu no entro aqui na cozinha!... Ainda tem os vasos
com os raminhos fra da janella?

--Ainda, e um craveiro...

Sentaram-se em cadeirinhas baixas, ao lado da brazeira.--Amelia,
inclinada para o lume, sentia os olhos do padre Amaro devora-la
silenciosamente. Elle ia fallar-lhe, decerto! Tinha as mos a tremer;
no ousava mover-se, erguer as palpebras, com medo que lhe rompessem as
lagrimas; mas anciava pelas suas palavras, ou amargas ou dces...

Ellas vieram emfim, muito graves.

--Menina Amelia, disse, eu no esperava poder assim fallar-lhe a ss.
Mas as coisas arranjaram-se...  decerto a vontade de Nosso Senhor! E
depois, como as suas maneiras mudaram tanto...

Ella voltou-se bruscamente, toda escarlate, o beicinho tremulo:

--Mas bem sabe porqu! exclamou quasi chorando.

--Sei. Se no fosse aquelle infame _Communicado_, e as calumnias... nada
se tinha passado, e a nossa amizade seria a mesma, e tudo iria bem... 
justamente a esse respeito que eu lhe quero fallar.

Chegou a cadeira mais para junto d'ella, e muito suave, muito
tranquillo:

--Lembra-se d'esse artigo em que todos os amigos da casa eram
insultados? em que eu era arrastado pela rua da amargura? em que a
menina mesma, a sua honra era offendida?... Lembra-se, hein? Sabe quem o
escreveu?

--Quem? perguntou Amelia toda surprehendida.

--O snr. Joo Eduardo! disse o parocho muito tranquillamente, cruzando
os braos diante d'ella.

--No pde ser!

Tinha-se erguido. Amaro puxou-lhe devagarinho pelas saias para a fazer
sentar; e a sua voz continuou paciente e suave:

--Oua. Sente-se. Foi elle que o escreveu. Soube hontem tudo. O Natario
viu o original escripto pela letra d'elle. Foi elle que descobriu. Por
meios dignos decerto... e porque era a vontade de Deus que a verdade
apparecesse. Agora escute. A menina no conhece esse homem.--Ento,
baixo, contou-lhe o que sabia de Joo Eduardo, por Natario; as suas
noitadas com o Agostinho, as suas injurias contra os padres, a sua
irreligio...

--Pergunte-lhe se elle se confessa ha seis annos, e pea-lhe os bilhetes
da confisso!

Ella murmurava, com as mos cahidas no regao:

--Jesus... Jesus!...

--Eu ento entendi que como intimo da casa, como parocho, como christo,
como seu amigo, menina Amelia... porque acredite que lhe quero... emfim,
entendi que era o meu dever avisal-a! Se eu fosse seu irmo, dizia-lhe
simplesmente: Amelia, esse homem fra de casa! No o sou,
infelizmente. Mas venho, com dedicao d'alma, dizer-lhe: O homem com
quem quer casar surprehendeu a sua boa f e de sua mam; vem aqui, sim
senhor, com apparencias de bom moo, e no fundo ...

Ergueu-se, como ferido d'uma indignao irreprimivel:

--Menina Amelia,  o homem que escreveu esse _Communicado!_ que fez ir o
pobre Brito para a serra de Alcobaa! que me chamou a mim _seductor!_
que chamou devasso ao senhor conego Dias! _Devasso!_ Que lanou veneno
nas relaes de sua mam com o conego! e que a accusou  menina, em bom
portuguez, de se deixar seduzir! Diga, quer casar com esse homem?

Ella no respondeu, com os olhos cravados no lume, duas lagrimas mudas
sobre as faces.

Amaro deu passos irritados pela cozinha; e voltando ao p d'ella, com a
voz abrandada, gestos muito amigos:

--Mas supponhamos que no era elle o auctor do _Communicado_, que no
tinha insultado em letra redonda a sua mam, o senhor conego, os seus
amigos: resta ainda a sua impiedade! Veja que destino o seu se casasse
com elle! Ou teria de condescender com as opinies do homem, abandonar
as suas devoes, romper com os amigos de sua mi, no pr os ps na
igreja, dar escandalo a toda a gente honesta, ou teria de se pr em
opposio com elle, e a sua casa seria um inferno! Por tudo uma questo!
Por jejuar  sexta-feira, por ir  exposio do Santssimo, por cumprir
o domingo... Se se quizesse confessar, que desavenas! Um horror! E
sujeitar-se a ouvil-o escarnecer os mysterios da f! Ainda me lembro, na
primeira noite que aqui passei, com que desacato elle fallou da santa da
Arregassa!... E ainda me lembro uma noite que o padre Natario aqui
fallava dos soffrimentos do nosso santo padre Pio IX, que seria preso,
se os liberaes entrassem em Roma... Como elle tinha risinhos de
escarneo, como disse que eram exageraes!... Como se no fosse
perfeitamente certo que por vontade dos liberaes veriamos o chefe da
Igreja, o vigario de Christo, dormir n'um calabouo em cima d'umas
poucas de palhas! So as opinies d'elle, que elle aprega por toda a
parte! O padre Natario diz que elle e o Agostinho estavam no caf ao p
do Terreiro a dizer que o baptismo era um abuso, porque cada um devia
escolher a religio que quizesse, e no ser forado, de pequeno, a ser
christo! Hein, que lhe parece? Como seu amigo lh'o digo... Para bem de
sua alma antes a queria vr morta do que ligada a esse homem! Case com
elle, e perde para sempre a graa de Deus!

Amelia levou as mos s fontes, e deixando-se cahir para as costas da
cadeira, murmurou, muito desgraada:

--Oh, meu Deus, meu Deus!

Amaro ento sentou-se ao p d'ella, tocando-lhe quasi o vestido com o
joelho, pondo na voz uma bondade paternal:

--E depois, minha filha, pensa que um homem assim pde ter bom corao,
apreciar a sua virtude, querer-lhe como um marido christo? Quem no tem
religio no tem moral. Quem no cr no ama, diz um dos nossos santos
padres. Depois de lhe passar o fogacho da paixo, comearia a ser duro
comsigo, mal humorado, voltaria a frequentar o Agostinho e as mulheres
da vida, e maltrata-la-hia talvez... E que susto constante para si! Quem
no respeita a religio no tem escrupulos: mente, rouba, calumnia...
Veja o _Communicado_. Vir aqui apertar a mo ao senhor conego, e ir para
o jornal chamar-lhe devasso! Que remorsos no sentiria a menina, mais
tarde,  hora da morte!  muito bom emquanto se tem saude e se  nova;
mas quando chegasse a sua ultima hora, quando se achasse, como aquella
pobre creatura que est alli, nos ultimos arrancos, que terror no
sentiria de ter de apparecer diante de Jesus Christo, depois de ter
vivido em peccado ao lado d'esse homem! Quem sabe se elle no recusaria
que lhe dessem a extrema-uno! Morrer sem sacramentos, morrer como um
animal!...

--Pelo amor de Deus! Pelo amor de Deus, senhor parocho! exclamou Amelia
rompendo n'um chro nervoso.

--No chore, disse elle tomando-lhe suavemente a mo entre as suas,
muito tremulas. Escute, abra-se commigo... V, esteja socegada, tudo se
remedeia. No ha banhos publicados... Diga-lhe que no quer casar, que
sabe tudo, que o odeia...

Esfregava, apertava devagarinho a mo d'Amelia. E subitamente, com voz
d'um ardor brusco:

--No se importa com elle, no  verdade?

Ella respondeu muito baixo, com a cabea cahida sobre o peito:

--No.

--Ento, ahi tem! fez excitado. E diga-me, gosta d'outro?

Ella no respondeu, com o peito a arfar fortemente, os olhos dilatados
para o lume.

--Gosta? diga, diga!

Passou-lhe o brao sobre o hombro, attrahindo-a dcemente. Ella tinha as
mos abandonadas no regao; sem se mover voltou devagar para elle os
olhos resplandecentes sob uma nevoa de lagrimas, e entreabriu devagar os
labios, pallida, toda desfallecida. Elle estendeu os beios a tremer--e
ficaram immoveis, collados n'um s beijo, muito longo, profundo, os
dentes contra os dentes.

--Minha senhora! minha senhora! gritou de repente, n'um terror, a voz da
_Rua_, dentro.

Amaro ergueu-se d'um salto, correu ao quarto da entrevada. Amelia estava
to tremula, que precisou encostar-se  porta da cozinha um momento, com
as pernas vergadas, a mo sobre o corao. Recuperou-se, desceu a
acordar a me.

Quando entraram no quarto da idiota, Amaro ajoelhado, com a face quasi
sobre o leito, rezava: as duas senhoras rojaram-se no cho; uma
respirao accelerada sacudia o peito, as ilhargas da velha; e  medida
que o arquejo se tornava mais rouco, o parocho precipitava as suas
oraes. Subitamente o som agonisante cessou: ergueram-se: a velha
estava immovel, com os bugalhos dos olhos sahidos e baos. Expirra.

O padre Amaro trouxe logo as senhoras para a sala;--e ahi a S.
Joanneira, curada, pelo choque, da sua enxaqueca, desabafou, em accessos
de chro, recordando o tempo em que a pobre mana era nova, e que bonita
era! e que bom casamento estivera para fazer com o morgado da
Vigareira!...

--E o genio mais dado, senhor parocho! Uma santa! E quando a Amelia
nasceu, e que eu estive to mal, que no se tirou de ao p de mim, noite
e dia!... E alegre, no havia outra... Ai, Deus da minha alma, Deus da
minha alma!

Amelia, encostada  vidraa na sombra da janella, olhava entorpecida a
noite negra.

Bateram ento  campainha. Amaro desceu, com uma vela. Era Joo Eduardo,
que ao vr o parocho quella hora na casa,--ficou petrificado, junto da
porta aberta; emfim balbuciou:

--Eu vinha saber se havia novidade...

--A pobre senhora expirou agora mesmo...

--Ah!

Os dois homens olharam-se um instante fixamente.

--Se eu sou preciso para alguma coisa... disse Joo Eduardo.

--No, obrigado. As senhoras vo-se deitar.

Joo Eduardo fez-se pallido da colra que lhe davam aquelles modos de
dono da casa. Esteve ainda um momento, hesitando--mas vendo o parocho
abrigar a luz, com a mo, contra o vento da rua:

--Bem, boa noite, disse.

--Boa noite.

O padre Amaro subiu:--e depois de deixar as duas senhoras no quarto da
S. Joanneira (porque, cheias de terror, queriam dormir juntas), voltou
ao quarto da morta, despertou a vela sobre a mesa, accommodou-se n'uma
cadeira, e comeou a lr o Breviario.

Mais tarde, quando toda a casa estava silenciosa, o parocho, sentindo o
somno entorpecel-o, veio  sala de jantar; reconfortou-se com um calix
de vinho do Porto que achra no aparador; e saboreava regaladamente o
cigarro, quando ouviu na rua passos de botas fortes que iam, vinham, por
baixo das janellas. Como a noite estava escura no pde distinguir o
passeante.--Era Joo Eduardo que rondava a casa, furioso.




XIII


Ao outro dia cedo, a snr.^a D. Josepha Dias que entrra, havia pouco, da
missa, ficou muito surprehendida, ouvindo a criada que lavava as escadas
dizer de baixo:

--Est aqui o senhor padre Amaro, snr.^a D. Josepha!

O parocho ultimamente raras vezes vinha a casa do conego; e D. Josepha
gritou logo lisonjeada e j curiosa:

--Que suba para aqui, no  de ceremonia!  como de familia. Que suba!

Estava na sala de jantar, arranjando n'uma travessa ladrilhos de
marmelada, com um vestido de hareje preto esgaado na ilharga e arqueado
em redor dos tornozelos por uma _crinoline_ d'um s arco; trazia n'essa
manh oculos azues; e foi logo ao patamar, arrastando os seus medonhos
chinelos d'ourlo, e preparando, por debaixo do leno preto repuxado
sobre a testa, um ar agradavel para o senhor parocho.

--Ora ditosos olhos! exclamou. Eu entrei ha bocadinho, e j c tenho a
primeira missinha. Fui hoje  capella de Nossa Senhora do Rosario...
Disse-a o padre Vicente. Ai! e que virtude que me fez hoje, senhor
parocho! Sente-se. Ahi no, que lhe vem ar da porta... E ento a pobre
entrevada l se foi... Conte l, senhor parocho...

O parocho teve de descrever a agonia da entrevada, a dr da S.
Joanneira; como depois de morta a face da velha parecera remoar; o que
as senhoras tinham decidido a respeito da mortalha...

--Aqui para ns, D. Josepha,  um grande allivio para a S.
Joanneira...--E de repente, puxando-se para a beira da cadeira,
assentando as mos nos joelhos:--E que me diz  do senhor Joo Eduardo?
J sabe? Foi elle que escreveu o artigo!

A velha exclamou, levando as mos  cabea:

--Ai! nem me falle n'isso, senhor parocho! Nem me falle n'isso, que at
tenho estado doente!

--Ah, j sabe?

--E mais que sei, senhor parocho! O senhor padre Natario, devo-lhe esse
favor, esteve aqui hontem e contou-me tudo! Ai, que maroto! Ai, que alma
perdida!

--E sabe que  o intimo do Agostinho, que so bebedeiras na redaco at
de madrugada, que vai para o bilhar do Terreiro achincalhar a
religio...

--Ai, por quem , senhor parocho, nem me diga, nem me diga! Que hontem,
quando o senhor padre Natario esteve ahi, at tive escrupulos d'ouvir
tanto peccado... Que lhe devo esse favor, ao senhor padre Natario, logo
que soube veio-me contar...  de muito delicado... E olhe, senhor
parocho, a mim sempre me quiz parecer isso mesmo do homem. Eu nunca o
disse, nunca o disse! Que l isso, esta boquinha nunca se pz em vidas
alheias... Mas tinha c dentro um palpite. Elle ia  missa, cumpria o
jejum; mas eu c tinha a desconfiana que aquillo era para enganar a S.
Joanneira e a pequena. Agora se v! Eu foi creatura que nunca me cahiu
em graa! Nunca, senhor parocho!--E de repente, com os olhinhos luzidios
d'uma alegria perversa:--E agora, j se sabe, o casamento desmancha-se?

O padre Amaro recostou-se na cadeira, e muito pausadamente:

--Elle, minha senhora, seria notorio que uma rapariga de bons principios
fosse casar com um pedreiro-livre, que no se confessa ha seis annos!

--Credo, senhor parocho! antes vl-a morta!  necessario dizer tudo 
rapariga...

O padre Amaro interrompeu, chegando rapidamente a cadeira para ao p
d'ella:

--Pois foi justamente para isso que eu a vim procurar, minha senhora. Eu
hontem j fallei com a pequena... Mas comprehende, no meio d'aquelle
desgosto, com a pobre senhora a expirar ao lado, no pude insistir
muito. Emfim disse-lhe o que havia, aconselhei-a por bons modos,
expuz-lhe que ia perder a sua alma, ter uma vida desgraada, etc. Fiz o
que pude, minha senhora, como amigo e como parocho. E como era o meu
dever (ainda que me custou, realmente custou-me), lembrei-lhe que, como
christ e como senhora, tinha obrigao de romper com o escrevente.

--E ella?

O padre Amaro fez uma visagem descontente:

--No disse que _sim_ nem que _no_. Pz-se a fazer biquinho, a
choramingar.  verdade que estava muito alterada com a morte em casa.
Que a rapariga no morre por elle, isso  claro; mas quer casar, tem
medo que a mi morra, que se veja s... Emfim sabe o que so raparigas!
Que as minhas palavras fizeram-lhe effeito, ficou muito indignada,
etc... Mas emfim, eu pensei que o melhor era a senhora fallar-lhe. A
senhora  a amiga da casa,  madrinha, conheceu-a de pequena... Estou
certo que no seu testamento havia de lhe deixar uma boa lembrana...
Tudo isto so consideraes...

--Ai, fica por minha conta, senhor parocho! exclamou a velha; hei de
lh'as cantar!...

--A rapariga o que precisa  quem a dirija. Aqui para ns, precisa quem
a confesse! Ella confessa-se ao padre Silverio; mas, sem querer dizer
mal, o padre Silverio, coitado, pouco vale. Muito caridoso, muita
virtude; mas o que se chama _geito_ no tem. Para elle a confisso  a
_desobriga_. Pergunta doutrina, depois faz o exame pelos mandamentos da
lei de Deus... Veja a senhora!... Est claro que a rapariga no furta,
nem mata, nem deseja a mulher do seu proximo! A confisso assim no lhe
aproveita: o que ella precisa  um confessor _tso_, que lhe diga--_para
alli!_ e sem rplica. A rapariga  um espirito fraco; como a maior parte
das mulheres no se sabe dirigir por si; necessita por isso um confessor
que a governe com uma vara de ferro, a quem ella obedea, a quem conte
tudo, de quem tenha medo...  como deve ser um confessor.

--O senhor parocho  que lhe servia...

Amaro sorriu modestamente:

--No digo que no. Havia de aconselhal-a bem; sou amigo da mi, acho
que ella  boa rapariga e digna da graa de Deus. Que eu, sempre que
converso com ella, todos os conselhos que posso, em tudo, dou-lh'os...
Mas a senhora comprehende, ha coisas em que se no pde estar a fallar
na sala, com gente  volta... S se est  vontade no confessionario. E
 o que me falta, so as occasies de lhe fallar s. Mas emfim eu no
posso ir dizer-lhe: a menina agora ha de se confessar commigo! Eu
n'isso sou muito escrupuloso...

--Mas digo-lh'o eu, senhor parocho! Ah, digo-lh'o eu!...

--Ora isso  que era um grande favor! Era um bem que fazia quella alma!
Porque se a rapariga me entrega a direco da sua alma, ento podemos
dizer que lhe acabaram as difficuldades, e temol-a no caminho da
graa... E quando lhe vai fallar, D. Josepha?

D. Josepha, como julgava peccado adiar, estava decidida a fallar-lhe
essa mesma noite.

--No me parece, D. Josepha. Hoje  noite de pezames... O escrevente
naturalmente est l...

--Credo, senhor parocho! Pois eu e as outras pequenas havemos de passar
a noite debaixo das mesmas telhas com o hereje?

--Tem de ser. Emfim o rapaz por ora  considerado da familia... Alm
d'isso, D. Josepha, a senhora, a D. Maria e as Gansosinhos so pessoas
da maior virtude... Mas ns no devemos ter orgulho da nossa virtude.
Arriscamo-nos a perder-lhe todos os fructos. E  um acto de humildade,
que agrada muito a Deus, o misturar-nos s vezes com os maus;  como
quando um grande fidalgo tem de estar lado a lado com um trabalhador
d'enxada...  como se dissessemos: eu sou-te superior em virtude, mas
comparado com o que devia ser para entrar na gloria, quem sabe se no
sou to peccador como tu!... E esta humilhao da alma  a melhor
offerta que podemos fazer a Jesus.

D. Josepha escutava-o, babosa; e n'uma admirao:

--Ai, senhor parocho, que at d virtude ouvil-o!

Amaro curvou-se:

--Deus s vezes, na sua bondade, inspira-me justas palavras... Pois
minha senhora, eu no quero massar mais. Ficamos entendidos. A senhora
falla  pequena manh; e se, como  de crr, ella consentir em escutar
os meus conselhos, traz-m'a  S no sabbado, s oito horas. E falle-lhe
tso, D. Josepha!

--Deixe-a commigo, senhor parocho!... Ento no quer provar da minha
marmelada?

--Provarei, disse Amaro tomando um ladrilho em que cravou os dentes com
dignidade.

-- dos marmelos da D. Maria. Sahiu-me melhor que a das Gangosinhos...

--Pois adeus, D. Josepha... Ah,  verdade, que diz o nosso conego d'este
caso do escrevente?

--O mano?...

N'este momento a campainha em baixo repicou com furor.

--Ha de ser elle, disse logo D. Josepha. E vem zangado!

Vinha, com effeito, da fazenda--furioso com o caseiro, o regedor, o
governo e a perversidade dos homens. Tinham-lhe roubado uma poro de
cebolinho; e, abafado de clera, alliviava-se repetindo com gozo o nome
do Inimigo.

--Credo, mano, que at lhe fica mal!--exclamou D. Josepha tomada
d'escrupulos.

--Ora mana, deixemos essas pieguices para a quaresma! Digo _co'os
diabos!_ e repito _co'os diabos_! Mas eu l disse ao caseiro, que se
sentir gente na fazenda, carregue a espingarda e faa fogo!

--Ha uma falta de respeito pela propriedade... disse Amaro.

--Ha uma falta de respeito por tudo! exclamou o conego. Um cebolinho que
dava saude s olhar para elle! Pois senhores, l vai! Isto  o que eu
chamo um sacrilegio!... Um desaforado sacrilegio!--acrescentou
convictamente; porque o roubo do seu cebolinho, o cebolinho d'um conego,
parecia-lhe um acto to negro d'impiedade como se tivessem sido furtados
os vasos santos da S.

--Falta de temor a Deus, falta de religio, observou D. Josepha.

--Qual falta de religio! replicou o conego exasperado. Falta de cabos
de policia,  o que !--E voltando-se para Amaro:--Hoje  o enterro da
velha, hein? Inda mais essa! V, mana, mande-me l dentro uma volta
lavada e os sapatos de fivela!

O padre Amaro ento, retomado pela sua preoccupao:

--Estavamos c a fallar do caso do Joo Eduardo: o _Communicado_!

--Isso  outra maroteira que tal! fez logo o conego. Vejam essa, tambem!
Que quadrilha vai pelo mundo, que quadrilha!--E ficou de braos
cruzados, com os olhos arregalados, como contemplando uma legio de
monstros, soltos pelo universo, e arremessando-se com impudencia contra
as reputaes, os principios da Igreja, a honra das familias e o
cebolinho do clero.

Ao sahir, o padre Amaro renovou ainda as suas recommendaes a D.
Josepha, que o acompanhra ao patamar:

--Ento hoje, noite de pezames, no se faz nada. manh falla 
rapariga, e l para o fim da semana leva-m'a  S. Bem. E convena a
rapariga, D. Josepha, trate de salvar aquella alma! Olhe que Deus tem os
olhos em si. Falle-lhe tso, falle-lhe tso!... E o nosso conego que se
entenda com a S. Joanneira.

--Pde ir descansado, senhor parocho. Sou madrinha, e, quer ella queira
quer no, hei de pl-a no caminho da salvao...

--Amen, disse o padre Amaro.

N'essa noite, com effeito, D. Josepha no fez nada. Eram os pezames na
rua da Misericordia. Estavam em baixo, na saleta, alumiada lugubremente
por uma s vela com um _abat-jour_ verde-escuro. A S. Joanneira e
Amelia, de luto, occupavam tristemente o canap ao centro; e em redor,
nas fileiras de cadeiras apoiadas  parede, as amigas, cobertas de negro
pesado, conservavam-se funebremente immoveis, de faces contristadas,
n'um torpr mudo: s vezes duas vozes ciciavam, ou d'um canto, na
sombra, sahia um suspiro: depois o Libaninho, ou Arthur Couceiro, ia em
bicos de ps espevitar o murro da vla: a snr.^a D. Maria da Assumpo
expectorava o seu catarrho com um som choroso: e no silencio ouviam
tamancos bater o lagedo da rua, ou os quartos d'hora no relogio da
Misericordia.

A intervallos a _Rua_, toda de negro, entrava com o taboleiro de dces
e copos de chasada; levantava-se ento o _abat-jour_; e as velhas, que
j iam cerrando as palpebras, sentindo a sala mais clara, levavam logo
os lenos aos olhos, e, com ais, serviam-se de bolinhos da Encarnao.

Joo Eduardo l estava, a um canto, ignorado, ao p da Gansoso surda que
dormia com a boca aberta: toda a noite o seu olhar procurara debalde o
olhar d'Amelia, que no se movia, com o rosto sobre o peito, as mos no
regao, torcendo e destorcendo o seu leno de cambraiela. O padre Amaro
e o conego Dias vieram s nove horas: o parocho com passos graves foi
dizer  S. Joanneira:

--Minha senhora, o golpe  grande. Mas consolemo-nos, pensando que sua
excellentissima mana est a esta hora gozando a companhia de Jesus
Christo.

Houve em redor uma murmurao de soluos; e como no restavam cadeiras,
os dois ecclesiasticos sentaram-se aos dois cantos do canap, tendo no
meio a S. Joanneira e Amelia em lagrimas. Eram assim reconhecidos
pessoas de familia; a snr.^a D. Maria da Assumpo notou baixinho a D.
Joaquina Gansoso:

--Ai, at d gosto vl-os assim todos quatro!

E at s dez horas a noite de pezames continuou soturna e somnolenta,
perturbada apenas pela tosse constante de Joo Eduardo que estava
constipado, e que--na opinio da snr.^a D. Josepha Dias que o disse a
todos, depois--tossia s para fazer troa e para achincalhar o respeito
aos mortos.


D'ahi a dois dias, s oito horas da manh, a snr.^a D. Josepha Dias e
Amelia entraram na S--depois de terem fallado no terrao  Amparo,
mulher do boticario, que tinha uma criana com sarampo, e, apesar de no
ser coisa de cuidado, viera  cautela fazer uma promessa.

O dia estava ennevoado, a igreja tinha uma luz parda. Amelia, pallida
sob a sua mantilha de renda, parou defronte do altar de Nossa Senhora
das Dres, deixou-se cahir de joelhos, e ficou immovel, com o rosto
sobre o livro de missa. A snr.^a D. Josepha Dias, com passos ffos,
depois de se ter prostrado diante da capella do Santssimo e do
altar-mr, foi empurrar devagarinho a porta da sacristia: o padre Amaro
l passeava, com os hombros vergados, as mos atraz das costas:

--Ento? perguntou logo, erguendo para D. Josepha a sua face muito
barbeada, onde os olhos reluziam inquietos.

--Est alli, disse a velha baixinho, n'uma expresso de triumpho. Fui eu
mesmo buscal-a! Ai, fallei-lhe tso, senhor parocho, no lh'as poupei!
Agora  comsigo!

--Obrigado, obrigado, D. Josepha! disse o padre, apertando-lhe as mos
ambas com fora. Deus ha de lh'o levar em conta.

Olhou em redor, nervoso; apalpou-se para sentir o leno, a carteira dos
papeis; e, cerrando devagarinho a porta da sacristia, desceu  igreja.
Amelia ainda estava ajoelhada, fazendo um vulto negro immovel contra o
pilar branco.

--Pst, fez-lhe D. Josepha.

Ella ergueu-se devagar, muito escarlate, compondo tremulamente com as
mos as pregas da mantilha em roda do pescoo.

--Aqui lh'a deixo, senhor parocho, disse a velha. Vou  Amparo da
botica, e venho depois por ella... Ora vai, filha, vai, Deus t'alumie
essa alma!

E sahiu, com mesuras a todos os altares.

O Carlos da botica--que era inquilino do conego e um pouco ronceiro na
renda--desbarretou-se com espalhafato apenas D. Josepha appareceu 
porta, e conduziu-a logo acima,  sala de cortinas de cassa, onde a
Amparo costurava  janella.

--Ai, no se prenda, snr. Carlos, dizia-lhe a velha. No largue os seus
afazeres. Eu deixei a afilhada na S, e venho aqui descansar um
bocadinho.

--Ento, se me d licena... E como vai o nosso conego?

--No tornou a ter a dr. Mas tem soffrido de tonturas.

--Comeos da primavera, disse o Carlos que retomra o seu ar magestoso,
de p no meio da sala, com os dedos nas aberturas do collete. Tambem eu
me tenho sentido perturbado... Ns, as pessoas sanguneas, soffremos
sempre d'isto que se pde chamar o renascimento da seiva... Ha uma
abundancia d'humores no sangue, que, no sendo eliminados pelos canaes
proprios, vo, por assim dizer, abrir caminho, aqui e alm, pelo corpo,
sob a frma de furunculo, espinha, nascida, s vezes em logares bem
incommodos, e, ainda que em si insignificantes, acompanhados sempre, por
assim dizer, d'um cortejo... Perdo, sinto o praticante a palrar... Se
me d licena... Respeitos ao nosso conego. Que use a magnesia de James!

D. Josepha ento quiz vr a menina com o sarampo. Mas no passou da
porta do quarto, recommendando  pequena, que arregalava uns olhos de
febre, muito abafada na roupa, no se descuidasse das suas oraesinhas
de manh e  noite. Aconselhou  Amparo alguns remedios, que eram
milagrosos no sarampo; mas se a promessa fra feita com f, a menina
podia-se considerar curada... Ai, todos os dias dava graas a Deus de se
no ter casado! Que filhos eram s para trabalho e canceiras; e com as
quezilias que traziam e o tempo que tomavam, eram at causa d'uma mulher
se descuidar das suas praticas e metter a alma no inferno...

--Tem razo, D. Josepha, disse a Amparo,  um castigo... E eu com cinco!
s vezes fazem-me to doida, que me sento aqui na cadeirinha, e ponho-me
a chorar s commigo...

Tinham voltado para junto da janella, e gozaram muito, espreitando o
senhor administrador do concelho, que, por traz da vidraa da
repartio, namorava de binoculo a do Telles alfaiate.--A, era um
escandalo! Que nunca houvera em Leiria auctoridades assim! O secretario
geral em um desafro com a Novaes... Que se podia esperar de homens sem
religio, educados em Lisboa, que, segundo D. Josepha, estava
predestinada a parecer como Gomorrha pelo fogo do co?--A Amparo cosia
com a cabea baixa, envergonhada talvez diante d'aquella indignao
piedosa, dos desejos culpados que a roiam de vr o Passeio Publico e de
ouvir os cantores em S. Carlos.

Mas bem depressa a snr.^a D. Josepha comeou a fallar do escrevente. A
Amparo no sabia nada; e a velha teve a satisfao de contar
prolixamente, tim-tim por tim-tim, a historia do _Communicado_, o
desgosto na rua da Misericordia, e a campanha de Natario para descobrir
o _liberal_. Alargou-se principalmente sobre o caracter de Joo Eduardo,
a sua impiedade, as suas orgias... E, considerando um dever de christ
aniquilar o atheu, deu mesmo a entender que alguns roubos, ultimamente
commettidos em Leiria, eram obra de Joo Eduardo.

A Amparo declarou-se banzada. O casamento ento, com a Ameliasinha...

--Isso pertence  historia, declarou com jubilo D. Josepha Dias. Vo
pl-o fra de casa! E por muito feliz se deve o homem dar em no ir
parar ao banco dos ros... Que a mim o deve, e  prudencia do mano e do
senhor padre Amaro. Que havia motivos para o ferrar na cadeia!

--Mas a pequena gostava d'elle, ao que parece.

D. Josepha indignou-se. Credo, a Amelia era uma rapariga de juzo, de
muita virtude! Apenas conheceu os desafros, foi a primeira a dizer que
no, e que no! Ai! detestava-o...--E D. Josepha, baixando a voz em
confidencia, contou que era positivo que elle vivia com uma desgraada
para os lados do quartel.

--Disse-m'o o senhor padre Natario, affirmou. E aquillo  homem que da
sua boca nunca sae seno a verdade pura... Foi muito delicado commigo,
devo-lhe esse favor. Apenas soube, veio-m'o logo dizer a casa, pedir-me
conselhos... Emfim, muito attencioso.

Mas o Carlos appareceu de novo. Tinha a botica desembaraada um momento
(que no o tinham deixado respirar toda a manh!) e vinha fazer
companhia s senhoras.

--Ento j sabe, snr. Carlos, exclamou logo D. Josepha, o caso do
_Communicado_ e do Joo Eduardo?

O pharmaceutico arregalou os seus olhos redondos. Que relao havia
entre um artigo to indigno e esse mancebo que lhe parecia honesto?

--Honesto!? ganiu a snr.^a D. Josepha Dias. Foi elle que o escreveu,
snr. Carlos!

E vendo o Carlos morder o beio de surpreza, D. Josepha, enthusiasmada,
repetiu a historia da maroteira.

--Que lhe parece, snr. Carlos, que lhe parece?

O pharmaceutico deu a sua opinio, n'uma voz vagarosa, sobrecarregada da
auctoridade d'um vasto entendimento:

--N'esse caso digo, e todas as pessoas de bem o diro commigo,  uma
vergonha para Leiria. Eu j tinha observado, quando li o _Communicado_:
a religio  a base da sociedade, e minal-a , por assim dizer, querer
aluir o edificio...  uma desgraa que haja na cidade d'esses sectarios
do materialismo e da republica, que, como  sabido, querem destruir tudo
o que existe: proclamam que os homens e as mulheres se devem unir com a
promiscuidade de ces e cadellas... (Desculpem exprimir-me assim, mas a
sciencia  a sciencia). Querem ter o direito de entrar em minha casa,
levar-me as pratas e o suor do meu rosto; no admittem que haja
auctoridades, e se os deixassem seriam capazes de cuspir na sagrada
hostia...

D. Josepha encolheu-se com um gritinho, muito arripiada.

--E ousa esta seita fallar em liberdade! Eu tambem sou liberal... Que,
francamente o digo, eu no sou fanatico... Nem pelo facto d'um homem
pertencer ao sacerdocio, o julgo um santo, no... Por exemplo, sempre
embirrei com o parocho Migueis... Era uma giboia! Desculpe-me a senhora,
mas era uma giboia. Disse-lh'o na cara, porque a lei das rolhas j l
vai... Derramamos o nosso sangue nas trincheiras do Porto, justamente
para no haver lei das rolhas... Disse-lh'o na cara: V. s.^a  uma
giboia! Mas, emfim, quando um homem veste uma batina deve ser
respeitado... E o _Communicado_, repito,  um vergonha para Leiria... E
tambem lhe digo, com esses atheus, esses republicanos, no deve haver
considerao!... Eu sou homem pacifico, aqui a Amparosinho conhece-me
bem; pois se eu tivesse d'aviar uma receita para um republicano
declarado, no tinha duvida, em logar de lhe dar uma d'essas composies
beneficas que so o orgulho de nossa sciencia, de lhe mandar uma dse
d'acido prussico... No, no direi que lhe mandasse acido prussico...
mas se estivesse no banco dos jurados havia de lhe fazer cahir em cima
todo o peso da lei!

E balanou-se um momento sobre a ponta das chinelas, lanando um grande
gesto em redor, como se esperasse os applausos d'um conselho de
districto ou d'uma municipalidade em sesso.

Mas na S bateram ento devagar as onze; e D. Josepha embrulhou-se 
pressa no seu mantelete para ir buscar a pequena, coitada, que havia
d'estar farta d'esperar.

O Carlos acompanhou-a, desbarretando-se, e dizendo-lhe (como um mimo que
remettia ao seu senhorio):

--Repita ao nosso conego quaes so as minhas opinies... Que n'essa
questo do _Communicado_ e d'ataques ao clero, estou d'alma e corao
com suas senhorias... Criado seu, minha senhora... O tempo vai-se a
embrulhar.

Quando D. Josepha entrou na igreja, Amelia estava ainda no
confessionario. A velha tossiu alto, ajoelhou, e, com as mos sobre a
face, abysmou-se n'uma devoo  Senhora do Rosario. A igreja ficou
n'uma immobilidade e n'um silencio. Depois D. Josepha, voltando-se para
o confessionario, espreitou por entre os dedos; Amelia conservava-se
immovel, com a mantilha muito puxada para o rosto, a roda do vestido
negro espalhada em redor; e D. Josepha recahiu na sua reza. Uma chuva
fina fustigava agora os vidros d'uma janella ao lado. Emfim houve no
confessionario um rangido da madeira, um frou-frou de vestidos nas
lages,--e D. Josepha, voltando-se, viu de p diante d'ella Amelia com a
face escarlate e o olhar reluzindo muito.

--Est ha muito tempo  espera, madrinha!

--Um bocadinho. Ests promptinha, hein?

Ergueu-se, persignou-se, e as duas senhoras sahiram da S. Ainda cahia
uma chuva fina; mas o snr. Arthur Couceiro, que passava no largo com
officios para o governo civil, foi leval-as  rua da Misericordia
debaixo do seu guardachuva.




XIV


Joo Eduardo,  noitinha, ia sahir de casa para a rua da Misericordia,
levando debaixo do brao um rolo de amostras de papel de parede para
Amelia escolher, quando  porta encontrou a _Rua_ que ia puxar a
campainha.

--Que , _Rua_?

--As senhoras foram passar a noite fra de casa, e aqui est esta carta
que manda a menina.

Joo Eduardo sentiu apertar-se-lhe o corao, e seguia com o olhar
pasmado a _Rua_, que descia a rua, batendo os tamancos. Foi ao p do
candieiro, defronte, abriu a carta:


                                                 Snr. Joo Eduardo.


O que estava decidido a respeito do nosso casamento era na persuaso
que era v. s.^a uma pessoa de bem e que me poderia fazer feliz; mas como
se sabe tudo, e que foi o senhor que escreveu o artigo do _Districto_, e
calumniou os amigos da casa e me insultou a mim, e como os seus costumes
no me do garantia de felicidade na vida de casada, deve desde hoje
considerar tudo acabado entre ns, pois no ha banhos publicados nem
despezas feitas. E eu espero, bem como a mam, que o senhor seja
bastante delicado para no nos voltar a casa, nem perseguir-nos na rua.
O que tudo lhe communico por ordem da mam, e sou


                                                 criada de v. s.^a

                                                 _Amelia Caminha_.


Joo Eduardo ficou a olhar estupidamente a parede defronte onde batia a
claridade do candieiro, immovel como uma pedra, com o seu rolo de papeis
pintados debaixo do brao. Machinalmente voltou a casa. As mos
tremiam-lhe tanto, que mal podia accender o candieiro. De p, junto da
mesa, releu a carta. Depois ficou alli, fatigando a vista contra a
chamma da torcida, com uma sensao arrefecedora de Immobilidade e de
Silencio, como se subitamente, sem choque, toda a vida universal tivesse
emmudecido e parado. Pensou onde teriam _ellas_ ido passar a noite.
Lembranas de seres felizes na rua da Misericordia atravessaram-lhe
devagar na memoria: Amelia trabalhava, com a cabea baixa, e entre o
cabello muito preto e o collar muito branco o seu pescoo tinha uma
pallidez que a luz amaciava... Ento a ida de que a perdera para sempre
varou-lhe o corao com um frio de punhalada. Apertou as fontes entre as
mos, tonto. Que havia de fazer? que havia de fazer? Resolues bruscas
relampejavam-lhe um momento no espirito, esvaiam-se. Queria
escrever-lhe! tiral-a por justia! ir para o Brazil! saber quem
descobrira que elle era o auctor do artigo!--E como isto era o mais
practicavel quella hora, correu  redaco da _Voz do Districto_.

Agostinho, estirado no canap, com a vla ao p sobre uma cadeira,
saboreava os jornaes de Lisboa. A face decomposta de Joo Eduardo
assustou-o.

--Que ?

-- que me perdeste, maroto!

E d'um s flego accusou furiosamente o corcunda de o ter trahido.

Agostinho erguera-se devagar, procurando imperturbavel a bolsa do tabaco
na algibeira da jaqueta.

--Homem, disse, nada d'espalhafatos... Eu dou-te a minha palavra d'honra
que no disse a ninguem do _Communicado_.  verdade que ninguem me
perguntou...

--Mas quem foi, ento? gritou o escrevente.

Agostinho enterrou a cabea nos hombros.

--Eu o que sei  que os padres andavam n'uma azafama para saber quem
era. O Natario esteve ahi uma manh, por causa do annuncio de uma viuva
que recorre  caridade publica, mas do _Communicado_ no se disse nem
palavra... O doutor Godinho  que sabia, entende-te com elle! Mas ento
fizeram-te alguma?

--Mataram-me! disse Joo Eduardo lugubremente.

Ficou um momento a fixar o soalho, aniquilado, e sahiu arremessando a
porta. Passeou na Praa; foi ao acaso pelas ruas; depois, attrahido pela
obscuridade,  estrada de Marrazes. Abafava, sentindo uma intoleravel
palpitao surda latejar-lhe interiormente contra as fontes; apesar de
ventar forte nos campos, parecia-lhe seguir n'um silencio universal; por
vezes a ida da sua desgraa rasgava-lhe subitamente o corao, e ento
imaginava vr toda a paizagem oscillar e o cho da estrada
afigurava-se-lhe molle como um lamaal. Voltou pela S quando batiam
onze horas; e achou-se na rua da Misericordia, com o olhar cravado para
a janella da sala de jantar, onde havia ainda luz; a vidraa do quarto
d'Amelia alumiou-se tambem; ella ia deitar-se, decerto... Veio-lhe um
desejo furioso da sua belleza, do seu corpo, dos seus beijos. Fugiu para
casa: uma fadiga intoleravel prostrou-o sobre a cama; depois uma saudade
indefinida, profunda, foi-o amollecendo, e chorou muito tempo,
enternecendo-se mais com o som dos seus proprios soluos,--at que ficou
adormecido, de bruos, n'uma massa inerte.


Ao outro dia, cedo, Amelia vinha da rua da Misericordia para a Praa,
quando ao p do Arco Joo Eduardo lhe sahiu d'emboscada.

--Quero-lhe fallar, menina Amelia.

Ella recuou assustada, disse a tremer:

--No tem que me fallar...

Mas elle plantra-se diante d'ella, muito decidido, com os olhos
vermelhos como carves:

--Quero-lhe dizer... L do artigo,  verdade, fui eu que o escrevi, foi
uma desgraa; mas a menina tinha-me ralado de ciumes... Mas o que a
menina diz de maus costumes  uma calumnia. Eu sempre fui um homem de
bem...

--O senhor padre Amaro  que o conhece! Faz favor de me deixar passar...

Ao nome do parocho, Joo Eduardo fez-se livido de raiva:

--Ah!  o senhor padre Amaro!  o maroto do padre! Pois veremos! Oua...

--Faz favor de me deixar passar! disse ella irritada, to alto, que um
sujeito gordo de chale-manta parou olhando.

Joo Eduardo recuou, tirando o chapo; e ella, immediatamente,
refugiou-se na loja do Fernandes.


Ento, n'um desespero, correu a casa do doutor Godinho. J na vespera,
por entre os seus-accessos de chro, sentindo-se to abandonado, se
lembrra do doutor Godinho. Fra outr'ora seu escrevente; e como por
pedido d'elle entrra no cartorio do Nunes Ferral, e por sua influencia
ia ser accommodado no governo civil, julgava-o uma Providencia prodiga e
inesgotavel! Demais, desde que escrevera o _Communicado_ considerava-se
da redaco da _Voz do Districto_, do grupo da Maia; agora, que era
atacado pelos padres, devia claramente ir acolher-se  forte proteco
do seu chefe, do doutor Godinho, do inimigo da reaco, o Cavour de
Leiria, como dizia, arregalando os olhos, o bacharel Azevedo, auctor
dos _Ferres_.--E Joo Eduardo, dirigindo-se ao casaro amarello, ao p
do Terreiro onde o doutor vivia, ia n'um alvoroo d'esperanas, contente
com se refugiar, como um co escorraado, entre as pernas d'aquelle
colosso.

O doutor Godinho descera j ao escriptorio, e repoltreado na sua
poltrona abbacial de prgos amarellos, com os olhos no tecto de carvalho
escuro, acabava com beatitude o charuto do almoo. Recebeu com magestade
os bons dias de Joo Eduardo.

--Ento que temos, amigo?

As altas estantes d'in-folios graves, as resmas d'autos, o apparatoso
painel representando o marquez de Pombal, de p n'um terrao sobre o
Tejo, expulsando com o dedo a esquadra ingleza--acanharam como sempre
Joo Eduardo; e foi com voz embaraada que disse vinha alli para que sua
excellencia lhe dsse remedio n'uma desgraa que lhe succedia.

--Desordens, bordoada?

--No, senhor, negocios de familia.

Contou ento, prolixamente, a sua historia desde a publicao do
_Communicado_: leu muito commovido, a carta d'Amelia; descreveu a scena
ao p do Arco... Alli estava agora, escorraado da rua da Misericordia
por obras do senhor parocho! E parecia-lhe a elle, apesar de no ser
formado em Coimbra, que contra um padre que se introduzia n'uma familia,
desinquietava uma menina simples, a levava por intrigas a romper com o
noivo e ficava de portas a dentro senhor d'ella--devia haver leis!

--Eu no sei, senhor doutor, mas deve haver leis!

O doutor Godinho parecia contrariado.

--Leis!? exclamou traando vivamente a perna. Que leis quer voss que
haja? Quer querelar do parocho?... Porque? Elle bateu-lhe? roubou-lhe o
relogio? insultou-o pela imprensa? No. Ento?...

--Oh, senhor doutor! mas intrigou-me com as senhoras! Eu nunca fui homem
de maus costumes, senhor doutor! Calumniou-me!

--Tem testemunhas?

--No, senhor.

--Ento?

E o doutor Godinho, assentando os cotovlos sobre a banca, declarou que
como advogado no tinha nada a fazer. Os tribunaes no tomavam
conhecimento d'essas questes, d'esses dramas moraes por assim dizer,
que se passavam nas alcovas domesticas... Como homem, como particular,
como Alipio de Vasconcellos Godinho tambem no podia intervir porque no
conhecia o senhor padre Amaro, nem essas senhoras da rua da
Misericordia... Lamentava o facto, porque emfim fra novo, sentira a
poesia da mocidade, e sabia (infelizmente sabia!) o que eram esses
transes do corao... E ahi est tudo o que elle podia fazer--lamentar!
Tambem para que tinha elle dado a sua affeio a uma beata?...

Joo Eduardo interrompeu-o:

--A culpa no  d'ella, senhor doutor! A culpa  do padre que a anda a
desencaminhar! A culpa  d'essa canalha do cabido!

O doutor Godinho estendeu com severidade a mo, e aconselhou o snr. Joo
Eduardo que tivesse cuidado com semelhantes asseres! Nada provava que
o senhor parocho possuisse n'essa casa outra influencia que no fosse a
d'um habil director espiritual... E recommendava ao snr. Joo Eduardo,
com a auctoridade que lhe davam os annos e a sua posio no paiz, que
no fosse espalhar, por despeito, accusaes que s serviam para
destruir o prestigio do sacerdocio, indispensavel n'uma sociedade bem
constituida!--Sem elle, tudo seria anarchia e orgia!

E recostou-se, pensando, satisfeito, que estava n'essa manh com o dom
da palavra.

Mas a face consternada do escrevente, que no se movia, de p junto 
banca, impacientava-o; e disse com seccura, puxando para diante de si um
volume d'autos:

--Emfim, acabemos, que quer o amigo? J v, eu no lhe posso dar
remedio.

Joo Eduardo replicou, com um movimento de coragem desesperada:

--Eu imaginei que o senhor doutor podia fazer alguma coisa por mim...
Porque emfim eu fui uma victima... Tudo isto vem de se saber que eu
escrevi o _Communicado_. E tinha-se combinado que havia de ser segredo.
O Agostinho no o disse, s o senhor doutor o sabia...

O doutor pulou de indignao na sua cadeira abbacial:

--Que quer o senhor insinuar? Quer-me dar a entender que fui eu que o
disse? No disse... Isto , disse; disse-o a minha mulher, porque n'uma
familia bem constituida no deve haver segredos entre esposo e esposa.
Ella perguntou-me, disse-lh'o... Mas supponhamos que fui eu que o
espalhei pelas ruas. De duas uma: ou o _Communicado_ era uma calumnia, e
ento sou eu que devo accusal-o de ter polluido um jornal honrado com um
acervo de diffamaes; ou era verdade, e ento que homem  o senhor que
se envergonha das verdades que solta, e que no se atreve a manter  luz
do dia as opinies que redigiu na escurido da noite?

Duas lagrimas ennevoaram os olhos de Joo Eduardo. Ento, diante
d'aquella expresso esmorecida, satisfeito de o ter esmagado com uma
argumentao to logica e to poderosa, o doutor Godinho abrandou:

--Bem, no nos zanguemos, disse. No se falla mais era pontos d'honra...
O que pde acreditar  que lamento o seu desgosto.

Deu-lhe conselhos de uma solicitude paternal. Que no succumbisse; havia
mais meninas em Leiria e meninas de bons principios que no viviam sob a
direco da sotaina. Que fosse forte, e que se consolasse pensando que
elle, doutor Godinho--e era elle!--tambem tivera em moo desgostos do
corao. Que evitasse o dominio das paixes que lhe seria prejudicial na
carreira publica. E que se o no fizesse por seu interesse proprio, o
fizesse ao menos em atteno a elle, doutor Godinho!

Joo Eduardo sahiu do escriptorio, indignado, julgando-se trahido pelo
doutor.

--Isto succede-me a mim, resmungava, porque sou um pobre diabo, no dou
votos nas eleies, no vou s _soires_ do Novaes, no subscrevo para o
club. Ah, que mundo! Se eu tivesse um par de contos de reis!...

Veio-lhe ento um desejo furioso de se vingar dos padres, dos ricos, e
da religio que os justifica. Voltou muito decidido ao escriptorio, e
entreabrindo a porta:

--Vossa excellencia ao menos agora d licena que eu desabafe no
jornal?... Queria contar esta maroteira, cascar n'essa canalha...

Esta audacia do escrevente indignou o doutor. Endireitou-se com
severidade na poltrona, e cruzando terrivelmente os braos:

--O snr. Joo Eduardo est realmente a abusar! Pois o senhor vem-me
pedir que transforme um jornal d'idas n'um jornal de diffamaes!? V,
no se prenda! Pea-me que insulte os principios da religio, que
achincalhe o Redemptor, que repita as babuseiras de Renan, que ataque as
leis fundamentaes do Estado, que injurie o rei, que vitupere a
instituio da familia! O senhor est ebrio!

--Oh, senhor doutor!

--O senhor est ebrio! Cuidado, meu caro amigo, cuidado, olhe que vai
por um declive!  por esse caminho que se chega a perder o respeito da
auctoridade, da lei, das coisas santas e do lar.  por esse caminho que
se vai ao crime! Escusa d'arregalar os olhos... Ao crime, digo-lh'o eu!
Tenho a experiencia de vinte annos de fro. Homem, detenha-se! refreie
essas paixes! Safa! Que idade tem o senhor?

--Vinte e seis annos.

--Pois no ha desculpa para um homem de vinte e seis annos ter essas
idas subversivas. Adeus, feche a porta. E escute: escusa de pensar em
mandar outro _Communicado_ para outro qualquer jornal. No lh'o
consinto, eu que o tenho protegido sempre! Havia de querer fazer
espalhafato... Escusa de negar, estou-lh'o a lr nos olhos. Pois no
lh'o consinto!  para seu bem, para lhe poupar uma m aco social!

Tomou uma grande attitude na poltrona, repetiu com fora:

--Uma pessima aco social! Aonde nos querem os senhores levar com os
seus materialismos, os seus atheismos?! Quando tiverem dado cabo da
religio de nossos paes, que tm os senhores para a substituir?! Que
tm?! Mostre l!

A expresso embaraada de Joo Eduardo (que no tinha alli, para a
mostrar, uma religio que substituisse a de nossos paes) fez triumphar o
doutor.

--No tm nada! Tm lama, quando muito tm palavriado! Mas emquanto eu
fr vivo, pelo menos em Leiria, ha de ser respeitada a F e o principio
da Ordem! Podem pr a Europa a fogo e sangue, em Leiria no ho de
erguer cabea. Em Leiria estou eu lerta, e juro que lhes hei de ser
funesto!

Joo Eduardo recebia d'hombros vergados estas ameaas, sem as
comprehender. Como podia o seu _Communicado_ e as intrigas da rua da
Misericordia produzirem assim catastrophes sociaes e revolues
religiosas! Tanta severidade aniquilava-o. Ia perder decerto a amizade
do doutor, o emprego no governo civil... Quiz abrandal-o:

--Oh, senhor doutor, mas vossa excellencia bem v...

O doutor interrompeu-o com um grande gesto:

--Eu vejo perfeitamente. Vejo que as paixes, a vingana o vo levando
por um caminho fatal... O que espero  que os meus conselhos o detenham.
Bem, adeus. Feche a porta. Feche a porta, homem!

Joo Eduardo sahiu acabrunhado. Que havia de fazer agora? O doutor
Godinho, aquelle colosso, repellia-o com palavras tremendas! E que podia
elle, pobre escrevente de cartorio, contra o padre Amaro que tinha por
si o clero, o chantre, o cabido, os bispos, o Papa, classe solidaria e
compacta que lhe apparecia como uma medonha cidadella de bronze
erguendo-se at ao co?! Eram elles que tinham causado a resoluo
d'Amelia, a sua carta, a dureza das suas palavras. Era uma intriga de
parochos, conegos e beatas. Se elle pudesse arrancal-a quella
influencia, ella tornaria a ser bem depressa a sua Ameliasinha que lhe
bordava chinelas, e que vinha toda crada vl-o passar  janella! As
suspeitas que outr'ora tivera tinham-se desvanecido n'aquelles seres
felizes, depois de decidido o casamento, quando ella, costurando junto
do candieiro, fallava da mobilia que havia de comprar e dos arranjos da
sua casinha. Ella amava-o, decerto... Mas qu! tinham-lhe dito que elle
era o auctor do _Communicado_, que era hereje, que tinha costumes
devassos; o parocho, na sua voz pedante, ameara-a com o inferno; o
conego, furioso, e todo poderoso na rua da Misericordia porque dava para
a panella, fallra tso--e a pobre menina, assustada, dominada, com
aquelle bando tenebroso de padres e de beatas a cochicharem-lhe ao
ouvido, coitada, cedera! Estava talvez persuadida, de boa f, que elle
era uma fera! E quella hora, emquanto elle alli andava pelas ruas,
escorraado e desgraado, o padre Amaro, na saleta da rua da
Misericordia, enterrado na poltrona, senhor da casa e senhor da
rapariga, de perna traada, palrava d'alto! Canalha! E no haver leis
que o vingassem! e no poder sequer fazer escandalo, agora que a _Voz
do Districto_ se lhe tornava inaccessivel!

Vinham-lhe ento desejos furiosos de demolir o parocho aos murros, com a
fora do padre Brito. Mas o que o satisfaria mais seriam artigos
tremendos n'um jornal que revelassem as intrigas da rua da Misericordia,
amotinassem a opinio, cahissem sobre o padre como catastrophes, o
forassem a elle, ao conego e aos outros a desapparecerem corridos da
casa da S. Joanneira! Ah! estava certo que a Ameliasinha, livre
d'aquelles galfarros, correria logo aos seus braos, com lagrimas de
reconciliao...

Procurava assim  fora convencer-se que a culpa no era d'ella;
recordava os mezes de felicidade antes da chegada do parocho; arranjava
explicaes naturaes para aquellas maneirinhas ternas que ella outr'ora
tinha para o padre Amaro, e que lhe tinham dado ciumes
desesperados:--era o desejo, coitada, de ser agradavel ao hospede, ao
amigo do senhor conego, de o reter para vantagem da mi e da casa! E
alm d'isso, como ella andava contente depois de resolvido o casamento!
A sua indignao contra o _Communicado_, estava certo, no era natural
d'ella--vinha-lhe soprada pelo parocho e pelas beatas. E achava uma
consolao n'esta ida que no era repellido como namorado, como
marido--mas que era uma victima das intrigas do torpe padre Amaro, que
lhe desejava a noiva e que o odiava como liberal! Isto accumulava-lhe na
alma um rancor desordenado contra o padre; descendo a rua procurava
anciosamente uma vingana, atirando a imaginao aqui e alm--mas
vinha-lhe sempre a mesma ida, o artigo de jornal, a verrina, a
imprensa! A certeza da sua fraqueza desprotegida revoltava-o. Ah, se
tivesse por si um figuro!

Um homem do campo, amarello como uma cidra, que ia caminhando devagar,
com o brao ao peito, deteve-o a perguntar-lhe onde morava o doutor
Gouva.

--Na primeira rua,  esquerda, o porto verde ao p do lampeo, disse
Joo Eduardo.

E uma esperana immensa alumiou-lhe bruscamente a alma: o doutor Gouva
 que o podia salvar! O doutor era seu amigo: tratava-o por _tu_ desde
que o curra havia tres annos da pneumonia; approvava muito o seu
casamento com Amelia; havia ainda semanas perguntra-lhe ao p da
Praa:--Ento, quando se faz essa rapariga feliz? E que respeitado,
que temido na rua da Misericordia! Era medico de todas as amigas da casa
que, apesar de se escandalisarem com a sua irreligio, dependiam
humildemente da sua sciencia para os achaques, os flatos, os xaropes.
Alm d'isso, o doutor Gouva, inimigo decidido da padraria, decerto se
ia indignar com aquella intriga beata: e Joo Eduardo via-se j entrando
na rua da Misericordia atraz do doutor Gouva, que reprehendia a S.
Joanneira, arrasava o padre Amaro, convencia as velhas,--e a sua
felicidade recomeava, inabalavel agora!

--O senhor doutor est? perguntou elle quasi alegre,  criada que no
pateo estendia a roupa ao sol.

--Est na consulta, snr. Joosinho, faa favor d'entrar.

Em dias de mercado os doentes do campo affluiam sempre. Mas quella
hora--quando os visinhos das freguezias se reunem nas tabernas--havia s
um velho, uma mulher com uma criana ao collo e o homem do brao ao
peito, esperando n'uma saleta baixa com bancos, dois manjarices na
janella e uma grande gravura da Coroao da Rainha Victoria. Apesar do
sol claro que entrava do pateo, e de uma fresca folhagem de tilia que
roava o peitoril da janella, a saleta dava tristeza, como se as
paredes, os bancos, os mesmos manjarices estivessem saturados da
melancolia das doenas que alli tinham passado. Joo Eduardo entrou e
sentou-se a um canto.

Tinha batido meio dia, e a mulher estava-se queixando de ter esperado
tanto: era de uma freguezia distante, deixra no mercado a irm, e havia
uma hora que o senhor doutor estava com duas senhoras! A cada momento a
criana rabujava, ella sacudia-a nos braos: calavam-se depois: o velho
arregaava a cala, contemplava com satisfao uma chaga na canella
envolta em trapos: e o outro homem dava bocejos desconsolados que
tornavam mais lugubre a sua longa face amarella. Aquella demora
enervava, amollecia o escrevente; sentia perder gradualmente o animo de
occupar o doutor Gouva; preparava laboriosamente a sua historia, mas
ella parecia-lhe agora bem insufficiente para o interessar. Vinha-lhe
ento um desalento, que as faces insipidas dos doentes tornavam ainda
mais intenso. Positivamente era uma coisa bem triste esta vida, cheia s
de miserias, de sentimentos trahidos, de afflices, de doenas!
Erguia-se; e com as mos atraz das costas ia olhar desconsoladamente a
Coroao da Rainha Victoria.

De vez em quando a mulher entreabria a porta, a espreitar se as duas
senhoras ainda l estariam. L estavam; e atravs do batente de baeta
verde, que fechava o gabinete do doutor, sentia-se as suas vozes
pachorrentas palrarem.

--Em cahindo aqui  dia perdido! rosnava o velho.

Tambem elle deixra a cavalgadura  porta do Fumaa, e a rapariga na
praa... E o que teria a esperar na botica, depois! Com tres legoas
ainda a fazer para voltar  freguezia!... Ser doente  bom, mas para
quem  rico e tem vagares!

A ida da doena, da solido que ella traz, faziam agora parecer a Joo
Eduardo mais amarga a perda de Amelia. Se adoecesse teria de ir para o
hospital. O malvado do padre tirra-lhe tudo--mulher, felicidade,
confortos de familia, dces companhias da vida!

Emfim sentiram no corredor as duas senhoras que sahiam. A mulher com a
criana apanhou o seu cabaz, precipitou-se. E o velho, apoderando-se
logo do banco junto da porta, disse com satisfao:

--Agora c o patro!

--Vossemec tem muito que consultar? perguntou-lhe Joo Eduardo.

--No senhor,  s receber a receita.

E immediatamente contou a historia da sua chaga: fra uma trave que lhe
cahira em cima; no fizera caso; depois a ferida assanhra-se; e agora
alli estava, manco e cortidinho de dres.

--E vossa senhoria,  coisa de cuidado? perguntou elle.

--Eu no estou doente, disse o escrevente. So negocios com o senhor
doutor.

Os dois homens olharam-n'o com inveja.

Emfim foi a vez do velho, depois a do homem amarello de brao ao peito.
Joo Eduardo, s, passeava nervoso pela saleta. Parecia-lhe agora muito
difficil ir assim, sem ceremonia, pedir proteco ao doutor. Com que
direito?... Lembrou-se de se queixar primeiro de dres do peito ou
desarranjos de estomago, e depois, incidentalmente, contar os seus
infortunios...

Mas a porta abriu-se. O doutor estava diante d'elle, com a sua longa
barba grisalha que lhe cahia sobre a quinzena de velludo preto, o largo
chapo desabado na cabea, calando as luvas de fio d'Escocia.

--l! s tu, rapaz! Ha novidade na rua da Misericordia?

Joo Eduardo crou.

--No senhor, senhor doutor, queria-lhe fallar em particular.

Seguiu-o ao gabinete--o conhecido gabinete do doutor Gouva, que com o
seu cahos de livros, o seu tom poeirento, uma panoplia de flechas
selvagens e duas cegonhas empalhadas, tinha na cidade a reputao d'uma
cella d'alchimista.

O doutor puxou o seu _cebolo_.

--Um quarto para as duas. S breve.

A face do escrevente exprimiu o embarao de condensar uma narrao to
complicada.

--Est bom, disse o doutor, explica-te como puderes. No ha nada mais
difficil que ser claro e breve;  necessario ter genio. Que ?

Joo Eduardo ento tartamudeou a sua historia, insistindo sobretudo na
perfidia do padre, exagerando a innocencia de Amelia...

O doutor escutava-o, cofiando a barba.

--Vejo o que . Tu e o padre, disse elle, quereis ambos a rapariga. Como
elle  o mais esperto e o mais decidido, apanhou-a elle.  lei natural:
o mais forte despoja, elimina o mais fraco; a femea e a prsa
pertencem-lhe.

Aquillo pareceu a Joo Eduardo um gracejo. Disse com a voz perturbada:

--Vossa excellencia est a caoar, senhor doutor, mas a mim
retalha-se-me o corao!

--Homem, acudiu o doutor com bondade, estou a philosophar, no estou a
caoar... Mas emfim, que queres tu que eu te faa?

Era o que o doutor Godinho lhe tinha dito, tambem, com mais pompa!

--Eu tenho a certeza que se vossa excellencia lhe fallasse...

O doutor sorriu:

--Eu posso receitar  rapariga _este ou aquelle xarope_, mas no lhe
posso impr _este ou aquelle homem_! Queres que lhe v dizer: A menina
ha de preferir aqui o snr. Joo Eduardo? Queres que v dizer ao padre,
um magano que eu nunca vi: O senhor faz favor de no seduzir esta
menina?

--Mas calumniaram-me, senhor doutor, apresentaram-me como um homem de
maus costumes, um patife...

--No, no te calumniaram. Sob o ponto de vista do padre e d'aquellas
senhoras que jogam  noite o quino na rua da Misericordia tu s um
patife: um christo que nos periodicos vitupera abbades, conegos, curas,
personagens to importantes para se communicar com Deus e para se salvar
a alma,  um patife. No te calumniaram, amigo!

--Mas, senhor doutor...

--Escuta. E a rapariga, descartando-se de ti em obediencia s
instruces do senhor padre fulano ou sicrano, comporta-se como uma boa
catholica.  o que te digo. Toda a vida do bom catholico, os seus
pensamentos, as suas idas, os seus sentimentos, as suas palavras, o
emprego dos seus dias e das suas noites, as suas relaes de familia e
de visinhana, os pratos do seu jantar, o seu vestuario e os seus
divertimentos--tudo isto  regulado pela auctoridade ecclesiastica
(abbade, bispo ou conego), approvado ou censurado pelo confessor,
aconselhado e ordenado pelo _director da consciencia_. O bom catholico,
como a tua pequena, no se pertence; no tem razo, nem vontade, nem
arbitrio, nem sentir proprio; o seu cura pensa, quer, determina, sente
por ella. O seu unico trabalho n'este mundo, que  ao mesmo tempo o seu
unico direito e o seu unico dever,  aceitar esta direco; aceital-a
sem a discutir; obedecer-lhe, d por onde der; se ella contraria as suas
idas, deve pensar que as suas idas so falsas; se ella fere as suas
affeies, deve pensar que as suas affeies so culpadas. Dado isto, se
o padre disse  pequena que no devia nem casar, nem sequer fallar
comtigo, a creatura prova, obedecendo-lhe, que  uma boa catholica, uma
devota consequente, e que segue na vida, logicamente, a regra moral que
escolheu. Aqui est, e desculpa o sermo.

Joo Eduardo ouvia com respeito, com espanto estas phrases, a que a face
placida, a bella barba grisalha do doutor davam uma auctoridade maior.
Parecia-lhe agora quasi impossivel recuperar Amelia, se ella pertencia
assim to absolutamente, alma e sentidos, ao padre que a confessava. Mas
emfim, porque era elle considerado um marido prejudicial?

--Eu comprehenderia, disse, se fosse um homem de maus costumes, senhor
doutor. Mas eu porto-me bem; eu no fao seno trabalhar; eu no
frequento tabernas nem troas; eu no bebo, eu no jgo; as minhas
noites passo-as na rua da Misericordia, ou em casa a fazer sero para o
cartorio...

--Meu rapaz, tu pdes ter socialmente todas as virtudes; mas, segundo a
religio de nossos paes, todas as virtudes que no so catholicas so
inuteis e perniciosas. Ser trabalhador, casto, honrado, justo,
verdadeiro, so grandes virtudes; mas para os padres e para a Igreja no
contam. Se tu fres um modelo de bondade mas no fres  missa, no
jejuares, no te confessares, no te desbarretares para o senhor
cura--s simplesmente um maroto. Outros personagens maiores que tu, cuja
alma foi perfeita e cuja regra de vida foi impeccavel, tm sido julgados
verdadeiros canalhas porque no foram baptisados antes de ter sido
perfeitos. Has de ter ouvido fallar de Socrates, d'um outro chamado
Plato, de Cato, etc... Foram sujeitos famosos pelas suas virtudes.
Pois um certo Bossuet, que  o grande chavo da doutrina, disse que das
virtudes d'esses homens estava cheio o inferno... Isto prova que a moral
catholica  differente da moral natural e da moral social... Mas so
coisas que tu comprehendes mal... Queres tu um exemplo? Eu sou, segundo
a doutrina catholica, um dos grandes desavergonhados que passeiam as
ruas da cidade; e o meu visinho Peixoto, que matou a mulher com pancadas
e que vai dando cabo pelo mesmo processo de uma filhita de dez annos, 
entre o clero um homem excellente porque cumpre os seus deveres de
devoto e toca figle nas missas cantadas. Emfim, amigo, estas coisas so
assim. E parece que so boas, porque ha milhares de pessoas respeitaveis
que as consideram boas, o Estado mantem-as, gasta at um dinheiro para
as manter, obriga-nos mesmo a respeital-as--e eu, que estou aqui a
fallar, pago todos os annos um quartinho para que ellas continuem a ser
assim. Tu naturalmente pagas menos...

--Pago sete vintens, senhor doutor.

--Mas emfim vaes s festas, ouves musica, sermo, desforras-te dos teus
sete vintens. Eu, o meu quartinho perco-o; consolo-me apenas com a ida
de que vai ajudar a manter o esplendor da Igreja--da Igreja que em vida
me considera um bandido, e que para depois de morto me tem preparado um
inferno de primeira classe. Emfim, parece-me que temos cavaqueando
bastante... Que queres mais?

Joo Eduardo estava acabrunhado. Agora que escutava o doutor,
parecia-lhe, mais que nunca, que se um homem de palavras to sabias, de
tantas idas, se interessasse por elle, toda a intriga seria facilmente
desfeita e a sua felicidade, o seu logar na rua da Misericordia
recobrados para sempre.

--Ento vossa excellencia no pde fazer nada por mim? disse muito
desconsolado.

--Eu posso talvez curar-te d'outra pneumonia. Tens outra pneumonia a
curar? No? Ento...

Joo Eduardo suspirou:

--Sou uma victima, senhor doutor!

--Fazes mal. No deve haver victimas, quando no seja seno para impedir
que haja tyrannos--disse o doutor, pondo o seu largo chapo desabado.

--Porque no fim de tudo, exclamou ainda Joo Eduardo que se prendia ao
doutor com uma sofreguido d'afogado, no fim de tudo o que o patife do
parocho quer, com todos os seus pretextos,  a rapariga! Se ella fosse
um camafeu, bem se importava o maroto que eu fosse um impio ou no! O
que elle quer  a rapariga!

O doutor encolheu os hombros.

-- natural, coitado--disse, j com a mo no fecho da porta. Que queres
tu? Elle tem para as mulheres, como homem, paixes e orgos; como
confessor, a importancia d'um Deus.  evidente que ha de utilisar essa
importancia para satisfazer essas paixes; e que ha de cobrir essa
satisfao natural com as apparencias e com os pretextos do servio
divino...  natural.

Joo Eduardo ento, vendo-o abrir a porta, desvanecer-se a esperana que
o trouxera alli, disse, furioso, vergastando o ar com o chapo:

--Canalha de padres! Foi raa que sempre detestei! Queria-a vr varrida
da face da terra, senhor doutor!

--Isso  outra tolice, disse o doutor, resignando-se a escutal-o ainda,
e parando  porta do quarto. Ouve l. Tu crs em Deus? no Deus do co,
no Deus que l est no alto do co, e que  l de cima o principio de
toda a justia e de toda a verdade?

Joo Eduardo, surprehendido, disse:

--Eu creio, sim senhor.

--E no peccado original?

--Tambem...

--Na vida futura, na redempo, etc?

--Fui educado n'essas crenas...

--Ento para que queres varrer os padres da face da terra? Deves pelo
contrario ainda achar que so poucos. s um liberal racionalista nos
limites da Carta, ao que vejo... Mas se crs no Deus do co, que nos
dirige l de cima, e no peccado original, e na vida futura, precisas
d'uma classe de sacerdotes que te expliquem a doutrina e a moral
revelada de Deus, que te ajudem a purificar da macula original e te
preparem o teu logar no paraiso! Tu necessitas dos padres. E parece-me
mesmo uma terrivel falta de logica que os desacredites pela imprensa...

Joo Eduardo, attonito, balbuciou:

--Mas vossa excellencia, senhor doutor... Desculpe-me vossa excellencia,
mas...

--Dize, homem. Eu qu?

--Vossa excellencia no precisa dos padres n'este mundo...

--Nem no outro. Eu no preciso dos padres no mundo, porque no preciso
do Deus do co. Isto quer dizer, meu rapaz, que tenho o meu Deus dentro
em mim, isto , o principio que dirige as minhas aces e os meus
juizos. Vulgo Consciencia... Talvez no comprehendas bem... O facto 
que estou aqui a expr doutrinas subversivas... E realmente so tres
horas...

E mostrou-lhe o _cebolo_.

 porta do pateo, Joo Eduardo disse-lhe ainda:

--Vossa excellencia ento desculpe, senhor doutor...

--No ha de qu... Manda a rua da Misericordia ao diabo!

Joo Eduardo interrompeu com calor:

--Isso  bom de dizer, senhor doutor, mas quando a paixo est a roer c
por dentro!...

--Ah! fez o doutor,  uma bella e grande coisa a paixo! O amor  uma
das grandes foras da civilisao. Bem dirigida levanta um mundo e
bastava para nos fazer a revoluo moral...--E mudando de tom:--Mas
escuta. Olha que isso s vezes no  paixo, no est no corao... O
corao  ordinariamente um termo de que nos servimos, por decencia,
para designar outro orgo.  precisamente esse orgo o unico que est
interessado, a maior parte das vezes, em questes de sentimento. E
n'esses casos o desgosto no dura. Adeus, estimo que seja isso!




XV


Joo Eduardo desceu a rua, embrulhando o cigarro. Sentia-se enervado,
todo cansado da noite desesperada que passra, d'aquella manh cheia de
passos inuteis, das conversas do doutor Godinho e do doutor Gouva.

--Acabou-se, pensava, no posso fazer mais nada!  aguentar.

Tinha a alma extenuada de tantos esforos de paixo, d'esperana e de
clera. Desejaria ir estirar-se ao comprido, n'um sitio isolado, longe
de advogados, de mulheres e de padres, e dormir durante mezes. Mas como
j passava das tres horas, apressava-se para o cartorio do Nunes. Teria
talvez ainda de ouvir um sermo por ter chegado to tarde! Triste vida a
sua!

Dobrra a esquina no Terreiro, quando ao p da casa de pasto do Osorio
se encontrou com um moo de quinzena clara, debruada de uma fita negra
muito larga, e com um bigodinho to preto que parecia postio sobre as
suas feies extremamente pallidas.

--l! Que  feito, Joo Eduardo?

Era um Gustavo, typographo da _Voz do Districto_, que havia dois mezes
fra para Lisboa. Segundo dizia o Agostinho, era rapaz de cabea e
instruidote, mas d'idas do diabo. Escrevia s vezes artigos de
Politica Estrangeira, onde introduzia phrases poeticas e retumbantes,
amaldioando Napoleo III, o czar e os oppressores do povo, chorando a
escravido da Polonia e a miseria do proletario. A sympathia entre elle
e Joo Eduardo proviera de conversas sobre religio, em que ambos
exhalavam o seu odio ao clero e a sua admirao por Jesus Christo. A
revoluo d'Hespanha enthusiasmra-o tanto que aspirra a pertencer 
Internacional; e o desejo de viver n'um centro operario, onde houvesse
associaes, discursos e fraternidade, levra-o a Lisboa. Encontrra l
bom trabalho e bons camaradas. Mas como sustentava a mi, velha e
doente, e como era mais economico viverem juntos, voltra a Leiria. O
_Districto_, alm d'isso, na perspectiva d'eleies, prosperava a ponto
de augmentar o salario aos tres typographos.

--De modo que l estou outra vez com o rachitico...

Vinha jantar, e convidou logo Joo Eduardo a que lhe fizesse companhia.
No havia d'acabar o mundo, que diabo, por elle faltar um dia ao
cartorio!

Joo Eduardo ento lembrou-se que desde a vespera no tinha comido. Era
talvez a debilidade que o trouxera assim estonteado, to prompto a
desanimar... Decidiu-se logo--contente, depois das emoes e das fadigas
da manh, de se estirar no banco da taberna, diante d'um prato cheio, na
intimidade com um camarada d'odios iguaes aos seus. Demais, os repelles
que soffrera davam-lhe uma necessidade, uma avidez de sympathia; e foi
com calor que disse:

--Homem, valeu! Caes-me do co! Este mundo  uma choldra. Se no fosse
por alguma hora que se passa em amizade, caramba, no valia a pena andar
por c!

Este modo, to novo no Joo Eduardo, no _Pcatinho_, espantou Gustavo.

--Porqu? As coisas no correm bem? Turras com a besta do Nunes, hein?
perguntou-lhe.

--No. Um bocado de _spleen_.

--Isso de _spleen_  d'inglez! Oh menino, havias de vr o Taborda no
_Amor londrino_!... Deixa l o _spleen_.  deitar lastro para dentro e
carregar no liquido!

Travou-lhe do brao, metteu-o pela porta da taberna.

--Viva o tio Osorio! Saude e fraternidade!

O dono da casa de pasto, o tio Osorio, personagem obeso e contente da
vida, com as mangas da camisa arregaadas at aos hombros, os braos ns
muito brancos apoiados sobre o balco, a face balofa e finoria,
felicitou logo Gustavo de o vr de novo em Leiria. Achava-o mais
magrito... Havia de ser das ms aguas de Lisboa e do muito _pau
campeche_ nos vinhos... E que havia d'elle servir aos cavalheiros?

Gustavo, plantando-se diante do contador, de chapo para a nuca,
apressou-se a soltar o gracejo, que tanto o enthusiasmra em Lisboa:

--Tio Osorio, sirva-nos figado de rei, com rim grelhado de padre!

O tio Osorio, prompto  rplica, disse logo, dando um raspo de rodilha
sobre o zinco do contador:

--No temos c d'isso, snr. Gustavo. Isso  petisco da capital.

--Ento esto vosss muito atrazados! Em Lisboa era todos os dias o meu
almoo... Bem, acabou-se, d-nos duas iscas com batatas... E bem
saltadinho, isso!

--Ho de ser servidos como amigos.

Accommodaram-se  mesa dos envergonhados, entre dois tabiques de pinho
fechados por uma cortina de chita. O tio Osorio, que apreciava Gustavo,
moo instruido e de pouca troa, veio elle mesmo trazer a garrafa do
tinto e as azeitonas; e limpando os copos ao avental enxovalhado:

--Ento que ha de novo pela capital, snr. Gustavo? Como vai por l
aquillo?

O typographo deu immediatamente seriedade ao rosto; passou a mo pelos
cabellos, e deixou cahir algumas phrases enigmaticas:

--Tremidito... Muito pouca vergonha em politica... A classe operaria
comea a mexer-se... Falta d'unio, por ora... Est-se  espera de vr
como as coisas correm em Hespanha... Ha de havel-as bonitas! Tudo
depende d'Hespanha ...

Mas o tio Osorio, que juntra alguns vintens e comprra uma fazenda,
tinha horror a tumultos... O que se queria no paiz era paz... Sobretudo
o que lhe desagradava era contar-se com hespanhoes... De Hespanha,
deviam os cavalheiros sabel-o, nem bom vento nem bom casamento!

--Os povos so todos irmos! exclamou Gustavo. Quando se tratar d'atirar
abaixo Bourbons e imperadores, camarilhas e fidalguia, no ha
portuguezes nem hespanhoes, todos so irmos! Tudo  fraternidade, tio
Osorio!

--Pois ento  beber-lhe  saude, e beber-lhe rijo, que isso  que faz
andar o negocio, disse o tio Osorio tranquillamente, rolando a sua
obesidade para fra do cubiculo.

--Elephante! rosnou o typographo, chocado com aquella indifferena pela
Fraternidade dos Povos. Que se podia esperar, de resto, d'um
proprietario e d'um agente d'eleies?

Trauteou a _Marselheza_, enchendo os copos d'alto, e quiz saber o que
tinha feito o amigo Joo Eduardo... J se no ia pelo _Districto_? O
rachitico dissera-lhe que no havia despegal-o da rua da Misericordia...

--E quando  esse casamento, por fim?

Joo Eduardo crou, disse vagamente:

--Nada decidido... Tem havido difficuldades.--E acrescentou com um
sorriso desconsolado:--Temos tido arrufos.

--Pieguices! soltou o typographo, com um movimento d'hombros, que
exprimia um desdem de revolucionario pelas frivolidades do sentimento.

--Pieguices... No sei se so pieguices, disse Joo Eduardo. O que sei 
que do desgostos... Arrasam um homem, Gustavo...

Calou-se, mordendo o beio, para recalcar a emoo que o revolvia.

Mas o typographo achava todas essas historias de mulheres ridiculas. O
tempo no estava para amores... O homem do povo, o operario que se
agarrava a uma saia para no despegar, era um inutil... era um vendido!
Em que se devia pensar no era em namoros: era em dar a liberdade ao
povo, livrar o trabalho das garras do capital, acabar com os monopolios,
trabalhar para a republica! No se queria lamuria, queria-se aco,
queria-se a fora!--E carregava furiosamente no _r_ da palavra--a
forrra!--agitando os seus pulsos magrissimos de tisico sobre o grande
prato d'iscas que o moo trouxera.

Joo Eduardo, escutando-o, lembrava-se do tempo em que o typographo,
doido pela Julia padeira, apparecia sempre com os olhos vermelhos como
carves, e atroava a typographia com suspiros medonhos. A cada _ai_ os
camaradas, troando, davam uma tossesinha de garganta. Um dia mesmo,
Gustavo e o Medeiros tinham-se esmurrado no pateo...

--Olha quem falla! disse por fim. s como os outros... Ests ahi a
palrar, e quando te chega s como os outros.

O typographo ento--que, desde que em Lisboa frequentra um Club
democratico d'Alcantara e ajudra a redigir um manifesto aos irmos
cigarreiros em _grve_, se considerava exclusivamente votado ao servio
do Proletariado e da Republica--escandalisou-se. Elle? Elle como os
outros? Perder o seu tempo com saias?...

--Est vossa senhoria muito enganado!--E recolheu-se a um silencio
chocado, partindo com furor a sua isca.

Joo Eduardo receou tel-o offendido.

-- Gustavo, sejamos razoaveis: um homem pde ter os seus principios,
trabalhar pela sua causa, mas casar, arranjar o seu conchego, ter uma
famlia.

--Nunca! exclamou o typographo exaltado. O homem que casa est perdido!
D'ahi por diante  ganhar a papa, no se mexer do buraco, no ter um
momento para os amigos, passear de noite os marmanjos quando elles
berram com os dentes...  um inutil!  um vendido! As mulheres no
entendem nada de politica. Tm medo que o homem se metta em barulhos,
tenha turras com a policia... Est um patriota atado de ps e mos! E
quando ha um segredo a guardar? O homem casado no pde guardar um
segredo!... E ahi est s vezes uma revoluo compremettida... Sbo
p'r' familia! Outra de azeitonas, tio Osorio!

A pansa do tio Osorio appareceu entre os tabiques.

--Ento que esto os senhores aqui a questionar, que parece que entraram
os da _Maia_ no conselho de districto?

Gustavo atirou-se para o fundo do banco, de perna estirada, e
interpellando-o d'alto:

--O tio Osorio  que vai dizer. Diga l o amigo. Vossemec era homem de
mudar as suas opinies politicas para fazer a vontade  sua patra?

O tio Osorio acariciou o cachao e disse com um tom finorio:

--Eu lhe respondo, senhor Gustavo. Mulheres so mais espertas que ns...
E em politica, como em negocio, quem fr com o que ellas dizem vai pelo
seguro... Eu sempre consulto a minha, e se quer que lhe diga, j vai em
vinte annos e no me tenho achado mal.

Gustavo pulou no banco:

--Voss  um vendido! gritou.

O tio Osorio, acostumado quella expresso querida do typographo, no se
escandilisou; gracejou at, com o seu amor s boas rplicas:

--Vendido no direi, mas vendedor p'r' que quizer... Pois  o que lhe
digo, snr. Gustavo. O senhor casar, e depois m'as contar.

--O que lhe hei de contar,  quando houver uma revoluo, entrar-lhe por
aqui d'espingarda ao hombro, e mettel-o em conselho de guerra, seu
capitalista!

--Pois emquanto isso no chega  beber-lhe e beber-lhe rijo, disse o tio
Osorio retirando-se com pachorra.

--Hippopotamo! resmungou o typographo.

E, como adorava discusses, recomeou logo--sustentando que o homem,
embeiado por uma saia, no tem firmeza nas suas convices politicas...

Joo Eduardo sorria tristemente, n'uma negao muda, pensando comsigo
que, apesar da sua paixo por Amelia, no se tinha confessado nos dois
ultimos annos!

--Tenho provas! berrava Gustavo.

Citou um livre-pensador das suas relaes que, para manter a paz
domestica, se sujeitava a jejuar s sextas-feiras, e a palmilhar aos
domingos o caminho da capella de ripano debaixo do brao...

--E  o que te ha de succeder!... Tu tens idas menos ms a respeito de
religio, mas ainda te hei de vr d'opa vermelha e cirio na mo na
procisso do Senhor dos Passos... Philosophia e atheismo no custam nada
quando se conversa no bilhar entre rapazes... Mas pratical-os em
familia, quando se tem uma mulher bonita e devota,  o diabo!  o que te
ha de succeder, se  que te no vai succedendo j: has de atirar as tuas
convices liberaes para o caixo do cisco, e fazer barretadas ao
confessor da casa!

Joo Eduardo fazia-se escarlate de indignao. Mesmo nos tempos da sua
felicidade, quando tinha Amelia certa, aquella accusao (que o
typographo fazia s para questionar, para palrar) tel-o-hia
escandalisado. Mas hoje! Justamente quando elle perdera Amelia por ter
dito d'alto, n'um jornal, o seu horror a beatos! Hoje que se achava
alli, com o corao partido, roubado de toda a alegria, exactamente
pelas suas opinies liberaes!...

--Isso dito a mim tem graa! disse com uma amargura sombria.

O typographo galhofou:

--Homem, no me constou ainda que fosses um _martyr da liberdade_!

--Por quem s no me apoquentes, Gustavo, disse o escrevente muito
chocado. Tu no sabes o que se tem passado. Se soubesses no me dizias
isso...

Contou-lhe ento a historia do _Communicado_--calando todavia que o
escrevera n'um fogo de ciumes, e apresentando-o como uma pura affirmao
de principios... E que notasse esta circumstancia, ia ento casar com
uma rapariga devota, n'uma casa que era mais frequentada por padres que
a sacristia da S...

--E assignaste? perguntou Gustavo, espantado da revelao.

--O doutor Godinho no quiz, disse o escrevente crando um pouco.

--E dste-lhes uma desanda, hein?

--A todos, de rachar!

O typographo, enthusiasmado, berrou por outra de tinto!

Encheu os copos com transporte, bebeu uma grande saude a Joo Eduardo.

--Caramba, quero vr isso! Quero mandal-o  rapaziada em Lisboa!... E
que effeito fez?

--Um escandalo mestre.

--E os padrecas?

--Em braza!

--Mas como souberam que eras tu?

Joo Eduardo encolheu os hombros. O Agostinho no o dissera. Desconfiava
da mulher do Godinho, que o sabia pelo marido, e que o fra metter no
bico do padre Silverio, seu confessor, o padre Silverio da rua das
Therezas...

--Um gordo, que parece hydropico?

--Sim.

--Que bsta! rugiu o typographo com rancor.

Olhava agora Joo Eduardo com respeito, aquelle Joo Eduardo que se lhe
revelava inesperadamente um paladino do livre-pensamento.

--Bebe, amigo, bebe!--dizia-lhe, enchendo-lhe o copo com affecto, como
se aquelle esforo heroico de liberalismo necessitasse ainda, depois de
tantos dias, reconfortos excepcionaes.

E que se tinha passado? Que tinha dito a gente da rua da Misericordia?

Tanto interesse commoveu Joo Eduardo: e d'um flego fez a sua
confidencia. Mostrou-lhe mesmo a carta d'Amelia que ella decerto,
coitada, fra levada a escrever n'um terror do inferno, sob a presso
dos padres furiosos...

--E aqui tens a victima que eu sou, Gustavo!

Era-o com effeito; e o typographo considerava-o com uma admirao
crescente. J no era o _Pacatinho_, o escrevente do Nunes, o chichisbo
da rua da Misericordia--era uma _victima das perseguies religiosas_.
Era a primeira que o typographo via; e, apesar de no lhe apparecer na
attitude tradicional das estampas de propaganda, amarrado a um poste de
fogueira ou fugindo com a familia espavorida a soldados que galopam da
sombra do ultimo plano, achava-o interessante. Invejava-lhe secretamente
aquella honra social. Que _chic_ que lhe daria a elle entre a rapaziada
d'Alcantara! Famosa pechincha, ser uma _victima da reaco_ sem perder o
conforto das iscas do tio Osorio e os salarios inteiros ao sabbado!--Mas
sobretudo o procedimento dos padres enfurecia-o! Para se vingarem d'um
liberal, intrigarem-no, tiraram-lhe a noiva!--Oh, que canalha!... E
esquecendo os seus sarcasmos ao Casamento e  Familia, trovejou d'alto
contra o clero, que  quem sempre destroe essa instituio social,
perfeita, d'origem divina!

--Isso precisa uma vingana medonha, menino!  necessario arrasal-os!

Uma vingana? Joo Eduardo desejava-a, vorazmente! Mas qual?

--Qual? Contar tudo no _Districto_, n'um artigo tremendo!

Joo Eduardo citou-lhe as palavras do doutor Godinho: d'alli por diante
o _Districto_ estava fechado aos senhores livre-pensadores!

--Cavalgadura! rugiu o typographo.

Mas tinha uma ida, caramba! Publicar um folheto! Um folheto de vinte
paginas, o que se chama no Brazil uma _mofina_, mas n'um estylo floreado
(elle se encarregava d'isso), cahindo sobre o clero com um desabamento
de verdades mortaes!

Joo Eduardo enthusiasmou-se. E diante d'aquella sympathia activa de
Gustavo, vendo n'elle um irmo, soltou as ultimas confidencias, as mais
dolorosas. O que havia no fundo da intriga era a paixo do padre Amaro
pela pequena, e era para se apoderar d'ella que o escorraava a elle...
O inimigo, o malvado, o carrasco--era o parocho!

O typographo apertou as mos na cabea: semelhante caso (que todavia era
para elle trivial, nas locaes que compunha) succedido a um amigo seu que
estava alli bebendo com elle, a um democrata, parecia-lhe monstruoso,
alguma coisa semelhante aos furores de Tiberio na velhice, violando, em
banhos perfumados, as carnes delicadas de mancebos patricios.

No queria acreditar. Joo Eduardo accumulou as provas. E ento Gustavo,
que tinha molhado vastamente de tinta as iscas de figado, ergueu os
punhos fechados, e com a face entumecida, dente rilhado, berrou em
rouco:

--Abaixo a religio!

Do outro lado do tabique uma voz trocista grasnou em rplica:

--Viva Pio Nono!

Gustavo ergueu-se para ir esbofetear o entremettido. Mas Joo Eduardo
socegou-o. E o typographo, sentando-se tranquillamente, rechupou o fundo
do copo.

Ento, com os cotovlos sobre a mesa, a garrafa entre elles, conversaram
baixo, de rosto a rosto, sobre o plano do folheto. A coisa era facil:
escrevel-o-hiam ambos. Joo Eduardo queria-o em frma de romance,
d'enredo negro, dando ao personagem do parocho os vicios e as
perversidades de Caligula e d'Hellogabalo. O typographo porm queria um
livro philosophico, de estylo e de principios, que **demolisse** d'uma
vez para sempre o Ultramontanismo! Elle mesmo se encarregava de imprimir
a obra aos seres, _gratis_, j se sabe.--Mas appareceu-lhes ento,
bruscamente, uma difficuldade.

--O papel? Como se ha de arranjar o papel?

Era uma despeza de nove ou dez mil reis; nenhum os tinha--nem um amigo
que, por dedicao aos principios, lh'os adiantasse.

--Pede-os ao Nunes por conta do teu ordenado! lembrou vivamente o
typographo.

Joo Eduardo coou desconsoladamente a cabea. Estava justamente
pensando no Nunes e na sua indignao de devoto, de membro da junta de
parochia, d'amigo do chantre, apenas lsse o pamphleto! E se soubesse
que era o seu escrevente que o compuzera, com as pennas do cartorio, no
papel almao do cartorio... Via-o j rxo de clera, alando sobre o
bico dos sapatos brancos a sua pessoa gordalhufa, e gritando na voz de
grillo:--Fra d'aqui, pedreiro-livre, fra d'aqui!

--Ficava eu bem arranjado, disse Joo Eduardo muito srio, nem mulher
nem po!

Isto fez lembrar tambem a Gustavo a clera provavel do doutor Godinho,
dono da typographia. O doutor Godinho, que depois da reconciliao com a
gente da rua da Misericordia, retomra publicamente a sua consideravel
posio de pilar da Igreja e esteio da F...

-- o diabo, pde-nos sahir caro, disse elle.

-- impossivel! disse o escrevente.

Ento praguejaram de raiva. Perder uma occasio d'aquellas para pr a
calva  mostra ao clero!

O plano do folheto, como uma columna tombada que parece maior,
afigurava-se-lhes, agora que estava derrubado, d'uma altura, d'uma
importancia colossal. No era j a demolio local d'um parocho
scelerado, era a ruina, ao longe e ao largo, de todo o clero, dos
jesuitas, do poder temporal, de outras coisas funestas...--Maldio! se
no fosse o Nunes, se no fosse o Godinho, se no fossem os nove mil
reis do papel...

Aquelle perpetuo obstaculo do pobre, falta de dinheiro e dependencia do
patro, que at para um folheto era estorvo, revoltou-os contra a
sociedade.

--Positivamente  necessario uma revoluo! affirmou o typographo. 
necessario arrasar tudo, tudo!--E o seu largo gesto sobre a mesa
indicava, n'um formidavel nivelamento social, uma demolio de igrejas,
palacios, bancos, quarteis e predios de Godinhos!--Outra do tinto, tio
Osorio!...

Mas o tio Osorio no apparecia. Gustavo martellou a mesa a toda a fora
com o cabo da faca. E emfim, furioso, sahiu fra ao contador para
arrebentar a pansa quelle vendido que fazia assim esperar um cidado.

Encontrou-o desbarretado, radiante, conversando com o baro de
Via-Clara, que, em vesperas d'eleies, vinha pelas casas de pasto
apertar a mo aos compadres. E alli na taberna, parecia magnifico o
baro, com a sua luneta d'ouro, os botins de verniz sobre o slo terreo,
tossicando ao cheiro acre do azeite fervido e das emanaes das borras
de vinho.

Gustavo, avistando-o, recolheu discretamente ao cubiculo.

--Est com o baro, disse n'uma surdina respeitosa.

Mas vendo Joo Eduardo aniquilado, com a cabea entre os punhos, o
typographo exhortou-o a no esmorecer. Que diabo! No fim, livrava-se de
casar com uma beata...

--No me poder vingar d'aquelle maroto! interrompeu Joo Eduardo com um
repello no prato.

--No te afflijas, prometteu o typographo com solemnidade, que a
vingana no vem longe!

Fez-lhe ento, baixo, a confidencia das coisas que se preparavam em
Lisboa. Tinham-lhe afianado que havia um club republicano a que at
pertenciam figures--o que era para elle uma garantia superior de
triumpho. Alm d'isso, a rapaziada do trabalho mexia-se... Elle mesmo--e
murmurava quasi contra a face de Joo Eduardo, estirado sobre a
mesa--fra fallado para pertencer a uma seco da Internacional, que
devia organisar um hespanhol de Madrid; nunca vira o hespanhol, que se
disfarava por causa da policia; e a coisa falhra porque o _Comit_
tinha falta de fundos... Mas era certo haver um homem, que possuia um
talho, que promettera cem mil reis... O exercito, alm d'isso, estava na
coisa: tinha visto n'uma reunio um sujeito barrigudo que lhe tinham
dito que era major, e que tinha cara de major...--De modo que, com todos
estes elementos, a opinio d'elle Gustavo, era que dentro de mezes,
governo, rei, fidalgos, capitalistas, bispos, todos esses monstros iam
pelos ares!

--E ento somos ns os reisinhos, menino! Godinho, Nunes, toda a cambada
ferramol-a na enxovia de S. Francisco. Eu a quem me atiro  ao
Godinho... Padres, derreamol-os  pancada! E o povo respira, emfim!

--Mas d'aqui at l! suspirou Joo Eduardo, que pensava com amargura que
quando a revoluo viesse j seria tarde para recuperar a Ameliasinha...

O tio Osorio ento appareceu com a garrafa.

--Ora at que emfim, seu fidalgo! disse o typographo a trasbordar de
sarcasmo.

--No se pertence  classe, mas -se tratado por ella com considerao,
replicou logo o tio Osorio, a quem a satisfao fazia parecer mais
pansudo.

--Por causa de meia duzia de votos!

--Dezoito na freguezia, e esperanas de dezenove. E que se ha de servir
mais aos cavalheiros? Nada mais? Pois  pena. Ento  beber-lhe, 
beber-lhe!

E correu a cortina, deixando os dois amigos em frente da garrafa cheia,
aspirarem a uma Revoluo que lhes permittisse--a um rehaver a menina
Amelia, a outro espancar o patro Godinho.

Eram quasi cinco horas quando sahiram emfim do cubiculo. O tio Osorio,
que se interessava por elles por serem rapazes d'instruco, notou logo,
examinando-os do canto do balco onde saboreava o seu _Popular_, que
vinham tocaditos. Joo Eduardo, sobretudo, de chapo carregado e beio
trombudo: pessoa de mau vinho, pensou o tio Osorio, que o conhecia
pouco. Mas o snr. Gustavo, como sempre, depois dos seus tres litros,
resplandecia de jubilo. Grande rapaz! Era elle que pagava a conta; e
gingando para o balco, batendo d'alto com as suas duas placas:

--Encafua mais essas na burra, Osorio pipa!

--O que  pena  que sejam s duas, snr. Gustavo.

--Ah bandido! imaginas que o suor do povo, o dinheiro do trabalho  para
encher a pansa dos Philistinos? Mas no as perdes! Que no dia do ajuste
de contas quem ha de ter a honra de te furar esse bandulho ha de ser c
o Bibi... E o Bibi sou eu... Eu  que sou o Bibi! No  verdade, Joo,
quem  o Bibi?

Joo Eduardo no o escutava: muito carrancudo, olhava com desconfiana
um borracho, que na mesa do fundo, diante do seu litro vazio, com o
queixo na palma da mo e o cachimbo nos dentes, embasbacra,
maravilhado, para os dois amigos.

O typographo puxou-o para o balco:

--Dize aqui ao tio Osorio quem  o Bibi! Quem  o Bibi?... Olhe p'ra
isto, tio Osorio! Rapaz de talento, e dos bons! Veja-me isto! Com duas
pennadas d cabo do ultramontanismo!  c dos meus! Tambem entre ns 
p'r' vida e p'r' morte. Deixa l a conta, Osorio barrigudo, ouve o que
te digo! Este  dos bons... E se elle aqui voltar e quizer dois litros a
credito,  dar-lh'os... C o Bibi responde por tudo.

--Temos pois, comeou o tio Osorio, iscas a dois, salada a dois...

Mas o borracho arrancra-se com esforo ao seu banco: de cachimbo
espetado, arrotando forte, veio plantar-se diante do typographo, e,
tremeleando nas pernas, estendeu-lhe a mo aberta.

Gustavo considerou-o d'alto, com nojo:

--Que quer voss? Aposto que foi voss que berrou ha pouco Viva Pio
Nono? Seu vendido... Tire p'ra l a pata!

O borracho, repellido, grunhiu; e, embicando contra Joo Eduardo,
offereceu-lhe a mo espalmada.

--Arrede p'ra l, seu animal! disse-lhe o escrevente desabrido.

--Tudo amizade... Tudo amizade... resmungava o borracho.

E no se arredava, com os cinco dedos muito espetados, despedindo um
halito fetido.

Joo Eduardo, furioso, atirou-o de repello contra o contador.

--Brincadeiras de mos, no! exclamou logo severamente o tio Osorio.
Brutalidades, no!

--Que se no mettesse commigo, rosnou o escrevente. E a voss fao-lhe o
mesmo...

--Quem no tem decencia vai p'r' rua, disse muito grave o tio Osorio.

--Quem vai p'r' rua, quem vai p'r' rua? rugiu o escrevente,
empinando-se, de punho fechado. Repita l isso d'ir p'r' rua! Com quem
est voss a fallar?

O tio Osorio no replicava, apoiado sobre as mos ao balco, patenteando
os seus enormes braos que lhe faziam o estabelecimento respeitado.

Mas Gustavo, com auctoridade, poz-se entre os dois, e declarou que era
necessario ser-se cavalheiro! Questes e ms palavras, no! Podia-se
chalacear e troar os amigos, mas como cavalheiros! E alli s havia
cavalheiros!

Arrastou para um canto o escrevente, que resmungava muito resentido.

--Oh, Joo! oh, Joo! dizia-lhe com grandes gestos, isso no  d'um
homem illustrado!

Que diabo! Era necessario ter-se boas maneiras! Com repentes, com vinho
desordeiro, no havia pandega, nem sociedade, nem fraternidade!

Voltou ao tio Osorio, fallando-lhe sobre o hombro, excitado:

--Eu respondo por elle, Osorio!  um cavalheiro! Mas tem tido desgostos,
e no est acostumado a um litro de mais.  o que ! Mas  dos bons...
Voss desculpe, tio Osorio. Que eu respondo por elle...

Foi buscar o escrevente, persuadiu-o a apertar a mo ao tio Osorio. O
taberneiro declarou com emphase que no quizera insultar o cavalheiro.
Os _shake-hands_ ento succederam-se com vehemencia. Para consolidar a
reconciliao, o typographo pagou tres canas brancas. Joo Eduardo,
por brio, offereceu tambem um giro de cognac. E com os copos em fila
sobre o balco, trocavam boas palavras, tratavam-se de
cavalheiros--emquanto o borracho, esquecido ao seu canto, derreado para
cima da mesa, a cabea sobre os punhos e o nariz sobre o litro, se
babava silenciosamente, com o cachimbo cravado nos dentes.

--D'isto  que eu gsto! dizia o typographo a quem a aguardente
augmentra a ternura. Harmonia! C o meu fraco  a harmonia! Harmonia
entre a rapaziada e entre a humanidade... O que eu queria era vr uma
grande mesa, e toda a humanidade sentada n'um banquete, e fogo preso, e
chalaa, e decidirem-se as questes sociaes! E o dia no vem longe em
que voss o ha de vr, tio Osorio!... Em Lisboa as coisas vo-se
preparando p'ra isso. E o tio Osorio  que ha de fornecer o vinho...
Hein, que negociosinho! Diga que no sou amigo!

--Obrigado, snr. Gustavo, obrigado...

--Isto aqui entre ns, hein, que somos todos cavalheiros! E c
este--abraava Joo Eduardo-- como se fosse irmo! Entre ns  p'r'
vida e p'r' morte! E  mandar a tristeza ao diabo, rapaz! Toca a
escrever o folheto... O Godinho, e o Nunes...

--O Nunes racho-o! soltou com fora o escrevente, que, depois das
saudes com cana, parecia mais sombrio.

Dois soldados entraram ento na taberna--e Gustavo julgou que eram horas
d'ir para a typographia. Seno, no se haviam de separar todo o dia, no
se haviam de separar toda a vida!... Mas o trabalho  dever, o trabalho
 virtude!

Sahiram, emfim, depois de mais _shake-hands_ com o tio Osorio.  porta,
Gustavo jurou ainda ao escrevente uma lealdade d'irmo; obrigou-o a
aceitar a sua bolsa de tabaco; e desappareceu  esquina da rua, de
chapo para a nuca, trauteando o _Hymno do trabalho_.


Joo Eduardo, s, abalou logo para a rua da Misericordia. Ao chegar 
porta da S. Joanneira, apagou com cuidado o cigarro na sola do sapato, e
deu um puxo tremendo ao cordo da campainha.

A _Rua_ veio, correndo.

--A Ameliasinha? Quero-lhe fallar!

--As senhoras sahiram, disse a _Rua_ espantada do modo do snr.
Joosinho.

--Mente, sua bebeda! berrou o escrevente.

A rapariga, aterrada, fechou a porta d'estalo.

Joo Eduardo foi-se encostar  parede defronte, e ficou alli, de braos
cruzados, observando a casa: as janellas estavam fechadas, as cortinas
de cassa corridas: dois lenos de rap do conego seccavam em baixo na
varanda.

Aproximou-se de novo e bateu devagarinho a aldrava. Depois repicou com
furor a campainha. Ninguem appareceu: ento, indignado, partiu para os
lados da S.

Ao desembocar no largo, diante da fachada da igreja, parou, procurando
em redor com o sobr'olho carregado: mas o largo parecia deserto;  porta
da pharmacia do Carlos um rapazito, sentado no degrau, guardava pela
arreata um burro carregado de herva; aqui e alm, gallinhas iam picando
o cho vorazmente; o porto da igreja estava fechado; e apenas se ouvia
o ruido de martelladas n'uma casa ao p em que havia obras.

E Joo Eduardo ia seguir para os lados da Alameda--quando appareceram no
terrao da igreja, da banda da sacristia, o padre Silverio e o padre
Amaro, conversando, devagar.

Batia ento um quarto na torre, e o padre Silverio parou a acertar o seu
_cebolo_. Depois os dois padres observaram maliciosamente a janella da
administrao, de vidraas abertas, onde se via, no escuro, o vulto do
senhor administrador de binoculo cravado para a casa do Telles alfaiate.
E desceram emfim a escadaria da S, rindo d'hombro a hombro, divertidos
com aquella paixo que escandalisava Leiria.

Foi ento que o parocho viu Joo Eduardo que estacra no meio do largo.
Parou para voltar  S decerto, evitar o encontro; mas viu o porto
fechado, e ia seguir d'olhos baixos, ao lado do bom Silverio que tirava
tranquillamente a sua caixa de rap,--quando Joo Eduardo,
arremessando-se, sem uma palavra, atirou a toda a fora um murro ao
hombro d'Amaro.

O parocho, aturdido, ergueu frouxamente o guardachuva.

--Acudam! berrou logo o padre Silverio, recuando de braos no ar.
Acudam!

Da porta da administrao um homem correu, agarrou furiosamente o
escrevente pela gola:

--Est preso! rugia. Est preso!

--Acudam, acudam! berrava Silverio a distancia.

Janellas no largo abriam-se  pressa. A Amparo da botica, em saia
branca, appareceu  varanda, espavorida; o Carlos precipitra-se do
laboratorio em chinelas; e o senhor administrador, debruado na sacada,
bracejava, com o binoculo na mo.

Emfim o escrivo da administrao, o Domingos, compareceu, muito grave,
de mangas de lustrina enfiadas: e com o cabo de policia levou logo para
a administrao o escrevente, que no resistia, todo pallido...

O Carlos, esse, apressou-se a conduzir o senhor parocho para a botica;
fez preparar, com estrepito, flr de laranja e ether; gritou pela
esposa, para arranjar uma cama... Queria examinar o hombro de sua
senhoria: haveria intumecencia?

--Obrigado, no  nada, dizia o parocho muito branco. No  nada. Foi um
raspo. Basta-me uma gota d'agua...

Mas a Amparo achava melhor um calix de vinho do Porto; e correu acima a
buscar-lh'o, tropeando nos pequenos que se lhe penduravam das saias,
dando ais, explicando pela escada  criada que tinham querido matar o
senhor parocho!

 porta da botica juntra-se gente, que embascava para dentro; um dos
carpinteiros que trabalhavam nas obras affirmava que fra uma facada;
e uma velha por traz debatia-se, de pescoo esticado, para vr o
_sangue_. Emfim, a pedido do parocho, que receava escandalo, o Carlos
veio magestosamente declarar que no queria motim  porta! O senhor
parocho estava melhor. Fra apenas um sco, um raspo de mo... Elle
respondia por sua senhoria.

E, como o burro ao lado comera a ornear, o pharmaceutico voltando-se
indignado para o rapazito que o segurava pela arreata:

--E tu no tens vergonha, no meio d'um desgosto d'estes, um desgosto
para toda a cidade, de ficar aqui com esse animal, que no faz seno
zurrar! Para longe, insolente, para longe!

Aconselhou ento os dois sacerdotes a que subissem para a sala, para
evitar a curiosidade da populaa. E a boa Amparo appareceu logo com
dois calices do Porto, um para o senhor parocho, outro para o senhor
padre Silverio que se deixra cahir a um canto do canap, apavorado
ainda, extenuado d'emoo.

--Tenho cincoenta e cinco annos, disse elle depois de ter chupado a
ultima gota de _porto_, e  a primeira vez que me vejo n'um barulho!

O padre Amaro, mais socegado agora, affectando bravura, chasqueou o
padre Silverio:

--Voss tomou o caso muito ao tragico, collega... E l ser a primeira,
vamos l... Todos sabem que o collega esteve pegado com o Natario...

--Ah, sim, exclamou o Silverio, mas isso era entre sacerdotes, amigo!

Mas a Amparo, ainda muito tremula, enchendo outro calix ao senhor
parocho, quiz saber os particulares, todos os particulares...

--No ha particulares, minha senhora, eu vinha aqui com o collega...
Vinhamos cavaqueando... O homem chegou-se a mim, e, como eu estava
desprevenido, deu-me um raspo no hombro.

--Mas porqu? porqu? exclamou a boa senhora, apertando as mos, n'um
assombro.

O Carlos ento deu a sua opinio. Ainda havia dias, elle dissera, diante
da Amparosinho e de D. Josepha, a irm do respeitavel conego Dias, que
estas idas de materialismo e atheismo estavam levando a mocidade aos
mais perniciosos excessos... E mal sabia elle ento que estava
prophetisando!

--Vejam vossas senhorias este rapaz! Comea por esquecer todos os
deveres de christo (assim nol-o affirmou D. Josepha), associa-se com
bandidos, achincalha os dogmas nos botequins... Depois (sigam vossas
senhorias a progresso), no contente com estes extravios, publica nos
periodicos ataques abjectos contra a **religio**... E emfim, possuido
de uma vertigem d'atheismo, atira-se, diante mesmo da cathedral, sobre
um sacerdote exemplar (no  por vossa senhoria estar presente) e tenta
assassinal-o! Ora, pergunto eu, o que ha no fundo de tudo isto? Odio,
puro odio  religio de nossos paes!

--**Infelizmente** assim , suspirou o padre Silverio.

Mas a Amparo, indifferente s causas philosophicas do delicto, ardia na
curiosidade de saber o que se passaria na administrao, o que diria o
escrevente, se o teriam posto a ferros... O Carlos promptificou-se logo
a ir averiguar.

De resto, disse elle, era o seu dever, como homem de sciencia,
esclarecer a justia sobre as consequencias que **podia ter** trazido um
murro, a fora de brao, na regio delicada da clavicula... (ainda que,
louvado Deus, no havia fractura, nem inchao), e sobretudo queria
revelar  auctoridade, para que ella tomasse as suas providencias, que
aquella tentativa d'espancamento no provinha de vingana pessoal. Que
podia ter feito o senhor parocho da S ao escrevente do Nunes? Provinha
d'uma vasta conspirao d'atheus e republicanos contra o sacerdocio de
Christo!

--Apoiado, apoiado! disseram os dois sacerdotes gravemente.

--E  o que eu vou provar cabalmente ao senhor administrador do
concelho!

Na sua precipitao zelosa de conservador indignado, ia mesmo de
chinelas e quinzena de laboratorio: mas Amparo alcanou-o no corredor:

--Oh, filho! a sobrecasaca, pe a sobrecasaca ao menos, que o
administrador  de ceremonia!

Ella mesmo lha ajudou a enfiar, emquanto o Carlos, com a imaginao
trabalhando viva (aquella desgraada imaginao que, como elle dizia,
at s vezes lhe dava dres de cabea), ia preparando o seu depoimento,
que faria ruido na cidade. Fallaria de p. Na saleta da administrao
seria um apparato judicial:  sua mesa, o senhor administrador, grave
como a personificao da Ordem; em redor os amanuenses, activos sobre o
seu papel sellado; e o ro, defronte, na attitude tradicional dos
criminosos politicos, os braos cruzados sobre o peito, a fronte alta
desafiando a morte. Elle, Carlos, ento, entraria e diria: _Senhor
administrador, aqui venho espontaneamente pr-me ao servio da vindicta
social_!

--Hei de lhes mostrar, com uma logica de ferro, que  tudo resultado
d'uma conspirao do racionalismo. Pdes estar certa, Amparosinho,  uma
conspirao do racionalismo! disse, puxando, com um gemido d'esforo, as
presilhas dos botins de cano.

--E repara se elle falla da pequena, da S. Joanneira...

--Hei de tomar notas. Mas no se trata da S. Joanneira. Isto  um
processo politico!

Atravessou o largo magestosamente, certo que os visinhos, pelas portas,
murmuravam: _L vai o Carlos depr_... Ia depr, sim, mas no sobre o
murro no hombro de sua senhoria. Que importava o murro? O grave era o
que estava por traz do murro--uma conspirao contra a Ordem, a Igreja,
a Carta e a Propriedade!  o que elle provaria d'alto ao senhor
administrador. Este murro, excellentissimo senhor,  o primeiro excesso
d'uma grande revoluo social!

E empurrando o batente de baeta que dava accesso para a administrao do
concelho de Leiria, ficou um momento com a mo no ferrolho, enchendo o
vo da porta da pompa da sua pessoa. No, no havia o apparato judicial
que elle concebera. O ro l estava, sim, pobre Joo Eduardo, mas
sentado  beira do banco, com as orelhas em braza, olhando estupidamente
o soalho. Arthur Couceiro, embaraado com a presena d'aquelle intimo
dos seres da S. Joanneira, alli no assento dos presos, para o no olhar
fixra o nariz sobre o immenso copiador d'officios, onde desdobrra o
_Popular_ da vespera. O amanuense Pires, de sobrancelhas muito erguidas
e muito srias, embebia-se na ponta da penna de pato que aparava sobre a
unha. O escrivo Domingos, esse, sim, vibrava d'actividade! O seu lapis
rascunhava com furor; o processo estava-se decerto apressando; era tempo
de trazer a sua ida... E o Carlos ento adiantando-se:

--Meus senhores! O senhor administrador?

Justamente a voz de sua excellencia chamou de dentro do seu gabinete:

-- snr. Domingos?

O escrivo perfilou-se, puxando os oculos para a testa.

--Senhor administrador!

--O senhor tem phosphoros?

O Domingos procurou anciosamente pela algibeira, na gaveta, entre os
papeis...

--Algum dos senhores tem phosphoros?

Houve um rebuscar de mos sobre a mesa... No, no havia phosphoros.

-- snr. Carlos, o senhor tem phosphoros?

--No tenho, snr. Domingos. Sinto.

O senhor administrador appareceu ento, ageitando as suas lunetas de
**tartaruga**:

--Ninguem tem phosphoros, hein?  extraordinario que no haja aqui nunca
phosphoros! Uma repartio d'estas sem um phosphoro... Que fazem os
senhores aos phosphoros? Mande buscar por uma vez meia duzia de caixas!

Os empregados olhavam-se consternados d'essa falta flagrante no material
do servio administrativo. E o Carlos, apoderando-se logo da presena e
da atteno de sua excellencia:

--Senhor administrador, eu aqui venho... Aqui venho solicito e
espontaneo, por assim dizer...

--Diga-me uma coisa, snr. Carlos, interrompeu a auctoridade. O parocho e
o outro ainda esto l na botica?

--O senhor parocho e o senhor padre Silverio ficaram com minha esposa a
repousar da commoo que...

--Tem a bondade de lhes ir dizer que so c precisos...

--Eu estou  disposio da lei.

--Que venham quanto antes... So cinco horas e meia, queremo-nos ir
embora! Vejam que massada tem sido esta aqui, todo o dia! A repartio
fecha-se s tres!

E sua excellencia, rodando sobre os taces, foi debruar-se  sacada do
seu gabinete--quella sacada d'onde elle diariamente, das onze s tres,
retorcendo o bigode louro e entesando o plastron azul, depravava a
mulher do Telles.

O Carlos abria j o batente verde, quando um _pst_ do Domingos o deteve.

-- amigo Carlos--e o sorrisinho do escrivo tinha uma supplicao
tocante--desculpe, hein? Mas... Traz-me de l uma caixita de phosphoros?

N'este momento  porta apparecia o padre Amaro; e por traz a massa
enorme do Silverio.

--Eu desejava fallar ao senhor administrador em particular, disse Amaro.

Todos os empregados se ergueram; Joo Eduardo tambem, branco como a cal
do muro. O parocho, com as suas passadas subtis d'ecclesiastico,
atravessou a repartio, seguido do bom Silverio que ao passar diante do
escrevente descreveu d'esguelha um semi-circulo cauteloso, com terror ao
ro; o senhor administrador acudira a receber suas senhorias; e a porta
do gabinete fechou-se discretamente.

--Temos composio, rosnou o experiente Domingos, piscando o olho aos
collegas.

O Carlos sentra-se descontente. Viera alli para esclarecer a
auctoridade sobre os perigos sociaes que ameaavam Leiria, o Districto e
a Sociedade, para ter o seu papel n'aquelle processo, que, segundo elle,
era um processo politico--e alli estava calado, esquecido, no mesmo
banco ao lado do ro! Nem lhe tinham offerecido uma cadeira! Seria
realmente intoleravel que as coisas se arranjassem entre o parocho e o
administrador sem o consultarem a elle! Elle, o unico que percebera
n'aquelle murro dado no hombro do padre--no o punho do escrevente, mas
a mo do Racionalismo! Aquelle desdem pelas suas luzes parecia-lhe um
erro funesto na administrao do Estado. Positivamente o administrador
no tinha a capacidade necessaria para salvar Leiria dos perigos da
revoluo! Bem se dizia na Arcada--era uma bambocha!

A porta do gabinete entreabriu-se, e as lunetas do administrador
reluziram.

-- snr. Domingos, faz favor, vem-nos fallar? disse sua excellencia.

O escrivo apressou-se com importancia; e a porta cerrou-se de novo,
confidencialmente. Ah! aquella porta, fechada diante d'elle, deixando-o
de fra, indignava o Carlos. Alli ficava, com o Pires, com o Arthur,
entre as intelligencias subalternas, elle que promettera  Amparosinho
fallar d'alto ao administrador! E quem era ouvido, e quem era chamado? O
Domingos, um animal notorio, que comeava _satisfao_ com um _c_
cedilhado! Que se podia de resto esperar d'uma auctoridade que passava
as manhs de binoculo a deshonrar uma familia? Pobre Telles, seu
visinho, seu amigo!... No, realmente devia fallar ao Telles!

Mas a sua indignao cresceu quando viu o Arthur Couceiro, um empregado
da repartio, na ausencia do seu chefe, erguer-se da sua escrivaninha,
vir familiarmente junto do ro, dizer-lhe com melancolia:

--Ah, Joo, que rapaziada, que rapaziada!... Mas a coisa arranja-se,
vers!

Joo tinha encolhido tristemente os hombros. Havia meia hora que alli
estava, sentado  beira d'aquelle banco, sem se mexer, sem despregar os
olhos do soalho, sentindo-se interiormente to vazio de idas, como se
lhe tivessem tirado os miolos. Todo o vinho, que na taberna do Osorio e
no largo da S lhe accendia na alma fogachos de clera, lhe retesava os
pulsos n'um desejo de desordem, parecia subitamente eliminado do seu
organismo. Sentia-se agora to inoffensivo como quando no cartorio
aparava cautelosamente a sua penna de pato. Um grande cansao
entorpecia-o; e alli esperava, sobre o banco, n'uma inercia de todo o
seu sr, pensando estupidamente que ia viver para uma enxovia em S.
Francisco, dormir n'uma palhoa, comer da Misericordia... No tornaria a
passear na Alameda, no veria mais Amelia... A casita em que vivia seria
alugada a outro... Quem tomaria conta do seu canario? Pobre animalzinho,
ia morrer de fome, decerto... A no ser que a Eugenia, a visinha, o
recolhesse...

O Domingos de repente sahiu do gabinete de sua excellencia, e fechando
vivamente a porta sobre si, em triumpho:

--Que lhes dizia eu? Composio! Arranjou-se tudo!

E para Joo Eduardo:

--Seu felizo! Parabens! parabens!

O Carlos pensou que era aquelle o maior escandalo administrativo desde o
tempo dos Cabraes! E ia retirar-se enojado (como no quadro classico o
Stoico que se afasta d'uma orgia patricia) quando o senhor administrador
abriu a porta do seu gabinete. Todos se ergueram.

Sua excellencia deu dois passos na repartio, e revestido de gravidade,
distillando as palavras, com as lunetas cravadas no ro:

--O senhor padre Amaro, que  um sacerdote todo caridade e bondade,
veio-me expr... Emfim, veio-me supplicar que no dsse mais andamento a
este negocio... Sua senhoria com razo no quer vr o seu nome arrastado
nos tribunaes. Alm d'isso, como sua senhoria disse muito bem, a
religio, de que elle ... de que elle , posso dizel-o, a honra e o
modlo, impe-lhe o perdo da offensa... Sua senhoria reconhece que o
ataque foi brutal, mas frustrado... Alm d'isso parece que o senhor
estava bebedo...

Todos os olhos se fixaram em Joo Eduardo, que se fez escarlate. Aquillo
pareceu-lhe n'esse momento peor que a priso.

--Emfim, continuou o administrador, por altas consideraes que eu pesei
devidamente, tomo a responsabilidade de o soltar. Veja agora como se
porta. A auctoridade no o perde d'olho... Bem, pde ir com Deus!

E sua excellencia recolheu-se ao gabinete. Joo Eduardo ficou immovel,
como parvo.

--Posso ir, hein? balbuciou.

--P'r' China, p'ra onde quizer! _Liberus, libera, liberum!_ exclamou o
Domingos que, interiormente detestando padres, jubilava com aquelle
final.

Joo Eduardo olhou um momento em redor os empregados, o carrancudo
Carlos; duas lagrimas bailavam-lhe nas palpebras; de repente agarrou o
chapo e abalou.

--Poupa-se um rico trabalhinho! resumiu o Domingos, esfregando vivamente
as mos.

Immediatamente a papelada foi arrumada, aqui e alm,  pressa.  que era
tarde! O Pires recolhia as suas mangas de lustrina e a sua almofadinha
de vento. O Arthur enrolou os seus papeis de musica. E no vo da
janella, amuado, esperando ainda, o Carlos olhava sombriamente o largo.

Emfim os dois padres sahiram acompanhados at  porta pelo senhor
administrador, que, terminados os deveres publicos, reapparecia homem de
sociedade.--Ento porque no tinha o amigo Silverio vindo a casa da
baroneza de Via-Clara? Houvera um voltarete furibundo. O Peixoto levra
dois codilhos. Tinha dito blasphemias medonhas!... Criado de suas
senhorias. Estimava bem que tudo se tivesse harmonisado. Cuidado com o
degrau... s ordens de suas senhorias...

Ao voltar porm ao seu gabinete dignou-se parar diante da mesa do
Domingos, e retomando alguma solemnidade:

--A coisa passou-se bem.  um bocado irregular, mas sensata! Bem basta
j os ataques que ha contra o clero nos jornaes... A coisa podia fazer
barulho. O rapaz era capaz de dizer que tinham sido ciumes do padre, que
queria desinquietar a rapariga, etc.  mais prudente abafar a coisa...
Quanto mais que, segundo o parocho me provou, toda a influencia que elle
tem exercido na rua da Misericordia ou onde diabo , tem tido por fim
livrar a rapariga de casar com aquelle amigo, que, como se v,  um
bebedo e uma fera!

O Carlos roia-se. Todas aquellas explicaes eram dadas ao Domingos! A
elle, nada! Alli ficava, esquecido no vo da janella!

Mas no! Sua excellencia, de dentro do seu gabinete, chamou-o
mysteriosamente com o dedo.

Emfim! Precipitou-se, radiante, subitamente reconciliado com a
auctoridade.

--Eu estava para passar pela botica--disse-lhe o administrador baixo e
sem transio, dando-lhe um papel dobrado--para que me mandasse isto a
casa, hoje.  uma receita do doutor Gouva... Mas j que o amigo aqui
est...

--Eu tinha vindo para me pr  disposio da vindicta...

--Isso est acabado! interrompeu vivamente sua excellencia. No se
esquea, mande-me isso antes das seis.  para tomar ainda esta noite.
Adeus. No se esquea!

--No faltarei, disse sccamente o Carlos.

Ao entrar na botica, a sua clera flammejava. Ou elle no se chamava
Carlos, ou havia de mandar uma correspondencia tremenda ao _Popular_!...
Mas a Amparo, que lhe espreitra a volta da varanda, correu,
atirando-lhe as perguntas:

--Ento? Que se passou? O rapaz foi p'r' rua? Que disse elle? Como foi?

O Carlos fixava-a, com as pupillas chammejantes.

--No foi culpa minha, mas triumphou o materialismo! Elles o pagaro!

--Mas tu que disseste?

Ento, vendo os olhos da Amparo e os do praticante abertos para devorar
a citao do seu depoimento--o Carlos, tendo de resalvar a dignidade de
esposo e a superioridade de patro, disse laconicamente:

--Dei a minha opinio, com firmeza!

--E elle que disse, o administrador?

Foi ento que o Carlos, recordando-se, leu a receita que amarrotra na
mo. A indignao emmudeceu-o--vendo que era aquelle todo o resultado da
sua grande entrevista com a auctoridade!

--Que ? perguntou sfregamente a Amparo.

O que era? E no seu furor, desdenhando o segredo profissional e o bom
renome da auctoridade, o Carlos exclamou:

-- um frasco de xarope de Gibert para o senhor administrador! Ahi tem a
receita, snr. Augusto.

A Amparo, que, com alguma pratica de pharmacia, conhecia os beneficios
do mercurio, fez-se to escarlate como as fitas flammejantes que lhe
enfeitavam a cuia.


Toda essa tarde se fallou com excitao pela cidade da tentativa
d'assassinato de que estivera para ser victima o senhor parocho.
Algumas pessoas censuravam o administrador por no ter procedido: os
cavalheiros da opposio sobretudo, que viram na debilidade d'aquelle
funccionario uma prova incontestavel de que o governo ia, com os seus
desperdicios e as suas corrupes, levando o paiz a um abysmo!

Mas o padre Amaro, esse, era admirado como um santo. Que piedade! que
mansido! O senhor chantre mandou-o chamar  noitinha, recebeu-o
paternalmente com um viva o meu cordeiro paschal! E depois de escutar
a historia do insulto, a generosa interveno...

--Filho, exclamou, isso  alliar a mocidade de Telemacho  prudencia de
Mentor! Padre Amaro, voss era digno de ser sacerdote de Minerva na
cidade de Salento!

Quando Amaro entrou  noite em casa da S. Joanneira--foi como a
appario d'um santo escapo s feras do Circo ou  plebe de Diocleciano!
Amelia, sem disfarar a sua exaltao, apertou-lhe ambas as mos, muito
tempo, toda tremula, com os olhos humidos. Deram-lhe, como nos grandes
dias, a poltrona verde do conego. A snr.^a D. Maria da Assumpo quiz
mesmo que se lhe puzesse uma almofada para elle apoiar o hombro dorido.
Depois teve de contar miudamente toda a scena, desde o momento em que,
conversando com o collega Silverio (que se portra muito bem), avistra
o escrevente no meio do largo, de bengalo alado e ar de matamouros...

Aquelles detalhes indignavam as senhoras. O escrevente apparecia-lhes
peor que Longuinhos e que Pilatos. Que malvado! O senhor parocho devia-o
ter calcado aos ps! Ah! era d'um santo, ter perdoado!

--Fiz o que me inspirou o corao, disse elle baixando os olhos.
Lembrei-me das palavras de Nosso Senhor Jesus Christo: elle manda
offerecer a face esquerda depois de se ter sido esbofeteado na face
direita...

O conego, a isto, escarrou grosso e observou:

--Eu lhe digo. Eu, se me atirarem um bofeto  face direita... Emfim,
so ordens de Nosso Senhor Jesus Christo, offereo a face esquerda. So
ordens de cima!... Mas depois de ter cumprido esse dever de sacerdote,
oh, senhoras, desanco o patife!

--E doeu-lhe muito, senhor parocho? perguntou do canto uma vozinha
expirante e desconhecida.

Acontecimento extraordinario! Era a snr.^a D. Anna Gansoso que fallra
depois de dez longos annos de taciturnidade somnolenta! Aquelle torpor
que nada sacudira, nem festas, nem lutos, tinha emfim, sob um impulso de
sympathia pelo senhor parocho, uma vibrao humana!--Todas as senhoras
lhe sorriram, agradecidas, e Amaro, lisonjeado, respondeu com bondade:

--Quasi nada, snr.^a D. Anna, quasi nada, minha senhora... Que elle deu
de rijo! Mas eu sou de boa carnadura.

--Ai, que monstro! exclamou D. Josepha Dias, furiosa  ida do punho do
escrevente descarregado sobre aquelle hombro santo. Que monstro! Eu
queria-o vr com uma grilheta a trabalhar na estrada! Que eu  que o
conhecia! A mim nunca elle me enganou... Sempre lhe achei cara
d'assassino!

--Estava embriagado, homens com vinho... arriscou timidamente a S.
Joanneira.

Foi um clamor. Ai, que o no desculpasse! Parecia at sacrilegio! Era
uma fera, era uma fera!

E a exultao foi grande quando Arthur Couceiro, apparecendo, deu logo
da porta a novidade, a ultima: o Nunes mandra chamar o Joo Eduardo e
dissera-lhe (palavras textuaes): Eu, bandidos e malfeitores no os
quero no meu cartorio. Rua!

A S. Joanneira ento commoveu-se:

--Pobre rapaz, fica sem ter que comer...

--Que beba! que beba! gritou a snr.^a D. Maria da Assumpo.

Todos riram. S Amelia, curvada sobre a sua costura, se fizera muito
pallida, aterrada quella ida que Joo Eduardo teria talvez fome...

--Pois olhem, no acho caso para rir! disse a S. Joanneira.  at coisa
que me vai tirar o somno... Pensar que o rapaz ha de querer um bocado de
po e no ha de ter... Credo! No, isso no! E o senhor padre Amaro
desculpe...

Mas Amaro tambem no desejava que o rapaz cahisse em miseria! No era
homem de rancor, elle! E se o escrevente viesse  sua porta com
necessidade, duas ou tres placas (no era rico, no podia mais), mas
tres ou quatro placas dava-lh'as... Dava-lh'as de corao.

Tanta santidade fanatisou as velhas. Que anjo! Olhavam-n'o, babosas, com
as mos vagamente postas. A sua presena, como a d'um S. Vicente de
Paulo, exhalando caridade, dava  sala uma suavidade de capella: e a
snr.^a D. Maria da Assumpo suspirou de gozo devoto.

Mas Natario appareceu, radiante. Deu grandes apertos de mos em redor,
rompeu em triumpho:

--Ento j sabem? O **patife**, o assassino, escorraado de toda a parte
como um co! O Nunes expulsou-o do cartorio. O doutor Godinho disse-me
agora que no governo civil no punha elle os ps. Enterrado, demolido! 
um allivio p'r' gente de bem!

--E ao senhor padre Natario se deve! exclamou D. Josepha Dias.

Todos o reconheciam. Fra elle, com a sua habilidade, a sua labia, que
descobrira a perfidia de Joo Eduardo, salvra a Ameliasinha, Leiria, a
Sociedade.

--E em tudo o que pretender, o maroto, ha de me encontrar pela frente.
Emquanto elle estiver em Leiria no o largo! Que lhes disse eu, minhas
senhoras?... Eu  que o esmago! Pois ahi o tm esmagado!

A sua face biliosa resplandecia. Estirou-se na poltrona, regaladamente,
no repouso merecido de uma victoria difficil. E voltando-se para Amelia:

--E agora, o que l vai, l vai! Livrou-se de uma fera,  o que lhe
posso dizer!

Ento os louvores--que j lhe tinham repetido prolixamente desde que
ella rompera com a fera--recomearam, mais vivos:

--Foi a coisa de mais virtude que tens feito em toda a tua vida!

-- a graa de Deus que te tocou!

--Ests em graa, filha!

--Emfim  Santa Amelia, disse o conego erguendo-se, enfastiado
d'aquellas glorificaes. Pois parece-me que temos fallado bastante do
patife... Mande agora a senhora vir o ch, hein?

Amelia permanecia calada, cosendo  pressa; erguia s vezes rapidamente
para Amaro um olhar desassocegado; pensava em Joo Eduardo, nas ameaas
de Natario; e imaginava o escrevente com as faces encovadas de fome,
foragido, dormindo pelas portas dos casaes... E emquanto as senhoras se
accommodavam, palrando,  mesa do ch, ella pde dizer baixo a Amaro:

--No posso socegar com a ida que o rapaz soffra necessidades... Eu bem
sei que  um malvado, mas...  como um espinho c por dentro. Tira-me
toda a alegria.

O padre Amaro disse-lhe ento, com muita bondade, mostrando-se superior
 injuria, n'um alto espirito de caridade christ:

--Minha rica filha, so tolices... O homem no morre de fome. Ninguem
morre de fome em Portugal.  novo, tem saude, no  tolo, ha de se
arranjar... No pense n'isso... Aquillo  palavriado do padre Natario...
O rapaz naturalmente sae de Leiria, no tornamos a ouvir fallar
d'elle... E em toda a parte ha de ganhar a vida... Eu por mim
perdoei-lhe, e Deus ha de tomar isso em conta.

Estas palavras to generosas, ditas baixo, com um olhar amante,
tranquillisaram-na inteiramente. A clemencia, a caridade do senhor
parocho pareceram-lhe melhores que tudo o que ouvira ou lera de santos e
de monges piedosos.

Depois do ch, ao quino, ficou junto d'elle. Uma alegria plena e suave
penetrava-a deliciosamente. Tudo o que at ahi a importunra e a
assustra, Joo Eduardo, o casamento, os deveres, desapparecera emfim da
sua vida: o rapaz iria para longe, empregar-se--e o senhor parocho alli
estava, todo d'ella, todo apaixonado! Por vezes, por baixo da mesa, os
seus joelhos tocavam-se, a tremer: n'um momento em que todos faziam um
alarido indignado contra Arthur Couceiro que pela terceira vez quinra e
brandia o carto triumphante, foram as mos que se encontraram, se
acariciaram; um pequeno suspiro simultaneo, perdido na gralhada das
velhas, ergueu o peito d'ambos; e at ao fim da noite foram marcando os
seus cartes, muito calados, com as faces accsas, sob a presso brutal
do mesmo desejo.

Emquanto as senhoras se agasalhavam, Amelia aproximou-se do piano para
correr uma escala, e Amaro pde murmurar-lhe ao ouvido:

--Oh, filhinha, que te quero tanto! E no podermos estar ss...

Ella ia responder--quando a voz de Natario, que se embrulhava no seu
capote ao p do aparador, exclamou, muito severa:

--Ento as senhoras deixam andar por aqui semelhante livro?

Todos se voltaram, na surpreza que dava aquella indignao, a olhar o
largo volume encadernado que Natario indicava com a ponta do
guardachuva, como um objecto abominavel. D. Maria da Assumpo
aproximou-se logo d'olho reluzente, imaginando que seria alguma d'essas
novellas, to famosas, em que se passam coisas immoraes. E Amelia
chegando-se tambem, disse, admirada de tal reprovao:

--Mas  o _Panorama_...  um volume do _Panorama_...

--Que  o _Panorama_ vejo eu, disse Natario com seccura. Mas tambem vejo
isto.--Abriu o volume na primeira pagina branca, e leu
alto:--_Pertence-me este volume a mim, Joo Eduardo Barbosa, e serve-me
de recreio nos meus ocios_. No comprehendem, hein? Pois  muito
simples... Parece incrivel que as senhoras no saibam que esse homem,
desde que poz as mos n'um sacerdote, est _ipso facto_ excommungado, e
excommungados todos os objectos que lhe pertencem!

Todas as senhoras, instinctivamente, afastaram-se do aparador onde jazia
aberto o _Panorama_ fatal, arrebanhando-se, n'um arripiamento de medo,
quella ida da Excommunho que se lhes representava como um desabamento
de catastrophes, um aguaceiro de raios despedidos das mos do Deus
Vingador: e alli ficaram mudas, n'um semi-circulo apavorado, em torno de
Natario, que, de capoto pelos hombros e braos cruzados, gozava o
effeito da sua revelao.

Ento a S. Joanneira, no seu assombro, arriscou-se a perguntar:

--O senhor padre Natario est a fallar srio?

Natario indignou-se:

--Se estou a fallar srio!? Essa  forte! Pois eu havia de gracejar
sobre um caso d'excommunho, minha senhora? Pergunte ahi ao senhor
conego se eu estou a gracejar!

Todos os olhos se voltaram para o conego, essa inesgotavel fonte de
saber ecclesiastico.

Elle ento, tomando logo o ar pedagogico que lhe voltava dos seus
antigos habitos do seminario sempre que se tratava de doutrina, declarou
que o collega Natario tinha razo. Quem espanca um sacerdote, sabendo
que  um sacerdote, est _ipso facto_ excommungado.  doutrina assente.
 o que se chama a excommunho latente; no necessita a declarao do
pontifice ou do bispo, nem o ceremonial, para ser valida, e para que
todos os fieis considerem o offensor como excommungado. Devem-no tratar
portanto como tal... Evital-o a elle, e ao que lhe pertence... E este
caso de pr mos sacrilegas n'um sacerdote era to especial, continuava
o conego n'um tom profundo, que a bulla do Papa Martinho V, limitando os
casos de excommunho tacita, conserva-a todavia para o que maltrata um
sacerdote...--Citou ainda mais bullas, as Constituies de Innocencio IX
e de Alexandre VII, a Constituio Apostolica, outras legislaes
temerosas; rosnou latins, aterrou as senhoras.

--Esta  a doutrina, concluiu dizendo; mas a mim parece-me melhor no se
fazer d'isso espalhafato...

D. Josepha Dias acudiu logo:

--Mas ns  que no podemos arriscar a nossa alma a encontrar aqui por
cima das mesas coisas excommungadas.

-- destruir! exclamou D. Maria da Assumpo.  queimar!  queimar!

D. Joaquina Gansoso arrastra Amelia para o vo da janella,
perguntando-lhe se tinha outros objectos pertencentes ao homem. Amelia,
atarantada, confessou que tinha algures, no sabia onde, um leno, uma
luva desirmanada, e uma cigarreira de palhinha.

-- para o fogo,  para o fogo! gritava a Gansoso excitada.

A sala vibrava agora com a gralhada das senhoras, arrebatadas n'um furor
santo. D. Josepha Dias, D. Maria da Assumpo fallavam com gozo do
_fogo_, enchendo a boca com a palavra, n'uma delicia inquisitorial de
exterminao devota. Amelia e a Gansoso, no quarto, rebuscavam pelas
gavetas, por entre a roupa branca, as fitas e as calcinhas,  caa dos
objectos excommungados. E a S. Joanneira assistia, attonita e
assustada, quelle alarido d'auto-de-f que atravessava bruscamente a
sua sala pacata, refugiada ao p do conego, que depois de ter rosnado
algumas palavras sobre a Inquisio em casas particulares, se
enterrra commodamente na poltrona.

-- para lhes fazer sentir que se no perde impunemente o respeito 
batina, dizia Natario baixo a Amaro.

O parocho assentiu, com um gesto mudo de cabea, contente d'aquellas
cleras beatas que eram como a affirmao ruidosa do amor que lhe tinham
as senhoras.

Mas D. Josepha impacientava-se. Agarrra j o _Panorama_ com as pontas
do chale, para evitar o contagio, e gritava para dentro, para o quarto,
onde continuava pelos gavetes uma rebusca furiosa:

--Ento appareceu?

--C est, c est!

Era a Gansoso que entrava triumphante com a cigarreira, a velha luva e o
leno de algodo.

E as senhoras, em alarido, arremetteram para a cozinha. A mesma S.
Joanneira as seguiu, como boa dona de casa, para fiscalisar a fogueira.

Os tres padres ento, ss, olharam-se--e riram.

--As mulheres tm o diabo no corpo, disse o conego philosophicamente.

--No senhor, padre-mestre, no senhor, acudiu logo Natario fazendo-se
srio. Eu rio porque a coisa, assim vista, parece patusca. Mas o
sentimento  bom. Prova a verdadeira devoo ao sacerdocio, horror 
impiedade... Emfim o sentimento  excellente.

--O sentimento  excellente, confirmou Amaro, tambem srio.

O conego ergueu-se:

--E  que se pilhassem o homem eram capazes de o queimar... No lh'o
digo a brincar, que a mana tem figados para isso...  um Torquemada de
saias...

--Est na verdade, est na verdade, affirmou Natario.

--Eu no resisto a ir vr a execuo! exclamou o conego. Eu quero vr
com os meus olhos!

E os tres padres ento foram at  porta da cozinha. As senhoras l
estavam, em p diante da lareira, batidas da luz violenta da fogueira
que fazia destacar estranhamente as mantas d'agasalho de que j se
tinham coberto. A _Rua_, de joelhos, soprava esfalfada. Tinham cortado
com o faco a encardernao do _Panorama_; e as folhas retorcidas e
negras, com um faiscar de fagulhas, voavam pela chamin nas linguas do
fogo claro. S a luva de pellica no se consumia. Debalde com as tenazes
a punham no vivo da chamma: tisnava, reduzida a um caroo engorolado;
mas no ardia. E a sua resistencia aterrava as senhoras.

-- que  a da mo direita com que commetteu o desacato! dizia furiosa
D. Maria da Assumpo.

--Bufa-lhe, rapariga, bufa-lhe! aconselhava da porta o conego muito
divertido.

--O mano faz favor de no troar com coisas srias! gritou D. Josepha.

--Oh, mana! a senhora quer saber melhor que um sacerdote como  que se
queima um impio? A preteno no est m!  bufar-lhe,  bufar-lhe!

Ento, confiadas na sciencia do senhor conego, a Gansoso e D. Maria da
Assumpo, acocoradas, bufaram tambem. As outras olhavam, n'um sorriso
mudo, o olho brilhante e cruel, no gozo d'aquella exterminao grata a
Nosso Senhor. O fogo estalava, pulando com uma fora galharda, na gloria
da sua antiga funco de purificador dos peccados.--E por fim sobre as
achas em braza, nada restou do _Panorama_, do leno e da luva do impio.

A essa hora Joo Eduardo, o impio, no seu quarto, sentado aos ps da
cama, soluava, com a face banhada em lagrimas, pensando em Amelia, nos
bons seres da rua da Misericordia, na cidade para onde iria, na roupa
que empenharia, e perguntando em vo a si mesmo porque o tratavam assim,
elle que era to trabalhador, que no queria mal a ninguem, e que a
adorava tanto, a ella?




XVI


No domingo seguinte havia missa cantada na S, e a S. Joanneira e Amelia
atravessaram a Praa para ir buscar D. Maria da Assumpo, que em dias
de mercado e de populacho nunca sahia s, receosa que lhe roubassem as
joias ou lhe insultassem a castidade.

N'essa manh, com effeito, a affluencia das freguezias enchia a Praa:
os homens em grupo, atravancando a rua, muito srios, muito barbeados,
de jaqueta ao hombro; as mulheres aos pares, com uma fortuna de grilhes
e de coraes d'ouro sobre peitos pejados; nas lojas, os caixeiros
azafamavam-se por traz dos balces alastrados de lenaria e de chitas;
nas tabernas apinhadas gralhava-se alto; pelo mercado, entre os saccos
de farinha, os montes de loua, os cestos de bra, ia um regatear sem
fim; havia multido ao p das tendas onde reluzem os espelhinhos
redondos e transbordam os mlhos de rosarios; velhas faziam prego por
traz dos seus taboleiros de cavacas; e os pobres, afreguezados  cidade,
choramingavam Padre-nossos pelas esquinas.

J senhoras passavam para a missa, todas em sdas, de rostinho sisudo; e
a Arcada estava cheia de cavalheiros, tsos nos seus fatos de casimira
nova, fumando caro, gozando o domingo.

Amelia foi muito olhada: o filho do recebedor, um atrevido, disse mesmo
alto d'um grupo: _Ai, que me leva o corao!_ E as duas senhoras,
apressando-se, dobravam para a rua do Correio, quando lhes appareceu o
Libaninho de luvas pretas e cravo ao peito. No as tinha visto desde o
desacato do largo da S, e rompeu logo em exclamaes. Ai, filhas, que
desgosto aquelle! O malvado do escrevente! Elle tinha tido tanto que
fazer, que s n'essa manh  que pudera ir ao senhor parocho dar-lhe os
sentimentos; o santinho recebera-o muito bem, estava-se a vestir; elle
quiz-lhe vr o brao e felizmente, louvores a Deus, nem uma pisadura...
E se ellas vissem, que carnadura to delicada, que pelle to branca...
Uma pellinha d'archanjo!

--Mas querem vosss saber, filhas? Encontrei-o n'uma grande afflico!

As duas senhoras assustaram-se. Porqu, Libaninho?

A criada, a Vicencia, que havia dias se queixava, tinha ido n'essa
madrugada para o hospital com um febro...

--E alli est o pobre santo sem criada, sem nada! Vejam vosss! Para
hoje bem, que vai jantar com o nosso conego (tambem l estive, ai, que
santo!), mas manh, mas depois? Que elle j tem em casa a irm da
Vicencia, a Dionysia... Mas, oh, filhas, a Dionysia! Foi o que eu lhe
disse: a Dionysia pde ser uma santa, mas que reputao!...  que no ha
peor em Leiria... Uma perdida que no pe os ps na igreja... Tenho a
certeza que o senhor chantre at havia de reprovar!

As duas senhoras concordaram logo que a Dionysia (mulher que no cumpria
os preceitos, que representra em theatros de curiosos) no convinha ao
senhor parocho...

--Olha, S. Joanneira, disse Libaninho, sabes o que lhe convinha? Eu l
lh'o disse, l lhe fiz a proposta.  ferrar-se outra vez em tua casa.
Que  onde est bem, com gente que o acarinha, que lhe trata da roupa,
que lhe sabe os gostos, e onde tudo  virtude! Elle no disse que _no_
nem que _sim_. Mas olha que se lhe podia lr na cara que est a morrer
por isso... Tu  que lhe devias fallar, S. Joanneirinha!

Amelia fizera-se to escarlate como a sua gravata de sda da India. E a
S. Joanneira disse ambiguamente:

--Fallar-lhe no... Eu n'essas coisas sou muito delicada... Bem
comprehendes...

--Era como teres um santo de portas a dentro, filha! disse com calor o
Libaninho. Lembra-te d'isso! E era um gosto para todos... Tenho a
certeza que at Nosso Senhor se havia d'alegrar... E agora adeus,
pequenas, que vou de fugida. No vos demoreis, que est a missinha a
cahir.

As duas senhoras continuaram caladas at casa de D. Maria da Assumpo.
Nenhuma queria arriscar primeiro uma palavra sobre aquella possibilidade
to inesperada, to grave, do senhor parocho voltar para a rua da
Misericordia! Foi s quando pararam que a S. Joanneira disse, ao puxar 
campainha:

--Ai, o senhor parocho realmente no pde ter a Dionysia de portas a
dentro...

--Credo, at causa horror!

Foi tambem a expresso da snr.^a D. Maria da Assumpo quando lhe
contaram, em cima, a doena da Vicencia e a installao da Dionysia:
causava horror!

--Que eu no a conheo, disse a excellente senhora. E tenho at vontade
de a conhecer. Que me dizem que  dos ps  cabea uma crosta de
peccado!

A S. Joanneira ento fallou da proposta do Libaninho. D. Maria da
Assumpo declarou logo com ardor que era uma inspirao de Nosso
Senhor. Que nunca o senhor parocho devia ter sahido da rua da
Misericordia! At parece que mal elle se fra embora, Deus retirra a
sua graa da casa... No houvera seno desgostos--o _Communicado_, a dr
de estomago do conego, a morte da entrevadinha, aquelle desgraado
casamento (que estivera por um _triz_, que horror!), o escandalo do
largo da S... A casa tinha parecido enguiada!... E era at peccado
deixar viver o santinho n'aquelle desarranjo, com a suja da Vicencia,
que nem lhe sabia dar uma passagem nas meias!

--Em parte nenhuma pde estar melhor que em tua casa... Tem tudo o que
necessita, de portas a dentro... E para ti  uma honra,  estar em
graa. Olha, filha, se eu no fosse s, sempre o digo, quem o hospedava
era eu! Que aqui  que elle estava bem... Que salinha para elle, hein?

Riam-se-lhe os olhos, contemplando em redor as suas preciosidades.

A sala com effeito era toda ella uma immensa armazenagem de santaria e
de _bric--brac_ devoto: sobre as duas commodas de pau preto com
fechaduras de cobre apinhavam-se, sob redomas, em peanhas, as Nossas
Senhoras vestidas de sda azul, os Meninos Jesus frizados com o
ventresinho gordo e a mo abenoadora, os Santo Antonios no seu burel,
os S. Sebasties bem frchados, os S. Joss barbudos. Havia santos
exoticos, que eram o seu orgulho, que lhe fabricavam em Alcobaa--S.
Paschoal Baylo, S. Didacio, S. Chrisolo, S. Gorislano... Depois eram os
bentinhos, os rosarios de metal e de caroos d'azeitonas, contas de
cres, rendas amarellas d'antigas alvas, coraes de vidro escarlate,
almofadinhas com J. M. entrelaados a missanga, ramos bentos, palmas de
martyres, cartuchinhos d'incenso. As paredes desappareciam forradas de
estampas de Virgens de todas as devoes,--equilibradas sobre o orbe,
enrodilhadas aos ps da cruz, trespassadas d'espadas. Coraes d'onde
gotejava sangue, coraes d'onde sahia uma fogueira, coraes d'onde
dardejavam raios: oraes encaixilhadas para as festas particularmente
amadas--o _Casamento de Nossa Senhora_, a _Inveno da Santa Cruz_, os
_Estigmas de S. Francisco_, sobretudo o _Parto da Santa Virgem_, a mais
devota, que vem pelas quatro temporas. Sobre as mesas lamparinas
accsas, para serem collocadas sem demora aos santos especiaes, quando a
boa senhora tivesse a sua sciatica, ou que o catarrho se assanhasse, ou
lhe viessem as caimbras. Ella mesma, s ella, arrumava, espanejava,
lustrava toda aquella santa populao celeste, aquelle arsenal beato,
que era apenas sufficiente para a salvao da sua alma e o allivio dos
seus achaques. O seu grande cuidado era a collocao dos santos;
alterava-a constantemente, porque s vezes, por exemplo, sentia que
Santo Eleuterio no gostava d'estar ao p de S. Justino, e ia ento
pendural-o a distancia, n'uma companhia mais sympathica ao santo. E
distinguia-os (segundo os preceitos do ritual que o confessor lhe
explicava), dando-lhes uma devoo graduada, e no tendo por S. Jos de
segunda classe o respeito que sentia por S. Jos de primeira classe.
Aquella riqueza era a inveja das amigas, a edificao dos curiosos, e
fazia sempre dizer ao Libaninho, quando a vinha visitar, abrangendo a
sala n'um olhar langoroso:--Ai, filha,  o reininho dos cos!

--No  verdade, continuava a excellente senhora radiante, que elle aqui
 que estava bem, o santinho do parocho?  como ter o co debaixo da
mo!

As duas senhoras concordaram. Ella podia ter a sua casa arranjada com
devoo, ella que era rica...

--No o nego, tenho aqui empregadinhos alguns centos de mil reis. Sem
contar o que est no relicario...

Ah, o famoso relicario de sandalo forrado de setim! Tinha l uma
lascasinha da verdadeira Cruz, um bocado quebrado do espinho da Cora,
um farrapinho do cueiro do Menino Jesus. E murmurava-se com azedume,
entre as devotas, que coisas to preciosas, d'origem divina, deviam
estar no sacrario da S. D. Maria da Assumpo, temendo que o senhor
chantre soubesse d'aquelle thesouro seraphico, s o mostrava s intimas,
mysteriosamente. E o santo sacerdote, que lh'o obtivera, fizera-a jurar
sobre o Evangelho de no revelar a procedencia para evitar
fallatorios.

A S. Joanneira, como sempre, admirou sobretudo o farrapinho do cueiro.

--Que reliquia, que reliquia! murmurava.

E D. Maria da Assumpo muito baixo:

--No ha melhor. Trinta mil reis me custou... Mas dava sessenta, mas
dava cem! mas dava tudo!--E babando-se toda, diante do trapinho
precioso:--O cueirinho! dizia quasi a chorar. Meu rico Menino, o seu
cueirinho...

Deu-lhe um beijo muito repenicado, e foi fechar o relicario no gaveto.

Mas o meio dia ia bater--e as tres senhoras apressaram-se para a S,
para pilhar logar no altar-mr.

J no largo encontraram D. Josepha Dias, que se precipitava para a
igreja, sfrega da missa, com o mantelete descahido sobre o hombro e uma
pluma do chapo a despregar-se. Tinha estado toda a manh n'um phrenesi
com a criada! Fra necessario fazer ella todos os preparos para o
jantar... Ai, tinha medo que nem a missinha lhe dsse virtude, de
nervosa que estava...

--Que temos l o senhor parocho hoje... Vosss sabem que adoeceu a
criada... Ah, j me esquecia, o mano quer que tu l vs jantar tambem,
Amelia. Diz que  para haverem duas damas e dois cavalheiros...

Amelia riu d'alegria.

--E tu vai depois buscal-a, S. Joanneira,  noitinha... Credo, vesti-me
tanto  pressa, que at parece que me est a cahir o saiote!

Quando as quatro senhoras entraram, a igreja estava j cheia. Era uma
missa cantada ao Santissimo. E apesar de contrario ao rigor do ritual,
por um costume diocesano (que o bom Silverio, muito estricto na
liturgia, nunca cessava de reprovar) havia, estando presente a
Eucharistia, musica de rebeca, violoncello e flauta. O altar, muito
ornado, com as reliquias expostas, destacava n'uma alvura festiva;
docel, frontal, paramentos dos missaes eram brancos, com relevos d'ouro
desmaiado; nos vasos erguiam-se ramos pyramidaes de flres e folhagens
brancas; os velludilhos decorativos, dispostos como velarios, punham dos
dois lados do tabernaculo a brancura de duas vastas azas desdobradas,
lembrando a Pomba Espiritual; e os vinte castiaes erguiam as suas
chammas amarellas em throno at ao sacrario aberto, que mostrava d'alto,
engastada n'um rebrilhar d'ouros vivos, a hostia redonda e baa. Por
toda a igreja apinhada corria uma susurrao lenta; aqui e alm um
catarrho expectorava, uma criana choramigava; o ar adensava-se j dos
halitos juntos e d'um cheiro d'incenso; e do cro, onde as figuras dos
musicos se moviam por traz dos braos dos rebeces e das estantes, vinha
a cada momento um afinar gemido de rebeca, ou um pio de flautim. As
quatro amigas tinham-se apenas accommodado junto do altar-mr, quando os
dois acolythos, um tso como um pinheiro, o outro gordalhufo e
enxovalhado, entraram do lado da sacristia, sustentando alto e direito
nas mos os dois castiaes consagrados; atraz o Pimenta vesgo, com uma
sobrepelliz muito vasta para elle, lanando os seus sapates em passadas
pomposas, trazia o incensador de prata; depois successivamente, durante
o rumor do ajoelhar pela nave e do folhear dos livrinhos, appareceram os
dois diaconos; e emfim, paramentado de branco, d'olhos baixos e mos
postas, com aquelle recolhimento humilde que pede o ritual e que exprime
a mansido de Jesus marchando ao Calvario, entrou o padre Amaro--ainda
vermelho da questo furiosa que tivera na sacristia, antes de se
revestir, por causa da lavagem das alvas.

E o cro immediatamente atacou o _Introito_.


Amelia passou a sua missa embebecida, pasmada para o parocho--que era,
como dizia o conego, um grande artista para missas cantadas; todo o
cabido, todas as senhoras o reconheciam. Que dignidade, que
cavalheirismo nas saudaes ceremoniosas aos diaconos! Como se prostrava
bem diante do altar, aniquilado e escravisado, sentindo-se cinza,
sentindo-se p diante de Deus, que assiste de perto, cercado da sua
crte e da sua familia celeste! Mas era sobretudo admiravel nas benos;
passava devagar as mos sobre o altar como para apanhar, recolher a
graa que alli cahia do Christo presente, e atirava-a depois com um
gesto largo de caridade por toda a nave, por sobre o estendal de lenos
brancos de cabea, at ao fundo onde os homens do campo muito apertados,
de varapau na mo, pasmavam para a scintillao do sacrario! Era ento
que Amelia o amava mais, pensando que aquellas mos abenoadoras lh'as
apertava ella com paixo por baixo da mesa do quino: aquella voz, com
que elle lhe chamava _filhinha_, recitava agora as oraes ineffaveis, e
parecia-lhe melhor que o gemer das rebecas, revolvia-a mais que os
graves do orgo! Imaginava com orgulho que todas as senhoras decerto o
admiravam tambem; mas s tinha ciumes, um ciume de devota que sente os
encantos do co, quando elle ficava diante do altar, na posio extatica
que manda o ritual, to immovel como se a sua alma se tivesse remontado
longe, para as alturas, para o Eterno e para o Insensivel. Preferia-o,
por o sentir mais humano e mais accessivel, quando, durante o _Kirie_ ou
a leitura da Epistola, elle se sentava com os diaconos no banco de
damasco vermelho; ella queria ento attrahir-lhe um olhar; mas o senhor
parocho permanecia de olhos baixos n'uma compostura modesta.

Amelia, sentada sobre os calcanhares, com a face banhada n'um sorriso,
admirava-lhe o perfil, a cabea bem feita, os paramentos dourados--e
lembrava-se quando o vira a primeira vez descendo a escada da rua da
Misericordia, com o seu cigarro na mo. Que romance se passra desde
essa noite! Recordava o Morenal, o salto do vallado, a scena da morte da
titi, aquelle beijo ao p da lareira... Ai, como acabaria tudo aquillo?
Queria ento rezar; folheava o livro, mas vinha-lhe  ida o que o
Libaninho n'essa manh dissera: o senhor parocho tinha uma pellesinha
to branca como um archanjo... Devia-a ter decerto muito delicada,
muito tenra... Um desejo intenso queimava-a: imaginava que era uma
tentadora visitao do demonio,--e para a repellir arregalava os olhos
para o sacrario e para o throno que o padre Amaro, cercado dos diaconos,
incensava em semi-circulos significando a Eternidade dos Louvores,
emquanto o cro berrava o _Offertorio_... Depois elle mesmo, de p, no
segundo degrau do altar, de mos postas, foi incensado; o Pimenta vesgo
fazia ranger galhardamente as correntes de prata do thurifero; um
perfume d'incenso derramava-se, como uma annunciao celeste;
ennevoava-se o sacrario sob os rolos alvos de fumo; e o parocho
apparecia a Amelia transfigurado, quasi divinisado!... Oh, adorava-o
ento!

A igreja tremia ao clamor do orgo em pleno; de bocas abertas, os
coristas solfejavam a toda a fora; em cima, alando-se entre os braos
dos rebeces, o mestre da capella, no fogo da execuo, brandia
desesperadamente a sua batuta feita d'um rolo de canto-cho.


Amelia sahiu da igreja muito fatigada, muito pallida.

Ao jantar, em casa do conego, a snr.^a D. Josepha censurou-a
repetidamente de no dar palavra.

No fallava, mas debaixo da mesa o seu psinho no cessava de roar,
pisar o do padre Amaro. Como escurecera cedo tinham accendido as velas;
o conego abrira uma garrafa, no do seu famoso _duque_ de 1815, mas do
1847, para acompanhar a travessa d'aletria, que enchia o centro da
mesa, com as iniciaes do parocho desenhadas a canella; era, como
explicra o conego, uma galanteria da mana ao convidado. Amaro fizera
logo uma saude com o 1847  digna dona da casa. Ella resplandecia,
medonha no seu vestido de bareje verde. O que sentia  que o jantar
fosse to mau... Que aquella Gertrudes estva-se a fazer uma
desleixada... Ia-lhe deixando esturrar o pato com macarro!

--Oh, minha senhora, estava delicioso! protestou o parocho.

--So favores do senhor parocho.  porque eu lhe acudi a tempo... Mais
uma colhrzinha d'aletria, senhor parocho.

--Nada mais, minha senhora, tenho a minha conta.

--Ento para desgastar, v mais esse copito do 47, disse o conego.

Elle mesmo bebeu pausadamente um bom gole, deu um _ah_ de satisfao, e
repoltreando-se:

--Boa gota! Assim pde-se viver!

Estava j rubro, e parecia mais obeso, com o seu grosso jaqueto de
flanella e o guardanapo atado ao pescoo.

--Boa gota! repetiu, d'este no provou hoje voss nas galhetas...

--Credo, mano! exclamou D. Josepha com a boca cheia de fios d'aletria,
muito escandalisada da irreverencia.

O conego encolheu os hombros com desprezo.

--O credo  p'r' missa! Esta preteno de se metter sempre em questes
que no percebe! Pois fique sabendo que  d'uma grande importancia a
questo da qualidade do vinho, na missa.  que  necessario que o vinho
seja bom...

--Concorre para a dignidade do santo sacrificio, disse o parocho muito
srio, fazendo uma caricia de joelho a Amelia.

--E no  s isso, disse o conego tomando logo o tom pedagogo.  que o
vinho, quando no  bom e tem ingredientes, deixa um deposito nas
galhetas; e, se o sacristo no  cuidadoso e no as limpa, as galhetas
ganham um cheiro pessimo. E sabe a senhora o que acontece? Acontece que
o sacerdote, quando vai a beber o sangue de Nosso Senhor Jesus Christo,
no est prevenido e faz-lhe uma careta. Ora ahi tem a senhora!

E deu um forte chupo ao calix. Mas estava fallador n'essa noite, e
depois d'arrotar devagar, interpellou de novo D. Josepha, assombrada de
tanta sciencia.

--E diga-me l ento a senhora, j que  to doutora: o vinho, no divino
sacrificio, deve ser branco ou tinto?

D. Josepha parecia-lhe que devia ser tinto, para se parecer mais com o
sangue de Nosso Senhor.

--Emende a menina, mugiu o conego de dedo em riste para Amelia.

Ella recusou-se, com um risinho. Como no era sacristo, no sabia...

--Emende o senhor parocho!

Amaro galhofou. Se era erro ser tinto, ento devia ser branco...

--E porqu?

Amaro ouvira dizer que era o costume em Roma.

--E porque? continuava o conego, pedante e ronco.

No sabia.

--Porque Nosso Senhor Jesus Christo, quando pela primeira vez consagrou,
fel-o com vinho branco. E a razo  muito simples:  porque na Juda
n'esse tempo, como  notorio, no se fabricava vinho tinto... Repita-me
a senhora a aletria, faa favor.

Ento, a proposito do vinho e da limpeza das galhetas, o padre Amaro
queixou-se do Bento sacristo. N'essa manh antes de se
paramentar--justamente quando entrra o senhor conego na
sacristia--acabava de lhe dar uma desanda a respeito das alvas. Em
primeiro logar dava-as a lavar a uma Antonia que vivia amancebada com um
carpinteiro, em grande escandalo, e que era indigna de tocar os
paramentos santos. Esta era a primeira. Depois, a mulher trazia-as to
enxovalhadas que era um desacato usal-as no divino sacrificio...

--Ai, mande-m'as a mim, senhor parocho, mande-m'as a mim, acudiu D.
Josepha. Dou-as  minha lavadeira, que  pessoa de muita virtude e traz
a roupa escarolada. Ai, at era uma honra para mim! Eu mesmo as passava
a ferro, e at se podia benzer o ferro...

Mas o conego (que positivamente estava n'aquella noite d'uma loquacidade
copiosa) interrompeu-a, e voltando-se para o padre Amaro, fixando-o
profundamente:

--Ora a proposito de eu entrar na sacristia, sempre lhe quero dizer,
amigo e collega, que commetteu hoje um erro de palmatoria.

Amaro pareceu inquieto.

--Que erro, padre-mestre?

--Depois de se revestir, continuou o conego pausadamente, j com os
diaconos ao lado, quando fez a cortezia  imagem da sacristia, em logar
de fazer a cortezia profunda, fez s a meia cortezia.

--Alto l, padre-mestre! exclamou o padre Amaro.  o texto da rubrica.
_Facta reverentia cruci_, feita a reverencia  cruz: isto , a
reverencia simples, abaixar ligeiramente a cabea...

E, para **exemplificar**, fez uma cortezia a D. Josepha que lhe sorriu
toda, torcendo-se.

--Nego! exclamou formidavelmente o conego que em sua casa,  sua mesa,
punha d'alto as suas opinies. E nego com os meus auctores. Elles ahi
vo!--E deixou-lhe cahir em cima, como penedos d'autoridade, os nomes
venerados de Laboranti, Baldeschi, Merati, Turrino e Pavonio.

Amaro afastra a cadeira, puzera-se em attitude de controversia,
contente de poder, diante d'Amelia, enterrar o conego, mestre de
theologia moral e um colosso de liturgia pratica.

--Sustento, exclamou, sustento com Castaldus...

--Alto, ladro, bramiu o conego, Castaldus  meu!

--Castaldus  meu, padre-mestre!

E encarniaram-se, puxando cada um para si o veneravel Castaldus e a
auctoridade da sua facundia. D. Josepha pulava de gozo na cadeira,
murmurando para Amelia com a cara franzida de riso:

--Ai, que gostinho vl-os! Ai, que santos!

Amaro continuava, com o gesto alto:

--E alm d'isso tenho por mim o bom-senso, padre-mestre. _Prim_, a
rubrica, como expuz. _Secund_, o sacerdote, tendo na sacristia o
barrete na **cabea**, no deve fazer cortezia inteira, porque lhe pde
cahir o barrete e temos desacato maior. _Terti_, seguir-se-hia um
absurdo, porque ento a cortezia antes da missa  cruz da sacristia
seria maior que a que se faz depois da missa  cruz do altar!

--Mas a cortezia  cruz do altar... bradou o conego.

-- meia cortezia. Leia a rubrica: _Caput inclinat_. Leia Gavantus, leia
Garriffaldi. E nem podia deixar de ser assim! Sabe porqu? Porque depois
da missa o sacerdote est no auge da dignidade, uma vez que tem dentro
em si o corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Christo. Logo, o ponto 
meu!

E de p, esfregou vivamente as mos, triumphando.

O conego abatera a papeira sobre as pregas do guardanapo, como um boi
atordoado. E depois d'um momento:

--Voss no deixa de ter razo... Eu foi para o ouvir... Faz-me honra c
o discipulo, acrescentou piscando o olho a Amelia. Pois  beber, 
beber! E depois salta o cafsinho bem quente, mana Josepha!

Mas um forte repique  campainha sobresaltou-os.

-- a S. Joanneira, disse D. Josepha.

A Gertrudes entrou com um chale e uma manta de l:

--Aqui est isto que vem de casa da menina Amelia. A senhora manda
muitos recados, que no pde vir, que se achou incommodada.

--Ento com quem hei de eu ir? disse logo Amelia, inquieta.

O conego estendeu o brao sobre a mesa, e dando-lhe uma palmadinha na
mo:

--Em ultimo caso com este seu criado. E essa virtudesinha podia ir
socegada...

--Tem coisas, mano! gritou a velha.

--Deixe l, mana. O que passa pela boca d'um santo, santo fica.

O parocho approvou ruidosamente:

--Tem muita razo o senhor conego Dias! O que passa pela pela boca d'um
santo, santo fica! Para que viva!

-- sua!

E tocaram os copos, com um olho gaiato, reconciliados da controversia.

Mas Amelia ficra assustada.

--Jesus, que ter a mam! Que ser?

--Ora o que ha de ser! preguia! disse-lhe o parocho, rindo.

--No te agonies, filha, disse D. Josepha. Vou-te eu levar, vamos todos
levar-te...

--Vai a menina em charola, rosnou o conego descascando a sua pra.

Mas de repente pousou a faca, arregalou os olhos em redor, e passando a
mo pelo estomago:

--Pois olhem, disse, no me estou tambem a sentir bem...

--Que ? que ?

--Um ameaosito da dr. Passou, no vale nada.

D. Josepha, j assustada, no queria que elle comesse a pra. Que a
ultima vez que lhe dera fra por causa da fructa...

Mas elle, obstinado, cravou os dentes na pra.

--Passou, passou, rosnava.

--Foi sympathia com a mam, disse o parocho baixo a Amelia.

De repente o conego afastou a cadeira, e torcendo-se de lado:

--No estou bem, no estou bem! Jesus! Oh, diabo! Oh, caramba! Ai! ai!
morro!

Alvoroaram-se em volta d'elle. D. Josepha amparou-o pelo brao at ao
quarto, gritando  criada que fosse buscar o doutor. Amelia correu 
cozinha a aquecer uma flanella para lhe pr no estomago. Mas no
apparecia flanella. Gertrudes topava contra as cadeiras, espavorida, 
procura do seu chale para sahir.

--V sem chale, sua estupida! gritou-lhe Amaro.

A rapariga abalou. Dentro o conego dava urros.

Amaro ento, realmente assustado, entrou-lhe no quarto. D. Josepha de
joelhos diante da commoda gemia oraes a uma grande lithographia de
Nossa Senhora das Dres; e o pobre padre-mestre, estirado de barriga
sobre a cama, rilhava o travesseiro.

--Mas, minha senhora, disse o parocho severamente, no se trata agora de
rezar.  necessario fazer-lhe alguma coisa... Que se lhe costuma fazer?

--Ai, senhor parocho, no ha nada, no ha nada, choramingou a velha. 
uma dr que vem e vai n'um momento. No d tempo p'ra nada! Um ch de
tilia allivia-o s vezes... Mas por desgraa hoje nem tilia tenho! Ai,
Jesus!

Amaro correu a casa a buscar tilia. E d'ahi a pouco voltava esbaforido
com a Dionysia, que vinha offerecer a sua actividade e a sua
experiencia.

Mas o senhor conego, felizmente, sentira-se de repente alliviado!

--Muito agradecida, senhor parocho, dizia D. Josepha. Rica tilia!  de
muita caridade. Elle agora naturalmente cae em somnolencia. Vem-lhe
sempre depois da dr... Eu vou para ao p d'elle, desculpem-me... Esta
foi peor que as outras... So estas fructas mald...--Reteve a
blasphemia, aterrada.--So as fructas de Nosso Senhor.  a sua divina
vontade... Desculpem-me, sim?

Amelia e o parocho ficaram ss na sala. Os seus olhares reluziram logo
do desejo de se tocar, de se beijar, mas as portas estavam abertas; e
sentiam no quarto, ao lado, as chinelas da velha. O padre Amaro disse
ento alto:

--Pobre padre-mestre!  uma dr terrivel.

--D-lhe todos os tres mezes, disse Amelia. A mam j andava com o
presentimento. Ainda me tinha dito antes d'hontem:  o tempo da dr do
senhor conego, estou com mais cuidado...

O parocho suspirou, e baixinho:

--Eu  que no tenho quem pense nas minhas dres...

Amelia pousou n'elle longamente os seus bellos olhos humedecidos de
ternura:

--No diga isso...

As suas mos iam apertar-se ardentemente por sobre a mesa; mas D.
Josepha appareceu, encolhida no seu chale. O mano tinha adormecido. E
ella estava que no se podia ter nas pernas. Ai, aquelles abalos
arrazavam-lhe a saude! Accendera duas velas a S. Joaquim e fizera uma
promessa a Nossa Senhora da Saude. Era a segunda aquelle anno, por causa
da dr do mano. E Nossa Senhora no lhe tinha faltado...

--Nunca falta a quem a implora com f, minha senhora, disse com uno o
padre Amaro.

O alto relogio d'armario bateu ento cavamente oito horas. Amelia fallou
outra vez no cuidado em que estava pela mam... Demais a mais ia-se a
fazer to tarde...

--E  que quando eu sahi estava a choviscar, disse Amaro.

Amelia correu  janella, inquieta. O lagedo defronte, debaixo do
candieiro, reluzia muito molhado. O co estava tenebroso.

--Jesus, vamos ter uma noite d'agua!

D. Josepha estava afflicta com o contratempo; mas a Amelia bem via, ella
agora no podia despegar de casa; a Gertrudes fra ao doutor;
naturalmente no o encontrra, andava a procural-o de casa em casa, quem
sabe quando viria...

O parocho ento lembrou que a Dionysia (que viera com elle e esperava na
cozinha) podia ir acompanhar a snr.^a D. Amelia. Eram dois passos, no
havia ninguem pelas ruas. Elle mesmo iria com ellas at  esquina da
Praa... Mas deviam apressar-se, que ia cahir agua!

D. Josepha foi logo buscar um guardachuva para Amelia. Recommendou-lhe
muito que contasse  mam o que tinha succedido. Mas que no se
affligisse ella, que o mano estava melhor...

--E olha! gritou-lhe ainda de cima da escada, dize-lhe que se fez tudo o
que se pde, mas que a dr no deu tempo para nada!

--Sim, l direi. Boa noite.

Ao abrirem a porta a chuva cahia grossa. Amelia ento quiz esperar. Mas
o parocho, apressado, puxou-a pelo brao:

--No vale nada, no vale nada!

Desceram a rua deserta, aconchegados debaixo do guardachuva, com a
Dionysia ao lado, muito calada, de chale pela cabea. Todas as janellas
estavam apagadas; no silencio as goteiras cantavam d'enxurro.

--Jesus, que noite! disse Amelia. Vai-se-me a perder o vestido.

Estavam ento na rua das Sousas.

-- que agora cae a cantaros, disse Amaro. Realmente parece-me que o
melhor  entrar no pateo de minha casa e esperar um bocado...

--No, no! acudiu Amelia.

--Tolices! exclamou elle impaciente. Vai-se-lhe estragar o vestido... 
um instante,  um aguaceiro. Para aquelle lado, v, est a alliviar. Vai
passar...  uma tolice... A mam, se a visse apparecer debaixo d'uma
carga d'agua, zangava-se, e com razo!

--No, no!

Mas Amaro parou, abriu rapidamente a porta, e empurrando Amelia de leve:

-- um instante, vai passar, entre...

E alli ficaram, calados, no pateo escuro, olhando as cordas d'agua que
reluziam  luz do candieiro defronte. Amelia estava toda atarantada. A
negrura do pateo e o silencio assustavam-n'a; mas parecia-lhe delicioso
estar assim n'aquella escurido, ao p d'elle, ignorada de todos...
Insensivelmente attrahida, roava-se-lhe pelo hombro; e recuava logo,
inquieta de ouvir a sua respirao to agitada, de o sentir to junto
das saias. Percebia por traz, sem a vr, a escada que levava ao quarto
d'elle; e tinha um desejo immenso de lhe ir vr acima os seus moveis, os
seus arranjos... A presena da Dionysia, encolhida contra a porta e
muito calada, embaraava-a; todavia a cada momento voltava os olhos para
ella, receando que desapparecesse, se sumisse na negrura do pateo ou da
noite...

Amaro ento comeou a bater com os ps no cho, a esfregar as mos,
arripiado.

--Estamos aqui a apanhar alguma, dizia. As lages esto regeladas...
Realmente era melhor esperar em cima na sala de jantar...

--No, no! disse ella.

--Pieguices! At a mam se havia de zangar... V, Dionysia, accenda luz
em cima.

A matrona immediatamente galgou os degraus.

Elle ento, muito baixo, tomando o brao d'Amelia:

--Porque no? Que pensas tu?  uma pieguice.  emquanto no passa o
aguaceiro. Dize...

Ella no respondia, respirando muito forte. Amaro pousou-lhe a mo sobre
o hombro, sobre o peito, apertando-lh'o, acariciando a sda. Toda ella
estremeceu. E foi-o emfim seguindo pela escada, como tonta, com as
orelhas a arder, tropeando a cada degrau na roda do vestido.

--Entra p'r'hi,  o quarto, disse-lhe elle ao ouvido.

Correu  cozinha. Dionysia accendia a vela.

--Minha Dionysia, tu percebes... Eu fiquei de confessar aqui a menina
Amelia.  um caso muito srio... Volta d'aqui a meia hora.
Toma.--Metteu-lhe tres placas na mo.

A Dionysia descalou os sapatos, desceu em pontas de ps e fechou-se na
loja do carvo.

Elle voltou ao quarto com a luz. Amelia l estava, immovel, toda
pallida. O parocho fechou a porta--e foi para ella, calado, com os
dentes cerrados, soprando como um touro.


Meia hora depois Dionysia tossiu na escada. Amelia desceu logo, muito
embrulhada na manta: ao abrirem a porta do pateo passavam na rua dois
borrachos galrando: Amelia recuou rapidamente para o escuro. Mas
Dionysia d'ahi a pouco espreitou; e vendo a rua deserta:

--Est a barra livre, minha rica menina...

Amelia embrulhou mais o rosto e apressaram o passo para a rua da
Misericordia. J no chovia; havia estrellas; e uma frialdade scca
annunciava o norte e o bom tempo.




XVII


Ao outro dia Amaro, vendo no relogio que tinha  cabeceira que ia
chegando a hora da missa, saltou alegremente da cama. E, enfiando o
velho paletot que lhe servia de robe-de-chambre, pensava n'essa outra
manh em Feiro em que acordra aterrado por ter na vespera, pela
primeira vez depois de padre, peccado brutalmente sobre a palha da
estrebaria da residencia com a Joanna Vaqueira. E no se atrevera a
dizer missa com aquelle crime na alma, que o abafava com um peso de
penedo. Considerra-se contaminado, immundo, maduro para o inferno,
segundo todos os santos padres e o seraphico concilio de Trento. Tres
vezes chegra  porta da igreja, tres vezes recura assombrado. Tinha a
certeza de que, se ousasse tocar na Eucharistia com aquellas mos com
que repanhra os saiotes da Vaqueira, a capella se aluira sobre elle,
ou ficaria paralysado vendo erguer-se diante do sacrario, d'espada alta,
a figura rutilante de S. Miguel Vingador! Montra a cavallo e trotra
duas horas, pelos barreiros de D. Joo, para ir  Gralheira confessar-se
ao bom abbade Sequeira... Ah! Era nos seus tempos de innocencia, de
exageraes piedosas e de terrores novios! Agora tinha aberto os olhos
em redor  realidade humana. Abbades, conegos, cardeaes e monsenhores
no peccavam sobre a palha da estrebaria, no--era em alcovas commodas,
com a ceia ao lado. E as igrejas no se aluiam, e S. Miguel Vingador no
abandonava por to pouco os confortos do co!

No era isso o que o inquietava--o que o inquietava era a Dionysia, que
elle ouvia na cozinha, arrumando e tossicando, sem se atrever a
pedir-lhe agua para a barba. Desagradava-lhe sentir aquella matrona
introduzida, installada no seu segredo. No duvidava decerto da sua
discrio, era o seu _officio_; e algumas meias libras manteriam a sua
fidelidade. Mas repugnava ao seu pudor de padre saber que aquella velha
concubina de auctoridades civis e militares, que rolra a sua massa de
gordura por todas as torpezas seculares da cidade, conhecia as suas
fragilidades, as concupiscencias que lhe ardiam sob a batina de parocho.
Preferiria que fosse o Silverio ou Natario que o tivesse visto na
vespera, todo inflammado: era entre sacerdotes, ao menos!... E o que o
incommodava era a ida de ser observado por aquelles olhinhos cynicos,
que no se impressionavam nem com a austeridade das batinas nem com a
respeitabilidade dos uniformes, porque sabiam que por baixo estava
igualmente a mesma miseria bestial da carne...

--Acabou-se, pensou, dou-lhe uma libra e imponho-a.

Ns de dedos bateram discretamente  porta do quarto.

--Entre! disse Amaro sentando-se logo, curvando-se vivamente sobre a
mesa, como absorvido, abysmado nos seus papeis.

A Dionysia entrou, pousou o pucaro da agua sobre o lavatorio, tossiu, e
fallando sobre as costas d'Amaro:

-- senhor parocho, olhe que isto assim no tem geito. Hontem iam vendo
sahir daqui a pequena.  muito srio, menino... Para bem de todos 
necessario segredo!

No, no a podia impr! A mulher estabelecia-se,  fora, na sua
confidencia. Aquellas palavras mesmo, murmuradas com medo das paredes,
revelando uma prudencia de officio, mostravam-lhe a vantagem d'uma
cumplicidade to experiente.

Voltou-se na cadeira, muito vermelho.

--Iam vendo, hein?

--Iam vendo. Eram dois bebedos... Mas podiam ser dois cavalheiros.

-- verdade.

--E na sua posio, senhor parocho, na posio da pequena!... Tudo se
deve fazer pelo calado... Nem os moveis do quarto devem saber! Em coisas
que eu protejo, exijo tanta cautela como se se tratasse de morte!

Amaro ento decidiu-se bruscamente a aceitar a _proteco_ da Dionysia.

Rebuscou n'um canto da gaveta, metteu-lhe meia libra na mo.

--Seja pelo amor de Deus, filho, murmurou ella.

--Bem; e agora, Dionysia, que lhe parece? perguntou elle recostado na
cadeira, esperando os conselhos da matrona.

Ella disse muito naturalmente, sem affectao de mysterio ou de malicia:

--A mim parece-me que para vr a pequena no ha como a casa do sineiro!

--A casa do sineiro!?

Ella recordou-lhe, muito tranquillamente, a excellente disposio do
sitio. Um dos quartos ao p da sacristia, como elle sabia, dava para um
pateo onde se tinha feito um barraco no tempo das obras. Pois bem,
justamente do outro lado eram as trazeiras da casa do sineiro... A porta
da cozinha do tio Esguelhas abria para o pateo: era sahir da sacristia,
atravessal-o, e o senhor parocho estava no ninho!

--E ella?

--Ella entra pela porta do sineiro, pela porta da rua que d para o
adro. No passa viva alma,  um ermo. E se alguem visse, nada mais
natural, era a menina Amelia que ia dar um recado ao sineiro... Isto, j
se v,  ainda pelo alto, que o plano pde-se aperfeioar...

--Sim, comprehendo,  um esboo, disse Amaro que passeava pelo quarto
reflectindo.

--Eu conheo bem o sitio, senhor parocho, e creia o que lhe digo: para
um senhor ecclesiastico que tem o seu arranjinho, no ha melhor que a
casa do sineiro!

Amaro parou diante d'ella, rindo, familiarisando-se:

-- tia Dionysia, diga l com franqueza: no  a primeira vez que voss
aconselha a casa do sineiro, hein?

Ella ento negou, muito decisivamente. Era homem que nem conhecia, o tio
Esguelhas! Mas tinha-lhe vindo aquella ida de noite, a malucar na cama.
Pela manh cedo fra examinar o sitio, e reconhecera que estava a
calhar.

Tossicou, foi-se aproximando sem ruido da porta; e voltando-se ainda,
com um ultimo conselho:

--Tudo est em que vossa senhoria se entenda bem com o sineiro.


Era isso agora o que preoccupava o padre Amaro.

O tio Esguelhas passava na S, entre os serventes e os sacristes, por
um _macambusio_. Tinha uma perna cortada e usava muleta: e alguns
sacerdotes, que desejariam o emprego para os seus protegidos,
sustentavam mesmo que aquelle defeito o tornava, segundo a Regra,
improprio para o servio da Igreja. Mas o antigo parocho Jos Migueis,
em obediencia ao senhor bispo, conservra-o na S, argumentando que o
trambolho desastroso que motivra a amputao fra na torre, n'uma
occasio de festa, collaborando no culto: _ergo_ estava claramente
indicada a inteno de Nosso Senhor em no prescindir do tio Esguelhas.
E quando Amaro tomra conta da parochia, o cxo valera-se da influencia
da S. Joanneira e d'Amelia para conservar, como elle dizia, a _corda do
sino_. Era alm d'isso (e fra a opinio da rua da Misericordia) uma
obra de caridade. O tio Esguelhas, viuvo, tinha uma filha de quinze
annos paralytica, desde pequena, das pernas. O diabo embirrou com as
pernas da familia, costumava dizer o tio Esguelhas. Era decerto esta
desgraa que lhe dava uma tristeza taciturna. Contava-se que a rapariga
(cujo nome era Antonia, e que o pai chamava Tt) o torturava com
perrices, phrenesis, caprichos abominaveis. O doutor Gouva declarra-a
_hysterica_: mas era uma certeza, para as pessoas de bons principios,
que a Tt estava _possuida do Demonio_. Houvera mesmo o plano de a
exorcismar: o senhor vigario geral, porm, sempre assustado com a
imprensa, hesitra em conceder a permisso ritual, e tinham-lhe feito
apenas, sem resultado, as asperses simples de agua benta. De resto no
se sabia a natureza do _endemoninhamento_ da paralytica: a snr.^a D.
Maria da Assumpo ouvira dizer que consistia em uivar como um lobo; a
Gansosinho, em outra verso, assegurava que a desgraada se dilacerava
com as unhas... O tio Esguelhas, esse, quando lhe perguntavam pela
rapariga, respondia sccamente:

--L est.

Os intervallos do seu servio da igreja passava-os todos com a filha no
casebre. S atravessava o largo para ir  botica por algum remedio, ou
comprar bolos  confeitaria da Thereza. Todo o dia aquelle recanto da
S, o pateo, o barraco, o alto muro ao lado coberto de parietarias, a
casa ao fundo com a sua janella de portada negra n'uma parede
lazeirenta, permaneciam n'um silencio, n'uma sombra humida: e os meninos
do cro, que s vezes se arriscavam a ir p-ante-p, pelo pateo,
espreitar o tio Esguelhas, viam-no invariavelmente curvado  lareira,
com o cachimbo na mo, cuspilhando tristemente para as cinzas.

Costumava todos os dias respeitosamente ouvir a missa do senhor parocho.
E Amaro, n'essa manh, ao revestir-se, sentindo-lhe nas lageas do pateo
a muleta, ia j ruminando a sua historia--porque no podia pedir ao tio
Esguelhas o uso do seu casebre sem explicar, d'algum modo, que o
desejava para um servio religioso... E que servio, a no ser preparar,
em segredo e longe das opposies mundanas, alguma alma terna para o
convento e para a santidade?

Ao vl-o entrar na sacristia, deu-lhe logo uns bons dias amaveis.
Achou-lhe uma bella cara de saude! Tambem no admirava--porque, segundo
todos os santos padres, a frequentao dos sinos, pela virtude
particular que lhes communica a consagrao, do uma alegria e um
bem-estar especiaes. Contou ento com bonhomia ao tio Esguelhas e aos
dois sacristes que, quando era pequeno, em casa da senhora marqueza
d'Alegros, o seu grande desejo era ser um dia sineiro...

Riram muito, extasiando-se com a pilheria de sua senhoria.

--No se riam,  verdade. E no me ficava mal... N'outros tempos eram
clerigos d'ordens menores que tocavam os sinos. Os nossos santos padres
consideram-n'os um dos meios mais efficazes da piedade. L disse a glosa
pondo o verso na bca do sino:


_Laudo Deum, populum voco, congrego clerum.
Defunctum ploro, pestem fugo, festa decoro..._


O que quer dizer, como sabem: _Louvo a Deus, chamo o povo, congrego o
clero, choro os mortos, afugento as pestes, alegro as festas_.

Citava a glosa com respeito, j revestido d'amicto e alva, no meio da
sacristia; e o tio Esguelhas impertigava-se sobre a sua muleta quellas
palavras que lhe davam uma auctoridade e uma importancia imprevista.

O sacristo tinha-se aproximado com a casula rxa. Mas Amaro no
terminra a glorificao dos sinos;--explicou ainda a sua grande virtude
em dissipar as tempestades (apesar do que dizem alguns sabios
presumposos), no s porque communicam ao ar a uno que recebem da
beno, mas porque dispersam os demonios que erram entre os vendavaes e
os troves. O santo concilio de Milo recommenda que se toquem os sinos
sempre que haja tormenta...

--Em todo o caso, tio Esguelhas, acrescentou sorrindo com solicitude
pelo sineiro, aconselho-lhe que n'esses casos  melhor no se arriscar.
Sempre  estar no alto, e perto da trovoada... Vamos a isso, tio
Mathias.

E recebeu sobre os hombros a casula, murmurando com muita compostura:

-_Domine, quis dixisti jugum meum_... Aperte mais os cordes por traz,
tio Mathias. _Suave est, et onus meum leve_...

Fez uma cortezia  imagem e entrou na igreja, na attitude da rubrica,
d'olhos baixos e corpo direito; emquanto o Mathias, depois de ter tambem
saudado com um raspo de p o Christo da sacristia, se apressava com as
galhetas, tossindo forte para clarear a garganta.

Durante toda a missa, ao voltar-se para a nave, no _Offertorio_ e ao
_Orate fratres_, o padre Amaro dirigia-se sempre (por uma benevolencia
que o ritual permitte) para o sineiro, como se o Sacrificio fosse por
sua inteno particular;--e o tio Esguelhas, com a sua muleta pousada ao
lado, abysmava-se ento n'uma devoo mais respeitosa. Mesmo ao
_Benedicat_, depois de ter comeado a beno voltado para o altar para
recolher do Deus vivo o deposito da Misericordia, terminou-a, virando-se
devagar para o tio Esguelhas especialmente, como para lhe dar a elle s
as Graas e Dons de Nosso Senhor!

--E agora, tio Esguelhas, disse-lhe baixo ao entrar na sacristia, v-me
esperar ao pateo que temos que conversar.

No tardou a vir ter com elle, com uma face grave que impressionou o
sineiro.

--Cubra-se, cubra-se, tio Esguelhas. Pois eu venho fallar-lhe d'um caso
srio... Verdadeiramente pedir-lhe um favor...

--Oh, senhor parocho!

No, no era um favor... Porque, quando se tratava do servio de Deus,
todos tinham o dever de concorrer na proporo das suas foras...
Tratava-se d'uma menina que se queria fazer freira. Emfim, para lhe
provar a confiana que tinha n'elle, ia-lhe dizer o nome...

-- a Ameliasinha da S. Joanneira!

--Que me diz, senhor parocho?!

--Uma vocao, tio Esguelhas! V-se o dedo de Deus!  extraordinario...

Contou-lhe ento uma historia diffusa que ia forjando laboriosamente,
segundo as sensaes que imaginava vr na face pasmada do sineiro. A
rapariga desgostra-se da vida, com as desavenas que tivera com o
noivo. Mas a mi, que estava velha, que a necessitava para o governo da
casa, no queria consentir, suppondo que era uma velleidade... Mas no,
era vocao... Elle sabia-o... Infelizmente, quando havia opposio, a
conducta do sacerdote era muito delicada... Todos os dias os jornaes
impios (e infelizmente era a maioria!) gritavam contra as influencias do
clero... As auctoridades, mais impias que os jornaes, punham
obstaculos... Havia leis terriveis... Se soubessem que elle andava a
instruir a menina para professar, ferravam-no na cadeia! Que queria o
tio Esguelhas?... Impiedade, alheismo do tempo! Ora, elle necessitava
ter com a pequena muitas e muitas conferencias: para a experimentar,
para conhecer as suas disposies, vr bem se  para a Solido que ella
tem geito, ou para a Penitencia, ou para o servio dos enfermos, ou para
a Adorao Perpetua, ou para o ensino... Emfim, estudal-a por dentro e
por fra.

--Mas onde? exclamou, abrindo os braos como na desolao d'um santo
dever contrariado. Onde? Em casa da mi no pde ser, j andam
desconfiados. Na igreja impossivel, era o mesmo que na rua. Em minha
casa, j v, menina nova...

--Est claro.

--De modo que, tio Esguelhas... E estou certo que voss m'o ha de
agradecer... pensei na sua casa...

--Oh, senhor parocho, acudiu o sineiro, eu, a casa, os trastes, est
tudo s ordens!

--Bem v,  no interesse d'aquella alma,  um regosijo para Nosso
Senhor...

--E p'ra mim, senhor parocho, e p'ra mim!

O que o tio Esguelhas receava  que a casa no fosse decente e no
tivesse as commodidades...

--Ora! fez o padre sorrindo, n'um renunciamento de todos os confortos
humanos. Comtanto que haja duas cadeiras e uma mesa para pr o livro da
orao...

De resto, por outro lado, dizia o sineiro, l como sitio retirado e casa
socegada estava a preceito. Ficavam alli, elle e a menina, como os
monges no deserto. Nos dias em que o senhor parocho viesse, elle sahia a
dar o seu giro. Na cozinha no poderiam accommodar-se, porque o quartito
da pobre Tt era ao p... Mas tinham o quarto d'elle, em cima.

O padre Amaro bateu com a mo na testa. No se lembrra da paralytica!

--Isso estraga-nos o arranjinho, tio Esguelhas! exclamou.

Mas o sineiro tranquillisou-o, vivamente. Estava agora todo interessado
n'aquella conquista d'uma noiva para Nosso Senhor; queria por fora que
o seu telhado abrigasse a santa preparao da alma da menina... Talvez
lhe attrahisse a elle a piedade de Deus! Mostrou com calor as vantagens,
as facilidades da casa. A Tt no embaraava. No se mexia da cama. O
senhor parocho entrava pela cozinha do lado da sacristia, a menina vinha
pela porta da rua: subiam, fechavam-se no quarto...

--E ella que faz, a Tt? perguntou o padre Amaro, hesitando ainda.

Coitadita, para alli estava... Tinha manias: ora fazia bonecas e
apaixonava-se por ellas a ponto de ter febre; outros dias passava-os
n'um silencio medonho com os olhos cravados na parede. Mas s vezes
estava alegre, palrava, chalaceava... Uma desgraa!

--Devia-se entreter, devia lr, disse o padre Amaro para mostrar
interesse.

O sineiro suspirou. No sabia lr, a pequena, nunca quizera aprender.
Era o que elle lhe dizia--se pudesses lr j te no pesava tanto a vida!
Mas ento? Tinha horror a applicar-se... O senhor padre Amaro devia ter
a caridade de a persuadir, quando viesse a casa...

Mas o parocho no o escutava, todo abysmado n'uma ida que lhe alumira
a face d'um sorriso. Achra subitamente a explicao natural a dar  S.
Joanneira e s amigas das visitas d'Amelia a casa do sineiro: era a
ensinar a lr a paralytica! A educal-a! A abrir-lhe a alma s bellezas
dos livros santos, da historia dos martyres e da orao!...

--Est decidido, tio Esguelhas, exclamou, esfregando as mos de jubilo.
 em sua casa que se ha de fazer da rapariga uma santa. E d'isto--e a
sua voz deu um grave profundo--um segredo inviolavel!

--Oh, senhor parocho! fez o sineiro, quasi offendido.

--Conto comsigo! disse Amaro.

Veio logo  sacristia escrever um bilhete, que devia passar em segredo a
Amelia, em que lhe explicava detalhadamente o arranjinho que fizera
para gozarem novas e divinas felicidades. Prevenia-a que o pretexto
para ella vir todas as semanas a casa do sineiro devia ser a educao da
paralytica: elle mesmo o proporia  noite em casa da mam. Que n'isto,
dizia, ha alguma verdade, pois seria grato a Deus que se alumiasse com
uma boa instruco religiosa as trevas d'aquella alma. E matamos assim,
querido anjo, dois coelhos com uma s cacheirada!

Depois entrou em casa. Como se sentou regalamente  mesa do almoo, com
um contentamento pleno de si, da vida e das dces facilidades que n'ella
encontrava! Ciumes, duvidas, torturas do desejo, solido da carne, tudo
o que o consumira mezes e mezes, alm na rua da Misericordia e alli na
rua das Sousas, passra. Estava emfim installado  larga na felicidade!
E recordava, abysmado n'um gozo mudo, com o garfo esquecido na mo, toda
aquella meia hora da vespera, prazer por prazer, resaboreando-os
mentalmente um a um, saturando-se da deliciosa certeza da posse--como o
lavrador que percorre a leira de terra adquirida que os seus olhos
invejaram muitos annos. Ah, no tornaria a olhar de lado, com azedume,
os cavalheiros que passeavam na Alameda com as suas mulheres pelo brao!
Tambem elle agora tinha uma, toda sua, alma e carne, linda, que o
adorava, que usava boas roupas brancas, e trazia no peito um cheirinho
d'agua de colonia! Era padre,  verdade... Mas para isso tinha o seu
grande argumento:  que o comportamento do padre, logo que no d
escandalo entre os fieis, em nada prejudica a efficacia, a utilidade, a
grandeza da religio. Todos os theologos ensinam que a ordem dos
sacerdotes foi instituida para administrar os sacramentos; o essencial 
que os homens recebam a santidade interior e sobrenatural que os
sacramentos contm; e comtanto que elles sejam dispensados segundo as
formulas consagradas, que importa que o sacerdote seja santo ou
peccador? O sacramento communica a mesma virtude. No  pelos meritos do
sacerdote que elles operam, mas pelos meritos de Jesus Christo. O que 
baptisado ou ungido, ou seja por mos puras ou por mos torpes, fica
igualmente bem lavado da macula original, ou bem preparado para a vida
eterna. Isto l-se em todos os santos padres, estabeleceu-o o seraphico
concilio de Trento. Os fieis nada perdem, na sua alma e na sua salvao,
com a indignidade do parocho. E se o parocho se arrepende  hora
extrema, tambem se lhe no fecham as portas do co. Logo em definitiva
tudo acaba bem, e em paz geral...--E o padre Amaro, raciocinando assim,
sorvia com prazer o seu caf.

A Dionysia, ao fim do almoo, veio saber, muito risonha, se o senhor
parocho fallra ao tio Esguelhas...

--Fallei por alto, disse elle ambiguamente. No ha nada decidido... Roma
no se construiu n'um dia.

--Ah! fez ella.

E recolheu-se  cozinha, pensando que o senhor parocho mentia como um
hereje. Tambem, no se importava... Nunca gostra de arranjos com os
senhores ecclesiasticos; pagavam mal, e suspeitavam sempre...

E mesmo ouvindo Amaro que sahia, correu  escada a dizer-lhe--que emfim,
ella tinha a olhar pela sua casa, e quando o senhor parocho tivesse
arranjado criada...

--A snr.^a D. Josepha Dias anda-me a tratar d'isso, Dionysia. Espero ter
alguem manh. Mas voss apparea... Agora que somos amigos...

--Quando o senhor parocho quizer  chamar-me da janella para o quintal,
disse ella do alto da escada. Para tudo que precisar. De tudo sei um
bocadinho, at de desarranjos e de partos... E n'este ponto posso at
dizer...

Mas o padre no a escutava: atirra com a porta de repello, fugindo,
indignado d'aquella utilidade torpe assim brutalmente offerecida.


Foi d'ahi a dias que elle fallou em casa da S. Joanneira da filha do
sineiro.

Na vespera dera o bilhete a Amelia; e n'essa noite, emquanto na sala se
galrava alto, aproximra-se do piano, onde Amelia, com os dedos
preguiosos, corria escalas, e abaixando-se para accender o cigarro 
vela, murmurra:

--Leu?

--Optimo!

Amaro recolheu logo ao grupo das senhoras, onde a Gansoso estava
contando uma catastrophe que lra n'um jornal, succedida em Inglaterra:
uma mina de carvo que desabra, sepultando cento e vinte trabalhadores.
As velhas arripiavam-se horrorisadas. A Gansoso ento, gozando o
effeito, accumulou loquazmente os detalhes: a gente que estava fra
esforra-se por desatulhar os infelizes; ouviam-se-lhes em baixo os
gemidos e os ais; era ao lusco-fusco; havia uma tormenta de neve...

--Desagradavel! rosnou o conego, aconchegando-se na sua poltrona,
gozando o calor da sala e a segurana dos tectos.

A snr.^a D. Maria da Assumpo declarou que todas essas minas, essas
machinas estrangeiras lhe causavam medo. Vira uma fabrica ao p
d'Alcobaa, e parecera-lhe uma imagem do inferno. Estava certa que Nosso
Senhor no as via com bons olhos...

-- como os caminhos de ferro, disse D. Josepha. Tenho a certeza que
foram inspirados pelo demonio! No o digo a rir. Mas vejam aquelles
uivos, aquelle fogaracho, aquelle fragor! Ai, arripia!

O padre Amaro galhofou,--assegurando  snr.^a D. Josepha que eram
ricamente commodos para andar depressa! Mas, tornando-se logo srio,
acrescentou:

--Em todo o caso  incontestavel, que ha n'essas invenes da sciencia
moderna muito do demonio. E  por isso que a nossa santa Igreja as
abena, primeiro com oraes e depois com agua benta. Ho de saber que
 o costume. Com agua benta para lhes fazer o exorcismo, expulsar o
espirito inimigo: e com oraes para as resgatar do peccado original que
no s existe no homem, mas nas coisas que elle construe.  por isso que
se benzem e se purificam as locomotivas... Para que o demonio no se
possa servir d'ellas para seu uso.

D. Maria da Assumpo quiz immediatamente uma explicao. Como era a
maneira usual do Inimigo se servir dos caminhos de ferro?

O padre Amaro esclareceu-a, com bondade. O Inimigo tinha muitas
maneiras, mas a habitual era esta: fazia descarrilar um trem de modo que
morressem passageiros, e como essas almas no estavam preparadas pela
Extrema-Uno, o demonio alli mesmo, zs, apoderava-se d'ellas!

-- de velhaco! rosnou o conego, com uma admirao secreta por aquella
manha to habil do Inimigo.

Mas D. Maria da Assumpo abanou-se langorosamente, com o rosto banhado
n'um sorriso de beatitude:

--Ai, filhas! dizia pausadamente para os lados, a ns  que no nos
succedia isso... Que no nos pilhava desprevenidas!

Era verdade; e todas gozaram um momento aquella certeza deliciosa de
estarem preparadas, de poderem lograr a malicia do Tentador!

O padre Amaro ento tossiu como para preparar as vias, e apoiando as
duas mos sobre a mesa, n'um tom de pratica:

-- necessario muita vigilancia para conservar de longe o demonio. Ainda
hoje eu estava a pensar n'isso (foi mesmo a minha meditao) a respeito
de um caso bem triste que tenho l ao p da S...  a filhita do
sineiro.

As senhoras tinham chegado as cadeiras, bebendo-lhe as palavras, n'uma
curiosidade subitamente excitada, esperando ouvir a historia picante
d'alguma faanha de Satanaz. E o parocho continuou com uma voz a que o
silencio em redor dava solemnidade:

--Alli est aquella rapariga, todo o santo dia, pregada na cama! No
sabe lr, no tem devoes habituaes, no tem o costume da meditao; 
por consequencia, para empregar a expresso de S. Clemente--_uma alma
sem defeza_. O que succede? Que o demonio, que ronda constantemente e
no perde dentada, estabelece-se alli como em sua casa! Por isso, como
me dizia hoje o pobre tio Esguelhas, so phrenesis, desesperos, furores
sem razo... Emfim o pobre homem tem a vida estragada.

--E a dois passos da igreja do Senhor! exclamou D. Maria da Assumpo,
indignada d'aquella impudencia de Satanaz, **installando-se** n'um
corpo, n'um leito, que apenas a estreiteza do pateo separava dos
contrafortes da S.

Amaro acudiu:

--Tem a D. Maria razo. O escandalo  enorme. Mas ento? Se a rapariga
no sabe lr! Se no sabe uma orao, se no tem quem a instrua, quem
lhe leve a palavra de Deus, quem a fortifique, quem lhe ensine o segredo
de frustrar o Inimigo!...

Ergueu-se animado, deu alguns passos pela sala, de hombros vergados,
n'uma mgoa de pastor a quem uma fora desproporcional arrebata uma
ovelha amada. E, exaltado pelas suas palavras, sentia, com effeito, uma
piedade que o invadia, uma compaixo verdadeira por aquella pobre
creatura, a quem a falta de consolaes devia tornar mais intensa a
agonia da immobilidade...

As senhoras olhavam-se, magoadas com aquelle caso triste d'abandono
d'alma,--sobretudo pela dr que elle parecia trazer ao senhor parocho.

A snr.^a D. Maria da Assumpo, que percorria em imaginao o abundante
arsenal da devoo, lembrra logo que se lhe puzessem alguns santos 
cabeceira, como S. Vicente, Nossa Senhora das Sete Chagas... Mas o
silencio das amigas exprimiu bem a insufficiencia d'aquella galeria
devota.

--As senhoras dir-me-ho talvez, disse o padre Amaro sentando-se de
novo, que se trata apenas da filha do sineiro. Mas  uma alma!  uma
alma como as nossas!

--Todos tm direito  graa do Senhor, disse o conego gravemente, n'um
sentimento d'imparcialidade, admittindo a igualdade das classes logo que
no se tratava de bens materiaes e apenas dos confortos do co.

--P'ra Deus no ha pobre nem rico, suspirou a S. Joanneira. Antes pobre,
que dos pobres  o reino do co!

--No, antes rico, acudiu o conego, estendendo a mo para deter aquella
falsa interpretao da lei divina. Que o co tambem  para os ricos. A
senhora no comprehende o preceito. _Beati pauperes_, bemditos os
pobres, quer dizer que os pobres devem-se achar felizes na pobreza; no
desejarem os bens dos ricos; no quererem mais que o bocado de po que
tm; no aspirarem a participar das riquezas dos outros, sob pena de no
serem bemditos.  por isso, saiba a senhora, que essa canalha que prga
que os trabalhadores e as clases baixas devem viver melhor do que vivem,
vai d'encontro  expressa vontade da Igreja e de Nosso Senhor, e no
merece seno chicote, como excommungados que so! Ouf!

E estirou-se, extenuado de ter fallado tanto. O padre Amaro, esse,
permanecia calado, com o cotovlo sobre a mesa, esfregando devagar a
testa. Ia lanar a sua ida, como vinda d'uma inspirao divina, propr
que fosse Amelia levar uma educao devota  triste paralytica... E
hesitava supersticiosamente diante do seu motivo todo carnal, todo de
concupiscencia. A filha do sineiro apparecia-lhe agora, exageradamente,
abysmada n'uma treva d'agonia. Sentia toda a caridade que haveria em
consolal-a, entretel-a, fazer-lhe os dias menos amargos... Esta aco
redimiria decerto muitas culpas, encantaria Deus, se fosse feita n'um
puro espirito de fraternidade christ! Vinha-lhe uma compaixo
sentimental de bom rapaz por aquelle miseravel corpo pregado n'uma cama,
sem nunca vr o sol nem a rua... E alli estava embaraado, n'aquella
piedade que o invadia, sem se decidir, coando a nuca, arrependido quasi
de ter fallado s senhoras da Tt...

Mas D. Joaquina Gansoso tivera uma ida:

-- senhor padre Amaro, se se lhe mandasse aquelle livro com pinturas de
vidas dos santos? Eram pinturas que edificavam. A mim tocavam-me alma...
No s tu que o tens, Amelia?

--No, disse ella, sem erguer os olhos da costura.

Amaro ento olhou-a. Tinha-a quasi esquecido. Estava agora do outro lado
da mesa, abainhando um esfrego: a risca muita fina desapparecia na
abundancia espessa do cabello, onde a luz do candieiro ao lado punha um
trao lustroso; as pestanas pareciam mais longas, mais negras sobre a
pelle da face, d'um trigueiro calido, que uma tinta rosada aquecia; o
vestido justo, que se franzia n'uma prega sobre o hombro, elevava-se
amplamente sobre a frma dos peitos, que elle via arfar no rhythmo da
respirao igual... Era aquella a belleza que mais appetecia n'ella;
imaginava-os d'uma cr de neve, redondos e cheios; tivera-a nos braos,
sim, mas vestida, e as suas mos sfregas tinham **encontrado** s a
sda fria... Mas na casa do sineiro seriam d'elle, sem obstaculo, sem
vestidos,  disposio dos seus labios. Por Deus! e nada impedia que ao
mesmo tempo consolassem a alma da Tt! No hesitou mais. E erguendo a
voz, no meio do palratorio das velhas que discutiam agora a desappario
da _Vida dos Santos_:

--No, minhas senhoras, no  com livros que se vale  rapariga... Sabem
a ida que me veio? Era um de ns, o que estiver menos occupado,
levar-lhe a palavra de Deus e educar aquella alma!--E acrescentou,
sorrindo:--E a fallar a verdade, a pessoa mais desoccupada aqui de todos
ns  a menina Amelia...

Ento foi uma surpreza! Pareceu a mesma vontade de Nosso Senhor vinda
n'uma revelao. Os olhos de todas accenderam-se n'uma excitao devota,
 ida d'aquella misso de caridade, que partia alli d'ellas, da rua da
Misericordia... Extasiavam-se, no ante-gosto guloso dos elogios do
senhor chantre e do cabido! Cada uma dava o seu conselho, n'uma
assiduidade de participar da santa obra, de partilharem as recompensas
que o co certamente prodigalisaria. D. Joaquina Gansoso declarou com
calor que invejava Amelia; e chocou-se muito vendo-a de repente rir.

--Imaginas que no o faria com a mesma devoo? J ests com o orgulho
da boa aco... Olha que assim no t'aproveita!

Mas Amelia continuava tomada d'um riso nervoso, deitada para as costas
da cadeira, suffocando-se para se conter.

Os olhinhos de D. Joaquina chammejavam.

-- indecente,  indecente! gritava.

Calmaram-na: Amelia teve de lhe jurar sob os Santos Evangelhos que fra
uma ida extravagante que tivera, que era nervoso...

--Ai, disse D. Maria da Assumpo, ella tem razo em s'orgulhar. Que 
uma honra p'r' casa! Em se sabendo...

O parocho interrompeu com severidade:

--Mas no se deve saber, snr.^a D. Maria da Assumpo! De que serve, aos
olhos do Senhor, uma boa obra de que se tire alarde e vangloria?

D. Maria vergou os hombros, humilhando-se  reprehenso. E Amaro, com
gravidade:

--Isto no deve sahir d'aqui.  entre Deus e ns. Queremos salvar uma
alma, consolar uma enferma, e no ter elogios nos periodicos. Pois no 
assim, padre-mestre?

O conego ergueu-se pesadamente:

--Voss esta noite tem fallado com a lingua de ouro de S. Chrysostomo.
Eu estou edificado; e no se me dava agora de vr apparecer as torradas.

Foi ento, emquanto a _Rua_ no trazia o ch, que se decidiu que
Amelia, todas as semanas, uma ou duas vezes segundo fosse a sua devoo,
**iria em** segredo, para que a aco fosse mais valiosa aos olhos de
Deus, passar uma hora  cabeceira da paralytica, lr-lhe a _Vida dos
Santos_, ensinar-lhe rezas e insufflar-lhe a virtude.

--Emfim, resumiu a snr.^a D. Maria da Assumpo voltando-se para Amelia,
no te digo seno uma coisa: abichaste!

A _Rua_ entrou com o taboleiro, no meio dos risos que provocra a
tolice de D. Maria, como disse Amelia, que se fizera escarlate.--E foi
assim que ella e o padre Amaro se puderam vr livremente, para gloria do
Senhor e humilhao do Inimigo.


Encontravam-se todas as semanas, ora uma ora duas vezes, de modo que as
suas visitas caridosas  paralytica perfizessem ao fim do mez o numero
symbolico de sete, que devia corresponder, na ida das devotas, s _Sete
lies de Maria_. Na vespera o padre Amaro tinha prevenido o tio
Esguelhas, que deixava a porta da rua apenas cerrada, depois de ter
varrido toda a casa e preparado o quarto para a pratica do senhor
parocho. Amelia n'esses dias erguia-se cedo: tinha sempre alguma saia
branca a engommar, algum laarote a compr; a mi estranhava-lhe
aquelles arrebiques, o desperdicio d'agua de colonia de que ella se
inundava; mas Amelia explicava que era para inspirar  Tt idas de
aceio e de frescura. E depois de vestida sentava-se, esperando as onze
horas, muito sria, respondendo distrahidamente s conversas da mi, com
uma cr nas faces, os olhos cravados nos ponteiros do relogio: emfim a
velha matraca gemia cavamente as onze horas, e ella, depois d'uma
olhadella ao espelho, sahia, dando uma beijoca  mam.

Ia sempre receosa, n'uma inquietao de ser espreitada. Todas as manhs
pedia a Nossa Senhora da Boa Viagem que a livrasse de maus encontros; e
se via um pobre dava-lhe invariavelmente esmola, para lisonjear os
gostos de Nosso Senhor, amigo dos mendigos e vagabundos. O que a
assustava era o largo da S, sobre o qual a Amparo da botica, costurando
por traz da janella, exercia uma vigilancia incessante. Fazia-se ento
pequenina no seu mantelete, e abaixando o guardasol sobre o rosto,
entrava emfim na S, sempre com o p direito.

Mas a mudez da igreja, deserta e adormecida n'uma luz fusca,
amedrontava-a: parecia-lhe sentir, na taciturnidade dos santos e das
cruzes, uma reprehenso ao seu peccado; imaginava que os olhos de vidro
das imagens, as pupillas pintadas dos paineis se fixavam n'ella, com uma
insistencia cruel, e percebiam o arfar que ao seu seio dava a esperana
do prazer. s vezes mesmo, atravessada d'uma superstio, para dissipar
o descontentamento dos santos, promettia dar-se n'essa manh toda 
Tt, occupar-se caridosamente s d'ella, e no se deixar tocar sequer
no vestido pelo senhor padre Amaro. Mas se ao entrar na casa do sineiro
o no encontrava, ia logo, sem se deter ao p da cama da Tt, postar-se
 janella da cozinha, vigiando a porta massia da sacristia de que ella
conhecia uma por uma as chapas negras de ferro.

Elle apparecia, emfim. Era ento nos comeos de maro; j tinham chegado
as andorinhas; ouviam-n'as chilrear, n'aquelle silencio melancolico,
esvoaando entre os contrafortes da S. Aqui e alm, plantas dos logares
humidos cobriam os cantos d'uma verdura escura. Amaro, s vezes muito
galante, ia procurar uma florzinha. Amelia impacientava-se, rufava na
vidraa da cozinha. Elle apressava-se; ficavam um momento  porta,
apertando-se as mos, com olhos brilhantes que se devoravam; e iam emfim
vr a Tt--e dar-lhe os bolos que o parocho lhe trazia no bolso da
batina.

A cama da Tt era na alcova, ao lado da cozinha; o seu corpinho de
tisica quasi no fazia saliencia enterrado na cova da enxerga, sob os
cobertores enxovalhados que ella se entretinha a esfiar. N'esses dias
tinha vestido um chambre branco, os cabellos reluziam-lhe d'oleo; porque
ultimamente, desde as visitas d'Amaro, viera-lhe uma birra de parecer
alguem, como dizia encantado o tio Esguelhas, a ponto de se no querer
separar d'um espelho e d'um pente que escondia debaixo do travesseiro e
obrigar o pai a encafuar sob a cama, entre a roupa suja, as bonecas que
agora desprezava.

Amelia sentava-se um instante aos ps do catre, perguntando-lhe se
estudra o A B C, obrigando-a a dizer aqui e alm o nome d'uma letra.
Depois queria que ella repetisse sem a errar a orao que lhe andava
ensinando;--emquanto o padre, sem passar da porta, esperava, com as mos
nos bolsos, enfastiado, embaraado com os olhos reluzentes da paralytica
que o no deixavam, penetrando-o, percorrendo-lhe o corpo com pasmo e
com ardor, e que pareciam maiores e mais brilhantes no seu rosto
trigueiro to chupado que se lhe via a saliencia das maxillas. No
sentia agora nem compaixo nem caridade pela Tt; detestava aquella
demora; achava a rapariga selvagem e embirrenta. A Amelia tambem pesavam
aquelles momentos em que, para no escandalisar muito Nosso Senhor, se
resignava a fallar  paralytica. A Tt parecia odial-a; respondia-lhe
muito carrancuda; outras vezes persistia n'um silencio rancoroso,
voltada para a parede; um dia despedara o alphabeto; e encolhia-se
toda encruada se Amelia lhe queria compor o chale sobre os hombros ou
conchegar-lhe a roupa...

Emfim Amaro, impaciente, fazia um signal a Amelia; ella punha logo
diante da Tt o livro com estampas da _Vida dos Santos_.

--V, ficas agora a vr as figuras... Olha, este  S. Matheus, esta
Santa Virginia... Adeus, eu vou l a cima com o senhor parocho rezarmos
para que Deus te d saude e te deixe ir passear... No estragues o
livro, que  peccado.

E subiam a escada, emquanto a paralytica, estendendo o pescoo
sfregamente, os seguia, escutando o ranger dos degraus, com olhos
chammejantes que lagrimas de raiva ennevoavam. O quarto, em cima, era
muito baixo, sem forro, com um tecto de vigas negras sobre que
assentavam as telhas. Ao lado da cama pendia a candeia que puzera sobre
a parede um penacho negro do fumo. E Amaro ria sempre dos preparativos
que fizera o tio Esguelhas--a mesa ao canto com o Novo Testamento, uma
caneca d'agua, e duas cadeiras dispostas ao lado...

-- p'r' nossa conferencia, para te ensinar os deveres de freira, dizia
elle, galhofando.

--Ensina, ento! murmurava ella de braos abertos, pondo-se diante do
padre, com um sorriso calido onde brilhava um branquinho dos dentes,
n'um abandono que se offerecia.

Elle atirava-lhe beijos vorazes pelo pescoo, pelos cabellos; s vezes
mordia-lhe a orelha; ella dava um gritinho; e ficavam ento muito
quedos, escutando, com medo da paralytica em baixo. O parocho depois
fechava as portadas da janella e a porta muito perra que tinha
d'empurrar com o joelho. Amelia ia-se despindo devagar; e com as saias
cahidas aos ps ficava um momento immovel, como uma frma branca na
escurido do quarto. Em redor o padre, preparando-se, respirava forte.
Ella ento persignava-se depressa, e sempre ao subir para o leito dava
um suspirosinho triste.

Amelia s podia demorar-se at ao meio dia. O padre Amaro por isso
pendurava o seu _cebolo_ no prego da candeia. Mas quando no ouviam as
badaladas da torre, Amelia conhecia a hora pelo cantar d'um gallo
visinho.

--Devo ir, filho, murmurava toda cansada.

--Deixa l... Ests sempre com a pressa...

Ficavam ainda um momento calados, n'uma lassido dce, muito chegados um
ao outro. Pelas vigas separadas do telhado mal junto viam aqui e alm
fendas de luz: s vezes sentiam um gato, com as suas passadas fofas,
vadiar, fazendo bolir alguma telha solta; ou um passaro, pousando,
chilreava e ouviam-lhe o fremito das azas.

--Ai, so horas, dizia Amelia.

O padre queria detel-a; no se fartava de lhe beijar a orelhinha.

--Lambo! murmurava ella. Deixa-me!

Vestia-se  pressa no escuro do quarto; depois ia abrir a janella, vinha
ainda abraar o pescoo de Amaro, que ficra estatelado sobre o leito; e
ia emfim arrastar a mesa e as cadeiras, para a paralytica sentir em
baixo, saber que tinha acabado a conferencia.

Amaro no findava ainda de a beijocar: ella ento, para acabar,
fugia-lhe, ia escancarar a porta do quarto; o padre descia, atravessava
em duas passadas a cozinha sem olhar para a Tt, e entrava na
sacristia.

Amelia, essa, antes de sahir, vinha vr a paralytica, saber se gostra
das estampas. Encontrava-a s vezes com a cabea debaixo dos cobertores,
que entalava e prendia com as mos para se **esconder**; outras vezes,
sentada na cama, examinava Amelia com olhos em que se accendia uma
curiosidade viciosa; chegava o rosto para ella, com as narinas dilatadas
que pareciam cheiral-a; Amelia recuava, inquieta, crando tambem;
queixava-se ento de ser tarde, recolhia a _Vida dos Santos_,--e sahia,
amaldioando aquella creatura to maliciosa na sua mudez.


Ao passar no largo, quella hora, via sempre a Amparo  janella.
Ultimamente mesmo julgra prudente contar-lhe em segredo a sua caridade
com a Tt. A Amparo, mal a via, chamava-a; e debruando-se toda na
varanda:

--Ento como vai a Tt?

--L vai.

--J l?

--J soletra.

--E a orao a Nossa Senhora?

--J a diz.

--Ai, que devoo a tua, filha!

Amelia baixava os olhos, modesta. E o Carlos, que estava tambem no
segredo, deixava o balco para vir  porta admirar Amelia.

--Vem da sua grande misso de caridade, hein? dizia, d'olho arregalado,
balanceando-se na ponta das chinelas.

--Estive um bocado com a pequena, a entretel-a...

--Grandioso! murmurava o Carlos. Um apostolado! Pois v, minha santa
menina, recados  mam.

Voltava-se ento para dentro, para o praticante:

--Veja o snr. Augusto aquillo... Em logar de passar o seu tempo, como as
outras, em namoros, faz-se anjo da guarda! Passa a flr dos annos com
uma entrevada! Veja o senhor se a philosophia, o materialismo, e essas
porcarias so capazes d'inspirar aces d'este jaez... S a religio,
meu caro senhor! Eu queria que os Renans e essa cambada de philosophos
vissem isto! Que eu, tenha o senhor em vista, admiro a philosophia, mas
quando ella, por assim dizer, vai de mos dadas com a religio... Sou
homem de sciencia e admiro um Newton, um Guizot... Mas (e grave o senhor
estas palavras) se a philosophia se afasta da religio... (grave bem
estas palavras) dentro de dez annos, snr. Augusto, est a philosophia
enterrada!

E continuava a mexer-se pela pharmacia a passos lentos, de mos atraz
das costas, ruminando o fim da philosophia.




XVIII


Foi aquelle o periodo mais feliz da vida de Amaro.

Ando na graa de Deus, pensava elle s vezes  noite, ao despir-se,
quando por um habito ecclesiastico, fazendo o exame dos seus dias, via
que elles se seguiam faceis, to confortaveis, to regularmente gozados.
No houvera, nos ultimos dois mezes, nem attritos nem difficuldades no
servio da parochia; todo o mundo, como dizia o padre Saldanha, andava
d'um humor de santo. D. Josepha Dias arranjra-lhe muito barata uma
cozinheira excellente, e que se chamava Escolastica. Na rua da
Misericordia tinha a sua crte admiradora e devota; cada semana, uma ou
duas vezes, vinha quella hora deliciosa e celeste na casa do tio
Esguelhas; e para completar a harmonia at a estao ia to linda, que
j no Morenal comeavam a abrir as rosas.

Mas o que o encantava era que nem as velhas, nem os padres, ninguem da
sacristia suspeitava os seus _rendez-vous_ com Amelia. Aquellas visitas
 Tt tinham entrado nos costumes da casa; chamavam-lhe as devoes da
pequena; e no a interrogavam com particularidades, pelo principio
beato que as devoes so um segredo que se tem com Nosso Senhor. S s
vezes alguma das senhoras perguntava a Amelia--como ia a doente; ella
assegurava que estava muito mudada, que comeava a abrir os olhos  lei
de Deus; ento, muito discretamente, fallavam de coisas differentes.
Havia apenas o plano vago de irem um dia, mais tarde, quando a Tt
soubesse bem o seu catecismo e pela efficacia da orao se tivesse
tornado boa, admirar em romaria a obra santa de Amelia e a humilhao do
Inimigo.

Amelia mesmo, perante esta confiana to larga na sua virtude, propuzera
um dia a Amaro, como muito habil--dizer s amigas que o senhor parocho
s vezes vinha assistir  pratica piedosa que ella fazia  Tt...

--Assim, se alguem te surprehendesse a entrar para a casa do tio
Esguelhas, j no havia suspeitas.

--No me parece necessario, disse elle. Deus est comnosco, filha, 
claro. No queiramos intrometter-nos nos seus planos. Elle v mais longe
que ns...

Ella concordou logo--como em tudo que sahia dos seus labios. Desde a
primeira manh, na casa do tio Esguelhas, ella abandonra-se-lhe
absolutamente, toda inteira, corpo, alma, vontade e sentimento: no
havia na sua pelle um cabellinho, no corria no seu cerebro uma ida a
mais pequenina, que no pertencesse ao senhor parocho. Aquella possesso
de todo o seu sr no a invadira gradualmente; fra completa, no momento
que os seus fortes braos se tinham fechado sobre ella. Parecia que os
beijos d'elle lhe tinham sorvido, esgotado a alma: agora era como uma
dependencia inerte da sua pessoa. E no lh'o occultava; gozava em se
humilhar, offerecer-se sempre, sentir-se toda d'elle, toda escrava;
queria que elle pensasse por ella e vivesse por ella; descarregra-se
n'elle, com satisfao, d'aquelle fardo da responsabilidade que sempre
lhe pesra na vida; os seus juizos agora vinham-lhe formados do cerebro
do parocho, to naturalmente como se sahisse do corao d'elle o sangue
que lhe corria nas veias. O senhor parocho queria ou o senhor parocho
dizia era para ella uma razo toda sufficiente e toda poderosa. Vivia
com os olhos n'elle, n'uma obediencia animal: tinha s a curvar-se
quando elle fallava, e quando vinha o momento a desapertar o vestido.

Amaro gozava prodigiosamente esta dominao; ella desforrava-o de todo
um passado de dependencias--a casa do tio, o seminario, a sala branca do
senhor conde de Ribamar... A sua existencia de padre era uma curvatura
humilde que lhe fatigava a alma; vivia da obediencia ao senhor bispo, 
camara ecclesiastica, aos canones,  Regra que nem lhe permittia ter uma
vontade propria nas suas relaes com o sacristo. E agora, emfim, tinha
alli aos seus ps aquelle corpo, aquella alma, aquelle sr vivo sobre
quem reinava com despotismo. Se passava os seus dias, por profisso,
louvando, adorando e incensando Deus,--era elle tambem agora o Deus
d'uma creatura que o temia e lhe dava uma devoo pontual. Para ella ao
menos, era bello, superior aos condes e aos duques, to digno da mitra
como os mais sabios. Ella mesmo, um dia, dissera-lhe, depois de ter
estado um momento pensativa:

--Tu podias chegar a Papa!

--D'esta massa se fazem, respondeu elle com seriedade.

Ella acreditava-o--com um receio, todavia, que as altas dignidades o
afastassem d'ella, o levassem para longe de Leiria. Aquella paixo, em
que estava abysmada e que a saturava, tornra-a estupida e obtusa a tudo
o que no respeitava ao senhor parocho ou ao seu amor. Amaro de resto
no lhe consentia interesses, curiosidades alheias  sua pessoa.
Prohibia-lhe at que lsse romances e poesias. Para que se havia de
fazer doutora? Que lhe importava o que ia no mundo? Um dia que ella
fallra, com algum appetite, d'um baile que iam dar os Vias-Claras,
offendeu-se como d'uma traio. Fez-lhe em casa do tio Esguelhas
accusaes tremendas: era uma vaidosa, uma perdida, uma filha de
Satanaz!...

--Mas mato-te! Percebes? Mato-te!--exclamou, agarrando-lhe os pulsos,
fulminando-a com o olhar accso.

Tinha um medo, que o pungia, de a vr subtrahir-se ao seu imperio,
perder-lhe a adorao muda e absoluta. Pensava s vezes que ella se
fatigaria, com o tempo, d'um homem que no lhe satisfazia as vaidades e
os gostos de mulher, sempre mettido na sua batina negra, com a cara
rapada e a cora aberta. Imaginava que as gravatas de cres, os bigodes
bem torcidos, um cavallo que trota, um uniforme de lanceiros exercem
sobre as mulheres uma fascinao decisiva. E se a ouvia fallar d'algum
official do destacamento, d'algum cavalheiro da cidade, eram ciumes
desabridos...

--Gstas d'elle? Hein?  pelos trapos, pelo bigode?...

--Gsto d'elle! Oh, filho, eu nunca vi o homem!

Mas escusava de fallar da creatura, ento! Era ter curiosidade, pr o
pensamento n'outro! D'essas faltas de vigilancia sobre a alma e a
vontade  que se aproveitava o demonio!...

Viera assim a ter um odio a todo o mundo secular--que a poderia
attrahir, arrastar para fra da sombra da sua batina. Impedia-lhe, com
pretextos complicados, toda a communicao com a cidade. Convenceu mesmo
a mi que a no deixasse ir s  Arcada e s lojas. E no cessava de lhe
representar os homens como monstros d'impiedade, cobertos de peccados
como d'uma crosta, estupidos e falsos, votados ao inferno! Contava-lhe
horrores de quasi todos os rapazes de Leiria. Ella perguntava-lhe
aterrada, mas curiosa:

--Como sabes tu?

--No te posso dizer, respondia com uma reticencia, indicando que lhe
fechava os labios o segredo da comfisso.

E ao mesmo tempo martellava-lhe os ouvidos com a glorificao do
sacerdocio. Desenrolava-lhe com pompa a erudio dos seus antigos
compendios, fazendo-lhe o elogio das funces, da superioridade do
padre. No Egypto, grande nao da antiguidade, o homem s podia ser rei
se era sacerdote! Na Persia, na Ethiopia, um simples padre tinha o
privilegio de desthronar os reis, dispr das coras! Onde havia uma
auctoridade igual  sua? Nem mesmo na crte do co. O padre era superior
aos anjos e aos seraphins--porque a elles no fra dado como ao padre o
poder maravilhoso de perdoar os peccados! Mesmo a Virgem Maria, tinha
ella um poder maior que elle, padre Amaro? No: com todo o respeito
devido  magestade de Nossa Senhora, elle podia dizer com S. Bernardino
de Sena: o sacerdote excede-te,  mi amada!--porque, se a Virgem
tinha incarnado Deus no seu castissimo seio, fra s uma vez, e o padre,
no santo sacrificio da missa, incarnava Deus todos os dias! E isto no
era argucia d'elle, todos os santos padres o admittiam...

--Hein, que te parece?

--Oh, filho! murmurava ella pasmada, desfallecida de voluptuosidade.

Ento deslumbrava-a com citaes venerandas: S. Clemente, que chamou ao
padre o Deus da terra; o eloquente S. Chrysostomo, que disse que o
padre  o embaixador que vem dar as ordens de Deus. E Santo Ambrosio
que escreveu: entre a dignidade do rei e a dignidade do padre ha maior
differena que a que existe entre o chumbo e o ouro!

--E o ouro  c o menino, dizia Amaro com palmadinhas no peito. Que te
parece?

Ella atirava-se-lhe aos braos, com beijos vorazes, como para tocar,
possuir n'elle o ouro de Santo Ambrosio, o embaixador de Deus, tudo
o que na terra havia mais alto e mais nobre, o sr que excede em graa
os archanjos!

Era este poder divino do padre, esta familiaridade com Deus, tanto ou
mais que a influencia da sua voz--que a faziam crr na promessa que elle
lhe repetia sempre: que ser amada por um padre chamaria sobre ella o
interesse, a amizade de Deus; que depois de morta dois anjos viriam
tomal-a pela mo para a acompanhar e desfazer todas as duvidas que
pudesse ter S. Pedro, chaveiro do co; e que na sua sepultura, como
succedera em Frana a uma rapariga amada por um cura, nasceriam
espontaneamente rosas brancas, como prova celeste de que a virgindade
no se estraga nos abraos santos d'um padre...

Isto encantava-a. quella ida da sua cova perfumada de rosas brancas,
ficava toda pensativa, n'um antegosto de felicidades mysticas, com
suspirinhos de gozo. Affirmava, fazendo beicinho, que queria morrer.

Amaro galhofava.

--A fallar da morte, com essas carnesinhas...

Engordra com effeito. Estava agora d'uma belleza ampla e toda igual.
Perdera aquella expresso inquieta que lhe punha nos labios uma seccura
e lhe afilava o nariz. Nos seus beios havia um vermelho quente e
humido; o seu olhar tinha risos sob um fluido sereno; toda a sua pessoa
uma apparencia madura de fecundidade. Fizera-se preguiosa: em casa, a
cada momento suspendia o seu trabalho, ficava a olhar longamente com um
sorriso mudo e fixo; e tudo parecia ficar adormecido um momento, a
agulha, o panno que ella costurava, toda a sua pessoa... Estava revendo
o quarto do sineiro, o catre, o senhor parocho em mangas de camisa.

Passava os seus dias esperando as oito horas, em que elle apparecia
regularmente com o conego. Mas os seres agora pezavam-lhe. Elle
recommendra-lhe muita reserva; ella exagerava-a, por um excesso de
obediencia, a ponto de nunca se sentar ao p d'elle ao ch, e de nem
mesmo lhe offerecer bolos. Odiava ento a presena das velhas, a
gralhada das vozes, as pachorras do quino: tudo lhe parecia intoleravel
no mundo, excepto estar s com elle... Mas depois, em casa do sineiro,
que desforra! Aquelle rosto todo alterado, aquellas suffocaes de
delirio, aquelles ais agonisantes, depois a immobilidade da morte,
assustavam s vezes o padre. Erguia-se no cotovlo, inquieto:

--Ests incommodada?

Ella abria os olhos espantados, como resurgindo de muito longe; e era
realmente bella, cruzando os braos ns sobre o peito descoberto,
dizendo lentamente com a cabea que no...




XIX


Uma circumstancia inesperada veio estragar aquellas manhs da casa do
sineiro. Foi a extravagancia da Tt. Como disse o padre Amaro, a
rapariga sahia-lhes um monstro!

Tinha agora por Amelia uma averso desabrida. Apenas ella se aproximava
da cama, atirava a cabea para debaixo dos cobertores, torcendo-se com
phrenesi se lhe sentia a mo ou a voz. Amelia fugia, impressionada com a
ida de que o diabo que habitava a Tt, recebendo o cheiro que ella
trazia da igreja nos vestidos, impregnados d'incenso e salpicados d'agua
benta, se espolinhava de terror dentro do corpo da rapariga...

Amaro quiz reprehender a Tt, fazer-lhe sentir, em palavras tremendas,
a sua ingratido demoniaca para com a menina Amelia que vinha
entretel-a, ensinal-a a conversar com Nosso Senhor... Mas a paralytica
rompeu n'um chro hysterico; depois, de repente, ficou immovel, hirta,
esbugalhando os olhos em alvo, com uma escuma branca na bca. Foi um
grande susto; inundaram-lhe a cama d'agua; Amaro, por prudencia, recitou
os exorcismos... E Amelia desde ento resolveu deixar a fera em paz.
No tentou mais ensinar-lhe o alphabeto, nem oraes a Sant'Anna.

Mas, por escrupulo, iam sempre ao entrar vl-a um instante. No passavam
da porta da alcova, perguntando-lhe d'alto como ia. Nunca respondia. E
elles retiravam-se logo aterrados com aquelles olhos selvagens e
brilhantes, que os devoravam, indo d'um a outro, percorrendo-lhes o
corpo, fixando-se com uma faiscao metallica nos vestidos d'Amelia e na
batina do padre, como para lhe adivinhar o que estava por baixo, n'uma
curiosidade avida que lhe dilatava desesperadamente as narinas e lhe
arreganhava os beios lividos. Mas era a mudez, obstinada e rancorosa,
que os incommodava sobretudo. Amaro, que no acreditava muito em
possessos e endemoninhados, via alli os symptomas de _loucura furiosa_.
Os sustos d'Amelia augmentaram.--Felizmente que as pernas inertes
cravavam a Tt alli na enxerga! Seno, Jesus, era capaz de lhes entrar
no quarto e mordl-os n'um accesso!

Declarou a Amaro que nem lhe sabia bem o prazer da manh, depois
d'aquelle espectaculo; e decidiu ento, d'ahi por diante, subir para o
quarto sem fallar  Tt.

Foi peor. Quando a via atravessar da porta da rua para a escada, a Tt
debruava-se para fra do leito, agarrada s bordas da enxerga, n'um
esforo ancioso para a seguir, para a vr, com a face toda descomposta
do desespero da sua immobilidade. E Amelia ao entrar no quarto sentia
vir de baixo uma risadinha scca, ou um _ui!_ prolongado e uivado que a
gelava...

Andava agora aterrada: viera-lhe a ida que Deus estabelecera alli, ao
lado do seu amor com o parocho, um demonio implacavel para a escarnecer
e apupar. Amaro, querendo-a tranquillisar, dizia-lhe que o nosso santo
padre Pio IX, ultimamente, declarra peccado crr em _pessoas
possessas_...

--Mas para que ha rezas, ento, e exorcismos?

--Isso  da religio velha. Agora vai-se mudar tudo isso... Emfim a
sciencia  a sciencia...

Ella presentia que Amaro a enganava--e a Tt estragava a sua
felicidade. Emfim Amaro achou o meio de escaparem  maldita rapariga:
era entrarem ambos pela sacristia: tinham apenas a atravessar a cozinha
para subir a escada, e a posio da cama da Tt, na alcova, no lhe
permittia vl-os, quando elles cautelosamente passassem p ante p. Era
facil, de resto, porque  hora do _rendez-vous_, entre as onze e o meio
dia, nos dias de semana, a sacristia estava deserta.

Mas succedia que, quando elles entravam em pontas de ps e mordendo a
respirao, os seus passos, por mais subtis, faziam ranger os velhos
degraus da escada. E ento a voz da Tt sahia da alcova, uma voz rouca
e aspera, berrando:

--Passa fra co! passa fra co!

Amaro tinha um desejo furioso de estrangular a paralytica. Amelia
tremia, toda branca.

E a creatura uivava de dentro:

--L vo os ces! l vo os ces!

Elles refugiavam-se no quarto, aferrolhando-se por dentro. Mas aquella
voz d'um desolamento lugubre, que lhes parecia vir dos infernos,
chegava-lhes ainda, perseguia-os:

--Esto a pegar-se os ces! esto a pegar-se os ces!

Amelia cahia sobre o catre, quasi desmaiada de terror. Jurava no voltar
quella casa maldita...

--Mas que diabo queres tu? dizia-lhe o padre furioso. Onde nos havemos
de vr ento? Queres que nos deitemos nos bancos da sacristia?

--Mas que lhe fiz eu? que lhe fiz eu? exclamava Amelia, apertando as
mos.

--Nada!  doida... E o pobre tio Esguelhas tem tido um desgosto...
Emfim, que queres que lhe faa?

Ella no respondia. Mas em casa, quando se ia aproximando o dia de
_rendez-vous_, comeava a tremer  ida d'aquella voz que lhe atroava
sempre nos ouvidos e que sentia em sonhos. E este terror ia-a
despertando lentamente do adormecimento de todo o sr, era que cahira
nos braos do parocho. Interrogava-se agora: no andaria commettendo um
peccado irremissivel? As affirmaes de Amaro, assegurando-lhe o perdo
do Senhor, j no a tranquillisavam. Ella bem via, quando a Tt uivava,
uma pallidez cobrir o rosto do parocho, como correr-lhe no corpo um
calefrio do inferno entrevisto. E se Deus os desculpava--porque deixava
assim o demonio atirar-lhes, pela voz da paralytica, a injuria e o
escarneo?

Ajoelhava ento aos ps da cama, arremessava oraes sem fim para Nossa
Senhora das Dres, pedindo-lhe que a alumiasse, que lhe dissesse o que
era aquella perseguio da Tt, e se era sua inteno divina mandar-lhe
assim um aviso medonho. Mas Nossa Senhora no lhe respondia. No a
sentia como outr'ora descer do co s suas oraes, entrar-lhe na alma
aquella tranquillidade suave como uma onda de leite que era uma
visitao da Senhora. Ficava toda murcha, torcendo as mos, abandonada
da graa. Promettia ento no voltar a casa do sineiro;--mas quando o
dia chegava,  ida d'Amaro, do leito, d'aquelles beijos que lhe levavam
a alma, d'aquelle fogo que a penetrava, sentia-se toda fraca contra a
tentao; vestia-se, jurando que era a ultima vez; e ao toque das onze
partia, com as orelhas a arder, o corao tremendo da voz da Tt que ia
ouvir, as entranhas abrazando-se no desejo do homem que a ia atirar para
cima da enxerga.

Ao entrar na igreja no rezava, com medo dos santos.

Corria para a sacristia para se refugiar em Amaro, abrigar-se 
auctoridade sagrada da sua batina. Elle ento, vendo-a chegar to
pallida e to transtornada, galhofava para a tranquillisar. No, era uma
tolice, se iam agora estragar o regalosinho d'aquellas manhs, porque
havia uma doida na casa! Promettera-lhe de resto procurar outro sitio
para se vrem: e mesmo com o fim de a distrahir, aproveitando a solido
da sacristia, mostrava-lhe s vezes os paramentos, os calices, as
vestimentas, procurando interessal-a por um frontal novo ou por uma
antiga renda de sobrepelliz, provando-lhe, pela familiaridade com que
tocava nas reliquias, que era ainda o senhor parocho e no perdera o seu
credito no co.

Foi assim que uma manh lhe fez vr uma capa de Nossa Senhora, que havia
dias chegra de presente d'uma devota rica d'Ourem. Amelia admirou-a
muito. Era de setim azul, representando um firmamento, com estrellas
bordadas, e um centro, de lavor rico, onde flammejava um corao d'ouro
cercado de rosas d'ouro. Amaro desdobrra-a, fazendo scintillar junto da
janella os bordados espessos.

--Rica obra, hein? centos de mil reis... Experimentamol-a hontem na
imagem... Vai-lhe como um brinco. Um bocadito comprida, talvez...--E
olhando Amelia, n'uma comparao da sua alta estatura com a figura
atarracada da imagem da Senhora:--A ti  que te havia de ficar bem.
Deixa vr...

Ella recuou:

--No, credo, que peccado!

--Tolice! disse elle adiantando-se com a capa aberta, mostrando o forro
de setim branco, d'uma alvura de nuvem matutina. No est benzida... 
como se viesse da modista.

--No, no, dizia ella frouxamente, com os olhos j luzidios de desejo.

Elle ento zangou-se. Queria talvez saber melhor do que elle o que era
peccado, no? Vinha agora a menina ensinar-lhe o respeito que se deve
aos vestuarios dos santos?

--Ora no seja tola. Deixe vr.

Poz-lh'a nos hombros, apertou-lhe sobre o peito o fecho de prata
lavrada. E afastou-se para a contemplar toda envolvida no manto,
assustada e immovel, com um sorriso clido de gozo devoto.

--Oh filhinha, que linda que ficas!

Ella ento, movendo-se com uma cautela solemne, chegou-se ao espelho da
sacristia--um antigo espelho de reflexo esverdeado com um caixilho negro
de carvalho lavrado, tendo no topo uma cruz. Mirou-se um momento,
n'aquella sda azul celeste que a envolvia toda, picada do brilho agudo
das estrellas, com uma magnificencia sideral. Sentia-lhe o peso rico. A
santidade que o manto adquirira no contacto com os hombros da imagem
penetrava-a d'uma voluptuosidade beata. Um fluido mais dce que o ar da
terra envolvia-a, fazia-lhe passar no corpo a caricia do ether do
paraiso. Parecia-lhe ser uma santa no andor, ou mais alto, no co...

Amaro babava-se para ella:

--Oh filhinha, s mais linda que Nossa Senhora!

Ella deu uma olhadella viva ao espelho. Era, decerto, linda. No tanto
como Nossa Senhora... Mas com o seu rosto trigueiro, de labios rubros,
alumiado por aquelle rebrilho dos olhos negros, se estivesse sobre o
altar, com cantos ao orgo e um culto susurrando em redor, faria
palpitar bem forte o corao dos fieis...

Amaro ento chegou-se por detraz d'ella, cruzou-lhe os braos sobre o
seio, apertou-a toda--e estendendo os labios por sobre os d'ella,
deu-lhe um beijo mudo, muito longo... Os olhos d'Amelia cerravam-se, a
cabea inclinava-se-lhe para traz, pesada de desejo. Os beios do padre
no se desprendiam, avidos, sorvendo-lhe a alma. A respirao d'ella
apressava-se, os joelhos tremiam-lhe: e com um gemido desfalleceu sobre
o hombro do padre, descrada e morta de gozo.

Mas endireitou-se de repente, fixou Amaro batendo as palpebras como
acordada de muito longe; uma onda de sangue escaldou-lhe o rosto:

--Oh Amaro, que horror, que peccado!...

--Tolice! disse elle.

Mas ella desprendia-se do manto, toda afflicta:

--Tira-m'o, tira-m'o! gritava, como se a sda a queimasse.

Ento Amaro fez-se muito srio. Realmente no se devia brincar com
coisas sagradas...

--Mas no est benzida... No tem duvida...

Dobrou o manto cuidadosamente, envolveu-o no lenol branco, collocou-o
no gaveto, sem uma palavra. Amelia olhava-o petrificada: e s os seus
labios pallidos se moviam n'uma orao.

Quando elle lhe disse, emfim, que eram horas d'irem a casa do
sineiro--recuou, como diante do demonio que a chamasse.

--Hoje no! exclamou, implorando-o.

Elle insistiu. Era levar realmente muito longe a pieguice... Ella bem
sabia que no era peccado, quando as coisas no estavam benzidas... Era
ser muito pobre d'espirito... Que demonio, s meia hora, ou um quarto
d'hora!

Ella, sem responder, ia-se aproximando da porta.

--Ento no queres?

Ella voltou-se, e com uns olhos supplicantes:

--Hoje no!

Amaro encolheu os hombros. E Amelia atravessou rapidamente a igreja, de
cabea baixa e olhos nas lages, como se passasse entre as ameaas
cruzadas dos santos indignados.


No dia seguinte de manh, a S. Joanneira, que estava na sala de jantar,
sentindo o senhor conego subir soprando forte, veio encontral-o  escada
e fechou-se com elle na saleta.

Queria contar-lhe a afflico que tivera de madrugada. A Amelia acordra
de repente aos gritos, que Nossa Senhora lhe estava a pousar o p no
pescoo! que suffocava! que a Tt a queimava por detraz! e que as
labaredas do inferno subiam mais alto que as torres da S!... Emfim um
horror!... Viera encontral-a em camisa a correr pelo quarto, como doida.
D'ahi a pouco cahira para o lado com um ataque de nervos. Toda a casa
estivera em alvoroo... A pobre pequena l estava de cama, e em toda a
manh apenas tocra n'uma colher de caldo.

--Pesadlos, disse o conego. Indigesto!

--Ai, senhor conego, no! exclamou a S. Joanneira, que parecia
acabrunhada, sentada diante d'elle na borda d'uma cadeira.  outra
coisa: so aquellas desgraadas visitas  filha do sineiro!

E ento desabafou, com a effuso labial de quem abre os diques a um
descontentamento accumulado. Nunca quizera dizer nada, porque emfim
reconhecia que era uma grande obra de caridade. Mas, desde que aquillo
comera, a rapariga parecia transtornada. Ultimamente, ento, andava de
todo. Ora alegrias sem razo, ora umas trombas de dar melancolia aos
moveis. De noite sentia-a passear pela casa at tarde, abrir as
janellas... s vezes tinha at medo de lhe vr o olhar to exquisito:
quando vinha de casa do sineiro era sempre branca como a cal, a cahir de
fraqueza. Tinha de tomar logo um caldo... Emfim, dizia-se que a Tt
tinha o demonio no corpo. E o senhor chantre, o outro que tinha morrido
(Deus lhe falle n'alma), costumava dizer que n'este mundo as duas coisas
que se pegavam mais s mulheres eram tisicas e demonio no corpo.
Parecia-lhe, pois, que no devia consentir que a pequena fosse a casa do
sineiro, sem estar certa que aquillo nem lhe prejudicava a saude nem lhe
prejudicava a alma. Emfim, queria que uma pessoa de juizo,
d'experiencia, fosse examinar a Tt...

--N'uma palavra, disse o conego que escutra d'olhos cerrados aquella
verbosidade repassada de lamuria, o que a senhora quer  que eu v vr a
paralytica e saber  justa o que se passa...

--Era um allivio p'ra mim, riquinho!

Aquella palavra, que S. Joanneira, na sua gravidade de matrona,
reservava para a intimidade das sstas, enterneceu o conego. Fez uma
caricia ao pescoo gordo da sua velhota, prometteu com bondade ir
estudar o caso...

--manh, que a Tt est s, lembrou logo a S. Joanneira.

Mas o conego preferia que Amelia estivesse presente. Podia assim vr
como as duas se davam, se havia influencia do espirito maligno...

--Que isto que eu fao  d'agradecer...  por ser p'ra quem ... Que bem
me bastam os meus achaques, sem me occupar dos negocios de Satanaz.

A S. Joanneira recompensou-o com uma beijoca sonora.

--Ah, sereias, sereias!... murmurou o conego philosophicamente.

No fundo aquelle encargo desagradava-lhe: era uma perturbao nos seus
habitos, toda uma manh desarranjada; ia decerto fatigar-se, tendo
d'exercitar a sua sagacidade; alm d'isso odiava o espectaculo de
doenas e de todas as circumstancias humanas relacionadas com a morte.
Mas, emfim, fiel  sua promessa, d'ahi a dias, na manh em que fra
prevenido que Amelia ia  Tt, arrastou-se contrariado para a botica do
Carlos; e installou-se, com um olho no _Popular_ e outro na porta, 
espera que a rapariga **atravessasse** para a S. O amigo Carlos estava
ausente; o snr. Augusto occupava os seus vagares sentado  escrivaninha,
de testa sobre o punho, relendo o seu Soares de Passos; fra, o sol j
quente dos fins de abril fazia rebrilhar o lageado do largo; no passava
ninguem; e s quebravam o silencio as martelladas nas obras do doutor
Pereira. Amelia tardava. E o conego, depois de ter considerado longo
tempo, com o _Popular_ cahido nos joelhos, o medonho sacrificio que
fazia pela sua velhota, ia cerrando as palpebras, j tomado da
quebreira, n'aquelle repouso calado do meio dia proximo--quando entrou
na botica um ecclesiastico.

--Oh, abbade Ferro, voss pela cidade! exclamou o conego Dias
despertando do seu quebranto.

--De fugida, collega, de fugida, disse o outro collocando
cuidadadosamente sobre uma cadeira dois grossos volumes que trazia,
amarrados n'um barbante.

Depois voltou-se e tirou com respeito o seu chapo ao praticante.

Tinha o cabello todo branco; devia passar j dos sessenta annos; mas era
robusto, uma alegria bailava sempre nos seus olhinhos vivos, e tinha
dentes magnificos a que uma saude de granito conservava o esmalte; o que
o desfigurava era um nariz enorme.

Informou-se logo com bondade se o amigo Dias estava alli de visita ou
infelizmente por motivo de doena.

--No, estou aqui  espera... Uma embaixada de truz, amigo Ferro!

--Ah, fez o velho discretamente.--E emquanto tirava com methodo d'uma
carteira atulhada de papeis a receita para o praticante, deu ao conego
noticias da freguezia. Era l, nos Poyaes, que o conego tinha a fazenda,
a Ricoa. O abbade Ferro passra de manh diante da casa e ficra
surprehendido vendo que lhe andavam a pintar a fachada. O amigo Dias
tinha algumas idas d'ir l passar o vero?

No, no tinha. Mas como trouxera obras dentro e a fachada estava uma
vergonha, mandra-lhe dar uma mo d'oca. Emfim era necessario alguma
apparencia, sobretudo n'uma casa que estava  beira da estrada, onde
passava todos os dias o morgadelho dos Poyaes, um parlapato que
imaginava que s elle tinha um palacete decente em dez leguas  roda...
S para metter ferro quelle atheu! Pois no lhe parecia, amigo Ferro?

O abbade estava justamente lamentando comsigo aquelle sentimento de
vaidade n'um sacerdote; mas, por caridade christ, para no contrariar o
collega, apressou-se a dizer:

--Est claro, est claro. A limpeza  a alegria das coisas...

O conego ento, vendo passar no largo uma saia e um mantelete, foi 
porta affirmar-se se era Amelia. No era. E voltando, retomado agora da
sua preoccupao, vendo que o praticante fra dentro ao laboratorio,
disse ao ouvido do Ferro:

--Uma embaixada da fortuna! Vou vr uma endemoninhada!

--Ah, fez o abbade, todo srio  ida d'aquella responsabilidade.

--Quer voss vir commigo, abbade?  aqui perto...

O abbade desculpou-se polidamente. Viera fallar ao senhor vigario geral,
fra depois ao Silverio para lhe pedir aquelles dois volumes, vinha alli
aviar uma receita para um velho da freguezia, e tinha d'estar de volta
aos Poyaes ao toque das duas horas.

O conego insistiu; era um instante, e o caso parecia curioso...

O abbade ento confessou ao caro collega que eram coisas que no gostava
d'examinar. Aproximava-se sempre d'ellas com um espirito rebelde 
crena, com desconfianas e suspeitas que lhe diminuiam a
imparcialidade.

--Mas emfim ha prodigios! disse o conego.--Apesar das suas proprias
duvidas, no gostava d'aquella hesitao do abbade, a proposito d'um
phenomeno sobrenatural, em que elle, conego Dias, estava interessado.
Repetiu com seccura:--Tenho alguma experiencia, e sei que ha prodigios.

--Decerto, decerto ha prodigios, disse o abbade. Negar que Deus ou a
Rainha do co possa apparecer a uma creatura  contra a doutrina da
Igreja... Negar que o demonio possa habitar o corpo de um homem, seria
estabelecer um erro funesto... Aconteceu a Job, sem ir mais longe, e 
familia de Sara. Est claro, ha prodigios. Mas que rarissimos que so,
conego Dias!

Calou-se um momento olhando o conego, que tapava o nariz com rap em
silencio--e continuou mais baixo, com o olho brilhante e fino:

--E depois no tem o collega notado que  uma coisa que s succede s
mulheres?  s a ellas, cuja **malicia**  to grande que o proprio
Salomo no lhes pde resistir, cujo temperamento  to nervoso, to
contradictorio que os medicos no as comprehendem.  s a ellas que
succedem prodigios!... O collega j ouviu de ter apparecido a nossa
Santa Virgem a um respeitavel tabellio? J ouviu d'um digno juiz de
direito possuido do espirito maligno? No. Isto faz reflectir... E eu
concluo que  malicia n'ellas, illuso, imaginao, doena, etc... No
lhe parece? A minha regra n'esses casos  vr tudo isso d'alto e com
muita indifferena.

Mas o conego, que vigiava a porta, brandiu subitamente o guardasol,
fazendo para o largo:

--Pst, pst! Eh l!

Era Amelia que passava. Parou logo, contrariada d'aquelle encontro que a
ia ainda retardar mais. E j o senhor parocho devia estar desesperado...

--De modo que, disse o conego  porta abrindo o seu guardasol, voss,
abbade, era lhe cheirando a prodigio...

--Suspeito logo escandalo.

O conego contemplou-o um momento, com respeito:

--Voss, Ferro,  capaz de dar quinaus a Salomo em prudencia!

--Oh, collega! oh, collega! exclamou o abbade, offendido com aquella
injustia feita  incomparavel sabedoria de Salomo.

--Ao proprio Salomo! affirmou ainda o conego da rua.

Tinha preparado uma historia habil para justificar a sua visita 
paralytica; mas durante a sua conversao com o abbade ella
escapra-lhe, como tudo o que deixava um momento nos reservatorios da
memoria; e foi sem transio que disse simplesmente a Amelia:

--Vamos l, tambem quero ir vr essa Tt!

Amelia ficou petrificada. E o senhor parocho, naturalmente, j l
estava! Mas sua madrinha Nossa Senhora das Dres, que ella invocou logo
n'aquella afflico, no a deixou enleada no embarao.--E o conego, que
caminhava ao lado d'ella, ficou surprehendido ouvindo-lhe dizer com um
risinho:

--Viva, hoje  o dia das visitas  Tt! O senhor parocho disse-me que
tambem talvez hoje apparecesse por l... Talvez l esteja at.

--Ah! O amigo parocho tambem? Est bom, est bom. Faremos uma consulta 
Tt!

Amelia ento, contente da sua malicia, tagarellou sobre a Tt. O senhor
conego ia vr... Era uma creatura incomprehensivel... Ultimamente, ella
no tinha querido contar em casa, mas a Tt tomra-lhe birra... E dizia
coisas, tinha um modo de fallar de ces e d'animaes, d'arripiar!... Ai,
era um encargo que j lhe pesava... Que a rapariga no lhe escutava as
lies, nem as oraes, nem os conselhos... Era uma fera!

--O cheiro  desagradavel! rosnou o conego entrando.

Que queria! A rapariga era uma porca, no havia tel-a arranjado. O pai,
esse, um desleixado tambem...

-- aqui, senhor conego, disse, abrindo a porta da alcova--que agora, em
obediencia s ordens do senhor parocho, o tio Esguelhas deixava sempre
fechada.

Encontraram a Tt meio erguida sobre a cama, com a face accsa n'uma
curiosidade, quella voz do conego que no conhecia.

--Ora viva l a snr.^a Tt! disse elle da porta, sem se aproximar.

--V, comprimenta o senhor conego, disse Amelia, comeando logo, com uma
caridade desacostumada, a compr a roupa da cama, a arrumar a alcova.
Dize-lhe como ests... No te faas amuada!

Mas a Tt permaneceu to muda como a imagem de S. Bento que tinha 
cabeceira, examinando muito aquelle sacerdote to gordo, to grisalho,
to differente do senhor parocho... E os seus olhos, mais brilhantes
todos os dias  medida que se lhe cavavam as faces, iam, como de
costume, do homem para Amelia, n'uma anciedade de perceber porque o
trazia ella alli, aquelle velho obeso, e se ia tambem subir com elle
para o quarto.

Amelia agora tremia. Se o senhor parocho entrasse, e alli, diante do
cnego, a Tt, tomada do seu phrenesi, rompesse aos gritos, tratando-os
de ces!... Com o pretexto de dar uma arrumadella foi  cozinha vigiar o
pateo. Faria um signal da janella, apenas Amaro apparecesse.

E o conego, s na alcova da Tt, preparando-se para comear as suas
observaes, ia perguntar-lhe quantas eram as pessoas da Santissima
Trindade,--quando ella, adiantando a face, lhe disse n'uma voz subtil
como um spro:

--E o outro?

O conego no comprehendeu. Que fallasse alto! Que era?

--O outro, o que vem com ella!

O conego chegou-se, com a orelha dilatada de curiosidade:

--Que outro?

--O bonito. O que vai com ella p'r quarto. O que a belisca...

Mas Amelia entrava: e a paralytica calou-se logo, repousada, com os
olhos cerrados e respirando regaladamente, como n'um allivio repentino
de todo o seu soffrimento. O conego, esse, immobilisado d'assombro,
permanecia na mesma postura, dobrado sobre a cama como para ascultar a
Tt. Ergueu-se por fim, soprou como n'uma calma d'agosto, sorveu
d'espao uma pitada forte; e ficou com a caixa aberta entre os dedos, os
olhos muito vermelhos cravados na colcha da Tt.

--Ento, senhor conego, que lhe parece c a minha doente? perguntou
Amelia.

Elle respondeu, sem a olhar:

--Sim senhor, muito bem... Vai bem...  exquisita... Pois  andar, 
andar... Adeus...

Sahiu, resmungando que tinha negocios,--e voltou immediatamente 
botica.

--Um copo d'agua! exclamou, cahindo em cheio sobre a cadeira.

O Carlos, que voltra, apressou-se, offerecendo flr de laranja,
perguntando se sua excellencia estava incommodado...

--Cansadote, disse.

Tomou o _Popular_ de sobre a mesa, e alli ficou, sem se mexer, abysmado
nas columnas do periodico. O Carlos tentou fallar da politica do paiz,
depois dos negocios d'Hespanha, depois dos perigos revolucionarios que
ameaavam a Sociedade, depois da deficiencia da administrao do
concelho de que era agora um adversario feroz... Debalde. Sua
excellencia grunhia apenas monosyllabos soturnos. E o Carlos, emfim,
recolheu-se a um silencio chocado, comparando, n'um desdem interior que
lhe vincava de sarcasmo os cantos dos beios, a obtusidade soturna
d'aquelle sacerdote  palavra inspirada d'um Lacordaire e d'um Malho!
Por isso o Materialismo em Leiria, em todo o Portugal erguia a sua
cabea d'hydra...

Batia uma hora na torre quando o conego, que vigiava a Praa pelo canto
do olho, vendo passar Amelia, arremessou o jornal, sahiu da botica sem
dizer uma palavra e estugou o seu passo d'obeso para casa do tio
Esguelhas. A Tt estremeceu de medo ao vr de novo aquella figura
bojuda apparecer  porta da alcova. Mas o conego riu-se para ella,
chamou-lhe Ttsinha, prometteu-lhe um pinto para bolos; e mesmo
sentou-se aos ps da cama com um _ah!_ regalado, dizendo:

--Ora vamos ns agora conversar, amiguinha... Esta  que  a pernita
doente, hein? Coitadita! Deixa que te has de curar... Hei de pedir a
Deus... Fica por minha conta.

Ella fazia-se ora toda branca ora toda vermelha, olhando aqui e alm,
inquieta, na perturbao que lhe dava aquelle homem a ss com ella to
perto que lhe sentia o halito forte.

--Ento, ouve c, disse elle chegando-se mais para ella, fazendo ranger
o catre com o seu peso. Ouve c, quem  o outro? Quem  que vem com a
Amelia?

Ella respondeu logo, atirando as palavras d'um flego:

-- o bonito,  o magro, vm ambos, sobem p'r' quarto, fecham-se por
dentro, so como ces!

Os olhos do conego injectaram-se para fra das orbitas:

--Mas quem  elle, como se chama? O teu pai que te disse?

-- o outro,  o parocho, o Amaro! fez ella impaciente.

--E vo p'r' quarto, hein? l p'ra cima? E tu que ouves, tu que ouves?
Dize tudo, pequena, dize tudo!

A paralytica ento contou, com um furor que dava tons sibilantes  sua
voz de tisica,--como ambos entravam, e a vinham vr, e se roavam um
pelo outro, e abalavam para o quarto em cima, e estavam l uma hora
fechados...

Mas o conego, com uma curiosidade lubrica que lhe punha uma chamma nos
olhos mortios, queria saber os detalhes torpes:

--E ouve l, Ttsinha, tu que ouves? Ouves ranger a cama?

Ella respondeu com a cabea affirmativamente, toda pallida, os dentes
cerrados.

--E olha, Ttsinha, j os viste beijarem-se, abraarem-se? Anda, dize,
que te dou dois pintos.

Ella no descerrava os labios; e a sua face transtornada parecia ao
conego selvagem.

--Tu embirras com ella, no  verdade?

Ella fez que sim n'uma affirmao feroz de cabea.

--E vistel-os beliscarem-se?

--So como ces! soltou ella por entre os dentes.

O conego ento endireitou-se, bufou outra vez com o seu grande spro
d'encalmado, e coou vivamente a cora.

--Bem, disse, erguendo-se. Adeus, pequena... Agasalha-te. No te
constipes...

Sahiu; e ao fechar com fora a porta exclamou alto:

--Isto  a infamia das infamias! Eu mato-o! eu perco-me!

Esteve um momento considerando e partiu para a rua das Sousas, de
guardasol em riste, apressando a sua obesidade, com a face apopletica de
furor. No largo da S, porm, parou a reflectir ainda; e rodando sobre
os taces, entrou na igreja. Ia to levado que, esquecendo um habito de
quarenta annos, no dobrou o joelho ao Santissimo. E arremessou-se para
a sacristia--justamente quando o padre Amaro sahia, calando
cuidadosamente as luvas pretas que usava agora sempre para agradar 
Ameliasinha.

O aspecto descomposto do conego assombrou-o.

--Que  isso, padre-mestre?

--O que ? exclamou o conego de golpe,  a maroteira das maroteiras!  a
sua infamia!  a sua infamia!...

E emmudeceu, suffocado de clera.

Amaro, que se fizera muito pallido, balbuciou:

--Que est voss a dizer, padre-mestre?

O conego tomra flego:

--No ha padre-mestre! O senhor desencaminhou a rapariga! Isso  que 
uma canalhice mestra!

O padre Amaro, ento, franziu a testa como descontente d'um gracejo:

--Que rapariga!? O senhor est a brincar...

Sorriu mesmo, affectando segurana; e os seus beios brancos tremiam.

--Homem, eu vi! berrou o conego.

O parocho, subitamente aterrado, recuou:

--Viu!?

Imaginra n'um relance uma traio, o conego escondido n'um recanto da
casa do tio Esguelhas...

--No vi, mas  como se visse!--continuou o conego n'um tom tremendo.
Sei tudo. Venho de l. Disse-m'o a Tt. Fecham-se no quarto horas e
horas! At se ouve em baixo ranger a cama!  uma ignominia !

O parocho, vendo-se pilhado, teve, como um animal acossado e entalado a
um canto, uma resistencia de desespero.

--Diga-me uma coisa. O que  que o senhor tem com isso?

O conego pulou.

--O que tenho!? o que tenho!? Pois o senhor ainda me falla n'esse tom!?
O que tenho  que vou d'aqui immediatamente dar parte de tudo ao senhor
vigario geral!

O padre Amaro, livido, foi para elle com o punho fechado:

--Ah, seu maroto!

--Que  l? que  l? exclamou o conego de guardasol erguido. Voss
quer-me pr as mos?

O padre Amaro conteve-se; passou a mo sobre a testa em suor, com os
olhos cerrados; e depois de um momento, fallando com uma serenidade
forada:

--Oua l, senhor conego Dias. Olhe que eu vi-o ao senhor uma vez na
cama com a S. Joanneira...

--Mente! mugiu o conego.

--Vi, vi, vi! affirmou o outro com furor. Uma noite ao entrar em casa...
O senhor estava em mangas de camisa, ella tinha-se erguido, estava a
apertar o collete. At o senhor me perguntou _quem est ahi?_ Vi, como
estou a vl-o agora. O senhor a dizer uma palavra, e eu a provar-lhe que
o senhor vive ha dez annos amigado com a S. Joanneira,  face de todo o
clero! Ora ahi tem!

O conego, j antes esfalfado dos excessos do seu furor, ficou agora,
quellas palavras, como um boi atordoado. S pde dizer d'ahi a pouco,
muito murcho:

--Que traste que voss me sae!

O padre Amaro ento, quasi tranquillo, certo do silencio do conego,
disse com bonhomia:

--Traste porqu? Diga-me l! Traste porqu? Temos ambos culpas no
cartorio, eis ahi est. E olhe que eu no fui perguntar, nem peitar a
Tt... Foi muito naturalmente ao entrar em casa. E se me vem agora com
coisas de moral, isso faz-me rir. A moral  para a escla e para o
sermo. C na vida eu fao isto, o senhor faz aquillo, os outros fazem o
que podem. O padre-mestre que j tem idade agarra-se  velha, eu que sou
novo arranjo-me com a pequena.  triste, mas que quer?  a natureza que
manda. Somos homens. E como sacerdotes, para honra da classe, o que
temos  fazer costas!

O conego escutava-o, bamboleando a cabea, na aceitao muda d'aquellas
verdades. Tinha-se deixado cahir n'uma cadeira, a descansar de tanta
clera inutil; e erguendo os olhos para Amaro:

--Mas voss, homem, no comeo da carreira!

--E voss, padre-mestre, no fim da carreira!

Ento riram ambos. Immediatamente cada um declarou retirar as palavras
offensivas que tinha dito; e apertaram-se gravemente a mo. Depois
conversaram.

O conego, o que o tinha enfurecido era ser l com a pequena de casa. Se
fosse com outra... at estimava! Mas a Ameliasinha!... Se a pobre mi
viesse a saber estourava de desgosto.

--Mas a mi escusa de saber! exclamou Amaro. Isto  entre ns,
padre-mestre! Isto  segredo de morte! Nem a mi sabe de nada, nem eu
mesmo digo  pequena o que se passou hoje entre ns. As coisas ficam
como estavam, e o mundo continua a rolar... Mas voss, padre-mestre,
tenha cuidado!... Nem uma palavra  S. Joanneira... Que no haja agora
traio!

O conego, com a mo sobre o peito, deu gravemente a sua palavra d'honra
de cavalheiro e de sacerdote que aquelle segredo ficava para sempre
sepultado no seu corao.

Ento apertaram ainda uma outra vez affectuosamente a mo.

Mas a torre gemeu as tres badaladas. Era a hora de jantar do conego.

E ao sahir, batendo nas costas de Amaro, fazendo luzir um olho
d'entendedor:

--Pois seu velhaco, tem dedo!

--Que quer voss? Que diabo... Comea-se por brincadeira...

--Homem! disse o conego sentenciosamente,  o que a gente leva de melhor
d'este mundo.

-- verdade, padre-mestre,  verdade!  o que a gente leva de melhor
d'este mundo.


Desde esse dia Amaro gozou uma completa tranquillidade d'alma. At ahi
incommodava-o, por vezes, a ida de que correspondera ingratamente 
confiana, aos carinhos que lhe tinham prodigalisado na rua da
Misericordia. Mas a tacita approvao do conego viera tirar-lhe, como
elle dizia, aquelle espinho da consciencia. Porque emfim, o chefe de
familia, o cavalheiro respeitavel, o cabea--era o conego. A S.
Joanneira era apenas uma concubina... E Amaro mesmo, s vezes agora, em
tom de galhofa, tratava o Dias de _seu caro sogro_.

Outra circumstancia viera alegral-o: a Tt adoecera de repente: o dia
seguinte ao da visita do conego, passra-o soltando golfadas de sangue:
o doutor Cardoso, chamado  pressa, fallra de tisica galopante, questo
de semanas, caso decidido...

-- d'estas, meu amigo, tinha elle dito, que  trs... trs...--Era a
sua maneira de pintar a morte, que, quando tem pressa, conclue o seu
trabalho com uma fouada aqui, outra alm.

As manhs na casa do tio Esguelhas eram agora tranquillas. Amelia e o
parocho j no entravam em pontas de ps, tentando esgueirar-se para o
prazer, despercebidos da Tt. Batiam com as portas, palravam forte,
certos que a Tt estava bem prostrada de febre, sob os lenoes humidos
dos suores constantes. Mas Amelia, por escrupulo, no deixava de rezar
todas as noites uma salve-rainha pelas melhoras da Tt. s vezes mesmo
ao despir-se, no quarto do sineiro, parava de repente, e fazendo um
rostinho triste:

--Ai, filho! at me parece peccado, ns aqui a gozarmos, e a pobre
pequena l em baixo a luctar com a morte...

Amaro encolhia os hombros. Que lhe haviam elles de fazer, se era a
vontade de Deus?...

E Amelia, resignando-se  vontade de Deus em tudo, ia deixando cahir as
sias.

Tinha agora d'aquellas pieguices frequentes que impacientavam o padre
Amaro. Em certos dias apparecia muito murcha; trazia sempre algum sonho
lugubre a contar, que a torturra toda a noite, e em que ella pretendia
descobrir avisos de desgraas...

Perguntava-lhe s vezes:

--Se eu morresse, tinhas muita pena?

Amaro enfurecia-se. Realmente era estupido! Tinham apenas uma hora para
se verem, e haviam d'estar a estragal-a com lamurias?

-- que no imaginas, dizia ella, trago o corao negro como a noite.

Com effeito as amigas da mi estranhavam-na. s vezes durante seres
inteiros no descerrava os labios, pendida sobre a sua costura, picando
mollemente a agulha; ou ento, muito cansada mesmo para trabalhar,
ficava junto da mesa fazendo girar devagar o _abat-jour_ verde do
candieiro, com o olhar vazio e a alma muito longe.

-- rapariga, deixa esse _abat-jour_ em paz! diziam-lhe as senhoras
nervosas.

Ella sorria, dava um suspiro fatigado, e retomava muito lentamente a
sia branca que havia semanas andava abainhando. A mi, vendo-a sempre
to pallida, pensra em chamar o doutor Gouveia.

--No  nada, minha mi,  nervoso, passa...

O que provava a todos que era nervoso eram os sustos subitos que a
tomavam--a ponto de dar um grilo, quasi desmaiar, se de repente uma
porta batia. Certas noites mesmo, exigia que a mi viesse dormir ao p
d'ella, com medo de pesadlos e de vises.

-- o que diz sempre o senhor doutor Gouveia, observava a mi ao conego,
 uma rapariga que necessita casar...

O conego pigarreava grosso.

--No lhe falta nada, resmungava. Tem tudo o que precisa. Tem de mais,
ao que parece...

Era com effeito a ida do conego, que a rapariga (como elle dizia s
comsigo) andava-se a arrasar de felicidade. Nos dias em que sabia que
ella fra vr a Tt, no se fartava de a estudar, cocando-a do fundo da
poltrona com um olho pesado e lubrico. Prodigalisava-lhe agora as
familiaridades paternaes. Nunca a encontrava na escada sem a deter, com
coceguinhas aqui e alli, palmadinhas na face muito prolongadas. Queria-a
em casa repetidas vezes pela manh; e emquanto Amelia palrava com D.
Josepha, o conego no cessava de rondar em torno d'ella, arrastando as
chinelas com um ar de velho gallo. E eram entre Amelia e a mi conversas
sem fim sobre esta amizade do senhor conego, que decerto lhe deixaria um
bom dote.

--Seu magano, tem dedo!--dizia sempre o conego quando estava s com
Amaro, arregalando os olhos redondos. Aquillo  um bocado de rei!

Amaro entufava-se:

--No  mau bocado, padre-mestre,  um bom bocado.

Era este um dos **grandes** gozos d'Amaro--ouvir gabar aos collegas a
belleza d'Amelia, que era chamada entre o clero a flr das devotas.
Todos lhe invejavam aquella confessada. Por isso insistia muito com ella
em que se ajanotasse nos domingos,  missa; zangra-se mesmo ultimamente
de a vr quasi sempre entrouxada n'um vestido de merino escuro, que lhe
dava um ar de velha penitente.

Mas Amelia, agora, j no tinha aquella necessidade amorosa de contentar
em tudo o senhor parocho. Acordra quasi inteiramente d'aquelle
adormecimento estupido d'alma e do corpo, em que a lanra o primeiro
abrao de Amaro. Vinha-lhe apparecendo distinctamente a consciencia
pungente da sua culpa. N'aquelles negrumes d'um espirito beato e
escravo, fazia-se um amanhecimento de razo.--O que era ella no fim? A
concubina do senhor parocho. E esta ida, posta assim descarnadamente,
parecia-lhe terrivel. No que lamentasse a sua virgindade, a sua honra,
o seu bom nome perdido. Sacrificaria mais ainda por elle, pelos delirios
que elle lhe dava. Mas havia alguma coisa peor a temer que as
reprovaes do mundo: eram as vinganas de Nosso Senhor. Era da perda
possivel do paraiso que ella gemia baixo; ou de mais medonho ainda,
d'algum castigo de Deus, no das punies transcendentes que acabrunham
a alma alm da tumba, mas dos tormentos que vm durante a vida, que a
feririam na sua saude, no seu bem-estar e no seu corpo. Eram vagos medos
de doenas, de lepras, de paralysias ou de pobrezas, de dias de fome--de
todas essas penalidades de que ella suppunha prodigo o Deus do seu
catecismo. Como em pequena, nos dias em que se esquecia de pagar 
Virgem o seu tributo regular de salve-rainhas, temia que ella a fizesse
cahir na escada ou levar palmatoadas na mestra, arrefecia de medo agora,
 ida de que Deus, em castigo d'ella se deitar na cama com um padre,
lhe mandasse um mal que a desfigurasse ou a reduzisse a pedir esmola
pelas viellas. Estas idas no a deixavam, desde o dia em que na
sacristia peccra de concupiscencia dentro do manto de Nossa Senhora.
Tinha a certeza que a Santa Virgem a odiava, e que no cessava de
reclamar contra ella; debalde procurava abrandal-a, com um fluxo
incessante de oraes humilhadas; sentia bem Nossa Senhora, inaccessivel
e desdenhosa, de costas voltadas. Nunca mais aquelle divino rosto lhe
sorrira; nunca mais aquellas mos se tinham aberto para receber com
agrado as suas oraes, como ramos congratulatorios. Era um silencio
scco, uma hostilidade gelada de divindade offendida. Ella conhecia o
credito que Nossa Senhora tem nos concilios do co; desde pequena lh'o
tinham ensinado; tudo o que ella deseja o obtem, como uma recompensa
devida aos seus prantos no Calvario; seu Filho sorri-lhe  sua direita,
o Deus-Padre falla-lhe  esquerda... E comprehendia bem que para ella
no havia esperana--e que alguma coisa medonha se preparava l era
cima, no paraiso, que lhe cahiria um dia sobre o corpo e sobre a alma,
esmagando-a com um desabamento de catastrophe. Que seria?

Cessaria as suas relaes com Amaro, se o ousasse: mas receava quasi
tanto a sua clera como a de Deus. Que seria d'ella, se tivesse contra
si Nossa Senhora e o senhor parocho? Alm d'isso, amava-o. Nos seus
braos, todo o terror do co, a mesma ida do co desapparecia;
refugiada alli, contra o seu peito, no tinha medo das iras divinas: o
desejo, o furor da carne, como um vinho muito alcoolico, davam-lhe uma
coragem colerica; era com um brutal desafio ao co que se enroscava
furiosamente ao seu corpo.--Os terrores vinham depois, s no seu quarto.
Era esta lucta que a empallidecia, lhe punha pregas d'envelhecimento ao
canto dos labios seccos e ardidos, lhe dava aquelle ar murcho de fadiga
que irritava o padre Amaro.

--Mas que tens tu, que parece te espremeram o succo? perguntava-lhe elle
quando aos primeiros beijos a sentia toda fria, toda inerte.

--Passei mal a noite... Nervoso.

--Maldito nervoso! rosnava o padre Amaro impaciente.

Depois vinham perguntas singulares que o desesperavam, repetidas agora
todos os dias. Se tinha dito a missa com fervor? Se tinha lido o
Breviario? Se tinha feito a orao mental?...

--Sabes tu que mais? disse elle furioso. Sbo! E esta! Tu pensas que eu
sou ainda seminarista, e que tu s o padre examinador, que verifica se
cumpri a Regra? Ora a tolice!

-- que  necessario estar bem com Deus, murmurava ella.

Era com effeito a sua preoccupao, agora, que Amaro _fosse um bom
padre_. Contava, para se salvar e para se livrar da clera de Nossa
Senhora, com a influencia do parocho na crte de Deus: e temia que elle
por negligencia de devoo a perdesse, e que, diminuindo o seu fervor,
diminuissem os seus meritos aos olhos do Senhor. Queria-o conservar
santo e favorito do co, para colher os proveitos da sua proteco
mystica.

Amaro chamava a isto caturrices de freira velha. Detestava-as, por as
achar frivolas--e porque tomavam um tempo precioso, n'aquellas manhs da
casa do sineiro...

--Ns no viemos aqui para lamurias, dizia elle, muito sccamente. Fecha
a porta, se queres.

Ella obedecia,--e ento aos primeiros beijos na penumbra da janella
cerrada, elle reconhecia emfim a sua Amelia, a Amelia dos primeiros
dias, o delicioso corpo que lhe tremia todo nos braos, em espasmos de
paixo.

E cada dia a desejava mais, d'um desejo continuo e tyrannico, que
aquellas horas escassas no satisfaziam. Ah! positivamente, como mulher
no havia outra!... Desafiava a que houvesse outra, mesmo em Lisboa,
mesmo nas fidalgas!... Tinha pieguices, sim, mas era no as tomar a
srio, e gozar emquanto era novo!

E gozava. A sua vida por todos os lados tinha confortos e douras--como
uma d'estas salas onde tudo  acolchoado, no ha moveis duros nem
angulos, e o corpo, onde quer que pouse, encontra a elasticidade molle
d'uma almofada.

Decerto, o melhor eram as suas manhs em casa do tio Esguelhas. Mas
tinha outros regalos. Comia bem: fumava caro n'uma boquilha d'espuma:
toda a sua roupa branca era nova e de linho: comprra alguma mobilia: e
no tinha, como outr'ora, embaraos de dinheiro, porque a snr.^a D.
Maria da Assumpo, a sua melhor confessada, l estava com a bolsa
prompta. Sobretudo, ultimamente, tivera uma pechincha: uma noite em casa
da S. Joanneira, a excellente senhora, a proposito d'uma familia
d'inglezes que vira passar n'um _char--banc_ para ir visitar a Batalha,
exprimira a opinio que os inglezes eram herejes.

--So baptisados como ns, observra D. Joaquina Gansoso.

--Pois sim, filha, mas  um baptismo para rir. No  o nosso rico
baptismo, no lhes vale.

O conego ento, que gostava de a torturar, declarou pausadamente que a
snr.^a D. Maria dissera uma blasphemia. O santo concilio de Trento, no
seu canon IV, sesso VII, l determinra que aquelle que disser que o
baptismo dado aos herejes, em nome do Padre, do Filho e do Espirito, no
 o verdadeiro baptismo, seja excommungado! E a D. Maria, segundo o
santo concilio, estava desde esse momento excommungada!...

A excellente senhora teve um flato. Ao outro dia foi lanar-se aos ps
d'Amaro, que em penitencia da sua injuria feita ao canon IV, sesso VII
do santo concilio de Trento, lhe ordenou trezentas missas de inteno
pelas almas do purgatorio--que D. Maria lhe estava pagando a cinco
tostes cada uma.

Assim, elle podia s vezes entrar na casa do tio Esguelhas com um ar de
satisfao mysteriosa e um embrulhosinho na mo. Era algum presente para
Amelia, um leno de sda, uma gravatinha de cres, um par de luvas. Ella
extasiava-se com aquellas provas da affeio do senhor parocho; e era
ento no quarto escuro um delirio d'amor, emquanto em baixo a tisica,
sobre a Tt, ia fazendo trs... trs...




XX


--O senhor conego? Quero-lhe fallar. Depressa!

A criada dos Dias indicou ao padre Amaro o escriptorio, e correu acima
contar a D. Josepha que o senhor parocho viera procurar o senhor conego,
e com uma cara to transtornada que decerto tinha succedido alguma
desgraa!

Amaro abrira abruptamente a porta do escriptorio, fechou-a de repello,
e sem mesmo dar os bons dias ao collega, exclamou:

--A rapariga est gravida!

O conego, que estava escrevendo, cahiu como uma massa fulminada para as
costas da cadeira:

--Que me diz voss!?

--Gravida!

E no silencio que se fez o soalho gemia sob os passeios furiosos do
parocho da janella para a estante.

--Est voss certo d'isso? perguntou emfim o conego com pavor.

--Certissimo! A mulher j ha dias andava desconfiada. J no fazia seno
chorar... Mas agora  certo... As mulheres conhecem, no se enganam. Ha
todas as provas... Que hei de eu fazer, padre-mestre?

--Olha que espiga! ponderou o conego atordoado.

--Imagine voss o escandalo! A mi, a visinhana... E se suspeitam de
mim?... Estou perdido... Eu no quero saber, eu fujo!

O conego coava estupidamente o cachao, com o beio cahido como uma
tromba. Representavam-se-lhe j os gritos em casa, a noite do parto, a
S. Joanneira eternamente em lagrimas, toda a sua tranquillidade extincta
para sempre...

--Mas diga alguma coisa! gritou-lhe Amaro desesperado. Que pensa voss?
Veja se tem alguma ida... Eu no sei, eu estou idiota, estou de todo!

--Ahi esto as consequencias, meu caro collega.

--V p'r' inferno, homem! No se trata de moral... Est claro que foi
uma asneira... Adeus, est feita!

--Mas ento que quer voss? disse o conego. No quer decerto que se d
uma droga  rapariga, que a arrase...

Amaro encolheu os hombros, impaciente com aquella ida insensata. O
padre-mestre, positivamente, estava divagando...

--Mas ento que quer voss? repetia o conego n'um tom cavo, arrancando
as palavras do abysmo do thorax.

--Que quero!? quero que no haja escandalo! Que hei de eu querer?

--De quantos mezes est ella?

--De quantos mezes? Est d'agora, est d'um mez...

--Ento  casal-a! exclamou o conego com exploso. Ento  casal-a com o
escrevente!

O padre Amaro deu um pulo:

--C'os diabos, tem voss razo!  de mestre!

O conego affirmou gravemente com a cabea que era de mestre.

--Casal-a j! Emquanto  tempo! _Pater est quem nupti demonstrant_...
Quem  marido  que  pai.

Mas a porta abriu-se, e appareceram os oculos azues, a touca negra de D.
Josepha. No se pudera conter em cima, na cozinha, tomada d'um phrenesi
agudo de curiosidade; descera na ponta das chinelas e collra o ouvido 
fechadura do escriptorio; mas o grosso reposteiro de baeto estava
cerrado por dentro, um ruido de lenha que se descarregava na rua abafava
as vozes. A boa senhora ento decidiu-se a entrar, a dar os bons dias
ao senhor parocho.

Mas debalde, por detraz dos vidros defumados, os seus olhinhos agudos
esquadrinharam anciosamente o caro espesso do mano e a face pallida
d'Amaro. Os dois sacerdotes estavam impenetraveis como duas janellas
fechadas. O parocho mesmo fallou ligeiramente do rheumatico do senhor
chantre, da notcia que corria sobre o casamento do senhor secretario
geral... Ao fim d'uma pausa ergueu-se, contou que tinha n'esse dia uma
famosa orelheira para o jantar--e a snr.^a D. Josepha, roendo-se, viu-o
abalar depois de ter dito j por detraz do reposteiro ao conego:

--Ento at  noite em casa da S. Joanneira, padre-mestre, hein?

--At  noite.

E o conego, muito grave, continuou a escrever. D. Josepha ento no se
conteve; e depois de arrastar um momento as chinelas em torno da banca
do mano:

--Ha novidade?

--Grande novidade, mana! disse-lhe o conego, sacudindo os bicos da
penna. Morreu o senhor D. Joo VI!

--Malcriado! rugiu ella rodando sobre os sapates, cruelmente perseguida
por uma risadinha do mano.

Foi  noite, em baixo, na saleta da S. Joanneira, emquanto Amelia em
cima, com a morte n'alma, martellava a _Valsa dos dois mundos_, que os
dois padres, muito chegados no canap, de cigarro nos dentes, por
debaixo do tenebroso painel onde a vaga mo do cenobita se estendia em
garra sobre a caveira, cochicharam o seu plano:--antes de tudo era
**necessario** achar Joo Eduardo, que desapparecera de Leiria; a
Dionysia, mulher de faro, ia bater todos os recantos da cidade para
descobrir a toca em que a fera se acoutava; depois, immediatamente,
porque o tempo urgia, Amelia escrever-lhe-hia... S quatro palavras
simples: que soubera que elle fra victima d'uma intriga; que nunca
perdera nada da amizade que lhe tinha; que lhe devia uma reparao; e
que **viesse** vl-a... Se o rapaz hesitasse agora, o que no era
provavel (o conego affirmava-o), fazia-se-lhe reluzir a esperana do
emprego no governo civil, facil d'obter pelo Godinho, inteiramente
governado pela mulher, que era uma escravasinha do padre Silverio...

--Mas o Natario, disse Amaro, o Natario que detesta o escrevente, que
dir elle a esta revoluo?

--Homem, exclamou o conego com uma grande palmada na cxa, que me tinha
esquecido! Pois voss no sabe o que aconteceu ao pobre Natario?...

Amaro no sabia.

--Quebrou uma perna! Cahiu da egoa!

--Quando?

--Esta manh. Eu soube-o agora  noitinha. Eu sempre lh'o disse: homem,
esse animal ferra-lhe alguma! Pois senhores, ferrou-lh'a. E tsa! Tem
p'ra pras... E eu que me tinha esquecido! Nem as senhoras l em cima
sabem nada.

Foi uma desolao, em cima, quando souberam. Amelia fechou o piano.
Todos lembraram logo remedios que se lhe devia mandar, foi uma gralhada
de offerecimentos--ligaduras, fios, um unguento das freiras d'Alcobaa,
meia garrafinha d'um licr dos monges do deserto d'ao p de Cordova...
Era necessario tambem assegurar a interveno do co: e cada uma se
promptificou a usar do seu valimento com os santos da sua intimidade: D.
Maria da Assumpo, que ultimamente praticava com Santo Eleuterio,
offereceu a sua influencia; D. Josepha Dias encarregava-se d'interessar
Nossa Senhora da Visitao; D. Joaquina Gansoso afianou S. Joaquim...

--E l a menina? perguntou o conego a Amelia.

--Eu?...

E fez-se pallida, n'uma tristeza de toda a sua alma, pensando que ella,
com os seus peccados e os seus delrios, perdera a util amizade de Nossa
Senhora das Dres.--E no poder ella tambem concorrer com a sua
influencia no co para restabelecer a perna de Natario, foi uma das
amarguras maiores, talvez a punio mais viva que sentira desde que
amava o padre Amaro.


Foi em casa do sineiro, d'ahi a dias, que Amaro participou a Amelia o
plano do padre-mestre. Preparou-a, revelando-lhe primeiro que o conego
sabia tudo...

--Sabe tudo em segredo de confisso, acrescentou para a socegar. Alm
d'isso elle e tua mi tm culpas em cartorio... Tudo fica em familia...

Depois tomou-lhe a mo, e olhando-a com ternura, como compadecendo-se j
das lagrimas afflictas que ella ia chorar:

--E agora escuta, filha. No te afflijas com o que te vou dizer, mas 
necessario,  a nossa salvao...

s primeiras palavras, porm, do casamento com o escrevente, Amelia
indignou-se com espalhafato.

--Nunca, antes morrer!

O qu? Elle punha-a n'aquelle estado e agora queria descartar-se d'ella
e passal-a a outro? Era ella porventura um trapo que se usa e que se
atira a um pobre? Depois de ter posto fra de casa o homem, havia de
humilhar-se, chamal-o e cahir-lhe nos braos?... Ah, no! Tambem ella
tinha o seu brio! Os escravos trocavam-se, vendiam-se, mas era no
Brazil!

Enterneceu-se ento. Ah, elle j no a amava, estava farto d'ella! Ah,
que desgraada, que desgraada que era!--Atirou-se de bruos para a cama
e rompeu n'um chro estridente.

--Cala-te, mulher, que te podem ouvir na rua! dizia Amaro desesperado,
sacudindo-a pelo brao.

--No me importa! Que ouam! P'r' rua vou eu gritar que estou n'este
estado, que foi o senhor padre Amaro, e que me quer agora deixar!...

Amaro fazia-se livido de raiva, com um desejo furioso de lhe bater. Mas
conteve-se; e com uma voz que tremia sob a sua serenidade:

--Tu ests fra de ti, filha... Dize l, posso eu casar comtigo? No!
Bem, ento que queres? Se se percebe que ests assim, se tens o filho em
casa, v o escandalo!... Por ti, ests perdida, perdida p'ra sempre! E
eu, se se souber, que me succede? Perdido tambem, suspenso, mettido em
processo talvez... De que queres tu que eu viva? Queres que morra de
fome?

Enterneceu-se tambem quella ida das privaes e das miserias do padre
interdicto.--Ah, era ella, era ella que o no amava, e que depois d'elle
ter sido to carinhoso e to delicado, lhe queria pagar com o escandalo
e com a desgraa...

--No, no! exclamou Amelia em soluos, lanando-se-lhe ao pescoo.

E ficaram abraados, tremendo no mesmo **enternecimento**,--ella
molhando de pranto o hombro do parocho, elle mordendo o beio com os
olhos todos turvos d'agua.

Desprendeu-se brandamente, emfim, e limpando as lagrimas:

--No, filha,  uma desgraa que nos succede, mas tem de ser. Se tu
soffres, imagina eu! Vr-te casada, a viver com outro... Nem fallemos
n'isso... Mas ento,  a fatalidade,  Deus que a manda!

Ella ficra aniquilada,  beira do leito, tomada ainda de grandes
soluos. Tinha chegado emfim o castigo, a vingana de Nossa Senhora, que
ella sentia preparar-se ha tempos no fundo dos cos, como uma tormenta
complicada. Ahi estava, agora, peor que os fogos do Purgatorio! Tinha de
se separar de Amaro que imaginava amar mais, e ir viver com o outro, com
o excommungado! Como poderia ella nunca reentrar na graa de Deus,
depois de ter dormido e vivido com um homem que os canones, o Papa, toda
a terra, todo co consideravam maldito?... E devia ser esse seu marido,
talvez o pai d'outros filhos... Ah, Nossa Senhora vingava-se de mais!

--E como posso eu casar com elle, Amaro, se o homem est excommungado?!

Amaro ento apressou-se a tranquillisal-a, prodigalisando os argumentos.
Era necessario no exagerar... O rapaz, verdadeiramente, excommungado
no estava... Natario e o conego tinham interpretado mal os canones e as
bullas... Bater n'um sacerdote que no estava revestido no era motivo
d'excommunho _ipso facto_, segundo certos auctores... Elle, Amaro, era
d'essa opinio... De mais a mais podiam levantar-lhe a excommunho.

--Tu comprehendes... Como disse o santo concilio de Trento, e como
sabes, _ns atamos e desatamos_. O moo foi excommungado?... Bem,
levantamos-lhe a excommunho... Fica to limpo como d'antes. No, isso
no te d cuidado.

--Mas de que havemos de viver, se elle perdeu o emprego?

--Tu no me deixaste dizer... Arranja-se-lhe o emprego. Arranja-lh'o o
padre-mestre. Est tudo combinadinho, filha!

Ella no respondeu, muito quebrada e muito triste, com duas lagrimas
persistentes ao comprido das faces.

--Dize c, tua mi no desconfia de nada?

--No, por ora no se percebe, respondeu ella com um grande ai.

Ficaram calados: ella limpando as lagrimas, serenando para sahir; elle
de cabea baixa, trilhando lugubremente o soalho do quarto, pensando nas
boas manhs d'outr'ora, quando s havia alli beijos e risadinhas
abafadas; tudo mudra agora, at o tempo que estava todo nublado, um dia
de fim de vero, ameaando chuva.

--Percebe-se que estive a chorar? perguntou ella, compondo ao espelho o
cabello.

--No. Vaes-te?

--A mam est  minha espera...

Deram um beijo triste, e ella sahiu.


No emtanto a Dionysia farejava pela cidade na pista de Joo Eduardo. A
sua actividade desenvolvera-se, sobretudo, mal soubera que o conego
Dias, o ricao, estava interessado na pesquiza. E todos os dias, 
noitinha, esgueirava-se cautelosamente pelo porto d'Amaro a dar-lhe as
novidades: j sabia que o escrevente estivera ao principio em Alcobaa
com um primo boticario; depois fra para Lisboa; ahi, com uma carta de
recommendao do doutor Gouva, empregra-se no cartorio d'um
procurador; mas o procurador, passados dias, por uma fatalidade, morrera
de apoplexia; e desde ento o rasto de Joo Eduardo perdia-se no vago,
no cahos da capital. Havia, sim, uma pessoa que lhe devia saber a morada
e os passos: era o typographo, o Gustavo. Mas infelizmente o Gustavo,
depois d'uma questo com o Agostinho, deixra o _Districto_ e
desapparecera. Ninguem sabia para onde fra; por desgraa, a mi do
typographo no a podia informar--porque morrera tambem.

--Oh, senhores! dizia o conego quando o padre Amaro lhe ia levar estes
fios d'informao. Oh, senhores! mas ento n'essa historia toda a gente
morre! Isso  uma hecatombe!

--Voss graceja, padre-mestre, mas  srio. Olhe que um homem em Lisboa
 agulha em palheiro.  uma fatalidade!

Ento, afflicto j, vendo passar os dias, escreveu  tia, pedindo-lhe
que esquadrinhasse por toda a Lisboa, a vr se por l apparecera um tal
Joo Eduardo Barbosa... Recebeu uma carta da tia em garatujas de tres
paginas, queixando-se do Joosinho, do seu Joosinho, que lhe fizera a
vida um inferno, embebedando-se com genebra a ponto que no lhe paravam
hospedes em casa. Mas estava agora mais tranquilla: o pobre Joosinho
havia dias jurra-lhe pela alma da mam que d'ahi por diante no beberia
seno gazosa. Emquanto ao tal Joo Eduardo perguntra na visinhana e ao
snr. Palma do ministerio das obras publicas, que conhecia toda a gente,
mas nada averigura. Havia, sim, um Joaquim Eduardo que tinha uma loja
de quinquilherias no bairro... E se fosse o negocio com elle bem ia, que
era um homem de bem...

--Lrias! lrias! interrompeu o conego impaciente.

Resolveu-se elle ento a escrever. E instado pelo padre Amaro (que no
cessava de lhe representar o que a S. Joanneira e elle mesmo, conego
Dias, soffreria com o escandalo) chegou a auctorisar ao seu amigo da
capital as despezas necessarias para empregar a policia. A resposta
demorou-se, mas veio emfim, promettedora e magnifica! O habil policia
Mendes descobrira Joo Eduardo! Somente no lhe sabia ainda a morada,
avistra-o apenas n'um caf; mas em dois ou tres dias o amigo Mendes
promettia informaes precisas.

O desespero dos dois sacerdotes, porm, foi grande quando, d'ahi a dias,
o amigo do conego escreveu que o indivduo, que o habil policia Mendes
tomra por Joo Eduardo, n'um caf da Baixa, sobre signaes incompletos,
era um moo de Santo Thyrso que estava na capital a fazer concurso para
delegado... E havia tres libras e dezesete tostes de despeza.

--Dezesete demonios! rugiu o conego, voltando para Amaro furioso. E no
fim de contas foi o senhor que gozou, que se refocillou, e sou eu que
estou aqui a arrasar a minha saude com estas andadas, e a fazer
desembolsos d'esta ordem!

Amaro, dependente do padre-mestre, vergou os hombros  injuria.

Mas no estava nada perdido, graas a Deus. A Dionysia l andava no
faro!


Amelia recebia estas noticias com desconsolao. Depois das primeiras
lagrimas, a irremediavel necessidade impuzera-se-lhe, muito forte. Por
fim que lhe restava? D'ahi a dois ou tres mezes, com aquelle seu
desgraado corpo de cinta fina e quadris estreitos, no poderia esconder
o seu estado. E que faria ento? Fugir de casa, ir como a filha do tio
Cegonha para Lisboa, ser espancada no Bairro Alto pelos marujos
inglezes, ou como a Joanninha Gomes, que fra a amiga do padre Abilio,
levar pela cara os ratos mortos que lhe atiravam os soldados? No.
Ento, tinha de casar...

Depois vir-lhe-hia um menino ao fim dos sete mezes (era to frequente!),
legitimado pelo sacramento, pela lei e por Deus Nosso Senhor... E o seu
filho teria um pap, receberia uma educao, no seria um engeitado...

Desde que o senhor parocho lhe affirmra, em juramento, que o escrevente
_no estava realmente excommungado_, que com algumas oraes se lhe
levantaria a excommunho, os seus escrupulos devotos esmoreciam como
brazas que se apagam. No fim, em todos os erros do escrevente, ella s
podia descobrir a incitao do ciume e do amor: fra n'um despeito de
namorado que escrevera o _Communicado_, fra n'um furor de paixo
trahida que espancra o senhor parocho... Ah! no lhe perdoava esta
brutalidade! Mas que castigado fra! Sem emprego, sem casa, sem mulher,
to perdido na miseria anonyma de Lisboa que nem a policia o achava! E
tudo por ella. Pobre rapaz! No fim no era feio... Fallavam da sua
impiedade; mas vira-o sempre muito attento  missa, rezava todas as
noites uma orao especial a S. Joo que ella lhe dera impressa n'um
carto bordado...

Com o emprego no governo civil podiam ter uma casinha e uma criada...
Porque no seria feliz, por fim? Elle no era rapaz de botequins, nem de
vadiagem. Tinha a certeza de o dominar, de lhe impr os seus gostos e as
suas devoes. E seria agradavel sahir aos domingos de manh para a
missa, arranjada, de marido ao lado, comprimentada de todos, podendo, 
face da cidade, passear o seu filho muito vistoso na sua touca de rendas
e na sua grande capa franjada! Quem sabe se, ento, pelos carinhos que
dsse ao pequerrucho e pelos confortos de que cercasse o homem, o co e
Nossa Senhora se no abrandariam! Ah! para isso faria tudo, para ter
outra vez no co aquella amiga, a sua querida Nossa Senhora, amavel e
confidente, sempre prompta a curar-lhe as dres, a livral-a de
infortunios, occupada a preparar-lhe no paraiso um luminoso conchego!

Pensava assim horas inteiras, sobre a sua costura; pensava assim, mesmo
no caminho para casa do sineiro; e depois de ter estado um momento com a
Tt, muito quieta agora, extenuada da febre lenta, quando subia ao
quarto, a primeira pergunta a Amaro era:

--Ento, ha alguma novidade?

Elle franzia a testa, rosnava:

--A Dionysia l anda... Porqu, tens muita pressa?

--Tenho muita pressa, tenho, respondia ella muito sria, que a vergonha
 para mim.

Elle calava-se; e havia tanto odio como amor nos beijos que lhe
dava--quella mulher que se resignava assim to facilmente a ir dormir
com outro!


Tinha ciumes d'ella--que lhe tinham vindo ultimamente desde que a vira
conformar-se quelle casamento odioso! Agora, que ella j no chorava,
comeava a enfurecer-se da falta das suas lagrimas; e secretamente
desesperava-se d'ella no preferir a vergonha com elle  rehabilitao
com o outro. No lhe custaria tanto se ella continuasse a barafustar, a
fazer um alarido de prantos; isso seria uma prova sria de amor, em que
a sua vaidade se banharia deliciosamente; mas aquella aceitao do
escrevente agora, sem repugnancia e sem gestos d'horror, indignava-o
como uma traio. Viera a suspeitar que a ella no fundo no lhe
_desagradava a mudana_. Joo Eduardo por fim era um homem; tinha a
fora dos vinte e seis annos, os attractivos d'um bello bigode. Ella
teria nos braos d'elle o mesmo delirio que tinha nos seus... Se o
escrevente fosse um velho consumido de rheumatismo, ella no mostraria a
mesma resignao. Ento, por vingana do padre, para lhe desmanchar o
arranjo, desejava que Joo Eduardo no apparecesse: e muitas vezes,
quando a Dionysia lhe vinha dar conta dos passos, dizia-lhe com um mau
sorriso:

--No se canse. O homem no apparece. Deixe l... No vale a pena ganhar
dr de peito...

Mas a Dionysia tinha o peito forte--e uma noite veio, triumphante,
dizer-lhe que estava na pista do homem! Vira emfim o Gustavo, o
typographo, entrar para a casa de pasto do tio Osorio. Ao outro dia
ia-lhe fallar, e havia de se saber tudo...

Foi uma hora amargurada para Amaro. Aquelle casamento, por que ancira
no primeiro momento de terror, agora, que o sentia seguro, parecia-lhe a
catastrophe da sua vida.

Perdia Amelia para sempre!... Aquelle homem que elle expulsra, que elle
supprimira, alli lhe vinha, por uma d'estas peripecias malignas em que a
Providencia se compraz, levar-lhe a mulher legitimamente. E a ida que
elle ia tel-a nos braos, que ella lhe daria os beijos fogosos que lhe
dava a elle, que balbuciaria _oh, Joo!_--como agora murmurava _oh,
Amaro!_--enfurecia-o. E no podia evitar o casamento; todos o queriam,
ella, o conego, at a Dionysia com o seu zlo venal!

De que lhe servia ser um homem com sangue nas veias e as paixes fortes
d'um corpo so? Tinha de dizer adeus  rapariga,--vl-a partir de brao
dado com o _outro_, com o marido, irem ambos para casa brincar com o
filho, um filho que era seu! E elle assistiria  destruio da sua
alegria de braos cruzados, esforando-se por sorrir, voltaria a viver
s, eternamente s, e a relr o Breviario!... Ah! se fosse no tempo em
que se supprimia um homem com uma denuncia d'heresia!... Que o mundo
recuasse duzentos annos, e o snr. Joo Eduardo havia de saber o que
custa achincalhar um sacerdote e casar com a menina Amelia...

E esta ida absurda, na exaltao da febre em que estava, apoderou-se
to fortemente da sua imaginao que toda a noite a sonhou--n'um sonho
vivido, que muitas vezes depois contou rindo s senhoras. Era uma rua
estreita batida d'um sol ardente; entre as altas portas chapeadas, uma
populaa apinhava-se; pelos balces, fidalgos muito bordados retorciam o
bigode cavalheiresco; olhos reluziam, entre as pregas das mantilhas,
accsos n'um furor santo. E pela calada, a procisso do auto-de-f
movia-se devagar, n'um vasto ruido, sob o tremendo dobre a finados de
todos os sinos visinhos. Adiante os flagellantes semi-nus, de capuz
branco sobre o rosto, dilaceravam-se, uivando o _Miserere_, com as
costas empastadas de sangue: sobre um jumento ia Joo Eduardo, idiota de
terror, com as pernas pendentes, a camisa alva sarapintada de diabos cr
de fogo, tendo ao peito um rotulo em que estava escripto--POR HEREJE;
por traz um medonho servente do Santo Officio espicaava furiosamente o
jumento; e ao p um padre, erguendo alto o crucifixo, berrava-lhe aos
ouvidos os conselhos do arrependimento. E elle, Amaro, caminhava ao lado
cantando o _Requiem_, de Breviario aberto n'uma mo, com a outra
abenoando as velhas, as amigas da rua da Misericordia que se agachavam
para lhe beijar a alva. s vezes voltava-se para gozar aquella pompa
lugubre, e via ento a longa fila da confraria dos Nobres: aqui era um
personagem pansudo e apopletico, alm uma face de mystico com um bigode
feroz e dois olhos chammejantes; cada um levava uma tocha accsa, e na
outra mo sustentava o chapo cuja pluma negra varria o cho. Os
capacetes dos arcabuzeiros reluziam; uma clera devota contorcia as
faces esfomeadas do populacho; e o prestito ondeava nas tortuosidades da
rua, entre o clamor do canto-cho, os gritos dos fanaticos, o dobrar
aterrador dos sinos, o tlim-tlim das armas, n'um terror que enchia toda
a cidade,--aproximando-se da platafrma de tijolo onde j fumegavam as
pilhas de lenha.

E o seu desengano foi grande, depois d'aquella gloria ecclesiastica do
sonho, quando a criada o veio acordar cedo com agua quente para a barba.

Era pois n'esse dia que se ia saber do snr. Joo Eduardo, e
escrever-se-lhe!... Devia encontrar-se com Amelia s onze horas; e foi a
primeira coisa que lhe disse, atirando a porta do quarto com mau modo:

--O homem appareceu... Pelo menos appareceu o amigo intimo, o
typographo, que sabe onde a bsta pra...

Amelia, que estava n'um dia de desalento e terror, exclamou:

--Ainda bem, que se acaba este tormento!

Amaro teve um risinho repassado de fel:

--Ento agrada-te, hein?

--Se te parece, n'este susto em que ando...

Amaro teve um gesto desesperado, d'impaciencia. Susto! No estava m
hypocrisia! Susto de qu? Com uma mi que era uma babosa, que lhe
consentia tudo... O que era, era que queria casar... Queria outro! No
lhe agradava aquelle divertimento pela manh, de fugida... Queria a
coisa commodamente, em casa. Imaginava a menina que o illudia a elle, um
homem de trinta annos e quatro annos de experiencia de confisso? Via
bem atravs d'ella... Era como as outras, queria mudar d'homem.

Ella no respondia, muito pallida. E Amaro, furioso com o seu silencio:

--Calas-te, est claro... Que has de tu dizer? Se  a verdade pura!...
Depois dos meus sacrificios... Depois do que tenho soffrido por ti...
Apparece-te o outro, larga para o outro!

Ella ergueu-se, e batendo o p, desesperada:

--Foste tu que quizeste, Amaro!

--Pudera! Se imaginas que me havia de perder por tua causa! Est claro
que quiz!...--E olhando-a d'alto, fazendo-lhe sentir um desprezo d'alma
muito recta:--Mas nem vergonha tens de mostrar a alegria, o furor de ir
para o homem!... s uma desavergonhada,  o que ...

Ella, sem uma palavra, branca como a cal, agarrou o mantelete para
sahir.

Amaro, exasperado, segurou-a violentamente pelo brao:

--P'ra onde vaes? Olha bem p'ra mim. s uma desavergonhada... Estou-te a
dizer. Ests morta por dormir com o outro...

--Pois acabou-se, estou! disse ella.

Amaro, perdido, atirou-lhe uma bofetada.

--No me mates! gritou ella.  o teu filho!

Elle ficou diante d'ella, enleado e tremulo: quella palavra, quella
ida do seu filho, uma piedade, um amor desesperado revolveu todo o seu
sr: e arremessando-se sobre ella, n'um abrao que a esmagava, como
querendo sepultal-a no peito, absorvel-a toda s para si, atirando-lhe
beijos furiosos que a magoavam, pela face e pelos cabellos:

--Perda, murmurava, perda, minha Ameliasinha! Perda, que estou doido!

Ella soluava, n'um pranto nervoso;--e toda a manh foi no quarto do
sineiro um delirio d'amor a que aquelle sentimento da maternidade,
ligando-os como um sacramento, dava uma ternura maior, um renascimento
incessante de desejo, que os lanava cada vez mais vidos nos braos um
do outro.

Esqueceram as horas; e Amelia s se decidiu a saltar do leito quando
ouviram em baixo na cozinha a muleta do tio Esguelhas.

Emquanto ella se arranjava  pressa diante do bocado d'espelho que
ornava a parede, Amaro diante d'ella contemplava-a com melancolia,
vendo-a a passar o pente nos cabellos--nos cabellos que elle dentro em
breve no tornaria a vr pentear; deu um grande suspiro, disse-lhe
enternecido:

--Esto a acabar os nossos bons dias, Amelia. s tu que queres... Has de
te lembrar algumas vezes d'estas boas manhs...

--No digas isso! fez ella com os olhos arrazados d'agua.

E atirando-se-lhe de repente ao pescoo, com a antiga paixo dos tempos
felizes, murmurou-lhe:

--Hei de ser sempre a mesma para ti... Mesmo depois de casada.

Amaro agarrou-lhe as mos sfregamente:

--Juras?

--Juro.

--Pela hostia sagrada?

--Juro pela hostia sagrada, juro por Nossa Senhora!

--Sempre que tenhas occasio?

--Sempre!

--Oh, Ameliasinha! oh, filha! no te trocava por uma rainha!

Ella desceu. O parocho, dando uma arranjadella ao leito, ouvia-a em
baixo fallar tranquillamente com o tio Esguelhas; e dizia comsigo que
era uma grande rapariga, capaz d'enganar o diabo, e que havia de fazer
andar n'uma roda viva o pateta do escrevente.


Aquelle pacto, como lhe chamava o padre Amaro, tornou-se entre elles
to irrevogavel que j lhe discutiam tranquillamente os detalhes. O
casamento com o escrevente consideravam-no como uma d'estas necessidades
que a sociedade impe e que suffoca as almas independentes, mas a que a
natureza se subtrae pela menor fenda, como um gaz irreductivel. Diante
de Nosso Senhor, o verdadeiro marido d'Amelia era o senhor parocho; era
o marido da alma, para quem seriam guardados os melhores beijos, a
obediencia intima, a vontade; o outro teria quando muito o _cadaver_...
J s vezes mesmo tramavam o plano habil das correspondencias secretas,
dos logares occultos de _rendez-vous_...

Amelia estava de novo, como nos primeiros tempos, em todo o fogo da
paixo. Diante da certeza que em algumas semanas o casamento ia tornar
tudo branco como a neve, os seus transes tinham desapparecido, o mesmo
terror da vingana do co calmra-se. Depois, a bofetada que lhe dera
Amaro fra como a chicotada que esperta um cavallo que preguia e se
atraza: e a sua paixo, sacudindo-se e relinchando forte, ia-a de novo
levando no impeto d'uma carreira fogosa.

Amaro, esse regosijava-se. Ainda s vezes, decerto, a ida d'aquelle
homem, de dia e de noite com ella, importunava-o... Mas, no fundo, que
compensaes! Todos os perigos desappareciam magicamente, e as sensaes
requintavam. Findavam para elle aquellas atrozes responsabilidades da
seduco, e ficava-lhe a mulher mais appetitosa.

Instava agora com a Dionysia para que acabasse emfim aquella fastidiosa
campanha. Mas a boa mulher, decerto para se fazer pagar melhor pela
multiplicidade d'esforos, no podia descobrir o typographo--aquelle
famoso Gustavo que possuia, como os anes de romance de cavallaria, o
segredo da torre maravilhosa onde vive o principe encantado.

--Oh, senhor! dizia o conego, isso at j cheira mal! Ha quasi dois
mezes  busca d'um patife!... Homem, escreventes no faltam. Arranje-se
outro!

Mas emfim, uma noite em que elle entrra a descansar em casa do parocho,
a Dionysia appareceu; e exclamou logo da porta da sala de jantar, onde
os dois padres tomavam o seu caf:

--At que emfim!

--Ento, Dionysia?

A mulher, porm, no se apressou: sentou-se mesmo, com licena dos
senhores, porque vinha derreada... No, o senhor conego no imaginava os
passos que se vira obrigada a dar... O maldito typographo lembrava-lhe a
historia, que lhe contavam em pequena, d'um veado que estava sempre 
vista e que os caadores a galope nunca alcanavam. Uma perseguio
assim!... Mas, finalmente apanhra-o... E tocadito, por signal.

--Acabe, mulher! berrou o conego.

--Pois aqui est, disse ella. Nada!

Os dois sacerdotes olharam-na mystificados.

--Nada qu, creatura?

--Nada. O homem foi p'r' Brazil!

O Gustavo recebera de Joo Eduardo duas cartas: na primeira, onde lhe
dava a morada, para o lado do Poo do Borratem, annunciava-lhe a
resoluo de ir para o Brazil; na segunda dizia-lhe que mudra de casa,
sem lhe indicar a nova _adresse_, e declarava que pelo proximo paquete
embarcava para o Rio; no dizia nem com que dinheiro, nem com que
esperanas. Tudo era vago e mysterioso. Desde ento, havia um mez, o
rapaz no tornra a escrever, d'onde o typographo concluia que ia a essa
hora nos altos mares...--Mas havemos de vingal-o! tinha elle dito a
Dionysia.

O conego remexia pausadamente o seu caf, embatocado.

--E esta, padre-mestre? exclamou Amaro, muito branco.

--Acho-a boa.

--Diabo levem as mulheres, e o inferno as confunda! disse surdamente
Amaro.

--Amen, respondeu gravemente o conego.




XXI


Que lagrimas quando Amelia soube a noticia! A sua honra, a paz da sua
vida, tantas felicidades combinadas, tudo perdido e sumido nas brumas do
mar, a caminho para o Brazil!

Foram as semanas peores da sua vida. Ia para o parocho, banhada em
lagrimas, perguntando-lhe todos os dias o que havia de fazer.

Amaro, succumbido, sem ida, ia para o padre-mestre.

--Fez-se tudo o que se pde, dizia o conego desolado.  aguentar. No se
mettesse n'ellas!

E Amaro voltava para Amelia com consolaes muito murchas:

--Tudo se ha de arranjar,  esperar em Deus!

Era bom o momento para contar com Deus, quando Elle, indignado, a
acabrunhava de miserias! E aquella indeciso, n'um homem e n'um padre,
que devia ter a habilidade e a fora de a salvar, desesperavam-na; a sua
ternura por elle sumia-se como a agua que a areia absorve; e ficava um
sentimento confuso em que sob o desejo persistente j transluzia o odio.

Espaava agora de semana a semana os encontros na casa do sineiro. Amaro
no se queixava; aquellas boas manhs do quarto do tio Esguelhas, eram
sempre estragadas com queixumes; cada beijo tinha um rastro de soluos;
e aquillo enervava-o tanto, que lhe vinham desejos de se atirar tambem
de bruos para a enxerga e chorar toda a sua amargura.

No fundo accusava-a de exagerar os seus embaraos, de lhe communicar um
terror desproporcionado. Outra mulher, de melhor senso, no faria
semelhante espalhafato... Mas qu, uma beata hysterica, toda nervos,
toda medo, toda exaltao!... Ah, no havia duvida, fra uma famosa
asneira!

Tambem Amelia pensava que fra uma asneira. E no ter nunca imaginado
que aquillo lhe poderia succeder! Qual! Como mulher, correra para o
amor, toda tonta, certa que escaparia, ella,--e agora que sentia nas
entranhas o filho, eram as lagrimas e os espantos e as queixas! A sua
vida era lugubre: de dia tinha de se conter diante da mi, applicar-se 
sua costura, conversar, affectar felicidade... Era de noite que a
imaginao desencadeada a torturava com uma incessante phantasmagoria de
castigos, d'este e do outro mundo, miserias, abandonos, desprezo da
gente honrada e chammas do purgatorio...

Foi ento que um acontecimento inesperado veio fazer diverso quella
anciedade que se ia tornando um habito morbido do seu espirito. Uma
noite a criada do conego appareceu, esfalfada de correr, a dizer que a
snr.^a D. Josepha estava  morte.

Na vespera a excellente senhora sentira-se doente com uma pontada no
lado, mas insistira em ir  Senhora da Incarnao rezar a sua cora;
voltou transida, com uma dr maior e uma ponta de febre; e n'essa tarde,
quando o doutor Gouva foi chamado, tinha-se declarado uma pneumonia
aguda.

A S. Joaneira correu logo a installar-se l como enfermeira. E ento,
durante semanas, na tranquilla casa do conego, foi um alvoroo de
dedicaes afflictas: as amigas, quando se no espalhavam pelas igrejas
a fazer promessas e a implorar os seus santos devotos, estavam l em
permanencia, sahindo e entrando no quarto da doente com passos de
phantasmas, accendendo aqui e alm lamparinas s imagens, torturando o
doutor Gouva com perguntas piegas.  noite na sala, com o candieiro a
meia luz, era pelos cantos um cochichar de vozes lugubres; e ao ch,
entre cada mastigadella de torrada, havia suspiros, lagrimas
furtivamente limpadas...

O conego l estava a um canto, aniquilado, succumbido com aquella brusca
appario da doena e do seu scenario melancolico--as garrafadas de
botica enchendo as mesas, as entradas solemnes do medico, as faces
compungidas que vem saber se ha melhoras, o halito febril espalhado em
toda a casa, o timbre funerario que toma o relogio de parede no
abafamento de todo o ruido, as toalhas sujas que ficam dias no logar em
que cahiram, o anoitecer de cada dia com a sua ameaa de treva eterna...
De resto, um pezar sincero prostrava-o; havia cincoenta annos que vivia
com a mana e era animado por ella; o longo habito tornra-lh'a cara; e
as suas caturrices, as suas toucas negras, o seu espalhafato pela casa
faziam como uma parte mesma de seu sr... Alm d'isso, quem sabe se a
morte, entrando-lhe em casa, para poupar passos, o no levaria
tambem!...

Para Amelia aquelle tempo foi um allivio; ao menos ninguem pensava,
ninguem reparava n'ella; nem a sua face triste e os vestigios de
lagrimas pareceriam estranhos, n'aquelle perigo em que estava a
madrinha. Demais os servios de enfermeira occupavam-n'a: como era a
mais forte e a mais nova, agora que a S. Joaneira estava estafada de
vigilias, era ella que passava as longas noites  beira de D. Josepha: e
no havia ento desvelos que no tivesse, para abrandar Nossa Senhora e
o co com aquella caridade pela doente, para merecer igual piedade
quando o seu dia viesse de estar tambem prostrada n'um leito...
Vinha-lhe agora, sob a impresso funebre que se exhalava da casa, o
presentimento repetido que morreria de parto; s vezes s, embrulhada no
seu chale aos ps da doente, ouvindo-lhe o gemer monotono, enternecia-se
sobre a sua propria morte que julgava certa, e molhavam-se-lhe os olhos
de lagrimas, n'uma saudade vaga de si mesma, da sua mocidade e dos seus
amores... Ia ento ajoelhar-se junto da commoda onde uma lamparina
bruxoleava diante d'um Christo projectando sobre o papel claro da parede
a sua sombra disforme que se quebrava no tecto; e alli ficava rezando,
pedindo a Nossa Senhora que no lhe recusasse o paraiso... Mas a velha
mexia-se com um ai doloroso; ia ento aconchegar-lhe a roupa, fallar-lhe
baixo. Vinha depois  sala vr no relogio se era o momento do remedio; e
estremecia s vezes, sentindo vir do quarto proximo um pio de flautim ou
um som rouco de trombone; era o conego a resonar.

Emfim, uma manh, o doutor Gouva declarou D. Josepha livre de perigo.
Foi um vivo regosijo para as senhoras--certa, cada uma, que aquillo era
devido  interveno particular do seu santo devoto. E d'ahi a duas
semanas houve uma festa na casa, quando D. Josepha, pela primeira vez,
amparada nos braos de todas as amigas, deu dois passos tremulos no
quarto. Pobre D. Josepha, o que d'ella fizera a doena! Aquella vozinha
irritada, em que as palavras eram despedidas como settas envenenadas,
assemelhava-se agora apenas a um som expirante, quando, n'um esforo
ancioso da vontade, pedia a escarradeira ou o xarope. Aquelle olhar
sempre lerta, escrutador e maligno, estava hoje como refugiado no fundo
das orbitas, assustado da luz, das sombras e dos contornos das coisas. E
o seu corpo, to tso outr'ora, d'uma seccura de ramo de sarmento, agora
ao cahir no fundo da poltrona, sob a trapalhada dos agasalhos, parecia
um trapo tambem.

Mas emfim o doutor Gouva, apesar d'annunciar uma convalescena longa e
delicada, dissera rindo ao conego, diante das amigas (depois de ter
visto D. Josepha manifestar o seu primeiro desejo, o desejo de se chegar
 janella), que com muita cautela, tonicos, e as oraes de todas
aquellas boas senhoras--a mana estava ainda para amores...

--Ai, doutor, exclamou D. Maria, as nossas oraes no lhe ho de
faltar...

--E eu no lhe hei de faltar com os tonicos, disse o doutor. De modo
que, o que resta  congratularmo-nos.

Aquella jovialidade do doutor era para todos como a certeza da saude
proxima.

E d'ahi a dias, o conego vendo aproximar-se o fim d'agosto, fallou de
alugar casa na Vieira, como costumava um anno sim outro no, para ir
tomar os seus banhos de mar. O anno passado no fra. Este era o anno de
praia...

--E a mana l, n'aquelles ares saudaveis da beira-mar,  que acaba de
ganhar foras e carnes...

Mas o doutor Gouva desapprovou a jornada. O ar muito picante e muito
rico do mar no convinha  fraqueza de D. Josepha. Era preferivel irem
para a quinta da Ricoa, nos Poyaes, logar abrigado e muito temperado.

Foi um desgosto para o pobre conego, que prodigalisou as lamurias. O
qu! ir enterrar-se todo o vero, o melhor tempo do anno, na Ricoa! E
os seus banhos, meu Deus, os seus banhos?

--Veja o senhor,--dizia elle a Amaro, uma noite no escriptorio,--veja o
que eu tenho sofrido... Durante a doena, que desarranjo, que desordem
na casa! Ch fra d'horas, jantar esturrado! E os cuidados que tive, que
me emmagreceram... E agora, quando eu pensava poder ir refazer-me para a
praia, no senhor, vai p'r' Ricoa, dispensa os teus banhos... Isto  o
que eu chamo sofrer! E no fim de tudo no fui eu que estive doente. Mas
sou eu que as aguento... Perder dois annos a fio os meus banhos!...

Amaro, ento, deu de repente uma punhada na mesa, e exclamou:

--Homem, veio-me uma boa ida!

O conego olhou-o com duvida, como se no achasse possivel a uma
intelligencia humana descobrir o fim dos seus males.

--Quando digo uma boa ida, padre-mestre, devia dizer uma ida sublime!

--Acabe, creatura...

--Escute. O senhor vai p'r' Vieira, e a S. Joanneira, est claro, vai
tambem. Naturalmente alugam casa um ao p do outro, como ella me disse
que tinham feito ha dois annos...

--Adiante...

--Bem. Aqui temos a S. Joanneira na Vieira. Agora, a senhora sua mana
parte p'r' Ricoa.

--E ento a creatura ha de ir s?

--No! exclamou Amaro em triumpho. Vai com a Amelia! A Amelia vai-lhe
servir de enfermeira! Vo ambas ss! e l na Ricoa, n'aquelle buraco
onde no vai viva alma, n'aquelle casaro onde pde uma pessoa viver sem
que ninguem em roda suspeite, l  que a rapariga tem o filho! Hein, que
lhe parece?

O conego erguera-se com os olhos redondos d'admirao.

--Homem, famosa ida!

-- que concilia tudo! O senhor toma os seus banhos. A S. Joanneira,
longe, no sabe o que se passa. Sua mana goza os ares... A Amelia tem um
sitio escondido p'r' coisa...  Ricoa ninguem a vai vr... A D. Maria
tambem vai p'r' Vieira. As Gansosos idem. A rapariga deve ter o bom
successo ahi pelos principios de novembro... Da Vieira, e isso fica por
sua conta, no volta ninguem dos nossos at principios de dezembro... E
quando nos reunirmos de novo est a rapariga limpa e fresca.

--Pois senhores, por ser a primeira ida que voss tem n'estes dois
ultimos annos,  uma grande ida!

--Obrigado, padre-mestre.

Mas havia uma difficuldade feia: era o ir  D. Josepha,  rigorista D.
Josepha, to implacavel s fraquezas do sentimento,  D. Josepha que
pedia para as mulheres frageis as antigas penalidades gothicas--as
letras marcadas na testa com ferro em braza, os aoutes nas praas
publicas, os _in pace_ tenebrosos--ir  D. Josepha e pedir-lhe para ser
cumplice d'um parto!

--A mana vai dar urros! disse o conego.

--Ns veremos, padre-mestre, replicou Amaro repoltreando-se e balouando
a perna, muito certo do seu prestigio devoto. Ns veremos... Hei de lhe
eu fallar... E quando lhe tiver contado umas lrias... Quando lhe tiver
representado que  para ella um caso de consciencia encobrir a
pequena... Quando lhe lembrar que nas vesperas da morte  que se deve
fazer alguma boa aco, para no se apresentar  porta do paraiso com as
mos vazias... Ns veremos!

--Talvez, talvez, disse o conego. A occasio  boa, porque a pobre mana
est fraquita do juizo e leva-se como uma criana.

Amaro ergueu-se, esfregando vivamente as mos:

--Pois  mos  obra!  mos  obra!

--E  necessario no perder tempo, porque o escandalo estala. Olhe que
esta manh, l em casa, a besta do Libaninho pz-se a gracejar com a
rapariga, a dizer-lhe que tinha a cinta grossa...

--Oh, que patife! rugiu o parocho.

No, no seria por mal. Mas que a rapariga tem engrossado,  facto...
Com esta atarantao da doena ninguem tem tido olhos para nada... Mas
agora pde-se reparar...  srio, amigo,  srio!


Por isso, logo na manh seguinte, Amaro foi, segundo a expresso do
conego, dar a grande abordagem  mana.

Antes, porm, explicou em baixo no escriptorio ao padre-mestre o seu
plano: primeiro, ia dizer a D. Josepha que o conego estava na inteira
ignorancia do desastre da Ameliasinha, e que elle, Amaro, o sabia, no
em segredo de confisso (n'esse caso no o poderia revelar) mas pelas
confidencias secretas dos dois--de Amelia e do homem casado que a
seduzira!... Do homem casado, sim!... Porque emfim era necessario provar
 velha que havia a impossibilidade d'uma reparao legitima...

O conego coava a cabea descontente:

--Isso no vai bem arranjado, disse elle. A mana sabe bem que no iam
homens casados  rua da Misericordia.

--E o Arthur Couceiro? exclamou Amaro, sem escrupulo.

O conego largou a rir, com gosto. O pobre Arthur, sem dentes, cheio de
filhos, com os seus olhos de carneiro triste, accusado de perder
virgens!... No, essa era boa!

--No pga, parocho amigo, no pga! Outra, outra...

Mas ento subitamente partiu dos labios d'ambos o mesmo nome,--o
Fernandes, o Fernandes da loja de panos! Bello homem, que Amelia
admirava muito! Sempre que sahia ia-lhe  loja: tinha mesmo havido
indignao na rua da Misericordia, havia dois annos, com a ousadia do
Fernandes que acompanhra Amelia pela estrada de Marrazes at ao
Morenal!

J se sabe, no se dizia explicitamente  mana,--mas dava-se-lhe a
entender que fra o Fernandes.

E Amaro subiu rapidamente para o quarto da velha, que era por cima do
escriptorio. Esteve l meia hora, uma longa, uma pesada meia hora para o
conego, que apenas podia ouvir em cima, ora rangerem as solas d'Amaro,
ora a tosse cavernosa da velha... E no seu passeio habitual pelo
escriptorio, da estante para a janella, com as mos atraz das costas e a
caixa de rap nos dedos, ia considerando quantos incommodos, quantas
despezas lhe traria ainda aquelle divertimento do senhor parocho!
Tinha de ter a rapariga na quinta cinco ou seis mezes... Depois o
medico, a parteira que era elle naturalmente que havia de pagar...
Depois algum enxoval para o pequeno... E que se lhe havia de fazer, ao
pequeno?... Na cidade, a Roda fra supprimida; em Ourem, como os
recursos da Misericordia eram escassos e a affluencia dos engeitados
escandalosa, tinham posto um homem ao p da sineta da Roda, para
interrogar e pr embaraos; havia indagaes de paternidade,
restituies de crianas; e a auctoridade, finoria, combatia o excesso
dos engeitamentos com o terror dos vexames...

Emfim o pobre padre-mestre via diante de si todo um erriamento de
difficuldades para lhe sacudir a pachorra e estragar-lhe a
digesto...--Mas o excellente conego, no fundo, no se indignava; sempre
tivera uma affeio de velho mestre pelo parocho; para a Amelia sempre o
inclinra um fraco meio paternal, meio lubrico; e mesmo j sentia pelo
pequeno uma vaga condescendencia d'av.

A porta abriu-se, e o parocho appareceu triumphante.

--Tudo s mil maravilhas, padre-mestre! Que lhe dizia eu?

--Consentiu?

--Em tudo. No foi sem difficuldade... Ia-se abespinhando. Fallei-lhe do
homem casado... Que a rapariga estava com a cabea perdida, queria-se
matar... Que se ella no consentisse em encobrir a coisa era responsavel
por uma desgraa... Lembre-se a senhora que est com os ps p'r' cova,
que Deus pde chamal-a d'um momento a outro, e que se tiver na
consciencia este peso, no ha padre que lhe d a absolvio!...
Lembre-se que morre p'r'hi como um co!...

--Emfim, disse o conego approvando, fallou-lhe com prudencia...

--Disse-lhe a verdade. Agora trata-se de fallar  S. Joanneira, e de a
levar p'r' Vieira quanto antes...

--Outra coisa, amigo, interrompeu o conego. Tem voss pensado no destino
que se ha de dar ao fructo?

O parocho coou desconsoladamente a cabea:

--Ah, padre-mestre... Isso  outra difficuldade... Tem-me apoquentado
muito... Naturalmente dal-o a criar a alguma mulher, longe, l p'ra
Alcobaa ou p'ra Pombal... A felicidade, padre-mestre, era que a criana
nascesse morta!

--Era um anjinho mais... rosnou o conego sorvendo a sua pitada.


Logo n'essa noite elle fallou  S. Joanneira da ida para a Vieira, em
baixo na saleta onde ella estava arranjando pires de marmelada que
andavam a seccar para a convalescena de D. Josepha. Comeou por dizer
que lhe alugra a casa do Ferreiro...

--Mas isso  um nicho! exclamou ella logo. Onde hei de eu metter a
pequena?

--Ora ahi  que est.  que justamente a Amelia d'esta vez no vai 
Vieira.

--No vai!?

Foi s ento que o conego lhe explicou que a mana no podia ir s para a
Ricoa, e que elle tinha pensado em mandar com ella Amelia... Era uma
ida que lhe viera n'essa manh.

--Eu no posso ir, tenho de tomar os meus banhos, a senhora bem sabe...
A pobre de Christo no ha de estar para l s, com uma criada.
Portanto...

A S. Joanneira teve um silenciosinho desconsolado:

--Isso  verdade. Mas olhe, para lhe dizer com franqueza, custa-me bem
deixar a pequena... Se eu pudesse dispensar os banhos, ia eu.

--Qual ia! A senhora vem p'r' Vieira. Eu tambem no hei de estar l
s... Sua ingrata, sua ingrata!...--E tomando um tom muito srio:--A
senhora veja bem. A Josepha est com os ps p'r' cova. Ella sabe que o
que eu tenho para mim chega. Ella tem affeio  pequena, sempre 
madrinha; se a vir agora a tratal-a na doena, a estar alli s com ella
uns mezes, fica pelo beio. Olhe que a mana ainda vale um par de mil
cruzados. A pequena pde apanhar um bom dote. No lhe digo mais nada...

E a S. Joanneira concordou logo--uma vez que era vontade do senhor
conego.

Em cima, Amaro estava contando rapidamente a Amelia o grande plano, a
scena com a velha: que ella se promptificra logo, coitadinha, j cheia
de caridade, desejando at ajudar para o enxoval do pequeno...

--N'ella pdes ter confiana,  uma santa... De modo que est tudo
salvo, filha.  estar mettida quatro ou cinco mezes na Ricoa.

Era isso que fazia choramingar Amelia: perder a estao da Vieira, o
divertimento dos banhos!... Ir enterrar-se todo um vero n'aquelle
sinistro casaro da Ricoa! A unica vez que l fra, j ao fim da tarde,
ficra estarrecida de medo. Tudo to escuro, d'um echo to concavo...
Tinha a certeza que ia l morrer, n'aquelle degredo.

--Tolice! fez Amaro.  dar graas ao Senhor de me ter inspirado esta
ida de salvao. Demais tens a D. Josepha, tens a Gertrudes, o pomar
para passear... E eu vou-te l vr todos os dias. At has de gostar,
vers.

--Emfim que lhe hei de eu fazer?  aguentar. E com duas grossas lagrimas
nas palpebras, amaldioava intimamente aquella paixo que s amarguras
lhe dava, e que agora, quando toda a Leiria ia para a Vieira, a forava
a ella a ir fechar-se na solido da Ricoa, ouvindo tossir a velha e os
ces uivar na quinta...--E a mam, que diria a mam?

--Que ha de dizer? A D. Josepha no pde ir p'r' quinta s, sem uma
enfermeira de confiana! No te d cuidado. O padre-mestre est l em
baixo a trabalhal-a... E eu vou ter com ella, que j aqui estou s ha
bocado comtigo, e n'estes ultimos dias  necessario ter cautelinha...

Desceu. Justamente o conego subia, e encontraram-se na escada.

--Ento? perguntou Amaro ao ouvido do padre-mestre.

--Tudo arranjado. E por l?

--Idem.

E no escuro da escada os dois padres apertaram-se silenciosamente a mo.


D'ahi a dias, depois d'uma scena de prantos, Amelia partiu com D.
Josepha para a Ricoa n'um _char--banc_.

Tinham arranjado, com almofadas, um recanto commodo para a
convalescente. O conego acompanhava-a, furioso com aquelle incommodo. E
a Gertrudes ia em cima na almofada,  sombra da montanha que faziam
sobre o tope do carro os bahs de couro, os cestos, as latas, as
trouxas, os saccos de chita, o aafate onde miava o gato, e um fardo
amarrado com cordas contendo os paineis dos santos mais queridos de D.
Josepha.

Depois, ao fim da semana, foi a jornada da S. Joanneira para a Vieira,
de noite, por causa da calma. A rua da Misericordia estava atravancada
com o carro de bois, que conduzia as louas, os enxerges, o trem de
cozinha; e no mesmo _char--banc_ que fra  Cortegassa, ia agora a S.
Joanneira e a _Rua_ que levava tambem no regao um aafate com o gato.

O conego fra na vespera, s Amaro assistia  partida da S. Joanneira. E
depois de toda uma azafama, de galgarem cem vezes de baixo a cima as
escadas por um cestinho que esquecera ou um embrulho que desapparecia,
quando a _Rua_ emfim fechou a porta  chave, a S. Joanneira, j no
estribo do _char--banc_, rompeu a chorar.

--Ento, minha senhora, ento! disse Amaro.

--Ai, senhor parocho, deixar a pequena!... Mal sabe o que me custa...
Parece que a no torno a vr. Apparea pela Ricoa, faa-me essa esmola.
Veja se ella est contente...

--V descansada, minha senhora.

--Adeus, senhor parocho. Muito obrigada por tudo... Ai os favores que
lhe devo!

--Tolices, minha senhora... Boa jornada, d noticias! Recados ao
padre-mestre. Adeus, minha senhora! adeus, Rua...

O _char--banc_ partiu. E pelo mesmo caminho por onde elle ia rolando,
Amaro foi andando devagar at  estrada da Figueira. Eram ento nove
horas, nascera j o luar d'uma noite calida e serena de agosto. Uma
tenue nevoa luminosa suavisava a paizagem calada. Aqui e alm uma
fachada saliente de casa rebrilhava, batida da lua, entre as sombras do
arvoredo. Ao p da ponte, parou a olhar melancolicamente o rio que
corria sobre a areia com uma susurrao monotona; nos logares em que as
arvores se debruavam, havia escurides cerradas; e adiante uma
claridade tremia sobre a agua, como um tecido de filigrana faiscante.
Alli esteve, n'aquelle silencio que o calmava, fumando cigarros e
atirando as pontas para o rio, embebido n'uma tristeza vaga. Depois,
ouvindo as onze, veio voltando para a cidade, passou pela rua da
Misericordia n'um enternecimento de recordaes: a casa, com as janellas
fechadas, sem as cortinas de cassa, parecia abandonada para sempre; os
vasos de alecrim tinham ficado esquecidos aos cantos da janella...
Quantas vezes Amelia e elle se tinham encostado quella varanda! Havia
ento um craveiro fresco, e conversando, ella cortava uma folha,
trincava-a nos dentinhos. Tudo tinha acabado agora!--E na Misericordia,
ao lado, o piar das corujas no silencio dava-lhe uma sensao de ruina,
de solido e de fim eterno.

Foi andando para casa, devagar, com os olhos arrazados d'agua.

A criada veio logo  escada dizer-lhe que o tio Esguelhas, n'uma
afflico, viera procural-o duas vezes, haviam de ser nove horas. A Tt
estava a morrer, e s queria receber os sacramentos da mo do senhor
parocho.

Amaro, apesar da sua repugnancia supersticiosa em voltar assim n'essa
noite, para um fim to triste, ao meio das recordaes felizes da sua
paixo, foi, para obsequiar o tio Esguelhas; mas impressionava-o aquella
morte, coincidindo com a partida d'Amelia, e como completando a subita
disperso de quanto at ahi o interessra ou estivera misturado  sua
vida.

A porta da casa do sineiro estava entreaberta, e na escurido da entrada
topou com duas mulheres que sahiam suspirando. Foi logo direito  alcova
da paralytica: duas grandes velas de cera, trazidas da igreja, ardiam
sobre uma mesa; um lenol branco cobria o corpo da Tt; e o padre
Silverio, que fra decerto chamado por estar de semana, lia o Breviario,
com o leno nos joelhos, os seus grandes oculos na ponta do nariz.
Ergueu-se apenas viu Amaro:

--Ah, collega, disse muito baixo, andaram a procural-o por toda a
parte... A pobre de Christo queria-o a voss... Eu, quando me foram
buscar, ia fazer a partida a casa do Novaes.  a partida do sabbado...
Que scena! Morreu na impenitencia, como era dos livros. Quando me viu, e
que voss no vinha, que espectaculo! At tive medo que me cuspisse no
crucifixo...

Amaro, sem dar uma palavra, ergueu uma ponta do lenol, mas deixou-o
logo recahir sobre a face da morta. Depois subiu acima ao quarto onde o
sineiro, estirado sobre a cama, voltado para a parede, soluava
desesperadamente; estava com elle outra mulher, que se conservava a um
canto, muda e immovel, com os olhos no cho, no vago aborrecimento que
lhe dava aquelle pesado dever de visinha. Amaro tocou no hombro do
sineiro, fallou-lhe:

-- necessario resignao, tio Esguelhas... So decretos do Senhor...
Para ella  at uma felicidade.

O tio Esguelhas voltou-se; e reconhecendo o parocho, por entre o vo das
lagrimas que lhe alagavam os olhos, tomou-lhe a mo, quiz beijar-lh'a.
Amaro recuou:

--Ento, tio Esguelhas!... Deus ha de ser misericordioso, ha de lhe
levar em conta a sua dr...

Elle no o escutava, sacudido d'um pranto convulsivo,--emquanto a
mulher, muito tranquillamente, limpava ora um ora outro canto do olho.

Amaro desceu; e para alliviar o bom Silverio d'aquelle servio
excepcional, tomou o seu logar ao p da vela, com o Breviario na mo.

Alli ficou at tarde. A visinha ao sahir veio dizer-lhe que o tio
Esguelhas tinha pegado a dormir; e ella promettia voltar com a
amortalhadeira, mal rompesse a manh.

Toda a casa ento ficou n'aquelle silencio, que a visinhana do vasto
edificio da S fazia parecer mais soturno; s s vezes um mocho piava
debilmente nos contrafortes, ou o grosso bordo batia os quartos. E
Amaro, tomado d'um indefinido terror, mas preso alli por uma fora
superior da consciencia sobresaltada, ia precipitando as oraes... s
vezes o livro cahia-lhe sobre os joelhos; e ento, immovel, sentindo por
detraz a presena d'aquelle cadaver coberto do lenol, recordava, n'um
contraste amargo, outras horas em que o sol banhava o pateo, as
andorinhas esvoaavam, e elle e Amelia subiam rindo para aquelle quarto
onde agora, sobre a mesma cama, o tio Esguelhas dormitava com soluos
mal acalmados...




XXII


O conego Dias recommendra muito a Amaro que ao menos nas primeiras
semanas, para evitar as suspeitas da mana e da criada, no fosse 
Ricoa. E a vida d'Amaro tornou-se ento mais triste, mais vazia que
outr'ora, quando pela primeira vez deixando a casa da S. Joanneira viera
para a rua das Sousas. Todos os seus conhecidos estavam fra de Leiria:
D. Maria da Assumpo na Vieira; as Gansosinhos ao p d'Alcobaa com a
tia, a famosa tia que havia dez annos estava para morrer e para lhes
deixar uma grande herdade. Depois do servio da S, as horas, todo o
longo dia, arrastavam-se pesadas como chumbo. No estaria mais separado
de toda a communicao humana, se como Santo Antonio vivesse nos areaes
do deserto libyco. S o coadjutor que, coisa singular, nunca lhe
apparecia nos tempos felizes, voltra agora, como o companheiro fatidico
das horas tristes, a visital-o uma, duas vezes por semana, ao fim do
jantar, mais magro, mais chupado, mais soturno, com o seu eterno
guardachuva na mo. Amaro odiava-o; s vezes, para o impr, fingia-se
todo occpado n'uma leitura; ou precipitando-se para a mesa, mal lhe
sentia nos degraus as passadas lentas:

--Amigo coadjutor, desculpe, que estou aqui a rabiscar uma coisa.

Mas o homem installava-se, com o odioso guardachuva entre os joelhos:

--No se prenda, senhor parocho, no se prenda.

E Amaro, torturado por aquella figura lugubre que no se mexia na
cadeira, atirava a penna, furioso, agarrava o chapo:

--No estou hoje p'r' coisa, vou espairecer.

E  primeira esquina descartava-se bruscamente do coadjutor.

s vezes, farto de solido, ia visitar o Silverio. Mas a felicidade
pachorrenta d'aquelle sr obeso, occupado em colleccionar receitas de
medicina caseira e em observar as perturbaes phantasticas da sua
digesto; os seus constantes louvores do doutor Godinho, dos pequenos e
da senhora; as chalaas obsoletas que elle repetia havia quarenta annos
e a innocente hilaridade que ellas lhe davam, impacientavam Amaro.
Sahia, enervado, pensando na sorte inimiga era a felicidade por fim:
porque no havia de elle ser tambem um bom padre caturra, com uma
pequenina mania tyrannica, parasita regalado d'uma familia respeitavel,
tendo um d'estes sangues tranquillos que giram sob camadas de gordura,
sem perigo de transbordar e de causar desgraas, como um riacho que
corre por debaixo d'uma montanha?...

Outras vezes ia ao collega Natario, cuja fractura, mal tratada ao
principio, o retinha ainda na cama com o apparelho na perna. Mas ahi,
enjoava-o o aspecto do quarto--impregnado d'um cheiro d'arnica e de
suor, com uma profuso de trapos ensopados em malgas vidradas, e
esquadres de garrafas sobre a commoda entre fileiras de santos.
Natario, mal o via apparecer, rompia em queixas: As cavalgaduras dos
medicos! A sua m sorte habitual! As torturas a que o foravam! O atrazo
em que estava a medicina n'este maldito paiz!... E ia salpicando o
soalho negro de expectoraes e de pontas de cigarro. Desde que estava
doente, a saude dos outros, sobretudo dos amigos, indignava-o como uma
offensa pessoal.

--E voss sempre rijo, hein? Pudera!--murmurava com rancor.

E pensar que aquella besta do Brito nunca lhe doera a cabea! E que o
alarve do abbade se gabava de nunca ter estado na cama depois das sete
da manh! Animaes!

Amaro ento dava-lhe as novidades: alguma carta que recebera do conego,
da Vieira, as melhoras da D. Josepha...

Mas Natario no se interessava pelas pessoas a quem apenas o unia a
convivencia e a amizade; interessavam-n'o s os seus inimigos, com quem
tinha ligaes d'odio. Queria saber do escrevente, se j tinha estourado
de fome...

--Esse ao menos pude-lhe ser bom antes de cahir aqui n'esta maldita
cama!...

As sobrinhas appareciam ento--duas creaturinhas sardentas, d'olhos
muito pisados. O seu grande desgosto era que o titi no mandasse vir a
_benzedeira_ pr-lhe _virtude_ na perna: era o que tinha curado o
morgadinho da Barrosa, e o Pimentel d'Ourem...

Natario, na presena das _duas rosas do seu canteiro_, calmava-se.

--Coitaditas, no  por falta de cuidados d'ellas que eu ainda no
arribei... Mas tenho soffrido, caramba!

E as duas rosas, com o mesmo movimento simultaneo, voltavam-se para o
lado limpando os olhos aos lenos.

Amaro sahia d'alli, mais enfastiado.

Para se fatigar tentava dar grandes passeios pela estrada de Lisboa. Mas
apenas se afastava do movimento da cidade, a sua tristeza tornava-se
mais intensa, concordando com aquella paizagem de collinas tristes e
arvores enfezadas: e a sua vida apparecia-lhe como essa mesma estrada
monotona e longa, sem um incidente que a alegrasse, estirando-se
desoladamente at se perder nas brumas do crepusculo. s vezes, ao
voltar, entrava no cemiterio, ia passeando entre os renques de
cyprestes, sentindo quella hora do fim da tarde a emanao adocicada
das moitas de goivos; lia os epitaphios; encostava-se  grade dourada do
jazigo da familia Gouva, contemplando os emblemas em relevo, um chapo
armado e um espadim, seguindo as negras letras da famosa ode que lhe
adorna a lapida:


Caminhante, detem-te a contemplar
      Estes restos mortaes;
E, se sentires a mgoa a transbordar,
      Detem teus ais.
Que Julio Cabral da Silva Maldonado
      Mendona de Gouva,
Moo fidalgo, bacharel formado,
      Filho da illustre Ca,
Ex-administrador d'este concelho,
      Commendador de Christo,
Foi de virtudes singular espelho,
      Caminhante, cr n'isto.


Depois era o rico mausolo do Moraes, onde sua esposa, que agora, rica e
quarentona, vivia em concubinagem com o bello capito Trigueiros, fizera
gravar uma piedosa quadra:


Entre os anjos espera,  esposo,
A metade do teu corao
Que no mundo ficou, to szinha,
Toda entregue ao dever da orao!...


Algumas vezes, ao fundo do cemiterio, junto ao muro, via um homem
ajoelhado ao p d'uma cruz negra, que um choro assombreava, ao lado da
valla dos pobres. Era o tio Esguelhas, com a sua moleta no cho, rezando
sobre a sepultura da Tt. Ia fallar-lhe, e mesmo, n'uma igualdade que
aquelle logar justificava, passeavam familiarmente, hombro a hombro,
conversando. Amaro, com bondade, consolava o velho: de que servia 
desgraada rapariga a vida para a passar estirada n'uma cama?

--Sempre era viver, senhor parocho... E eu, veja agora isto, ssinho de
dia e de noite!

--Todos tm as suas solides, tio Esguelhas, dizia melancolicamente
Amaro.

O sineiro ento suspirava, perguntava pela snr.^a D. Josepha, pela
menina Amelia...

--L est na quinta.

--Coitadita, no est m estopada...

--Cruzes da vida, tio Esguelhas.

E continuavam calados por entre as ruas de buxo que fecham os canteiros
cheios do negrejamento das cruzes e da brancura das lapidas novas.
Amaro, s vezes, reconhecia alguma sepultura que elle mesmo tinha
aspergido e consagrado: onde estariam aquellas almas que elle
recommendra a Deus em latim, distrahido, engorolando  pressa as
oraes para ir ter com Amelia? Eram jazigos de gente da cidade; elle
conhecia de vista as pessoas da familia; vira-as ento lavadas em
lagrimas, e agora passeavam em rancho pela Alameda ou chalaceavam ao
balco das lojas...

Voltava para casa mais triste,--e a sua longa noite comeava,
infindavel. Tentava lr; mas ao fim das dez primeiras linhas bocejava de
tedio e de fadiga. s vezes escrevia ao conego. s nove horas tomava
ch; e depois era um passear sem fim pelo quarto, fumando maos de
cigarros, parando  janella a olhar a negrura da noite, lendo aqui e
alm uma noticia ou um annuncio do _Popular_ e recomeando a passear com
bocejos to cavos que a criada os ouvia na cozinha.

Para entreter estas noites melancolicas, e por um excesso de
sensibilidade ociosa, tentra fazer versos, pondo o seu amor e a
historia dos dias felizes nas formulas conhecidas da saudade lyrica:


Lembras-te d'esse tempo da delicias,
 anjo feiticeiro, Amelia amada,
Quando tudo eram risos e ventura
E a vida nos corria socegada?

Lembras-te d'essa noite de poesia
Em que a lua brilhava pelos cos,
E ns unindo as almas,  Amelia,
Erguemos nossa prece para Deus?...


Mas a despeito de todos os esforos nunca passra d'estas duas
quadras--apesar de as ter produzido com uma facilidade
promettedora--como se o seu sr contivesse apenas estas duas gottas
isoladas de poesia, e, soltas ellas  primeira presso, nada mais
restasse seno a scca prosa do temperamento carnal.

E esta existencia varia relaxra-lhe to subtilmente todo o machinismo
da vontade e da aco, que qualquer trabalho que lhe pudesse encher a
fastidiosa concavidade das horas infindaveis era-lhe odioso como o peso
d'um fardo injusto. Preferia ainda os tedios da ociosidade aos tedios da
occupao. A no serem os deveres estrictos que elle no podia desleixar
sem escandalo e sem censura--desembarara-se, pouco a pouco, de todas
as praticas do zelo interior: nem a orao mental, nem as visitas
regulares ao Santissimo, nem as meditaes espirituaes, nem o rosario 
Virgem, nem a leitura  noite do Breviario, nem o exame de
consciencia--todas estas obras da devoo, estes meios secretos de
santificao progressiva substituia-os pelos infindaveis passeios pelo
quarto, do lavatorio  janella, e por maos de cigarros fumados at ao
negro dos dedos. A missa, pela manh, era rapidamente engorolada; o
servio da parochia feito com surdas revoltas de impaciencia; tornra-se
consummadamente o _Indignus sacerdos_ dos ritualistas; e tinha na sua
ampla totalidade os trinta e cinco defeitos e os sete meios defeitos que
os theologos attribuem ao _mau padre_.

S lhe restava atravs da sua sentimentalidade um appetite tremendo. E
como a cozinheira era excellente, e a snr.^a D. Maria da Assumpo,
antes da sua partida para a Vieira, lhe deixra um fornecimento de cento
e cincoenta missas a cruzado--banqueteava-se, tratando-se a gallinha e a
geleia, regando-se d'um vinho picante da Bairrada que o padre-mestre lhe
escolhera. E alli ficava  mesa, horas esquecidas, de perna esticada,
fumando sobre o caf, e lamentando no ter  mo a sua Ameliasita...

--Que far ella por l, a pobre Ameliasita! pensava, espreguiando-se
com tedio e com langor.


A pobre Ameliasita, na Ricoa, amaldioava a sua vida.

Logo durante a jornada no _char--banc_ D. Josepha lhe fizera
tacitamente sentir que d'ella no tinha a esperar nem a antiga amizade,
nem o perdo do escandalo... E assim foi, quando se installaram. A velha
tornou-se intratavel: era todo um modo cruel de abandonar o _tu_, de a
tratar por _menina_; uma recusa rispida se Amelia lhe queria arranjar a
almofada ou aconchegal-a no chale; um silencio reprehensivo quando ella
lhe passava o sero no quarto, costurando; e a todo o momento alluses
suspiradas ao triste encargo que Deus lhe mandava no fim dos seus
dias...

Amelia, comsigo, accusava o parocho: elle promettera-lhe que a madrinha
seria toda caridade, toda cumplicidade; entregava-a por fim a uma
semelhante ferocidade de velha virgem devota!...

Quando se viu n'aquelle casaro da Ricoa, n'um quarto regelado, pintado
a cr de canario, lugubremente mobilado com uma cama de docel e duas
cadeiras de couro, chorou toda a noite com a cabea, enterrada no
travessseiro--torturada por um co que debaixo das janellas, estranhando
sem duvida as luzes e o movimento na casa, uivou at de madrugada.

Ao outro dia desceu  quinta a vr os caseiros. Era talvez boa gente com
quem podia distrahir-se. Encontrou uma mulher, alta e lugubre como um
cypreste, carregada de luto: um grande leno negro tingido, muito puxado
para a testa, dava-lhe um ar de farricoco; e a sua voz gemebunda tinha
uma tristeza de dobre a finados. O homem pareceu-lhe ainda peor,
semelhante a um ourango-tango, com duas orelhas enormes muito despegadas
do craneo, uma saliencia bestial de queixo, as gengivas deslavadas, um
corpo desengonado de tisico, de peito mettido para dentro. Abalou bem
depressa, foi vr o pomar: andava maltratado; as ruasitas estavam
invadidas por um hervaal humido; e a sombra das arvores muito juntas,
n'um terreno baixo, cercado d'altos muros, dava uma sensao doentia.

Era ainda preferivel passar os seus dias mettida no casaro; dias
infindaveis em que as horas se iam movendo com o vagar fastidioso d'um
desfilar funerario.

O seu quarto era na frente; e pelas duas janellas recebia a impresso
triste da paizagem que se estendia defronte, uma ondulao monotona de
terras estereis com alguma magra arvore aqui e alm, um ar abafado em
que parecia errar constantemente a exhalao de paues proximos e de
baixas humidas, e a que nem o sol de setembro dissipava o tom
sezonatico.

Logo pela manh ia ajudar a levantar D. Josepha, accommodal-a no canap;
depois vinha costurar para ao p d'ella--como outr'ora na rua da
Misericordia para ao p da mi; mas agora em logar das boas
cavaqueiras tinha s o silencio intratavel da velha e a sua ronqueira
incessante. Pensra em fazer vir o seu piano da cidade; mas, apenas em
tal fallou, a velha exclamou com azedume:

--A menina est doida... No tenho saude para tocatas! Ora o
desproposito!

A Gertrudes tambem no lhe fazia companhia; nas horas em que no estava
ao p da velha, ou na cozinha, desapparecia; era justamente d'aquella
freguezia, e passava o seu tempo pelos casaes, palrando com as antigas
visinhas.

A peor hora era ao anoitecer. Depois de rezar o seu rozario, ficava
junto  janella olhando estupidamente as gradaes da luz poente; todos
os campos pouco a pouco se perdiam no mesmo tom pardo; um silencio
parecia descer, pousar sobre a terra; depois uma primeira estrellinha
tremeluzia e brilhava; e diante d'ella era ento s uma massa inerte de
sombra muda at ao horisonte, aonde ainda ficava um momento uma delgada
tira cr de laranja desbotada. O seu pensamento, sem nenhum tom de luz
ou contorno de objecto em redor que o prendesse, ia muito saudoso para
longe, para a Vieira; quella hora a mi e as amigas recolhiam do
passeio na praia; j todas as redes estavam apanhadas; j pelos
palheiros comeam a apparecer as luzes;  a hora do ch, dos quinos
alegres, quando os rapazes da cidade vo em rancho pelas casas amigas,
com uma viola e uma flauta, improvisando _soires_. E ella alli, s!...

Era ento necessario deitar a velha, rezar com ella e com a Gertrudes o
tero. Accendiam depois o candieiro de lato, pondo-lhe diante uma velha
chapeleira para dar sombra ao rosto da doente; e todo o sero, no
silencio lugubre, apenas se ouvia o rumor do fuso da Gertrudes que fiava
agachada a um canto.

Antes de se deitarem, iam trancar todas as portas, n'um medo constante
de ladres; e ento comeava para Amelia a hora dos terrores
supersticiosos. No podia adormecer, sentido ao p a negrura d'aquellas
antigas salas deshabitadas e em redor o tenebroso silencio dos campos.
Ouvia ruidos inexplicaveis: era o soalho do corredor que estalava, sob
passadas mulplicadas; era a luz da vela que de repente se dobrava como
sob um halito invisivel; ou a distancia, para os lados da cozinha, o
baque surdo d'um corpo. Accumulava ento as oraes, encolhida debaixo
da roupa; mas, se adormecia, as vises do pesadlo continuavam-lhe os
terrores da vigilia. Uma vez acordra de repente, a uma voz que dizia,
gemendo, por traz da alta barra da cama:--_Amelia, prepara-te, o teu fim
chegou!_ Espavorida, em camisa, atravessou correndo a casa, foi
refugiar-se na cama da Gertrudes.

Mas na noite seguinte a voz sepulchral voltou quando ella ia adormecer:
_Amelia, lembra-te dos teus peccados! Prepara-te, Amelia!_ Deu um grito,
desmaiou. Felizmente a Gertrudes, que ainda se no deitra, correu
quelle ai agudo que cortra o silencio do casaro. Achou-a estirada ao
travs do leito, com os cabellos soltos da rede rojando no cho, as mos
geladas e como mortas. Desceu a acordar a mulher do caseiro, e at de
madrugada foi uma azafama para a chamar  vida. Desde esse dia a
Gertrudes dormia ao p d'ella--e a voz no tornou a ameaal-a por traz
da barra.

Mas, de noite e de dia, no a deixou mais a ida da morte e o pavor do
inferno. Por esse tempo, um vendedor ambulante d'estampas passou pela
Ricoa; e a snr.^a D. Josepha comprou-lhe duas lithographias--a _Morte
do Justo_ e a _Morte do Peccador_.

--Que  bom que cada um tenha o exemplo vivo diante dos olhos, disse
ella.

Amelia no duvidou ao principio que a velha, que contava morrer no mesmo
apparato de gloria com que expirava o _Justo_ da estampa, lhe quizera
mostrar a ella, a _peccadora_, a scena pavorosa que a esperava. Odiou-a
por aquella picardia. Mas a sua imaginao aterrada no tardou a dar 
compra da estampa outra explicao: era Nossa Senhora que alli mandra o
vendedor de pinturas, para lhe mostrar ao vivo na lithographia da _Morte
do Peccador_ o espectaculo da sua agonia: e estava ento certa que tudo
seria assim, trao por trao--o seu anjo da guarda fugindo aos soluos;
Deus-Padre desviando o rosto d'ella com repugnancia; o esqueleto da
morte rindo s gargalhadas; e demonios de cres rutilantes, com todo um
arsenal de torturas, apoderando-se d'ella, uns pelas pernas, outros
pelos cabellos, arrastando-a com uivos de jubilo para a caverna
chammejante toda abalada da tormenta de rugidos que solta a Eterna
Dr... E ella podia vr ainda, no fundo dos cos, a grande balana--com
um dos pratos muito alto onde as suas oraes no pesavam mais que uma
penna de canario, e o outro prato cahido, de cordas retesadas,
sustentando a enxerga da cama do sineiro e as suas toneladas de peccado.

Cahiu ento n'uma melancolia hysterica que a envelhecia; passava os dias
suja e desarranjada, no querendo dar cuidado ao seu corpo peccador;
todo o movimento, todo o esforo lhe repugnava; as mesmas oraes lhe
custavam, como se as julgasse inuteis; e tinha atirado para o fundo
d'uma arca o enxoval que andava a costurar para o filho--porque o
odiava, aquelle sr que ella sentia mexer-se-lhe j nas entranhas e que
era a causa da sua perdio. Odiava-o--mas menos que o outro, o parocho
que lh'o fizera, o padre malvado que a tentra, a estragra, a atirra
s chammas do inferno! Que desespero quando pensava n'elle! Estava em
Leiria socegado, comendo bem, confessando outras, namorando-as talvez--e
ella alli ssinha, com o ventre condemnado e enfartado do peccado que
elle l depuzera, ia-se afundindo na perdio sempiterna!

Decerto esta excitao a teria matado--se no fosse o abbade Ferro que
comera ento a vir vr muito regularmente a irm do amigo conego.

Amelia ouvira fallar muitas vezes n'elle na rua da Misericordia;
dizia-se l que o Ferro tinha idas exquisitas: mas no era possivel
recusar-lhe nem a virtude da vida nem a sciencia de sacerdote. Havia
muitos annos que era alli abbade; os bispos tinham-se succedido na
diocese, e elle alli ficra esquecido n'aquella freguezia pobre, de
congrua atrazada, n'uma residencia onde chovia pelos telhados. O ultimo
vigario geral, que nunca dera um passo para o favorecer, dizia-lhe
todavia, liberal de palavriado:

--Voss  um dos bons theologos do reino. Voss est predestinado por
Deus para um bispado. Voss ainda apanha a mitra. Voss ha de ficar na
historia da Igreja portugueza como um grande bispo Ferro!

--Bispo, senhor vigario geral! Isso era bom! Mas era necessario que eu
tivesse o arrojo d'um Affonso d'Albuquerque ou d'um D. Joo de Castro,
para aceitar aos olhos de Deus semelhante responsabilidade!

E alli ficra, entre gente pobre, n'uma aldeia de terra escassa, vivendo
de dois pedaos de po e uma chavena de leite, com uma batina limpa onde
os remendos faziam um mappa, precipitando-se a uma meia legua por um
temporal desfeito se um parochiano tinha uma dr de dentes, passando uma
hora a consolar uma velha a quem tinha morrido uma cabra... E sempre de
bom humor, sempre com um cruzado no fundo do bolso dos cales para uma
necessidade do seu visinho, grande amigo de todos os rapazitos a quem
fazia botes de cortia, e no duvidando parar, se encontrava uma
rapariga bonita, o que era raro na freguezia, e exclamar: Linda moa,
Deus a abene!

E todavia, em novo, a pureza dos seus costumes era to celebre, que lhe
chamavam a donzella.

De resto, padre perfeito no zelo da Igreja; passando horas d'estao aos
ps do Santissimo Sacramento; cumprindo com uma felicidade fervente as
menores praticas da vida devota; purificando-se para os trabalhos do dia
com uma profunda orao mental, uma meditao de f, d'onde a sua alma
sahia mais agil, como d'um banho fortificante; preparando-se para o
somno com um d'estes longos e piedosos exames de consciencia, to uteis,
que Santo Agostinho e S. Bernardo faziam do mesmo modo que Plutarcho e
Seneca, e que so a correco laboriosa e subtil dos pequenos defeitos,
o aperfeioamento meticuloso da virtude activa, emprehendido com um
fervor de poeta que rev um poema querido... E todo o tempo que tinha
vago, abysmava-se n'um cahos de livros.

Tinha s um defeito o abbade Ferro: gostava de caar! Cohibia-se,
porque a caa tira muito tempo, e  sanguinario matar uma pobre ave que
anda azafamada pelos campos nos seus negocios domesticos. Mas nas claras
manhs d'inverno, quando ainda ha orvalho nas giestas, se via passar um
homem d'espingarda ao hombro, o passo vivo, seguido do seu
perdigueiro--iam-se-lhe os olhos n'elle... s vezes porm, a tentao
vencia: agarrava furtivamente a espingarda, assobiava  _Janota_, e com
as abas do casaco ao vento, l ia o theologo illustre, o espelho de
piedade, atravs de campos e valles... E d'ahi a pouco--pum... pum! Uma
codorniz, uma perdiz em terra! E l voltava o santo homem com a
espingarda debaixo do brao, os dois passaros na algibeira, cosendo-se
com os muros, rezando o seu rosario  Virgem, e respondendo aos _bons
dias_ da gente pelo caminho com os olhos baixos e o ar muito criminoso.

O abbade Ferro, apesar do seu aspecto gbo e do seu grande nariz,
agradou a Amelia, logo desde a primeira visita  Ricoa; e a sua
sympathia cresceu, quando viu que D. Josepha o recebia com pouco
alvoroo, apesar do respeito que o mano conego tinha pela sciencia do
abbade.

A velha, com effeito depois de ter estado s com elle n'uma pratica
d'horas, condemnra-o com uma unica palavra, na sua auctoridade de velha
devota experiente:

-- relaxado!

No se tinham realmente comprehendido. O bom Ferro, tendo vivido tantos
annos n'aquella parochia de quinhentas almas, as quaes cahiam todas, de
mes a filhas, no mesmo molde de devoo simples a Nosso Senhor, Nossa
Senhora e S. Vicente, patrono da freguezia, tendo pouca experiencia de
confisso, encontrava-se subitamente diante d'uma alma complicada de
devota de cidade, d'um beaterio caturra e atormentado; e ao ouvir
aquella extraordinaria lista de peccados mortaes, murmurava espantado:

-- estranho,  estranho...

Percebera bem ao principio que tinha diante de si uma d'essas
degeneraes morbidas do sentimento religioso, que a theologia chama
_Doena dos escrupulos_--e de que na sua generalidade esto affectadas
hoje todas as almas catholicas; mas depois, a certas revelaes da
velha, receou estar realmente em presena d'uma maniaca perigosa; e
instinctivamente, com o singular horror que os sacerdotes tm pelos
doidos, recuou a cadeira.

Pobre D. Josepha! Logo na primeira noite em que chegra  Ricoa
(contava ella), ao comear o rosario a Nossa Senhora, lembrra-lhe de
repente que lhe esquecera o saiote de flanella escarlate, que era to
efficaz nas dres das pernas... Trinta e oito vezes de seguida
recomera o rosario, e sempre o saiote escarlate se interpunha entre
ella e Nossa Senhora!... Ento desistira, d'exhausta, d'esfalfada. E
immediatamente sentira dres vivas nas pernas, e tivera como uma voz de
dentro a dizer-lhe que era Nossa Senhora por vingana a espetar-lhe
alfinetes nas pernas...

O abbade pulou:

--Oh, minha senhora!...

--Ai, no  tudo, senhor abbade!

Havia outro peccado que a torturava: quando rezava, s vezes, sentia vir
a expectorao; e, tendo ainda o nome de Deus ou da Virgem na bca,
tinha de escarrar; ultimamente engulia o escarro, mas estivera pensando
que o nome de Deus ou da Virgem lhe descia d'embrulhada para o estomago
e se ia misturar com as fezes! Que havia de fazer?

O abbade, d'olhar esgazeado, limpava o suor da testa.

Mas isto no era o peor: o grave era, que na noite antecedente estava
toda socegada, toda em virtude, a rezar a S. Francisco Xavier--e de
repente, nem ella soube como, pe-se a pensar como seria S. Francisco
Xavier n em pllo!

O bom Ferro no se moveu, atordoado. Emfim, vendo-a a olhar anciosa
para elle,  espera das suas palavras e dos seus conselhos, disse:

--E ha muito que sente esses terrores, essas duvidas...?

--Sempre, senhor abbade, sempre!

--E tem convivido com pessoas que, como a senhora, so sujeitas a essas
inquietaes?

--Todas as pessoas que conheo, duzias d'amigas, todo o mundo... O
Inimigo no me escolheu s a mim... A todos se atira...

--E que remedio dava a essas anciedades d'alma...?

--Ai, senhor abbade, aquelles santos da cidade, o senhor parocho, o snr.
Silverio, o snr. Guedes, todos, todos nos tiravam sempre d'embaraos...
E com uma habilidade, com uma virtude...

O abbade Ferro ficou calado um momento: sentia-se triste, pensando que
por todo o reino tantos centenares de sacerdotes trazem assim
voluntariamente o rebanho n'aquellas trevas d'alma, mantendo o mundo dos
fieis n'um terror abjecto do co, representando Deus e os seus santos
como uma crte que no  menos corrompida nem melhor que a de Caligula e
dos seus libertos.

Quiz ento levar quelle nocturno cerebro de devota, povoado de
phantasmagorias, uma luz mais alta e mais larga. Disse-lhe que todas as
suas inquietaes vinham da imaginao torturada pelo terror d'offender
a Deus... Que o Senhor no era um amo feroz e furioso, mas um pai
indulgente e amigo... Que  por amor que  necessario servil-o, no por
medo... Que todos esses escrupulos, Nossa Senhora a enterrar alfinetes,
o nome de Deus a cahir no estomago, eram perturbaes da razo doente.
Aconselhou-lhe confiana em Deus, bom regimen para ganhar foras. Que
no se cansasse em oraes exageradas...

--E quando eu voltar, disse emfim erguendo-se e despedindo-se,
continuaremos a conversar sobre isto, e havemos de serenar essa alma.

--Obrigada, senhor abbade, respondeu a velha sccamente.

E apenas a Gertrudes d'ahi a pouco entrou a trazer-lhe a botija para os
ps, D. Josepha exclamou, toda indignada, quasi choramingando:

--Ai, no presta p'ra nada, no presta p'ra nada!... No me percebeu...
 um tapado...  um pedreiro-livre, Gertrudes! Que vergonha n'um
sacerdote do Senhor...

Desde esse dia no tornou a revelar ao abbade os peccados medonhos que
continuava a commetter; e quando elle, por dever, quiz recomear a
educao da sua alma, a velha declarou-lhe sem rodeios que, como se
confessava com o senhor padre Gusmo, no sabia se seria delicado
receber d'outro a direco moral...

O abbade fez-se vermelho, respondeu:

--Tem razo, minha senhora, tem razo, deve-se ter muita delicadeza
n'essas coisas...

Sahiu. E d'ahi por diante, depois de ter entrado no quarto a saber-lhe
da saude, de ter fallado do tempo, da estao, das doenas que iam,
d'alguma festa na igreja,--apressava-se em se despedir e ir para o
terrao conversar com Amelia.

Vendo-a sempre to tristonha, interessra-se por ella; para Amelia, as
visitas do abbade eram uma distraco, n'aquella solido da Ricoa; e
assim se iam familiarisando, a ponto que nos dias em que elle
regularmente vinha, Amelia punha um mantelete e ia pelo caminho dos
Poyaes esperal-o at junto  casa do ferrador. As conversas do abbade,
fallador incansavel, entretinham-na, to differentes dos mexericos da
rua da Misericordia,--como o espectaculo d'um largo valle com arvores,
plantaes, aguas, pomares e rumor de lavouras, recreia os olhos
habituados s quatro paredes caiadas d'uma trapeira da cidade. Tinha com
effeito uma d'estas conversaes semelhantes aos _jornaes semanaes de
recreio_, o Thesouro das familias ou as Leituras para seres, em que de
ha tudo--doutrina moral, historias de viagens, anecdotas dos grandes
homens, dissertaes sobre a lavoura, citao d'uma boa chalaa, traos
sublimes da vida d'um santo, um verso aqui e alm, e at receitas, como
uma muito util que deu a Amelia para lavar as flanellas sem encolherem.
S era monotono quando fallava da sua familia parochiana, dos
casamentos, baptisados, doenas, questes, ou quando comeava as suas
historias de caa.

--Uma vez, minha rica senhora, ia eu pelo Corrego das Tristes, quando
uma revoada de perdizes...

Amelia sabia que, pelo menos uma hora, tudo seriam faanhas da _Janota_,
pontarias fabulosas contadas em mimica, com imitaes de vozes de
passaros, e _pum, pum_ de fusilaria. Ou ento eram descripes das
caadas selvagens que elle lra com gula--a caa ao tigre do Nepal, ao
leo d'Argelia e ao elephante, historias ferozes que arrastavam a
imaginao da rapariga para longe, para os paizes exoticos onde a herva
 alta como os pinheiros, o sol queima como um ferro em braza, e entre
cada ramagem reluzem os olhos d'uma fera... E depois, a proposito de
tigres e de malaios, lembrava-lhe uma historia curiosa de S. Francisco
Xavier, e eil-o lanado, o terrivel palrador, na descripo dos feitos
da Asia, das armadas da India e das estocadas famosas do cerco de Diu!

Foi mesmo um d'esses dias, no pomar, em que o abbade, tendo comeado por
enumerar as vantagens que o conego tiraria de transformar o pomar em
terra de lavoura, acabra por contar perigos e valores dos missionarios
da India e do Japo--que Amelia, ento em toda a intensidade dos seus
terrores nocturnos, fallou dos ruidos que ouvia na casa e dos
sobresaltos que lhe davam.

--Oh, que vergonha! disse o abbade rindo; uma senhora da sua idade ter
medo de papes...

Ella ento, attrahida por aquella bondade do senhor abbade, contou-lhe
as vozes que ouvia de noite por detraz da barra da cama.

O abbade pz-se srio:

--Minha senhora, isso so imaginaes que deve a todo o custo dominar...
Decerto tem havido prodigios no mundo, mas Deus no se pe assim a
fallar a qualquer, por detraz das barras das camas, nem permitte ao
demonio que o faa... Essas vozes, se as ouve, e se os seus peccados so
grandes, no vm de detraz da cama, vm-lhe de si mesmas, da sua
consciencia... E pde ento fazer dormir ao p de si a Gertrudes, e cem
Gertrudes, e todo o batalho de infanteria, que as ha de continuar a
ouvir... Havia de as ouvir, mesmo que fosse surda. O que  necessario 
calmar a consciencia que reclama penitencia e purificao...

Tinham subido ao terrao, fallando assim: e Amelia sentra-se fatigada
n'um dos bancos de pedra que alli havia, e ficra a olhar a quinta ao
longe, os tectos dos curraes, a longa rua de loureiros, a eira, e a
distancia os campos que se succediam planos e avivados do tom humido que
lhes dera a chuva ligeira da manh: agora a tarde estava d'uma placidez
clara, sem vento, com grandes nuvens paradas que o sol do poente tocava
de vivos cr de rosa tenro... Pensava n'aquellas palavras to sensatas
do abbade, no descanso que gozaria se cada peccado que lhe pesava na
alma como um penedo se tornasse ligeiro e se dissipasse sob a aco da
penitencia. E vinham-lhe desejos de paz, d'um repouso igual  quietao
dos campos que se estendiam diante d'ella.

Um passaro cantou, depois calou-se; e recomeou d'ahi a um momento com
um trinado to vibrante, to alegre, que Amelia sorria, escutando-o.

-- um rouxinol...

--Os rouxinoes no cantam a esta hora, disse o abbade.  um melro... Ahi
est um que no tem medo de phantasmas, nem ouve vozes... Olha que
enthusiasmo, o magano!

Era com effeito um gorgear triumphante, um delrio de melro feliz, que
dera de repente a todo o pomar uma sonoridade festiva.

E Amelia, diante d'aquelle chilrear glorioso d'um passaro contente,
subitamente, sem razo, n'um d'estes abalos nervosos que vem s mulheres
hystericas, rompeu a chorar.

--Ento, que  isso, que  isso? fez o abbade muito surprehendido.

Tomou-lhe a mo, com uma familiaridade de velho e d'amigo, calmando-a.

--Que infeliz que sou!... murmurou ella aos soluos.

Elle ento muito paternal:

--No tem razo para o ser... Sejam quaes forem as afflices, as
inquietaes, uma alma christ tem sempre a consolao  mo... No ha
peccado que Deus no perde, nem dr que no calme, lembre-se d'isso...
O que no deve  guardar em si o seu desgosto...  isso que a suffoca,
que a faz chorar... Se eu lhe posso valer, socegal-a,  procurar-me...

--Quando? disse ella toda desejosa j de se refugiar na proteco
d'aquelle santo homem.

--Quando quizer, disse elle rindo. Eu no tenho horas para consolar... A
igreja est sempre aberta, Deus est sempre presente...

Ao outro dia cedo, antes da hora em que a velha se erguia, Amelia foi 
residencia; e durante duas horas esteve prostrada diante do pequeno
confessionario de pinho--que o bom abbade por suas mos pintra d'azul
escuro, com extraordinarias cabecinhas d'anjos que em logar d'orelhas
tinham azas, uma obra d'alta arte de que elle fallava com uma secreta
vaidade.




XXIII


O padre Amaro acabra de jantar, e fumava, com os olhos no tecto, para
no vr o caro chupado do coadjutor que havia meia hora alli estava,
immovel e espectral, fazendo cada dez minutos uma pergunta que cahia no
silencio da sala como os quartos melancolicos que d de noite um relogio
de cathedral.

--O senhor parocho j no  assignante da _Nao_?

--No senhor, leio o _Popular_.

O coadjutor recahiu no silencio, comeando logo a colligir
laboriosamente as palavras para uma nova pergunta. Soltou-a emfim, com
lentido:

--No se tornou a saber d'aquelle infame que escreveu o _Communicado_?

--No senhor, foi para o Brazil.

A criada entrou, n'este momento, dizendo que estava alli uma pessoa que
queria fallar ao senhor parocho. Era a sua maneira d'annunciar a
presena de Dionysia na cozinha.

Havia semanas que ella no apparecia--e Amaro, curioso, sahiu logo da
sala fechando a porta sobre si, e chamou a matrona ao patamar.

--Grande novidade, senhor parocho! E vim a correr, que  srio. Est c
o Joo Eduardo!

--Ora essa! exclamou o parocho. E eu justamente a fallar d'elle! 
extraordinario! Olha que coincidencia...

-- verdade, vi-o hoje. Fiquei banzada... E j estou informada de tudo.
O homem est mestre dos filhos do Morgadinho.

--Que Morgadinho?

--O Morgadinho dos Poyaes... Se vive l, ou se vai pela manh e vem 
noite, isso no sei. O que sei  que voltou... E janota, fato novo... Eu
entendi que devia avisar, porque pde estar certo que elle, mais dia
menos dia, d pela Ameliasinha l na Ricoa...  no caminho p'ra casa do
Morgado... Que lhe parece?...

--Forte besta! rosnou Amaro com rancor. Quando no serve  que apparece.
Ento por fim no foi para o Brazil?

--Pelos modos, no... Que a sombra d'elle no era, era elle mesmo em
carne e osso... A sahir da loja do Fernandes por signal, e todo
peralta... Sempre  bom avisar a rapariga, senhor parocho, que se no v
ella plantar de janella...

Amaro deu-lhe as duas placas que ella esperava--e d'ahi a um quarto
d'hora, desembaraado do coadjutor, ia no caminho da Ricoa.


Batia-lhe forte o corao quando avistou o casaro amarello, pintado de
novo, o largo terrao lateral em linha com o muro do pomar, ornado
d'espao a espao no parapeito de vasos nobres de pedra. Ia emfim,
depois de to longas semanas, vr a sua Ameliasinha! E j se alvoroava
 ida das exclamaes apaixonadas com que ella lhe cahiria nos braos.

Ao rez do cho eram as cavallarias, do tempo da familia morgada que
outr'ora alli habitra, agora abandonadas s ratazanas e aos tortulhos,
recebendo a luz por estreitas janellas gradeadas que quasi desappareciam
sob camadas de teias de aranha; entrava-se por um immenso pateo escuro,
onde havia longos annos se acastellava a um canto toda uma montanha de
pipas vazias; e o lance d'escadaria nobre, que levava aos aposentos, era
 direita, flanqueado de dois leesinhos de pedra, benignos e
somnolentos.

Amaro subiu at um soto de tecto de carvalho apainelado, sem mobilia,
com a metade do soalho coberta de feijo scco.

E, embaraado, bateu as palmas.

Uma porta abriu-se. Amelia appareceu um instante, toda despenteada e em
saia branca; deu um gritinho, bateu com a porta--e o parocho sentiu-a
fugir para o interior do casaro. Ficou muito desconsolado no meio do
salo, com o seu guardasol debaixo do brao, pensando na boa
familiaridade com que entrava na rua da Misericordia--que at pareciam
as portas abrir-se de si mesmo e o papel das paredes clarear-se
d'alegria.

Ia bater as palmas outra vez, j quesilado, quando a Gertrudes
**appareceu**.

--Oh, senhor parocho! Entre, senhor parocho! Ora at que emfim! Minha
senhora,  o senhor parocho!--gritava, na alegria de vr emfim uma
visita querida, um amigo da cidade, n'aquelle desterro da Ricoa.

Levou-o logo para o quarto de D. Josepha, ao fundo da casa, um quarto
enorme, onde, n'um pequeno canap perdido a um canto, a velha passava os
dias encolhida no seu chale, com os ps embrulhados n'um cobertor.

--Oh, D. Josepha! Como est? Como est?

Ella no pde responder, tomada d'um accesso de tosse que lhe dera a
commoo da visita.

--Como v, senhor parocho, murmurou emfim muito fraca. Para aqui vou,
arrastando esta velhice. E vossa senhoria? Porque no tem apparecido?

Amaro desculpou-se vagamente com os afazeres da S. E comprehendia
agora, ao vr aquella face amarella e cavada, com uma medonha touca de
rendas negras, que tristes horas Amelia alli devia passar. Perguntou por
ella; avistra-a de longe, mas ella deitra a fugir...

-- que no estava decente para apparecer, disse a velha. Hoje foi dia
de barrela.

Amaro quiz ento saber em que se entretinham, como passavam os dias
n'aquella solido...

--Eu para aqui estou. A pequena para ahi anda.

Depois de cada palavra, parecia abater-se n'uma fadiga e a sua ronqueira
crescia.

--Ento no se tem dado bem com a mudana, minha senhora?

Ella disse que no, n'um movimento de cabea.

--Deixe fallar, senhor parocho, acudiu a Gertrudes que ficra de p, ao
lado do canap, gozando a presena do senhor parocho.--Deixe fallar... 
que a senhora exagera tambem... Levanta-se todos os dias, d o seu
passeinho at  sala, come a sua azita de frango... Temol-a aqui,
temol-a arribada...  o que diz o senhor abbade Ferro, a saude foge a
toda a brida e para voltar vem a passo...

A porta abriu-se. Amelia appareceu, muito escarlate, com o seu antigo
robe-de-chambre de merino rxo, o cabello arranjado  pressa.

--Desculpe, senhor parocho, balbuciou, mas hoje tem sido um dia de
balburdia...

Elle apertou-lhe a mo gravemente: e ficaram calados, como se estivessem
separados pela distancia d'um deserto. Ella no tirava os olhos do cho,
enrolando com a mo tremula uma ponta da manta de l que trazia solta
pelos hombros. Amaro achava-a mudada, um pouco inchada das faces, com
uma ruga de velhice aos cantos da bca. Para romper aquelle silencio
estranho, perguntou-lhe tambem se se dava bem...

--Para aqui vou indo...  um pouco triste isto.  como diz o senhor
abbade Ferro,  muito grande para a gente se sentir em familia.

--Ninguem veio para aqui para se divertir, disse a velha sem descerrar
as palpebras, com uma voz scca que perdera toda a fadiga.

Amelia baixou a cabea, fazendo-se pallida.

Amaro ento, comprehendendo n'um relance que a velha torturava Amelia,
disse com muita severidade:

-- verdade, no foi para se divertirem... Mas tambem no foi para se
entristecerem de proposito... Pr-se uma pessoa de mau humor e fazer aos
outros a vida negra,  uma falta horrivel de caridade; no ha peccado
peor aos olhos do Senhor...  indigno da graa de Deus quem tal
pratica...

A velha rompeu a choramingar, muito excitada:

--Ai, o que Deus me guardou para os ultimos annos da vida...

Gertrudes amimou-a. Ento, senhora, que at lhe fazia peor estar a
affligir-se assim... Ora o disparate! Tudo se havia de remediar com a
ajuda de Deus. Saude no havia de faltar, nem alegria...

Amelia chegra-se  janella, decerto para esconder tambem as lagrimas
que lhe saltavam dos olhos. E o parocho, consternado com a scena,
comeou a dizer que D. Josepha no estava supportando com a verdadeira
resignao d'uma christ aquelles dias de doena... Nada escandalisava
mais Nosso Senhor que vr as creaturas revoltarem-se contra as dres ou
os encargos que elle mandava... Era insultar a justia dos seus
decretos...

--Tem razo, senhor parocho, tem razo, murmurou a velha muito contrita.
Eu s vezes nem sei o que digo... So coisas da doena.

--Bem, bem, minha senhora,  resignar-se e tratar de vr tudo cr de
rosa.  o sentimento que Deus mais aprecia. Eu comprehendo que  duro,
estar para aqui enterrada...

-- o que diz o senhor abbade Ferro, acudiu Amelia voltando da janella,
a madrinha estranha... Assim arrancada aos habitos de tantos annos...

Notando ento a citao repetida das palavras do abbade Ferro, Amaro
perguntou se elle costumava vir vl-as...

--Ai, tem-nos feito muita companhia, disse Amelia. Vem quasi todos os
dias.

-- um santo! exclamou a Gertrudes.

--Decerto, decerto, murmurou Amaro descontente d'um enthusiasmo to
vivo. Pessoa de muita virtude...

--De muita virtude, suspirou a velha. Mas...--Calou-se, no ousando
decerto exprimir as suas reservas de devota.--E exclamou n'uma
supplica:--Ai, o senhor parocho  que devia vir por aqui, ajudar-me a
levar esta cruz da doena...

--Hei de vir, minha senhora, hei de vir.  bom para a distrahir, para
lhe dar as noticias... E a proposito, tive hontem carta do nosso conego.

Rebuscou na algibeira, leu alguns periodos da carta. O padre-mestre j
tinha quinze banhos. A praia estava cheia de gente. A D. Maria passra
doente com um furunculo. O tempo famoso. Todas as tardes grandes
passeatas a vr recolher as rdes. A S. Joanneira, boa, mas fallando
sempre na filha...

--Pobre mam... choramingou Amelia.

Mas a velha no se interessava com as novidades, gemendo a sua
ronqueira. Foi Amelia que perguntou pelos amigos de Leiria, pelo senhor
padre Natario, pelo senhor padre Silverio...

Ia escurecendo j: a Gertrudes fra preparar o candieiro. Amaro emfim
ergueu-se:

--Pois, minha senhora, at outro dia. Esteja certa que hei de apparecer
de vez em quando. E nada d'affligir... Agasalho, boa dieta, e a
misericordia de Deus no a ha de abandonar...

--No nos falte, senhor parocho, no nos falte!...

Amelia estendera-lhe a mo, para se despedir alli no quarto; mas Amaro
gracejando:

--Se no lhe causa incommodo, menina Amelia, sempre  bom vir mostrar-me
o caminho, que eu perco-me n'este casaro.

Sahiram ambos. E apenas no salo, a que as tres largas vidraas davam
ainda uma claridade:

--A velha faz-te a vida negra, filha, disse Amaro parando.

--Que mereo eu mais? respondeu ella baixando os olhos.

--Desavergonhada, eu lh'as cantarei!... Minha Ameliasinha, se soubesses
o que me tem custado...

E fallando, ia abraal-a pelo pescoo.

Mas ella recuou, toda perturbada.

--Que  isso? fez Amaro assombrado.

--O qu?

--Esse modo! Tu no me queres dar um beijo, Amelia? Tu ests doida?

Ella ergueu as mos para elle, n'uma supplicao anciosa, fallando toda
tremula:

--No, senhor parocho, deixe-me! Isso acabou. Bem basta o que
peccamos... Quero morrer na graa de Deus... Que nunca mais se falle em
semelhante coisa!... Foi uma desgraa... Acabou-se... Agora o que quero
 o socego de minha alma...

--Tu ests tola! Quem te metteu isso na cabea? Ouve c...

Foi para ella outra vez, com os braos abertos.

--No me toque, pelo amor de Deus,--e vivamente recuou at  porta.

Elle olhou-a um momento, n'uma clera muda.

--Bem, como queira, disse por fim. Em todo o caso, quero prevenil-a que
o Joo Eduardo voltou, que passa aqui todos os dias, e que  bom no se
pr de janella.

--Que me importa a mim o Joo Eduardo e os outros e tudo o que
passou?...

Elle acudiu, trasbordando d'um sarcasmo amargo:

--Est claro, agora o grande homem  o senhor abbade Ferro!

--Devo-lhe muito,  o que sei...

A Gertrudes n'este momento entrava com o candieiro accso. E Amaro, sem
se despedir d'Amelia, abalou, de guardachuva em riste, rilhando os
dentes de raiva.


Mas a longa caminhada at  cidade calmou-o. Aquillo na rapariga por fim
era apenas um accesso de virtude e d'escrupulos! Vira-se alli s
n'aquelle casaro, amargurada pela velha, impressionada pelos palavres
do moralista Ferro, longe d'elle, e tinha-lhe vindo aquella reaco de
devota com os seus terrores do outro-mundo e appetites de innocencia...
Chalaa! Se elle comeasse a ir  Ricoa, n'uma semana reganhava todo o
seu dominio... Ah, conhecia-a bem! Era s tocar-lhe, piscar-lhe o
olho... Estava logo rendida.

Passou porm uma noite inquieta, desejando-a mais que nunca. E ao outro
dia  uma hora marchou para a Ricoa, levando-lhe um ramo de rosas.

A velha ficou toda contente ao vl-o.  que lhe dava saude a presena do
senhor parocho! E se no fosse a distancia havia de lhe pedir a esmola
de vir todas as manhs. At depois d'aquella visitinha rezava com mais
fervor...

Amaro sorria, distrahido, com os olhos cravados na porta.

--E a menina Amelia? perguntou por fim.

--Sahiu... Isso agora todas as manhs  a passeata, disse a velha com
azedume. Vai  residencia,  tda do abbade...

--Ah! fez Amaro com um sorriso livido. Nova devoo, hein?...  pessoa
de muitos meritos, o abbade.

--Ai, no presta, no presta! exclamou D. Josepha. No me percebe. Tem
idas muito exquisitas. No d virtude...

--Homem de livros... disse Amaro.

Mas a velha erguera-se sobre o cotovlo, e baixando a voz, com o magro
caro accso em odio:

--E aqui p'ra ns, a Amelia tem-se portado muito mal! Nunca lh'o hei de
perdoar... Confessou-se ao abbade...  uma indelicadeza, sendo a
confessada do senhor parocho, no tendo recebido de vossa senhoria seno
favores...  uma ingrata,  uma traioeira!...

Amaro fizera-se pallido.

--Que me diz a senhora?

--A verdade! Que ella no o nega. At se orgulha!  uma perdida,  uma
perdida! Depois do favor que lhe estamos a fazer...

Amaro disfarou a indignao que o revolvia. Riu at. Era necessario no
exagerar... No havia ingratido. Era uma questo de f. Se a rapariga
pensava que o abbade a podia dirigir melhor, tinha razo em se abrir com
elle... O que todos queriam  que ella salvasse a sua alma... Que fosse
pela direco de fulano ou sicrano, isso no importava... E nas mos do
abbade estava bem.

E chegando vivamente a cadeira para o leito da velha:

--E ento agora, todas as manhs vai  residencia?

--Quasi todas... Que ella no ha de tardar, vai depois d'almoo, volta
sempre a esta hora... Ai, tem-me causado isto um desgosto!...

Amaro deu um passeiosinho nervoso pelo quarto, e estendendo a mo 
velha:

--Pois minha senhora, eu no me posso demorar, que vim de fugida... At
um dia cedo.

E sem escutar a velha, que lhe pedia com anciedade que ficasse para
jantar---desceu os degraus como uma pedra que rola, metteu furioso pelo
caminho da residencia, ainda com o seu ramo na mo.

Esperava encontrar Amelia na estrada; e no tardou em a avistar quasi ao
p da casa do ferreiro, agachada ao p do vallado, apanhando
sentimentalmente florinhas silvestres.

--Que fazes tu aqui? exclamou, chegando junto d'ella.

Ella ergueu-se, com um gritinho.

--Que fazes tu aqui!? repetiu.

quelle _tu_, e quella voz colerica, ella poz rapidamente um dedo na
bca, assustada. O senhor abbade estava dentro da casa com o ferreiro...

--Ouve l, disse Amaro com os olhos chammejantes, agarrando-lhe o
brao--tu confessaste-te ao abbade?...

--P'ra que quer saber? Confessei... No  vergonha nenhuma...

--Mas confessaste _tudo, tudo_? perguntou elle com os dentes cerrados de
raiva.

Ella perturbou-se, e tratando-o ainda por _tu_:

--Foste tu que me disseste muitas vezes... Que era o maior peccado
n'este mundo, esconder alguma coisa ao confessor!

--Bebeda! rugiu Amaro.

Os seus olhos devoravam-na. E, atravs da nevoa de clera que lhe enchia
o cerebro e lhe fazia latejar as veias na fronte, achava-a mais bonita,
com umas redondezas em todo o corpo que ardia por abraar, com uns
labios vermelhos avivados pelo largo ar do campo que elle queria morder
at ao sangue.

--Ouve, disse-lhe cedendo a uma invaso brutal do desejo. Ouve...
Acabou-se, no me importa. Confessa-te ao diabo se te agrada... Mas has
de ser a mesma para mim!

--No, no! disse ella com fora, desprendendo-se, prompta a fugir para
casa do ferreiro.

--Tu m'as pagars, maldita!--rosnou o padre por entre dentes, voltando
as costas, descendo o caminho com passadas de desesperado.

E no abrandou o passo at  cidade, levado de um impulso d'indignao
que, sob aquella dce paz d'um meio d'outono, lhe suggeria planos de
vinganas ferozes. Chegou a casa esfalfado, ainda com o ramo na mo. Mas
ahi, na solido do quarto, veio-lhe pouco a pouco o sentimento da sua
impotencia. Que lhe podia fazer por fim? Ir pela cidade dizer que ella
estava gravida? Seria denunciar-se a si. Espalhar que estava amigada com
o abbade Ferro? Era absurdo: um velho de quasi setenta annos, d'uma
fealdade de caricatura, com todo um passado de virtude santa... Mas
perdel-a, no tornar a ter nos braos aquelle corpo de neve, no ouvir
mais aquellas ternuras balbuciadas que lhe arrebatavam a alma para
alguma coisa de melhor que o co... Isso no!

E era possivel que ella, em seis ou sete semanas, tivesse assim
esquecido tudo? N'aquellas longas noites na Ricoa, s na cama, no lhe
viria uma recordao das manhs no quarto do tio Esguelhas?... Decerto:
elle sabia-o da experiencia de tantas confessadas que lhe tinham
revelado afflictas a tentao muda e teimosa que no deixa a carne que
uma vez peccou...

No: devia perseguil-a, e por todos os modos soprar-lhe aquelle desejo
que agora ardia n'elle mais alto e mais ruidoso.

Passou a noite a escrever-lhe uma carta de seis paginas, absurda, cheia
d'imploraes apaixonadas, de argucias mysticas, de pontos d'exclamao
e de ameaas de suicidio...

Mandou-a ao outro dia cedo, pela Dionysia. A resposta veio s  noite,
por um rapazito da quinta. Com que sofreguido rasgou o sobrescripto!
Eram apenas estas palavras: Peo-lhe que me deixe em paz com os meus
peccados.

No desistiu: ao outro dia l estava na Ricoa a visitar a velha. Amelia
achava-se no quarto de D. Josepha, quando elle appareceu. Fez-se muito
pallida; mas os seus olhos no deixaram a costura--durante a meia hora
que elle alli ficou, ora n'um silencio sombrio acabrunhado para o fundo
da poltrona, ora respondendo distrahidamente  tagarellice da velha,
muito falladora essa manh.

E na semana seguinte foi o mesmo: se o ouvia entrar fechava-se
rapidamente no quarto: s vinha, se a velha mandava a Gertrudes
dizer-lhe que estava alli o senhor o parocho que a queria vr. Ia
ento, estendia-lhe a mo, que elle achava sempre a escaldar--e tomando
a sua eterna costura, junto da janella, ia picando o posponto com uma
taciturnidade que desesperava o padre.

Tinha-lhe escripto outra carta. Ella no respondera.

Ento jurava no voltar  Ricoa, desprezal-a,--mas depois de ter
passado a noite, rolando-se pela cama sem poder dormir, com a mesma
viso da nudez d'ella cravada intoleravelmente no cerebro, l partia de
manh para a Ricoa, crando quando o apontador das obras na estrada,
que o via passar todos os dias, lhe tirava o seu bon d'oleado.

N'uma tarde que choviscava, ao entrar no casaro, dera com o abbade
Ferro que  porta abria o seu guardachuva.

--Ol, por aqui, senhor abbade! disse elle.

O abbade respondeu naturalmente:

--Em vossa senhoria  que no ha que estranhar, que vem por aqui todos
os dias...

Amaro no se conteve; e tremendo de clera:

--E que lhe importa ao senhor abbade se eu venho ou no? A casa  sua?

Aquella brutalidade to injustificavel offendeu o abbade:

--Pois era melhor para todos que no viesse...

--E porque, senhor abbade? e porque?--gritou Amaro, perdido.

Ento o bom homem estremeceu. Commettera, alli, a culpa mais grave do
sacerdote catholico: o que sabia d'Amaro, dos seus amores, era em
segredo de confisso; e era trahir o mysterio do sacramento, mostrar que
desapprovava aquella insistencia no peccado. Tirou muito baixo o seu
chapo e disse humildemente:

--Tem vossa senhoria razo. Peo perdo do que disse, sem reflectir.
Muito boas tardes, senhor parocho.

--Muito boas tardes, senhor abbade.

Amaro no entrou na Ricoa. Voltou para a cidade sob a chuva que batia
forte agora. E, apenas em casa, escreveu uma longa carta a Amelia, em
que lhe contava a scena com o abbade, acabrunhando-o
d'accusaes--sobretudo de lhe trahir indirectamente o segredo da
confisso. Como das outras, d'esta carta no veio resposta da Ricoa.

Ento Amaro comeou a acreditar que tanta resistencia no podia vir s
do arrependimento e do terror do inferno... Alli ha homem, pensou. E
devorado d'um ciume negro principiou a rondar de noite a Ricoa; mas no
viu nada; o casaro permanecia adormecido e apagado. Uma occasio,
porm, ao aproximar-se do muro do pomar, sentiu adiante no caminho que
desce dos Poyaes uma voz cantarolar sentimentalmente a valsa dos _Dois
mundos_, e um ponto brilhante de charuto accso adiantar-se na
escurido. Assustado, refugiou-se n'um casebre que desmantelava em
ruinas do outro lado da estrada. A voz calou-se; e Amaro, espreitando,
viu ento um vulto que parecia embrulhado n'um chalemanta claro, parado,
contemplando as janellas da Ricoa. Um furor de ciume apossou-se d'elle,
e ia saltar e atacar o homem--quando o viu seguir tranquillamente ao
comprido da estrada, de charuto alto, trauteando:


Ouves ao longe retumbar na serra
O som do bronze que nos causa horror...


Pela voz, pelo chale-manta, pelo andar tinha reconhecido Joo Eduardo.
Mas teve a certeza que se um homem fallava de noite a Amelia ou entrava
na quinta--no era decerto o escrevente. Todavia, receoso de ser
descoberto, no tornou a rondar o casaro.


Era com effeito Joo Eduardo, que sempre que passava pela Ricoa, de dia
ou de noite, parava um momento a olhar melancolicamente as paredes que
_ella_ habitava. Porque apesar de tantas desilluses, Amelia permanecera
para o pobre rapaz a _ella_, a bem amada, a coisa mais preciosa da
terra. Nem em Ourem, nem em Alcobaa, nem pelas estalagens onde errra,
nem em Lisboa onde chegra como vem  praia uma quilha de barco
naufragado, deixra um momento de a ter presente na alma e de se
enternecer com as saudades d'ella. Durante esses dias to amargos de
Lisboa, os peores da sua vida, em que fra fiel de feitos d'um cartorio
obscuro, perdido n'aquella cidade que lhe parecia ter a vastido d'uma
Roma ou d'uma Babylonia e em que sentia o duro egoismo das multides
azafamadas, esforava-se mesmo por desenvolver mais esse amor que lhe
dava como a doura d'uma companhia. Achava-se menos isolado, tendo
sempre no espirito aquella imagem com quem travava dialogos imaginados,
nos seus infindaveis passeios ao longo do Caes do Sodr, accusando-a das
tristezas que o envelheciam.

E esta paixo, sendo para elle como a indefinida justificao das suas
miserias, tornava-o aos seus proprios olhos interessante. Era um martyr
de amor; isto consolava-o, como o consolra nas suas primeiras
desesperaes considerar-se uma victima das perseguies religiosas.
No era um pobre diabo banal a quem o acaso, a preguia, a falta
d'amigos, a sorte e os remendos do casaco mantm fatalmente nas
privaes da dependencia: era um homem de grande corao, a quem uma
catastrophe em parte amorosa e em parte politica, um drama domestico e
social, forra assim, depois de luctas heroicas, a viajar d'um a outro
cartorio com um sacco de lustrina cheio d'autos. O destino tornra-o
igual a tantos heroes que lera nas novellas sentimentaes... E o seu
paletot coado, os seus jantares a quatro vintens, os dias em que no
tinha dinheiro para tabaco, tudo attribuia ao amor fatal d'Amelia e 
perseguio d'uma classe poderosa, dando assim, por um instincto muito
humano, uma origem grandiosa s suas miserias triviaes... Quando via
passar os que elle chamava os _felizes_--individuos batendo tipoia,
rapazes que encontrava com uma linda mulher pelo brao, gente bem
atabafada que se dirigia aos theatros, sentia-se menos desgraado
pensando que tambem elle possuia um grande luxo interior que era aquelle
amor infeliz. E quando emfim por um acaso obteve a certeza d'um emprego
no Brazil, o dinheiro da passagem, idealisava a sua aventura banal
d'emigrante, repetindo-se durante todo o dia que ia passar os mares,
exilado do seu paiz por uma tyrannia combinada de padres e auctoridades
e por ter amado uma mulher!

Quem lhe diria ento, ao emmalar o seu fato no bah de lata, que d'ahi a
semanas estaria outra vez a meia legua d'esses padres e d'essas
auctoridades, contemplando d'olho terno a janella d'Amelia! Fra aquelle
singular Morgadinho de Poyaes,--que no era nem Morgadinho nem de
Poyaes, e apenas um ricao excentrico de ao p d'Alcobaa que comprra
aquella velha propriedade dos fidalgos de Poyaes, e que com a posse da
terra recebia do povo da freguezia a honra do titulo: fra esse santo
cavalheiro que o livrra dos enjos no paquete e dos acasos da
emigrao. Encontrra-o casualmente no cartorio onde elle ainda
trabalhava nas vesperas da viagem. O Morgadinho, cliente do velho Nunes,
conhecia-lhe a historia, a faanha do _Communicado_, o escandalo no
largo da S; e j de ha muito concebera por elle uma sympathia ardente.

O Morgadinho tinha com effeito por padres um odio maniaco, a ponto de
no lr no jornal a noticia d'um crime, sem decidir (ainda mesmo quando
o culpado estava j sentenciado) que no fundo devia d'haver na historia
um sotaina. Dizia-se que este rancor provinha dos desgostos que lhe
dera sua primeira mulher, devota celebre d'Alcobaa. Apenas viu Joo
Eduardo em Lisboa e soube da viagem proxima, teve immediatamente a ida
de o trazer para Leiria, installal-o nos Poyaes, e entregar-lhe a
educao das primeiras letras dos seus dois pequenos como um insulto
estridente feito a todo o clero diocesano. Imaginava de resto Joo
Eduardo um impio; e isto convinha ao seu plano philosophico d'educar os
rapazitos n'um atheismo desbragado. Joo Eduardo aceitou, com as
lagrimas nos olhos: era um salario magnifico que lhe vinha, uma posio,
uma familia, uma rehabilitao estrondosa...

--Oh, senhor Morgado, nunca hei de esquecer o que faz por mim!...

-- p'ra meu gosto proprio!...  p'ra arreliar a canalha! E partimos
manh!

Em Cho de Mas, apenas desceu do wagon, exclamou logo para o chefe da
estao que no conhecia Joo Eduardo, nem a sua historia:

--C o trago, c o trago em triumpho! Vem p'ra quebrar a cara a toda a
padraria... E se houver custas a pagar, sou eu que as pago!

O chefe da estao no estranhou--porque o Morgadinho passava no
districto por maluco.

Foi ahi, nos Poyaes, logo ao outro dia da sua chegada, que Joo Eduardo
soube que Amelia e D. Josepha estavam na Ricoa. Soube-o pelo bom abbade
Ferro, o unico sacerdote a quem o Morgado fallava, e que recebia em
casa, no como padre, mas como cavalheiro.

--Eu como cavalheiro estimo-o, snr. Ferro, costumava elle dizer, mas
como padre abomino-o!

E o bom Ferro sorria, sabendo que, sob aquella ferocidade d'impio
obtuso, havia um santo corao, um pai-de-pobres na freguezia...

O Morgado era tambem grande amador de alfarrabios, questionador
incansavel; s vezes os dois tinham pelejas tremendas sobre historia,
botanica, systemas de caa... Quando o abbade, no fogo da controversia,
punha d'alto alguma opinio contraria:

--O senhor apresenta-me isso como padre ou como cavalheiro? exclamava,
empinando-se, o Morgado.

--Como cavalheiro, senhor Morgado.

--Ento aceito a objeco.  sensata. Mas se fosse como padre,
quebrava-lhe os ossos.

s vezes, pensando irritar o abbade, mostrava-lhe Joo Eduardo, batendo
d'alto no hombro do rapaz, n'uma caricia de amador, como um cavallo
favorito:

--Veja-me isto! J ia dando cabo d'um. E ainda ha de matar dois ou
tres... E se o prenderem hei de eu livral-o da forca!

--Isso no  difficil, senhor Morgado, dizia o abbade tomando
tranquillamente a sua pitada. Que j no ha forcas em Portugal...

Ento era uma indignao do Morgado. No havia forcas? E porque no?
Porque tinhamos um governo livre e um rei constitucional! Que se se
seguisse a vontade dos padres, havia uma forca em cada praa e uma
fogueira em cada esquina!

--Diga-me uma coisa, snr. Ferro, o senhor vem defender aqui em minha
casa a inquisio?

--Oh, senhor Morgado, eu nem sequer fallei da inquisio...

--No fallou por medo! Porque sabe perfeitamente que lhe enterrava uma
faca no estomago!

E tudo isto aos gritos e aos pulos pela sala, fazendo um vendaval com as
abas prodigiosas do seu robe-de-chambre amarello.

--No fundo um anjo, diria o abbade a Joo Eduardo. Capaz de dar a camisa
mesmo a um padre, se o soubesse em necessidade... E voss aqui est bem,
Joo Eduardo...  no lhe reparar nas manias...

Tinha tomado affeio a Joo Eduardo, o abbade Ferro: e sabendo por
Amelia a famosa legenda do _Communicado_ quizera, segundo a sua
expresso querida, folhear o homem aqui e alm. Conversra com elle
tardes inteiras na rua de loureiros da quinta, na residencia onde Joo
Eduardo se ia fornecer de livros; e sob o exterminador de padres, como
dizia o Morgado, encontrra um pobre moo sensivel, com uma religio
sentimental, ambies de paz domestica, e prezando muito o trabalho.
Ento viera-lhe uma ida que, sobretudo por lhe ter acudido um dia que
sahia das suas devoes ao Santissimo, lhe pareceu descida de cima, da
vontade do Senhor: era o casal-o com Amelia. No seria difficil levar
aquelle corao fraco e terno a perdoar o erro d'ella; e a pobre
rapariga, depois de tantos transes, extincta aquella paixo que lhe
entrra na alma como um spro do Demonio, levando-lhe a vontade, a paz e
o pudor d'empurro para o abysmo, encontraria na companhia de Joo
Eduardo todo um resto de vida calmo, e contente, um canto suave
d'interior, refugio dce e purificao do passado. No fallou nem a um,
nem a outro, n'esta ida que o enternecia. No era o momento agora, que
ella trazia nas entranhas o filho do _outro_. Mas ia preparando com amor
aquelle resultado,--sobretudo quando estava com Amelia, contando-lhe as
suas conversas com Joo Eduardo, algum dito muito sensato que elle
tivera, os bons cuidados de preceptor que estava desenvolvendo na
educao dos Morgaditos.

-- um bom rapaz, dizia. Homem de familia... D'estes a quem uma mulher
pde realmente confiar a sua vida e a sua felicidade. Se eu pertencesse
ao mundo, se tivesse uma filha, dava-lh'a...

Amelia no respondia, crando.

J no podia objectar quelles elogios persuasivos a antiga, a grande
objeco--o _Communicado_, a impiedade! O abbade Ferro destruira-lh'a
um dia, com uma palavra:

--Eu li o artigo, minha senhora. O rapaz no escreveu contra os
sacerdotes, escreveu contra os phariseus!

E para attenuar este julgamento severo, o menos caridoso que tivera
havia muitos annos, acrescentou:

--Emfim, foi uma falta grave... Mas est muito arrependido. Pagou-o com
lagrimas, e com fome.

E isto enternecia Amelia.


Fra tambem por esse tempo que o doutor Gouva comera a vir  Ricoa,
porque D. Josepha tinha peorado com os dias mais frios do outono.
Amelia, ao principio,  hora da visita, fechava-se no seu quarto,
tremendo  ida de vr o seu estado descoberto pelo velho doutor Gouva,
o medico da casa, aquelle homem d'uma severidade legendaria. Mas emfim
fra necessario apparecer no quarto da velha, para receber as suas
instruces de enfermeira sobre as horas dos remedios e as dietas. E um
dia que acompanhra o doutor at  porta, ficou gelada, vendo-o parar,
voltar-se para ella cofiando a sua grande barba branca que lhe cahia
sobre o jaqueto de velludo, e dizer-lhe sorrindo:

--Eu bem tinha dito a tua mi que te casasse!

Duas lagrimas saltaram-lhe dos olhos.

--Bem, bem, pequena, no te quero mal por isso. Ests na verdade. A
natureza manda conceber, no manda casar. O casamento  uma frmula
administrativa...

Amelia olhava-o, sem o comprehender, com as duas lagrimas muito
redondinhas a correrem-lhe devagar pela face. Elle bateu-lhe com os
dedos no queixo, muito paternal:

--Quero dizer que, como naturalista, regosijo-me. Acho que te tornaste
util  ordem geral das coisas. Vamos ao que importa...

Deu-lhe ento conselhos sobre a hygiene que devia ter.

--E quando chegar a occasio, se te vires atrapalhada, manda-me
chamar...

Ia descer; Amelia deteve-o, e com uma supplicao assustada:

--Mas o senhor doutor no vai dizer nada na cidade...

O doutor Gouva parou:

--Ento no  estupida?... Est bom, tambem t'o perdo. Est na logica
do teu temperamento. No, no digo nada, rapariga. Mas p'ra que diabo,
ento, no casaste tu com esse pobre Joo Eduardo? Fazia-te to feliz
como o outro, e j no tinhas de pedir segredo... Emfim, isso para mim 
um detalhe secundario... O essencial  o que te disse... Manda-me
chamar. No te fies muito nos teus santos... Eu entendo mais d'isso que
Santa Brigida ou l quem . Que tu s forte, e has de dar um bom moceto
ao Estado.

Todas estas palavras que em parte no comprehendera bem, mas em que
sentia uma vaga justificao e uma bondade d'av indulgente, sobretudo
aquella sciencia que lhe promettia a saude e a que as barbas grisalhas
do doutor, umas barbas de Padre Eterno, davam um ar d'infallibilidade,
reconfortaram-na, augmentaram a serenidade que havia semanas gozava,
desde a sua confisso desesperada na capella dos Poyaes.

Ah, fra decerto Nossa Senhora, compadecida emfim dos seus tormentos,
que lhe mandra do co aquella inspirao de se ir entregar toda dorida
aos cuidados do abbade Ferro! Parecia-lhe que deixra l, no seu
confessionario azul-ferrete, todas as amarguras, os terrores, a negra
farrapagem de remorso que lhe abafava a alma. A cada uma das suas
consolaes to persuasivas sentira desapparecer o negrume que lhe
tapava o co: agora via tudo azul; e quando rezava, j Nossa Senhora no
desviava o rosto indignado.  que era to differente aquella maneira de
confessar do abbade! Os seus modos no eram os do representante rigido
d'um Deus carrancudo; havia n'elle alguma coisa de feminino e de
maternal que passava na alma como uma caricia; em logar de lhe erguer
diante dos olhos o sinistro scenario das chammas do Inferno,
mostrra-lhe um vasto co misericordioso com as portas largamente
abertas, e os caminhos multiplicados que l conduzem, to faceis e to
dces de trilhar que s a obstinao dos rebeldes se recusa a tental-os.
Deus apparecia, n'aquella suave interpretao da outra vida, como um bom
bisav risonho; Nossa Senhora era uma irm de caridade; os santos,
camaradas hospitaleiros! Era uma religio amavel, toda banhada de graa,
em que uma lagrima pura basta para remir uma existencia de peccado. Que
differente da soturna doutrina que desde pequena a trazia aterrada e
tremula! To differente--como aquella pequena capella d'aldeia da vasta
massa de cantaria da S. L, na velha S, muralhas da espessura de
covados separavam da vida humana e natural: tudo era escurido,
melancolia, penitencia, faces severas d'imagens; nada do que faz a
alegria do mundo alli entrava, nem o alto azul, nem os passaros, nem o
ar largo dos prados, nem os risos dos labios vivos; alguma flr que
havia era artificial; o enxota-ces l se postava ao portal para no
deixar passar as criancinhas; at o sol estava exilado, e toda a luz que
havia vinha dos lampadarios funebres. E alli, na capellita dos Poyaes,
que familiaridade da natureza com o bom Deus! Pelas portas abertas
penetrava a aragem perfumada das madresilvas; pequerruchos brincando
faziam sonoras as paredes caiadas; o altar era como um jardinete e um
pomar; pardaes atrevidos vinham chilrear at junto aos pedestaes das
cruzes; s vezes um boi grave mettia o focinho pela porta com a antiga
familiaridade do curral de Belem, ou uma ovelha tresmalhada vinha
regosijar-se de vr um da sua raa, o Cordeiro Paschal, dormir
regaladamente ao fundo do altar com a santa cruz entre as patas.

Alm d'isso o bom abbade, como elle lhe dissera, no queria
impossiveis. Sabia bem que ella no podia arrancar n'um momento aquelle
amor culpado, que ganhra raizes at s profundezas do seu sr. Queria
apenas que quando a assaltasse a ida de Amaro se abrigasse logo na ida
de Jesus. Com a fora colossal de Satanaz, que tem o poder d'um
Hercules, uma pobre rapariga no pde luctar brao a brao: pde smente
refugiar-se na orao quando o sente, e deixal-o fatigar-se de rugir e
espumar em torno d'esse asylo impenetravel. Elle mesmo cada dia a ia
ajudando n'aquella repurificao da alma, com uma solicitude de
enfermeiro: fra elle que lhe marcra, como um ensaiador n'um theatro, a
attitude que devia ter na primeira visita de Amaro  Ricoa; era elle
que chegava, com alguma breve palavra reconfortante como um cordial, se
a via vacillar n'aquella lenta reconquista da virtude; se a noite fra
agitada das lembranas calidas dos prazeres passados, era durante toda a
manh uma boa palestra, sem tom pedagogico, em que lhe mostrava
familiarmente que o co lhe daria alegrias maiores que o quarto
enxovalhado do sineiro. Chegra, com uma subtileza de theologo, a
demonstrar-lhe que no amor do parocho no havia seno brutalidade e
furor bestial; que, dce como era o amor do homem, o amor do padre s
podia ser uma exploso momentanea do desejo comprimido; quando tinham
comeado as cartas do parocho, analysra-lh'as phrase a phrase,
revelando-lhe o que ellas continham de hypocrisia, de egoismo, de
rhetorica, e de desejo torpe...

Ia-a assim lentamente desgostando do parocho. Mas no a desgostava do
amor legitimo, purificado pelo sacramento; conhecia bem que ella era
toda de carne e de desejos, e que lanal-a violentamente no mysticismo
seria apenas torcer-lhe um momento o instincto natural e no crear-lhe
uma paz duradoura. No tentava arrancal-a bruscamente  realidade
humana; elle no a queria para freira; s desejava que aquella fora
amante que sentia n'ella servisse  alegria d'um esposo e  util
harmonia d'uma familia, e no se gastasse erradamente em concubinagens
casuaes... No fundo, o bom Ferro preferiria decerto na sua alma de
sacerdote que a rapariga se separasse absolutamente de todos os
interesses egoistas do amor individual, e se dsse, como irm da
caridade, como enfermeira d'um recolhimento, ao amor mais largo de toda
a humanidade. Mas a pobre Ameliasita tinha a carne muito bonita e muito
fraca; no seria prudente assustal-a com sacrificios to altos; era toda
mulher--toda mulher devia ficar; limitar-lhe a aco era estragar-lhe a
utilidade. Christo no lhe bastava com os seus membros deaes pregados
na cruz: era-lhe necessario um homem como todos, de bigode e chapo
alto. Paciencia! Que ao menos elle fosse um esposo sob a legitimao
sacramental...

Assim a ia curando d'aquella paixo morbida com uma direco de todos os
dias, uma d'estas persistencias de missionario que s d a f sincera,
pondo a subtileza d'um casuista ao servio da moralidade d'um
philosopho, paternal e habil--uma cura maravilhosa de que o bom abbade
em segredo tirava alguma vaidade.

E foi grande a sua alegria quando lhe pareceu que emfim a paixo por
Amaro j no era na alma d'ella um sentimento vivo; mas estava morto,
embalsamado, arrumado no fundo da sua memoria como n'um jazigo,
escondido j sob a delicada florescencia d'uma virtude nova. Assim
julgava pelo menos o bom Ferro--vendo-a agora alludir ao passado com o
olhar tranquillo, sem aquelles rubores que outr'ora lhe escaldavam a
face ao simples nome de Amaro.

Ella, com effeito, j no pensava no senhor parocho com a commoo
d'outr'ora: o terror do peccado, a influencia penetrante do abbade,
aquella brusca separao do meio devoto em que o seu amor se
desenvolvera, o gozo que sentia n'uma serenidade maior, sem sustos
nocturnos e sem a inimizade de Nossa Senhora, tudo concorrra para que o
fogo ruidoso d'aquelle sentimento se fosse reduzindo a alguma braza que
rebrilhava surdamente. O parocho estivera ao principio na sua alma com o
prestigio d'um idolo coberto d'oiro; mas tantas vezes, desde a sua
gravidez, sacudira, nas horas de terror religioso ou de arrependimento
hysterico, aquelle idolo, que todo o dourado lhe ficra nas mos, e a
frma trivial e escura que apparecia por baixo j no a deslumbrava; viu
por isso o abbade derrubar-lh'o inteiramente, sem chorar e sem luctar.
Se ainda pensava em Amaro,  porque no podia deixar de pensar na casa
do sineiro; mas o que a tentava ainda era o prazer e no o parocho.

E com a sua natureza de boa rapariga tinha um reconhecimento sincero
pelo abbade. Como dissera a Amaro n'aquella tarde, devia-lhe tudo. Era
o que sentia agora tambem pelo doutor Gouva, que vinha regularmente vr
a velha de dois em dois dias. Eram os seus bons amigos, como dois paps
que o co lhe mandava--um que lhe promettia a saude, outro a graa.

Refugiada n'aquellas duas proteces, gozou uma paz adoravel nas ultimas
semanas de outubro. Os dias iam muito serenos e muito tepidos. Era bom
estar no terrao, pelas tardes, n'aquella serenidade outonal dos campos.
O doutor Gouva s vezes encontrava-se com o abbade Ferro; ambos se
estimavam; depois da visita  velha, iam para o terrao, e comeavam
logo as suas eternas questes sobre Religio e sobre Moral.

Amelia, com a costura cahida nos joelhos, sentindo os seus dois amigos
ao p, aquelles dois colossos de sciencia e de santidade, abandonava-se
ao encanto da hora suave, olhando a quinta onde as arvores j
empallideciam. Pensava no futuro; elle apparecia-lhe agora facil e
seguro; era forte, e o parto, com a presena do doutor, seria apenas uma
hora de dres; depois, livre d'aquella complicao, voltaria para a
cidade e para a mam... E ento uma outra esperana, que nascera das
conversas constantes do abbade sobre Joo Eduardo, vinha bailar-lhe na
imaginao. Porque no?... Se o pobre rapaz a amasse ainda, e
perdoasse!... Elle nunca lhe repugnra como homem, e seria um casamento
esplendido agora que elle tinha a amizade do Morgado. Dizia-se que Joo
Eduardo ia ser o administrador da casa... E entrevia-se vivendo nos
Poyaes, passeando na caleche do Morgado, chamada para jantar por uma
campainha, servida por um escudeiro de libr... Ficava muito tempo
immovel, banhada na doura d'esta perspectiva, emquanto o abbade e o
doutor ao fundo do terrao pelejavam sobre a doutrina da Graa e da
Consciencia, e monotonamente a agua das regas murmurava no pomar.

Foi por este tempo que D. Josepha, inquieta de no vr apparecer o
senhor parocho, mandra expressamente o caseiro a Leiria, pedir a sua
senhoria a esmola d'uma visita. O homem voltra com a espantosa noticia
de que o senhor parocho partira para a Vieira, e no viria seno d'ahi a
duas semanas. A velha choramingou de desgosto. E Amelia, n'essa noite,
no seu quarto, no pde adormecer--na irritao que lhe dava aquella
ida do senhor parocho a divertir-se na Vieira, sem pensar n'ella
decerto, chalaceando com as senhoras na praia, e andando de sero em
sero...


Com a primeira semana de novembro vieram as chuvas. A Ricoa parecia
agora mais lugubre n'aquelles dias curtos, banhados d'agua, sob um co
de tempestade. O abbade Ferro, tolhido de rheumatismo, j no apparecia
na quinta. O doutor Gouva, depois da visita de meia hora, abalava no
seu velho _cabriolet_. A unica distraco de Amelia era estar  janella
por dentro dos vidros: tres vezes vira passar Joo Eduardo na estrada;
mas elle ao avistal-a baixava os olhos ou refugiava-se mais sob o
guardachuva.

A Dionysia vinha tambem frequentemente: devia ser a parteira, apesar do
doutor Gouva ter aconselhado a Michaela, matrona d'uma experiencia de
trinta annos. Mas Amelia no queria mais gente no segredo, e alm
d'isso Dionysia trazia-lhe as noticias d'Amaro, que ella sabia pela
cozinheira. O senhor parocho tinha-se achado to bem na Vieira que se ia
demorar at dezembro. Aquelle procedimento infame indignava-a: no
duvidava que o parocho queria estar longe quando chegassem os transes,
os perigos do parto. Alm d'isso era decidido d'ha muito que a criana
havia de ser entregue a uma ama de ao p de Ourem, que a criaria na
aldeia: e agora o tempo chegava, e a ama no estava fallada, e o senhor
parocho apanhava conchinhas  beira-mar!...

-- indecente, Dionysia, exclamava Amelia furiosa.

--Ah! no me parece bem, no. Que eu podia fallar  ama... Mas bem v,
so coisas muito srias... O senhor parocho  que se encarregou de
tudo...

-- infame!

Alm d'isso ella descuidra-se do enxoval--e alli estava na vespera de
ter a criana, sem um trapo para a cobrir, sem dinheiro para lh'o
comprar! A Dionysia tinha-lhe mesmo offerecido algumas peas de enxoval,
que uma mulher que ella tivera em casa lhe deixra empenhadas. Mas
Amelia recusra-se a que o seu filho usasse cueiros alheios,
trazendo-lhe talvez um contagio de doena ou uma sorte infeliz.

E por orgulho no queria escrever a Amaro.

Alm d'isso as impertinencias da velha tornavam-se odiosas. A pobre D.
Josepha, privada dos auxilios devotos d'um padre, um verdadeiro padre
(no um abbade Ferro), sentia a sua velha alma indefesa exposta a todas
as audacias de Satanaz: a viso singular que tivera de S. Francisco
Xavier n, repetia-se agora com uma insistencia pavorosa a respeito de
todos os santos: era toda uma crte do co, arrojando tunicas e habitos,
e bailando-lhe na imaginao sarabandas em pllo: e a velha estava
morrendo da perseguio d'estes espectaculos dispostos pelo demonio.
Reclamra o padre Silverio, mas parecia que um rheumatismo geral tolhia
todo o clero diocesano: desde o principio do inverno o Silverio estava
tambem de cama. O abbade da Cortegassa, chamado urgentemente, veio--mas
para lhe communicar a receita nova que descobrira de fazer bacalhau 
biscainha... Esta falta d'um padre virtuoso dava-lhe um humor feroz, que
recahia sobre Amelia n'uma chuva de impertinencias.

E a boa senhora estava pensando sriamente em mandar a Amor pelo padre
Brito--quando uma tarde, ao fim do jantar, inesperadamente, o senhor
parocho appareceu!

Vinha magnifico, trigueiro do sol e do ar do mar, de casaco novo e
botins de verniz. E palrando longamente cerca da Vieira, dos conhecidos
que estavam, da pesca que fizera, dos soberbos quinos fazia passar
n'aquelle triste quarto de doente velha todo um sopro vivificante da
vida divertida  beira-mar. D. Josepha tinha duas lagrimas nas palpebras
do gozo de vr o senhor parocho, de o ouvir.

--E a mam passa bem, disse elle a Amelia. J tem os seus trinta banhos.
Ganhou outro dia quinze tostes a uma batotinha que se arranjou... E por
c que tm feito?

Ento a velha rompeu em queixumes amargos: Uma solido! Um tempo de
chuva! Uma falta de amizades! Ai! ella estava alli a perder a sua alma
n'aquella quinta fatal...

--Pois eu, disse o padre Amaro traando a perna, dei-me to bem que
estou com idas de voltar para a semana.

Amelia, sem se conter, exclamou:

--Ora essa! outra vez!

--Sim, disse elle. Se o senhor chantre me der uma licena d'um mez, vou
l passal-o... Fazem-me uma cama na sala de jantar do padre-mestre, e
tomo um par de banhos... Estava farto de Leiria, e d'aquelle
aborrecimento...

A velha parecia desolada. O qu, voltar! Deixal-as alli a estarrecer de
tristeza!

Elle galhofou:

--Ora, as senhoras no precisam c de mim. Esto bem acompanhadas...

--Eu no sei, disse a velha com azedume, se os _outros_--e accentuou com
rancor a palavra--se os _outros_ no precisam do senhor parocho... Eu 
que no estou _bem acompanhada_, estou aqui a perder a minha alma... Que
as companhias que ahi vm no do honra nem proveito.

Mas Amelia acudiu para contrariar a velha:

--E de mais a mais o senhor abbade Ferro tem estado doente... Est com
rheumatismo. Sem elle a casa parece uma priso.

D. Josepha deu um risinho d'escarneo. E o padre Amaro, erguendo-se para
sahir, lamentou o bom abbade:

--Coitado! Santo homem... Hei de ir vl-o em tendo vagar. Pois manh c
appareo, D. Josepha, e havemos de pr essa alma em paz... No se
incommode, snr.^a D. Amelia, eu sei agora o caminho.

Mas ella insistiu em o acompanhar. Atravessaram o salo sem uma palavra.
Amaro calava as suas luvas novas de pellica preta. E no alto da escada,
muito ceremoniosamente, tirando o chapo:

--Minha senhora...

E Amelia ficou petrificada vendo-o descer muito tranquillo--como se ella
lhe fosse mais indifferente que os dois lees de pedra, que em baixo
dormiam com o focinho nas patas.

Foi para o quarto chorar de bruos sobre a cama, de raiva e de
humilhao. O infame! E nem uma palavra sobre o filho, sobre a ama,
sobre o enxoval! Nem um olhar d'interesse para o seu corpo desfigurado
por aquella prenhez que elle lhe dera! Nem uma queixa irritada por todos
os desprezos que ella lhe mostrra!... Nada! Calava as luvas, com o
chapo ao lado. Que indigno!

Ao outro dia o padre voltou mais cedo. Esteve muito tempo fechado no
quarto com a velha.

Amelia, impaciente, rondava no salo com os olhos como carves. Elle
appareceu emfim, como na vespera, calando as suas luvas com um ar
prospero.

--Ento j? disse ella n'uma voz que tremia.

-J, sim, minha senhora. Estive n'uma praticasinha com a D. Josepha.

Tirou o chapo, comprimentando muito profundamente:

--Minha senhora...

Amelia, livida, murmurou:

--Infame!

Elle olhou-a, como assombrado:

--Minha senhora...--repetiu.

E, como na vespera, desceu vagarosamente a larga escadaria de pedra.

O primeiro pensamento d'Amelia foi denuncial-o ao vigario geral. Depois
passou a noite escrevendo-lhe uma carta--tres paginas de accusaes e de
lastimas. Mas toda a resposta d'Amaro, ao outro dia, mandada verbalmente
pelo Joosito da quinta, foi que talvez apparecesse por l na
quinta-feira.

Teve outra noite de lagrimas--emquanto na rua das Sousas o padre Amaro
esfregava as mos, no regosijo do seu famoso estratagema. E todavia
no o concebera elle mesmo; tinha-lhe sido suggerido na Vieira, onde
fra para desabafar com o padre-mestre e espalhar a mgoa nos ares da
praia; fra l que elle o aprendera, o famoso estratagema, n'uma
_soire_, ouvindo dissertar sobre o amor o brilhante Pinheiro, premiado
em direito e gloria d'Alcobaa.

--Eu n'isso, minhas senhoras--dizia o Pinheiro, passando a mo pela
cabelleira de poeta, ao semi-crculo de damas que pendiam dos seus
labios d'ouro--eu n'isso sou da opinio de Lamartine (era alternadamente
da opinio de Lamartine ou de Pelletan). Digo como Lamartine: a mulher 
igual  sombra; se correis atraz d'_ella_, foge-vos; se fugis d'_ella_,
corre atraz de vs!

Houve um _muito bem_, exclamado com convico: mas uma senhora de
grandes propores, mi de quatro deliciosos anjos todos Marias (como
dizia o Pinheiro), quiz explicaes, porque nunca tinha visto fugir uma
sombra.

O Pinheiro deu-as, scientificamente:

-- muito facil d'observar, snr.^a D. Catharina. Colloque-se vossa
excellencia na praia, quando o sol comea a declinar, com as costas para
o astro. Se vossa excellencia caminha em frente, perseguindo a sombra,
ella vai-lhe adiante, fugindo...

--Physica recreativa, muito interessante! murmurou o escrivo de direito
ao ouvido d'Amaro.

Mas o parocho no o escutava; bailava-lhe j na imaginao o famoso
estratagema. Ah! mal voltasse a Leiria, havia de tratar Amelia como uma
sombra e fugir-lhe para ser seguido...--E o resultado delicioso alli
estava--tres paginas de paixo, com manchas de lagrimas no papel.

Na quinta-feira appareceu, com effeito. Amelia esperava-o no terrao,
d'onde estivera desde manh vigiando a estrada com um binoculo de
theatro. Correu a abrir-lhe o portosinho verde no muro do pomar.

--Ento, por aqui! disse-lhe o parocho, subindo atraz d'ella ao terrao.

-- verdade, como estou ssinha...

--Ssinha?

--A madrinha est a dormir e a Gertrudes foi  cidade... Tenho estado
toda a manh aqui ao sol.

Amaro a penetrando pela casa, sem responder; diante d'uma porta aberta
parou, vendo um grande leito de docel, e em redor cadeiras de couro de
convento.

-- o seu quarto aqui, hein?

--.

Elle entrou familiarmente, com o chapo na cabea.

--Muito melhor que o da rua da Misericordia. E boas vistas... So as
terras do Morgado, alm...

Amelia cerrra a porta, e indo direita a elle, com os olhos
chammejantes:

--Porque no respondeste  minha carta?

Elle riu:

-- boa! E porque no respondeste tu s minhas? Quem comeou? Foste tu.
Dizes que no queres peccar mais. Tambem eu no quero peccar mais.
Acabou-se...

--Mas no  isso! exclamou ella pallida d'indignao.  que ha a pensar
na criana, na ama, no enxoval... No  abandonar-me p'r'qui!...

Elle poz-se srio, e com um tom resentido:

--Peo perdo... Eu prezo-me de ser um cavalheiro. Tudo isso ha de ficar
arranjado antes de voltar p'r' Vieira...

--Tu no voltas p'r' Vieira!

--Quem  que diz isso?

--Eu, que no quero que vs!

Puzera-lhe fortemente as mos nos hombros, retendo-o, apoderando-se
d'elle: e alli mesmo, sem reparar na porta apenas cerrada,
abandonou-se-lhe como outr'ora.


D'ahi a dois dias o abbade Ferro appareceu restabelecido do seu ataque
de rheumatismo. Contou a Amelia a bondade do Morgado, que chegra a
mandar-lhe todas as tardes, n'um apparelho de lata com agua quente, uma
gallinha cozida em arroz. Mas era sobretudo a Joo Eduardo que devia a
caridade melhor; todas as suas horas vagas as passava ao p da cama,
lendo-lhe alto, ajudando-o a voltar, ficando com elle at  uma hora da
noite n'um zelo de enfermeiro. Que rapaz! que rapaz!

E de repente, tomando as mos ambas d'Amelia, exclamou:

--Diga-me, d licena que eu lhe conte tudo, que lhe explique?... Que
arranje que elle perde. e esquea... E que se faa este casamento, se
faa esta felicidade?

Ella balbuciou espantada, toda escarlate:

--Assim de repente... No sei... Hei de pensar...

--Pense. E Deus a alumie! disse o velho com fervor.

Era n'essa noite que Amaro devia entrar pelo portalzinho do pomar de que
Amelia lhe dera a chave. Infelizmente tinham esquecido a matilha do
caseiro. E apenas Amaro pz o p dentro do pomar, rompeu pelo silencio
da noite escura um to desabrido ladrar de ces--que o senhor parocho
abalou pela estrada, batendo o queixo de terror.




XXIV


Amaro n'essa manh mandou  pressa chamar a Dionysia, apenas recebeu o
seu correio. Mas a matrona que estava no mercado veio tarde, quando elle
 volta da missa acabava d'almoar.

Amaro queria saber _ao certo e immediatamente_ para quando estava a
_coisa_...

--O bom successo da pequena?... Entre quinze a vinte dias... Porqu, ha
novidade?

Havia; e o parocho leu-lhe ento em confidencia uma carta que tinha ao
lado.

Era do conego, que escrevia da Vieira, dizendo que a S. Joanneira tinha
j trinta banhos e queria voltar! Eu, (acrescentava), perco quasi todas
as semanas tres, quatro banhos, de proposito para os espaar e dar
tempo, porque c a minha mulher j sabe que eu sem os meus cincoenta no
vai. Ora j tenho quarenta, veja l voss. Demais por aqui comea a
fazer frio devras. J se tem retirado muita gente. Mande-me pois dizer
pela volta do correio em que estado esto as coisas. E n'um
_post-scriptum_ dizia: Tem voss pensado que destino se ha de dar ao
_fructo_?

--Mais vinte dias, menos vinte dias, repetiu a Dionysia.

E Amaro alli mesmo escreveu a resposta ao conego, que a Dionysia devia
levar ao correio: A coisa pde estar prompta d'aqui a vinte dias.
Suspenda por todo o modo a volta da mi! Isso de modo nenhum! Diga-lhe
que a pequena no escreve nem vai, porque a excellentissima mana passa
sempre adoentada.

E traando a perna:

--E agora, Dionysia, como diz o nosso conego, que destino se ha de dar
ao _fructo_?

A matrona arregalou os olhos de surpreza:

--Eu pensei que o senhor parocho tinha arranjado tudo... Que se ia dar a
criana a criar fra da terra...

--Est claro, est claro, interrompeu o parocho com impaciencia. Se a
criana nascer viva  evidente que se ha de dar a criar, e que ha de ser
fra da terra... Mas ahi  que est! Quem ha de ser a ama?  isso que eu
quero que voss me arranje. Vai sendo tempo...

A Dionysia pareceu muito embaraada. Nunca gostra de inculcar amas.
Ella conhecia uma boa, mulher forte e de muito leite, pessoa de
confiana; mas infelizmente entrra no hospital, doente... Sabia d'outra
tambem, at tivera negocios com ella. Era uma Joanna Carreira. Mas no
convinha porque vivia justamente nos Poyaes, ao p da Ricoa.

--Qual no convm! exclamou o parocho. Que tem que viva na Ricoa?... Em
a rapariga convalescendo as senhoras vm p'r' cidade, e no se falla
mais na Ricoa.

Mas a Dionysia procurava ainda, arranhando devagar o queixo. Tambem
sabia d'outra. Essa morava para o lado da Barrosa, a boa distancia...
Criava em casa, era o seu officio... Mas n'essa nem fallar!

--Mulher fraca, doente?

A Dionysia chegou-se ao parocho, e baixando a voz:

--Ai, menino, eu no gosto d'accusar ninguem. Mas, est provado,  uma
tecedeira d'anjos!

--Uma qu?

--_Uma tecedeira d'anjos!_

--O que  isso? Que significa isso? perguntou o parocho.

A Dionysia gaguejou-lhe uma explicao. Eram mulheres que recebiam
crianas a criar em casa. E sem excepo as crianas morriam... Como
tinha havido uma muito conhecida que era tecedeira, e as criancinhas iam
para o co... D'ahi  que vinha o nome.

--Ento as crianas morrem sempre?

--Sem falhar.

O parocho passeava devagar pelo quarto, enrolando o seu cigarro.

--Diga l tudo, Dionysia. As mulheres matam-n'as?

Ento a excellente matrona declarou que no queria accusar ninguem! Ella
no fra espreitar. No sabia o que se passava nas casas alheias. Mas as
crianas morriam todas...

--Mas quem vai ento entregar uma criana a uma mulher d'essas?

A Dionysia sorriu, apiedada d'aquella innocencia d'homem.

--Entregam, sim senhor, s duzias!

Houve um silencio. O parocho continuava o seu passeio do lavatorio para
a janella, de cabea baixa.

--Mas que proveito tira a mulher, se as crianas morrem? perguntou de
repente. Perde as soldadas...

-- que se lhe paga um anno de criao adiantado, senhor parocho. A dez
tostes ao mez, ou quartinho, segundo as posses...

O parocho agora, encostado  janella, rufava devagar nos vidros.

--Mas que fazem as auctoridades, Dionysia?

A boa Dionysia encolheu silenciosamente os hombros.

O parocho ento sentou-se, bocejou, e estirando as pernas disse:

--Bem, Dionysia, vejo que a unica coisa a fazer  fallar  tal ama que
vive ao p da Ricoa,  Joanna Carreira. Eu arranjarei isso...

A Dionysia fallou ainda das peas d'enxoval que j tinha comprado por
conta do parocho, d'um bero muito barato em segunda mo que vira no Z
Carpinteiro--e ia sahir com a carta para o correio, quando o parocho
erguendo-se e galhofando:

-- tia Dionysia, essa coisa da _tecedeira d'anjos_  uma historia,
hein?

Ento a Dionysia escandalisou-se. O senhor parocho sabia que ella no
era mulher d'intrigas. Conhecia a tecedeira d'anjos ha mais d'oito
annos, de lhe fallar e de a vr na cidade quasi todas as semanas. Ainda
no sabbado passado a vira sahir da taberna do Grego... O senhor parocho
j tinha ido  Barrosa?

Esperou a resposta do parocho, e continuou:

--Pois bem, sabe o comeo da freguezia. Ha um muro cahido. Depois  um
caminho que desce. Ao fundo d'esse corregosito encontra um poo
atulhado. Adiante, retirada, ha uma casita que tem um alpendre.  l que
ella vive... Chama-se Carlota... Isto  p'ra lhe mostrar que sei,
amiguinho!

O parocho ficou toda a manh em casa, passeando pelo quarto, alastrando
o cho de pontas de cigarros. Alli estava agora diante d'aquelle
episodio fatal que at ahi fra apenas um cuidado distante--dispr do
filho!

Era bem grave entregal-o assim a uma ama desconhecida, na aldeia. A mi,
naturalmente, havia de querer ir a todo o momento vl-o, a ama poderia
fallar aos visinhos. O rapaz viria a ser, na freguezia, o _filho do
parocho_... Algum invejoso, que lhe cubiasse a parochia, poderia
denuncial-o ao senhor vigario geral. Escandalo, sermo, devassa: e, se
no fosse suspenso, poderia como o pobre Brito ser mandado para longe,
para a serra, outra vez para os pastores... Ah! se o _fructo_ nascesse
morto! Que soluo natural e perpetua! E para a criana, uma felicidade!
Que destino podia elle ter n'este duro mundo? Era o _engeitado_, era o
_filho do padre_. Elle era pobre, a mi pobre... O rapaz cresceria na
miseria, vadiando, apanhando o estrume das bestas, ramelloso e tosco...
De necessidade em necessidade iria conhecendo todas as frmas do inferno
humano: os dias sem po, as noites regeladas, a brutalidade da taberna,
a cadeia por fim. Uma enxerga na vida, a valla na morte... E se
morresse--era um anjinho que Deus recolhia ao paraiso...

E continuava passeando tristemente pelo quarto. Realmente o nome era bem
posto, _tecedeira d'anjos_... Com razo, quem prepara uma criana para a
vida com o leite do seu peito, prepara-a para os trabalhos e para as
lagrimas... Mais vale torcer-lhe o pescoo, e mandal-a direita para a
eternidade bemaventurada! Olha elle! Que vida a sua, n'esses trinta
annos atraz! Uma infancia melancolica, com aquella pga da marqueza
d'Alegros; depois a casa na Estrella, com o alarve do tio toucinheiro; e
d'ahi as clausuras do seminario, a neve constante de Feiro, e alli em
Leiria tantos transes, tanta amargura... Se lhe tivessem esmagado o
craneo ao nascer, estava agora com duas azas brancas, cantando nos cros
eternos.

Mas emfim no havia que philosophar: era partir para Poyaes e fallar 
ama,  snr.^a Joanna Carreira.

Sahiu, dirigindo-se para a estrada, sem pressa. Ao p da ponte veio-lhe
porm de repente a ida, a curiosidade de ir  Barrosa vr a
_tecedeira_... No lhe fallaria: examinaria apenas a casa, a figura da
mulher, os aspectos sinistros do sitio... Demais como parocho, como
auctoridade ecclesiastica, devia observar aquelle peccado organisado
n'um recanto d'estrada, impune e rendoso. Podia mesmo denuncial-o ao
senhor vigario geral ou ao secretario do governo civil...

Tinha ainda tempo, eram apenas quatro horas. Por aquella tarde suave e
lustrosa fazia-lhe bem um passeio a cavallo. No hesitou, ento; foi
alugar uma egoa  estalagem do Cruz; e d'ahi a pouco, d'espora no p
esquerdo, choutava a direito pelo caminho da Barrosa.

Ao chegar ao corrego, de que lhe fallra a Dionysia, apeou, foi andando
com a egoa pela arreata. A tarde estava admiravel; muito alto no azul,
uma grande ave fazia semi-circulos vagarosos.

Encontrou emfim o poo atulhado ao p de dois castanheiros onde passaros
ainda chilreavam; adiante n'um terreno plano, muito isolada, l estava a
casa com o seu alpendre: o sol declinando batia-lhe na unica janella do
lado, accendendo-a n'um resplendor d'ouro e braza; e, muito delgado,
elevava-se da chamin um fumo claro no ar sereno.

Uma grande paz estendia-se em redor; no monte, escuro da rama dos
pinheiros baixos, a capellinha da Barrosa punha a alvura alegre da sua
parede muito caiada.

Amaro ia imaginando ento a figura da _tecedeira_; sem saber porque,
suppunha-a muito alta, com um caro trigueiro onde dois olhos de bruxa
refulgiam.

Defronte da casa prendeu a egoa  cancella, e olhou pela porta aberta:
era uma cozinha terrea, de grande lareira, com sahida para o pateo
estradado de matto onde dois bacorinhos foavam. Na prateleira da
chamin rebrilhava a loua branca. Dos lados pendiam grandes cassarolas
de cobre, d'um lustro de casa rica. N'um velho armario meio aberto
branquejavam pilhas de roupa: e havia tanta ordem que uma claridade
parecia sahir do aceio e do arranjo das coisas.

Amaro ento bateu forte as palmas. Uma rla pulou assustada, dentro da
sua gaiola de vime pendurada da parede. Depois chamou alto:

--Senhora Carlota!

Immediatamente do lado do pateo uma mulher appareceu, com um crivo na
mo. E Amaro, surprehendido, viu uma agradavel creatura de quasi
quarenta annos, forte de peitos, ampla de encontros, muito branca no
pescoo, com duas ricas arrecadas, e uns olhos negros que lhe lembraram
os d'Amelia ou antes o brilho mais repousado dos da S. Joanneira.

Assombrado, balbuciou:

--Creio que me enganei... Aqui  que mora a senhora Carlota?

No se enganra, era ella; mas com a ida que a figura medonha que
tecia os anjos devia estar algures, agachada n'um vo tenebroso da
casa, perguntou ainda:

--Vossemec vive aqui s?

A mulher olhou-o desconfiada:

--No senhor, disse por fim, vivo com o meu marido...

Justamente o marido sahia do pateo,--medonho, esse, quasi ano, com a
cabea embrulhada n'um leno e muito enterrada nos hombros, a face d'uma
amarellido de cera oleosa e lustrosa; no queixo annelavam-se os pllos
raros d'uma barba negra; e sob as arcadas fundas sem sobrancelhas,
vermelhejavam dois olhos raiados de sangue, olhos d'insomnia e de
bebedeira.

--Para o seu servio, vossa senhoria quer alguma coisa? disse, muito
collado  saia da mulher.

Amaro foi entrando pela cozinha, e tartamudeando uma historia que ia
forjando laboriosamente. Era uma parente que ia ter o seu bom successo.
O marido no pudra vir fallar-lhes porque estava doente... Queriam uma
ama para lhes ir para casa, e tinham-lhe dito...

--No, fra de casa, no. C em casa--disse o ano que no se despegava
das saias da mulher, mirando o parocho de lado com o seu medonho olho
injectado.

Ah, ento tinham-n'o informado mal... Sentia; mas o que o parente queria
era uma ama para casa.

Veio dirigindo-se para a egoa, devagar; parou, e abotoando o casaco:

--Mas em casa recebem crianas para criao?...--perguntou ainda.

--Convindo o ajuste, disse o ano que o seguia.

Amaro arranjou a espora no p, deu um puxo ao estribo, demorando-se,
rondando em torno da cavalgadura:

-- necessario trazer-lh'a c, j se sabe.

O ano voltou-se, trocou um olhar com a mulher que ficra  porta da
cozinha.

--Tambem se lhe vai buscar, disse.

Amaro batia palmadas no pescoo da egoa.

--Mas sendo a coisa de noite, agora com este frio,  matar a criana...

Ento os dois, fallando ao mesmo tempo, affirmaram que no lhe fazia
mal. Havendo, j se sabe, carinho e agasalho...

Amaro cavalgou vivamente a egoa, deu as boas tardes, e trotou pelo
corrego.


Amelia agora comeava a andar assustada. De dia e de noite s pensava
n'aquellas horas, que se avisinhavam, em que devia sentir chegarem as
dres. Soffria mais que durante os primeiros mezes; tinha tonturas,
perverses de gosto--que o doutor Gouva observava, franzindo a testa
descontente. As noites eram ms, n'uma turbao de pesadlos. J no
eram as allucinaes religiosas: isso cessra n'uma subita aplacao de
todo o terror devoto: no sentiria menos temor de Deus, se j fosse uma
santa canonisada. Eram outros medos, sonhos em que o parto se lhe
representava de modos monstruosos: ora era um sr medonho que lhe
saltava das entranhas, metade mulher e metade cabra; ora era uma cobra
infindavel que lhe sahia de dentro, durante horas, como uma fita de
leguas, enrolando-se no quarto em roscas successivas que ganhavam a
altura do tecto: e acordava em tremuras nervosas que a deixavam
prostrada.

Mas anciava por ter a criana. Estremecia  ida de vr um dia
inesperadamente a mi apparecer na Ricoa. Ella escrevera-lhe,
queixando-se do senhor conego que a retinha na Vieira, dos temporaes que
j reinavam, da solido que se ia fazendo na praia. Alm d'isso D. Maria
da Assumpo voltra; felizmente, uma noite providencialmente gelada
dera-lhe durante a jornada uma inflammao dos bronchios--e estava de
cama para semanas, segundo dizia o doutor Gouva. O Libaninho, esse,
tambem viera  Ricoa; e sahira lastimando-se de no ter visto a
Amelinha que tinha n'esse dia enxaqueca.

--Se isto se demora mais quinze dias, vem-se a descobrir tudo, dizia
ella, choramigando, a Amaro.

--Paciencia, filha. No se pde forar a natureza...

--O que tu me tens feito soffrer! suspirava ella, o que tu me tens feito
soffrer!

Elle calava-se resignado--muito bom, muito terno agora com ella. Vinha-a
vr quasi todas as manhs, porque no queria pelas tardes encontrar o
abbade Ferro.

Tranquillisra-a a respeito da ama, dizendo-lhe que fallra  mulher da
Ricoa inculcada pela Dionysia. Era uma escolha rica a snr.^a Joanna
Carreira! Mulher forte como um carvalho, com barricas de leite, e dentes
de marfim...

--Fica-me to longe para vir vr depois a criana...--suspirava ella.

Tomavam-n'a agora pela primeira vez enthusiasmos de mi. Desesperava-se
em no poder ella mesma costurar o resto do enxoval. Queria que o
rapaz--porque havia de ser um rapaz!--se chamasse Carlos. Scismava-o j
homem, e official de cavallaria. Enternecia-se com a esperana de o vr
gatinhar...

--Ai, eu  que o queria criar, se no fosse a vergonha!...

--Vai muito bem para onde vai, dizia Amaro.

Mas o que a torturava, a fazia chorar todos os dias era a ida de elle
ser um engeitadinho!

Um dia veio ao abbade com um plano extraordinario que lhe inspirra
Nossa Senhora: ella casaria j com Joo Eduardo, mas o rapaz devia por
uma escriptura adoptar o Carlinhos! Que para que o anjinho no fosse um
engeitado, casava at com um calceteiro da estrada! E apertava as mos
do abbade, n'uma supplicao loquaz. Que convencesse Joo Eduardo, que
dsse um pap ao Carlinhos! Queria ajoelhar aos ps d'elle, do senhor
abbade, que era o seu pai e o seu protector.

--Oh, minha senhora, socegue, socegue. Esse  tambem o meu desejo, como
lhe disse. E ha de arranjar-se, mas mais tarde, disse o bom velho,
atarantado d'aquella excitao.

Depois, d'ahi a dias, foi outra exaltao; descobrira de repente, uma
manh, que no devia trahir Amaro, porque era o pap do seu Carlinhos.
E disse-o ao abbade; fez crar os sessenta annos do bom velho, palrando
muito convencidamente dos seus deveres d'esposa para com o parocho.

O abbade, que ignorava as visitas do parocho todas as manhs,
assombrou-se.

--Minha senhora, que est a dizer? que est a dizer? Caia em si... Que
vergonha!... Imaginei que lhe tinham passado essas loucuras.

--Mas  o pai do meu filho, senhor abbade, disse ella, olhando-o muito
sria.

Fatigou ento Amaro toda uma semana com uma ternura pueril. Lembrava-lhe
cada meia hora que era o pap do seu Carlinhos.

--Bem sei, filha, bem sei, dizia elle impaciente. Obrigado. No me gabo
da honra...

Ella chorava, ento, aninhada no sof. Era necessaria toda uma
complicao de caricias para a calmar. Fazia-o sentar n'um banquinho
junto d'ella; tinha-o alli como um boneco, contemplando-o, coando-lhe
devagarinho a cora; queria que se tirasse a photographia ao Carlinhos
para a trazerem ambos n'uma medalha ao pescoo; e se ella morresse, elle
havia de levar o Carlinhos  sepultura, ajoelhal-o, pr-lhe as
mosinhas, fazel-o rezar pela mam. Atirava-se ento para a almofada,
tapando o rosto com as mos:

--Ai, pobre de mim, meu querido filho, pobre de mim!

--Cala-te, que vem gente! dizia-lhe Amaro furioso.

Ah, aquellas manhs na Ricoa! Eram para elle como uma penalidade
injusta. Ao entrar tinha de ir  velha escutar-lhe as lamurias. Depois,
era aquella hora com Amelia, que o torturava com as pieguices d'um
sentimentalismo hysterico,--estirada no sof, grossa como um tonel, com
a face entumecida, os olhos papudos...

N'uma d'essas manhs, Amelia, que se queixava de caimbras, quiz dar um
passeio pelo quarto apoiada a Amaro: e ia-se arrastando, enorme no seu
velho robe-de-chambre, quando se sentiram, em baixo no caminho, passos
de cavallos: chegaram  janella--mas Amaro recuou vivamente, deixando
Amelia que embasbacra com a face contra a vidraa. Na estrada,
galhardamente montado n'uma egoa baia, passava Joo Eduardo de paletot
branco e chapo alto; ao lado trotavam os dois Morgaditos, um n'um
poney, outro acorreado n'um burro; e atraz, a distancia, n'um passo de
respeito e de cortejo, um criado de farda, de bota de cano e espores
enormes, com uma libr muito larga que lhe fazia na ilharga rugas
grotescas, e no chapo a roseta escarlate. Ella ficra assombrada,
seguindo-os at que as costas do lacaio desappareceram  esquina da
casa. Sem uma palavra, veio sentar-se no sof. Amaro, que continuava
passeando pelo quarto, teve ento um risinho sarcastico:

--O idiota, de lacaio  retaguarda!

Ella no respondeu, muito escarlate. E Amaro, chocado, sahiu atirando
com a porta, foi para o quarto de D. Josepha contar-lhe a cavalgada, e
vituperar o Morgado.

--Um excommungado de criado de farda! exclamava a boa senhora, com as
mos apertadas na cabea. Que vergonha, senhor parocho, que vergonha
para a nobreza d'estes reinos!

Desde esse dia Amelia no tornou a choramigar, se pela manh o senhor
parocho no vinha. Quem esperava agora com impaciencia era o senhor
abbade Ferro, pela tarde. Apoderava-se d'elle, queria-o n'uma cadeira
junto ao canap: e depois de rodeios demorados d'ave que tenteia a
presa, cahia sobre a pergunta fatal--se tinha visto o senhor Joo
Eduardo?

Queria saber o que elle dissera, se fallra n'ella, se a avistra 
janella. Torturava-o com curiosidades sobre a casa do Morgado, a mobilia
da sala, o numero de lacaios e de cavallos, se o criado de farda servia
 mesa...

E o bom abbade respondia com paciencia--contente de a vr esquecida do
parocho, occupada de Joo Eduardo: tinha agora a certeza que aquelle
casamento se faria: ella evitava, de resto, pronunciar sequer o nome
d'Amaro, e uma vez mesmo respondeu ao abbade que lhe perguntava se o
senhor parocho voltra  Ricoa:

--Ai, vem pela manh vr a madrinha... Mas eu no lhe appareo, que nem
estou decente...

Todo o tempo que podia estar de p, passava-o agora  janella, muito
arranjada da cinta para cima que era o que se podia vr da
estrada--enxovalhada das saias para baixo. Estava esperando Joo
Eduardo, os Morgados e o lacaio; e tinha de vez em quando, com effeito,
o gozo de os vr passar, n'aquelle passo bem lanado de cavallos de
preo, sobretudo o da egoa baia de Joo Eduardo, que elle defronte da
Ricoa fazia sempre ladear, de chicote atravessado e perna  Marialva,
como lhe ensinra o Morgado. Mas era o lacaio, sobretudo, que a
encantava: e com o nariz nos vidros seguia-o n'um olhar guloso, at que
 volta da estrada via desapparecer o pobre velho, de dorso corcovado,
com a gola da farda at  nuca e as pernas bamboleantes.

E para Joo Eduardo que delicia aquelles passeios com os Morgaditos, na
egoa baia! Nunca deixava de ir  cidade: fazia-lhe bater o corao o som
das ferraduras sobre o lagedo: ia passar diante da Amparo da botica,
diante do cartorio do Nunes que tinha a sua banca ao p da janella,
diante da Arcada, diante do senhor administrador que l estava na
varanda de binoculo para a Telles--e o seu desgosto era no poder entrar
com a egoa, os Morgaditos e o lacaio pelo escriptorio do doutor Godinho
que era no interior da casa.

Foi um dia, depois d'um d'esses passeios triumphaes, que voltando s
duas horas da Barrosa, ao chegar ao Poo das Bentas e ao subir para o
caminho de carros, viu de repente o senhor padre Amaro que descia
montado n'um garrano. Immediatamente Joo Eduardo fez caracolar a egoa.
O caminho era to estreito, que apesar de se chegarem s sebes quasi
roaram os joelhos--e Joo Eduardo pde ento, do alto da sua egoa de
cincoenta moedas, agitando ameaadoramente o chicote, esmagar com um
olhar o padre Amaro que se encolhia muito pallido, com a barba por
fazer, a face biliosa, esporeando ferozmente o garrano ronceiro. No alto
do caminho Joo Eduardo ainda parou, voltou-se sobre a sella, e viu o
parocho que apeava  porta do casebre isolado onde ha pouco, ao passar,
os Morgaditos tinham rido do ano.

--Quem vive alli? perguntou Joo Eduardo ao lacaio.

--Uma Carlota... M gente, snr. Joosinho!

Ao passar na Ricoa, Joo Eduardo, como sempre, poz a passo a egoa baia.
Mas no viu por traz dos vidros a costumada face pallida sob o leno
escarlate. As portadas da janella estavam meio cerradas; e ao porto,
desatrellado com os vares em terra, o _cabriolet_ do doutor Gouva.


 que tinha chegado emfim o dia! N'essa manh viera da Ricoa um moo da
quinta com um bilhete de Amelia quasi inintelligivel--_Dionysia
depressa, a coisa chegou!_ Trazia ordem tambem de ir chamar o senhor
doutor Gouva. Amaro foi elle mesmo avisar a Dionysia.

Dias antes, tinha-lhe dito que D. Josepha, a propria D. Josepha, lhe
inculcra uma ama--que elle j ajustra, grande mulher, rija como um
castanheiro. E agora combinaram rapidamente que n'essa noite Amaro se
postaria com a ama  portinha do pomar, e Dionysia viria dar-lhe a
criana bem atabafada.

--s nove da noite, Dionysia. E no nos faa esperar!--recommendou-lhe
ainda Amaro vendo-a abalar n'um espalhafato.

Depois voltou a casa e fechou-se no quarto, face a face com aquella
difficuldade que elle sentia como uma coisa viva fixal-o e
interrogal-o:--Que havia de fazer  criana? Tinha ainda tempo d'ir aos
Poyaes ajustar a outra ama, a boa ama que a Dionysia conhecia; ou podia
montar a cavallo e ir  Barrosa fallar  Carlota... E alli estava,
diante d'aquelles dois caminhos, hesitando n'uma agonia. Queria serenar,
discutir aquelle caso como se fosse um ponto de theologia, pesando-lhe
os _prs_ e os _contras_: mas tinha temerariamente diante de si, em
logar de dois argumentos, duas vises:--a criana a crescer e a viver
nos Poyaes, ou a criana esganada pela Carlota a um canto da estrada da
Barrosa...--E, passeando pelo quarto, suava d'angustia, quando no
patamar a voz inesperada do Libaninho gritou:

--Abre, parochosinho, que sei que ests em casa!

Foi necessario abrir ao Libaninho, apertar-lhe a mo, offerecer-lhe uma
cadeira. Mas o Libaninho felizmente no se podia demorar. Passra na
rua, e subira a saber se o amigo parocho tinha noticias d'aquellas
santinhas da Ricoa.

--Vo bem, vo bem, disse Amaro que obrigava a face a sorrir, a
prazentear.

--Eu no tenho podido ir l, que tenho andado mais occupado!... Estou de
servio no quartel... No te rias, parochosinho, que estou l fazendo
muita virtude... Metto-me com os soldadinhos, fallo-lhes das chagas de
Christo...

--Andas a converter o regimento, disse Amaro que mexia nos papeis da
mesa, passeava, n'uma inquietao d'animal preso.

--No  para as minhas foras, parocho, que se eu pudesse!... Olha,
agora vou eu levar a um sargento uns bentinhos... Foram benzidos pelo
Saldanhinha, vo cheios de virtude. Hontem dei outros iguaes a um
anspeada, perfeito rapaz, um amor de rapaz... Puz-lh'os eu mesmo por
baixo da camisola... Perfeito rapaz!...

--Devias deixar esses cuidados pelo regimento ao coronel, disse Amaro
abrindo a janella, abafando d'impaciencia.

--Credo, olha o impio! Se o deixassem desbaptisava o regimento. Pois
adeus, parochosinho. Ests amarellinho, filho... Precisas purga, eu sei
o que isso .

Ia a sahir, mas  porta, parando:

--Ai, dize c, parochosinho, dize c: tu ouviste alguma coisa?

--De qu?

--Foi o padre Saldanha que m'o disse. Diz que o nosso chantre declarra
(palavras do Saldanhinha) que lhe constava que ia na cidade um escandalo
com um senhor ecclesiastico... Mas no disse _quem_ nem o _qu_... O
Saldanha quil-o sondar, mas o chantre diz que recebera s uma denuncia
vaga, sem nome... Tenho estado a pensar: quem ser?

--Pataratas do Saldanha...

--Ai, filho! Deus queira que sejam. Que quem folga so os impios...
Quando fres pela Ricoa d recados quellas santinhas...

E pulou pelos degraus a ir levar a virtude ao batalho.

Amaro ficra aterrado. Era elle decerto, eram os seus amores com Amelia
que j iam chegando ao vigario geral em denuncias tortuosas! E alli
vinha agora aquelle filho, criado a meia legua da cidade, ficar como uma
prova viva!... Parecia-lhe extraordinario, quasi sobrenatural, ter o
Libaninho, que em dois annos no lhe viera a casa duas vezes, ter o
Libaninho entrado com aquella nova terrivel, quando elle estava alli
n'uma batalha com a consciencia. Era como a Providencia, que sob a frma
grotesca do Libaninho, vinha trazer-lhe o seu aviso, murmurar-lhe: No
deixes viver quem te pde trazer o escandalo! Olha que j se suspeita de
ti!

Era decerto Deus apiedado que no queria que houvesse na terra mais um
engeitado, mais um miseravel,--e que _reclamava o seu anjo_!...

No hesitou: partiu para a estalagem do Cruz, e d'ahi a cavallo para a
casa de Carlota.

Demorou-se l at s quatro horas.

De volta a casa atirou o chapo para cima da cama, e sentiu emfim um
allivio de todo o seu sr. Estava acabado! L fallra  Carlota e ao
ano; l lhe pagra um anno adiantado; agora era esperar pela noite!...

Mas na solido do quarto toda a sorte de imaginaes morbidas o
assaltavam: via a Carlota a esganar a criancinha rxa; via os cabos de
policia mais tarde a desenterrar o cadaver, o Domingos da administrao
redigindo sobre um joelho o auto de corpo de delicto, e elle, de batina,
arrastado para a cadeia de S. Francisco, em ferros, ao lado do ano!
Tinha quasi vontade de montar a cavallo, voltar  Barrosa desfazer o
ajuste. Mas uma inercia retinha-o. Depois, nada o forava  noite a
entregar a criana  Carlota... Podia leval-a bem agasalhada  Joanna
Carreira, a boa ama dos Poyaes...

Para escapar quellas idas que lhe faziam sob o craneo um ruido de
tormenta, sahiu, foi vr Natario que j se erguia--e que lhe gritou
immediatamente do fundo da poltrona:

--Ento voss viu, Amaro! O idiota, de lacaio atraz!

Joo Eduardo passra-lhe na rua, na egoa baia, com os Morgadinhos; e
Natario desde ento rugia de impaciencia de estr alli amarrado 
cadeira e no poder recomear a campanha, expulsal-o por uma boa intriga
da casa do Morgado, arrancar-lhe a egoa e o lacaio.

--Mas no as perde, em Deus me dando pernas...

--Deixe l o homem, Natario, disse Amaro.

Deixal-o! quando tinha uma ida prodigiosa--que era provar ao Morgado,
com documentos, que o Joo Eduardo era um beato! Que lhe parecia, ao
amigo Amaro?

Era engraado, com effeito. O homem no deixava de o merecer, s pela
maneira como olhava para a gente de bem, do alto da egoa...--E Amaro
fazia-se vermelho, ainda indignado do encontro, de manh, no caminho de
carros da Barrosa.

--Est claro! exclamou Natario. Para que somos ns sacerdotes de
Christo? Para exaltar os humildes e derrubar os soberbos.

D'alli Amaro foi vr D. Maria da Assumpo--que j se erguera
tambem--que lhe fez a historia da sua bronchite e a enumerao dos
ultimos peccados: o peor era que, para se distrahir um bocado na
convalescena, recostava-se por traz da vidraa, e um carpinteiro que
mrava defronte embasbacava para ella; e por influencia do maligno, no
tinha foras para se retirar para dentro, e vinham-lhe pensamentos
maus...

--Mas vossa senhoria no est com atteno, senhor parocho.

--Ora essa, minha senhora!

E apressou-se a pacificar-lhe os escrupulos--porque a salvao d'aquella
velha alma idiota era para elle um emprego melhor que a mesma parochia.

J escurecia quando entrou em casa. A Escolastica queixou-se da demora
que lhe esturrra o jantar. Mas Amaro tomou apenas um copo de vinho e
uma garfada d'arroz, que enguliu de p, olhando com terror pela janella
a noite que impassivelmente cahia.

Entrava no quarto a vr se os candieiros j estavam accsos, quando o
coadjutor appareceu. Vinha fallar-lhe sobre o baptisado do filho do
Guedes, que estava marcado para o dia seguinte s nove horas.

--Trago luz?--disse de dentro a criada sentindo a visita.

--No! gritou logo Amaro.

Temia que o coadjutor visse a alterao que sentia nas faces, ou que se
installasse para toda a noite.

--Diz que vem na _Nao_ d'antes d'hontem um artigo muito bom, observou
o coadjutor, grave.

--Ah! fez Amaro.

Passeava no seu trilho costumado, do lavatorio para a janella; parava s
vezes a rufar nos vidros; j se tinham accendido os candieiros.

Ento o coadjutor, chocado com aquella treva do quarto e aquelle passear
de fera n'uma jaula, ergueu-se, e com dignidade:

--Estou a incommodar talvez...

--No!

E o coadjutor satisfeito sentou-se, com o seu guardachuva entre os
joelhos.

--Agora anoitece mais cedo, disse.

--Anoitece...

Emfim Amaro desesperado declarou-lhe que tinha uma enxaqueca odiosa, que
se ia encostar: e o homem sahiu, depois de lhe lembrar ainda o baptisado
do menino do seu amigo Guedes.

Amaro partiu logo para a Ricoa. Felizmente a noite estava tenebrosa e
quente, annunciando chuva. Ia agora tomado d'uma esperana que lhe fazia
bater o corao: era que a criana nascesse morta! E era bem possivel. A
S. Joanneira em nova tivera duas crianas mortas; a anciedade em que
vivera Amelia devia ter perturbado a gestao. E se ella morresse
tambem? Ento a esta ida, que nunca lhe acudira, invadiu-o bruscamente
uma piedade, uma ternura por aquella boa rapariga que o amava tanto, e
que agora, por obra d'elle, gritava dilacerada de dres. E todavia, se
ambos morressem, ella e a criana, era o seu peccado e o seu erro que
cahiam para sempre nos escuros abysmos da eternidade... Elle ficava,
como antes da sua vinda a Leiria, um homem tranquillo, occupado da sua
igreja, d'uma vida limpa e lavada como uma pagina branca!

Parou junto ao casebre em ruinas  beira da estrada, onde devia estar a
pessoa que da Barrosa vinha buscar a criana: no se tinha decidido se
seria o homem ou a Carlota: e Amaro receava encontrar o ano, para lhe
levar o filho, com aquelles olhos raiados d'um sangue mau. Fallou para
dentro, para as trevas do casebre:

--Ol!

Foi um allivio quando a clara voz da Carlota disse da negrura:

--C est!

--Bem,  esperar, snr.^a Carlota.

Estava contente: parecia-lhe que no tinha nada a temer, se o filho
partisse aninhado contra aquelle robusto seio de quarentona fecunda, to
fresca e to lavada.

Foi ento rondar a casa. Estava apagada e muda, como um empastamento
mais denso de sombra n'aquella lugubre noite de dezembro. Nem uma fenda
de luz sahia das janellas do quarto d'Amelia. No ar muito pesado nenhuma
folhagem ramalhava. E a Dionysia no apparecia.

Aquella demora torturava-o. Podia passar gente e vl-o rondar na
estrada. Mas repugnava-lhe ir occultar-se no casebre em ruinas ao p de
Carlota. Foi andando ao comprido do muro do pomar, voltou,--e viu ento
na porta envidraada do terrao uma claridade de luz apparecer.

Correu para a portinha verde do pomar que quasi immediatamente se abriu;
e a Dionysia, sem uma palavra, poz-lhe nos braos um embrulho.

--Morta? perguntou elle.

--Qual! Vivo! Um rapago!

E fechou a porta devagarinho, quando os ces, farejando rumor, comeavam
a ladrar.

Ento o contacto do seu filho, contra o seu peito, desmanchou como um
vendaval todas as idas d'Amaro. O qu! ir dal-o quella mulher, 
tecedeira d'anjos, que na estrada o atiraria a algum vallado, ou em casa
o arremessaria  latrina? Ah! no, era o seu filho!

Mas que fazer, ento? No tinha tempo de correr aos Poyaes e acordar a
outra ama... A Dionysia no tinha leite... No o podia levar para a
cidade... Oh! que desejo furioso de bater quella porta da quinta,
precipitar-se para o quarto d'Amelia, metter-lhe o pequerruchinho na
cama, muito agasalhado, e todos tres ficarem alli como no conchego d'um
co! Mas qu, era padre! Maldita fosse a religio que assim o esmagava!

De dentro do embrulho sahiu um gemido. Correu ento para o
casebre--quasi esbarrou com a Carlota, que se apoderou logo da criana.

--Ahi est, disse elle. Mas oua l. Isto agora  srio. Agora  outra
coisa. Olhe que o no quero morto...  para o tratar. O que se passou
no vale...  para o criar!  para viver. Voss tem a sua fortuna...
Trate d'elle!...

--No tem duvida, no tem duvida, dizia a mulher apressada.

--Escute... A criana no vai bem agasalhada. Ponha-lhe o meu capote.

--Vai bem, senhor, vai bem.

--No vai, com mil diabos!  o meu filho! Ha de levar o capote! No
quero que morra de frio!

Atirou-lh'o aos hombros com fora, traando-lh'o sobre o peito,
agasalhando a criana;--e a mulher j enfastiada metteu rapidamente pela
estrada.

Amaro ficou alli plantado no meio do caminho, vendo o vulto perder-se na
negrura. Ento todos os seus nervos, depois d'aquelle choque, se
relaxaram n'uma fraqueza de mulher sensivel--e rompeu a chorar.

Muito tempo rondou a casa. Mas ella permanecia na mesma escurido,
n'aquelle silencio que o aterrava. Depois, triste e fatigado, veio
voltando para a cidade, quando batiam as dez badaladas na S.


A essa hora, na sala de jantar da Ricoa, o doutor Gouva ceava
tranquillamente o frango assado que lhe preparra a Gertrudes, para
depois das canceiras do dia. O abbade Ferro, sentado junto da mesa,
assistia-lhe  ceia; viera munido dos sacramentos para o caso de haver
perigo. Mas o doutor estava satisfeito; durante as oito horas de dres a
rapariga mostrra-se corajosa; o parto fra feliz, de resto, e sahira um
rapago que fazia muita honra ao pap.

O bom abbade Ferro baixava castamente os olhos quelles detalhes, no
seu pudor de sacerdote.

--E agora, dizia o doutor trinchando o peito do frango, agora que eu
introduzi a criana no mundo, os senhores (e quando digo os senhores,
quero dizer a Igreja) apoderam-se d'elle e no o largam at  morte. Por
outro lado, ainda que menos sfregamente, o Estado no o perde de
vista... E ahi comea o desgraado a sua jornada do bero  sepultura,
entre um padre e um cabo de policia!

O abbade curvou-se, e tomou uma estrondosa pitada preparando-se para a
controversia.

--A Igreja, continuava o doutor com serenidade, comea, quando a pobre
creatura ainda nem tem sequer a consciencia da vida, por lhe impr uma
religio...

O abbade interrompeu, meio srio, meio rindo:

-- doutor, ainda que no seja seno por caridade com a sua alma, devo
advertil-o que o sagrado Concilio de Trento, canon decimo terceiro,
commina a pena d'excommunho contra todo o que disser que o baptismo 
nullo, por ser imposto sem a aceitao da razo.

--Tomo nota, abbade. Eu estou acostumado a essas amabilidades do
Concilio de Trento para commigo e outros collegas...

--Era uma assembla respeitavel! acudiu o abbade j escandalisado.

--Sublime, abbade. Uma assembla sublime. O Concilio de Trento e a
Conveno foram as duas mais prodigiosas assemblas d'homens que a terra
tem presenciado...

O abbade fez uma visagem de repugnacia quelle cotejo irreverente entre
os santos auctores da doutrina e os assassinos do bom rei Luiz XVI.

Mas o doutor proseguiu:

--Depois, a Igreja deixa a criana em paz algum tempo emquanto ella faz
a sua dentio e tem o seu ataque de lombrigas...

--V, v, doutor! murmurava o abbade, escutando-o pacientemente, de
olhos cerrados--como significando anda, anda, enterra bem essa alma no
abysmo de fogo e pez!

--Mas quando se manifestam no pequeno os primeiros symptomas de razo,
continuava o doutor, quando se torna necessario que elle tenha, para o
distinguir dos animaes, uma noo de si mesmo e do universo, ento
entra-lhe a Igreja em casa e explica-lhe tudo! Tudo! To completamente,
que um gaiato de seis annos que no sabe ainda o _b-a-b_ tem uma
sciencia mais vasta, mais certa, que as reaes academias combinadas de
Londres, Berlim e Paris! O velhaco no hesita um momento para dizer como
se fez o universo e os seus systemas planetarios; como appareceu na
terra a creao; como se succederam as raas; como passaram as
revolues geologicas do globo; como se formaram as linguas; como se
inventou a escripta... Sabe tudo: possue completa e immutavel a regra
para dirigir todas as aces e formar todos os juizos; tem mesmo a
certeza de todos os mysterios; ainda que seja myope como uma toupeira v
o que se passa na profundidade dos cos e no interior do globo; conhece,
como se no tivesse feito seno assistir a esse espectaculo, o que lhe
ha de succeder depois de morrer... No ha problema que no decida... E
quando a Igreja tem feito d'este marmanjo uma tal maravilha de saber,
manda-o ento aprender a lr... O que eu pergunto : para que?

A indignao tinha emmudecido o abbade.

--Diga l abbade, para que os mandam os senhores ensinar a lr? Toda a
sciencia universal, o _res scibilis_, est no Catecismo:  metter-lh'o
na memoria, e o rapaz possue logo a sciencia e consciencia de tudo...
Sabe tanto como Deus... De facto,  Deus mesmo.

O abbade pulou.

--Isso no  discutir, exclamou, isso no  discutir!... Isso so
chalaas  Voltaire! Essas coisas devem-se tratar mais d'alto...

--Como chalaas, abbade? Tome um exemplo: a formao das linguas. Como
se formaram? Foi Deus, que descontente com a Torre de Babel...

Mas a porta da sala abriu-se, e appareceu a Dionysia. Havia pouco o
doutor tinha-lhe dado uma desanda no quarto d'Amelia; e agora a matrona
fallava-lhe sempre encolhida de terror.

--Senhor doutor, disse ella no silencio que se fez, a menina acordou e
diz que quer o filho.

--E ento? A criana levaram-n'a, no?

--A criana levaram-n'a... disse a Dionysia.

--Bem, acabou-se...

Dionysia ia fechar a porta, mas o doutor chamou-a.

--Oua l, diga-lhe que a criana vem manh... Que manh sem falta que
lh'a trazem. Minta. Minta como um co; aqui o senhor abbade d
licena... Que durma, que socegue.

A Dionysia retirou-se. Mas a controversia no recomeou: diante
d'aquella mi que acordava depois da fadiga do parto e reclamava o seu
filho, o filho que lhe tinham levado para longe e para sempre, os dois
velhos esqueceram a Torre de Babel e a formao das linguas. O abbade
sobretudo parecia commovido. Mas o doutor no tardou, sem piedade, a
lembrar-lhe que eram aquellas as consequencias da situao do padre na
sociedade...

O abbade baixou os olhos, occupado na sua pitada, sem responder, como
ignorando que houvesse um padre n'aquella historia infeliz.

O doutor ento, seguindo a sua ida, discursou contra a preparao e
educao ecclesiastica.

--Ahi tem o abbade uma educao dominada inteiramente pelo absurdo:
resistencia s mais justas solicitaes da natureza, e resistencia aos
mais elevados movimentos da razo. Preparar um padre  crear um monstro
que ha de passar a sua desgraada existencia n'uma batalha desesperada
contra os dois factos irresistiveis do universo--a fora da Materia e a
fora da Razo!

--Que est o senhor a dizer? exclamou assombrado o abbade.

--Estou a dizer a verdade. Era que consiste a educao d'um sacerdote?
_Prim_: em o preparar para o celibato e para a virgindade; isto , para
a suppresso violenta dos sentimentos mais naturaes. _Secund_: em
evitar todo o conhecimento e toda a ida que seja capaz d'abalar a f
catholica; isto , a suppresso forada do espirito d'indagao e
d'exame, portanto de toda a sciencia real e humana...

O abbade erguera-se, ferido d'uma piedosa indignao:

--Pois o senhor nega  Igreja a sciencia?

--Jesus, meu caro abbade, continuou tranquillamente o doutor, Jesus, os
seus primeiros discipulos, o illustre S. Paulo representaram em
parabolas, em epistolas, n'um prodigioso fluxo labial, que as produces
do espirito humano eram inuteis, pueris, e sobretudo perniciosas...

O abbade passeava pela sala, indo contra um e outro movel como um boi
espicaado, apertando as mos na cabea na desolao d'aquellas
blasphemias; no se conteve, gritou:

--O senhor no sabe o que diz!... Perdo, doutor, peo-lhe humildemente
perdo... O senhor faz-me cahir em peccado mortal... Mas isso no 
discutir... Isso  fallar com a leviandade d'um jornalista...

Lanou-se ento com calor n'uma dissertao sobre a sabedoria da Igreja,
os seus altos estudos gregos e latinos, toda uma philosophia creada
pelos santos padres...

--Leia S. Basilio! exclamou. L ver o que elle diz dos estudos dos
auctores profanos, que so a melhor preparao para os estudos sagrados!
Leia a _Historia dos mosteiros na meia idade_! Era l que estava a
sciencia, a philosophia...

--Mas que philosophia, senhor, mas que sciencia! Por philosophia meia
duzia de concepes d'um espirito mythologico, em que o mysticismo 
posto em logar dos instinctos sociaes... E que sciencia! Sciencia de
commentadores, sciencia de grammaticos... Mas vieram outros tempos,
nasceram sciencias novas que os antigos tinham ignorado, a que o ensino
ecclesiastico no offerecia nem base nem methodo, estabeleceu-se logo o
antagonismo entre ellas e a doutrina catholica!... Nos primeiros tempos,
a Igreja ainda tentou supprimil-as pela perseguio, a masmorra, o fogo!
Escusa de se torcer, abbade... O fogo, sim, o fogo e a masmorra. Mas
agora no o pde fazer e limita-se a vituperal-as em mau latim... E no
emtanto contina a dar nos seus seminarios e nas suas esclas o ensino
do passado, o ensino anterior a essas sciencias, ignorando-as, e
desprezando-as, refugiando-se na escolastica... Escusa d'apertar as mos
na cabea... Estranha ao espirito moderno, hostil nos seus principios e
nos seus methodos ao desenvolvimento espontaneo dos conhecimentos
humanos... O senhor no  capaz de negar isto! Veja o _Syllabus_ no seu
canon terceiro excommungando a Razo... No seu canon decimo terceiro...

A porta abriu-se timidamente; era ainda a Dionysia:

--A pequena est a choramingar, diz que quer a criana.

--Mau, mau! disse o doutor.

E depois d'um momento:

--Que tal aspecto tem ella? Est crada? Est inquieta?

--No senhor, est bem. S a choramingar, a fallar no pequeno... Diz que
o quer hoje por fora...

--Converse com ella, distraia-a... Veja se ella adormece...

A Dionysia retirou-se; e o abbade logo com cuidado:

-- doutor, suppe que lhe possa fazer mal o affligir-se?

--Pde-lhe fazer mal, abbade, pde--disse o doutor que rebuscava na sua
pharmacia portatil. Mas eu vou-a fazer dormir... Pois  verdade, a
Igreja hoje  uma intrusa, abbade!

O abbade tornou a levar as mos  cabea.

--Escusa de ir mais longe, abbade. Veja a Igreja em Portugal.  grato
observar-lhe o estado de decadencia...

Pintou-lh'o a largos traos, de p, com o seu frasco na mo. A Igreja
fra a Nao; hoje era uma minoria tolerada e protegida pelo Estado.
Dominra nos tribunaes, nos conselhos da cora, na fazenda, na armada,
fazia a guerra e a paz; hoje um deputado da maioria tinha mais poder que
todo o clero do reino. Fra a sciencia no paiz; hoje tudo o que sabia
era algum latim macarronico. Fra rica, tinha possuido no campo
districtos inteiros e ruas inteiras na cidade; hoje dependia para o seu
triste po diario do ministro da justia, e pedia esmola  porta das
capellas. Recrutra-se entre a nobreza, entre os melhores do reino; e
hoje, para reunir um pessoal, via-se no embarao e tinha de o ir buscar
aos engeitados da Misericordia. Fra a depositaria da tradio nacional,
do ideal collectivo da patria; e hoje, sem communicao com o pensamento
nacional (se  que o ha) era uma estrangeira, uma cidad de Roma,
recebendo de l a lei e o espirito...

--Pois se est assim to prostrada, mais uma razo para a amar!--disse o
abbade, erguendo-se escarlate.

Mas a Dionysia tinha de novo apparecido  porta.

--Que temos mais?

--A menina est-se a queixar d'um peso na cabea. Diz que sente fascas
diante dos olhos...

O doutor ento immediatamente, sem uma palavra, seguiu a Dionysia. O
abbade, s, passeava pela sala ruminando toda uma argumentao erriada
de textos, de nomes formidaveis de theologos, que ia fazer desabar sobre
o doutor Gouva. Mas, meia hora passou, a luz do candieiro ia
esmorecendo, e o doutor no voltou.


Ento aquelle silencio da casa, onde s o som dos seus passos sobre o
soalho da sala punha uma nota viva, comeou a impressionar o velho.
Abriu a porta devagarinho, escutou; mas o quarto d'Amelia era muito
afastado, ao fim da casa, ao p do terrao; no vinha de l nem rumor
nem luz. Recomeou o seu passeio solitario na sala, n'uma tristeza
indefinida que o ia invadindo. Desejaria bem ir vr tambem a doente; mas
o seu caracter, o pudor sacerdotal no lhe permittiam aproximar-se
sequer d'uma mulher no leito, em trabalho de parto, a no ser que o
perigo reclamasse os sacramentos. Outra hora mais longa, mais funebre,
passou. Ento, em pontas de ps, crando na escurido d'aquella audacia,
foi at ao meio do corredor: agora, aterrado, sentia no quarto d'Amelia
um ruido confuso e surdo de ps movendo-se vivamente no soalho, como
n'uma lucta. Mas nem um ai, nem um grito. Recolheu  sala, e abrindo o
seu Breviario comeou a rezar. Sentiu os chinelos da Gertrudes passarem
rapidamente, n'uma carreira. Ouviu uma porta a distancia bater. Depois o
arrastar no soalho d'uma bacia de lato. E emfim o doutor appareceu.

A sua figura fez empallidecer o abbade: vinha sem gravata, com o
collarinho espedaado; os botes do collete tinham saltado; e os punhos
da camisa, voltados para traz, estavam todos manchados de sangue.

--Alguma coisa, doutor?

O doutor no respondeu, procurando rapidamente pela sala o seu estojo,
com a face animada d'um calor de batalha. Ia j sahir com o estojo, mas
lembrando-lhe a pergunta anciosa do abbade:

--Tem convulses, disse.

O abbade ento deteve-o  porta, e muito grave, muito digno:

--Doutor, se ha perigo, peo-lhe que se lembre...  uma alma christ em
agonia, e eu estou aqui.

--Certamente, certamente...

O abbade tornou a ficar s, esperando. Tudo dormia na Ricoa, D.
Josepha, os caseiros, a quinta, os campos em redor. Na sala, um relogio
de parede, enorme e sinistro, que tinha no mostrador a carranca do sol e
em cima sobre o caixilho a figura esculpida em pau d'uma coruja
pensativa, um movel de castello antigo, bateu a meia noite, depois uma
hora. O abbade a cada momento ia at ao meio do corredor: era o mesmo
rumor de ps n'uma lucta; outras vezes um silencio tenebroso. Voltava
ento para o seu Breviario. Meditava n'aquella pobre rapariga que, alm
no quarto, estava talvez no momento que ia decidir da sua eternidade:
no tinha ao p nem a mi, nem as amigas: na memoria apavorada devia
passar-lhe a viso do peccado: diante dos olhos turvos apparecia-lhe a
face triste do Senhor offendido: as dres contorciam o seu corpo
miseravel: e na escurido em que ia penetrando, sentia j o halito
ardente da aproximao de Satanaz. Temeroso fim do tempo e da
carne!--Ento rezava fervorosamente por ella.

Mas depois pensava no outro que fra uma metade do seu peccado, e que
agora na cidade, estirado na cama, resonava tranquillamente. E rezava
ento tambem por elle.

Tinha sobre o Breviario um pequeno **crucifixo**. E contemplava-o com
amor, abysmava-se enternecido na certeza da sua fora, contra a qual era
bem pouca a sciencia do doutor e todas as vaidades da razo!
Philosophias, idas, glorias profanas, geraes e imperios passam: so
como os suspiros ephemeros do esforo humano: s ella permanece e
permanecer, a cruz--esperana dos homens, confiana dos desesperados,
amparo dos frageis, asylo dos vencidos, fora maior da humanidade: _crux
triumphus adversus demonios, crux oppugnatorum murus_...

Ento o doutor entrou, muito escarlate, vibrante d'aquella tremenda
batalha que estava dando l dentro  morte; vinha buscar outro frasco;
mas abriu a janella, sem uma palavra, para respirar um momento uma
golfada d'ar fresco.

--Como vai ella? perguntou o abbade.

--Mal, disse o doutor sahindo.

O abbade, ento, ajoelhou, balbuciou a orao de S. Fulgencio:

--Senhor, d-lhe primeiro a paciencia, d-lhe depois a misericordia...

E alli ficou, com a face nas mos, apoiado  beira da mesa.

A um rumor de passos na sala ergueu a cabea. Era a Dionysia, que
suspirava, recolhendo todos os guardanapos que encontrava nas gavetas do
aparador.

--Ento, senhora, ento? perguntou-lhe o abbade.

--Ai, senhor abbade, est perdidinha... Depois das convulses que foram
d'arripiar, cahiu n'aquelle somno, que  o somno da morte...

E olhando para todos os cantos como para se assegurar da solido, disse
muito excitada:

--Eu no quiz dizer nada... Que o senhor doutor tem um genio!... Mas
sangrar a rapariga n'aquelle estado  querer matal-a... Que ella tinha
perdido pouco sangue,  verdade... Mas nunca se sangra ninguem em
semelhante momento. Nunca, nunca!

--O senhor doutor  homem de muita sciencia...

--Pde ter a sciencia que quizer... Eu tambem no sou nenhuma tola...
Tenho vinte annos d'experiencia... Nunca me morreu nenhuma nas mos,
senhor abbade... Sangrar em convulses! At causa horror!...

Estava indignada. O senhor doutor tinha torturado a creaturinha. At lhe
quizera administrar chloroformio...

Mas a voz do doutor Gouva berrou por ella do fundo do corredor--e a
matrona abalou, com o seu mlho de guardanapos.

O medonho relogio, com a sua coruja pensativa, bateu as duas horas,
depois as tres... O abbade, agora, cedia a espaos a uma fadiga de
velho, cerrando um momento as palpebras. Mas resistia bruscamente: ia
respirar o ar pesado da noite, olhar aquella treva de toda a aldeia; e
voltava a sentar-se, a murmurar, com a cabea baixa, as mos postas
sobre o Breviario:

--Senhor, volta os teus olhos misericordiosos para aquelle leito
d'agonia...

Foi ento Gertrudes que appareceu commovida. O senhor doutor mandra-a a
baixo acordar o moo para pr a egoa ao _cabriolet_.

--Ai, senhor abbade, pobre creaturinha! Ia to bem, e de repente isto...
Que foi por lhe tirarem o filho... Eu no sei quem  o pai, mas o que
sei  que n'isto tudo anda um peccado e um crime!...

O abbade no respondeu, orando baixo pelo padre Amaro.

O doutor ento entrou com o seu estojo na mo:

--Se quizer, abbade, pde ir, disse.

Mas o abbade no se apressava, olhando o doutor, com uma pergunta a
bailar-lhe nos labios entreabertos, e retendo-a por timidez: emfim, no
se conteve, e n'um tom de medo:

--Fez-se tudo, no ha remedio, doutor?

--No.

-- que ns, doutor, no devemos aproximar-nos d'uma mulher em parto
illegitimo seno n'um caso extremo...

--Est n'um caso extremo, senhor abbade, disse o doutor, vestindo j o
seu grande casaco.

O abbade ento recolheu o Breviario, a cruz--mas antes de sahir,
julgando do seu dever de sacerdote pr diante do medico racionalista a
certeza da eternidade mystica que se desprende do momento da morte,
murmurou ainda:

-- n'este instante que se sente o terror de Deus, o vo do orgulho
humano...

O doutor no respondeu, occupado a afivelar o seu estojo.

O abbade sahiu--mas, j no meio do corredor, voltou ainda, e fallando
com inquietao:

--O doutor desculpe... Mas tem-se visto, depois dos soccorros da
religio, os moribundos voltarem a si de repente, por uma graa
especial... A presena do medico ento pde ser util...

--Eu ainda no vou, ainda no vou, disse o doutor, sorrindo
involuntariamente de vr a presena da Medicina reclamada para auxiliar
a efficacia da Graa.

Desceu, a vr se estava prompto o _cabriolet_.

Quando voltou ao quarto d'Amelia, a Dionysia e a Gertrudes, de rojos ao
lado da cama, rezavam. O leito, todo o quarto estava revolvido como um
campo de batalha. As duas velas consumidas extinguiam-se. Amelia estava
immovel, com os braos hirtos, as mos crispadas d'uma cr de purpura
escura--e a mesma cr mais arroxeada cobria-lhe a face rigida.

E debruado sobre ella, com o crucifixo na mo, o abbade dizia ainda,
n'uma voz d'angustia:

--_Jesu, Jesu, Jesu!_ Lembra-te da graa de Deus! Tem f na misericordia
divina! Arrepende-te no seio do Senhor! _Jesu, Jesu, Jesu!_

Por fim, sentindo-a morta, ajoelhou, murmurando o _Miserere_. O doutor
que ficra  porta retirou-se devagarinho, atravessou em bicos de ps o
corredor, e desceu  rua, onde o moo segurava a egoa atrellada.

--Vamos ter agua, senhor doutor, disse o rapaz bocejando de somno.

O doutor Gouva ergueu a gola do paletot, accommodou o seu estojo no
assento--e d'ahi a um momento o _cabriolet_ rodava surdamente pela
estrada, sob a primeira pancada de chuva, cortando a escurido da noite
com o claro vermelho das suas duas lanternas.




XXV


Ao outro dia desde as sete da manh, o padre Amaro esperava a Dionysia
em casa, postado  janella, com os olhos cravados na esquina da rua, sem
reparar na chuva miudinha que lhe fustigava a face. Mas a Dionysia no
apparecia: e elle teve de partir para a S, amargurado e doente, a
baptisar o filho do Guedes.

Foi uma pesada tortura para elle vr aquella gente alegre que punha na
gravidade da S, mais sombria por esse escuro dia de dezembro, todo um
rumor mal contido de regosijo domestico e de festa paterna; o pap
Guedes resplandecente de casaca e gravata branca, o padrinho
compenetrado com uma grande camelia ao peito, as senhoras de gala, e
sobretudo a parteira rechonchuda, passeando com pompa um monto de
rendas engommadas e de laarotes azues onde mal se percebiam duas
bochechinhas trigueiras. Ao fundo da igreja, com o pensamento bem longe
na Ricoa e na Barrosa, foi engorolando  pressa as ceremonias: soprando
em cruz sobre a face do pequerrucho para expulsar o Demonio que j
habitava aquellas carninhas tenras; impondo-lhe o sal sobre a bca para
que elle se desgostasse para sempre do sabor amargo do peccado e tomasse
gosto a nutrir-se s da verdade divina; tocando-o com saliva nas orelhas
e nas narinas, para que elle no escutasse jmais as solicitaes da
carne e jmais respirasse os perfumes da terra. E em roda, com tochas na
mo, os padrinhos, os convidados, na fadiga que davam tantos latins
rosnados  pressa, s se occupavam do pequeno, n'um receio que elle no
respondesse com algum desacato impudente s tremendas exhortaes que
lhe fazia a Igreja sua Mi.

Amaro, ento, pondo de leve o dedo sobre a touquinha branca, exigiu do
pequerrucho que elle, alli em plena S, renunciasse para sempre a
Satanaz, s suas pompas e s suas obras. O sacristo Mathias, que dava
em latim as respostas rituaes, renunciou por elle--emquanto o pobre
pequerrucho abria a boquinha a procurar o bico da mama. Emfim o parocho
dirigiu-se  pia baptismal seguido de toda a familia, das velhas devotas
que se tinham juntado, de gaiatos que esperavam uma distribuio de
patacos. Mas foi toda uma atrapalhao para fazer as unes: a parteira
commovida no atinava a desapertar os laarotes do chambre, para pr a
n os hombrosinhos, o peito do pequeno; a madrinha quiz ajudal-a: mas
deixou escorregar a tocha, alastrou de cera derretida o vestido d'uma
senhora, uma visinha dos Guedes, que ficou embezerrada de raiva.

--Franciscus, credis?--perguntava Amaro.

O Mathias apressou-se a affirmar, em nome de Francisco:

--Credo.

--Franciscus, vis baptisari?

O Mathias:

--Volo.

Ento a agua lustral cahiu sobre a cabecinha redonda como um melo
tenro: a criana agora perneava n'uma perrice.

--Ego te baptiso, Franciscus, in nomine Patris... et Filiis... et
Espiritus Sancti...

Emfim, acabra! Amaro correu  sacristia a desvestir-se--emquanto a
parteira grave, o pap Guedes, as senhoras enternecidas, as velhas
devotas e os gaiatos sahiam ao repique dos sinos; e agachados sob os
guardachuvas, chapinhando a lama, l iam levando em triumpho Francisco,
o novo christo.

Amaro galgou os degraus de casa com o presentimento que ia encontrar a
Dionysia.

L estava, com effeito, sentada no quarto, esperando-o, amarrotada,
enxovalhada da lucta da noite e da lama da estrada: e apenas o viu
comeou a choramingar.

--Que , Dionysia?

Ella rompeu em soluos, sem responder.

--Morta! exclamou Amaro.

--Ai, fez-se-lhe tudo, filho, fez-se-lhe tudo! gritou emfim a matrona.

Amaro tombou para os ps da cama como morto tambem.

A Dionysia berrou pela criada. Inundaram-lhe a face d'agua, de vinagre.
Elle recuperou-se um pouco, muito pallido: afastou-as com a mo, sem
fallar; e atirou-se de bruos para sobre o travesseiro, n'um chro
desesperado,--emquanto as duas mulheres consternadas iam recolhendo 
cozinha.

--Parece que tinha muita amizade  menina, comeou a Escolastica,
fallando baixo como na casa d'um moribundo.

--Costume d'ir por l. Foi hospede tanto tempo... Ai, eram como
irmos...--disse a Dionysia, ainda chorosa.

Fallaram ento de doenas de corao--porque a Dionysia contra 
Escolastica que a pobre menina tinha morrido d'um aneurisma rebentado. A
Escolastica tambem soffria do corao; mas n'ella eram flatos, dos maus
tratos que lhe dera o marido... Ah, tinha sido bem infeliz tambem!

--Vossemec toma uma gotinha de caf, snr.^a Dionysia?

--Olhe, a fallar a verdade, snr.^a Escolastica, tomava uma gotinha de
geropiga...

A Escolastica correu  taberna ao fim da rua, trouxe a geropiga n'um
copo de quartilho debaixo do avental: e ambas  mesa, uma molhando sopas
no caf, outra escorropichando o copo, concordavam, com suspiros, que
n'este mundo tudo eram sustos e lagrimas.

Deram onze horas: e a Escolastica pensava em levar um caldo ao senhor
parocho, quando elle chamou de dentro. Estava de chapo alto, com o
casaco abotoado, os olhos vermelhos como carves...

--Escolastica, v a correr ao Cruz que me mande um cavallo... Mas
depressa.

Chamou ento a Dionysia: e sentado ao p d'ella, quasi contra os joelhos
da mulher, com a face rigida e livida como um marmore, escutou em
silencio a historia da noite--as convulses de repente, to fortes que
ella, a Gertrudes e o senhor doutor mal a podiam segurar! o sangue, as
prostraes em que cahia! depois a anciedade da asphyxia que a fazia to
rxa como a tunica d'uma imagem...

Mas o moo do Cruz chegra com o cavallo. Amaro tirou d'uma gaveta,
d'entre roupa branca, um pequeno crucifixo, deu-o  Dionysia que ia
voltar  Ricoa para ajudar a amortalhar a menina.

--Que lhe ponham este crucifixo no peito, tinha-m'o ella dado...

Desceu, montou; e apenas na estrada da Barrosa despediu a galope. No
chovia, agora; e entre as nuvens pardas algum raio fraco do sol de
dezembro fazia brilhar a relva, as pedras molhadas.

Quando chegou ao p do poo entulhado, d'onde se avistava a casa de
Carlota, teve de parar, para deixar passar um longo rebanho d'ovelhas
que tomava o caminho; e o pastor, com uma pelle de cabra ao hombro e a
borracha a tiracollo, fez-lhe lembrar de repente Feiro, toda a vida
passada, que lhe voltava por fragmentos bruscos--aquellas paizagens
afogadas nos vapores pardacentos da serra; a Joanna rindo estupidamente
dependurada da corda do sino; as suas ceias de cabrito assado na
Gralheira, com o abbade, defronte da chamin, onde a lenha verde
estalava; os longos dias em que se desesperava na tristeza da
residencia, vendo fra sem cessar cahir a neve... E veio-lhe um desejo
ancioso d'essas solides da serra, d'essa existencia de lobo, longe dos
homens e das cidades, sepultado l com a sua paixo.

A porta da Carlota estava fechada. Bateu, foi de roda chamar, atirando a
voz por cima do telhado dos curraes, para o pateo, onde sentia cacarejar
os gallos. Ninguem respondeu. Seguiu ento pelo caminho da aldeia,
levando a egoa pela arreata; parou na taberna, onde uma mulher obesa
fazia meia sentada  porta. Dentro, no escuro da baiuca, dois homens com
os seus quartilhos ao lado, batiam as cartas n'uma bisca renhida; e um
rapazola d'uma amarellido de sezes, com um leno amarrado na cabea,
olhava-lhes o jogo tristemente.

A mulher tinha justamente visto passar a snr.^a Carlota, que at parra
a comprar um quartilho de azeite. Devia estar em casa da Michaela, ao
adro. Chamou para dentro; uma rapariguita vesga appareceu de traz da
sombra das pipas.

--Corre, vai  Michaela, dize  snr.^a Carlota que est aqui um senhor
da cidade.

Amaro voltou para a porta da Carlota, esperou sentado n'uma pedra, com o
seu cavallo pela redea. Mas aquella casa fechada e muda aterrava-o. Foi
pr o ouvido  fechadura, na esperana d'ouvir um chro, uma rabuje de
criana. Dentro pesava um silencio de caverna abandonada. Mas
tranquillisava-o a ida que a Carlota teria levado a criana comsigo,
para Michaela. Devia realmente ter perguntando  mulher na taberna, se a
Carlota trazia uma criana ao collo... E olhava a casa bem caiada, com a
sua janella em cima que tinha uma cortininha de cassa, um luxo to raro
n'aquellas freguezias pobres; recordava a boa ordem, o escarolado da
loua da cozinha... Decerto, o pequerrucho devia ter tambem um bero
aceado...

Ah, estava doido decerto na vespera, quando puzera alli, na mesa da
cozinha, quatro libras em ouro, preo adiantado d'um anno de criao, e
dissera cruelmente ao ano--conto comsigo! Pobre pequerruchinho!...
Mas a Carlota comprehendera bem,  noite na Ricoa, que elle agora
queria-o vivo, o seu filho, e creado com mimo!... Todavia no o deixaria
alli, no, sob o olho raiado de sangue do ano... Leval-o-hia essa noite
 Joanna Carreira dos Poyaes...

Que as sinistras historias da Dionysia, a _tecedeira d'anjos_, eram uma
legenda insensata. A criana estava muito regalada em casa de Michaela,
chupando aquelle bom peito de quarentona s... E vinha-lhe ento o mesmo
desejo de deixar Leiria, ir enterrar-se em Feiro, levar comsigo a
Escolastica, educar l a criana como sobrinho, revivendo n'elle
largamente todas as emoes d'aquelle romance de dois annos; e alli
passaria n'uma paz triste, na saudade de Amelia, at ir como o seu
antecessor, o abbade Gustavo que tambem crera um sobrinho em Feiro,
repousar para sempre no pequeno cemiterio, de vero sob as flres
silvestres, de inverno sob a neve branca.

Ento a Carlota appareceu; e ficou attonita ao reconhecer Amaro, sem
passar da cancella, com a testa franzida, a sua bella face muito grave.

--A criana? exclamou Amaro.

Depois d'um momento, ella respondeu, sem perturbao:

--Nem me falle n'isso, que me tem dado um desgosto... Hontem mesmo, duas
horas depois de ter chegado... O pobre anjinho comea a fazer-se rxo, e
alli me morreu debaixo dos olhos...

--Mente! gritou Amaro. Quero vr.

--Entre, senhor, se quer vr.

--Mas que lhe disse eu hontem, mulher?

--Que quer, senhor? Morreu. Veja...

Tinha aberto a porta, muito simplesmente, sem clera nem receio. Amaro
entreviu n'um relance, ao p da chamin, um bero coberto com um saiote
escarlate.

Sem uma palavra voltou as costas, atirou-se para cima do cavallo. Mas a
mulher, muito loquaz subitamente, rompeu a dizer que tinha ido
justamente  aldeia para encommendar um caixosinho decente... Como vira
que era filho de pessoa de bem, no o quisera enterrar embrulhado n'um
trapo. Mas emfim, como o senhor alli estava, parecia-lhe razoavel que
dsse algum dinheiro para a despeza... Uns dois mil reis que fossem.

Amaro considerou-a um momento com um desejo brutal de a esganar; por
fim, metteu-lhe o dinheiro na mo. E ia trotando no carreiro, quando a
sentiu ainda correndo, gritando _pst! pst!_ A Carlota queria-lhe
restituir o capote que elle emprestra na vespera: tinha feito muito bom
servio, que a criana chegra quente como um rojosinho...
Infelizmente...

Amaro j a no escutava, esporeando furiosamente a ilharga da
cavalgadura.

Na cidade, depois de apear  porta do Cruz, no entrou em casa. Foi
direito ao pao do bispo. Tinha agora uma ida s: era deixar aquella
cidade maldita, no vr mais as faces das devotas, nem a fachada odiosa
da S...

Foi s ao subir a larga escadaria de pedra do pao, que lhe lembrou com
inquietao o que o Libaninho dissera na vespera da indignao do senhor
vigario geral, da denuncia obscura... Mas a affabilidade do padre
Saldanha, o confidente do pao, que o introduziu logo na livraria de sua
excellencia, tranquillisou-o. O senhor vigario geral foi muito amavel.
Estranhou o ar pallido e perturbado do senhor parocho...

-- que tenho um grande desgosto, senhor vigario geral. Minha irm est
a morrer em Lisboa. E venho pedir a vossa excellencia licena para l
ir, por uns dias...

O senhor vigario geral consternou-se com bondade.

--Decerto, consinto... Ah! somos todos passageiros forados da barca de
Charonte.


Ipse ratem conto subigit, velisque ministrat
Et ferruginea subvectat corpora cymba.


Ninguem lhe escapa... Sinto, sinto... No me esquecerei de a recommendar
nas minhas oraes...

E muito methodico, sua excellencia tomou uma nota a lapis.

Amaro, ao sahir do pao, foi direito  S. Fechou-se na sacristia, a
essa hora deserta: e depois de pensar muito tempo com a cabea entre os
punhos, escreveu ao conego Dias:

Meu caro padre-mestre.--Treme-me a mo ao escrever estas linhas. A
infeliz morreu. Eu no posso, bem v, e vou-me embora, porque, se aqui
ficasse, estalava-me o corao. Sua excellentissima irm l estar
tratando do enterro... Eu, como comprehende, no posso. Muito lhe
agradeo tudo... At um dia, se Deus quizer que nos tornemos a vr. Por
mim conto ir para longe, para alguma pobre parochia de pastores, acabar
meus dias nas lagrimas, na meditao e na penitencia. Console como puder
a desgraa da mi. Nunca me esquecerei do que lhe devo, emquanto tiver
um sopro de vida. E adeus, que nem sei onde tenho a cabea.--Seu amigo
do C.--_Amaro Vieira_.

P. S. A criana morreu tambem, j se enterrou.


Fechou a carta com uma obreia preta; e depois d'arranjar os seus papeis,
foi abrir o grande porto chapeado de ferro, olhar um momento o pateo, o
barraco, a casa do sineiro... As nevoas, as primeiras chuvas j davam
quelle recanto da S o seu ar lugubre d'inverno. Adiantou-se devagar,
sob o silencio triste dos altos contrafortes, espreitou  vidraa da
cozinha do tio Esguelhas: elle l estava, sentado  chamin, com o
cachimbo na bca, cuspilhando tristemente para as cinzas. Amaro bateu de
leve nos vidros--e quando o sineiro abriu a porta, aquelle interior
conhecido, rapidamente entrevisto, a cortina da alcova da Tt, a escada
que ia para o quarto, agitaram o parocho de tantas recordaes e de
saudades to bruscas, que no pde fallar um momento, com a garganta
tomada de soluos.

--Venho-lhe dizer adeus, tio Esguelhas, murmurou por fim. Vou a Lisboa,
tenho minha irm a morrer...

E acrescentou com os beios tremulos d'um chro que ia romper:

--Todas as desgraas vm juntas. Sabe, a pobre Ameliasinha l morreu de
repente...

O sineiro emmudeceu, assombrado.

--Adeus, tio Esguelhas. D c a mo, tio Esguelhas. Adeus...

--Adeus, senhor parocho, adeus! disse o velho com os olhos arrazados
d'agua.

Amaro fugiu para casa, contendo-se para no soluar alto pelas ruas.
Disse logo  Escolastica que ia partir n'essa noite para Lisboa. O tio
Cruz devia mandar-lhe um cavallo, para ir tomar o comboio a Cho de
Mas.

--Eu no tenho seno o dinheiro que  necessario para a jornada. Mas o
que ahi me fica em lenoes e toalhas  para voss...

A Escolastica, chorando de perder o senhor parocho, quiz beijar-lhe a
mo por tanta generosidade: offereceu-se para fazer a mala...

--Eu mesmo a arranjo, Escolastica, no se incommode.

Fechou-se no quarto. A Escolastica, ainda choramingando, foi logo
recolher, examinar as poucas roupas que estavam pelos armarios. Mas
Amaro d'ahi a pouco gritou por ella: diante da janella uma harpa e uma
rebeca, em desafinao, tocavam a valsa dos _Dois mundos_.

--D um tosto a esses homens, disse o padre furioso. E diga-lhe que vo
p'r' inferno... Que est aqui gente doente!

E at s cinco horas a Escolastica no tornou a sentir rumor no quarto.

Quando o moo do Cruz veio com o cavallo, pensando que o senhor parocho
adormecera, ella foi-lhe bater devagarinho  porta do quarto,
choramingando j da despedida proxima. Elle abriu logo. Estava de capote
aos hombros; no meio do quarto prompta e acorreada a mala de lona que
devia ir  garupa da egoa. Deu-lhe um mao de cartas para ir entregar
n'essa noite  snr.^a D. Maria da Assumpo, ao padre Silverio e a
Natario: e ia descer, entre os prantos da mulher, quando sentiu na
escada um ruido conhecido de muleta, e o tio Esguelhas appareceu muito
commovido.

--Entre, tio Esguelhas, entre.

O sineiro cerrou a porta, e depois de hesitar um momento:

--Vossa senhoria ha de desculpar, mas... Tinha-me esquecido de todo, com
os desgostos que tenho passado. J ha tempo que achei no quarto isto, e
pensei que...

E metteu na mo de Amaro um brinco d'ouro. Elle reconheceu-o logo: era
d'Amelia. Muito tempo ella o procurra debalde; soltra-se decerto
n'alguma manh d'amor, sobre a enxerga do sineiro. Amaro ento,
suffocado, abraou o tio Esguelhas.

--Adeus! Adeus, Escolastica. Lembrem-se por c de mim. D lembranas ao
Mathias, tio Esguelhas...

O moo afivelou a maleta ao sellim, e Amaro partiu, deixando a
Escolastica e o tio Esguelhas, a chorar ambos  porta.

Mas depois de ter passado os audes, ao p d'uma volta da estrada, teve
de apear para compr o estribo: e ia montar, quando appareceram dobrando
o muro o doutor Godinho, o secretario geral e o senhor administrador do
concelho, muito amigos agora, e que vinham, depois do passeio,
recolhendo para a cidade. Pararam logo a fallar ao senhor
parocho--admirando-se de o vr alli, de maleta na garupa, com ares de
jornada...

-- verdade, disse, vou para Lisboa!

O antigo Bibi e o administrador suspiraram invejando-lhe a
felicidade.--Mas quando o parocho fallou da irm moribunda,
affligiram-se com polidez; e o senhor administrador disse:

--Deve estar muito sentido, comprehendo... De mais a mais essa outra
desgraa na casa d'aquellas senhoras suas amigas... A pobre Ameliasinha,
morta assim de repente...

O antigo Bibi exclamou:

--O qu? A Ameliasinha, aquella bonita que morava na rua da
Misericordia? Morreu?

O doutor Godinho tambem o ignorava, e pareceu consternado.

O senhor administrador soubera-o pela sua criada, que o ouvira da
Dionysia. Dizia-se que fra um aneurisma.

--Pois senhor parocho, exclamou Bibi, desculpe se afflijo as suas
crenas respeitaveis, que so as minhas de resto... Mas Deus commetteu
um verdadeiro crime... Levar-nos a rapariga mais bonita da cidade! Que
olhos, senhores! E depois com aquelle picantesinho da virtude...

Ento, n'um tom de pezames, todos lamentaram aquelle golpe que devia ter
affectado tanto o senhor parocho.

Elle disse muito grave:

--Senti-o deveras... Conhecia-a bem... E com as suas boas qualidades,
devia fazer, sem duvida, uma esposa modlo... Senti-o muito.

Apertou silenciosamente as mos em redor--e emquanto os cavalheiros
recolhiam  cidade, o padre Amaro foi trotando pela estrada, que j
escurecia, para a estao de Cho de Mas.


Ao outro dia, pelas onze horas, o enterro d'Amelia sahiu da Ricoa. Era
uma manh aspera: o co e os campos estavam afogados n'uma nevoa
pardacenta; e cahia, muito miuda, uma chuva regelada. Era longe da
quinta a capella dos Poyaes. O menino do cro adiante, de cruz alada,
apressava-se, chapinhando a lama a grandes pernadas; o abbade Ferro,
d'estola negra, abrigava-se, murmurando o _Exultabunt Domino_, sob o
guardachuva que sustentava ao lado o sacristo com o hyssope; quatro
trabalhadores da quinta, abaixando a cabea contra a chuva obliqua,
levavam n'uma padiola o esquife que tinha dentro o caixo de chumbo; e,
sob o vasto guardachuva do caseiro, a Gertrudes de manto pela cabea ia
desfiando as suas contas. Ao lado do caminho o valle triste dos Poyaes
cavava-se, todo pardo na neblina, n'um grande silencio; e a voz enorme
do vigario, mugindo o _Miserere_, rolava pela quebrada humida onde
murmuravam os riachos muito cheios.

Mas s primeiras casas da aldeia os moos do caixo pararam derreados; e
ento um homem, que estava esperando debaixo d'uma arvore sob o seu
guardachuva, veio juntar-se silenciosamente ao enterro. Era Joo
Eduardo, de luvas pretas, carregado de luto, com as olheiras cavadas em
dois sulcos negros, grossas lagrimas a correrem-lhe nas faces. E
immediatamente, por traz d'elle, vieram collocar-se dois criados de
farda, com as calas muito arregaadas e tochas na mo--dois lacaios que
mandra o Morgado, para honrar o enterro d'uma d'essas senhoras da
Ricoa, amigas do abbade.

Ento, vendo estas duas librs que vinham afidalgar o prestito, o menino
do cro rompeu logo, erguendo mais alto a cruz; os quatro homens, j sem
fadiga, impertigaram-se s varas da padiola: o sacristo bramiu um
_Requiem_ tremendo. E pelas lamas do ngreme caminho da aldeia foi
subindo o enterro, emquanto s portas as mulheres se ficavam
persignando, olhando as sobrepellizes brancas e o caixo de gales
d'ouro, que se iam afastando seguidos do grupo de guardachuvas abertos,
sob a chuva triste.

A capella era no alto, n'um adro de carvalheiras: o sino dobrava: e o
enterro sumiu-se para o interior da igreja escura, ao canto do
_Subvenite sancti_ que o sacristo entoou em ronco.--Mas os dois criados
de farda no entraram porque o senhor Morgado assim o tinha ordenado.

Ficaram  porta, sob o guardachuva, escutando, batendo os ps regelados.
Dentro seguia o cantocho; depois era um ciciar d'oraes que se
amortecia: e de repente latins funebres lanados pela voz grossa do
vigario.

Ento os dois homens, enfastiados, desceram do adro, entraram um momento
na taberna do tio Seraphim. Dois moos de gado da quinta do Morgado, que
bebiam em silencio o seu quartilho, ergueram-se logo vendo apparecer os
dois criados de farda.

-- vontade, rapazes,  sentar e beber, disse o velho baixito que
acompanhava Joo Eduardo a cavallo. Ns l estamos, na massada do
enterro... Boas tardes, snr. Seraphim.

Apertaram a mo ao Seraphim, que lhes mediu duas aguardentes--e
informou-se se a defunta era a noiva do snr. Joosinho. Tinham-lhe dito
que morrera d'uma veia rebentada.

O baixito riu:

--Qual veia rebentada! No lhe rebentou coisa nenhuma. O que lhe
rebentou foi um rapago pelo ventre...

--Obra do snr. Joosinho? perguntou o Seraphim, arregalando o olho
brjeiro.

--No me parece, disse o outro com importancia. O snr. Joosinho estava
em Lisboa... Obra d'algum cavalheiro da cidade... Sabe vossemec de quem
eu desconfio, snr. Seraphim?...

Mas a Gertrudes, esbaforida, rompeu pela taberna gritando que o
sahimento j ia ao p do cemiterio, e que no faltavam seno aquelles
senhores! Os lacaios abalaram logo, e alcanaram o enterro quando ia
passando a pequena grade do cemiterio, ao ultimo versiculo do
_Miserere_. Joo Eduardo agora levava uma vela na mo, ia logo atraz do
caixo d'Amelia, tocando-o quasi, com os olhos ennevoados de lagrimas
fitos no velludilho negro que o cobria. Sem cessar o sino na capella
dobrava desoladamente. A chuva cahia mais miuda. E todos calados, no
silencio fusco do cemiterio, com passos abafados pela terra molle,
iam-se dirigindo para o canto do muro onde estava cavada de fresco a
cova d'Amelia, negra e profunda entre a relva humida. O menino do cro
cravou no cho a haste da cruz prateada, e o abbade Ferro,
adiantando-se at  beira do buraco escuro, murmurou o _Deus cujus
miseratione_... Ento Joo Eduardo, muito pallido, vacillou de repente,
e o guardachuva cahiu-lhe das mos; um dos criados de farda correu,
segurou-o pela cinta; queriam-no levar, arrancal-o d'ao p da cova; mas
elle resistiu, e alli ficou, com os dentes cerrados, segurando-se
desesperadamente  manga do criado, vendo o coveiro e os dois moos
amarrarem as cordas no caixo, fazerem-no resvalar devagar entre a terra
esfarellada que rolava, com um ranger de taboas mal pregadas.

--_Requiem aeternam donna ei, Domine!_

--_Et lux perpetua luceat ei_, mugiu o sacristo.

O caixo bateu no fundo com uma pancada surda: o abbade espalhou em cima
uma pouca de terra em frma de cruz: e sacudindo lentamente o hyssope
sobre o velludilho, a terra, a relva em redor:

--_Requiescat in pace_.

--_Amen_, responderam a voz cava do sacristo e a voz aguda do menino do
cro.

--_Amen_, disseram todos n'um murmurio, que ciciou, se perdeu entre os
cyprestes, as hervas, os tumulos e as nevoas frias d'aquelle triste dia
de dezembro.




XXVI


Nos fins de maio de 1871 havia grande alvoroo na Casa Havaneza, ao
Chiado, em Lisboa. Pessoas esbaforidas chegavam, rompiam pelos grupos
que atulhavam a porta, e alando-se em bicos de ps esticavam o pescoo,
por entre a massa dos chapeus, para a grade do balco, onde n'uma
taboleta suspensa se collavam os telegrammas da _Agencia Havas_;
sujeitos de faces espantadas sahiam consternados, exclamando logo para
algum amigo mais pacato que os esperra fra:

--Tudo perdido! Tudo a arder!

Dentro, na multido de grulhas que se apertava contra o balco,
questionava-se forte; e pelo passeio, no largo do Loreto, defronte ao p
do estanco, pelo Chiado at ao Magalhes, era, por aquelle dia j quente
do comeo de vero, toda uma gralhada de vozes impressionadas onde as
palavras--_Communistas! Versailles! Petroleiros! Thiers! Crime!
Internacional!_ voltavam a cada momento, lanadas com furor, entre o
ruido das tipoias e os preges dos garotos gritando _supplementos_.

Com effeito, a cada hora, chegavam telegrammas annunciando os episodios
successivos da insurreio batalhando nas ruas de Paris: telegrammas
despedidos de Versailles n'um terror dizendo os palacios que ardiam, as
ruas que se aluiam; fuzilamentos em massa nos pateos dos quarteis e
entre os mausoleus dos cemiterios; a vingana que ia saciar-se at 
escurido dos esgotos; a fatal demencia que desvairava as fardas e as
blusas; e a resistencia que tinha o furor de uma agonia com os methodos
d'uma sciencia, e fazia saltar uma velha sociedade pelo petroleo, pela
dynamite e pelo nitro-glycerina! Uma convulso, um fim de mundo--que
vinte, trinta palavras de repente mostravam, n'um relance, a um claro
de fogueira.

O Chiado lamentava com indignao aquella ruina de Paris. Recordavam-se
com exclamaes os edificios ardidos, o Hotel de Ville, to bonito, a
rua Royale, aquella riqueza. Havia individuos to furiosos com o
incendio das Tulherias como se fosse uma propriedade sua: os que tinham
estado em Paris um ou dois mezes abriam-se em invectivas, arrogando-se
uma participao de parisiense na riqueza da cidade, escandalisados por
a insurreio no ter respeitado monumentos em que elles tinham posto os
seus olhos.

--Vejam vosss! exclamava um sujeito gordo. O palacio da Legio d'Honra
destruido! Ainda no ha um mez que eu l estive com minha mulher... Que
infamia! Que patifaria!

Mas espalhra-se que o ministerio recebera outro telegramma mais
desolador: toda a linha do _boulevard_ da Bastilha  Magdalena ardia, e
ainda a praa da Concordia, e as avenidas dos Campos-Elyseos at ao Arco
do Triumpho. E assim tinha a revolta arrazado, n'uma demencia, todo
aquelle systema de restaurantes, cafs-concertos, bailes publicos, casas
de jogo e ninhos de prostitutas! Ento houve por todo o largo do Loreto
at ao Magalhes um estremecimento de furor. Tinham pois as chammas
aniquilado aquella centralisao to commoda da patuscada! Oh que
infamia! O mundo acabava! Onde se comeria melhor que em Paris? Onde se
encontrariam mulheres mais experientes? Onde se tornaria a vr aquelle
desfilar prodigioso d'uma volta de Bois, nos dias asperos e seccos
d'inverno, quando as victorias das cocottes resplandeciam ao p dos
phaetons dos agentes da Bolsa? Que abominao! Esqueciam-se as
bibliothecas e os museus: mas a saudade era sincera pela destruio dos
cafs e pelo incendio dos lupanares. Era o fim de Paris, era o fim da
Frana!

N'um grupo ao p da Casa Havaneza os questionadores politicavam:
pronunciava-se o nome de Proudhon que, por esse tempo, se comeava a
citar vagamente em Lisboa como um monstro sanguinolento; e as invectivas
rompiam contra Proudhon. A maior parte imaginava que era elle que tinha
incendiado. Mas o poeta estimado das _Flres e Ais_ acudiu dizendo que,
 parte as asneiras que Proudhon dizia, era ainda assim um estylista
bastante ameno. Ento o jogador Frana berrou:

--Qual estylo, qual cabaa! Se aqui o pilhasse no Chiado rachava-lhe os
ossos!

E rachava. Depois do cognac o Frana era uma fera.

Alguns moos porm, a quem o elemento dramatico da catastrophe revolvia
o instincto romantico, applaudiam a heroicidade da Communa--Vermorel
abrindo os braos como o Crucificado, e sob as balas que o trespassavam
gritando: Viva a humanidade! O velho Delecluze, com um fanatismo de
santo, dictando do seu leito d'agonia as violencias da resistencia...

--So grandes homens! exclamava um rapaz exaltado.

Em redor as pessoas graves rugiam. Outras afastavam-se pallidas, vendo
j as suas casas na Baixa a escorrer de petroleo e a mesma Casa Havaneza
presa de chammas socialistas. Ento era em todos os grupos um furor
d'auctoridade e represso: era necessario que a sociedade, atacada pela
Internacional, se refugiasse na fora dos seus principios conservadores
e religiosos, cercando-os bem de baionetas! Burguezes com tendas de
capellistas fallavam da canalha com o desdem imponente d'um La
Tremouille ou d'um Ossuna. Sujeitos, palitando os dentes, decretavam a
vingana. Vadios pareciam furiosos contra o operario que quer viver
como principe. Fallava-se com devoo na propriedade, no capital!

D'outro lado eram moos verbosos, localistas excitados que declamavam
contra o velho mundo, a velha ida, ameaando-os d'alto, propondo-se a
derruil-os em artigos tremendos.

E assim uma burguezia entorpecida esperava deter, com alguns policias,
uma evoluo social: e uma mocidade, envernizada de litteratura, decidia
destruir n'um folhetim uma sociedade de dezoito seculos. Mas ninguem se
mostrava mais exaltado que um guarda-livros de hotel, que do alto do
degrau da Casa Havaneza brandia a bengala, aconselhando  Frana a
restaurao dos Bourbons.

Ento um homem vestido de preto, que sahira do estanco e atravessava por
entre os grupos, parou, sentindo uma voz espantada que exclamava ao
lado:

-- padre Amaro!  magano!

Voltou-se: era o conego Dias. Abraaram-se com vehemencia, e para
conversarem mais tranquillamente foram andando at ao largo de Cames, e
alli pararam, junto  estatua:

--Ento voss quando chegou, padre-mestre?

Tinha chegado na vespera. Trazia uma demanda com os Pimentas da Pojeira
por causa d'uma servido na quinta, tinha appellado para a Relao, e
vinha seguir de perto a questo na capital.

--E voss, Amaro? Na ultima carta dizia-me que tinha vontade de sahir de
Santo Thyrso.

Era verdade. A parochia tinha vantagens; mas vagra Villa-Franca, e
elle, para estar mais perto da capital, viera fallar com o senhor conde
de Ribamar, o seu conde, que l andava obtendo a transferencia.
Devia-lhe tudo, sobretudo  senhora condessa!

--E de Leiria? A S. Joanneira, vai melhor?

--No, coitada... Voss sabe, ao principio tivemos um susto dos
diabos... Pensavamos que lhe ia succeder como  Amelia. Mas no, era
hydropesia... E alli o que ha  anasarca...

--Coitada, santa senhora! E o Natario?

--Avelhado. Tem tido seus desgostos. Muita lingua.

--E diga l, padre-mestre, o Libaninho?

--Eu escrevi-lhe a esse respeito, disse o conego rindo.

O padre Amaro riu tambem: e durante um momento os dois sacerdotes
pararam, apertando as ilhargas.

--Pois  verdade, disse emfim o conego. A coisa tinha sido realmente
escandalosa... Porque emfim, repare o amigo que o pilharam com o
sargento, de tal modo que no havia a duvidar... E s dez horas da
noite, na alameda! J  imprudencia... Mas emfim a coisa esqueceu, e
quando o Mathias morreu, l lhe demos o logar de sacristo, que  bem
boa posta... Muito melhor que o que elle tinha no cartorio... E ha de
cumprir com zelo!

--Ha de cumprir com zelo, concordou muito srio o padre Amaro. E a
proposito, a D. Maria da Assumpo?

--Homem, rosnam-se coisas... Criado novo... Um carpinteiro que morava
defronte... O rapaz anda no trinque.

--Palavra?

--No trinque. Charuto, relogio, luva! Tem pilheria, hein?

-- divino!

--As Gansosos na mesma, continuou o conego. Tm agora a sua criada, a
Escolastica.

--E da besta do Joo Eduardo?

--Eu mandei-lhe dizer, no? L est ainda nos Poyaes. O Morgado est mal
do figado. E o Joo Eduardo diz que est tisico... que eu no sei, nunca
mais o vi... Quem m'o disse foi o Ferro.

--Como vai elle, o Ferro?

--Bem. Sabe quem eu vi ha dias? A Dionysia.

--E ento?

O conego disse uma palavra baixo ao ouvido do padre Amaro.

--Deveras, padre-mestre?

--Na rua das Sousas, a dois passos da sua antiga casa. O D. Luiz da
Barrosa  que lhe deu o dinheiro para montar o estabelecimento. Pois
aqui esto as novidades. E voss est mais forte, homem! Fez-lhe bem a
mudana...

E pondo-se diante, galhofando:

-- Amaro, e voss a escrever-me que queria retirar-se para a serra, ir
para um convento, passar a vida em penitencia...

O padre Amaro encolheu os hombros:

--Que quer voss, padre-mestre?... N'aquelles primeiros momentos... Olhe
que me custou! Mas tudo passa...

--Tudo passa, disse o conego. E depois d'uma pausa:--Ah! Mas Leiria j
no  Leiria!

Passearam ento um momento em silencio, n'uma recordao que lhes vinha
do passado, os quinos divertidos da S. Joanneira, as palestras ao ch,
as passeatas ao Morenal, o _Adeus_ e o _Descrido_ cantados pelo Arthur
Couceiro e acompanhados pela pobre Amelia, que agora l dormia, no
cemiterio dos Poyaes, sob as flres silvestres...

--E que me diz voss a estas coisas de Frana, Amaro? exclamou de
repente o conego.

--Um horror, padre-mestre... O arcebispo, uma sucia de padres
fuzilados!... Que brincadeira!

--M brincadeira, rosnou o conego.

E o padre Amaro:

--E c pelo nosso canto parece que comeam tambem essas idas...

O conego assim o ouvira. Ento indignaram-se contra essa turba de
maons, de republicanos, de socialistas, gente que quer a destruio de
tudo o que  respeitavel--o clero, a instruco religiosa, a familia, o
exercito e a riqueza... Ah! a sociedade estava ameaada por monstros
desencadeados! Eram necessarias as antigas represses, a masmorra e a
forca. Sobretudo inspirar aos homens a f e o respeito pelo sacerdote.

--Ahi  que est o mal, disse Amaro,  que nos no respeitam! No fazem
seno desacreditar-nos... Destroem no povo a venerao pelo
sacerdocio...

--Calumniam-nos infamamente, disse n'um tom profundo o conego.

Ento junto d'elles passaram duas senhoras, uma j de cabellos brancos,
o ar muito nobre; a outra, uma creaturinha delgada e pallida, d'olheiras
batidas, os cotovlos agudos collados a uma cinta d'esterilidade,
_pouff_ enorme no vestido, cuia forte, taces de palmo.

--Caspit! disse o conego baixo, tocando o cotovlo do collega. Hein,
seu padre Amaro?... Aquillo  que voss queria confessar.

--J l vai o tempo, padre-mestre, disse o parocho rindo, j as no
confesso seno casadas!

O conego abandonou-se um momento a uma grande hilaridade; mas retomou o
seu ar ponderoso de padre obeso, vendo Amaro tirar profundamente o
chapo a um cavalheiro de bigode grisalho e oculos d'ouro, que entrava
na praa, do lado do Loreto, com o charuto cravado nos dentes e o
guardasol debaixo do brao.

Era o senhor conde de Ribamar. Adiantou-se com bonhomia para os dois
sacerdotes; e Amaro, descoberto e perfilado, apresentou o seu amigo, o
senhor conego Dias, da S de Leiria. Conversaram um momento da estao,
que j ia quente. Depois o padre Amaro fallou dos ultimos telegrammas.

--Que diz vossa excellencia a estas coisas de Frana, senhor conde?

O estadista agitou as mos, n'uma desolao que lhe assombreava a face:

--Nem me falle n'isso, senhor padre Amaro, nem me falle n'isso... Vr
meia duzia de bandidos destruir Paris... O meu Paris!... Creiam vossas
senhorias que tenho estado doente.

Os dois sacerdotes, com uma expresso consternada, uniram-se  dr do
estadista.

E ento o conego:

--E qual pensa vossa excellencia que ser o resultado?

O senhor conde de Ribamar, com pausa, em palavras que sabiam devagar,
sobrecarregadas do peso das idas, disse:

--O resultado?... No  difficil prevel-o. Quando se tem alguma
experiencia da Historia e da Politica, o resultado de tudo isto v-se
distinctamente. To distinctamente como os vejo a vossas senhorias.

Os dois sacerdotes pendiam dos labios propheticos do homem de governo.

--Suffocada a insurreio--continuou o senhor conde olhando a direito
diante de si com o dedo no ar, como seguindo, apontando os futuros
historicos que a sua pupilla, ajudada pelos oculos d'ouro,
penetrava--suffocada a insurreio, dentro de tres mezes temos de novo o
imperio... Se vossas senhorias tivessem visto como eu uma recepo nas
Tulherias ou no Hotel de Ville, nos tempos do imperio, haviam de dizer,
como eu, que a Frana  profundamente imperialista e s imperialista...
Temos pois Napoleo III: ou talvez elle abdique, e a imperatriz tome a
regencia na menoridade do principe imperial... Eu aconselharia antes, e
j o fiz saber, que era esta talvez a soluo mais prudente. Como
consequencia immediata temos o Papa em Roma outra vez senhor do poder
temporal... Eu, a fallar a verdade, e j o fiz saber, no approvo uma
restaurao papal. Mas eu no lhes estou aqui a dizer o que approvo, ou
o que reprovo. Felizmente no sou o dono da Europa... Seria um encargo
superior  minha idade e s minhas enfermidades. Estou a dizer o que a
minha experiencia da Politica e da Historia me aponta como certo...
Dizia eu...? Ah! a imperatriz no throno de Frana, Pio Nono no throno de
Roma, ahi temos a democracia esmagada entre estas duas foras sublimes,
e creiam vossas senhorias um homem que conhece a sua Europa e os
elementos de que se compe a sociedade moderna, creiam que depois d'este
exemplo da Communa no se torna a ouvir fallar de republica, nem de
questo social, nem de povo, n'estes cem annos mais chegados!...

--Deus Nosso Senhor o oua, senhor conde, fez com uno o conego.

Mas Amaro, radiante de se achar alli, n'uma praa de Lisboa, em
conversao intima com um estadista illustre, perguntou ainda, pondo nas
palavras uma anciedade de conservador assustado:

--E cr vossa excellencia que essas idas de republica, de materialismo,
se possam espalhar entre ns?

O conde riu: e dizia, caminhando entre os dois padres, at quasi junto
das grades que cercam a estatua de Luiz de Cames:

--No lhes d isso cuidado, meus senhores, no lhes d isso cuidado! 
possivel que haja ahi um ou dois esturrados que se queixem, digam
tolices sobre a decadencia de Portugal, e que estamos n'um marasmo, e
que vamos cahindo no embrutecimento, e que isto assim no pde durar dez
annos. etc. etc. Babuseiras!...

Tinha-se encostado quasi s grades da estatua, e tomando uma attitude de
confiana:

--A verdade, meus senhores,  que os estrangeiros invejam-nos... E o que
vou a dizer no  para lisonjear a vossas senhorias: mas emquanto n'este
paiz houver sacerdotes respeitaveis como vossas senhorias, Portugal ha
de manter com dignidade o seu logar na Europa! Porque a f, meus
senhores,  a base da ordem!

--Sem duvida, senhor conde, sem duvida, disseram com fora os dois
sacerdotes.

--Seno, vejam vossas senhorias isto! Que paz, que animao, que
prosperidade!

E com um grande gesto mostrava-lhes o largo do Loreto, que quella hora,
n'um fim de tarde serena concentrava a vida da cidade. Tipoias vazias
rodavam devagar; pares de senhoras passavam, de cuia cheia e taco alto,
com os movimentos derreados, a pallidez chlorotica d'uma degenerao de
raa; n'alguma magra pileca, ia trotando algum moo de nome historico,
com a face ainda esverdeada da noitada de vinho; pelos bancos da praa
gente estirava-se n'um torpr de vadiagem; um carro de bois, aos
solavancos sobre as suas altas rodas, era como o symbolo de agriculturas
atrazadas de seculos; fadistas gingavam, de cigarro nos dentes; algum
burguez enfastiado lia nos cartazes o annuncio d'operetas obsoletas; nas
faces enfezadas de operarios havia como a personificao das industrias
moribundas... E todo este mundo decrepito se movia lentamente, sob um
co lustroso de clima rico, entre garotos apregoando a loteria e a
batota publica, e rapazitos de voz plangente offerecendo o _Jornal das
pequenas novidades_: e iam, n'um vagar madrao, entre o largo onde se
erguiam duas fachadas tristes de igreja, e o renque comprido das
casarias da praa onde brilhavam tres taboletas de casas de penhores,
negrejavam quatro entradas de taberna, e desembocavam, com um tom sujo
d'esgoto aberto, as viellas de todo um bairro de prostituio e de
crime.

--Vejam, ia dizendo o conde: vejam toda esta paz, esta prosperidade,
este contentamento... Meus senhores, no admira realmente que sejamos a
inveja da Europa!

E o homem d'estado, os dois homens de religio, todos tres em linha,
junto s grades do monumento, gozavam de cabea alta esta certeza
gloriosa da grandeza do seu paiz,--alli ao p d'aquelle pedestal, sob o
frio olhar de bronze do velho poeta, erecto e nobre, com os seus largos
hombros de cavalleiro forte, a epopeia sobre o corao, a espada firme,
cercado dos chronistas e dos poetas heroicos da antiga patria--patria
para sempre passada, memoria quasi perdida!

Outubro 1878--Outubro 1879.




Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+---------------------+----------------------+
  |          |      Original       |      Correco       |
  +----------+---------------------+----------------------+
  |#pg.   81| ?uz                 | luz                  |
  |#pg.   88| arcepispo           | arcebispo            |
  |#pg.   95| branos             | braos               |
  |#pg.  152| elle                | ella                 |
  |#pg.  344| demolissse          | demolisse            |
  |#pg.  357| religo             | religio             |
  |#pg.  357| Infelimente         | Infelizmente         |
  |#pg.  357| podia ter ter       | podia ter            |
  |#pg.  360| tataruga            | tartaruga            |
  |#pg.  372| patite              | patife               |
  |#pg.  396| exemplicar          | exemplificar         |
  |#pg.  397| cebea              | cabea               |
  |#pg.  425| installado-se       | installando-se       |
  |#pg.  428| encondo             | encontrado           |
  |#pg.  430| iria em em          | iria em              |
  |#pg.  436| enconder            | esconder             |
  |#pg.  460| atravessassse       | atravessasse         |
  |#pg.  463| malacia             | malicia              |
  |#pg.  478| grades              | grandes              |
  |#pg.  489| necesario           | necessario           |
  |#pg.  489| viessa              | viesse               |
  |#pg.  492| entercimento        | enternecimento       |
  |#pg.  558| appareeeu           | appareceu            |
  |#pg.  634| cruxifico           | crucifixo            |
  +----------+---------------------+----------------------+


O original no tem captulo XI, no entanto, a numerao das pginas no
apresenta quebra na narrao. Optmos por no corrigir a numerao dos
captulos.





End of the Project Gutenberg EBook of O crime do padre Amaro, by 
Jos Maria Ea de Queirs

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CRIME DO PADRE AMARO ***

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*** START: FULL LICENSE ***

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Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
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The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
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Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
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works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


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